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UMA SÉRIE ORIGINAL NETFLIX
EPISÓDIO 1
Tive outro sonho.
Sim.
Fui ao bosque perto de Musso.
Era verão.
Estava calor.
Estava descalço.
Sim.
Andava pelo mato alto
ao longo do rio.
Então ouvi um barulho.
Tipo um chiado.
Muito baixinho…
como um sussurro.
Sim.
Me aproximei e vi o corpo.
Uma jovem coberta de sangue.
Quem era ela?
Não sei.
Perdão, continue.
Ela sufocava.
A garganta havia sido cortada.
Se afogava no sangue.
Pressionei os ferimentos, mas o sangue não parava.
Então percebi que eu que a tinha matado.
Me levantei.
Estava coberto de sangue.
Olhei para ela e chorei.
E depois?
Acordei.
Dany,
esse corpo…
era da Clémence?
Não era a Clémence...
desta vez.
Quem era ela?
Pode me dizer.
Quem era, Dany?
Quem era?
Dany.
Era você.
Como vai indo com Dany Bastin?
Ele está evoluindo.
E a reinserção dele?
Está indo bem.
Achou um emprego na casa de uma vizinha,
no jardim dela.
Isso faz bem a ele.
Está se abrindo.
Que bom que achou trabalho. É importante.
Há quanto tempo ele pode sair?
Há quase três meses.
Saiu em março.
E os sonhos dele evoluíram?
Melhoraram.
Ainda tem flashbacks,
só que mais claros.
Continua obcecado pela mulher que matou?
Não acredito que ele a matou.
Essa é a sua opinião, Jasmina.
Eu sei.
Então, o que coloco no relatório dele?
Uma avaliação positiva?
Jasmina?
Sim, positiva.
Parece ser bom.
Os assentos são de couro de bezerro.
Dizem que em só duas semanas
podemos chegar até Portugal.
E que esse é um paraíso em forma de trailer.
Quanto custa?
São 1.200 euros.
-Por semana? -É.
-Isso é caro? -É, Tino.
É claro que 1.200 euros é caro.
Está me zoando?
Sabe quanto custam essas coisas?
Uns 150 mil euros.
O cara ainda me deu desconto por ser baixa temporada.
Vem comigo.
Tome cuidado.
Pronto.
Venha.
Continue.
Astrid, estamos de volta.
Não puxe, Tino.
Está puxando.
O que merda aconteceu aqui?
Merda…
Merda.
Astrid?
Astrid?
Aposto que foi o jardineiro dela,
Dany Bastin.
Falamos para não o contratar,
mas ela não escutou.
Minha irmã confia demais.
Foi isso que a matou.
Contratar um preso…
Ainda mais aqui.
Não consegue suspeitar de mais ninguém?
Não.
Solte ele!
Ele não fez nada!
Não fez nada!
Solte ele. Dany!
Solte ele!
Não foi ele!
Estou falando, não fez nada!
Me solte!
Dany!
Solte ele!
Dany...
Dany!
Alô?
A cidade de Musso está em choque após uma sinistra descoberta:
o corpo da baronesa Astrid du Tilleul
foi encontrado na piscina, supostamente degolada.
Um suspeito já foi preso pela polícia de Bastogne.
O nome dele é Dany Bastin,
um jovem recentemente solto da prisão.
Ela o havia contratado de jardineiro há pouco tempo.
Os investigadores o estão interrogando.
Mais informações em outras edições.
-Sr. Foucart? -Sim.
Olá, sou a Dra. Orban.
A psiquiatra de Dany Bastin.
-É um prazer. -Pode me dizer o que aconteceu?
Claro…
Ele matou de novo.
É parecido com o primeiro.
Pode não ter sido ele.
Como assim?
Talvez não a tenha matado.
Como assim?
Clémence Lorent foi morta em 2009.
Acho que não foi ele.
Foi preso erroneamente. E pode acontecer de novo.
Deve estar em choque por conhecê-lo,
mas ele matou aquela garota.
E provavelmente matou outra.
É triste, mas foi uma recaída.
-Me deixe vê-lo. -Fique fora disso.
Viu alguma coisa?
Ela se defendeu.
As marcas são óbvias.
Machucou o agressor.
Christian?
O que está havendo?
Todas as regras são importantes.
Mas, como todas, foram feitas para serem desrespeitadas.
São técnicas,
boas técnicas,
mas não passam disso.
Essa não é uma profissão técnica,
é uma profissão que lida com pessoas.
Quando em campo, você é sua melhor ferramenta.
Então confie em seus instintos.
Proteja-os.
E proteja a si mesmo.
Não se envolva emocionalmente.
Sim?
Disse que deveríamos nos identificar com a vítima.
-Pra entender como morreram. -Isso.
Mas é difícil se identificar com a vítima
sem se envolver emocionalmente.
Nunca disse que seria fácil.
Há uma linha tênue entre identificação e envolvimento.
É aí que deve basear a investigação.
Pode brincar com a linha, mas nunca passar dela.
Pode se perder.
Não.
Não tem nada.
Sério.
Nada de novo desde a última vez.
Está tudo bem.
Tem certeza?
Porque...
às vezes sinto que tem uma bola empurrando
bem aqui,
dentro da cabeça.
Se tivesse um tumor, não iria senti-lo.
Tem que procurar os sintomas, não a dor.
Sei disso e tenho os sintomas.
Ouço mesmo uns barulhos. Não sou louco.
Me diga novamente
o que exatamente escuta.
Geralmente começa com um ruído agudo.
Como um zumbido.
É sutil.
Então fica mais profundo,
como um ronco abafado.
Da última vez parecia manada de búfalos
passando pela cozinha.
Búfalos?
Sim.
Mas embaixo da terra.
Como se a terra estivesse tremendo embaixo.
Parecia muito real, eu sentia o tremer.
Escute,
o que está descrevendo
parece mais fadiga extrema do que tumor.
Como tem dormido?
Dormir é muito importante, Yoann.
Eu sei.
Ainda mais para você.
Devo tentar remédios de novo?
Não, Yoann.
Não deve.
Está indo bem.
Não desista.
Oi.
Oi.
Quer entrar?
É ótimo ver você.
Faz muito tempo.
Desculpe aparecer assim. Deveria ter ligado.
Não achei o seu número.
Imagina.
Está tudo bem.
Está ótimo.
Você mora bem.
Pois é.
É bonito e calmo.
À noite, cervos passam por aqui.
Vi até um veado semana passada.
Está aqui faz tempo?
Fará três anos em setembro.
Camille mora aqui?
Oficialmente, sim, mas...
passa a semana em Liège e, no fim de semana...
Está namorando. Não a vejo muito.
Por que veio até aqui?
Como assim?
Não veio até aqui só para saber como estou.
É sobre um paciente meu.
Bem,
Dany Bastin.
Vamos começar do início.
Vamos lá.
Diga-me o que você fez
ontem à noite.
Matou de novo, não foi?
Acabou de sair da prisão e não resistiu.
Desculpe.
Mas não posso fazer isso.
Não sou mais policial. Larguei o ramo.
Eu sei, Yoann. Não estou pedindo isso.
Só queria ver a ficha de 2009,
só para lê-la.
Ajudaria muito se fosse um erro da justiça.
Sei que é difícil, e desculpe por pedir isso.
Se tivesse outra solução, não teria vindo aqui.
Ninguém mais pode ajudar.
Não posso. Desculpe.
Não posso e nem quero mais investigar.
Camille e eu vivemos um inferno.
Estamos voltando ao normal agora. Me desculpe...
não quero recair.
Entendo.
Pai, está um inferno de quente.
Abra a janela...
Oi.
Oi, Camille.
Lembra da Dra. Orban?
Sim.
Oi.
Vou sair
pra beber com amigos.
Não durmo aqui.
Está bem.
Esqueceu que jantaremos com a Myriam na segunda?
Não.
Certo. Divirta-se!
-Por que ele? -O quê?
Tem dezenas de pacientes. Por que quer salvá-lo?
Dany não é como os outros.
É muito frágil.
Não pensa como as pessoas da idade dele.
Tem o corpo de adulto, mas pensa como criança.
Parou de se desenvolver aos 10 anos.
Era estuprado pelo pai.
Quando as pessoas descobriram, o pai se matou.
Dany nunca superou a morte.
Por isso, aceita a culpa por qualquer crime.
Com certeza foi o que houve em 2009.
E talvez faça de novo se não ajudarmos.
Ele não é assassino,
só um menino que nunca soube se defender.
Às 17h, você disse que estava na psicóloga.
É verdade?
Estava com a psicóloga?
-Sim. -Certo.
E depois disso?
Fui pra casa jantar.
Que horas?
Eram 18h.
Janta às 18h?
Não.
Mas disse que comeu às 18h.
Saí do centro às 18h.
Fui para casa.
Depois comi.
-Que horas eram? -20h.
O que você fez entre 18h e 20h?
Fiquei com a família.
Não saiu de casa de novo?
Não.
Não fez nada?
Não.
Está tremendo, Dany.
Fedendo de medo.
Pode até ficar em silêncio, mas não pode nos enganar.
Sei que matou e vou provar.
Oi.
-Pode me dar isso. -São as provas encontradas.
Eu sei, obrigada.
Sou o inspetor Briquet.
Da central de Musso.
Certo.
Sou o encarregado lá.
Eu sei.
Como o homicídio foi na minha região,
talvez eu possa assistir ao interrogatório.
Assistir ao interrogatório?
É.
O cara de Musso quer ver o interrogatório.
O cara de bigode?
Não.
-Não? -É, não.
Está bem.
Entendo.
-Tchau. -Tchau.
Tenham um bom dia.
Filha da puta.
POLÍCIA
Merda...
Inacreditável!
Picharam nosso trailer de novo.
Você voltou.
E aí?
Como foi?
Como você acha?
Bastogne assumiu o caso. Não nos querem lá.
Pediu para ver o interrogatório?
Ver o interrogatório?
Tenho meu orgulho, Marjo.
Quero fazer o interrogatório, não vê-lo.
O homicídio aconteceu aqui.
É normal Bastogne assumir o caso.
Normal?
Onde aconteceu o homicídio?
Logisticamente falando, têm equipamentos melhores.
Onde foi o crime?
-Em Musso. -Exatamente.
Quem manda aqui?
-Nós dois. -Isso mesmo.
Os babacas de lá não deviam ter pegado o caso.
Somos em poucos, Karim.
Exatamente. Há meses que peço reforços.
E para sair desta merda de trailer.
Babacas.
Não fizeram nada o ano todo.
Mas vai ver, vão ficar com o crédito.
De qualquer forma, não terão isto.
O que é isso?
Encontrei na cena do crime.
-O quê? -Acho que é uma prova crucial.
Aposto que a baronesa se defendeu
e que esse sangue na ponta é do agressor.
Tem que entregar isso a Bastogne.
Nunca, nunquinha.
Eu mandarei ao laboratório.
Se querem brincar sozinhos, é cada um por si.
Veremos quem ganha.
O que é essa marca na mão dela?
É tinta.
De uma caneta.
Certo...
Encontrei dois grandes ferimentos: no peito e na garganta.
O rosto também tem cortes, mas foram danos colaterais.
No nariz, na sobrancelha e nos lábios.
A garganta dela
foi cortada até o final.
Um corte profundo, como um sacrifício.
Alguma ideia da arma do crime?
Um instrumento...
com ponta afiada e que seja pesado.
São cortes limpos, e os ferimentos, profundos.
Ferramenta de jardinagem?
Talvez.
Ou um cutelo de carne. É difícil dizer.
Não coloque "cutelo" no relatório.
Complicará as coisas.
Dany Bastin, o principal suspeito no caso de du Tilleul,
deu aos investigadores o álibi dele esta tarde.
Um componente que atrapalha a teoria da investigação.
Dany Bastin já foi condenado uma vez.
Cumpriu pena durante nove anos pelo assassinato de uma jovem,
um crime do qual assumiu a culpa.
Para a polícia, a ligação entre os dois crimes parece clara.
Só resta uma questão: será que o jovem cometeu outro crime?
Obrigado.
É bom ver você, Peeters.
Você também.
Aqui não é ruim.
Acha mesmo?
Somos só três pessoas.
É a nova política.
Tudo é feito em Bastogne agora.
E nós...
Não somos mais uma delegacia, só uma central.
Enfim...
encontrei o que pediu.
A ficha de 2009 de Clémence Lorent.
Fiz uma cópia.
Não deveria te dar isso...
Não se preocupe, só quero ver.
RELATÓRIO DA AUTÓPSIA
Vai voltar a investigar?
Não, não.
Porque...
se quiser seu distintivo de volta, dou meu apoio.
É um bom policial.
Aquilo não foi culpa sua.
Obrigado.
Mas acabou para mim.
Segui em frente. É melhor assim.
Está certo.
Participou desse caso?
Não, estava em Musso.
Marcel Legrand era o comandante na época.
Por que se interessou no caso?
Uma amiga me pediu para dar uma olhada.
Trabalhou com ele na reinserção.
E daí?
Está convencida de que não matou a garota
e que pode influenciar o novo caso.
Ela é corajosa.
Por quê?
Não sei sobre du Tilleul,
mas o caso da Lorent
é sólido.
Tem confissões detalhadas e testemunha ocular.
-Uma testemunha? -É.
Não uma testemunha qualquer.
Christian Bastin, irmão do Dany.
Ao saber que o irmão o delatou,
Dany confessou.
Está tudo aí.
É uma caneta com sangue na ponta.
Pode verificar o DNA?
Ninguém vai descobrir, Pascal.
Fica entre nós dois.
Não é pessoal, mas é uma prova sensível.
Te pago um jantar.
Está bem.
Obrigado.
O número de referência é F-P-5...
Merda.
Ei!
Ei!
Merda!
Parem!
Polícia!
Polícia!
Parem!
Parem!
Merda.
Caralho!
Merda!
Merda!
Onde foi parar?
Onde está?
Filho da puta!
Merda!
ARQUIVOS
Quando abri a ficha, pensei o mesmo que você.
Uma história perfeita demais.
Esperava encontrar um erro, mas o caso é sólido.
Sólido demais.
Ele confessou, mas tem uma testemunha.
-Uma testemunha? -Sim.
O irmão dele, Christian.
Não sabia disso.
Por que não disse que o conhecia?
Como assim?
Fiz uma pesquisa.
Na infância, Dany foi internado em um centro em Virton.
De 1995 a 1997.
Foi onde estagiou, não foi?
-Cuidava dele? -Sim.
Ele acabara de chegar quando comecei.
Por que não me contou?
Achei que ia falar que me faltava perspectiva.
Obviamente, estaria certo.
Me desculpe.
Escuta,
tudo que quero é ajudar o Dany.
É normal a senhora querer protegê-lo.
Sabe que ele não está bem.
Se nos ajudar,
podemos cuidar dele.
Prometo.
Dany jantou conosco naquela noite.
Só isso que digo.
Você disse
que jantaram às 20h.
Sim.
Com o Dany?
Sim.
Escute, Christian.
Sei que não é fácil delatar o próprio irmão,
mas deveria.
Seu irmão é perigoso.
Já terminou? Posso ir?
Christian está defendendo o irmão. Faz sentido.
Mas você, Sophie,
deve saber
que, se mentir, se torna cúmplice do crime.
Na lei criminal, é obstrução de investigação.
Dá cadeia, sabia?
Então vou perguntar pela última vez.
Dany jantou em casa?
Sim ou não?
Dany jantou em casa? Sim ou não?
Sophie, sim ou não?
Sim ou não?
-Sim ou não? -Não.
Não.
Mentiu para mim, Dany.
Sophie abriu a boca, seu porco.
Claro que ela abriu.
-Mãe... -Saia daqui.
Você!
-Mãe, para! -Sua puta!
Sua puta!
Mãe!
Me solte!
Mãe, para. Solte ela!
-Mãe! -Me solte!
-Não toque em mim! -Me soltem, seus babacas!
Malditos!
Seus malditos!
Sua vadiazinha! Puta!
Puta desgraçada...
Sabemos que você a matou.
Todos nós sabemos.
Não tem álibi.
Pare de negar, Dany.
Admita.
Admita, Dany. Se sentirá melhor.
Admita, Dany.
Admita.
-Esqueceu alguma coisa? -O que é isto?
A reconstituição.
-E? -Esse não é o Dany.
É, sim.
-É sua reconstituição. -Não é ele.
Está escrito aqui: "Dany Bastin".
Estou falando, não é ele.
Não é o braço dele.
A tatuagem no braço...
Não é o Dany.
Fui eu.
Fez o quê?
A Sra. du Tilleul...
Eu a matei.
Legendas: Gustavo Sobral
Legendei.com
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