All language subtitles for Lição de Amor (1978)

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Original subtitles

Então estamos entendidos, senhorita Helga.

São oito contos pelo serviço...

pagos no final, quando tudo estiver concluído.

Perfeitamente, Sr. Souza Costa.

Está frio!

Estes fins de inverno são perigosos em São Paulo.

E, senhor...

...sua esposa está avisada? - Não.

A senhorita compreende, ela é mãe. Esta nossa educação brasileira...

Além do mais, com três meninas em casa...

Peço-lhe que avise sua esposa, senhor.

Não posso compreender tantos mistérios...

- Mas, senhorita... - Desculpe insistir.

Não me agradaria ser tomada por uma aventureira.

Certamente, não irei se sua esposa não souber o que vou fazer lá.

Muito bem. Se é assim que a senhorita deseja...

pode ficar tranquila. Estaremos a sua espera, senhorita.

Mais oito contos...

Se a situação na Alemanha melhorasse...

Com mais um ou dois serviços, posso partir.

Me casar...

ter uma casa sossegada, um rendimento certo.

Mamãe!

A governanta nova está aí, mamãe!

A governanta nova está aí!

Tanaka! Suba as malas da senhorita para o quarto.

Sai, Bisca! Vá brincar com suas irmãs.

- E, com tantas malas, a senhora... - Aqui estão os cinco. Passe bem.

Ah! A gorjeta.

- Dona Laura? - Helga, não é?

Estávamos a sua espera.

As crianças estão ansiosas para começar as aulas de alemão.

Acredito, minha senhora. Acredito.

Tanaka já subiu as malas para o seu quarto.

Logo irá chamar a senhorita para o almoço.

Fique à vontade. Depois conversaremos sobre tudo.

Obrigada.

- Deseja mais alguma coisa, senhora? - Não, obrigada.

Com licença.

Matilde, chegou a nova governanta!

Só quero ver se vai dar conta dessas crianças!

Tanaka deixou toda a bagagem dela na porta do quarto e sumiu.

Quando eu vi, ela estava carregando tudo sozinha.

- Não é possível... - Pois foi, Matilde.

Eu estava acabando de arrumar a cama.

Nem ouvi quando ele deixou as malas.

Senão eu tinha chamado a atenção dele.

A senhora está chamando!

Mamãe! Olha o Carlos!

Vem dançar comigo: Tatu subiu no palco...

- Pára! - La-ra-ra-la-ra-ra-rá...

Tira a mão de mim, Laurita! Não estou brincando com você!

- Sai! Vem cá! Te peguei! - Me larga!

- Tatu subiu... - Mamãe, olha só o Carlos!

- Tatu subiu no palco... - Manhê!

- Que isso meninos? - É mentira de você...

- Carlos! - Não estou fazendo nada!

Também não posso dançar um bocadinho?

Ele está me sacudindo toda! Bruto!

Me larga! Me larga! Me solta!

Eu estou ensinando o schime pra ela, mamãe.

- Você não viu a BB Daniels? - Mas eu não sou a BB Daniels!

- Mas eu quero que seja! - Mamãe!

- Sua irmã não pode se cansar, Carlos! - Pára!

- Ô, Carlos! Desça já! - Tatu subiu no palco...

- É mentira... - Larga, bruto! Larga!

Mamãe! Mamãe!

Bom dia. A senhora que é a nova governanta, é?

- Sou. - Ai!

Solta, pestinha! Viu só?

Mamãe! Laurita me deu uma dentada! Tirou sangue!

Meu Deus, ainda enlouqueço com essas crianças...

Tirou sangue! Viu só o que você fez, sua gatinha?

Carlos, você não me ouve? Olhem, que eu subo!

Mamãe, foi o Carlos que me machucou!

Vocês não ouvem sua mãe chamar? Desçam já!

Eu já não disse pra não descer mais no corrimão, menino?

Meu nome é Helga, mas vocês devem me chamar de "Fräulein".

- Fräu-lein. Digam comigo... - Fräu-lein!

- Fräu-lein. - Isso.

Agora, pra cama dormir, que já é tarde.

Amanhã cedo damos um passeio, pra vocês me mostrarem os jardins.

Logo depois do Carlos, é a hora da sua lição. Não se esqueça.

Acho que fizemos um bom negócio, hein, Laura?

Discreta, não é? E organizou a casa numa tarde.

Se Deus quiser, agora vou ter um pouco de sossego.

Depois, Carlos e Maria Luíza estavam mesmo precisando aprender alemão.

Claro!

Desde que aprendam depressa!

O alemão. Importantíssimo.

- Vendeu o touro? - Resolvi não vender.

É muito bom reprodutor.

Quantos anos você tem?

- Vou fazer dezesseis. - Tenho dezesseis anos.

- Tenho dezesseis anos. - Não. Pronuncie melhor.

Não abra assim as vogais. É "dezesseis".

- Dezesseis. - Isso. Agora repita a frase inteira.

Em inglês eu sei bem. " I'am sixteen years old".

Não faça assim, Carlos. Essa já é a nossa quinta lição.

Carlos, você já pensou no que você vai fazer quando crescer?

Não sei. Papai quer que eu faça Direito.

- E você não gosta de Direito? - Não gosto nem desgosto.

E então?

Então ele falou pra mim que, quando eu fizer vinte e um anos...

eu vou poder escolher entre trabalhar na fábrica...

ou ficar na fazenda cuidando da criação de gado.

Então, pra que Direito?

Vamos, Carlos. Já é tarde. Repita mais uma vez.

Tenho dezesseis...

Tenho dezesseis anos.

Já está na hora, Fräulein.

Mamãe, olha o Carlos!

Carlos, já começa?

Você não é mais forte do que eu!

Sou!

Tanaka! Você esqueceu o café de Fräulein.

Esse é o pé dele, que vem e vai até aqui.

Esse lado é todo branco.

Venham, crianças. É hora de dormir.

- Vai sair, Felisberto? - Vou ao clube.

- Adeus, papai. - Durma bem, minha filha.

Você está muito abatida hoje, ouviu?

- Até logo, papai. - Até logo.

Vamos.

Até logo.

- Boa noite. - Boa noite.

- Muito serviço, Tanaka? - Nem tanto, senhora...

- Na terra era pior. - Você é de Tóquio?

Não, senhora.

Pois imagine que ontem fui na Lirial com a Maria Luíza...

e ela falou em alemão com a caixeirinha.

Achei uma graça nela. Tão fraquinha, tão esperta!

Fräulein é muito instruída. Lê tanto!

Pra vir ao Brasil, decorou página por página o dicionário"Michaelis".

Você foi ao Tristão e lsolda? Achei tão lindo! Gostei muito.

Também! Quatrocentos mil réis por mês!

Felisberto não se importa de gastar, contanto que os meninos aprendam.

O Carlos é que me preocupa.

Depois de quase um mês de lições diárias, não há meio de se interessar.

Passa o dia inteiro na rua, jogando futebol...

Lições de inglês, de geografia, de não sei que mais.

Fica até tarde na rua com os camaradas...

e, ainda por cima, depois do jantar, cinema.

Alemão, que é bom, nada.

Fräulein, seu grampo cai.

Solta! Pára com isso! Ai! Mamãe! Olha o Carlos!

- Bom dia, Fräulein. - Bom dia, Carlos.

- Nadou muito? - Ah, sim.

- Como vai? - Bem, obrigada.

São pra você.

Fui até a praça da República pra conseguir.

Carlos, muito obrigada.

Há muito tempo eu não lia revistas da Alemanha.

Fräulein, largue disso e venha tocar um pouco pra mim.

Carlos, eu não posso. Preciso pregar esses botões.

Ora, venha! Você ensina piano pra mim, ensina?

- Você toca piano pra mim, toca? - Carlos, não me incomode.

Então, me ensine a pregar botões, vá! Me dê a agulha.

- Você me perturba, menino. - Perturba?

Ora, Fräulein, perturba no quê? Imagine, estou perturbando a Fräulein!

Mal-me-quer, bem-me-quer...

Vou contar pra mamãe que você está estragando as plantas dela!

- Não me amole! - Amolo! Pronto!

Mamãe! Olha o Carlos!

- Dá um beijo! - Me larga! Não dou!

- Dá! - Não dou!

Mamãe! Ai! Bruto! Vai bulir com Fräulein!

Tornaram a vida na Alemanha insuportável, Tanaka...

mesmo antes da guerra.

Quando vim para o Brasil, fiquei quase dois anos sem trabalho.

De casa em casa, ensinando alemão e piano.

Primeiro, no Rio de Janeiro.

Depois, Curitiba, onde não tive mesmo o que fazer.

Acabei aqui em São Paulo.

A capital espiritual do Brasil.

Uma cidade universitária.

Gente ríspida, me olhando de cima.

Falta de entendimento e prática desse povo inteiro.

Crianças mal-educadas e voluntariosas...

sempre atrasadas para a aula.

Nenhum prazer no estudo, nenhuma simpatia pessoal.

As casas, sempre barulhentas.

Meses e meses sem ver ao menos um ser alemão.

Às vezes, chorava de desespero.

Viu, Laura...

O lote novo de novilhas foi todo inscrito no anuário dos criadores.

É o que eu te digo, Laura. Vamos ter uma Guiomar Novaes na família.

Muito bem, Maria Luíza. Está muito melhor.

Viram como é mais bonito do que foxtrote?

Vamos ver esse coro, então.

Parece certo, não é? Mas está tudo errado. Outra vez.

Às vezes, penso que essa história do Carlos aprender alemão é uma loucura.

Uma verdadeira loucura.

Ai, Carlos. Não faça assim!

Você me machuca.

- Bom dia, Fräulein. - Bom dia, Carlos.

- Jogou muito? - Ah, sim.

Vou trocar de roupa.

Fräulein!

-"Meu coração se parece..." - Tal e qual.

..."Tal e qual o mar". - Mar.

- Tem. -"Tem tempestade, maré vazia, cheia...

e muitas pérolas bonitas...

em seu silêncio profundo".

- Entendeu, Carlos? - Quase. Mas adivinhei.

- Como, adivinhou? - Adivinhei!

Então diga o que é.

"Que eles ficaram sentados na praia...

de mãos dadas, muito juntinhos.

Depois, ele deitou a cabeça no ombro dela.

Depois...A segunda estrofe, não entendo nada!

"Vertraust". Que que é "vertraust"?

Mas depois...

coração deles principiou fazendo que nem o mar".

- Deles não, Carlos. Dele, só. - Deles! "Ganz". Todos!

Aqui quer dizer dos dois.

- Dela também. - Você está adivinhando, Carlos.

"Mein Herz." "O coração dele parecia com o mar".

"Gleich ganz."

"era como","parecia", "tal e qual".

Não sei mais.

Você estava falando certo. Continue.

O coração dele estava tal e qual o mar em tempestade.

Mas ele tinha muitas "péloras" no coração.

Escreva agora.

"Meu coração...

se parece tal e qual...

o mar.

Temtempestade, maré vazia...

e maré cheia.

E muitas pérolas...

bonitas em seu...

silêncio profundo.

"Tuht" não, Carlos. "Ruht", com R.

Eu vou escrever com a mão de você mesmo.

Pronto. Por hoje é só.

Maria Luíza, hoje não vamos ter lição, que eu estou com nevralgia.

- Quem é? - Sou eu, Fräulein. Quero lhe falar.

Queria lhe falar um pouco.

Estou às suas ordens, minha senhora.

É por causa do Carlos.

Sente-se.

Não vê que eu vim lhe pedir, Fräulein, pra deixar a nossa casa?

Acredite, isso me custa muito...

porque já estava muito acostumada com você.

E não faço má idéia de si, não pense, mas...

Creio que já percebeu o jeito de Carlos. Ele é tão criança!

Pelo seu lado, Fräulein, fico inteiramente descansada.

Porém esses rapazes, Carlos, as meninas...

Já vejo que o senhor seu marido não disse o que vim fazer aqui.

Não.

O senhor me prometeu contar a sua esposa a razão da minha presença.

Lamento profundamente que não o tenha feito, Sr. Souza Costa.

Queira desculpar, Fräulein.

Vivo tão atribulado com meus negócios na fábrica...

Laura, Fräulein tem o meu consentimento.

Você sabe... Hoje, esses mocinhos...

É tão perigoso.

Isso, de principiar. Você compreende?

É tão perigoso! Uma pessoa especial evita muitas coisas.

A cidade, Laura, é uma invasão de aventureiras, agora...

como nunca teve, Laura. Como nunca teve!

Exploradoras, viciadas...

E não é só bebida. não. É éter, morfina...

E os moços imitam! Depois, as doenças, a sífilis!

Você vive dentro de casa, com suas plantas... Não sabe.

- É um horror. Um horror! - Não é bem isso, minha senhora.

Não sou nenhuma sem-vergonha nem interesseira.

Estou no exercício de uma profissão. E tão nobre como as outras.

Não estou aqui apenas como quem se vende. Isso é uma vergonha!

Mas Fräulein, eu não tive a intenção de...

E o amor não é só o que o Sr. Souza Costa pensa.

Eu vim ensinar o amor como deve ser.

Amor sincero, elevado.

Cheio de senso prático, sem loucuras.

Hoje, minha senhora, isso está se tornando uma necessidade.

Desde que a filosofia invadiu o terreno do amor.

Foi isso que vim ensinar a seu filho.

Mas vejo que sou tomada por outra mulher, aqui.

Deixarei a sua casa amanhã mesmo, minha senhora.

"Hoje, a filosofia invadiu o terreno do amor."

Mas, Laura, você devia ter falado comigo primeiro!

Mas quando é que eu havia de imaginar!

- A culpa foi de você também. - Ora, essa é boa! Fiz o que devia!

E agora ela vai se embora!

- Mas Carlos é tão criança! - Tão criança...

Você não vê como ele está?

Pois eu lamento profundamente que Fräulein vá embora!

- Carlos me preocupa! - Pois até Maria Luíza já percebeu.

Toda hora ela manda Carlos ir bulir com Fräulein.

É? Pestinha!

Você proíba elas de falarem isto!

Também, agora, Fräulein parte!

Acaba-se com isto.

Dela, não me queixo, não... Se porta muito discretamente.

- Eu seria incapaz de adivinhar. - A história é o Carlos, Laura!

Agente não pode mais proceder como no nosso tempo.

O mundo está perdido!

Olhe! Contam tantas desses rapazes...

Não se sabe de nenhum que não tenha amante. E vivem nos lupanares!

Jogadores! Isso, então! Não tem um que não seja jogador!

Depois, dão na morfina, é o que acontece.

Veja a cor do filho do Oliveira. Aquilo é morfina!

Fräulein preparava ele.

Depois isso não tem consequência.

Quem indicou Fräulein foi o Mesquita, Zezé Mesquita...

você conhece, ora, aquele que mudou-se pro Rio ano passado.

Se utilizaram dela creio que pro filho mais velho.

Hoje ele está casado, família constituída.

Próspero.

Quem sabe você falando com ela, ela ficava.

Eu acho melhor, Laura. Francamente acho.

Fräulein falava tudo pra ele, abria os olhos dele...

Ficávamos descansados.

Depois pregávamos um bom susto nele.

Ficava curado e avisado.

Ao menos eu salvava a minha responsabilidade.

Depois, não é barato, não!

Tratei Fräulein por oito contos. Sim, senhora! Oito contos...

Fora a mensalidade! Naturalmente não barateei.

Mais caro que o touro caxambu, que me custou seis...

e já me deu um lote de novilhas estupendas!

Não tenho nada com isso.

Eles têm que me pagar os oito contos.

Amanhã você fala com ela.

- Talvez ela resolva ficar. - Mas... eu falar?

Preferível você! Vocês são mulheres, lá se entendem!

Mas eu estou envergonhadíssima com ela, Felisberto.

Com que cara agora vou pedir pra ela ficar?

Por isso mesmo. Você arranjou o embrulho.

Como você está áspero hoje.

Mas você compreende que uma coisa dessas não é nada agradável pra mim.

Nem pra mim, então! Sabe de uma coisa...

se quiser falar com ela, fale. Eu não falo!

O que eu posso é pedir desculpas pra ela.

E também não quero mais saber disso. Lavo minhas mãos.

Você é que acha melhor Fräulein ficar.

Eu acho, sim. Falo com ela amanhã.

Bom dia, senhora. Passou bem a noite?

- Eu vou deixar esta casa, Tanaka. - Carlos já aprendeu alemão?

Não, Tanaka. Mal comecei.

Mas tem sido sempre assim.

Derepente, um dia vem a dona da casa, muito sáxea...

É mesmo possível que uma pessoa olhe para os outros de cima...

altivamente, só porque tem dinheiro?

Me entrega o envelope com a mensalidade.

Isso quando não desconta as lições que faltam dar.

"Agora os meninos vão descansar um pouco."

"Mais tarde, quando forem recomeçar, avisamos."

Me aviltando... por oito contos.

Na Europa, poderia ser bem mais sincera.

Na Alemanha, então...

Porém sofre-se agora por lá.

As notícias chegam cada dia mais tristes.

A última carta que recebi eram dois braços implorantes pra América.

América desilusória. América.

- Ilusão da América! - O patrão já está chamando.

Fräulein...

antes eu tenho que lhe apresentar as nossas desculpas.

Laura não sabia de nada e foi precipitada.

Ela é mãe, Fräulein, mas está muito arrependida do que fez.

Não tem dúvida, Sr. Souza Costa. O mal foi o senhor...

- É verdade que o senhor se esqueceu. - Esqueci, Fräulein. Esqueci.

Tantos negócios... É impossível a gente se lembrar de tudo!

Mas Laura fez mal. Fräulein há de concordar comigo.

O que passou passou. Não é assim?

Laura está convencida de que a sra. deve abandonar a idéia de ontem.

Eu... Nós lhe pedimos que fique.

- Mas, Sr. Souza Costa... - Desista de partir, Fräulein.

É que...

Bom, Sr. Souza Costa, como o senhor e sua esposa insistem, eu fico.

- Recusou? - Aceitou.

Carlos se salvará.

É. Fräulein ficando, Carlos se salvará.

Depois, pregamos um bom susto nele.

Fräulein!

- Que foi que houve, hein? - Quando, Carlos? Quando?

Pensei que você estivesse doente. Não me deu lição ontem...

Eu estive doente. A minha nevralgia...

- Já sarou? - Já.

Continue a lição. Não houve nada. Futuro!

Eu agradarei.

Fräulein! Eu não quero que você saia daqui de casa.

Eu não vou sair daqui, Carlos. Sossegue.

- Continue. - Eu agradarei.

Nós agradaremos.

Vocês agradarão.

Eles agradarão.

Agora, escreva.

Não escrevo mais!

- Que é isso Carlos? Venha escrever. - Desse jeito, não escrevo mais.

Mas que modos são esses, Carlos?

Responda.

- Venha escrever! - Não escrevo mais, já disse!

Venha. Venha!

Assim você me entristece, Carlos.

- A hora já acabou. - Não ainda.

Ora, Carlos, como é que se escreve o "s" maiúsculo?

Venha, fique daquele jeito.

Fräulein! Está na hora da minha lição!

Que caídos são esses com sua irmã?

- Vamos dançar o steamy? - Larga!

Fräulein! Eu queria te falar uma coisa.

- Pois fale, Carlos. - Aqui não. Maria Luíza pode chegar.

Podem desconfiar.

- Sim? - Sim, o quê?

Ora, diga se eu posso ir falar com você.

Mas falar o que, Carlos?

Agora, você já sabe.

- Vamos embora. - Não!

- Me largue. A hora já acabou. - Só mais um bocadinho.

- Não me aperte assim. - Dá um beijo.

- Mas que menino! - Só um. O último.

Hoje?

- Não me amole. - Hoje, ouviu? À meia-noite.

Fräulein!

Abra, Fräulein!

Abra, Fräulein!

Ainda hei de tirar isso a limpo!

- Que é? - Dona Fräulein manda dizer...

pra o senhor que é hora da lição. Está atrasado.

- Você esqueceu da lição, Carlos? - Estava me vestindo.

Carlos... e as outras que você já teve?

- Nunca tive ninguém. - Ninguém?

Você não me engana, Carlos.

Então hei de acreditar que fui a primeira?

- Você foi a primeira. A única. - Não minta, Carlos.

Então você nunca esteve com ninguém?

Como é então que ontem você...?

Está vendo? Responda.

- Estar não é gostar. - Com quem foi, Carlos?

- Com quem foi? - Uma qualquer na rua lpiranga.

Mas que tem isso? É natural. Sou homem. Depois, foi só uma vez.

Juro, Fräulein. Te juro. Nem tive prazer. Levado por companheiros!

Se soubesse que você vinha...

Os companheiros me levaram, senão não ia.

Ela nem tirou a roupa toda...

e ainda cobrou mais caro, porque percebeu que era a primeira vez.

Serviço pago. Não tem a menor graça, Fräulein.

Serei sempre teu, só teu. De mais ninguém. Juro.

Não tenho nada com isso. Vou querer meus oito contos.

- Você foi ao clube, Felisberto? - Esse menino não vem jantar?

- Carlos! - Dá um beijo.

Não faça assim.

- Me largue! - Mais!

Carlos! Venha jantar, que a sopa já está fria! Chame Fräulein!

Como vai sua filha, Dona Maria Luíza?

Ah, agora ela está melhor! Ela é muito fraquinha...

vive sempre com dor de cabeça... Como sofre!

O médico acha que é anemia mas nós temos medo que seja coração.

- E a da senhora, Dona Aldinha? - A minha vai bem.

Nunca fica doente. É forte, corada!

Vamos fazer um casamento, Maria Luíza?

Quem casar sobe e vai pro quarto.

Pronto, mamãe e papai vão dormir.

Carlos e Fräulein levam o travesseiro. Já é tarde.

Que brincadeira é essa?

Levantem, vamos! Pra dentro!

A tarde está fria e Maria Luíza pode se resfriar.

Também, Laura! Você podia ter trazido qualquer coisa.

Sanduíches, bolachas...

Ora essa, Felisberto! Você podia ter comprado.

Tudo eu, arre!

- Fräulein, venha cá. - Pra que, Carlos?

- Estou super cansada.!

- Carlos! - Estou aqui, Fräulein.

Não faça assim.

- Podem ver! - Ficaram no automóvel, ninguém vê.

Assim não! É capaz de ter gente por aí.

Isso é demais! Nas minhas barbas!

É preciso dar um fim a essa história.

Maria Luíza está cada vez mais curiosa.

Não sei por que não acabei com isso há muito tempo.

Está na hora de dar um bom susto no galã.

Carlos! Carlos!

Fräulein!

Fräulein!

Vamos, estão chamando.

Você chamou?

O que é que vocês dois ficaram fazendo lá dentro?

Nada, papai. Vendo. Você não sabe o que perdeu.

Meu filho,vamos embora? Sua irmã está esperando.

Ah, mamãe! Deixe Fräulein olhar mais um pouquinho.

Parece que ela nunca viu uma vista bonita, coitada.

Também! Na Alemanha, é só neve!

Sr. Souza Costa, eu nunca vi coisa mais linda na minha vida!

- Muito obrigada! - Realmente, Fräulein. É uma beleza!

Mas, Fräulein, não seria possível terminarmos de outra forma...

Mansamente?

Meu filho vai sofrer muito! Ele é tão amoroso...

Você sabe, todo o nosso cuidado por ser a primeira vez...

- Depois eu falo pra ele. - Desculpe insistir, Sr. Souza Costa...

...mas da outra vez... - Sim, é claro.

A senhorita tem razão, mas foi o esquecimento!

- O menino vai fazer barulho. - Naturalmente.

Mas assim, violentamente, a lição fica mais viva no espírito...

no corpo de Carlos.

Se o senhor não ensinar agora, estou certa que não ensina mais.

Meu dever é não sair sem que o senhor indique ao Carlos os perigos.

Ainda que isso custe o meu sacrifício.

Muito bem, que seja como a senhorita quiser.

Com licença.

- Fräulein vai partir. - Mas que maçada, hein! Afinal...

Tomara ao menos que eu arranje depressa a governanta nova.

As meninas estavam progredindo tanto!

Maria Luíza já toca a Marcha Turca quase sem erro!

Paciência! Isso de amores escandalosos...

dentro de minha casa me repugna!

Daqui a pouco as meninas também estão querendo!

Fräulein, meu eterno amor.

Como Fräulein está ficando parecida com a senhora!

Acha?

Palhaço, sabe Maria Luíza, ele veio num "automovinho"...

- Não é palhaço, Laurita. É Piolim! - Eu que conto, Maria Luíza.

Ele veio num "automovinho" bem grande.

- Depois ele pegou na buzina... - Primeiro, ele levou um tombo.

Um tombão bem engraçado! Caiu de perna pra cima.

Como foi que ele disse, Maria Luíza?

"Viva a República!"

- Não permita Deus que eu morra - Sem que...

...eu volte para lá - Sem que desfrute os primores

Que eu não encontro por cá

- Sem que ainda aviste as palmeiras - Onde canta o sabiá

Abra!

Que está fazendo aqui? Diga!

Nada, papai.

Ela não tem culpa.

O senhor tenha a bondade, mas é de ir já para o seu quarto!

- Ela não teve culpa, papai. - Você está louco?

Você não sabe quem é esta mulher!

Se ela agora te obriga a casar? Bonito!

- Eu caso, papai. - Bobo!

Não está vendo que é uma aventureira?

- Não é uma aventureira. - Cale-se!

Papai, ela não é uma aventureira!

Carlos, você é uma criança, não sabe nada, ouviu?

E agora? Se tivesse um filho? Como é? Diga!

Maluco!

Felizmente você tem seu pai pra acabar com essa história.

Mas de outra vez tenha mais cuidado.

Não tem tantas mulheres sem perigo por aí.

E não me obrigue mais a gastar dinheiro com essas coisas.

Dinheiro? Ela não recebeu dinheiro!

Você pensa que ela ia partir assim, sem nada?

Fräulein vai partir? Quando? Quando?

Quando... Essa é muito boa! O mais depressa possível! Amanhã cedo.

Não, papai. Não. Eu não faço mais nada. Eu não faço mais.

Como é? Mas então você...

Mas, Carlos, você está maluco de uma vez! Parte!

E é pena que não possa partir já! Agorinha mesmo!

- Fräulein. - Quem é?

- Abra essa porta! - Carlos, não posso. Vá dormir.

- Abra essa porta, já disse! - Meu Deus. Seu pai escuta, Carlos!

- Vá embora! - Eu arrebento essa porta, Fräulein!

- Fräulein! Abra a porta! - Meu filho, que é isso?

- Não faça assim! - Me solte, mamãe. Me largue!

- Quero abrir essa porta, já disse! - Mas meu filho, tenha paciência!

- Abra a porta, Fräulein! - Você está louco? Já disse a você...

Não sei se estou louco. Abra essa porta!

- Meu filho, você acorda suas irmãs! - Vamos embora!

Fräulein...

- Carlos, você faz assim pra seu pai? - Esse menino! Dou nele ainda.

Fräulein...

Agora eu vou mas é fechar você a chave!

Felisberto, tenha um pouco de paciência.

Meu filho...

...não chore assim. - Vamos embora, Laura! Deixe ele aí!

Felisberto...

Fräulein...

Sr. Souza Costa...

gostaria que me permitisse ver Carlos pela última vez.

Meu filho...

- Acorde, meu filho. - Que é mamãe?

Meu filho, Fräulein vai embora. Você não quer se despedir dela?

Mas seja homem, Carlos!

Meu filho.

Adeus, Carlos.

Seja feliz, ouviu?

Adeus.

Filhinho, não faça assim.

Muito obrigada, Sr. Souza Costa. E, acredite...

desejo a felicidade de Carlos.

Acredito, Fräulein. Muito obrigado.

Fräulein!

Meu Carlos...

Carlos, Plínio ...

Alfredo, Caio...

Meu Deus! Tantos!

Todos amando.

Felizes, habilíssimos...

familiares.

Quantos mais ainda?

Se a situação na Alemanha melhorasse...

estava certo assim. Os homens são muito injustos.

Carlos casará bem. Ela será rica, bonita...

Carlos casará rico. Perfeitamente.

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