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OS BELOS DIAS DE ARANJUEZ
baseado na pe�a de PETER HANDKE
Subpack e sincronia by DanDee
E novamente � ver�o.
Novamente um belo dia de ver�o.
Um jardim.
Um terra�o.
Uma mulher e um homem embaixo das �rvores,
com um vento suave de ver�o,
como que fora do tempo.
Uma mesa de jardim entre a mulher e o homem.
Eles est�o sentados a uma boa dist�ncia.
Os dois tamb�m est�o como que fora do tempo
e fora de toda e qualquer atualidade
e, mais ainda, de todo e qualquer enquadramento hist�rico.
O que n�o significa que eles estejam fora da realidade.
Talvez, seja o contr�rio.
Vamos ouvir.
E para come�ar, um e o outro,
sem se olharem,
ouvem por muito tempo o sussurro das folhas ao vento de ver�o.
"� como se a cada sussurro das folhas se passe uma hora,
ou um dia inteiro".
Quem come�a?
Voc�.
Estava previsto assim.
�, estava previsto assim.
A sua primeira vez com um homem foi como?
Olhe!
Uma �guia passou pelas �rvores como uma flecha.
Ou era uma pipa?
Era um falc�o.
�guias e pipas circulam acima das �rvores.
S�o os falc�es que atravessam a floresta como flechas.
A sua primeira noite com um homem?
N�o foi uma noite.
E ele n�o era um homem.
E eu n�o virei mulher.
Mesmo assim foi um ato de amor.
Eu fiz amor com ele e ele fez amor comigo.
Foi uma uni�o f�sica, corporal. Foi uma uni�o de dois corpos em um.
E que uni�o!
Me conte.
Eu sempre tenho vontade de contar essa experi�ncia.
Mas quando me pedem para contar, eu perco a vontade.
Hoje � um outro dia.
� um ver�o como nunca houve.
Talvez o �ltimo, depois de tudo.
Sim, � ver�o como se fosse pela �ltima vez aqui.
Pela �ltima vez...
Pela �ltima vez...
Era ver�o tamb�m naquele dia.
N�o foi a minha primeira noite. Foi o meu primeiro dia de amor.
Um pomar.
Excrementos de galinhas cinzentos e brancos na grama fresca aparada.
Uma escada de madeira apoiada numa macieira?
Adivinhou!
E tinha acabado de fazer sua festa 18 anos.
Agora errou.
Eu ainda era crian�a.
Eu tinha apenas 10 anos.
Mas acertou a outra parte.
Era o dia do meu anivers�rio.
Se n�o me engano, era um domingo.
Como qualquer outro domingo de ver�o.
S� tenho certeza de que eu estava com roupa de festa clara.
Era um vestido longo branco e sapatos brancos.
At� os sapatos eram brancos, sem salto.
E eu nunca contei isso para ningu�m, nem mesmo para mim.
Isso � uma hist�ria?
"Me conte. Vamos ver".
Era de tarde.
Eu estava num balan�o em algum lugar do pomar.
Sim, era um pomar de ma��s, n�o de cerejas.
N�o havia manchas vermelhas no meu vestido. Nem antes, nem depois.
Nenhuma lembran�a de gente perto de mim.
Mesmo assim,
havia a presen�a invis�vel dos meus parentes...
pai, m�e, irm�os, irm�s.
E eu, sentada naquele balan�o, balan�ando cada vez mais livre,
cada vez mais libertada da presen�a deles por uma outra presen�a.
Mais devagar, mais devagar... Olhe!
As p�talas das flores da trepadeira.
Como elas se ondulam flutuando ao vento...
Mas foi r�pido assim.
Cada vez mais r�pido.
At� que num certo momento, de repente, no ponto culminante,
uma desacelera��o abrupta.
Enquanto a balan�a continuava balan�ando com a mesma velocidade
uma coisa dentro de mim se despertou, ganhou vida,
gra�as a essa desacelera��o abrupta e depois,
gra�as a essa imobilidade brusca
no meio daquelas esferas que eu repetia naquele balan�o,
nasceu, se abriu e depois explodiu.
Eu me transformei na coisa e ela se transformou em mim.
Uma coisa?
O sexo? O seu sexo?
Como voc� preferir.
Mas aquilo que tinha nascido naquele balan�o,
eu n�o senti como se fosse o meu pr�prio sexo, mas como
a origem do mundo.
E saiu sangue?
Por que est� fazendo uma pergunta como essa?
Porque � o previsto.
N�o.
N�o saiu sangue.
Nenhuma gota.
O raio que me atingiu me deixou ilesa.
Eu s� sangrei pelo nariz.
E quem foi o raio que penetrou em voc�?
Um deus? Um deus de servi�o?
Por que est� fazendo uma pergunta como essa?
Como voc� continuou?
Voc� ficou sentada no balan�o e continuou se balan�ando?
Eu n�o sei mais.
Tudo que eu sei...
� que esse instante na balan�a acima das folhagens do pomar,
eu crian�a transformada em rainha, durou para sempre.
Ele persiste at� hoje.
Mesmo que eu tenha permanecido uma rainha exilada,
a rainha de um outro mundo, de um planeta diferente...
Desde o instante da minha transforma��o,
eu fui n�o apenas privada da inf�ncia,
mas tamb�m de toda a legitimidade do mundo habitual,
do meu planeta Terra.
Lan�ada ao universo como rainha de uma destina��o desconhecida,
eu virei aqui embaixo, entre os meus parentes,
um ser ilegal, uma fora da lei.
No in�cio...
doce pavor.
Pavor acompanhado de uma do�ura
que n�o poderia ser mais universal, mais majestosa.
Depois, do�ura majestosa seguida de um pavor diferente: horror, terror.
Essa apari��o da origem do mundo significava
a proibi��o de permanecer a partir daquele instante
nesta terra familiar.
Pavor doce...
Do�ura desmedida.
Novo pavor sem a do�ura. Lembran�a da do�ura, etc e etc.
At� agora.
Agora eu me lembro.
Aquele raio n�o penetrou em mim por cima.
Ele veio de baixo, ele emergiu da terra.
E ele n�o queimou nenhum dos meus ossos.
Ele me implantou uma segunda
coluna vertical, uma muito mais forte.
E, ah...
Ele me chicoteou.
Uma chicotada que foi o contr�rio de um castigo.
Como � sossegado aqui.
Especialmente hoje.
Desde esta manh�.
O ver�o est� a pleno vapor.
Pouco antes de come�armos a conversar, eu e voc�,
eu tive, rodeada pelo sil�ncio, a sensa��o da chegada... N�o.
N�o! Digamos "a ca�da de um sil�ncio"
N�o! Digamos "uma tranquilidade adicional"
N�o! Digamos "complementar" sobre esta regi�o.
E n�o foi apenas sobre a regi�o.
Foi sobre a Terra inteira!
A Terra inteira com essa tranquilidade
profunda se ransformou docemente.
N�o num disco, como imaginaram no passado os nossos ancestrais.
N�o!
Digamos "numa bacia"
Gra�as ao sil�ncio profundo,
a Terra ganha em profundidade.
Essa express�o � estranha: "ganhar em profundidade"
Doce ilus�o.
Ilus�o, mas t�o doce...
Foi ela que dirigiu a sua voz a fazer a primeira pergunta.
E rodeada por ela, eu ganhei confian�a na sua pergunta.
N�o! Digamos "na sua voz"
E eu fui capaz de participar do jogo, eu fui capaz de responder a voc�.
E ao mesmo tempo � �guia que circulava silenciosamente
l� no alto do c�u...
onde ela continua circulando.
E se um helic�ptero entrar em cena com um estrondo?
Um avi�o de ca�a? Um bombardeiro?
Isso n�o vai acontecer. N�o neste instante.
E se um grito surgir da sua bacia?
Isso tamb�m n�o vai acontecer.
E se acontecer, existem gritos...
que acompanham a calma,
-que d�o ritmo � tranquilidade. -Por exemplo?
E depois? Como foi com o seu primeiro homem em carne...
e osso?
Onde? Quando? Quem?
E depois?
Como foi com o seu primeiro homem em carne e osso?
Onde? Quando?
Quem?
Nenhuma lembran�a.
Nem de um osso, nem da carne, nem mesmo do homem.
Uma noite escura?
Um desconhecido? Um outro invis�vel?
Um estranho na noite? O passageiro da chuva?
Foi de novo durante o dia.
Um outro dia de ver�o, muito mais tarde.
Melhor dizendo, um dia de ver�o fora do tempo
como s� certos dias de ver�o conseguem ser.
Um dia de ver�o como hoje.
E ao mesmo tempo bem diferente.
� evidente.
N�o � como voc� quer ouvir.
Diferente, principalmente, a cena exterior.
Uma salina � beira-mar...
Sem �rvores.
Somente um arbusto.
Uma amoreira mediterr�nea...
com muitas frutas vermelhas com o formato de framboesa.
Menos doces e mais tenras ainda.
Embaixo dele...
a �nica sombra de toda a extens�o.
Normalmente existe uma pequena constru��o de pedras nas salinas.
Uma cabana, ou um casebre...
Voc� tem raz�o.
Havia uma cabana de madeira escondida pela amoreira.
Agora eu me lembro. S� agora.
E a madeira da cabana era cinza bem claro, quase branca,
como o sal da salina.
Esbranqui�ada pelo ar muito salino,
como todas as pequenas eclusas de madeira ligadas aos tanques de sal
que seca atrav�s dessa salina imensa.
A porta da cabana estava trancada.
N�o havia janelas. N�s fomos obrigados a for�ar a porta.
Ele era forte?
N�s a for�amos com uma esp�cie de trilho que antigamente servia
para transportar sal.
A salina estava meio abandonada. O trilho estava enferrujado.
N�s for�amos a porta juntos, sem uma palavra...
como antes n�s t�nhamos pegado o trilho sem um palavra,
num �nico movimento.
Tinham marcado encontro na salina?
N�o.
Eu estava l�, � sombra da amoreira, sentada.
E quando o homem apareceu bem ao longe, voc� logo se levantou.
Exato. Mas n�o foi o homem...
Foi a silhueta dele.
"A promessa da silhueta..." Alguma coisa assim, isso.
Mas n�o foi o homem que me fez levantar.
Foi a silhueta dele.
A silhueta dele ao longe me prometia alguma coisa.
Ela anunciou uma profecia.
"Silhueta" para mim significa "profecia" agora.
Ela me deu asas tamb�m.
J� tinha encontrado com ele antes?
Me fa�a uma outra pergunta.
Ele veio diretamente na sua dire��o?
Antes de me ver,
ele vinha caminhando direto para a amoreira.
Assim que me v�, ele para. Depois, ele vai na dire��o oposta.
-Ent�o, depois de tr�s passos... -Exatamente tr�s?
Exatamente tr�s.
Depois de tr�s passos, ele d� meia-volta, contra vontade,
impulsionado por uma for�a maior.
Ele ficou fascinado por voc�? Pela mulher?
Pela sua presen�a?
Sim.
Fascinado.
Mas fascinado de uma outra maneira. N�o por mim, pela minha pessoa.
Fascinado primeiro pelo local.
Pela extens�o daquela salina quase abandonada ali.
Fascinado... N�o! Tomado...
N�o! Dominado pelo desejo. Desejo criado...
N�o! Gerado por aquele poderoso espa�o vazio da cor do sal,
exalando sal na frente dele.
Desejo de se unir ali mesmo �quele vazio, sexo no sexo.
Ser inteiramente encarnado pelo sexo.
-E voc�? -Como ele.
Nenhuma diferen�a entre o homem e mim.
Nenhuma pergunta. Nenhuma palavra.
Nenhum pre�mbulo, ou se preferir, nenhum...
prel�dio.
Nenhum elemento de jogo.
S� seriedade.
Seriedade, seriedade, seriedade.
For�a da seriedade.
Seriedade at� no riso comum do depois.
Monumental.
"From Her To Eternity"
Sim, monumental.
Gra�as ao lugar.
Gra�as ao lugar, ao homem
e a mim.
Por que n�o pergunta mais nada?
Sem as suas perguntas eu n�o posso continuar.
Eu fico cega e muda.
Gra�as �s suas perguntas,
eu vejo de novo.
N�o! Eu passo a ver.
Ver o que ficou invis�vel at� este momento.
Fa�a perguntas. Estava previsto assim.
E o que voc� v� na cabana?
Na cabana da salina perdida.
A luz.
Como assim? Ver a luz?
Normalmente vemos com a luz, ou atrav�s da luz, ou uma luz.
N�o a luz em si.
E a cabana n�o tinha janela e a porta atr�s de voc�s estava fechada.
Sim, a porta estava fechada.
Mas havia aqui e ali uma fresta entre as t�buas.
E num lugar faltava um n� da madeira.
E por esse pequeno buraco redondo entrava um raio de sol.
Havia tamb�m a sombra da ponta uma folha da amoreira no ch�o.
E em seguida...
no corpo dele, no meu corpo, nos nossos corpos.
O ch�o da cabana era de terra batida...
Estou vendo a sombra da folha.
Os dentes das folhas pontudas da amoreira
e ao mesmo tempo curvadas,
diferentes de qualquer folha de �rvore.
Como uma sombra.
Sombra �nica.
Sombra que significa, como nenhuma outra forma,
o ver�o.
Pleno ver�o.
O cora��o do ver�o.
A luz, aquela luz,
emanava do ch�o da cabana, da terra batida mesmo.
E ela se transformava, uma emana��o atr�s da outra, em mat�ria.
Ela se transformava em tecido com o qual ele e eu nos vest�amos.
Nus, como est�vamos, n�s fomos ficando vestidos...
a cada raio de luz.
A luz subia do ch�o
e vestia cada um de n�s com uma roupa perfeitamente id�ntica
e que, lentamente, delicadamente,
foi virando um h�bito de uma perfei��o que eu,
pelo menos, nunca tinha usado
nem antes, nem depois.
Nem vestindo o vestido mais belo e mais caro do mundo.
E tudo aconteceu lentamente?
Lentamente e delicadamente?
Como no ato de despir-se seguido pelo de vestir-se?
N�o houve um instante repentino? S�bito? Abrupto?
Um instante fugaz?
Agora eu lembro.
De repente,
a sombra da folha na t�bua da cabana se encheu de uma cor.
De que cor?
De uma cor desconhecida, sem nome. Uma cor escura.
Voc� ficou de olhos abertos?
Eu n�o lembro.
Mas naquele instante, eu acabei abrindo.
-Antes eu estava apenas ouvindo. -A respira��o do outro?
Pergunta inv�lida.
Eu escutava os barulhos da salina e os mais distantes.
Por medo?
Por distra��o? Por desaten��o?
Idiota!
A n�o ser que esteja querendo me arrancar a verdade.
As primeiras ma��s j� est�o amadurecendo.
Bem antes que as de outros tipos. N�o como esta aqui.
A pele e a carne das primeiras do ver�o
s�o de uma brancura pura, quase brancas.
Mas no meio,
sementes negras como as de nenhuma outra fruta.
Para mim, essas ma��s incorporam o ver�o.
Os primeiros dias sem escola, sem dever de casa, dias livres.
Sem o peso de coisas para aprender sobre os ombros.
M�os livres at� pegar a ma��.
Como ela era livre!
Mas as primeiras ma��s viraram raridade, ou sumiram completamente.
A verdade � esta: gra�as ao local, � cabana
e gra�as ao homem, e gra�as a mim...
as minhas orelhas se abriram como em nenhum outro lugar.
A minha audi��o virou a audi��o dele.
E aquilo que eu ouvia fazia parte do conjunto, participava,
se transformou num barulho aqui, noutro l�, um ap�s o outro,
um ao mesmo tempo que o outro.
Um instrumento daquele conjunto, cada vez maior, cada vez mais amplo,
e prolongado.
Ali, o estalo de uma �nica folha seca
no meio do barulh�o da folhagem verde.
-Ali... -E depois?
-N�s percebemos... -� mesmo?
N�s, isso.
N�s percebemos...
que t�nhamos dormido
sobre um monte de excrementos.
De merda humana. Velha. Completamente ressecada.
Mas gra�as ao ar salino,
bem conservada na sua forma indubitavelmente humana,
at� mesmo na sua cor.
Mas os nossos corpos j� haviam...
ro�ado nela, at� tocado nela.
E ao perceber isso... N�s dois percebemos...
que aos nossos p�s...
numa po�a de �gua da chuva que entrou
pelo telhado esburacado da cabana,
uma coisa se contorcia como uma gigantesca minhoca,
que na verdade era uma sanguessuga.
Ela estava imensa e negra como uma morcela...
porque ela tinha permanecido durante todo esse tempo...
grudada na batata da perna do meu amante
antes de cair saciada do sangue dele no �ltimo momento.
E depois?
N�o sei...
Rimos! N�s rimos. N�s! N�s rimos.
Pela segunda vez.
Um riso como sua seriedade de antes.
Sim, Senhor.
N�s t�nhamos cumprido a vontade divina.
Voc�s se tornaram divinos? Voc�s permaneceram divinos?
Por um certo instante. Por um certo tempo.
Pelo menos para al�m daquele distante dia de ver�o.
E depois?
N�s nos casamos
e vivemos felizes.
E fomos nos tornando menos divinos
at� o fim dos nossos dias.
Tudo isso foi um conto ou um sonho?
Voc� est� sonhando ou falando?
Tudo isso foi verdade. � verdade.
Mas se voc� quer saber,
n�s permanecemos juntos at� n�o haver mais "n�s"
At� n�o haver mais nem homem, nem silhueta.
Apenas o outro.
Eu fui at� Aranjuez uma vez.
Aranjuez?
A famosa Aranjuez?
Aranjuez � uma cidadezinha
que n�o � longe de Madri. Fica ao sul, antes de Toledo.
Na �poca, era a resid�ncia de ver�o dos reis da Espanha.
N�o tem nada al�m de um parque imenso
atravessado por alguns bra�os do Tejo,
o maior rio, acho eu, da Pen�nsula Ib�rica.
E no meio desse parque, o castelo real.
Eu n�o fui at� Aranjuez por causa do castelo,
mas porque existia nesse mesmo parque
uma "Casa del Labrador" a �nica no mundo.
Uma "Casa do Lavrador" singular.
Eu tinha que entrar de qualquer jeito naquela casa.
S� o nome dela me fez pegar a estrada.
Uma "Casa do Lavrador" num parque real.
Ela n�o era como se poderia imaginar
escondida pelos arbustos, fora da paisagem artificial do parque,
fazendo parte da estepe, a savana natural espanhola. N�o.
Pelo contr�rio. Ela ficava numa clareira estranhamente verdejante.
E ali, o parque era muito mais bem cuidado do que perto do castelo.
E "La Casa Del Labrador" era um outro castelo atr�s do castelo principal.
Bem menor, por�m mais luxuoso.
Principalmente no interior.
Nenhum tra�o de trabalhador nas salas e aposentos em m�rmore...
nem nos outros c�modos fora do roteiro da visita��o.
Nenhum tra�o tamb�m de um trabalhador agr�cola.
Fiquei sabendo tarde demais que o nome vinha dos afrescos
que decoravam os sal�es e os quartos do segundo Castelo de Ver�o Real.
Eles representavam cenas id�licas da vida no campo no s�culo XVII,
como por exemplo pessoas jogando cartas.
Cada c�modo da constru��o em tijolos chamada "Casa do Lavrador"
parecia uma sala de jogos.
Jogos e mais jogos: xadrez, tar�, bilhar...
Em nenhum lugar havia tra�os de gerenciamento, melhor dizendo...
O que voc� estava esperando dessa "Casa del Labrador"?
Primeiro, talvez, uma constru��o em madeira.
Uma cabana, mas uma cabana como eu nunca vi.
Uma cabana grande como um castelo,
maior que qualquer castelo. Bem grande.
Uma luz como aquela que voc� acabou de invocar.
Um ato de amor, mas n�o como o seu entre o homem do sal e voc�.
A cabana de tempos passados como habita��o de um futuro,
como qualquer constru��o dos tempos de hoje.
Ferramentas agr�colas nunca vistas, nem em museus.
Uma ferramenta destinada a mim, para eu roubar
e levar comigo para o futuro.
E sobre o solo de terra batida dessa cabana-catedral,
talvez, para voc�,
um gigantesco monte de merda.
N�o humana, de morcegos. N�o seca, bem fresca.
E sem nada disso, Aranjuez foi uma viagem in�til?
N�o, logo depois a minha viagem se tornou bem proveitosa.
Conte.
E depois, como voc� foi com os homens?
Cada vez mais variados, n�o �?
Cada vez mais aventuras, namoricos...
"one-night stands"...
Sexo casual, n�o?
Cada vez menos amor, n�o �?
Conte.
Os anos que passou trepando no ver�o e no inverno. Conte.
Como uma mulher naquela �poca me contou:
"N�s comemos, n�s dan�amos, n�s fizemos amor".
E uma outra: "N�s esquiamos, n�s nadamos, n�s trepamos".
Muitas palavras
n�o estavam previstas aqui.
Mas elas est�o perdoando voc�,
gra�as ao sopro suave do vento de ver�o neste momento.
E al�m disso,
eu nunca trepei na minha vida.
-Nunca? -Nunca.
Verdade...
Durante um per�odo,
a crian�a de amor que eu era no in�cio se transformou
numa mulher do seu tempo, ou se preferir, numa mulher atual.
E esse per�odo est� durando?
N�o.
Sim.
Eu lembro desses anos:
apenas contradi��es, de um dia ao outro,
de uma hora � outra, de um segundo ao outro.
Desejo...
Desgosto do desejo.
Ternura...
Ternura falsa.
Viol�ncia...
Viol�ncia suave. Viol�ncia violenta.
E tudo chegou assim repentinamente. De repente, o desejo.
De repente, o deleite. De repente, a viol�ncia.
A �poca, o per�odo da repentinidade.
Me interrompa!
E voc� se arrepende desse per�odo?
Eu adoraria me arrepender,
mas n�o consigo.
Mesmo n�o acreditando na frase da can��o:
"N�o, n�o me arrependo de nada".
Ali�s, eu detesto essa frase.
Foi um per�odo
em que eu queria, acima de tudo, me vingar de um homem.
Vai me perguntar: "Se vingar do qu�?"
N�o, n�o vou perguntar.
Ent�o, eu mesma me pergunto.
Eu queria me vigar daquele homem por causa de outro homem?
N�o.
N�o havia motivo algum para eu me vingar de um homem em particular.
Eu nunca fui v�tima de um homem. Nunca.
Eu queria me vigar dos homens em geral
porque eu achava a esp�cie inteira,
o sexo inteiro ofensivo? N�o.
O meu esp�rito de vingan�a
n�o era dirigido a um homem, ou aos homens.
Ele era dirigido a um esp�rito hostil, inimigo,
que reinava e que me parece continuar reinando neste mundo.
Vingan�a contra a conspira��o onipresente e desp�tica
do mundo cotidiano contra o corpo e a alma.
E para essa vingan�a voc� precisava de um homem?
De homens?
Sim, do corpo de um homem.
Dos corpos de homens.
Do sexo masculino.
E o que percebo, agora contando,
� que minhas vingan�as jamais foram
planejadas, premeditadas, preconcebidas.
Foi cada vez, durante o ato... N�o!
Depois do ato...
que eu percebi que o que tinha se passado e acontecido
era simultaneamente um ato de vingan�a.
Eu sentia isso e sempre ficava sabendo um momento depois
e o meu c�mplice sabia como eu.
Que alegria!
Que felicidade infantil!
Ao mesmo tempo era como se eu ele, superando os obst�culos da vida,
tiv�ssemos feito uma afronta ao mundo-pris�o,
como se tiv�ssemos feito uma jogada proibida.
Antes,
a seriedade a dois, como nenhuma outra seriedade.
Depois,
o riso como nunca, em un�ssono.
Um riso liberado, livre, libertador.
O homem e eu t�nhamos feito um ato de caridade.
N�s t�nhamos protegido algu�m, alguma coisa.
Em vez da hora, n�s olh�vamos o calend�rio.
Foi uma data:
"A Festa dos Corpos"
Uma festa pouco tranquila.
N�s dois
t�nhamos mostrado alguma coisa ao mundo.
N�s nos vingamos dos acontecimentos atuais.
"N�s nos vingamos dos acontecimentos atuais.
N�s dois t�nhamos mostrado alguma coisa ao mundo.
Ou: t�nhamos mostrado aos acontecimentos atuais.
Essa liberta��o...
Quais foram as consequ�ncias?
Um mundo novo?
Um mundo novo dur�vel?
Feito de quais elementos?
As sombras de gotas de �gua da chuva sobre os dois corpos nus.
Uma pegada de neve no assoalho de madeira.
Um arbusto de lilases em flor
numa noite escura no caminho de volta.
Um ouri�o desvia de n�s.
N�s, nos far�is dos carros que passam buzinando entusiasticamente.
O rastro de sangue, o �nico l�quido
sobre os seixos do leito seco de um rio no centro do mundo,
norte, sul, oeste e leste unidos.
O vento soprando sobre a superf�cie plana do mar.
O vento descendo da montanha, uma outra vez.
O p� prateado de mica
pousando lentamente
na �gua quente do lago em que estamos deitados.
E, logo depois,
n�o se tratava mais de qualquer vingan�a.
Cada corpo se movia al�m.
Era mais. Tornou-se tudo.
Muito al�m de todas as zonas ditas er�genas.
Al�m do que mais?
Apenas al�m.
Nem eu, nem ele.
Apenas o universo do corpo.
Dois corpos deitados na noite do infinito.
O tempo se transforma em corpo e alma
e cada A e cada O s�o suspirados para a eternidade.
Foi assim mesmo.
� assim mesmo.
Suspirar...
e pegar.
Eu contei quase 9 elementos. Isso quer dizer 9 c�mplices?
Sem n�meros. N�o aqui. N�o hoje.
Em nenhum lugar. Jamais!
O que era estranho e continua estranho...
Toda vez, depois daquele ato de vingan�a,
a cumplicidade com o homem chegou ao fim.
Toda vez.
Eu tinha orgulho daquela cumplicidade.
E ficava entusiasmada, querendo falar sobre ela.
Cora��es disparados. O zunido das peles na ressaca.
O peso cordial dos cabelos emaranhados.
Com aquele ato de vingan�a
n�s hav�amos contribu�do
para salvar o mundo.
Mas o homem-c�mplice nunca foi levado em considera��o.
Sem abandon�-lo,
eu imediatamente deixei de ser a mulher para ele.
Sem dizer adeus a ele,
foi adeus para sempre.
E o homem...
como antes, com a vingan�a feliz, sentiu isso silenciosamente como voc�
e consentiu finalmente?
N�o.
Toda vez virava um drama.
Uma trag�dia.
Um drama.
Felizmente, n�s dois n�o estamos num drama.
Felizmente... Talvez.
Havia alguma coisa, um tra�o id�ntico em todos os homens-c�mplices?
Sim.
Um di�logo apenas com "sim" vai contra o nosso acordo.
Conte.
Primeiro, eu notei em cada um deles uma coisa,
ou como voc� disse, um tra�o
que faltava, ausente, que n�o existia.
Nenhum tinha aquele olhar que dizia:
"Eu quero voc�. Eu posso ter voc�. Eu posso ter todas. Voc� tamb�m!"
Eles n�o tinham absolutamente aquele olhar de ca�ador.
E agora eu me lembro...
s� agora, falando disso, eu vejo o que estava presente,
o que existia no olhar daqueles homens.
Os olhos deles diziam...
N�o! Eles n�o diziam nada. Estava escrito nos olhos deles:
"Essa mulher � inacess�vel para mim".
"Essa mulher est�... Oh, tristeza! fora do meu alcance".
"Ela ser minha? Impens�vel. Imposs�vel".
E era aquele olhar de ang�stia,
de uma ang�stia quase incur�vel,
que me abria para os homens.
Isso era piedade.
N�o.
Um di�logo apenas com "n�o" vai contra o nosso acordo.
Isso era compaix�o.
Sim, talvez.
N�o.
Aquele olhar sem esperan�a
me comovia todas as vezes.
N�o.
Me perturbava.
Era amor?
N�o me fale de amor.
Naquela �poca
eu n�o acreditava mais nele.
Ou melhor, eu n�o me sentia digna de amar.
E principalmente de ser amada.
Nem a palavra...
Nem a palavra eu era capaz de pronunciar.
E todos aqueles homens a pronunciavam noite e dia!
Os homens?
O que foi?
-Voc� n�o acredita em mim? -N�o.
Sim, talvez. Sim.
Sim... n�o...
Sim, eu acredito em voc�.
Quando lembro de filmes antigos,
eu acredito em voc�.
Mesmo assim, todas as vezes foi amor.
Uma esp�cie de amor.
Um quarto.
Um espa�o.
Um espa�o cheio de amor.
Mas n�o em mim.
Ao redor.
Conhece a can��o "Love Is All Arround"?
A sensa��o de vida,
a intensidade,
vinham da fragilidade do outro sexo,
do desespero cont�nuo do homem dentro de mim.
Amar...
� ser amada por esses homens fr�geis.
Por eles todos.
Nunca houve um desgosto depois?
Nunca.
Sim.
Houve sim, uma vez.
Agora eu me lembro.
Agora, falando disso...
s� neste instante estou vendo a imagem do meu desgosto.
E ent�o? A imagem...
O contorno do homem no len�ol depois de ele ir embora de casa.
Um contorno monstruoso?
N�o.
Nada al�m do contorno.
E n�o foi simplesmente um desgosto.
Foi o desprezo.
Nunca mais ver aquele homem.
Se tocar em mim mais uma vez,
morre!
Sem viol�ncia aqui hoje.
Tudo bem.
Eu at� que sou muito grata a esses contornos.
O tempo da minha leveza
pode ter me salvado.
Salvado do qu�?
Da morte.
Da secura.
Do secamento da minha alma.
Mesmo fazendo aquilo contra a natureza,
isso me dava luz de tempos em tempos.
Mas como o amor me fazia falta naquela �poca!
N�o me fale de amor voc� tamb�m.
Isso n�o estava previsto, nem foi combinado.
S� um pouco de melancolia em novembro, nada mais.
Olhe...
Um tordo acaba de pousar na grama completamente silencioso.
De todos os p�ssaros esse � o que mais se parece
com a folha de uma �rvore tomando sol silenciosamente.
N�o �?
Sim.
Eu n�o me sentia mais am�vel. Eu, a mulher.
N�o me sentia digna de amor. Eu, como mulher.
Isso me fazia falta e eu vivia como...
se quase todos os seres humanos n�o fossem am�veis na �poca.
E principalmente as mulheres.
N�o am�veis.
Pior...
Detest�veis.
Olhe l�!
O homem de camisa amarela vai pedalando na estrada l� longe.
Sozinho, totalmente sozinho.
Est� vendo?
Eu detestava o meu sexo, as mulheres,
o chamado "sexo belo"
Porque a beleza delas, a sua beleza, n�o era mais verdade.
Era uma beleza imitada, de fachada.
Uma beleza comercial, uma beleza para ser vendida.
A noite passada eu sonhei com as pl�iades,
a constela��o de 7 estrelas em forma de diadema.
E as pl�iades n�o estavam brilhando l� no c�u,
mas aqui embaixo, bem perto da terra,
na frente de uma montanha obscura,
na altura do voo dos pardais, acima da plan�cie.
Elas brilhavam como nunca tinham brilhado no c�u.
Era uma beleza que exigia,
que estipulava condi��es,
que saqueava em vez de dar.
E s� a beleza que d� � beleza.
Era uma beleza fechada,
em vez de ser uma beleza aberta.
Uma beleza que fechar o outro em vez de abri-lo.
E apenas
uma beleza aberta e que abre � beleza.
N�o �?
Foi um tempo em que o desejo e o prazer do meu sexo
era transformar o homem, o outro, os homens, em porcos.
Apenas para desprez�-los em seguida e
me revoltar por eles terem virado porcos.
N�o havia �dio mais sinistro na �poca
que o �dio das mulheres pelo homem, pelos homens.
Nada de mais frio na face da Terra.
Esquecer o que era dormir junto com o outro.
Ah, n�o h� repouso mais profundo!
N�o h� banquete melhor do que ficar l� no alto da �rvore comendo cerejas.
Faz muito tempo
que n�o vejo uma mulher.
Uma que olhe...
que olhe para tr�s dela, que olhe ao redor dela...
e se deixe ser olhada.
Me parece que n�s, mulheres, como os homens,
sob essa superf�cie elegante,
estamos nos tornando completamente selvagens com a cabe�a e o corpo,
nos tornando profundamente t�midos,
desamparados, perdidos, cheios de tristeza.
Tristeza, sim. Tristeza.
Uma vez eu fiquei sentada
um dia inteiro na frente da janela aberta.
E ao longo do dia, a cortina ficou voando no meu rosto.
Isso significava:
"Onde est� o meu amor?
Onde est� o meu outro? Por que ele n�o vem?
Por que ele n�o aparece?
Por que ele n�o me encontra?"
E aquela cortina n�o parou de voar na minha cara.
Atirando assim o meu outro na minha dire��o.
N�o!
Tirando!
D�i, hoje, ver a verdadeira face de uma mulher.
Por que a dor?
Porque ela est� condenada a ser sozinha.
A permanecer sozinha.
At� hoje?
Talvez desde sempre.
� terrivelmente doloroso estar ao mesmo tempo viva e s�.
Lembra que na nossa inf�ncia
havia uma esp�cie de liga��o entre o ver�o
e aquela planta selvagem chamada balsamina:
"ver�o-balsamina"
A balsamina tinha um nome mais comum:
"Noli me Tangere" que quer dizer: "N�o me Toque"
O nome dela veio de umas frutas com forma de c�psulas alongadas,
e que durante o ver�o iam ficando cada vez mais abauladas.
E quando, apesar do nome delas, ou talvez por causa dele,
eu tocava numa delas, ou mal chegava a tocar,
elas explodiam fazendo um barulho seco quase inaud�vel.
E apesar disso, ou talvez gra�as � fragilidade dele,
no sil�ncio estival da floresta, especialmente aud�vel,
quase como o som de uma m�sica estranha.
Elas explodiam e ao mesmo tempo murchavam
lan�ando os gr�os das sementes em todas as dire��es do espa�o a�reo.
Essas explos�es da "Noli me Tangere" e o lan�amento das sementes,
com uma c�psula sendo tocada ap�s a outra,
significava para mim n�o apenas o ver�o,
mas o meio dele, o �pice dele,
o pleno ver�o de hoje.
Naquela �poca
eu era a "mulher de uma tristeza constante"
A presen�a de um homem de tempos em tempos, sim.
Mas a presen�a de um homem jamais foi uma solu��o.
E sim, o corpo de um homem,
e, principalmente o sexo dele, sempre era uma surpresa.
Mas n�o uma boa.
O equil�brio
e muito mais do que simplesmente um equil�brio,
o contrapeso da surpresa ruim s� podia ser alcan�ado com o amor.
Eu at� sentia, esporadicamente, amor por uma crian�a,
ou por um ser humano velho, bem velho.
Jamais amor por um adulto. Nem homem, nem mulher.
O que existe de mais caloroso do que a forma feminina?
O que � mais doce? O que � mais fortificante?
S� tome cuidado se ela quiser governar.
O orgulho, claramente autorit�rio
com o qual uma mulher, depois que ela esteve com o seu bem-amado,
olha ao redor dela, mesmo que n�o tenha ningu�m ao redor,
� uma coisa completamente diferente.
Nessa outra maneira autorit�ria
s� uma mulher pode olhar assim: uma mulher que ama.
Existe um outro sinal do �pice do ver�o, do pleno ver�o como hoje:
aquelas pequenas valas, ou covinhas,
aqueles buracos redondos na areia das pra�as,
nas plataformas de trem, ou nos terrenos baldios.
Essas covinhas min�sculas formam feitas na areia pelos pardais.
Milhares desses p�ssaros, durante o per�odo de seca do ver�o,
tomam banho de areia nelas.
Talvez nem tanto para se limpar, mas para se livrar dos insetos
que ficam embaixo das asas deles, na plumagem deles.
Cada pardal, muitas vezes v�rios ao mesmo tempo,
fica girando aqui e ali bem r�pido, com a barriga para baixo,
como se n�o tivesse patas, com as asas abertas.
Elas giram como uma h�lice.
E o pardal seguinte toma o seu banho do mesmo jeito.
Freneticamente e em �xtase.
Assim, os milhares de pardais v�o deixando esses buracos mais profundos
que ganham o aspecto de um modelo regular e sobretudo r�tmico
por toda a extens�o da areia.
E um dia antes de a chuva chegar, quando as covas est�o bem fundas,
cada novo elemento do modelo, no mesmo n�vel embaixo do solo,
essas covas r�tmicas,
essas s�o as imagens simb�licas do pleno ver�o.
Lembre das �ltimas aterrissagens dos pardais naquele dia.
Cada buraco, funil, cratera, ocupada por um pequeno p�ssaro,
e todos eles girando mais freneticamente,
mais extasiados do que nunca.
Lembre
como toda a extens�o ficou quase invis�vel sobre as nuvens,
com aqueles minitornados de areia naquele dia.
E como, uma hora depois da partida da popula��o para os arbustos,
a chuva amea�ava,
um gr�o ap�s o outro, pingando no fundo das crateras,
como se o �xtase dos banhistas continuasse no vazio,
na aus�ncia.
Aquela foi a �poca que eu chamo
de "a �poca sem consequ�ncias"
Ou se preferir, "a �poca de momentos desconexos"
E depois?
A �poca sem conselho.
Ou se preferir, a �poca do...
"o que posso fazer?"
"eu n�o sei o que fazer"
"eu n�o sei mais o que fazer, o que posso fazer?"
E essa �poca est� durando. Ela est� continua durando.
Ela se tornou ainda mais palp�vel, mais violenta no ver�o.
Onde est� escondido...
meu lado am�vel?
O meu eu am�vel? A minha crian�a?
O meu eu?
Me mostre o lugar onde voc� est� escondido.
Pra mim, mulher, hoje,
cada desconhecido, sem exce��o,
� primeira vista � um poss�vel inimigo.
E depois de muito tempo, n�o mais uma poss�vel silhueta.
Onde est� a mulher
que n�o se declara mais somente "mulher de um homem"
mas que tamb�m vive como mulher de um homem,
como antigamente, nos faroestes.
Talvez n�o passasse de uma fic��o,
mas uma fic��o, pela sua pr�pria natureza, n�o � s� uma fic��o.
Fic��o?
Imagina��o.
Essas mulheres imagin�rias dos faroestes
e nos �picos medievais
n�o eram de modo algum, n�o s�o de modo submissas aos homens.
Ou pior, escravas.
N�o existe desejo mais nobre do que esse que essas mulheres imaginavam.
Viva o outro imp�rio!
A monarquia da mulher de um homem.
Monarquia n�o heredit�ria, n�o constitucional.
Monarquia ef�mera, sem poder, sem representa��o.
Simplesmente imaginada, mas imaginada a partir de uma mat�ria:
a mat�ria do desejo.
C�u e Terra v�o desaparecer,
mas o meu desejo n�o vai desaparecer nunca.
Para ser, para encarnar uma rainha como essa,
eu daria, eu sacrificaria tudo por tudo.
Rainha lava-janela.
Rainha cal�adeira.
Rainha...
corta-cabelo e faz-barba.
Rainha desmanchando-seu-penteado.
Rainha aquecendo-a-cama.
Rainha tratando-o-cavalo.
Rainha tirando-pulgas-do-c�o.
Rainha...
abrindo-os-bra�os.
Rainha roubando-frutas.
Rainha descascando-batatas.
Rainha colando-a-asa-de-uma-x�cara.
Rainha lendo-em-voz-alta-pela-casa.
-Rainha... -Aranjuez!
...de uma contra-hist�ria.
H� muito tempo que Aranjuez n�o tem nem rei...
Nem rainha.
Mas naquele dia, andando pela cidade eu fui me deparando,
principalmente fora da cidade,
sinais e ins�gnias de um reino de outros tempos.
E eram ins�gnias e sinais vivos,
n�o eram inanimados, animados e animantes.
Um belo dia de pleno ver�o como hoje.
E finalmente, o castelo,
o parque, o centro, a periferia de Aranjuez atr�s de mim, bem longe.
Enfim, as �ltimas casas, cabanas, barracos, postos de gasolina, canis.
Atrav�s da savana,
grama alternando com as pedras de granito da La Mancha e do bosque,
carvalhos, castanheiras e �lamos, como nos parques reais,
e ao mesmo tempo nada.
As �rvores chamadas de selvagens entrela�adas,
umas se batendo contra as outras como se lutassem para sobreviver.
E a floresta inteira quase intocada, quase uma floresta virgem.
Antes da minha chegada a Aranjuez,
tinham comentado comigo sobre as hortas em volta da resid�ncia real.
As hortas do Rei.
Antigamente lindas e lotadas de legumes de frutas de todo tipo
e hoje em dia desaparecidas.
Esses legumes e frutas do passado
eu encontrei de novo na floresta selvagem
no caminho de volta da savana.
Assim que me acostumei com a escurid�o entre as �rvores,
eu vi ainda brotando nos p�s,
gra�as a luz que entrava horizontalmente,
uma cintilante cor de rubi, onipresente, constante,
�s vezes ali parada im�vel,
outras, no momento em que o vento come�ava a soprar,
balan�ando, como se oscilassem.
Adivinhe o que era.
Hoje n�o � dia para adivinha��es.
Eram groselhas.
Que foram plantadas como cerca-viva contornando a horta real.
E que, com o abandono da horta,
tinham imigrado para a floresta selvagem da estepe.
Elas sa�ram da cidade, passaram sobre o Rio Tejo
e subiram at� Meseta.
Elas se transformaram durante a viagem pelo espa�o e pelo tempo
durante seus trajetos s�culos ap�s s�culos.
Elas se tornaram notavelmente menores
e o n�mero de frutas nos galhos � bem menor do que a groselha cultivada.
Por outro lado, a cor de rubi ficou mil vezes mais intensa,
como se o brilho de cada uma dessas p�rolas-fruta
fosse gerado pela pr�pria groselha selvagem,
que ganhou um aspecto mais selvagem
que os morangos, as framboesas e as amoras ao redor.
Uma cor de rubi muito intensa
n�o apenas por causa da diminui��o de tamanho durante a imigra��o,
mas tamb�m
gra�as a concentra��o do conte�do de todos esses pequenos refugiados.
Eu provei uma dessas groselhas selvagens. Uma s�.
Uma explos�o de �cido
e ao mesmo tempo de do�ura na minha boca
que simultaneamente se espalhou pelo meu corpo inteiro
deixando em mim um gosto muito mais dur�vel
do que qualquer outra fruta real.
Um gosto que eu ainda sinto
e que vai permanecer comigo at� o fim.
E voltando para Aranjuez,
eu encontrei na savana outros fugitivos
da horta do rei, um atr�s do outro.
Um atr�s do outro. Feij�es verdes, brancos e pretos,
ervilhas, tomates, pepinos, crescendo ali no mato alto da savana.
E principalmente ab�boras redondas amarelas,
algumas vezes com listras vermelhas e pretas, de todos os tamanhos,
como em nenhuma outra horta.
E esses frutos da terra que imigraram
da civiliza��o e da cultura para a estepe
cresciam como crian�as selvagens.
E todos, sem exce��o, em c�rculos.
Em c�rculos que os antigos bot�nicos chamavam de "c�rculos de feiticeiras"
C�rculos que se interceptavam e se entrela�avam.
Um c�rculo de ab�boras interceptado por um c�rculo de repolhos.
Um c�rculo de berinjelas pretas entrela�ado a um de pimentas
bem pontiagudas de um vermelho quase berrante.
Caminhando naquele dia de ver�o,
eu ia seguindo aquelas centenas e centenas de c�rculos de feiticeiras.
Que maneira de andar foi aquela!
Existem feiticeiras boas tamb�m. Ou existiram.
E os pardais sempre voavam para longe dos c�rculos.
Cada vez um bando inteiro.
Dev�amos caminhar muito mais assim pela a Terra.
Uma a��o!
N�o estava combinado nenhuma a��o.
S� di�logos!
Uma pequena a��o � permitida e at� necess�ria.
Devemos nos separar do barulho das folhas
das �rvores ao vento do ver�o agora!
Hoje e outro dia.
E logo, para sempre!
Nos livrar desse burburinho que nos pega
pelo cabelo e nos leva para longe
nos deixando no mesmo lugar, como nenhum outro barulho. Atualidade!
As atualidades! Nos deixem em paz!
Flores!
Flores para os mortos!
Flores para os mortos!
Flores!
Flores para os mortos!
Os belos dias em Aranjuez chegaram ao fim.
N�s ficamos aqui em v�o.
Quem sabe o que est� adormecido nas profundezas do tempo?
N�o existe amor feliz.
Nada...
al�m da loba faminta.
E agora, por uma fra��o de segundo, a sombra de um p�ssaro gigante.
Ou era um avi�o?
Como se o sol tivesse piscado.
Em alguns momentos,
o choro de ang�stia incessante de uma crian�a.
Um gemido como o choro antes da morte.
Um choro de morte.
Em alguns momentos, o miado longo de dois gatos.
Cada ser procura o seu outro.
E l� em cima, os gansos selvagens do outono j� voam para o sul.
Um j� perdeu o amor do outro desde o in�cio.
E para sempre. Mesmo que o outro n�o tenha perdido.
Um j� perdeu o amor do outro desde o in�cio.
E para sempre. Mesmo que o outro n�o tenha perdido.
N�o!
Na idade m�dia, a palavra que significava "amor"
era feminina: "la amors"
N�o existe amor feliz.
"N�o h� amor feliz".
"A Terra est� nua
e a alma uiva para o horizonte p�lido como uma loba faminta".
"La loba fam�lica"
Nada al�m da loba faminta.
Voc� e seus intermin�veis contos de ver�o.
Fernando!
Olhe aqui...
a outra eternidade.
Uma silhueta? Mais uma.
"Aqui terminam os belos dias de Aranjuez.
N�s ficamos aqui em v�o".
Eu n�o estou saciado.
Quem sabe o que est� adormecido nas profundezas do tempo?
Estou com fome, Soledad.
Eu estou com sede.
� muito estranho ficar nua...
mesmo sozinha...
Subpack e sincronia by DanDee
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