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VARDA POR AGN�S
Obrigada por me convidarem.
Ver que esta sala maravilhosa de �pera se transformou em uma sala de cinema,
intimida-me.
Devem existir alguns filhos do para�so aqui em cima.
Alguns de meus filmes s�o conhecidos,
alguns s�o bem conhecidos,
outros n�o.
Eu gostaria de lhes dizer o que me levou
a fazer este trabalho, todos esses anos.
Tr�s palavras s�o importantes para mim:
inspira��o, cria��o e compartilhamento.
A inspira��o � o motivo pelo qual voc� faz um filme.
As motiva��es, ideias, circunst�ncias
e casualidade
s�o o que inflama seu desejo de fazer um filme.
A cria��o � o 'como' voc� faz o filme.
Com que meios, qual estrutura?
Sozinho ou com algu�m? Em cores ou n�o?
Cria��o � trabalho.
E a terceira palavra � compartilhar.
Voc� n�o faz filmes para v�-los s�.
Voc� faz filmes para mostr�-los.
Voc�s s�o a prova disso.
Essas tr�s palavras me guiaram.
Precisamos saber por que fazemos este trabalho.
Vou come�ar com um curta-metragem,
um que eu sempre mostro em minhas palestras.
Porque...
um membro da fam�lia est� no filme.
Um senhor mais velho que ir� me apresentar, como no passado.
Por acaso, eu estava em San Francisco,
para um festival.
Um amigo disse: "Voc� deveria conhecer esse homem,
um pintor chamado Varda.
Ele mora em um barco, em Sausalito."
Ent�o fomos v�-lo. Era quarta-feira.
Eu instantaneamente me apaixonei por ele.
Eu absolutamente tive que film�-lo.
Na verdade,
n�o era muito sobre conhec�-lo,
era sobre saber imediatamente como film�-lo.
Imaginei a edi��o enquanto o filmava.
Eu queria compartilhar a espontaneidade,
a alegria e a emo��o do encontro.
E ent�o, o que acontece? Eu digo: "A��o!"
Sr. Varda?
Eu n�o sei.
Voc� � filha de Eug�ne Varda?
Sim, sou.
Corta!
Ent�o voc� � minha sobrinha!
Parece que sim.
Corta!
O exemplo perfeito de um milagre.
Da minha inspira��o para as filmagens, houve um dia e meio.
E ent�o levei meu tempo editando.
Para aqueles de voc�s que querem fazer filmes,
especialmente aqueles que est�o come�ando,
voc�s precisam de paci�ncia.
Voc� tem um projeto, mas precisa de dinheiro, da sua escola ou de outro lugar.
Ent�o...
voc� precisa de paci�ncia, mas tente contornar esse obst�culo.
Filme rapidamente com os meios dispon�veis.
Eu mostro este filme por seu bom humor,
e pelo maravilhoso Yanco.
Mas meu filme mais conhecido � "Cl�o das 5 �s 7".
Algu�m na plateia viu "Cl�o"?
Que beleza!
Um bocado de gente, como se costuma dizer no sul.
"Cl�o" foi inspirado
por duas impress�es muito fortes.
Nos anos 60, havia medos coletivos, como sempre.
O mais comum era o c�ncer.
As pessoas temiam o c�ncer.
Al�m disso, o produtor me disse:
"Eu vou fazer um filme com voc�, como fiz com Godard e Demy,
mas tem que ser barato".
Ent�o, como far�amos isso?
N�s poder�amos filmar em Paris. Sem despesas de viagem, sem hot�is.
A a��o podia ocorrer em um dia, limitando sets e loca��es.
Ocorreu-me diminuir ainda mais o prazo.
Eu filmaria uma hora e meia de sua vida. 90 minutos, como um filme.
Na verdade, eu sigo Cl�o
das 17h �s 18h30.
Ilustrar o tempo � dif�cil.
O tempo parece diferente se estamos felizes ou ansiosos,
se estamos esperando algu�m ou nos divertindo.
Eu chamo isso de tempo subjetivo.
E depois h� um tempo objetivo.
Tempo com o qual n�o podemos discutir. Tempo mec�nico,
contado em horas, minutos ou at� segundos.
Eu queria
combinar o tempo objetivo, os rel�gios que vemos em todos os lugares,
com o tempo subjetivo,
como Cl�o se sente durante o filme.
Voc� est� errada. A carta n�o significa necessariamente morte.
A cartomante diz que significa transforma��o, n�o morte.
Mas Cl�o v� um homem enforcado e ossos chocantes.
Isso a assusta.
O medo dela � a amea�a de morte,
consciente ou inconscientemente, isso fica com ela.
Assim como esta linda mulher
pintada por Baldung Grien.
Um esqueleto sussurra em seu ouvido o que ela n�o quer ouvir.
Ou puxa o cabelo dela.
Eu tinha reprodu��es, cart�es postais,
imagens min�sculas para olhar.
E uma grande imagem mental no cora��o de meu projeto.
O filme est� dividido em duas partes.
Os primeiros 45 minutos, e os segundos 45.
Exatamente no meio, ela canta sua m�sica.
E se voc� chegar tarde demais...
Eu vou descansar...
Sozinha, feia e p�lida...
Sem voc�...
� demais.
Eu n�o posso continuar.
� horr�vel!
- O que h� de errado? - Ela est� cansada.
E voc� sabe, a palavra desespero � ruim. Como a palavra corda.
As rimas importam mais do que as palavras.
� uma m�sica linda.
Voc� revolucionar� o neg�cio da m�sica!
S�rio? O que � uma m�sica, afinal? Quanto tempo dura?
Outro capricho.
Capricho, capricho! � tudo o que voc� diz!
Voc� me faz assim!
Tratando-me como uma idiota ou uma boneca de porcelana!
Agora vou liderar uma revolu��o com palavras sombrias?
Voc� chama essa m�sica de charmosa? Meu grande sucesso?
Eu serei um funeral de sucesso!
Voc� me cansa, me explora! V� embora!
N�o, eu mesma vou! Ang�le far� voc� beber.
A sess�o acabou!
Deixe as m�sicas, eu escolho depois.
Cortei duas cenas para esta apresenta��o.
Vou usar preto.
Em harmonia com suas m�sicas.
E ela desce.
Existem dez degraus.
Filmamos todos os dez.
Ent�o filmamos cada passo que ela d� para atravessar o p�tio.
Escolhemos n�o trapacear com a dist�ncia ou a geografia.
O p�tio leva � Rua Huyghens.
Foi para onde ela andou.
� a rua real que leva ao Boulevard Raspail.
A cal�ada era como era, com pessoas olhando-a a passar.
Eu queria ir da coqueteria da primeira parte
para algo mais real.
Cl�o e o que acontece ao seu redor.
Pessoas,
pombos...
Ent�o ela percebe
uma loja chamada "Boa Sa�de".
E ela n�o aguenta mais o chap�u.
Esse rosto de boneca, sempre o mesmo. Esse chap�u rid�culo.
Ela tira. Ela se torna uma mulher que v�.
Ela n�o � mais vista, como na primeira parte.
Ela v�.
Eu tinha notado um artista de rua.
Pedi para ele voltar. Vermos o que ela v�.
Como um cara ganha a vida.
Vamos, sapo. Hora de um novo aqu�rio.
Terceiro sapo!
Voc� n�o pode deixar de notar.
Mesmo na fic��o, eu gosto de adicionar elementos documentais.
Neste filme, enquanto seguimos Cl�o e seu medo,
vemos pessoas em caf�s,
nas ruas.
Eu amo document�rios.
Eu conhe�o alguns grandes que foram feitos em lugares distantes.
Mas grandes jornadas documentais est�o muito longe de mim.
Eu quero filmar perto de mim. O que eu sei.
"Daguerre�tipos", na minha rua, Rua Daguerre.
Eu escolhi filmar meus vizinhos e comerciantes,
aqueles que me venderam p�o, carne, ferragens. O cabeleireiro...
Eles criam um tipo de vila.
Na padaria, as pessoas esperam na fila.
Como em toda parte, esperam a sua vez.
Ficamos l� pelo tempo que se levava
para comprar ou vender alguma coisa.
Nurith Aviv �...
uma diretora de fotografia. Uma 'camerawoman'.
Ela fez o trabalho.
Tivemos cenas sequenciais
onde a c�mera permaneceu nas pessoas, esperando.
Nada acontece,
ainda que algo aconte�a por dentro.
� isso.
V�deos e comerciais se movem muito r�pido.
Mas quando voc� est� na dura��o,
voc� est� realmente dentro.
E n�s entramos
Nurith n�o tinha espa�o. Nem eu, naquela �poca.
Fomos montar tudo escondidas em um canto.
O engenheiro de som tamb�m.
A ideia era filmar pessoas,
quer elas percebessem ou n�o.
Quando voc� decide olhar atentamente para algo,
isso pode ser banal, mas a� n�o � mais banal.
O pr�prio ato de olhar muda isso.
Nada � banal
se voc� filmar pessoas com empatia e amor,
se voc� as achar extraordin�rias, como eu fiz.
Filmamos esse padeiro no trabalho.
Eu amei como ele marcou a massa de p�o
com sua l�mina de barbear.
Eu escutei atentamente o que os comerciantes disseram.
Eles n�o eram muito abertos.
Eles n�o eram muito amig�veis com pessoas de fora.
Eles representavam a maioria silenciosa.
Foi o que eu filmei.
Isso me faz pensar,
em contraste ao que acabei de dizer,
que filmei uma minoria enfurecida.
"Os Panteras Negras".
Eles eram um movimento de negros americanos
que em 1968,
criou um programa pol�tico, falou e protestou
porque alguns de seus l�deres tinham sido presos,
e um estava na pris�o, Huey Newton.
Eles realizaram com�cios de protesto.
Jacques Demy e eu mor�vamos em Los Angeles, ent�o.
Eu peguei um avi�o para filmar os protestos em Oakland,
perto de San Francisco.
Eu era uma garota com uma c�mera de 16mm. Eu disse: "televis�o francesa",
e eles me deixaram entrar enquanto estavam treinando.
- Quem � voc�? - Panteras Negras.
- Por que voc� est� aqui? - Para libertar Huey.
- Como? - Os ensinamentos de Huey.
- O que s�o? - As armas.
Esta irm� aqui, eu, todos n�s nascemos com esse cabelo.
Usamos assim porque � natural.
Os negros agora percebem que sua apar�ncia f�sica � linda.
O movimento Pantera Negra n�o durou muito tempo,
mas foi uma revolta negra,
por sua identidade, e foi uma revolta feminista.
O feminismo j� estava forte nos EUA, na d�cada de 1960.
Obviamente, eu era feminista.
Eu era, e ainda sou.
E devo dizer,
quest�es em torno da liberta��o das mulheres,
especificamente, a quest�o da pol�tica do corpo,
realmente me preocupavam.
Naquela �poca, havia lutas
lutadas por mulheres e homens
que levaram ao direito dos contraceptivos em 1972,
e ao direito ao aborto em 1975.
Agora � hist�ria antiga,
mas eu passei pela experi�ncia
e queria contar a hist�ria.
Para fazer isso,
eu tive a ideia de duas mulheres jovens.
Uma j� com filhos, a outra, uma rebelde nata.
Voc� est� gr�vida?
2 meses, mais ou menos.
N�o chore, fa�a um aborto.
Como, onde? Acha que � f�cil?
Encontraremos um jeito.
Voc� ainda n�o saiu?
Andr�, voc� me prometeu!
Por que voc� mente? O que fizemos com voc�?
- Eu precisava de dinheiro. - Como sempre.
Por que voc� n�o pediu?
Era para um aborto, voc� diria que n�o.
O qu�?
Minha amiga Suzanne precisava de dinheiro para um aborto.
A amizade delas dura.
10 anos depois, n�s as vemos novamente,
depois que ambas viveram, amaram e travaram a luta feminista.
A luta feminista
era algo que eu queria
colocar na m�sica.
Nem papai, nem papa, nem rei...
Nenhum juiz, nenhum m�dico...
Nenhum legislador...
Vai impor a lei no meu corpo...
Biologia n�o � destino...
As leis do papai est�o desatualizadas...
Meu corpo pertence a mim...
Eu sou quem sabe...
Se quero ou n�o...
dar � luz.
Se devo trazer uma nova vida...
A esta exist�ncia terrena...
Ser plana ou redonda...
A escolha � minha...
Meu corpo pertence a mim...
Eu realmente levei isso a s�rio.
Para a m�sica, contratei Fran�ois Wertheimer
e um grupo de garotas chamado 'Orchid�e'.
Usamos textos de Engels e Marx,
que diz uma coisa muito interessante:
"Hoje em dia, na fam�lia, o homem � burgu�s,
e a mulher representa o proletariado".
Flui melhor em uma m�sica.
Mas vale a pena dizer.
Ouviu isso, passarinho?
Ou�am.
Quando homens e mulheres trabalham em per�odo integral,
voc� pode definir a m�sica que as mulheres de turno duplo fazem.
H�bitos dom�sticos.
Amizades incr�veis foram formadas
nessa luta coletiva.
As mulheres eram alegres.
N�s r�amos muito enquanto lut�vamos pelos direitos das mulheres.
A alegria e o bom humor do grupo se refletiu no filme, espero.
Agora eu vou pular.
Muito depois, contei a hist�ria de uma garota furiosa.
Desta vez n�o em grupo, sozinha.
Uma solit�ria enfurecida.
Muitos caras estavam na estrada.
Era meio que uma moda.
E eu notei que as mulheres tamb�m estavam fazendo isso.
Mochileiras.
Eu queria fazer um filme sobre essas vagabundas sem lei.
Eu queria encontrar liberdade e sujeira.
Contar a hist�ria de uma jovem mulher na estrada.
Ent�o, escrevi "Os Renegados".
Eu pedi por Sandrine Bonnaire,
que estivera em "Aos Nosso Amores", de Pialat,
e ainda tinha apenas 17 anos.
Ela era exatamente de quem eu precisava.
- Onde encontro uma loja de tabaco? - Aqui n�o.
Ela � descrita pelas pessoas que conhece.
Eles falam muito dela.
A raiva de Mona � o que a mant�m viva.
Mas dizer n�o a todos leva-a � morte.
A estrutura do filme era precisa.
Eu queria a c�mera andando pelas estradas com ela.
Para isso,
usei travellings.
Existem 13 no filme.
Os planos se movem da direita para a esquerda, o que � chocante,
porque � o oposto de como lemos no Ocidente.
Cada travelling dura um minuto.
Acompanhamos Mona e sua mochila.
Estamos em paisagens rurais, n�o particularmente charmosas.
No final de cada captura em travelling, a c�mera deixa Mona
para filmar um elemento ou objeto local.
Cada travelling subsequente chega cerca de 10 minutos depois,
e come�a com um objeto ou elemento
refletindo o que vimos.
Eu gostei de montar um enigma pelo qual apenas eu conhecia o segredo.
Na verdade, o filme inteiro
� um retrato sobre a forma
de um travelling descont�nuo.
Dez minutos depois, no filme...
Este era o travelling seguinte.
A m�sica � de Joanna Bruzdowicz,
composta exclusivamente para os travellings.
Uma surpresa ador�vel, Sandrine chegou.
Eu j� falei sobre a estrutura do filme.
Agora eu gostaria de discutir o que o papel significou para voc�.
A primeira coisa que voc� me contou sobre o papel foi:
"Ela � uma garota que...
nunca diz obrigada, que fede, e que diz a todos para se foderem".
N�s nunca discutimos
de onde ela veio, ou por que ela estava na estrada.
Era sobre como ela vivia.
Como ela encontra comida, onde ela dorme, como ela se comporta.
N�s n�o a analisamos.
N�s focamos no que ela fazia.
- As a��es dela. - E o comportamento.
Voc� praticou como colocar sua mochila.
Como cal�ar suas botas.
Voc� me mandou acampar com Setina.
- Voc� dormiu sob o c�u. - N�s o fizemos.
Voc� queria que eu aprendesse a fazer fogo e armasse uma barraca.
Tem uma cena onde voc� conserta suas botas.
Tudo era concreto, coisas f�sicas.
Lembro-me de podar videiras.
A poda requer gestos simples, mas precisos.
Voc� me aceitou quando eu disse: "Voc� � Mona, descubra-a."
Sua pr�pria rebeli�o entrou na personagem.
Eu s� precisava estar l�.
E voc� estava s�lida e resistente.
Eu n�o fui f�cil com voc�. Eu lhe causei uns tempos dif�ceis.
Vamos l�!
Eu me lembro de um ponto, em que eu havia desenterrado um jardim inteiro
e estava com bolhas.
Eu disse: "Bolhas de verdade, como voc� queria!"
Voc� disse: "Que bom!"
Isso me incomodou!
Eu deveria ter lambido suas bolhas, em gratid�o!
O filme � incomum,
porque voc� est� morta no come�o.
Mesmo sendo jovem, eu imaginei minha pr�pria morte.
Obviamente.
E n�s fizemos voc� fazer isso. Entrar na sacola como um cad�ver.
Isso realmente me assustou.
O cinema pode ser muito humilhante.
Voc� tem um projeto, voc� escreve, voc� faz,
com uma atriz, como voc�...
Mas durante as filmagens,
as coisas podem parecer bastante angustiantes.
Ap�s o plano de Mona morta, uma praia...
As praias s�o uma fonte de inspira��o.
Uma paisagem mental.
Voc� tem os tr�s elementos.
C�u, mar e terra.
Aqui, a terra � areia e algas marinhas.
Lembro-me das obras de Bachelard,
um fil�sofo de cujas aulas eu participei.
"A �gua e Os Sonhos",
"O Ar e Os Sonhos",
"A Terra e Os Devaneios do Repouso"...
Sonhos, devaneios,
sonhos e repouso. Tudo o que eu amo.
Mas ele tamb�m escreveu "A Terra e Os Devaneios da Vontade".
Vou continuar meu bate-papo daqui.
E vou convidar p�ssaros e crian�as.
� encantador conversar com p�ssaros.
Mas reais ou falsos, eles n�o me entendem.
Fazemos filmes para compartilhar com o p�blico,
ent�o pensei: "Como seria horr�vel se eles n�o ouvissem ou assistissem".
O pesadelo de um cineasta.
Um cinema vazio!
Pesadelo!
Alguns de meus filmes foram bem no cinema.
Outros nem tanto.
Vamos pular. Eu n�o posso falar sobre todos os meus filmes.
Eu n�o posso seguir a crimin...
N�o a criminologia, a cronologia!
Vamos pular para um filme de ver�o que eu fiz,
na d�cada de 1960,
chamado "As Duas Faces da Felicidade".
Eu imaginei pinturas impressionistas, com sua melancolia.
E, no entanto, s�o cenas felizes da vida cotidiana.
Ouvi Mozart e ponderei a morte.
Eu escrevi e filmei rapidamente...
Como a clareza brilhante dos nossos ver�es muito curtos.
V�o dormir, crian�as. Papai est� dormindo.
Fique quieto.
Eu queria mostrar a felicidade, como ela � tradicionalmente descrita.
Uma mulher e um homem, filhos lindos.
Eles amam a natureza.
Eles s�o amig�veis, despretensiosos.
Um modelo para a felicidade.
E eu queria definir a hist�ria em Ile-de-France.
Em lugares que inspiraram os impressionistas.
Eu filmei no ver�o,
em tons suaves e delicados.
Acompanhei a hist�ria com m�sica de Mozart,
que parecia expressar felicidade
com um pouco de ang�stia.
Jean-Claude Drouot era um her�i da TV.
Ele era Thierry la Fronde.
Eu fui ao bosque pedir que ele estivesse no meu filme.
Ele estava a cavalo, fantasiado.
Eu disse: "Com licen�a, desculpe incomod�-lo.
Voc� concorda em fazer um filme com sua verdadeira esposa e filhos?"
Sua esposa hesitou no come�o, mas eles fizeram.
N�o tem problema. Annie pode vir de bab�, �s 8h30.
Podemos pegar o show das 9 horas.
Eu adoraria isso.
Na superf�cie, � uma hist�ria simples de uma fam�lia feliz.
Ele est� feliz com sua esposa.
Mas ent�o ele conhece uma funcion�ria dos correios.
Ela se parece com a esposa dele.
Ele se apaixona.
Ele acha que pode
adicionar felicidade � felicidade.
Os cr�ticos tiveram um dia de campo. Ultrajante, ultrajoso!
Fidelidade significa alguma coisa?
Voc� pode filmar a felicidade? N�s temos esse direito?
Eu me diverti tanto escolhendo as cores.
Eu fui fundo no azul,
no amarelo, no vermelho...
Aqui temos um piquenique predominantemente vermelho.
Eu tamb�m pensei,
em vez de terminar as cenas com o tradicional desbotamento para preto,
seria bom desbotar em cores.
Ent�o as cenas terminavam
em vermelho, azul, roxo, amarelo.
Eu at� fiz uma bandeira
com uma dissolu��o em azul,
uma em branco e uma em vermelho,
para anunciar o dia da Bastilha.
14 de julho.
Eu costumava descrever o filme
como um lindo p�ssego de ver�o, com um verme dentro.
Uma trag�dia.
Ele n�o pode suportar a situa��o.
Ele n�o pode se conectar a isso.
Ent�o eu usei da repeti��o.
Eu tentei a repeti��o.
Eu usei a repeti��o.
Eu gostaria de discutir o que � um filme como um todo.
Na literatura, fala-se de estilo.
No cinema, uso a palavra "cinewriting" (cine-escrita).
Abrange todas as escolhas feitas durante a realiza��o de um filme.
O que voc� filma? Planos fluidos ou bruscos?
Imagens claras e isoladas ou espa�os lotados?
Andamento? M�sica?
Tudo toma forma na sala de edi��o.
�s vezes eu tinha que adicionar coment�rios,
ficar no filme e estar com o p�blico.
Mas na edi��o e mixagem termin�vamos a cine-escrita.
Quanto � forma como um filme come�a, a vida �s vezes decide.
Em um momento muito triste de minha vida, quando Jacques Demy estava doente,
ele compartilhou suas mem�rias, anotou-as.
Antigas lembran�as de sua inf�ncia.
Ele foi criado em Nantes, na garagem onde seu pai trabalhava.
Ele estava tomando notas.
A cada dia ele as mostrava para mim.
Eu disse: "Este seria um �timo filme. Voc� vai fazer isso?"
Ele disse: "Voc� faz isso. Estou cansado demais".
Ent�o eu escrevi um script sobre a inf�ncia de Jacques Demy.
Situado na verdadeira garagem.
Expulsamos os mec�nicos. Eles nos deixaram usar o lugar.
A velha bomba de gasolina ainda estava l�. N�o havia sido removida.
Foi uma experi�ncia muito particular.
Eu me aproximei do filme de tr�s maneiras diferentes.
Imagens em preto e branco,
estilo anos 30,
que conta a hist�ria de sua inf�ncia.
Depois, havia trechos em cores,
dos filmes que Jacques Demy fez mais tarde,
tudo inspirado
em sua inf�ncia.
O motor bate quando est� frio, n�o se preocupe.
Obrigado.
Est� pronto para ir?
Sim.
O motor bate quando est� frio, n�o se preocupe.
E ent�o houve um terceiro filme dentro do filme,
Jacques ainda estava vivo, mas muito doente.
Eu o amava e queria estar o mais pr�ximo poss�vel,
ajud�-lo o m�ximo que pudesse.
Em termos de cinema, isso significava close-ups extremos.
Todo filme � um desejo de parar o tempo e negar a morte?
N�o.
Eu n�o vejo dessa maneira.
N�o parar o tempo. Acompanhar o tempo.
O filme acompanha Jacques quando ele morre.
Como ele se lembra de sua inf�ncia.
O amor pelo cinema come�a cedo para alguns.
O pequeno Jacquot inventou o cinema, ouso dizer.
Veja.
Bom arranjo.
- � fr�gil! - O que � isso?
N�o bata na c�mera.
Veja. Para fazer a bailarina se mover,
movo a perna dela e filmo.
Movo a perna dela, filmo.
Entendeu?
Cria um movimento cont�nuo. Se voc� filmar meu bra�o...
voc� recebe um movimento cont�nuo.
Agora v� em frente. Eu preciso de concentra��o.
Nada bom. Est� tudo fora de foco.
Nada bom.
V�rios anos depois, contra sua vontade,
Jacquot trabalhou na garagem de seu pai.
E isso vai em volta do pesco�o do cliente?
Comece de novo!
Onde est� sua cabe�a?
Em Hollywood!
Um mec�nico!
Isso � extraordin�rio. Anos depois,
depois do sucesso de "Os guarda-chuvas do Amor",
ele foi convidado para trabalhar em Hollywood.
Eu fui com ele.
Em Los Angeles eu descobri, como todos,
as estrelas das estrelas.
Na Hollywood Boulevard.
E eu conheci alguns dos �dolos e estrelas
da nova gera��o hippie.
Eles queriam fazer isso em Hollywood, do jeito deles.
Estrela!
Essa palavra chega a mim...
N�s... somos estrelas.
Tr�s atores com grandes crinas de cabelo: Le�es.
Um tri�ngulo amoroso: Amor...
Televis�o e not�cias. Mentiras.
Para o elenco, escolhi os her�is da cena hippie.
Rado e Ragni, que escreveram e tocaram em "Hair".
E Viva, a musa de Andy Warhol.
Eu fui para a Factory em Nova York, ver Andy,
ele nos apresentaria e a convenceria. Ela era complicada.
Viva, voc� tem que fazer isso!
Agn�s � �tima!
Ela fez um filme maravilhoso chamado "Cl�o das 5 �s 7".
Ent�o ele disse:
"Se eu tivesse feito o filme,
eu teria filmado entre 5 e 7."
Outro personagem do filme era o aparelho de televis�o.
Estava sempre l�, incorporando o esp�rito do filme:
sexo e pol�tica.
O Senador Robert F. Kennedy
morreu hoje, �s 1h44 da manh�.
6 de junho de 1968.
Aqui o sil�ncio foi planejado, mas geralmente eles conversavam muito.
Voc� j� ouviu meu novo disco? Eu estou entre os dez primeiros.
Eles improvisavam.
Eles mudavam o texto de uma tomada para outra.
As cenas eram imposs�veis de editar.
Ent�o eu gravei cada tomada de cada cena com tr�s c�meras de som de 35mm.
�s vezes eles concordavam em posar como modelos.
Esta � uma c�pia exata de um desenho de Picasso,
de uma s�rie que ele fez em 1936.
Esta � outra.
Eu queria destacar Shirley Clarke,
a cineasta de Nova York,
que foi, de certa forma, o meu duplo.
Outro quadro,
este inspirado por uma pintura de Magritte.
Eu penso nisso como uma imagin�ria reportagem, uma fic��o ut�pica.
Do meu tempo em Hollywood.
Uma colagem, feita do meu jeito.
Dez anos depois, uma colagem de nomes nos murais.
Fiquei fascinada com o que vi.
Murais gigantes.
Comecei a document�-los em fotografias.
Voc� raramente sabe quem os criou. Eles n�o est�o assinados. Perguntei aos vizinhos.
Alguns graduados em artes pl�sticas tornaram-se muralistas.
Por exemplo, Kent Twitchell.
Era uma forma de resist�ncia contra a ind�stria da arte.
A ideia � que a arte deva ser livre para todos.
Al�m do rio, est� o leste de Los Angeles, com seu Chicago Art.
Filmei grandes murais,
como os de Willie Herron.
Mas eu tamb�m queria fazer cinema.
Eu cresci nessas ruas
e escrever na parede era apenas um modo de vida.
Todo mundo escreveu seu nome, uma vez ou outra.
Uma noite, cheguei em casa
e vi meu irm�o deitado sobre sangue.
Tinha cerca de 16 anos.
Ele havia sido atacado por uma gangue rival.
Apenas deitado ali, com sangue.
A gangue estava do outro lado da ponte.
A caminho do hospital,
coletei todas essas imagens
e coisas diferentes passaram pela minha cabe�a,
decidi que
uma maneira de possivelmente me vingar
seria atrav�s da arte.
Murais, m�sica, performances...
Com 19 anos, era
uma maneira diferente de expressar
essa press�o que voc� sente por dentro.
Viol�ncia era algo que realmente prosperava
no in�cio dos anos 70.
Muitos dos meus amigos morreram e isso est� acontecendo por toda parte.
Ent�o � como uma mensagem sem fim
que eu escolhi expressar na forma de arte.
Costumo dizer que "Muros e Murm�rios" � um filme sobre a extrovertida Los Angeles.
As pessoas se expressam atrav�s de murais, roupas e palavras.
Mas tamb�m sinto uma Los Angeles introvertida,
triste e desesperada.
� a hist�ria de Emilie, uma francesa exilada em Los Angeles,
� procura de um lugar para viver com o filho dela.
Sabine Mamou, que editou "Muros e Murm�rios", interpretou Emilie.
Esta � a sua casa.
Mathieu Demy interpretou o filho.
Voc� quer dizer que eu vou dormir...
dormir sozinho?
Voc� ficar� bem, ver�.
Se eu n�o gostar, o que faremos?
Se ele n�o gostar, o que eu farei?
Se eles n�o gostarem, o que far�o?
Ele ou ela, o que eles fazem?
Ela � extremamente solit�ria, est� passando por uma separa��o.
Mas ela n�o quer discutir isso com o filho.
N�o se confia em crian�as.
Ent�o eu decidi um processo espec�fico para este filme.
Eu usaria imagens documentais para falar por ela.
Ou mon�logos dela sobre imagens documentais.
Quando voc� perde palavras como terrina, concha, mesa, calor, uni�o...
As �nicas palavras que restam s�o sopa,
solid�o, separa��o, aus�ncia...
Eu tinha acumulado imagens sobre as quais pensamos.
N�s nem sempre sab�amos o que est�vamos capturando.
Sil�ncio ou fala, dor ou paz.
Algumas sequ�ncias eram mist�rios para n�s.
Por exemplo, est�vamos na praia,
filmando Sabine e o garoto.
Deitada na areia,
era uma mulher com uma b�blia, e dois homens de cada lado.
O garoto pergunta a Sabine sobre isso.
Ela n�o tem resposta. N�s tamb�m n�o.
Est�vamos abertos para filmar coisas que n�o entendemos.
Porque no cinema e em outros lugares,
� importante sentir, experimentar.
O que eles est�o fazendo? Ela est� morta?
N�o sei.
Por que n�o ficamos para descobrir?
Nurith Aviv e eu sa�amos � noite para capturar imagens.
Uma imagem em particular me impressionou.
Havia uma mulher lavando a roupa em uma lavanderia.
Acabamos de estacionar o carro. Filmamos pela janela.
Aquela mulher solit�ria mexeu com seus cabelos oleosos por um longo tempo.
Um momento extraordin�rio de solidariedade, sensualidade.
O filme � bastante aprimorado pela m�sica de Georges Delerue.
Ele assistiu algumas vezes,
e improvisou uma partitura cativante, fr�gil e moderada.
Como uma dor suave.
Georges Delerue tamb�m comp�s, 23 anos antes,
a m�sica para este curta, "A �pera-Mouffe".
Como "Documenteur",
esse filme estava ligado � minha vida pessoal.
Eu costumava ir � Rue Mouffetard.
Era quase como a Idade M�dia.
Havia um mercado. Eu amo mercados.
E havia gente pobre
vivendo nas ruas.
Velhos, aleijados
e b�bados.
Eu estava gr�vida.
N�o contei �s pessoas, mas filmei um sinal claro de gravidez:
uma barriga grande.
E a maneira como certos medos b�sicos e ancestrais
poderiam ser retratados.
Eu estava totalmente assombrada por uma contradi��o fundamental.
Voc� est� cheia de esperan�a,
voc� est� oferecendo uma vida a uma nova crian�a,
que pode ser feliz.
E ainda assim, vi uma popula��o
terrivelmente,
terrivelmente... infeliz.
Eles realmente me inspiraram a pensar.
Eles tamb�m eram rec�m-nascidos.
Talvez quando fossem beb�s, mesmo que n�o desejados,
algu�m os abra�ou, acariciou sua barriga, mesmo que um pouco.
Alguns deles...
eram beb�s rec�m-nascidos...
Alguns outros...
Alguns deles...
Muitos de voc�s querem fazer document�rios.
Eu acho muito importante...
Isto n�o � realmente um conselho,
mas quando voc� filma alguma coisa,
um lugar, uma paisagem,
um grupo de pessoas,
voc� precisa de um ponto de vista. Pelo menos para come�ar.
Voc� filma em rela��o a esse ponto de vista.
� um document�rio e � encenado.
Existem dois tipos de document�rios.
Puros e crus, apenas a realidade.
Esses document�rios podem ser extraordin�rios.
Mas tamb�m quero que seja um filme.
Eu acho divertido preparar um filme
com uma realidade real, mas tamb�m um dispositivo.
Eu realmente amo organizar,
n�o a encena��o em si,
mas o dispositivo geral de um document�rio.
Desde o come�o, eu entendi
que os m�sicos contempor�neos eram meus aliados.
Eu mencionei Delerue.
Havia tamb�m Pierre Barbaud, o compositor de "La Pointe Courte",
meu primeiro filme,
filmado em 1954,
em um bairro de S�te.
Eu fiz esse filme sem experi�ncia,
sem nenhuma escola de cinema,
nenhum trabalho anterior como assistente.
O filme surgiu do nada.
Eu tinha uma estrutura particular em mente.
Eu queria combinar dois filmes com cap�tulos alternados,
como um livro de Faulkner que eu admirava: "As palmeiras selvagens".
Eu alternaria sequ�ncias de pescadores com sequ�ncias de um casal.
Duas hist�rias sem nada em comum,
exceto a localiza��o.
� um confronto
entre o privado e o social.
O representante do trabalho
est� chegando no barco.
N�o fale sobre encontros.
� uma justaposi��o de duas abordagens para o mundo.
Uma muito estilosa,
com composi��o e di�logo.
Conhe�o seus gestos.
Seus h�bitos se tornaram meus.
Sem mais surpresas.
E uma que parece mais com o neo-realismo italiano.
Embora eu ainda n�o tivesse visto esses filmes.
Alain Resnais, que editou o filme, ensinou-me muito.
Eu fiz outra coisa que n�o era habitual.
Geralmente o som diminui quando as pessoas se afastam.
Fica mais silencioso at� voc� mal as ouvir.
Decretei que o som permaneceria em primeiro plano.
Ent�o, enquanto eles conversam e v�o embora,
parece um di�logo de narra��o.
No entanto, eles est�o realmente falando.
Est� sincronizado.
Mas o som permanece na frente.
Eu nunca tive esses pensamentos. Voc� sim?
Eu sempre notei os outros.
Mas n�o quero morar em outro lugar, a n�o ser com voc�.
Vamos pular de S�te para Sceaux.
No Sceaux Park, um projeto tomou forma com minha amiga Jane Birkin.
Est�vamos andando e de repente ela disse: "� terr�vel. Tenho quase 40 anos."
Eu disse: "N�o seja boba! � uma idade maravilhosa.
Vamos fazer o seu retrato."
Foi assim que come�ou.
Eu sugeri isso animada, a uma mulher vivaz,
o oposto desses tributos a atrizes mortas
que compilam trechos de seus filmes e entrevistas.
Eu disse que criar�amos trechos de filmes que ela nunca fez
e fingir�amos entrevistas.
Invertemos a regra de ouro sobre n�o quebrar a quarta parede.
Voc� deve olhar para a c�mera, olhar para mim.
Estou tentando!
� como se eu estivesse filmando seu autorretrato.
Voc� nem sempre estar� sozinha no espelho.
Haver� a c�mera, o que sou um pouco eu.
E tudo bem se eu aparecer algumas vezes no espelho ou no fundo.
N�s est�vamos juntas nisso. A cineasta e a filmada.
O tema � o pintor e seu modelo.
� um retrato surpreendente de Jane em muitos pap�is,
incluindo o de si mesma.
Com meus jeans, su�teres velhos, cabelo bagun�ado, pijama...
Ela era uma boa esportista.
Ela era engra�ada,
estranha...
magn�fica.
Pungente.
Eles podem comer e beber um pouco do meu marido.
Foi a primeira vez dela em um traje espanhol.
Ela odiava isso.
Esta tamb�m � a primeira vez que ousei mostrar minha escrita.
Sim, voc� me deixou ler.
Gostei, vamos us�-lo.
Acabamos fazendo um filme inteiro para contar a hist�ria que ela escreveu.
Ela � uma mulher como eu. Ela sou eu.
Ela se apaixona por um menino muito jovem.
Uma hist�ria de amor com um final infeliz.
Seria bom filmar o filme como uma fam�lia.
Entendo seu impulso.
Voc� quer que meu filho interprete o garoto.
Sim, � claro.
Esta foi a primeira cena.
Interrompemos "Jane B." para fazer "O Mestre do Kung Fu".
Estrelando Jane, como planejado, e Mathieu, como planejado.
Eles interpretaram uma hist�ria de amor
que era um pouco diferente da de Jane, porque agora
a mulher estava apaixonada por um menino
que estava apaixonado por um videogame.
Eles jogam no tudo ou nada. Voc� precisa pular ou pular.
O jogo era chamado de "Kung Fu Master".
E o garoto queria domin�-lo.
Bata em um grandalh�o ou um mago para subir.
Voc� tem que resgatar Sylvia no 5� andar.
Filmamos no ver�o.
Eu tive Mathieu,
e Jane teve suas duas meninas.
N�s gostamos disso.
Quando a escola come�ou, retomamos "Jane B."
Jogamos com o cinema e a pintura.
� dif�cil identificar quando voc� escorrega
de close-ups para o segundo plano,
na parte de tr�s da imagem.
Aqui est� ela, como "La Maja Vestida",
e "La Maja Desnuda".
E irritada,
no fundo da "V�nus de Ticiano"
Que a praga a leve! E a velhice!
Que ela morra, que apodre�a!
Agora vamos da Hist�ria da Pintura
� hist�ria do cinema.
O 100� anivers�rio do cinema foi comemorado muito oficialmente.
Pediram-me para fazer um filme sobre estes 100 anos.
Imaginei um homem de 100 anos.
Um homem cujo nome seria
Simon Cinema. Em franc�s, soa como "Se meu cinema".
"Se meu cinema n�o � bom, veja outro filme".
Ent�o eu o chamei "Simon Cinema".
Monsieur Cinema,
interpretado por Michel Piccoli,
morava em um castelo, era como um museu do cinema.
A noite est� chegando. E a melancolia.
Ora, vamos. Sobre quem e sobre o qu� devemos conversar?
Renoir? A frente popular?
Eu estava pensando no sujeito de olhos grandes.
Quem? Buster Keaton?
N�o, Keaton hoje n�o.
Bu�uel. Aquele olho que ele cortou em dois.
Monsieur Cinema teve visitantes.
Hanna Schygulla e Jeanne Moreau!
Eu trabalhei com atores experientes aqui.
Eles me intimidam.
Para este filme, ousei contratar um n�mero de estrelas.
B para Belmondo.
D para Depardieu.
D para Delon.
Ouvi dizer que Monsieur Cinema ficou doente.
E dois Ds. Dois atores famosos.
Deneuve e De Niro.
A s�s, finalmente.
Um sonho.
� um sonho.
Um casal sonhador, um cruzeiro id�lico.
Na realidade, pelo lado t�cnico,
o oceano era uma lagoa.
E 40 t�cnicos encontraram uma maneira inteligente
de fazermos travellings com suportes de luz,
telas de filtro, trilhos e pilares para holofotes.
Estava muito quente.
Compramos guarda-s�is e 20 macac�es de borracha.
A equipe se assemelhava a escravos descendo o Nilo em um arco.
De Niro voou de Concorde, no dia anterior.
Ele disse que se levantou �s 4 da manh� por 3 dias,
para se adaptar ao fuso hor�rio
e estar em boa forma para a filmagem.
Uma filmagem de um dia.
Ele tinha que sair na manh� seguinte.
Acordar �s 4 da manh�...
Foi t�o profissional. Ficamos impressionados.
Ele estava disposto a filmar em um barco, um botezinho,
e em franc�s.
Ele aprendia suas falas foneticamente todas as manh�s.
Foi divertido ensaiar com ele.
Querida, voc� desligou o g�s,
trocou a ninhada do gato e colocou a maionese na geladeira?
Nada mal!
Eu posso me gabar
sobre conseguir Deneuve e De Niro em um barco, e em um filme.
Eu posso me gabar sobre escrever uma cena onde De Niro cai na �gua.
Mas isso foi um golpe duplo.
O filme tamb�m afundou.
Foi um desastre de bilheteria.
Eu n�o fiz outro filme de fic��o em 35mm,
ou 16mm.
Desde o final do s�culo.
Mas eu fiz alguns filmes.
Eles s�o apreciados e amados em todo o mundo.
Meus filmes s�o cobertos de carinho.
Assistam e escutem ao segundo bate-papo,
voc�s ver�o como, neste novo s�culo, eu reinventei o meu trabalho.
Eu fui uma fot�grafa em minha primeira vida.
Eu serei breve sobre isso.
Alguns se lembram
de minhas fotografias de G�rard Philippe
e Jean Vilar,
no Festival de Avignon,
e no TNP. As pessoas ainda falam sobre elas.
Naquela �poca, em 1950, comecei a fotografar teatro.
Para documentar elementos de prepara��o e desempenho,
e tamb�m, em particular, para criar imagens e representar cada pe�a.
Por exemplo,
"O pr�ncipe de Homburg".
Oficial, sonhador.
Capturado em externa, sob a luz do sol.
Em perfil,
os amantes em cena de Macbeth.
Vilar e Casar�s.
E o rei Ubu, em uma excurs�o em Paris.
"Milho azul! Presunto de Deus! Cabe�a de vaca!"
Caravanas de vesti�rios por "M�e Coragem".
E em um provador improvisado, no pal�cio papal,
Vilar sozinho, depois de tocar "O Avarento".
Salvador Dal�, em Cadagu�s.
Brassa�, na Rue Fermat.
Eug�ne Ionesco, com sua noiva de tr�s narizes.
Pierre Sz�kely e sua filha.
Simon Hanta�, com sua esposa e filho.
E Mario Prassinos.
Calder, no 14� arrondissement.
Alguns cineastas: Visconti,
Fellini,
Demy.
Jacques Demy.
Retratos de atrizes c�lebres:
Anouk Aim�e,
Catherine Deneuve
e Jeanne Moureau.
E o famoso l�der m�ximo, Fidel Castro, 39.
com suas asas de pedra.
Mas tamb�m vizinhos:
Mini e sua m�e,
Boukkra, o dono da mercearia,
e amigos:
Igor, meu irm�o Jean,
Linou
e V�ronique.
A sorte forneceu a encena��o
no terra�o de Corbusier, em Marselha. 49.
S�o pessoas vistas aleatoriamente
e pegas na hora certa.
Uma portuguesa que passa.
Um fabricante de sal, um pouco de sal
e uma mulher piedosa.
Pessoas fora de um circo.
Eu gostava de fazer fotografias compostas.
Grupais tamb�m.
Uma fam�lia nas Ardenas.
Meninas escolares em Mukden.
A China estava t�o longe.
Eu senti emo��es l�.
Com filhos.
Uma menina com uma flor.
A velha voltando com os p�s mutilados.
Um garotinho.
Trabalhadores ou prisioneiros que passam nas proximidades.
E uma paisagem em movimento.
Uma floresta petrificada com dois seres vivos:
um cavalo pequeno e um homem carregando �gua.
Vou assinar este prel�dio com alguns autorretratos.
Neste, eu tinha 20 anos.
Como eu amava mosaicos.
Neste, eu tinha 36 anos.
De p�, � direita de uma enorme pintura de Gentile Bellini.
Como eu amava pinturas!
E aqui estou eu com 80 anos.
Eu experimentei a passagem de um s�culo para outro.
� medida que o ano 2.000 se aproximava, surgiram muitos rumores.
Seria o fim do mundo.
Um erro de computador com propor��es �picas iria explodir tudo.
Na realidade, aquela v�spera de Ano Novo
foi comemorada de mil maneiras, da ansiedade � exalta��o.
Mas na primeira manh� do s�culo 21, tudo estava calmo.
O novo s�culo trouxe mudan�as.
Algo novo para mim como cineasta.
C�meras pequenas. C�meras digitais.
Elas me deram a oportunidade
de trabalhar de uma maneira diferente.
Essas novas c�meras s�o digitais
e fant�sticas. Elas podem ser estrobosc�picas,
narcisistas,
at� mesmo hiper-realistas.
Eu poderia fazer um trabalho mais pessoal e �ntimo.
Eu poderia fazer document�rios livremente.
Eu gostaria de retornar �s tr�s palavras que mencionei no primeiro bate-papo.
Palavras que me guiam. Inspira��o, cria��o, compartilhamento.
Eu gostaria de discutir a inspira��o novamente.
� bem curioso.
�s vezes acontece,
e vem direto da realidade.
Eu estava em um caf� na Blvd. Edgar Quinet.
O mercado estava fechando.
Vi fornecedores carregando suas caixas,
cestas e caixas de dinheiro em seus caminh�es.
Limpadores da cidade estavam esperando com suas vassouras de pl�stico verde.
E as pessoas come�aram a vir.
Elas se curvaram e pegaram o que podiam encontrar.
Uma frase enraizou-se em minha mente.
"Eles pegam e comem o que jogamos fora".
A frase parecia um assunto em si.
Eu absolutamente tive que fazer um document�rio.
A coleta pode estar extinta, mas catar as coisas n�o desapareceu
de nossa sociedade saciada.
Catadores urbanos e rurais inclinam-se para pegar.
N�o h� vergonha, apenas preocupa��o e ang�stia.
Essas pequenas c�meras realmente desempenharam um papel aqui.
Elas me permitiram abordar pessoas que ca�ram em tempos dif�ceis,
e teria sido desconfort�vel com um cameraman,
um cara de som com um boom,
assistentes de bon�s e �culos de sol...
Todos os clich�s de uma filmagem.
�ramos apenas eu e minha pequena c�mera, como uma c�mera fotogr�fica.
Eu n�o as assustei.
N�o intimidei ningu�m.
Eu nunca fiz isso.
Isso me deu a chance de conhecer pessoas. Vou falar sobre Alain.
Eu vejo um homem com uma bolsa grande comendo no local.
Eu o via de vez em quando, sempre com sua bolsa.
sempre comendo.
No dia em que ele estava comendo salsa
eu me aproximei dele.
Voc� � um grande comedor de salsa?
�s vezes. � bom para voc�.
Cheio de vitamina C e E, beta-caroteno, zinco, magn�sio.
� excelente.
Sua resposta me surpreendeu.
Nas semanas seguintes, eu o filmei com frequ�ncia,
com ou sem som,
e ele falou comigo em peda�os.
Eu como muita fruta. Eu amo ma��s. Elas s�o f�ceis.
Encontro todas as ma��s que quero.
Quantas vezes voc� come por dia?
6 ou 7.
� sua dieta b�sica?
Eu tamb�m como p�o.
Eu falei com ele v�rias vezes.
Eu descobri como ele passou a estudar biologia
para viver nesta dif�cil, humilde situa��o.
Eu tamb�m estava interessada em explorar a coleta agr�cola.
A coleta nos campos ap�s a colheita.
Tivemos que filmar rapidamente.
Era a esta��o da batata.
Esta��es n�o esperam os hor�rios imprevis�veis do cinema.
Entrei em contato com uma cooperativa de batatas.
Eu vi os coletores e fui para a cooperativa.
Nos supermercados, s�o vendidas
em recipientes de 2,5 ou 5 kg.
Elas precisam ser de um calibre espec�fico.
Para as lojas, vendemos batatas
variando em tamanho de 45 a 75 mil�metros.
Todo o resto � descartado automaticamente.
Rejeitamos as grandes, as verdes,
empedradas e cortadas,
ou danificadas.
As batatas n�o padronizadas s�o deixadas nos campos.
L� vou eu com meus 30 quilos.
Existem v�rias toneladas restantes.
As pessoas poderiam pegar um pouco, se soubessem disso.
A� est�.
Algu�m deve ter sido avisado.
Entre as rejeitadas, encontramos enormes.
E aquelas em forma de cora��o.
O cora��o, eu quero o cora��o!
Que surpresa!
Eu estava feliz.
Eu as filmei de perto.
E trouxe um pouco para casa.
Mesmo com um document�rio sobre um assunto espec�fico,
voc� � guiado pelo que filma.
Cora��es falam de ternura, amor.
Foi impressionante.
N�o pod�amos deixar de pensar nisso.
Inspirou-nos a abordar os catadores com afeto.
E aquelas batatas em forma de cora��o me inspiraram.
Eu as deixei envelhecerem,
brotarem
e encolherem.
Apesar de tudo,
encontraram nova vida com brotos
e ra�zes.
Foi quando Hans Ulrich Obrist entrou em minha vida.
Ele tinha uma se��o na bienal de Veneza, em 2003.
Ele criou um grupo
chamado "Esta��o Utopia".
Todo mundo fez um cartaz e uma instala��o.
Eu tinha uma fantasia de batata feita para mim,
para promover minha instala��o "Patatutopia".
Havia 700 quilos de batatas no ch�o.
Foi a primeira vez que expus em tr�s telas.
Eu amei.
No centro, eu coloquei a respira��o, batatas em forma de cora��o.
E de ambos os lados, eu coloquei ra�zes
e brotos.
Este trabalho com coisas podres marcou minha entrada
no grupo de artistas conhecidos como artistas visuais.
Os franceses chamam artistas de "plasticiens". Mas n�s n�o fazemos pl�stico!
Eu prefiro o termo em ingl�s: Artista visual.
Eu realmente gostei de propor
uma maneira mais complexa de ver.
Tamb�m foi um aceno de cabe�a aos tr�pticos do s�culo XV e XVI,
que eu amo.
Alguns deles evocam emo��es especiais.
Eu queria fazer algo nesse sentido, desses tr�pticos de cenas interiores.
Ent�o fiz o tr�ptico de Noirmoutier. Muito simples. Na cozinha.
O homem bebe sua cerveja,
enquanto sua m�e idosa desembara�a uma corda
e sua esposa descasca batatas.
Eu sempre tive perguntas como:
O que acontece antes e depois de um instant�neo?
Ou no cinema: O que acontece quando eles saem do quadro?
Aqui, eu usei pain�is laterais
para mostrar o que est� fora da tela.
Propus respostas ao nosso desejo de ampliar o quadro.
Os visitantes optam por ver, ou n�o, o que est� al�m das paredes.
Muitos visitantes vieram, responderam e reagiram.
O MOMA, em Nova York, adquiriu uma das 3 c�pias.
E desde ent�o, Herv� Chand�s,
o diretor geral deste lugar,
da Funda��o Cartier para Arte contempor�nea,
comprou a segunda c�pia do tr�ptico.
Chegou a hora de pedir a ele para participar de nossa conversa.
Boa noite.
Boa noite, Agn�s, pessoal.
Nos conhecemos quando voc� me convidou.
Eu tinha visto a exposi��o em Veneza.
Ent�o um dia liguei para voc�, em 2005.
A exposi��o na galeria de Martine Aboucaya veio logo depois.
N�s fomos juntos.
Foi a� que eu descobri o tr�ptico de Nourmoutier,
e as vi�vas de Nourmoutier.
Ent�o voc� me convidou e me ofereceu esse espa�o incr�vel.
Eu estava t�o animada por ter tanto espa�o.
Todas as minhas ideias e proposi��es foram baseadas
na ilha de Noirmoutier, onde eu morava com Jacques Demy.
Eu inventei um t�tulo com dois significados,
"L'lle et Elle" ("A Ilha e Ela")
Isso foi em 2006.
Antes de construir a ponte,
voc� s� poderia chegar � ilha
pela estrada de Gois na mar� baixa.
Sinais indicavam os hor�rios exatos das mar�s
e o acesso � ilha.
Os visitantes tinham que passar por um filtro.
N�s constru�mos uma barreira.
Eles tinham que esperar a mar� baixa entrar.
Uma ideia inteligente.
Com uma cortina da f�brica de ripas de pl�stico pesado,
voc� assistia a mar� baixar.
Ent�o a barreira levantava.
Voc� entrava na ilha
e em meu mundo.
O grande cart�o postal.
A cabana do retrato.
Mulheres.
Homens.
Aproveitei as dimens�es e a luz
naquele grande espa�o desenhado por Jean Nouvel,
para fazer minha primeira cabana de cinema.
Feita com os restos de um pel�cula para filme.
Em uma estrutura met�lica de Christophe Vallaux,
montamos os 3.500 metros de uma c�pia padr�o, em 9 rolos.
N�s at� adicionamos alguns rolos para terminar o telhado.
Para os visitantes,
os bons e belos atores do filme,
Catherine Deneuve e Michel Piccoli,
estavam agora pr�ximos.
Os close-ups
e a luz passando pela pel�cula
criou uma nova forma de cinema.
Vamos voltar um pouco.
N�s, cineastas, costum�vamos trabalhar com filmes de 35mm.
N�s lid�vamos com isso durante a edi��o, a montagem.
Transport�vamos bobinas em vasilhas.
E tudo acabava
em cabines de proje��o de cinema.
A proje��o do filme desapareceu,
a favor de arquivos digitais.
Nos encontramos com centenas de bobinas
estagnando nas prateleiras,
por�es, cabines de proje��o
e almoxarifados.
Usamos os rolos do meu filme "A Dupla Face da Felicidade"
para construir, em 2018,
minha terceira cabana de cinema na Galerie Obadia.
Para quem conhece o filme,
isso � uma refer�ncia aos cr�ditos de abertura.
Jean-Claude Drouot,
sua esposa e seus filhos,
os personagens do filme,
chegam emba�ados, em segundo plano.
Em primeiro plano, h� um campo de girass�is.
Eu fiz caixas de luz
para os close-ups, com as tiras de filme,
com as perfura��es do projetor e a trilha sonora �ptica.
Ent�o, este � o arco.
O arco de metal.
Os cartuchos de metal que cont�m os filmes.
Temos o conte�do e os recipientes.
Os cartuchos est�o vazios?
Sim. O conte�do deles
foi usado para fazer a cabana.
Voc� est� reciclando.
Sempre.
Desde "Os Catadores e Eu", cujo tema
foi sugerido pelos pr�prios catadores,
eu estive interessada nisso.
E eu aprendi que a reciclagem traz alegria.
Sentimos que as coisas n�o est�o perdidas.
Ao tomar esses cartuchos inutiliz�veis,
e essa pel�cula inutiliz�vel,
e recicl�-los artisticamente, por assim dizer,
n�s damos a eles uma nova vida.
N�o � desperdi�ado. Volta.
Nada est� perdido. Tudo se transforma.
Transforma-se atrav�s da cria��o e da imagina��o.
No mesmo andar da cabana,
fiz uma instala��o toda em pl�stico.
Seu trabalho � bastante s�rio, mas isso � engra�ado.
Colch�es, an�is de nata��o... � inf�ncia, ver�o.
Hoje sabemos que o pl�stico � um flagelo no planeta.
E eu ainda amava essas coisas coloridas,
t�o baratas e t�o engra�adas.
Um par de sand�lias de 3 euros
� um triunfo da sociedade de consumo!
Eu queria comemorar.
Para mim, a cor dan�a.
Dan�a na minha cabe�a. � ver�o.
Duas coisas me motivaram a fazer isso.
Um desejo de me jogar na cor.
E o som disso tamb�m me inspirou.
Pingue-pongue, Tang e Camping.
M�sica improvisada de Bernard Lubat em uma mesa pulsante.
Um concerto de pingue-pongue.
Do mundo despreocupado da inf�ncia, passamos a um trabalho solene e comovente:
As vi�vas de Noirmoutier.
H� muitas na ilha.
Eu ia at� l� frequentemente.
Tamb�m sou vi�va.
Eu me senti perto delas.
Comecei perguntando se elas se importariam se eu as filmasse.
Uma por uma. Eu geralmente estava sozinha.
E elas confiaram em mim, porque
sentiram que podiam compartilhar sua ang�stia comigo.
Eu arrumei o espa�o de uma maneira particular,
criando uma tela pol�ptica.
Como a de Jan van Kessel dos quatro continentes.
Havia um filme central, filmado por Eric Gauthier em 35mm.
Mostrava uma mesa na praia
e janelas ao redor.
Essa imagem foi cercada por 14 telas de v�deo pequenas.
Havia 14 cadeiras na sala.
Cada cadeira tinha fones de ouvido,
para ouvir uma das vi�vas.
Algumas pessoas dizem que elas falam com seus mortos.
Eu n�o fa�o isso.
Como digo aos meus filhos, papai foi embora h� 13 anos, mas eu posso lhes dizer...
ainda parece ontem.
Especialmente � noite.
Durante o dia, as coisas a mant�m ocupada,
mas � noite voc� est� sozinha.
Voc� pensa duas vezes mais.
O que sinto falta � de toc�-lo...
A casa ainda est� cheia da presen�a dele.
O cheiro dele, o...
Dois dias atr�s, comemos feij�o verde, que ele comprava no mercado.
Ainda � t�o recente.
Esse projeto realmente me interessou.
Eu estava acostumada a uma tela
onde todo mundo assiste � mesma coisa.
Eu queria modificar a experi�ncia do p�blico.
L�, voc� tinha 14 pessoas ouvindo uma vi�va cada.
Mas elas estavam juntas na sala.
Tornou a experi�ncia �ntima e coletiva.
Cada vi�va falava com uma pessoa
logo, quando a instala��o viajou,
obviamente n�o pudemos legend�-la.
Perder�amos a confidencialidade.
Ent�o n�s as dublamos.
N�s dublamos as vi�vas
em sueco,
em ingl�s, � claro,
em espanhol,
e at� em chin�s.
N�s nos am�vamos tanto...
Foi t�o incr�vel para mim
ver as palavras das vi�vas de Noirmoutier
encontrando ouvintes t�o longe de casa.
� impressionante ver como algo t�o local,
como essas hist�rias de Noirmoutier,
pode ser t�o universal.
Na China, na Argentina ou em outro lugar.
Isso me deu muita confian�a na arte, em grande sentido.
Porque a arte
se move atrav�s das culturas,
pa�ses, nacionalidades, religi�es
e idades.
Falando de idades, vamos falar sobre a minha.
Acabei de passar dos 90 e n�o me importo.
Mas 10 anos atr�s,
quando eu estava prestes a completar 80 anos, entrei em p�nico.
O n�mero 80
parecia a frente de um trem correndo em minha dire��o.
Eu tinha que terminar alguma coisa quando completasse 80 anos.
Ent�o mergulhei em um projeto de filme.
Eu entrei nisso sentindo que tinha que faz�-lo rapidamente.
Seria um autorretrato, uma hist�ria da minha jornada.
Eu chamei de "As Praias de Agn�s",
porque eu sempre morei perto de praias.
Eu cresci na B�lgica, perto das praias do norte.
Ap�s os atentados e a queda da Fran�a,
fugimos para S�te, no Mediterr�neo.
Jacques me apresentou ao Atl�ntico.
Em Los Angeles, n�s descobrimos o Pac�fico.
N�s sentimos que t�nhamos visto todos os mares.
Jacques e eu vivemos por um longo tempo
na Rue Daguerre.
Ent�o, para justificar o t�tulo do filme, n�s fizemos uma praia fora da minha casa
e no escrit�rio.
Cin� Tamaris.
Voc� quer falar com Cecilia Rose? Um momento.
Eles querem alugar a "Pele de Macaco".
Vou passar para voc�, Agn�s.
Eu primeiro!
Espere, j� lhe retorno.
Estou sem ch�!
Tem uma estimativa?
Ainda n�o. Ainda n�o!
Casas � beira-mar s�o agrad�veis.
Nossos vizinhos se divertiram e ficaram um pouco alarmados.
A rua ficou bloqueada por 2 dias.
N�s t�nhamos uma permiss�o.
Para uma cole��o particular.
Veja St�phanie.
Banco Neuflize OBC?
Precisamos de um empr�stimo sem juros
para terminar este filme confortavelmente. Por favor!
Um empr�stimo sem juros. Dinheiro era nosso eterno problema.
Voc� deve gastar, mas tamb�m deve ganhar.
Se n�o dinheiro, trof�us.
Em um arm�rio ou na areia,
os de Demy e os meus ficam juntos.
Uma Palma de Ouro, de Cannes. Um le�o de ouro, de Veneza.
E no mais...
Vaidade, Vaidade...
Eu interpreto o papel de uma velhinha,
agradavelmente rechonchuda e faladora,
contando sua hist�ria de vida.
E, no entanto, os outros me interessam mais. Eu prefiro filmar.
Os outros me intrigam, me motivam,
despertam minha curiosidade,
me desconcertam, me fascinam.
Ao contar minha hist�ria, pensei:
Se abr�ssemos pessoas, encontrar�amos paisagens.
Se nos abr�ssemos, encontrar�amos praias.
�timo. Fa�amos isso.
Pintores usam espelhos como ferramentas
para fazer autorretratos.
Mas na verdade,
eu apresentei no meu espelho
as pessoas que trabalharam e me acompanharam.
Era uma maneira de dizer que
o filme era sobre os outros e eu.
Ou eu e os outros.
E eu pensei
em todas as vezes que marchei com os outros, por v�rias causas.
Eu queria marchar em homenagem a um desenho de Semp�.
N�s gravamos a manifesta��o,
comigo sozinha na cal�ada,
com uma placa escrita: "Sinto-me mal por tudo."
Eu posso marchar de novo se quiserem, ainda � verdade.
De qualquer forma, eu tentei,
com este filme,
n�o apenas contar minha hist�ria,
mas tamb�m dar vida �s mem�rias anexadas aos meus filmes.
Capturar certos momentos no presente.
Por exemplo,
eu queria visitar minha casa de inf�ncia, em Bruxelas, Rue de l'Aurore.
Fui l� filmar,
mas conheci um casal que colecionava aqueles pequenos trens em miniatura.
Sua cole��o foi t�o extraordin�ria e eles estavam t�o entusiasmados
que eu fiz um document�rio sobre eles.
Foi mais divertido do que minhas velhas cortinas.
Ent�o eu tenho raz�o
na escolha dos outros, acima de mim.
Esta � uma pe�a de lat�o.
Vale 80.000 francos belgas na Su��a.
Apenas 150 delas foram feitas.
N�s nos chamamos de "loucos por trens".
O termo real para os amantes de trens, ferrovias de brinquedo ou ferrovias reais,
� "ferrovipata".
Ferrovipata!
E como era incomum,
j� que gosto de fazer document�rios,
aproveitei a chance
oferecida a mim por acaso.
A parte "lar de inf�ncia" foi um fracasso.
Depois voltei a Pointe Courte onde filmei meu primeiro filme.
Onde aprendi a escolher lugares e rostos
e trabalhar com n�o profissionais.
Enquanto eu andava,
queria criar uma situa��o ligada a uma mem�ria do filme.
Criar uma emo��o no presente.
Encontrei algumas filmagens em 16mm que havia filmado como esbo�o do filme.
Eu pedi a minha amiga Suzou
e seu marido Pierrot
para fingirem ser o casal
do filme.
Antes do corte final, Pierrot morreu de c�ncer.
Suzou criou seus dois filhos.
Blaise
e Vincent.
Eu os convidei
para compartilhar uma cerim�nia com um carrinho do filme.
Uma maneira de mostrar a eles as imagens de teste que nunca tinham visto.
Eles conheciam o pai em fotos, mas n�o em movimento.
Andamos pela noite com o nosso amado amigo.
Centenas de pessoas an�nimas, idas e esquecidas
inspiraram esta instala��o de Boltanski que eu filmei.
Chamavam-se Personnes.
Centenas de caixas de lata
como manifesta��es de seu projeto.
Cada n�mero evoca uma pessoa, e cada lata � diferente.
� como se cada caixa tivesse algu�m dentro, o cora��o de algu�m
ou o esp�rito de algu�m.
Atr�s da parede de latas,
como um monumento aos mortos,
filmei esta instala��o gigantesca.
No ch�o havia milhares de roupas.
E uma pir�mide de roupas velhas.
O artista lhes deu um significado.
Existe esse movimento constante.
A garra pega e solta.
Ela agarra aleatoriamente.
Um pouco como a m�o de Deus.
N�o � nem bom, nem mau.
Apenas faz o seu trabalho. Tomando e liberando.
Faz parte de uma s�rie que fiz ao redor do mundo.
Filmei pessoas e lugares.
E na Fran�a, artistas.
Artistas e cineastas cujo trabalho eu amo e que abriram a minha mente.
Eles me d�o prazer e energia.
E um desejo de inventar instala��es
ou dispositivos para cada assunto, cada projeto.
Aqui, no 2� andar de um pr�dio condenado em Nantes,
eu queria mostrar
como � a vida dos invasores que n�o t�m nada,
e s�o despejados sem cerim�nia.
Eu postei informa��es em uma parede.
Em uma sala abandonada, instalei tr�s itens essenciais.
Um colch�o, porque eles procuram um lugar para dormir.
Um fog�o a lenha, porque est� frio.
E um carrinho de compras com microondas, porque eles est�o com fome.
A ideia de uma cama � importante.
Uma cama � importante.
Ter um teto sobre sua cabe�a.
Algu�m deixou os colch�es do lado de fora.
N�s os pegamos e os trouxemos para casa.
Quantas pessoas vivem aqui?
Cerca de 6.
Sim. 6 ou 5.
Voc� pode preparar tudo o que quiser,
mas quando o inverno chegar, em algum momento, far� frio.
Este ano, o inverno foi t�o dif�cil.
Eu tenho uma janela ruim, j� est� quebrada.
O ar entra e � muito �mido.
As pessoas podem acabar nas ruas.
Um dia elas podem acordar com a pol�cia invadindo tudo.
Eram sete da manh�.
Eles bateram em muitas portas.
N�s n�o acordamos r�pido o suficiente para abrir a porta.
Eles a quebraram.
Foi t�o violento. Havia 40 deles.
Mais de 40 policiais.
Est�vamos cercados, as pessoas entraram em p�nico.
Foi tudo t�o repentino.
N�s nem tivemos 10 minutos.
Nossas coisas ainda est�o l�.
Voc�s podem pegar?
N�o, eles isolaram tudo.
O oposto de uma parede � uma praia.
Mas ela pode se tornar uma parede, como nesta instala��o.
Onde eu evocava a beira-mar de tr�s maneiras.
Uma fotografia gigante.
A espuma do mar na onda ainda est� l�.
Ent�o a imagem est�tica torna-se uma imagem em movimento.
A onda quebrando na areia.
E depois a areia.
Um pouco de realidade concreta.
Como na Patatutopia,
eu gosto de reunir a realidade e sua representa��o.
Esse � um objetivo geral,
mas eu tamb�m justaponho imagens em movimento e imagens fixas,
no v�deo...
e na fotografia.
A imagem do meio � uma fotografia antiga.
Uma impress�o prateada da d�cada de 1950.
Em ambos os lados,
tirei fotografias digitais em cores
de pombas em movimento.
As arma��es de metal se assemelham a arma��es que vi no M�xico.
E ele � Miguel Barcel�.
Outro tr�ptico.
A foto de Alice pendurada na parede.
Pr�ximo dela, projetamos um v�deo duplo.
Fiquei fascinada pela forma como as vacas ainda estavam l�.
Filmando-as por um momento,
capturamos um instante fugaz entre a imobilidade e o movimento.
Uma toca sua orelha, ent�o come�a a se mover.
Um desejo de movimento ligado � imobilidade.
Para um gato de fam�lia,
Zgougou,
eu fiz uma tumba.
A anima��o foi feita sobre a antiga m�sica de Steve Reich.
Filmamos a instala��o finalizada com conchas e flores.
Ent�o filmamos imagem por imagem,
removendo um elemento de cada vez.
Aqui a sequ�ncia � reproduzida ao reverso.
Voc� me viu filmar, Herv�. Voc� trouxe sua filha.
Sim, ela subiu no guindaste.
Colocamos uma grande flor na �rvore.
N�s precis�vamos de um marcador.
E eu sabia o porqu�.
Eu lhe perguntei: a Funda��o pagar� por um helic�ptero?
Claro que sim!
Ent�o filmamos do helic�ptero,
usando as flores como nosso guia,
uma sequ�ncia para mostrar que o t�mulo fica perto do mar.
E acima de tudo, este gatinho que era importante para n�s
assumiu outra dimens�o com a tumba.
Mas visto de outra maneira, era como qualquer humano.
Min�sculo no universo.
Voc� gostou do t�mulo de Zgougou. Voc� o comprou.
Eu amo. Eu comprei.
Mas isso n�o � tudo.
Como sempre, liguei para voc�. "Agn�s, por que n�o...
instala o gato nos jardins da Funda��o?"
- E? - Ele pediu uma cabana para mim.
Est� aqui fora no jardim.
Do lado de fora.
Uma despensa n�o sonorizada
onde podemos reproduzir um v�deo.
O v�deo est� em loop.
Visitantes da Funda��o podem aparecer a qualquer momento.
Eles podem dizer oi para Zgougou.
H� uma pilha de terra no barraco.
- Sim. - Tem um gato embaixo?
Boa pergunta.
Na verdade, o verdadeiro gato Zgougou n�o est� aqui.
Ela est� sob uma pilha semelhante de terra
na ilha de Noirmoutier.
Eu n�o vi muitos cemit�rios.
Eu sei que eles s�o muito tristes.
Mas este � mais...
Mesmo que seja uma tumba,
onde devemos estar tristes,
� mais...
mais um lugar feliz, com cores divertidas.
Voltei, porque � melhor
assistir ao filme sozinha.
Voc� sente as coisas melhor, no filme.
Eu tamb�m, quando estou sozinha � beira-mar,
eu sinto as coisas melhor.
As coisas s�o duplas.
Mesmo enquanto eu aprecio a paisagem suave,
eu conhe�o o mundo, que est� cheio de guerra, viol�ncia,
sofrendo e vagando.
Imagens de migrantes
lutando e se afogando.
Ent�o esta imagem terr�vel.
vista em todo o mundo.
N�s pensamos sobre isso, e depois esquecemos.
� assim que vivemos.
Ocasionalmente eu trabalhava no interior da hist�ria.
Quero evocar "Os Justos" hoje � noite.
Eu vivi a guerra. Eu me lembro.
Mas n�o tive experi�ncias traum�ticas.
O Presidente Chirac queria prestar homenagem
para "Os Justos" no pante�o da Fran�a.
Pediram-me para criar um curta para a cerim�nia.
Uma cerim�nia, um coral,
e minha enorme instala��o.
Centenas de retratos no ch�o
daqueles que assumiram riscos para salvar os judeus.
Eles foram chamados "Os Justos".
Eu exibi fotografias deles como livros abertos.
Os nomes deles est�o nelas.
Adicionei retratos recentes e n�o identificados
representando Justos an�nimos ou desconhecidos.
Para evocar judeus e justos no tempo deles,
projetei 2 filmes simultaneamente
em 4 telas sob a c�pula.
Um filme em preto e branco
mostra, � dist�ncia, judeus sendo presos.
Em outra tela, fotos detalhadas em cores aprimoram a realidade.
Voc� olha de uma tela para outra para seguir a a��o.
Todo mundo recriou, real ou mentalmente,
o que eu vou lhes mostrar
neste trecho que funde imagens de ambas as telas.
No final de cada sequ�ncia,
mostrei fotos dos Justos que inspiraram a cena
e fotos daqueles que interpretaram a cena.
Eles n�o eram atores reais,
mas eram pessoas reais.
� assim que sempre chamei
as pessoas que filmo, nas ruas ou nos campos.
Ele era padeiro em minha terra natal.
E ent�o, bem... Eu esperava toda quarta-feira,
quando ele trazia seu p�o, para v�-lo.
Ent�o, seis meses depois, nos casamos.
Pessoas reais est�o no cora��o do meu trabalho.
Eu tenho isso em comum com JR,
o fot�grafo urbano
que se aproximou de milhares de pessoas reais.
Quer�amos fazer um filme dos nossos encontros com as pessoas.
Desta vez, no interior da Fran�a.
Sa�mos em seu caminh�o m�gico,
com o objetivo de ouvir as pessoas
e fotografando-as no caminh�o.
As pessoas v�o para tr�s, como em uma cabine de fotos.
A foto sai 5 segundos depois,
em formato grande.
O plano era exibi-las.
Para public�-las como um contraponto a modelos e celebridades,
vendendo cosm�ticos, carros e caf�.
N�s a contratamos como gar�onete no...
final de maio, in�cio do ver�o.
Agora ela � o rosto mais famoso de Bonnieux.
O que voc� acha da sua m�e, l� em cima?
- Ela � super bonita. - De fato. Concordo.
Aperte o bot�o.
Mostre-nos a sua selfie.
Uau, legal!
Voc� � bom.
Eu n�o sou especialista, no entanto.
Que c�cegas!
Nosso experimento social e sociol�gico estava cheio de surpresas.
Em uma vila, um homem disse que era respons�vel pela campainha
e nos levou a sua torre sineira.
E havia uma mulher que fazia queijo de cabra.
Ela ficou furiosa, porque outros queijeiros
queimavam os chifres das cabras.
Vimos por n�s mesmos.
Conhecemos Fran�oise.
Voc� tem um dos �nicos rebanhos
onde as cabras t�m chifres.
Na minha cabe�a, se uma cabra tem chifres, ela deve ficar com eles.
Eu n�o vou remov�-los.
Isso apenas parece...
N�o consigo encontrar uma explica��o l�gica.
a menos que voc� os veja como um produto
necess�rio para atingir uma certa taxa de retorno,
ent�o voc� elimina qualquer coisa que possa torn�-los menos rent�veis,
e assim cortar seus chifres.
Queim�-los.
Mas se voc� respeita os animais,
voc� os deixa intactos.
Se eles t�m chifres, ficam com eles.
Claro, eles brigam.
Os seres humanos tamb�m.
Eu n�o sabia disso
at� que voc� me dissesse, agora.
Essa coisa de chifre.
Para este projeto, n�o pedimos �s pessoas
para responderem nossas perguntas.
Mas sim pensarem, e inventarem suas pr�prias respostas
para as situa��es.
Eu digo para colocarem bolas nas pontas,
como com touros. Bolas de borracha.
Pode ser engra�ado. Ou nariz de palha�o.
Os de borracha.
Voc� poderia usar cores diferentes,
diferenci�-los. Roxo, multicolorido, zebra.
�tima ideia, adoro! Muito imaginativo.
Estamos felizes por conhec�-lo.
Tamb�m gostei de conhec�-los.
Nosso trabalho junto
fez nossa amizade crescer,
como uma planta.
Como um peixe na �gua.
Ele estava interessado em mim,
e ele estava interessado no meu envelhecimento.
Eu tenho uma doen�a ocular.
N�o tem gra�a, considerando minha profiss�o.
Preciso de testes, check-ups
e exames.
Que tipos de exames?
Olhar para as letras.
Est� bom, Agn�s?
Sim, o fundo est� emba�ado, mas...
As letras precisam se mover um pouco.
Mover como?
- Para cima e para baixo, um pouco. - Entendi.
- V� contar a eles. - Imediatamente.
Movam-se para cima e para baixo um pouco!
Agora estou feliz. � o que eu vejo.
Foi importante pra mim
termos encontrado uma maneira de trazer beleza � minha vis�o deteriorada.
E que tenhamos nos divertido nesta filmagem,
cheia de surpresas e emo��es.
� surpreendente...
- A arte deveria nos surpreender, certo? - � verdade.
Tenham um bom dia.
Hoje � meu �ltimo dia. Estou me aposentando cedo,
- Hoje? - Hoje.
- � o seu �ltimo dia na usina? - Sim.
Eu sinto que cheguei � beira de um penhasco,
e hoje � noite estou pulando no desconhecido.
Eu vou descobrir muitas coisas.
E ele descobriu que esse destino estava conosco.
Uma vez na Normandia, o destino atingiu tr�s vezes.
JR queria colar um bunker alem�o
que caiu de um penhasco.
Eu disse: "Podemos escolher qualquer bunker".
Mas quando ele disse que era em St-Aubin-sur-Mer,
eu levantei meus ouvidos.
Eu estive l� em 1954, com amigos,
e tirei fotos naquela praia.
Uma foto chamada "Ulysse", que inspirou um filme.
Eu estava com meu amigo Guy Bourdin, um jovem fot�grafo.
Ele se tornou muito famoso, mas morreu jovem.
Eu fiz retratos dele.
Ele posou docemente, sonhando.
Mostrei a JR minhas fotos de Guy Bourdin,
e n�s decidimos colar uma no bunker.
Foi uma filmagem dif�cil e perigosa,
porque a mar� baixa n�o durou muito.
Eu n�o conseguia imaginar nada melhor para Guy.
Aqui est� ele, como uma crian�a em seu ber�o.
Descansando em paz.
Na manh� seguinte, fomos ver como estava.
A mar� havia lavado a imagem.
Imagens ef�meras s�o o meu h�bito.
Mas o mar trabalhou r�pido.
O mar tem a �ltima palavra.
E o vento e a areia.
Em um ponto,
JR e eu imaginamos terminar o filme dessa maneira.
Desaparecendo em uma tempestade de areia.
Eu acho que � assim que eu vou terminar essa conversa.
Desaparecendo na n�voa.
Deixando voc�s.
Legendas por Nandodijesus
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