All language subtitles for Roman.Polanski.A.Film.Memoir.2011.1080p.BluRay.x264.YIFY

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Original subtitles

Not�cias de �ltimo momento da Su��a.

A pris�o do diretor ganhador do Oscar, Roman Polanski.

Foi preso na Su��a no s�bado � tarde,

a pedido dos Estados Unidos.

O diretor de 76 anos estava viajando � Zurique

para receber um pr�mio por sua trajet�ria.

"Querido Roman Polanski.

� um grande prazer dar-lhe as boas-vindas

como nosso convidado de honra no Festival de Cinema de Zurique.

Nosso jovem festival de cinema cresceu consideravelmente

desde seu lan�amento h� s� quatro anos.

Estamos orgulhosos de contar com mais de 36 mil visitantes

na quinta edi��o deste ano.

Mais que nada, no entanto, esperamos entret�-lo

e certificar-nos que sua estadia seja emocionante e inspiradora".

Isso � bom. "Emocionante e inspiradora".

Sem d�vidas foi.

Meu nome � Andr�s Braunsberg

e conheci Roman Polanski em 1964,

e como acontece �s vezes, viramos amigos muito r�pido.

Introduziu-me ao mundo do cinema.

E ent�o, muitos anos depois, em 2009,

recebi uma liga��o no meio da noite

avisando que Roman tinha sido preso na Su��a,

onde receberia um pr�mio por sua trajet�ria.

Quando foi solto sob pris�o domiciliar

em dezembro de 2009, passamos tempo juntos

e comecei a pensar que este grande amigo meu

teve uma vida muito diferente.

Cheia de trag�dia, triunfos, desastres,

que pensei que dever�amos conversar e

filmar a conversa.

Vamos conversar, e o que tiver que acontecer, acontecer�.

Hoje � 16 de abril

e na pr�xima semana far�o exatamente sete meses

desde que o prenderam no aeroporto de Zurique.

Queria perguntar se vir ao Festival de Cine de Zurique

por um pr�mio por sua trajet�ria era algo especial que esperava.

5. FESTIVAL DE CINEMA DE ZURIQUE 24 DE SETEMBRO � 4 DE OUTUBRO 2009

� um evento novo e h� dois ou tr�s anos me pediam

para aceitar o pr�mio pela trajet�ria.

Apesar de que raras vezes vou a festivais,

h� 40 anos venho a Gstaad e cada vez que participo

em algum tipo de evento na Su��a,

as pessoas de Gstaad me d�o tapinhas nas costas.

Sinto-me em casa aqui, as pessoas me conhecem,

gosto delas e acho que gostam de mim,

ent�o pensei que era a coisa certa a fazer.

AEROPORTO DE ZURIQUE

Voc� desceu do avi�o.

Fui o primeiro a sair do avi�o.

Havia um carro e uma aeromo�a que me perguntou

se eu era Polanski e ela me levaria.

Levou-me a uma parte do aeroporto

que parecia uma �rea VIP,

para n�o passar pelo caminho normal.

Mas foi estranho e havia tr�s sujeitos olhando para mim

e vindo em minha dire��o.

Pensei que eram jornalistas. Mas n�o pareciam jornalistas.

Um deles me mostrou a identifica��o policial

e disse que iria me prender.

Perguntei por que motivo.

Disse que era por meus problemas nos EUA.

N�o lembro exatamente como disse.

O estranho � que me senti muito tranquilo, calmo.

N�o estava em estado de choque?

Fiquei muito surpreso,

mas pensei 'como estava t�o tranquilo,

t�o bem a respeito, sem entrar em p�nico'?.

Foi completamente diferente de quando me prenderam

h� 33 anos.

O motivo por ter sido preso em Zurique naquele dia

� porque havia uma ordem de pris�o pendente desde 1977

porque se declarou culpado por um delito:

ter rela��es sexuais com uma menor.

Declarou-se culpado por esse delito.

Isso mesmo.

FUGITIVO DE LOS ANGELES, ROMAN POLANSKI � PRESO NA SU��A

COLUNISTA PATRICK GOLDSTEIN PERGUNTA SE AGORA � A HORA

DE GASTAR DINHEIRO P�BLICO PROCESSANDO ROMAN POLANSKI

Fui levado � delegacia e me registraram.

Quando permitiram que falasse com sua mulher, Emanuelle?

Muito r�pido.

Como ela reagiu?

Acho que talvez pensou que eu estava brincando

mas rapidamente percebeu que era verdade.

Mas, em que momento percebeu

-que estava em apuros? -N�o � assim, Andy...

H� um momento, uma esp�cie de clique.

� como se algu�m te contasse que est� doente e

que pode se curar ou n�o .

-Tem a esperan�a de se curar. -Claro.

E enquanto isso, a cada dia, sua sa�de se desintegra

e come�a a perder a esperan�a.

N�o , n�o h� um momento, Andy. S� vai afundando cada vez mais.

De fato, foi a uma pris�o de verdade,

em uma de seguran�a m�xima durante dez semanas.

Emmanuelle e meus filhos me visitavam.

A primeira visita foi um choque para mim,

mesmo todos, Emmanuelle, as crian�as e eu tent�vamos

fingir que estava tudo bem.

Apesar disso, podia ver que era terr�vel para eles

e quando tinham que ir embora era realmente dif�cil.

Sabe como � para uma crian�a ficar tantos meses sem pai?

-Claro. -� muito tempo para eles.

Uma das perguntas � quando isso vai terminar.

E essa � a �nica que n�o posso responder.

O diretor Roman Polanski foi transferido

� pris�o domiciliar hoje na Su��a depois de pagar

quatro milh�es e meio de d�lares de fian�a.

O governo est� decidindo se o extraditar� aos EUA.

GSTAAD, SU��A ESTA MANH�

Queria voltar � primeira vez que fui v�-lo na pris�o.

Disse duas coisas que me pareceram extraordin�rias

e que mudaram meu dia.

-Obrigado. N�o me lembro. -Bom, n�o se lembra.

Voc� disse: "Andy, nunca tive tanto tempo para mim

e considero isto um retiro mon�stico".

E pensei que n�o era a pessoa que fala sobre viver o momento

e aceita, mas que estava fazendo-o.

Ent�o disse: "Estou pensando muito na minha inf�ncia".

Quero perguntar sobre sua inf�ncia.

N�s nos conhecemos desde 1964 e sei que nasceu em Paris,

mas quero perguntar quais s�o as suas primeiras lembran�as.

Em Paris? Lembra-se de Paris?

Muito pouco. Tenho algumas imagens.

S� lembro que me colocavam em um

daqueles balan�os com rede

e eu tentava lutar e gritava para sair.

Lembro-me de subir as escadas mec�nicas no metr�.

Meu pai trabalhava para "His Master's Voice"...

"A VOZ DE SEU MESTRE"

...vendia discos e quando tinha tr�s anos

decidiram voltar � Pol�nia.

Sua irm� vivia com voc�s?

Sim, minha irm� vivia conosco.

Era minha meia irm�. N�o era filha do meu pai

e foi conosco � Fran�a e ent�o � Pol�nia.

� Crac�via? Foram de Paris � Crac�via?

Isso. Claro que foi um grande erro.

Voltaram � Pol�nia antes da guerra.

Todos pensavam que a Crac�via seria

o primeiro lugar que os alem�es invadiriam

j� que era mais pr�ximo � fronteira alem�,

muito mais perto que Vars�via.

Vars�via estava bem protegida.

Pelo menos isso era o que o governo polon�s dizia

e meu pai decidiu me mandar com minha m�e e irm�

a Vars�via alguns dias antes da guerra come�ar.

1 DE SETEMBRO DE 1939

POL�NIA INVADIDA

A guerra come�ou.

As bombas e os ref�gios.

�amos aos ref�gios duas outr�s vezes por noite.

-Tinha seis anos? -Acabava de fazer seis.

-Ent�o se lembra das bombas? -Lembro-me muito bem.

VARS�VIA

Estava muito assustado?

N�o tinha medo.

GUERRA

S� n�o sabia o que iria acontecer.

O que mais sentia falta, claro era do meu pai.

N�o sab�amos onde estava quando est�vamos em Vars�via

porque nos mandou para l� primeiro.

Quer�amos que estivesse conosco.

N�o sab�amos onde estava, o que tinha acontecido com ele.

E essa foi a primeira vez que passamos fome

porque n�o havia nada para comer,

e minha m�e come�ou a ficar sem dinheiro

e tentava conseguir alguma comida.

Uma vez veio com a��car que encontrou jogado no ch�o.

Ent�o, derreteu e coou em um pano

para separar da areia e da sujeira.

Uma vez, em uma f�brica de pepinos bombardeada,

encontrou uma lata grande de picles.

"O PIANISTA" (2002)

Foi fant�stico.

Abrimos a lata e os primeiros picles eram �timos,

mas depois de dois o tr�s dias, comer aqueles picles

e beber a �gua da conserva ficamos com mais sede.

Mas toda essa experi�ncia foi �til, porque me deu a ideia

para a cena em "O pianista".

Um dia, estava brincando em um campo.

Encontrei a ponta de uma bomba, era meu brinquedo

e ent�o vi um homem

olhando para mim de longe.

E, obviamente, aquele era meu pai.

Corri at� ele e pulei em seus bra�os,

e as coisas estavam um pouco melhor e logo os alem�es

chegaram � cidade.

Vars�via estava em ru�nas.

Mudamos a outro lugar em Vars�via por um tempo

e voltamos � Crac�via e � casa da minha av�.

Pod�amos viver l�.

Ent�o quando voltou � Crac�via

j� estava invadida pelos alem�es.

Sim, estava ocupada

e o primeiro que percebi que significava algo

eram as faixas nos bra�os.

Na Pol�nia, a faixa era branca com a estrela azul

de Davi, de 8 cent�metros.

E as crian�as tamb�m tinham que usar?

-A partir de 12 anos. -Ent�o voc� n�o usou.

N�o usei e n�o entendia.

Ent�o me explicaram que a usavam porque �ramos judeus.

Judeus, mas n�o entendia bem o que significava.

Est�vamos alojados na casa da minha av�,

mas pouco depois disseram que toda a popula��o judia

teria que mudar ao outro lado, do rio, o lado de V�stula.

N�o era a parte judia da cidade antes da guerra.

Mudamos para l�.

O que aconteceu fisicamente?

Mudaram a todos os judeus, mas onde ficaram?

Tiraram as pessoas?

Tiraram todos.

-E ficaram os judeus. -Sim.

Mas n�o tinha um apartamento para voc�.

"O PIANISTA" (2002)

Era um grande apartamento

no qual viviam quatro ou cinco fam�lias.

Essa foi a primeira experi�ncia do que estava por vir.

Onde dormimos?

Eu dormirei na cozinha comas garotas,

voc�, Henryk e papai aqui.

Revivi isso no filme.

-L� est� tudo. -Claro.

Incluso um pequeno epis�dio.

Um dia meu pai veio e sa�a sangue do seu ouvido,

e ele disse que foi um oficial alem�o jovem que perguntou

por que n�o o havia saudado.

Por que n�o se inclinou?

Desculpe.

De todos os modos, est�vamos naquele lugar

e a princ�pio est�vamos bem.

Ficava cada vez pior, mas mesmo assim era habit�vel.

Mas um dia, minha irm� me disse para olhar pela janela

e vi que estavam construindo algo no meio da estrada.

Disse: "O que diabos est�o fazendo?".

Ela me disse que estavam construindo um muro.

Naquele momento,entendi que falavam s�rio.

GRAVA��O DE "O PIANISTA"

Ent�o, fugi do gueto v�rias vezes para passear.

Sa�amos para comprar selos.

Colecionava selos ou coisas do tipo.

Era muito perigoso e percebi que fiz a coisa mais burra

ao fugir. Meus pais n�o sabiam.

A primeira ferida real emocional

foi por um garoto que vivia no edif�cio ao lado.

Chamava-se Pawel.

Era um pouco mais velho que eu e viramos amigos.

Era um garoto brilhante.

Aprendi muito com ele.

Foi minha primeira amizade na vida.

Os alem�es de vez em quando atacavam o gueto.

Tinham uma lista de pessoas para levar.

Nunca a fam�lia completa. S� uma pessoa.

O pai, a filha, qualquer um.

Aonde levavam aquelas pessoas?

Aos campos de concentra��o.

A maioria ia a Auschwitz e viraram fuma�a.

Mas me lembro da primeira vez que pegaram gente de noite.

"O PIANISTA" (2002)

Ouvimos gritos e eram os alem�es que estavam no edif�cio.

Meu pai apagou as luzes e foi ver o que era.

De algum modo, pod�amos ver que levavam uma mulher

pelos cabelos pela escada.

Por algum motivo, com saliva,

desenhei uma su�stica na parede.

Meu pai disse: "Est� louco?".

-E ele... -Apagou.

Apagou, e a noite passou e n�o vieram

ao nosso apartamento, e isso foi tudo.

No dia seguinte, percebi que tinham levado Pawel

e foi a primeira vez que fiquei com o cora��o partido.

Lembro muito bem.

Era um daqueles garotos muito talentosos.

Levaram-no e ent�o reduziram a �rea pela primeira vez.

MAPA DO GUETO DE CRAC�VIA

Na manh� seguinte, as coisas estavam jogadas por a�,

pertences, fotografias, brinquedos.

GRAVA��O DE "O PIANISTA"

E depois de cada ronda, havia menos popula��o,

eram levados, liberavam os lugares para os poloneses

e reduziam o tamanho do gueto.

Outro epis�dio que me impressionou foi quando um

homem da SS fazia com que marchassem somente mulheres.

Talvez houvesse 40 ou 50, e gritava com elas.

No final, havia uma mulher que mal podia caminhar

e estava caindo de joelhos.

Ia assim e caiu de quatro assim.

Logo, vi uma arma na m�o do homem das SS

e ele atirou em suas costas e o sangue sa�a,

n�o como um aerossol, mas como uma fonte para beber.

Como as fontes, uma fonte de sangue.

Borbulhava.

Corri ao edif�cio da frente, onde mor�vamos,

havia uma escada de madeira e me escondi l� embaixo

e fiquei l� por muito tempo.

Aqueles elementos come�aram a me fazer tomar consci�ncia

dos tempos dif�ceis que viriam.

Viv�amos na parte nova do gueto, mais apertados.

N�o sei quantas pessoas havia naquele apartamento.

No nosso, t�nhamos um quarto muito agrad�vel

onde fic�vamos com outra fam�lia,

e tinham um filho, Stefan.

Ele devia ter tr�s ou quatro anos.

O mais lindo que j� vi.

Era loiro com olhos azuis.

Quando soubemos que haveria outra ronda mais tarde,

meus pais me acordaram muito cedo de manh�.

Minha m�e trabalhava como empregada em Wawel,

o castelo real, onde vivia Hans Frank,

o governador nazista da Pol�nia invadida.

Ela tinha que entrar e sair todos os dias.

Meu pai tinha um conhecido chamado Wilk

e deixou algumas

joias de fam�lia e dinheiro

caso eu tivesse que escapar.

Ela me levou a fam�lia Wilk.

Depois da ronda, meu pai veio me buscar, n�o minha m�e.

E quando chegou, me pegou, me beijou e foi muito carinhoso.

Caminhamos e ao aproximarmo-nos do gueto,

come�ou a chorar e disse que tinham levado minha m�e.

Mas n�o chorei,

e disse: "Pare de chorar porque v�o nos pegar".

E foi isso.

E sua irm�?

Vieram pegar minha irm�, mas ela n�o estava l�,

ent�o levaram minha m�e em seu lugar.

Depois fiquei sabendo que ela estava gr�vida.

Tamb�m levaram os pais do pequeno Stefan.

Os alem�es levaram sua fam�lia

e deixaram um menino de 3 anos sozinho?

N�o se importavam.

Levavam as pessoas e era isso.

Pedi ao meu pai que o trouxesse.

Tinha uma foto dele com a m�e

em um campo de centeio.

Sempre me mostrava essa foto, dele com a m�e.

Meu pai estava trabalhando.

Eles tiravam-no do gueto para trabalhar

e n�s �amos a um tipo de escola.

T�nhamos aula ou algo assim por uma hora,

mas no resto do tempo faz�amos sacos de papel,

sacos de papel.

Os sacos de papel eram feitos assim.

Coloc�vamos dez ou vinte, e col�vamos s� as bordas.

Eram coladas assim.

Deste modo.

Assim.

Ent�o dobrava este extremo aqui.

Assim.

E fazia isso e isso.

V�?

Depois fazia isso e isso, ent�o colava aqui.

E estava pronto o saco de papel.

Pelo menos aprendi algo que foi muito �til para mim.

Chegou um momento que sabia

que seria a liquida��o final do gueto.

Meu pai me levou muito cedo de manh�

ao arame logo atr�s do edif�cio dos guardas.

Tinha tesouras e cortou o arame.

Mandou-me ir embora. Ele n�o sabia que n�o precisava disso.

-Sabia como fugir sozinho. -Sim, claro, mas nunca contei.

Fui � casa da fam�lia Wilk e a porta estava fechada.

N�o estavam em casa.

Achei que era um pretexto excelente para voltar ao gueto

e ficar com o meu pai.

Quando estava perto do gueto, vi os judeus prisioneiros

que estavam marchando e vi meu pai entre eles.

GRAVA��O DE "O PIANISTA"

Ele me viu.

Disse: "V� embora".

Dei a volta e fui embora.

O que aconteceu com Stefan?

Muito tempo depois, quem sobreviveu

nos contou que todos os meninos que estavam no gueto

foram levados ao p�tio da escola e baleados.

"O PIANISTA" (2002)

Stefan estava nesse grupo.

-Foram baleados. -Sim, foram.

A ESTADIA DE ROMAN COM A FAM�LIA WILKS FOI CURTA...

USANDO PARTE DO DINHEIRO QUE O PAI DE ROMAN HAVIA LHE DADO...

...ELES O COLOCARAM RAPIDAMENTE COM OUTRA FAM�LIA, OS PUTEKS.

Fiquei com os Putek s� por um tempo.

Tinham um filho da minha idade.

Seu nome era Mietek e ele foi meu guia.

Comecei a ver Crac�via do outro lado,

os cinemas, em primeiro lugar.

E Mietek me levou ao cinema.

Era muito barato e supostamente n�o dever�amos ir.

Um slogan dizia: Wszystkie swinie siedza wkinie

que significa: s� os porcos v�o ao cinema.

-O que mostravam? -Filmes alem�es.

Filmes antigos alem�es ou nazistas?

Velhos e novos. Quase n�o tinha filmes de propaganda.

Eram filmes bons e ruins.

�s vezes, lembro que havia um musical como Gasparone.

Terr�vel.

Mas para mim era magia, era magia.

Mas depois, decidiram me enviar ao campo,

com sua fam�lia.

Era uma casa unifamiliar no meio do bosque,

a paisagem montanhosa, absolutamente linda.

-Era medieval. -Bem.

Nesse lugar de tranquilidade e paz, n�o era poss�vel imaginar

o horror vivido a poucos quil�metros de dist�ncia.

N�o, n�o . Estava perto de Auschwitz.

-O que fazia durante o dia? -As tarefas dom�sticas.

-Ajudava a fam�lia na casa. -Sim, ajudava na casa.

Havia muito para fazer.

Galinhas, distintas coisas para fazer,

como a vida camponesa.

N�o lev�vamos gr�os ao moinho.

Havia uma pequena pedra com um buraco

e um pau para mexer e assim faz�amos farinha.

-Claro. -A mulher era fant�stica.

Muito religiosa, claro.

Muito gentil e era muito boa comigo.

-� mesmo? -Sim.

O problema era a comida.

Tinham um hectare de terreno

e precisava cultivar batata e centeio.

"TESS � UMA LI��O DE VIDA" (1979)

-O pai da fam�lia era alco�latra? -N�o. N�o fazia nada.

Fumava sua cachimbo e quando chegava a primavera,

discutia sobre a quantidade de espa�o que ela concederia

para cultivar tabaco para seu cachimbo.

Claro que ela n�o queria porque a comida era mais importante.

O que realmente salvou minha vida foi uma horta.

Muitas frutas.

Isso nos deu o que precis�vamos e que chamamos de vitaminas.

Mas os invernos eram muito mais duros.

O inverno era duro.

Nunca esquecerei que uma vez vi um homem vindo.

Vi uma silhueta cada vez mais perto...

"MAM�FEROS" (1962) CURTA DE ROMAN POLANSKI

...e por alguma raz�o imaginei que era meu pai

que vinha me ver.

Claro que n�o sabia onde meu pai estava.

Ele estava no campo de concentra��o de Mauthausen.

-Na �ustria. -Na �ustria.

E tinha uma esp�cie de alucina��o,

e nunca esquecerei daqueles momentos, em que, por algum

motivo, estava convencido de que era meu pai vindo.

E � medida que se aproximava, via que era outra pessoa,

um homem que atravessava o campo.

Mas depois chegaram rumores de que a frente viria,

come�aram a cavar trincheiras, n�o muito longe de n�s.

Algo que achei espantoso foi quando fui pegar amoras

e ent�o ouvi um zumbido

e o som de um tiro.

Olhei para tr�s e vi um homem com o uniforme alem�o

com um rifle, atirando em mim.

Ent�o corri o mais r�pido que pude na vida

aos arbustos e o bosque, e fiquei l� escondido.

-Por que atirou em voc�? -Diga voc�.

Atirou por divers�o?

-N�o sei. -Como em um coelho.

Isso mesmo.

Houve outro epis�dio que me lembro como o mais bonito.

Era ver�o e estava no bosque colhendo mirtilos,

e ent�o ouvi um zumbido.

No bosque h� muitos zumbidos fortes de insetos.

Mas ent�o percebi que era mais que isso.

Era algo assim...

E ent�o vi uma forma��o de avi�es.

Eram os bombardeiros aliados que vinham bombardear

os alem�es.

Eu estava deitado no ch�o em um espa�o pequeno

de onde se via o c�u.

Foi um dia maravilhoso.

Sabia que a frente se aproximava.

Voltei a Crac�via.

Fiquei com a fam�lia Putek novamente.

Soou um alarme e todos correram ao s�t�o.

Passamos a noite l� e outro dia.

Em um momento algu�m bateu na porta,

e gritou: "Abram a porta".

O senhor Putek foi abrir a porta, era nosso vizinho.

"Bobos, o que est�o fazendo aqui? Os russos est�o aqui.

Somos livres".

Foi uma enorme alegria e houve momentos de felicidade

que logo foram seguidos de falta de comida.

Nada funcionava.

Pior que quando estavam os alem�es?

Pior. Foi quando realmente sofri realmente a fome.

Os soldados � vezes davam p�o.

�s vezes davam um pouco de sopa.

Ent�o, um dia, um dos meus tios me reconheceu na rua

na Crac�via.

Fui levado para viver com eles.

Tinham not�cias do seu pai?

N�o, n�o tinha noticias dele nem da minha m�e.

Ainda n�o sab�amos que minha m�e estava no transporte

que ia diretamente �s c�maras de g�s.

Muito depois soubemos da morte da minha m�e.

Esperei por muito tempo que ela voltasse.

O melhor dia foi quando cheguei em casa

e na mesa da cozinha,

estava meu tio

e um homem que reconheci que era meu pai.

Foi o momento mais lindo da minha vida.

Meu pai me colocou em seu colo,

mas eu j� era muito grande com 12 anos,

mesmo sempre muito pequeno a vida inteira,

talvez por n�o ter sido bem alimentado na inf�ncia.

Quando me sentei em seus joelhos, senti seus ossos.

Ele se mudou contigo?

S� se mudou por alguns dias comigo e ent�o procurou um lugar para ficar.

Pouco depois, muito pouco, ele conheceu uma mulher,

se casarame encontraram um lugar para morar.

Era uma casa muito pequena e n�o podia morar com eles.

Na verdade, n�o queria estar com eles.

Pensava que, de algum jeito, tra�a minha m�e.

Sab�amos ent�o que ela havia morrido.

-Era Wanda? -Sim, Wanda.

Viveu com ela pelo resto de sua vida.

Isso, pelo resto de sua vida.

E sua irm�?

Minha irm� foi a Auschwitz. Estava l�.

Mas sobreviveu.

Era jovem. Era mais f�cil para os jovens passarem por isso.

Foi direto � Paris.

Ela amava a Fran�a e queria voltar para l�,

n�o queria mais voltar � Pol�nia.

N�o sabia o que havia acontecido e de alguma forma

descobriu que est�vamos vivos e escreveu cartas,

e come�amos a nos corresponder.

-Primeira carta deve... -Sim, foi fant�stica.

-Fant�stica. -Sim, foi fant�stica.

Lembro que me contou aquela hist�ria incr�vel

de quando seu pai e sua esposa, Wanda,

foram visit�-lo em Gstaad.

Wanda e meu pai vieram

e se hospedaram em um pequeno hotel perto de Schonried.

Est�vamos indo a um baile ou uma discoteca.

Estava nevando e acho que dirigia seu Range Rover

e havia um grupo atr�s de mim, n�o me lembro quantos eram.

Disse: "Deixe-me ir com meu pai".

-Tinha que v�-lo r�pido. -Sim.

Disse: "Esperem no carro", e corri � sala.

Wanda estava sentada na mesa com um pouco de luz e cartas.

Jogava paci�ncia,

e a m�sica tocava: "Oh, papai..."

E meu pai estava sentado na cama chorando.

Perguntei � Wanda o que era.

Disse que o deixasse, que era algo com sua m�sica.

Acho que a m�sica o fazia chorar.

E perguntei: "Papai, qual � o problema?".

A m�sica terminou, sabia que todos esperavam no carro.

Pediu que me sentasse

e disse: "Quando o gueto foi liquidado

e nos colocaram em Plaszow..."

Plaszow era um campo perto de Crac�via

de onde enviavam gente aos campos de exterm�nio.

Disse: "Um dia todos estavam na Appellplat".

Todos os prisioneiros iam e faziam a rotina habitual,

e estavam parados l� durante horas.

"Todos, menos as crian�as, que ficaram nas barracas.

Ent�o os caminh�es chegaram.

Come�aram a tirar as crian�as das barracas

e as colocaram nos caminh�es.

As pessoas se moviam,

murmuravam, choravam, gritavam

arrancavam os cabelos da cabe�a e se agachavam,

como vermes ao meu redor

e eu era um dos poucos

que continuava em p�".

Porque ele n�o tinha um filho nas barracas.

Foi depois que eu fugi.

E ver essas pessoas foi uma vis�o apocal�ptica,

surrealista e ele estava parado ali e as caixas de som,

porque os alem�es sempre tinham caixas de som,

come�ou a tocar: "Oh, meu pai..."

Voltando ao fim da guerra,

n�o tinha ido � escola durante todo o primeiro per�odo.

Como fez para voltar para a escola?

Sempre fui o �ltimo na escola.

Sempre me pressionavam porque achavam que tinha potencial.

�ramos tr�s. Tinha um amigo chamado Winowski, que mancava.

Teve p�lio quando era crian�a, e havia outro garoto

chamado Pieczarkowski.

-�ramos os tr�s piores... -Do fundo da sala.

Do fundo da sala.

Sabia ler?

Aprendio alfabeto com a m�quina de escrever do meu pai,

e durante a guerra quando ia ver filmes havia legendas

e eu olhava as legendas que iam muito r�pido.

Ent�o comecei a aprender a ler no cinema.

Tinha um livro chamado "A can��o de Rolando".

Era uma tradu��o do poema franc�s do s�culo XII

em polon�s muito arcaico.

Foi o primeiro livro que li na vida.

Passava horas lendo e tinha muitas palavras

que n�o entendia.

Tinha muitos buracos na educa��o,

que nunca poderiam ser consertados pois era idade

mais importante, entre os seis e os doze anos.

Mas meu sonho era ser escoteiro

e entrei nos escoteiros.

Mesmo agora sempre penso nisso, foi �til para mim.

A disciplina, as excurs�es noturnas, a responsabilidade.

Era fabuloso. Era algo muito importante para mim.

Aquelas noites perto do fogo quando faz�amos cenas

e logo percebi que era uma estrela no meu grupo,

e percebi que tinha talento para aquilo.

O come�o da minha carreira foi no campo de escoteiros.

Onde come�ou sua carreira art�stica realmente?

Na verdade, come�ou no r�dio.

Depois da guerra, fiz um r�dio de cristal.

-Pode conseguir o cristal... -Sim, tive uma.

-Fez uma? -Tamb�m fiz uma.

Fiz uma e foi um momento fant�stico.

Segurei e ouvi uma voz falar.

Era uma magia fenomenal e n�o tinha ningu�m em casa.

Sa� correndo e chamei o vizinho.

Era um idoso e falei que tinha feito um r�dio.

Olhou para mim e disse: "N�o ou�o nada".

Fiquei muito decepcionado.

Ent�o percebi de que era surdo.

Depois est�vamos sentados

frente a um r�dio de verdade, como hoje em dia nos sentamos

na frente de uma televis�o, e havia um programa de r�dio.

Como se chamava, programa de r�dio?

-Sim, programa de r�dio. -Mesmo sem ver, � assim.

Chamava-se "O grupo das crian�as felizes".

Est�vamos ouvindo e um dia convidaram as crian�as

a visitarem a esta��o de r�dio.

Claro que fui imediatamente

e havia uma mulher chamada Bilizanka.

Ela era a diretora do programa.

Perguntou-me o que achei do programa

e disse que pensava que as crian�as eram r�gidas e falsas.

N�o falavam como as pessoas falam.

-Disse isso. -Disse isso.

Precisa ser um garoto corajoso para dizer.

N�o percebi que precisava de coragem.

-Mas voc� disse. -Simplesmente disse.

Achava isso.

Perguntaram se eu poderia fazer melhor e disse que sim.

Perguntaram o que podia fazer e comecei a falar

um dos mon�logos que usava

nas atua��es dos escoteiros,

e me perguntaram se queria participar.

Consegui meu primeiro trabalho aos treze anos.

Aos 14, Bilizanka tamb�m era a diretora do teatro

para espectadores jovens, e havia um papel

em um dos espet�culos daquele teatro

chamado "O filho do regimento" e me deram o papel principal.

Se n�o tivesse ouvindo o r�dio...

Se n�o tivesse feito o r�dio de cristal,

n�o estaria aqui contigo.

Talvez n�o tiv�ssemos nos conhecido, Andy.

Definitivamente iria me dedicar � atua��o.

Fiz pequenos pap�is em outras obras,

e depois na escola de cinema

quatro estudantes estavam fazendo um filme.

-Um deles era Wajda. -� mesmo?

ANDRZEJ WAJDA, DIRETOR

E o professor encarregado de supervisar,

um homem chamado Bohdziewicz, me viu na pe�a

e me sugeriu uma participa��o muito pequena no filme.

"TR�S HIST�RIAS" (1951)

Isso era m�gico para mim.

Havia uma escola de arte.

Fiz alguns desenhos, me inscrevi na escola e me aceitaram.

Em meses me tornei um dos melhores alunos.

Estava feliz de ir � escola: desenho, escultura,

pintura, hist�ria da arte.

Depois fiz o preparat�rio na escola de arte

e pedi para entrar na escola de atua��o.

Estava preparando uns amigos, ensinava-os

porque n�o sabiam nada. Eu era um ator.

J� tinha experi�ncia, uma reputa��o.

O �nico que n�o tinha era a situa��o social

requerida pelo regime comunista.

N�o era nem campon�s nem oper�rio.

Meu pai tinha o que se chamava iniciativa privada.

Tinha uma pequena oficina com seis funcion�rios

o que nos tornava praticamente inimigos do povo.

Os amigos que eu ensinava,

todos entraram e viraram atores, mas eu n�o entrei.

Ficou devastado?

Fiquei totalmente devastado.

Um dos professores me conhecia de antes.

Era o homem do partido,

que tinha as informa��es sobre

todos os membros daquela institui��o.

-Foi ele que o vetou? -Foi ele.

-O que fez? -Ent�o fui � Vars�via

e tentei em outra escola, mas n�o me aceitaram.

-Escola de atua��o? -Isso.

Deve ter sido muito deprimente.

Foi terr�vel. Ent�o tentei uma terceira.

Era um tipo de varia��o de escola de atua��o,

que era mais b�sica. Inclusive aquela me rejeitou.

O motivo para ter sido terr�vel foi porque

tinha que estudar para evitar ser recrutado.

O recrutamento era uma cat�strofe.

Estava disposto a tomar medidas desesperadas.

Comecei a pensar seriamente em fugir,

mas era muito dif�cil porque as fronteiras eram vigiadas.

Podiam atirar em voc�.

Tamb�m pensei em construir um tipo de m�quina simples

que permitisse atravessar o rio entre a Alemanha e a Pol�nia.

Pensava em um tipo de submarino muito simples, por assim dizer.

-Com pedais. -Com pedais.

Fiz planos muito concretos, mas cheguei a Crac�via

e fui a visitar meu pai.

Contei a hist�ria de que me aceitaram

em uma escola de circo em Vars�via

e ele dizia que eu era mentiroso e eu continuava mentindo,

e est�vamos mal,

e ele e Wanda sa�ram

quando o telefone tocou, e era o diretor de fotografia...

JERZEY LIPMAN, DIRETOR DE FOTOGRAFIA

do filme de Wajda, Lipman, que eu conhecia,

e disse que Andrzej me queria no filme que

iria come�ar. Sua primeira estreia.

-Um milagre. -Um milagre, um milagre.

Ent�o meu pai veio de noite e contei que ligaram

porque n�o sabiam onde me encontrar,

e meu pai disse que era uma mentira monumental.

Fechei a porta e fui embora.

Peguei o primeiro trem, fui � Vars�via,

e come�ou o momento mais fabuloso para mim.

Ia estar em um filme de verdade, trabalhar com gente de verdade.

PRIMEIRO LONGA METRAGEM DE ANDRZEJ WAJDA

Isso foi no ver�o e ia come�ar

o ano escolar, e n�o sabia o que fazer.

Encontrei-me com Bohdziewicz, que disse:

"Est� claro que quer ser diretor.

Por que n�o vai para a escola de cinema?".

Eu respondi: "Quais s�o as minhas chances?

A escola de cinema de Lodz � uma institui��o exclusiva".

Disse: "N�o ter� nenhuma chance se n�o tentar".

E fui aceito.

Rapidamente, sentiu que era a carreira que sempre quis.

Sabia que era o que queria, mas conseguir

parecia t�o inimagin�vel.

No entanto, fui nessa dire��o.

Algo que fazia bem era fazer filmes.

A escola dava a oportunidade

de fazer filmes desde o come�o.

Fiz v�rios curta metragens, principalmente um filme

chamado "Dois homens e um arm�rio",

que fiz especificamente para o Festival de Bruxelas.

Eu ganhei.

Foi meu primeiro pequeno passo para as coisas que aconteceram.

AO TERMINAR A FACULDADE DE CINEMA, ROMAN TRABALHOU

EM UM GRUPO POLON�S DE PRODU��O.

L�, ELE TEVE A IDEIA PARA SEU PRIMEIRO LONGA-METRAGEM

"A FACA NA �GUA".

O ROTEIRO FOI APRESENTADO AO MINIST�RIO DA CULTURA,

CUJA APROVA��O ERA REQUERIDA

PARA TODOS OS PROJETOS DE FILMES NA POL�NIA COMUNISTA.

ELE FOI REJEITADO.

DESANIMADO, ROMAN VIAJOU � PARIS PARA FICAR COM SUA IRM�.

AT� QUE UM DIA, O DIRETOR DO GRUPO DE PRODU��O LIGOU.

Disse que politicamente sabia que as coisas

estavam mudando completamente.

Se voltasse e dissesse que refiz o roteiro,

poderia apresent�-lo de novo. Foi o que fiz.

Logo iria fazer meu primeiro longa-metragem.

Terminamos o filme, foi mal recebido pelas autoridades,

imprensa, por nosso Primeiro Ministro,

que aparentemente jogou um cinzeiro na tela,

e fiquei muito deprimido.

Na �poca estava casado com Barbara Lass.

-Ela era atriz. -Sim, era uma atriz.

Pouco depois nos divorciamos.

Ficamos juntos poucos anos ou algo assim.

Estava tentando fazer coisas na Fran�a.

Foi na �poca que conheci Gerard Brach.

Escrevemos o primeiro roteiro que se chamava "Cul-de-sac"

e que claro que ningu�m queria.

Passei tr�s ou quatro anos com Brach

tentando desesperadamente que algo funcionasse,

mas n�o dava certo. Ningu�m estava interessado.

AMANTES NO FILME POLON�S

De repente, soube que "A faca na �gua"

estava sendo exibido no mundo inteiro com sucesso.

"A FACA NA �GUA" (1962)

Chegou ao festival de Veneza e ganhou o pr�mio da cr�tica.

Soube que o filme tinha sido indicado

como melhor filme estrangeiro para o Oscar,

que fez sucesso em Londres,

e foi levado a um festival em Munique.

Naquela �poca, gostava de ser convidado a um festival.

N�o como hoje em dia.

N�o sabia que podia ser preso indo a um festival.

Fui a Munique e l� conheci Gene Gutowski.

Disse que era um produtor polon�s-americano,

e que morava em Londres.

RECONHECENDO IMEDIATAMENTE O POTENCIAL DE ROMAN,

GENE TROUXE-O � LONDRES E COME�OU A APRESENT�-LO � V�RIAS PRODUTORAS.

UMA DELAS FOI A COMPTON FILMS, UMA EMPRESA DE FILMES DE 2?

PROCURANDO POR FILMES DE TERROR BARATOS.

ROMAN E GERARD BRACH APRESENTARAM A ELES A IDEIA PARA "REPULSA AO SEXO".

Rapidamente escrevemos um roteiro que, a princ�pio,

foi apresentado como um filme de terror.

Gostaram e disseram que seria produzido,

e assim foi feito "Repulsa ao sexo".

Melhoramos o roteiro durante a produ��o...

"REPULSA AO SEXO" (1965)

...enquanto film�vamos, e demos um fundo psicol�gico

ao personagem principal, que � Carol,

interpretada por Catherine Deneuve.

Foi o come�o de Londres para mim

e foi a �poca em que nos conhecemos.

Sim, foi quando nos conhecemos.

Nunca gostei tanto de "Repulsa ao sexo".

Foi algo para n�o ficar parado.

Tem algo de prostitui��o, diria que a �nica vez

na minha vida art�stica.

E como foi um sucesso, falaram sobre fazer "Cul-de- sac".

S� porque "Repulsa ao sexo" foi um grande sucesso,

-fizeram "Cul-de-sac". -Exatamente.

Foi o primeiro filme do qual realmente fiquei orgulhoso.

Ainda estou orgulhoso.

Foi um verdadeiro filme.

Depois fiz "A dan�a dos vampiros",

que deve ter sido o momento mais feliz daquela �poca.

Foi quando conheci Sharon.

Como a conheceu?

Bom, depois de "Cul-de-sac", est�vamos muito bem.

Todos gostavam de n�s, ent�o assinamos com Martin Ransohoff,

que tinha uma empresa para MGM,

para fazer "A dan�a dos vampiros"...

QUEM DISSE QUE VAMPIROS N�O S�O ENGRA�ADOS?

-...uma com�dia sobre vampiros. -Que voc� iria protagonizar.

E a protagonizei com Jackie MacGowran.

A verdadeira estrela para mim era Jackie MacGowran.

Marty tinha um contrato com uma atriz americana,

que fez um filme na Inglaterra.

Ouvi seu nome, Sharon Tate.

N�o podia dividi-lo em nome e sobrenome, "Sharontate",

soava como Charente.

Mas percebi que era Sharon Tate.

Conheci-a em uma festa que Marty Ransohoff

deu para um filme que fez l�.

Vi que era uma mulher muito bonita e jovem,

mas para o papel do filme,

imaginava algu�m completamente diferente.

Deveria ser a filha de um dono de pousada judeu

e Sharon n�o se parecia nada com isso.

Mas Martin Ransohoff e seu time insistiam

que devia fazer um teste para o filme, e eu fiz.

Coloquei uma peruca ruiva e percebi que era

fact�vel para o estilo do filme.

Ent�o a contratamos.

Fazer com�dia � uma das coisas mais dif�ceis

na atua��o.

Leva muito tempo porque deve ser s�rio

e isso � divertido,

e nunca tive essa experi�ncia mas estou tentando.

"A DAN�A DOS VAMPIROS" (1967)

Enquanto film�vamos nas montanhas italianas,

nos conhecemos mais e nos apaixonamos.

"A DAN�A DOS VAMPIROS" (1967)

Quando voltamos, est�vamos muito apaixonados.

Sharon logo se mudou comigo e come�ou um per�odo

extremamente feliz da minha vida,

que durou, infelizmente, pouco tempo.

Sharon ficou gr�vida.

Isto tamb�m era algo totalmente novo para mim.

Ter um filho, na minha vida anterior, por assim dizer,

era inconceb�vel.

Como disse, minha m�e estava gr�vida

antes que a levassem a Auschwitz.

Engravidar uma mulher era uma cat�strofe

naquela �poca e foi como fui criado,

e logo percebi de que todos ao meu redor

tinha filhos, que eu poderia ter um filho

e que pod�amos ter uma vida normal.

"O BEB� DE ROSEMARY" (1968)

Antes da gravidez, se tornou uma superestrela.

"O beb� de Rosemary" mudou totalmente

o curso da sua carreira, porque foi um grande sucesso

e porque o filmou nos Estados Estados Unidos, em Hollywood.

Sim, isso mesmo.

Eram totalmente vis�veis e se tornaram um grande sucesso,

e devo dizer que eram um casal muito querido.

Lembro que encontrou uma casa linda em Cielo Drive.

Era id�lica.

A vida naqueles anos era id�lica.

Foi o come�o de uma total libera��o,

inclusive uma libera��o sexual.

As pessoas se sentiam livres.

-Havia muita alegria, festas. -Sim.

O clich� dos hippies

caminhando ao entardecer descal�os.

Era uma realidade. Ningu�m trancava a porta.

Tudo parecia um sonho.

Era bom demais para ser verdade.

E era bom demais para ser verdade.

Est�vamos preparando um roteiro em Londres.

�amos fazer "O dia do golfinho"

com Jack Nicholson e Sharon.

Ela estava l� e corr�amos para terminar.

Sharon e eu quer�amos que nascesse nos Estados Unidos.

Sharon estava avan�ada na gravidez.

Estava de oito meses

e n�o podia viajar de avi�o.

N�o permitiam mulheres naquela etapa da gravidez,

ent�o decidimos que fosse na Rainha Elizabete,

um barco fant�stico e a acompanhei no embarque

porque permitiam subir a bordo antes que partisse.

RAINHA ELIZABETE II

T�nhamos um pequeno cachorro.

Ela me ligou do barco, se podia ligar pelo telefone.

Disse que jogava a bola

e o cachorro estava se divertindo muito pegando-a.

Lembro-me quando me despedi.

Tinha uma esp�cie de pensamento estranho porque estava triste.

Precisava ficar para terminar aquele maldito roteiro.

Est�vamos demorando muito e n�o termin�vamos.

Deveria ter ido com ela e n�o me sentia muito feliz.

Lembro-me que quando foi, embora

n�o sei por que pensei que n�o a veria mais.

Aquele pensamento n�o teria significado nada

-se tivesse visto outra vez. -Sim.

Teria esquecido.

N�o sou nada supersticioso,

mas como foi a �ltima vez que a vi, eu lembro.

CINCO ASSASSINADOS EM LA; ATRIZ ENTRE OS MORTOS

Lembro onde estava sentado. Tinha uma cadeira Eams.

Estava sentado l� perto do telefone,

atendi e era Bill Tennant, seu agente.

E pensei que era muito cedo para a manh� de Hollywood

e senti imediatamente que algo terr�vel tinha acontecido

e passei o telefone para voc�

com a maior apreens�o e ansiedade.

O que Bill disse?

Disse: "Est�o mortos, est�o todos mortos".

E aquelas palavras congelaram meu sangue

porque sabia de quem estava falando.

Falava de Sharon.

Mais tarde descobri de quem falava.

Eram Jay Sebring, Wojtek Frykowski

e Abigail Folger.

E havia outro homem que tinha visitado o zelador.

Seu nome era Steve Parent, que tamb�m foi assassinado.

Pude ver que me dava o telefone e pensei

que era algo terr�vel, que tinha cancelado o filme.

Claro, mas quando pegou o telefone

e ouviu a not�cia, come�ou a chorar.

Primeiro, quando me disse

achei que tinha sido um deslizamento.

Lembra que a casa estava justo na colina,

e pensei isso. Pensei que fosse um deslizamento.

Foi o que ele disse: "Est�o todos mortos".

Mas com todos os golpes que teve na vida,

que foram incr�veis, este sem d�vidas foi mais...

Na minha vida, esta foi a pior trag�dia. N�o h� d�vida.

Tudo colapsou.

Mudou n�o s� nossas vidas, sua vida,

Hollywood mudou da noite para o dia.

Quando chegamos � Los Angeles, era um lugar diferente.

Fecha as portas, ande armado, n�o confie em ningu�m.

Nossos amigos eram os suspeitos principais.

Sugeria policia que passasse o detector de mentiras

porque podia sentir, de algum modo, que eu era um suspeito.

Mas estava nos jornais.

Estava em Londres, mas era um suspeito.

Claro, e lembro que um jornal muito sensacionalista...

O MARIDO DE SHARON INSPIROU SUA MORTE?

...publicava coisas t�o escandalosas sobre voc�...

CULTO HIPPIE MATOU SHARON TATE

...e sua participa��o definitiva no crime por isto ou aquilo.

'FEITI�ARIA' NA MORTE DA ESTRELA

Era algo incr�vel. Pura fic��o.

Havia uma t�bua Ouija no local.

ATRIZ, HERDEIRA E TR�S HOMENS MORTOS EM ASSASSINATOS 'RITUAL�STICOS'

Foi uma das provas evidentes de que havia magia negra.

Quando lemos no jornal e pensamos que n�o � verdade,

mas que deve haver algo de verdade naquilo.

N�o h� fuma�a sem fogo.

�s vezes tudo � mentira.

E os fatos que foram descobertos a cada dia,

envergonhar�o muitos jornalistas

que por alguma raz�o ego�sta,

insuport�vel para mim,

escrevem coisas horr�veis sobre minha esposa.

T�nhamos muitos amigos.

Muitos vieram ao funeral, mas estavam com medo.

-Levaram armas. -Vieram com medo.

Era uma loucura.

-Queria ver a casa. -Sim.

Queria ir desesperadamente e ver o que aconteceu, entender.

Estava tudo l�. O sangue continuava l�.

E a palavra "porco" estava escrita com sangue na porta.

E a pol�cia n�o tinha pistas.

Havia muitos ind�cios, muitas coisas,

mas nada estava perto da verdade.

Passou muito tempo trabalhando com a pol�cia

e passou pelo detector de mentiras.

Queria que cooperassem comigo, que me usassem

porque estava muito convencido de que tinha que ter sido

algu�m de nossos c�rculos.

Como pensaria que um grupo de pessoas

viria matar s� por matar?

Passou muito tempo at� que encontraram Manson.

COM O DINHEIRO DISPONIBILIZADO POR ROMAN E OUTRAS CONTRIBUI��ES

FEITAS POR AMIGOS PR�XIMOS, UMA RECOMPENSA FOI OFERECIDA

POR QUALQUER PISTA OU INFORMA��O SOBRE OS ASSASSINATOS.

SUSAN ATKINS, MEMBRO DA �FAM�LIA� CHARLES MANSON

ESTAVA PRESA POR ACUSA��ES N�O RELACIONADAS.

ELA SE GABOU PARA SEUS COMPANHEIROS DE CELA POR ESTAR ENVOLVIDA

NO ASSASSINATO DE TATE E FOI ENTREGUE.

A COMBINA��O DE UMA ARMA DO CRIME QUE TERIA SIDO DESCOBERTA

E A RECOMPENSA, EVENTUALMENTE LEVARAM

� PRIS�O DE CHARLES MANSON E MEMBROS DE SEU GRUPO.

-Como vai, Charles? -Bem. Como voc� est� esta man�?

-Espl�ndido! -Espl�ndido!

Qual foi o motivo para escolherem sua casa?

Antes Terry Melcher morou l�

e Manson estava tentando ser m�sico,

comp�s algumas coisas e mostrou a Terry

quando ele morava l�.

Acho que Terry o dispensou

ele deve ter se sentido humilhado ou vingativo,

quando mandou aquelas pessoas, mandou-as primeiro para l�.

Foi s� azar terem alugado a casa errada.

Isso mesmo.

� algo do que nunca se recuperou.

Aprendeu a viver com isto.

N�o, n�o pude.

Demorei muito tempo.

Quando vive algo assim, n�o sabe o que acontece na

sua mente, qual � o estado do seu c�rebro.

CEL. PAUL TATE E DEBRA TATE

S� com um pouco de perspectiva pode ver.

Mas sei que n�o fui eu durante anos.

Fizemos "Macbeth".

Fizemos o filme "Qu�?" com Marcello Mastroianni.

"QUE?"

Fez "Chinatown" que foi um grande sucesso.

E fizemos "O inquilino",

que n�o fez muito sucesso,

mas depois se tornou um filme cult.

"O INQUILINO" (1976)

Mas como foi "Chinatown", esse grande sucesso?

-Como foi essa experi�ncia? -Foi uma boa experi�ncia.

Principalmente porque t�nhamos Robert Evans,

que era o diretor do est�dio e o produtor

do filme, que era uma combina��o muito incomum,

mas foi uma experi�ncia incr�vel.

Naquela �poca, quando um est�dio via que era talentoso

te deixavam sozinho.

Nunca esquecerei quando filmava "O beb� de Rosemary",

meu primeiro est�dio cinematogr�fico.

O primeiro filme em Hollywood que estava atrasado.

O est�dio o tempo todo dizia que est�vamos

muito atrasados.

Um dia caminhava pelo set de Paramount

e encontrei Otto Preminger, que perguntou o que acontecia,

por que estava t�o triste.

Disse que estava preocupado porque estava atrasado.

E ele disse: "E da�? Eles gostam do que tem?".

E respondi: "Adoram o que j� fiz".

"Por que se importa? N�o v�o despedi-lo

se est� atrasado, mas o despedir�o

sen�o gostaram da cena".

Naquela �poca, quando viam que realmente fazia algo,

pensavam "bem", e ficavam atr�s

e foi o caso com os dois filmes na Paramount,

"O beb� de Rosemary" e "Chinatown".

Ol�, Claude. De onde tirou o an�o?

� um homem muito curioso, gatinho.

Sabe o que acontece com os curiosos?

N�o? Quer adivinhar?

N�o? Certo.

Eles perdem o nariz.

E em 1977, film�vamos um filme para Columbia,

"O primeiro pecado mortal", um livro de Lawrence Sanders

e logo teve aquela experi�ncia com Samantha.

Polanski foi preso "sem incidentes" ontem

no hotel Beverly Hills.

As c�meras esperaram mais de uma hora

antes que o diretor Roman Polanski chegasse � corte.

O suposto estrupo aconteceu quando estavam sozinhos

na quinta-feira na casa em Mulholland Drive.

A jovem foi fotografada por uma revista de moda francesa.

Polanski enfrenta 6 acusa��es por delitos graves.

Outra vez, assim como com Sharon, a imprensa explodiu.

Na corte, Polanski me disse que v� tudo isto

como um assunto s�rio

e acusa a imprensa de se comportar mal.

Devido � multid�o de c�meras e microfones bloqueando a sa�da,

Polanski talvez tivesse raz�o.

Declarou-se culpado de manter rela��es sexuais

com uma menor de idade.

A corregedoria do distrito e o juiz

concordaram que o juiz basearia sua senten�a

no relat�rio de liberdade condicional e nos argumentos

do advogado defensor na audi�ncia de senten�a.

Seguindo este acordo,

o oficial de liberdade condicional

interrogou todos os envolvidos.

Interrogou voc�, a jovem, a m�e da jovem

e no seu relat�rio recomendou...

TRIBUNAL SUPERIOR DO ESTADO DA CALIF�RNIA

...que recebesse liberdade condicional sem pris�o.

Mas o juiz tamb�m designou dois psiquiatras

para entrevist�-lo para determinar

se era um man�aco sexual com transtornos mentais.

E tenho uma c�pia da carta de Alvin Davis, m�dico,

dirigida ao honor�vel Lawrence Rittenband.

Diz: "O acusado n�o � mentalmente doente

nem tem transtornos mentais, e n�o � um man�aco sexual.

Tem uma intelig�ncia superior, bom crit�rio

e fortes valores morais e �ticos,

e sente um remordimento normal por seu delito

e um arrependimento normal por suas consequ�ncias".

Apesar do acordo feito, depois de declar�-lo culpado

e antes de ouvir o argumento de qualquer advogado,

e apesar do relat�rio de liberdade condicional,

o juiz declarou que como castigo seria mandado � pris�o

para um estudo diagn�stico.

O procurador do distrito especificou que o estudo diagn�stico

n�o deveria ser usado como castigo.

-Porque n�o � legal. -Porque n�o � legal.

Mas o juiz disse que seria usado mesmo assim.

O juiz disse que se voc� recebesse uma avalia��o

favor�vel da pris�o,

n�o seria obrigado a passar tempo adicional na pris�o.

Estava fora do pa�s para um filme,

ent�o voltei aos Estados Unidos para me entregar e ir � pris�o.

Chino era um lugar horr�vel.

Quando me aproximei da parte exterior, tive medo.

R.C.CENTRAL VISITANTES ENTRAM AQUI

E quando vi voc�, fiquei triste porque n�o te achei bem.

� ILEGAL TRAZER ARMAS, BEBIDAS, NARC�TICOS, BENZEDRINA...

� um lugar muito perigoso. A cada tanto matavam algu�m com uma chave de fenda

ou um l�pis no olho.

TODAS AS PESSOAS EST�O SUJEITAS � REVISTA...

Lembro que um homem havia matado 16 pessoas, a maioria na pris�o.

Sentia-se amea�ado?

Sentia o perigo.

Uma vez fui amea�ado por um prisioneiro novo que veio

e os rapazes que conhecia me disseram que ele estava

atr�s de mim e que disse que me pegaria.

Mas me colocaram na pris�o com prote��o,

com outros dois homens que temiam ser atacados.

Houve um relat�rio na pris�o.

Houve um estudo diagn�stico e a pris�o, por algum motivo...

DIAGN�STICO E RECOMENDA��O

decidiu que queria se desfazer de voc� depois de 42 dias

porque n�o tinha sentido mant�-lo l�.

Os relat�rios foram favor�veis.

Foi liberado de Chino...

RECOMENDA-SE QUE ROMAM POLANSKI FIQUE EM LIBERDADE CONDICIONAL

...e pensou que se terminaria.

O juiz disse que tinha mudado de opini�o

e tentou mand�-lo de volta � pris�o

at� que concordasse se deportar.

Bom, ele convocou o procurador do distrito e meu advogado,

Douglas Dalton, ao seu escrit�rio e disse que me mandaria

� pris�o de novo com uma senten�a indeterminada,

o que significava que ele tinha direito de decidir

quando seria solto.

Mas com a condi��o de que quando decidisse me libertar,

seria deportado voluntariamente.

Quando soube disso, decidi que era o fim.

Para mim era algo impens�vel.

Ent�o fui embora.

-Porque tinha seu passaporte. -N�o havia fian�a, Andy.

Isso mesmo, exatamente.

Diziam que n�o paguei a fian�a, mas n�o existia

porque havia sido libertado da pris�o.

Imediatamente disse: "Vou embora, n�o lutarei mais".

Isso mesmo. Independentemente das consequ�ncias.

Independentemente das consequ�ncias.

E estou aguentando. Mas foi minha decis�o.

Ligou esta manh� e me disse que n�o viria.

POLANSKI FOGE DOS EUA AO INV�S DE COMPARECER AO TRIBUNAL

De fato, nos �ltimos anos, Roger Gunnson, o procurador,

declarou publicamente que n�o se surpreendeu que fugisse

-sob aquelas circunst�ncias. -Isso mesmo.

-Foi � Londres primeiro? -Fui � Londres.

Mas cheguei em Londres e n�o me sentia seguro,

ent�o peguei um voo � Paris.

Felizmente tinha um apartamento em Paris.

Sim, tinha um.

-Foi perturbado...? -No dia seguinte?

Foi uma loucura.

Havia andaimes. Acho que estavam reconstruindo algo.

Nos andaimes tinha gente com saco de dormir.

-No andaime contr�rio. -Dia e noite,

no lado oposto em frente ao edif�cio.

Para sair, Sam me levava no porta-malas do carro.

Pouco depois, liguei para Sveeva.

-Lembra-se da fot�grafa? -Sim.

Era nossa amiga e sabia que precisava de uma mudan�a.

Liguei e pedi que viesse me fotografar na rua.

As coisas come�aram a se acalmar a partir daquela hora.

-Queriam aquela exclusiva. -Sim.

Aquela primeira foto, era tudo.

N�o se acalmou no primeiro dia que as fotos foram publicadas,

mas come�ou a diminuir, a press�o se aliviou.

Construiu uma vida completamente nova na Fran�a

e quase imediatamente fez o filme "Tess"

com Nastassja Kinski, que foi um sucesso mundial

e ganhou muito pr�mios.

Ent�o sua vida mudou do dia para a noite.

Conheceu sua esposa Emmanuelle.

Como a conheceu?

Estava filmando "Piratas"

e uma noite estava indo com meu diretor de casting

ver uma obra de teatro e me perguntou

se podia levar uma jovem atriz francesa com ele.

Disse que sim, se era uma jovem atriz francesa.

Ele foi com Emmanuelle.

Talvez tenha sido seu melhor trabalho porque foi h� 25 anos.

Estou feliz desde ent�o. Foi o melhor que me aconteceu.

Como foi a primeira experi�ncia de trabalho com Emmanuelle?

� muito dif�cil trabalhar com algu�m muito �ntimo.

Qual foi o primeiro filme que fizeram juntos?

O filme com Harrison Ford, "Frantic".

N�o cumpriu sua palavra. Deveria ficar ao meu lado.

Sinto muito. � perigoso.

Depois de "Frantic", fez "Lua de Fel",

um tema muito controverso.

Foi um projeto audaz.

-Tinha uma natureza er�tica. -Por sua natureza er�tica.

Os cr�ticos nos destro�aram por isso.

"LUA DE FEL" (1992)

A mudan�a exigida de Emmanuelle foi extrema.

Sim.

E ela fez um �timo trabalho.

Foi uma boa oportunidade para uma atriz

demostrar que � capaz de passar de menina inocente

a uma mulher completamente corrupta.

Primeiro ou�a o resto da hist�ria.

O outro filme que fizeram juntos foi "O �ltimo portal"

-com Johnny Depp. -Isso mesmo.

-Disse que era estudante. -Eu disse?

"O �LTIMO PORTAL" (1999)

Ent�o eu sou, de alguma forma.

Gosto de livros.

E voc�?

Foi muito dif�cil filmar por muitos motivos.

Por sorte, Emmanuelle tinha uma grande rela��o com Johnny.

De fato, se d� muito bem com seus colegas.

Ela � muito exigente e ambiciosa e �s vezes faz participa��es pequenas

mas muito dif�ceis como a que fez em "La vie en rose"

ou no filme de Julian Schnabel

"O escafandro e a borboleta".

Tamb�m trabalhou com ela no palco.

Sim. O �nico campo que n�o posso participar com ela

� sua carreira como cantora,

que aprecio mais que qualquer outra coisa.

Gosta de fazer coisas fora do comum ou desafiantes.

Encontrou um tipo de estabilidade

que nunca teve antes.

Isso, a vida funciona de forma paradoxal.

N�o nos casamos logo, mas cinco anos depois

e ent�o decidimos ter filhos.

Depois da trag�dia em Los Angeles

n�o queria ter filhos. Era muito dif�cil para mim.

Demorou muito tempo poder superar.

Ter um filho � uma experi�ncia fabulosa.

� algo que n�o se pode explicar a ningu�m.

Tem que viver voc� mesmo.

O fato � que passou por mais adversidades

que qualquer outro que conhe�a.

Viveu mais cat�strofes que todos que conhe�o.

Sempre achei incr�vel que atrav�s delas,

de um modo ou de outro, se reconstruiu e voltou

de certo modo, mais forte que nunca.

Bom, Andy, sofri muitas trag�dias, tempos dif�ceis...

ROMAN COMO MOZART EM "AMADEUS" (1982)

ROMAN EM "A METAMORFOSE" (1988)

...mas tamb�m tive momentos de grande compensa��o.

N�o s� coisas ruins, mas altos e baixos.

-Por isso estamos hoje aqui. -Por isso estamos aqui.

Bom, ou�a, acho que foi suficiente, n�o ?

Outra noite em Gstaad.

Dever�amos ascender um fogueira e beber algo.

MINIST�RIO DA JUSTI�A

DEPOIS DE MESES DE DELIBERA��O...

...O MINIST�RIO DA JUSTI�A SU��O DECIDIU

N�O EXTRADITAR ROMAN POLANSKI AOS ESTADOS UNIDOS.

EM 12 DE JULHO DE 2010, DEPOIS DE 9 SEMANAS NA PRIS�O

E 8 MESES EM PRIS�O DOMICILIAR, ROMAN FOI LIBERTADO.

6 MESES DEPOIS, ANDY VOLTOU PARA GSTAAD.

-� bom estar aqui. -� bom.

O mesmo lugar, mas n�o a mesma �poca.

O mesmo elenco h� muito tempo.

Sim, me sinto diferente, no entanto.

Sim, viemos aqui durante muito tempo.

Ent�o est� livre.

Depois de quase seis meses,

foi solto no dia 12 de julho passado.

O Minist�rio da Justi�a su��o

deu uma extraordin�ria coletiva de imprensa

que durou uma hora para anunciar sua liberta��o.

A pr�pria ministra disse que as restri��es � sua liberdade

foram retiradas e deixou claro que os EUA

n�o podem apelar esta decis�o.

Como se sentiu naquele momento?

Porque deve ter se preparado para as duas coisas.

Sim, bom, sou otimista.

Sempre vejo o copo meio cheio e n�o meio vazio.

A vida continua

de forma normal,

mas voc� n�o pode, porque, de fato,

h� 40 anos, assassinaram Sharon, h� 33 anos

aconteceu o caso da Samantha.

Escreveu sobre isso praticamente mais que ningu�m.

� famoso mundialmente, n�o s� por seus filmes, � verdade.

� um diretor de filmes famoso mundialmente

com muitos pr�mios.

Acho que preferiria ser conhecido pelo meu trabalho

pelas conquistas art�sticas, que pela vida privada.

No entanto, � muito famoso por sua vida privada.

O que acha que seja sua percep��o em geral?

Se olhar ao redor, o que acha que seja a percep��o

que as pessoas t�m de voc�?

Varia muito quando vai de um lugar do planeta a outro.

Como disse, sou procurado em uma parte e amado em outra.

Quem n�o me conhece opina o mesmo que a imprensa

e isso � t�o distante do que sou

que nem mesmo posso tentar consertar.

Um dos fatos importantes � que Samantha Geimer,

nos �ltimos tempos, defendeu-o.

Samantha Geimer tem a gentileza de nos acompanhar

em um caso que tem mais de 30 anos,

mas ainda consegue ser not�cia.

Por que � t�o clemente?

Ele j� cumpriu sua senten�a.

A V�TIMA DE POLANSKI ROMPE O SIL�NCIO

Fez tudo o que pediram e tivemos um juiz corrupto

que estava sendo desonesto, n�o tinha nenhum motivo

para acreditar que o sistema funcionaria para ele.

Fui mais prejudicada pela justi�a, imprensa do que por ele

� verdade, me fizeram muito mais mal do que ele.

� f�cil perdo�-lo.

H� outras pessoas que provavelmente n�o perdoariam.

� uma sensa��o de vazio.

Est� livre, mas voltou ao ponto de partida,

e a imprensa ainda fala nos mesmos termos

que antes.

Esta hist�ria n�o termina porque ao se declarar culpado,

admitiu o que fez e o que fez foi errado.

Claro que foi errado.

No mudei meu ponto de vista a respeito.

Naquele momento, todos tent�vamos n�o revelar

quem era a v�tima.

A fam�lia queria que ela permanecesse an�nima

e fizemos de tudo para conseguir.

-Posteriormente... -Foi encontrada.

Foi encontrada e agora passou 33 anos,

e lamento muito o que este fato causou em sua vida

com sua fam�lia, com a constante agress�o dos paparazzi.

Os jornais vieram � minha casa, interrogaram meus filhos,

n�o podiam sair de casa.

Fui abordada no aeroporto. N�o pude ir para casa.

Tive que dormir no escrit�rio.

Ent�o sim, estou brava.

E do meu lado, o problema era a fam�lia,

as crian�as e minha mulher.

Sofreram muito por causa disso tudo.

Tenho uma �tima rela��o com meus filhos

e ent�o muito bem apesar das adversidades.

Como disse, tudo isto � muito dif�cil e doloroso para mim

no que diz respeito minha fam�lia.

Deve ser assim do outro lado.

Entendo como vive com isso.

� a v�tima disso.

De fato, � duas vezes v�tima por tudo o que aconteceu

nestes anos.

SAMANTHA GEIMER REVELA: O QUE ACONTECEU COM POLANSKI EM 1977

-Alguma vez tentou ligar, falar contigo? -Nunca falei com ele.

Escreveu uma nota e pediu desculpas.

-Sim? -Para mim e para minha m�e.

Disse que a culpa n�o � da minha m�e, e sim dele

e que desejava que eu aproveitasse a minha fam�lia

como ele aproveita a dele, e que lamenta tudo

pelo que passamos todos estes anos.

No seu trabalho, trabalha com a mesma equipe

se poss�vel, o mesmo c�mera.

A maioria das vezes.

Estou rodeado de amigos e de gente que me conhece

muito leal comigo, incluindo voc�, Andy.

Sim, claro que sim.

"O PIANISTA" (2002)

Tenho um grande grupo de pessoas com quem trabalho,

�s vezes centenas de pessoas...

"O ESCRITOR FANTASMA" (2010)

...e, no geral, tenho �tima rela��o com eles.

"DEUS DA CARNIFICINA" (2011)

Incluindo sua esposa.

-Incluindo minha esposa. -Isso mesmo.

H� um poema maravilhoso que deve conhecer,

de Rudyard Kipling chamado "Se".

Sim, claro.

H� um verso:

"Se pode encontrar o triunfo e o fracasso

e tratar estes dois impostores da mesma maneira".

Lembro muito n�o s� da sua carreira profissional,

mas tamb�m da sua vida privada.

Minha vida teve uma amplitude de coisas.

H� vidas que seguem uma linha reta.

N�o sei o que � melhor.

Talvez aprecie mais os momentos de felicidade

como o que tenho agora por estar casado com Emmanuelle

e ter dois filhos, e viver o tipo de vida reta

em que vem outro golpe.

Mas agora tenho agora nunca teria acontecido

se o que aconteceu antes, n�o tivesse acontecido.

E isso faz com que se pergunte se existe livre arb�trio,

ou se est� tudo escrito, como dizem.

Querem doces?

O que realmente gosta � de ir ao set filmar.

� o que me faz feliz.

Quase esqueci o sabor do medo.

Esque�a, Jake, � Chinatown.

H� algum outro filme que poderia dizer

que foi perfeito e que n�o mudaria nada?

Acho que se tivesse que colocar um filme sobre meu t�mulo,

gostaria que fosse "O pianista".

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