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♪
♪
♪
♪
♪
♪
-[sapos coaxando] -[pássaros cantando]
-[sapos coaxando] -[pássaros cantando]
[música inicia] ♪
♪
[Castanha] Meu nome é Castanha, eu sou um macaco-prego.
Moro aqui.
Não, não na floresta, nessa cidade.
Ela se chama Rio de Janeiro.
♪
Desde que eu me conheço por macaco, vivo aqui,
sou um macaco civilizado, tá pensando o quê?
Em vez de pular de galho em galho, pulo de cadeira em cadeira
e adoro ver TV.
Essa aí é a Rita
e esse aí sou eu.
Ela que cuida de mim,
mas acho que a gente nunca mais vai se ver.
É que o pai da Rita me vendeu para um circo
e eu estou indo pra bem longe.
A Rita disse que vem me visitar no circo.
Espero que ela venha todo dia.
Senão,
não sei se eu aguento.
♪
♪
Acho que a saudade já começou.
Eu tinha esquecido que saudade dói.
Nunca tinha andado de avião,
eu sou um macaco bem valente,
já botei o gato do terceiro andar e o poodle da vizinha pra correr.
Olha só esse monte de nuvens
e aquele tapete verde?
Nunca vi um tapete tão grande, eu só não sei o nome desse lugar.
♪
♪
O tapete verde da floresta não é assim um tapete todo certinho, todo igual.
Tem umas coisas muito diferentes e esquisitas.
♪
Olha esse rio que gigante!
Parece até o mar.
Tem até ilhas no meio dele.
♪
Coitado desses morros, enormes, tão sozinhos no meio da mata,
sem outro morro pra brincar.
♪ [música finaliza]
[Castanha] Esses aí tão juntos. Devem ser da mesma família.
Família.
Nunca tive uma família de verdade.
Só a Rita.
Pode ser que no circo eu conheça outros macacos,
aí a gente vai poder ver documentário, desenho na TV,
comendo pipoca, todos os macacos juntos.
Vai ser legal pra caramba.
[trovões]
[trovões]
[música de tensão] ♪
Alguém está arrastando a cama no andar de cima.
♪
♪
[Castanha] Ai!
[trovões]
[Castanha] Ai, socorro!
♪
[Castanha guincha]
[piloto] Controle Amazonas. Mayday, Mayday, Mayday!
[Castanha] Ai!
♪
♪
[piloto] Mayday, Mayday, pane de motor.
Pane de motor. Mayday.
[pelo rádio] Confirmo informações, falha na comunicação.
[alarmes apitando]
[Castanha] Socorro! Socorro!
[gritos]
[guincha]
Caramba!
O avião caiu!
O que eu faço agora?
Nada, não é?
É só esperar.
[pássaros cantando]
[pássaros cantando]
[pássaros cantando]
[Castanha] Que bicho é esse?
Cachorro não é.
Parece um gato com focinho espichado.
Acho que não é gato.
♪
O que esses caras querem?
Tô ficando com medo.
Vem cá, Ming-ming, me abraça forte.
Será que esses caras são devoradores de macacos?
[objetos caindo no chão]
Não estou gostando nada disso.
[Castanha guincha]
♪
Vai querer me comer, com certeza.
Ai.
Eu tô torcendo pra ele não abrir a fechadura.
Mas o cara parece bom nisso, caramba!
É um especialista.
Adeus, mundo cruel!
[objetos caindo no chão]
♪
[suspiro]
Que sorte!
Os caras são mais medrosos que eu.
♪
♪
[zumbido de mosquitos]
Malditos mosquitos.
No Rio tem alguns, mas assim é demais.
Tô parecendo o King Kong, sendo atacado por aviões.
Eles são muitos.
Só tem um jeito:
sair daqui.
Só uma voltinha pra conhecer o bairro.
♪
♪
Além de sede, agora bateu uma fome.
Será que tem um pé de bombom por aqui?
Olha essas árvores!
Do tamanho de um prédio!
♪
♪
E essas formigas vermelhas.
Elas fazem esse tronco parecer uma avenida com muito trânsito,
daquelas bem congestionadas mesmo.
♪
♪
[guincha]
Já esse bicho, parece uma folha.
Tentei até puxar conversa,
mas parece que ele não fala macaquês.
♪
♪
Olha essas frutas amarelas.
Será que são venenosas?
Será que já foram lavadas?
Ué.
É uma chuva de fruta.
-Ah, já entendi. -[tucanos chalrando]
[tucanos chalrando]
Bom, se essas coisas amarelas não fazem mal para eles,
não vão fazer mal pra mim.
-[tucanos chalram] -[Castanha suspira]
[Castanha] Que delícia!
Ai, a fome deixa tudo gostoso.
-[Castanha guincha] -[tucano chalra]
[Castanha] Pode mandar mais, galera.
Manda mais que está bom.
Na floresta tem vários bichos assustadores.
Esse aí é de deixar a orelha em pé.
♪
Esse parece um tanque de guerra.
♪
♪
E esse mexe as antenas de um jeito terrível.
Me dá até arrepio.
♪
E esse?
Tem quarenta pernas.
Se tivesse que comprar sapato, ia custar uma fortuna.
♪
♪
Olha outro esquisitão, parece um mini rinoceronte.
E ele voa. Uau!
Que planeta é esse?
♪
Opa.
Esse aí eu conheço de algum lugar.
Já sei,
é o símbolo do Homem-Aranha.
♪
Deve ser um bicho muito legal.
♪
♪
Quer me picar? Sai fora.
[Castanha guincha]
[trovões]
O que foi esse barulho?
Foi meu estômago ou um trovão?
[trovões]
Ah, vem um dilúvio por aí.
E eu não tenho uma arca de Noé.
[trovões]
Mas tenho o avião.
[trovões ao fundo]
O jeito é voltar para minha gaiola, doce gaiola.
E para o meu único amigo:
o Ming-ming.
Aqui está quentinho, não é, Ming?
Vamos tentar dormir agora?
Me abraça.
[Castanha boceja]
[Castanha] Mais um dia aqui nesse fim de mundo.
Bom, hoje eu tenho que fazer alguma coisa.
Afinal, eu sou um macaco ou um rato?
Sou macaco!
Meus antepassados vêm da floresta.
Tenho que deixar de ser covarde e andar pela floresta.
[música de tensão] ♪
♪
[Castanha] Poxa,
até que esse lugar é bonito, viu?
♪
Bem bonito.
Essas luzes
parecem até efeito especial de filme 3D.
♪
♪
Uau!
A floresta é um lugar estranho.
Ao mesmo tempo ela é clara
e é escura.
É verde
e de repente fica colorida,
é quente
e molhada.
Ao mesmo tempo,
ela é linda
e dá medo.
♪
♪
Olha só o tamanho dessa cobra.
Mas não tenho medo.
Um dia eu vi com a Rita um programa na televisão sobre essa cobra aí.
Ela não é venenosa.
[cobra sibila]
[Castanha] Mas ela aperta suas vítimas até matar.
[guincha]
[música de tensão inicia] ♪
♪
Ela dormiu.
♪
♪
♪ [música de tensão finaliza]
[cobra sibila]
Na língua das cobras, acho que ela estava dizendo:
[com voz caricata] "Deixa eu te dar um abraço."
"Só um abracinho."
[cobra sibila]
[Castanha] Ela fugiu.
Percebeu que não ia me enrolar.
[grito de espanto]
Esse aqui eu nunca tinha visto.
[rindo] Parece uma pedra que anda.
Mas não é de muita conversa.
[música animada] ♪
Olha só.
Aquelas frutinhas deliciosas de ontem.
Que sorte!
Mas eu não posso entrar no rio.
Vai saber os bichos que tem lá.
♪
♪
♪
Tive uma ideia.
É só eu me pendurar aqui
e aí pega as frutinhas quando elas passarem.
[música de tensão] ♪
[Castanha] Eu não sou um gênio?
♪
[grita]
Não, não sou.
♪
[Castanha guincha com medo]
Acho que eu vou morrer afogado.
Ming!
Ming!
Adeus!
Acho que eu estou vendo um barco.
♪
Pode ser só um tronco,
mas pra mim é como se fosse o barco Pérola Negra
e eu um Pirata do Caribe,
Johny Castanha.
Eu sou o rei das águas, o pirata mais veloz dos mares
e dos rios também.
♪
Opa. Mas o que é isso?
Parece que o Pérola Negra vai afundar.
♪
[grita]
♪
[Castanha] Morri?
Estou no céu dos macacos?
Não.
Não morri.
E ainda arranjei um barco melhor?
Aquele Pérola Negra era para piratas amadores.
Agora o rio ficou mais calmo.
Ufa!
Será que vai dar no Rio de Janeiro?
[música lenta] ♪
Será que vai me levar até a Rita?
♪
♪
Engraçado.
Às vezes, eu acho que tem um monte de gente escondida me espiando.
♪
E eu estava certo,
muito certo.
As árvores da floresta são que nem os prédios,
cheias de olhos olhando a gente.
[cobra sibila]
♪
♪
[Castanha] Macacos!
Que maravilha.
Será que eles falam macaquês?
Ei, tudo bem?
Meu nome é Castanha.
[macaco] Cai fora, moleque.
[macaco 2] Você não é dos nossos.
[macaco 3] Quer virar comida de Urubu-rei, é?
[macaco 4] Você quer?
-[Castanha] Mas quem é o Urubu-rei? -[Urubu-rei corveja]
[Castanha] Ah, é você.
♪
♪
Que medo!
♪
♪
[Castanha] Esse rio não acaba nunca.
♪
Já devo estar bem perto do rio,
Rio de Janeiro.
[pássaro cantando]
[Castanha] E da Rita.
Ai,
ela me apertava tanto e fazia coceguinha.
♪
Fazia um cafunezinho na minha cabeça até eu dormir.
[sapos e rãs coaxando]
À noite, a floresta parece outro lugar.
[sapo e rã coaxando]
Aparecem outros bichos,
todos de olhos bem grandes,
enormes mesmo.
[sapos e rãs coaxando]
[Castanha] Ih.
Esses olhos não param de me olhar.
Não tô gostando.
Ah, não.
Não.
Meu barco não pode encalhar.
Não pode.
Encalhou.
O pior é que não tem como dar uma empurradinha.
Que droga!
O rio passa
e eu fico.
A única coisa que eu posso fazer é esperar o sol nascer
e acabar com essa escuridão toda.
[animal feroz urrando ao fundo]
[Castanha gritando] O que é isso?
Meu santo protetor dos macacos, valei-me!
Seja lá o que isso for.
Não deixa que me coma.
[pássaros cantam ao fundo]
[Castanha] O sol nasceu e eu continuo aqui,
encalhado.
Mas isso não é o pior.
O pior é isso:
jacarés!
Não é bom ter jacarés por perto quando você está encalhado.
Eu só fico imaginando quando eles vão me atacar.
Quanto dente numa pessoa!
Que exagero!
O que será que é isso?
Ah.
É um macaco!
Ei, você pode me ajudar a sair dessa?
[macaco 5] Não tem saída, cara.
[jacaré brame]
[Castanha] O que eu faço se eles me atacarem?
[macaco 5] Tampa o nariz. Eles nunca escovam o dente.
O hálito deles é péssimo.
[música de tensão] ♪
[macaco 5] Tchau.
♪
[Castanha] Ufa! Milagre!
[macaco 5] Milagre nada. Eles gostam mais de peixe.
Eu só queria te dar um susto.
Prefiro perder o amigo do que a piada.
[risada sarcástica de Castanha]
[Castanha] Depois daquela piada totalmente nada a ver,
sem a menor graça,
o que podia ainda ser pior?
Chuva.
Caramba. Chove todo dia na floresta.
E lá na cidade, a gente ficando sem água.
♪
Que injustiça.
♪
Essa chuva me deixou gelado.
♪
Mas em compensação, o barco desencalhou.
♪
♪
Todo mundo diz que viajar é bom
e acho que é mesmo.
Mas quando a gente sabe para onde está indo.
♪
[gritando] Terra firme!
Agora eu entendo a alegria do Cabral quando descobriu o Brasil.
[Castanha] Na cidade, só tem gente, gente, gente.
Mas aqui, todo dia eu conheço novos animais.
Tem uns muito, muito pequenininhos.
Tem uns meio nojentos.
E tem uns muito pequenininhos
e muito nojentos.
♪
♪
Se bem que até os nojentos são bonitos se a gente olhar direito.
♪
♪
Em poucos dias,
posso dizer que aprendi muito na floresta.
Aprendi que é muito importante aprender a se camuflar.
Uns pulam bem rápido
e outros vão bem devagar,
parecendo um floquinho de algodão.
♪
[arara chalra]
♪
[Castanha] Caramba!
Olha o tamanho disso.
É uma anta.
Vi em um documentário.
Na TV, não era tão grande.
É melhor observar esse bicho de longe.
A gente chama as pessoas cabeça dura de anta,
porque a anta vai abrindo caminhos em linha reta pela floresta,
derrubando tudo com a cabeça.
Cabeça dura, sacou?
[anta rosna]
[anta rosna]
[anta rosna]
Se uma anta rosnar pra você,
o jeito é rosnar de volta que ela vai embora.
[Castanha guincha]
Ver aquela anta comendo me deixou com fome.
Acho que eu estou com sorte.
Olha essa árvore cheia de frutas.
O azar é que o caminho até elas é bem espinhoso.
[grita de dor]
Sorte de macaco dura pouco.
[guincha]
Será que vale a pena mesmo?
Claro que vale.
Ah, eu vou desistir.
Aposto que essas frutas nem estão muito boas mesmo.
Devem estar verdes.
Opa.
O que é isso?
O cheiro deles é ótimo, e o gosto?
Hum.
Uma delícia.
O estranho é que não tem nenhum bicho comendo esse negócio.
Ah, tudo bem. Sobra mais pra mim.
Ih, parece que vai chover.
Acho melhor eu procurar um abrigo.
[trovões]
Não consigo parar de comer esse negócio.
[pássaros cantando ao fundo]
Tô ficando meio estranho.
[guincha]
[música de tensão] ♪
[geme]
♪
Acho que aqueles cogumelos eram venenosos.
♪
♪
[música lenta] ♪
♪
[pássaros cantando]
♪
♪
♪
♪
[guincha]
♪
♪
♪
[passos de animais ao fundo]
[Castanha] Caramba.
Quem é esse cara?
Vou usar a tática número um:
sair correndo!
[javali rosna]
Será que já despistei aquele predador horrendo?
Será que ele queria me comer?
Ou só ficou bravo porque eu passei a noite na casa dele sem pedir?
♪
♪
Poxa.
É incrível.
Olha só essa árvore.
Ela é tão grande e tão linda!
Que parece ser a mãe de toda floresta,
de todos os bichos.
♪
[sapo coaxando]
[sapo coaxando]
Opa.
Que folhas são essas?
Eu acho que tem alguém por aqui,
mas quem pode ser?
[suspira]
De onde surgiu essa deusa?
[Castanha] Garota, oi.
Aqui.
[macaca] Oi.
-[macaca] Como você chama? -[Castanha gagueja] Castanha.
[Castanha] E você?
-Gaia. -[Castanha] Que nome lindo.
Nunca vi alguém lamber o dedo com tanta classe.
[Gaia] Cadê seu bando?
[Castanha] Estão no Rio de Janeiro.
Quer dizer,
agora meu bando é de um circo e, na verdade,
-eu ainda... -[Gaia] Você é bem maluco.
Não fala lé com cré.
[Castanha] Ei, onde você vai?
Pra que tanta pressa? Me espera.
Você sabe onde tem um supermercado por aqui?
Onde a gente acha uma árvore de bombons?
Ou um pé de banana?
♪
♪
Caramba.
Ela é ótima no pega-pega.
Mas é melhor ainda no esconde-esconde.
♪
♪
-[Castanha se assusta] -[Gaia ri]
-[Castanha] Você estava aqui. -[Gaia ri]
[Gaia] Psiu.
[Castanha] Nada como brincar com uma nativa.
[Gaia] Ei.
♪
♪
[Gaia] Castanha.
Você quer conhecer o meu bando?
♪
[música de tensão] ♪
♪
[macaco 6] Fora, fora daqui, garoto. Vai, xô!
Cara estressado.
O jeito é ficar olhando de longe.
Eles parecem uma família.
Pena que eu não posso fazer parte.
♪
[Castanha] Eu nunca tinha ficado perto de outros macacos.
E no bando tem até um filhotinho.
O pai dele é o Cabeça-Preta.
Esses caras dominam a floresta.
Ficando de olho dá pra aprender um montão de coisas.
Eu tô aprendendo o que fazer pra não passar mais fome.
Eles são craques em achar comida.
♪
♪
Mas o que eu gosto mesmo
é olhar a Gaia.
Ela se pendura de um jeito doido
e come com muita classe.
♪
♪
Acho que está se mostrando pra mim.
♪
Pena que eu não posso chegar perto dela.
♪
♪
Cabeça-Preta é dureza.
[macacos guincham]
[Cabeça-Preta] O que você tá olhando?
[Castanha] Nada, nada.
[Cabeça-Preta] Ainda bem.
[Castanha] Droga.
Eu devia ter aprendido capoeira lá no Rio de Janeiro.
[pássaros cantando]
♪
[Castanha] Cabeça-Preta está sempre de olho em tudo.
Sempre me vigiando pra eu não chegar muito perto.
E ele é quem diz o que o bando tem que fazer.
[araras chalrando]
[Castanha] Olha!
[araras chalrando]
[Castanha] Uma arara azul,
conheço esse cara de algum filme.
Uma árvore com vários ninhos.
[araras chalrando]
[Castanha] Que festa.
Todo mundo vai comer ovo no café da manhã.
Até o filhotinho do Cabeça-Preta.
♪
♪
[Gaia] Ei, Castanha. Está vendo como faz?
Assim eu bebo até a última gotinha.
[Castanha] É uma moça de muito apetite.
Até que enfim o pessoal ficou de barriga cheia e está indo embora.
Agora eu é que vou aproveitar.
A Rita me dava ovo cozido pra comer.
Isso aqui é mais complicado.
Vou fazer igualzinho eles fizeram.
[suspira]
[suspira]
Isso sim é comida de verdade.
Não posso desperdiçar nenhuma gotinha.
♪
♪
[suspira]
É,
acho que estou aprendendo a me virar na floresta.
♪
♪
[Castanha] O tempo vai passando
e tudo continua mais ou menos igual.
[zumbido de abelhas]
[Castanha] Eu conheci uns sujeitos diferentes.
O nome deles é tamanduá.
Eles se parecem com um aspirador de pó.
Só que em vez de pó, aspiram formiga.
[rindo] Coitada delas.
Mas é a lei da selva.
Aqui o mais forte come o mais fraco.
Preciso ficar esperto.
Acho que eu estou mais para o time dos fracos.
O Cabeça-Preta já não está tão chato.
Agora ele presta mais atenção no filhote dele
e assim não pega tanto no meu pé.
♪
Eu continuo seguindo o bando de perto,
assim não passo mais fome.
♪
Eu já conheço um monte de plantas,
estou craque em descer pelos cipós
e descobri uma coisa de lamber os beiços:
mel.
Abelhas.
Elas que precisam ter cuidado comigo.
Mas o mel
não é a coisa mais deliciosa de todas.
A coisa mais deliciosa é que, de vez em quando,
eu e a Gaia conseguimos ficar juntos.
[Gaia] Vem, Castanha. Vem.
[Castanha] Estou com uma coceira aqui.
-[Gaia] Quer que eu te faça cafuné? -[Castanha] Claro.
[Gaia] Ops!
[Castanha] Desculpa, eu não queria dar esse beijo.
[Gaia] Seu bobo.
♪
[Castanha] A gente vai brincar de quê?
[Gaia] Eu gosto de brincar de gangorra.
♪
E adoro balancê.
Vai, Castanha, para o nosso piquenique.
[Castanha] Ah, moleque!
[guincha]
♪
♪
Tem coisa melhor do que fazer um piquenique com quem você gosta?
♪
♪
Pronto,
estou sozinho de novo.
Só pensando em como ia ser bom fazer parte de uma família.
[música de tensão] ♪
♪
♪
[gavião guincha]
[Castanha] Opa, um gavião real.
Quando ele solta esse "piu", é que ele já escolheu sua próxima vítima.
♪
Ufa, passou por cima de mim.
Ainda bem.
Mas,
quem será que ela vai atacar?
♪
♪
[macacos guincham]
♪
[Castanha] Cuidado, macaquinho! Sai daí! Rápido!
♪
♪
[macacos guincham]
Todo mundo está muito triste.
Muito.
E eu também.
E o Cabeça-Preta, coitado,
não quer falar com ninguém.
Na floresta, o mais forte come o mais fraco.
Eu já disse isso.
É que morro de medo de chegar a minha vez.
[grilos cricrilam]
[grilos cricrilam]
A morte do filhote fez que eu me sentisse mais sozinho do que nunca.
É como se eu tivesse perdido alguém da minha família.
[trovões]
E eu nem tenho família.
[trovões]
[Castanha] Xi, o tempo está mudando.
Vem um vento diferente, mais forte.
De repente, o dia parece noite.
[música tensa] ♪
[trovões]
O bando está procurando um abrigo.
E eu vou tentar ficar com eles.
♪
♪
[grunhindo]
[Cabeça-Preta] Fora daqui. Sai fora!
[Castanha] Se não querem o Castanha, vou ser feliz sozinho.
Já aprendi a me virar.
Chega de andar atrás do bando.
♪
♪
♪
♪
♪
[Castanha] A chuva transforma a floresta,
é como se fosse outro lugar.
♪
♪
Os rios transbordam, alagando tudo.
E o tapete verde fica todo encharcado.
♪
Às vezes parece até que o chão é um espelho.
Ou que nasceram árvores dentro dos rios.
♪
♪
Mas são os rios que inundam tudo,
formando uma piscina gigante.
[música de tensão] ♪
♪
♪
Mas atenção:
é uma piscina com cobras.
♪
♪
♪
[Castanha] Eu estou sem a Rita,
sem o meu amigo Ming-ming,
sem a Gaia
e a chuva deixa as coisas ainda mais tristes.
[pássaros cantando]
Pelo menos eu tenho a árvore-mãe para me abrigar.
♪
♪
Não consigo parar de olhar esse bicho preguiça nadando com o filho.
Ter um filho parece uma coisa muito divertida.
Já pensou se eu tivesse um Castanhinha?
♪
♪
Será que a Gaia ia querer ter um filho comigo?
É claro que não.
Cabeça-Preta nem me aceita no bando.
Mas seria tão bom ter uma família com ela.
♪
Ai,
que saudade da Gaia.
♪
♪
[Castanha] A floresta fica tão cheia de água que, até o tatu,
que gosta de se enfiar na terra,
acaba aprendendo a nadar.
♪
♪
Olha só que bicho esquisito,
um baita golfinho cor-de-rosa.
♪
Parece que ele está sempre dando um sorrisinho com o canto da boca.
Acho que ele está brincando de esconde-esconde comigo.
Cadê?
Cadê você? Aparece.
♪
Isso é muito engraçado.
♪
[Castanha] Opa. Acho que ele não está sozinho.
Ele tem uma namorada.
Isso me deu mais saudade da Gaia.
Quer saber,
eu vou atrás dela de novo.
[Castanha] Com o fim das chuvas,
depois de seis meses, a floresta fica sequinha de novo.
A floresta é bem grande,
por isso não foi fácil achar o bando.
♪
Está caindo comida do céu.
Isso é ótimo.
♪
O Cabeça-Preta não gostou muito de me ver.
Mas parece que a Gaia gostou.
♪
[Cabeça-Preta] Gaia, fica longe desse sujeito.
Droga.
[grunhido]
[Castanha] O problema é que é meio difícil tirar essa comida aí da embalagem.
Nem o Cabeça-Preta está conseguindo.
Ah, vou tentar abrir esse treco.
O pessoal está duvidando de mim.
Estão rindo de mim.
Espera aí que vocês vão ver.
♪
♪
Jogar o coco na pedra não deu certo.
♪
Então vou fazer o contrário.
Vou jogar a pedra no coco.
[Cabeça-Preta guincha]
O Cabeça-Preta detestou a minha ideia,
mas o resto da macacada me achou um gênio.
♪
♪
O importante é que deu certo.
♪
[Castanha] Acho que o Cabeça-Preta está é com inveja.
[tucanos chalrando]
[Castanha] Ei, o que foi?
Onde vocês vão?
[música de tensão] ♪
Não deve ser nada.
Pássaros são uns caras muito assustados, saem voando por qualquer coisinha.
♪
♪
O Cabeça-Preta está avisando alguma coisa para o bando.
Deve ser só pra aparecer.
Eu já estou acostumado com a floresta,
não vou me preocupar com um bichinho qualquer.
Ah, nada como uma frutinha.
♪
♪
Nossa!
[onça ruge]
Que barulho foi esse?
Deve ter sido meu estômago.
[onça ruge]
[Castanha] Não!
Ai, ai, ai, ai.
♪
Acho que aqui eu estou seguro.
Não estou, não.
[onça ruge]
[música de tensão] ♪
Eu não aguento mais, eu preciso descansar.
A onça está tão perto que eu posso até sentir o bafo.
[onça ruge]
♪
[onça ruge]
[guincha]
[risada sarcástica de Castanha]
Vem me pegar, vem!
E não é que ela vai tentar!
[Castanha suspira]
[onça ruge ao fundo]
[Castanha] Até que enfim ela percebeu que não é páreo pra mim.
♪
Hoje eu reencontrei a Gaia,
abri uma fruta que ninguém abriu e escapei de uma onça.
Me sinto capaz até de voar.
♪
Acho que depois disso tudo,
já posso fazer parte do bando do Cabeça-Preta.
Vou falar com ele.
[Cabeça-Preta resmunga]
[Castanha] É, acho que não adianta.
Ele não muda o disco.
[trovões]
[Castanha] Mais uma noite na floresta.
Mas essa vai ser uma noite especial,
é que eu combinei com a Gaia e a gente vai ficar junto.
Lua cheia, a brisa da floresta,
cobras passando. Caramba, o que eu estou falando?
[cobra sibila]
Ela só vai esperar aquele chato dormir.
Eu ajeitei a minha coleira e passei óleo de buriti na cabeça
pra ficar bem cheirosinho.
[Gaia] Ui, ui.
[Castanha] Esse é o sinal.
Vou pro lugar combinado.
[Gaia] Castanha.
[trovões ao fundo]
[Castanha suspira]
[Castanha] Como é bom namorar escondido.
[trovões ao fundo]
[música de tensão] ♪
-[Castanha] Au, ai, ai. -[Cabeça-Preta] Fora daqui!
[Gaia] Não, por favor. Castanha.
[Castanha] Eu podia ter me quebrado todo,
até morrido.
Se hoje tive o melhor dia da vida,
essa foi a pior noite de todas.
Vou ficar aqui,
lambendo minhas feridas.
-[Gaia] Cacá. -[Castanha] Ai, meu Deus.
Acho que tem alguém aqui.
[Gaia] Castanha, Castanha.
♪
Castanha.
Você foi demais.
[Castanha] Você quer dizer fraco demais, né?
[Gaia] Não, seu bobo.
Você não entendeu que o Cabeça-Preta tem medo de você?
De mim?
[Gaia] Claro.
Você caiu do céu e enfrentou a onça,
ele acha que você quer ser o chefe do bando.
[Castanha] Mas eu não quero.
[Gaia] Eu sei.
Por isso eu decidi largar o bando, eu vou ficar com você.
-[Castanha] Comigo? -[Gaia] Aham.
E a gente vai criar um novo bando, o bando do Castanha.
[Castanha] Um bando só com dois macacos?
[Gaia] Mas já, já, vamos ter outros macaquinhos.
[Castanha] Eu vou ter uma família?
[Gaia] Vai sim.
[Castanha] Como é isso?
[Gaia] Eu te ensino.
[Castanha] Poxa.
Poxa.
[música lenta] ♪
♪
♪
[Castanha] Depois da Gaia ficar comigo,
parece que tudo ficou mais florido,
até os bichos.
Eu já não tenho mais medo da onça.
E parece que todos os bichos acharam suas famílias.
♪
[Gaia] Castanha, esse lugar que você achou é perfeito.
-[Castanha] Por quê? -[Gaia] É bonito, tem muita comida
e a gente pode ficar brincando e namorando o dia todo.
[Castanha] É, então é perfeito mesmo.
[motosserra ao fundo]
[Castanha] Opa.
Que cheiro estranho é esse?
E esse barulho? Eu conheço,
é de cidade.
[motosserra ao fundo]
[Castanha] Eu vou ver o que está acontecendo.
[Gaia] Não vai muito longe.
[motosserra]
[música lenta] ♪
[Castanha] Não acredito no que eu estou vendo.
O que será que aconteceu aqui?
♪
♪
Quem será que fez esse estrago todo?
[latidos ao fundo]
Só pode ter sido um monstro terrível,
algum tipo de dragão gigante
ou um bicho ainda pior.
Gente!
♪
Está tudo queimado.
♪
Mas por quê?
[menina] Macaquinho.
♪
♪
[menina] Vem cá, vem macaquinho.
[Castanha] Poxa,
ela até parece com a Rita
e acho que quer que eu vá com ela.
Será que eu volto a morar com os homens?
[caminhão se aproxima]
♪
♪
[Gaia] Caramba, Castanha, você demorou.
-[Gaia] Eu estava preocupada. -[Castanha] Lá não tem nada, esquece.
[Castanha] Gaia, vamos até um lugar.
-[Gaia] Que lugar? -[Castanha] Vem, vem comigo.
♪
♪
♪
♪
♪
[Castanha] Aqui, no alto da árvore-mãe,
eu tomei uma decisão:
resolvi jogar fora a última coisa da cidade que eu tinha.
Agora eu sou um macaco livre.
Eu e Gaia vamos ter nosso próprio bando,
vamos ser a grande família Castanha
e viver na nossa casa.
A Amazônia.
♪
♪
[música inicia] ♪
♪
♪
♪
♪
♪
♪ [música finaliza]
[música lenta inicia] ♪
♪
♪
♪
♪
♪
♪
♪
♪ [música lenta finaliza]
[música inicia] ♪
♪
♪
♪
♪
♪ [música finaliza]
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