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Outubro de 2011
Por todo o mundo, f�s devotos choram a morte de Steve Jobs,
a for�a da natureza por detr�s da Apple.
Ele distorcia a realidade, com uma mistura de carisma, ousadia
mentiras, autoconfian�a, autoilus�o e ambi��o desmedida.
Os produtos de alta tecnologia da Apple fazem furor...
� bonito. � muito sexy.
... e definem o consumo "cool" em todo o mundo,
tendo sido glorificados pelo homem que personificava a marca.
Funciona �s mil maravilhas.
T�m t�o bom aspeto, que quase d�o vontade de lamber.
� inacredit�vel.
Ningu�m tinha aquela mistura de arrog�ncia, humildade,
talento e presen�a que o Steve Jobs tinha.
Ele mudou a m�sica, o cinema e a inform�tica v�rias vezes,
criou setores de atividade de que nem sab�amos que precis�vamos.
Jobs era um perfecionista...
Para o Steve, tinha tudo a ver com gosto.
Era como algu�m que escrevesse um excelente tema musical.
... e um tirano.
O Steve Jobs a gritar com algu�m, com toda a sua for�a,
era uma coisa muito assustadora para a maioria das pessoas.
Como � que um estudante que desistiu da faculdade, onde consumia droga,
cria umas das empresas mais bem-sucedidas em todo o mundo?
O passado hippie fez dele um bilion�rio mais bem capacitado.
Esta � a hist�ria de como Steve Jobs levou a Apple
de uma garagem suburbana � supremacia global.
STEVE JOBS O BILION�RIO HIPPIE
A Apple nunca foi uma empresa completamente convencional.
As suas origens est�o na Calif�rnia nas d�cadas de 1960 e 1970,
altura em que o jovem Jobs se encontrava no centro de dois mundos opostos:
o movimento hippie e a inform�tica.
Pass�mos muito tempo a passear no Volvo que ele tinha.
A �nica coisa que me lembro de ouvirmos eram as cassetes do Bob Dylan.
Ouv�amo-las vezes sem conta.
Nascido em 1955, Jobs foi adotado por uma fam�lia humilde
e cresceu no Vale de Santa Clara,
local que estava a tornar-se mais conhecido como "Silicon Valley",
� medida que surgiam l� empresas de alta tecnologia.
E ali perto,
S�o Francisco estava a tornar-se no epicentro da contracultura.
Jobs aderiu �s duas coisas.
Ele possu�a v�rios interesses.
Era uma pessoa intensa e atenciosa e eu gostava disso nele.
Jobs conheceu Daniel Kottke na universidade.
N�o demorou muito at� Jobs desistir do seu curso
e a encontrar o seu caminho.
Ambos compr�mos Be Here Now, um livro novo na altura,
que foi escrito pelo Baba Ram Dass e � sobre a sua viagem a �ndia,
� procura de um asceta que lhe explicasse o efeito das drogas alucinog�nias.
Eu achava isso fascinante,
assim como o Steve. E essa foi a base para a nossa amizade.
Jobs tornou-se um hippie, buscando caminhos em dire��o � liberta��o pessoal.
Ele e Kottke fizeram uma viagem a �ndia
e tomaram LSD, experi�ncia que Jobs afirmaria mais tarde
ter sido uma das mais importantes da sua vida.
Jobs tamb�m passou muito tempo numa comunidade baseada numa quinta, no Oregon.
Pass�mos uma semana inteira na colheita da ma�� e, nisto,
decidimos comer s� ma��s, para ver no que dava e...
Isso deixa uma pessoa muito fraca pois as ma��s s� quase t�m frutose.
Jobs inspirou-se na contracultura
e acreditava que a sociedade deveria ser reestruturada.
Tanto quanto sei,
o Steve Jobs sempre teve a ambi��o de mudar o mundo.
Ele esperava fazer isso atrav�s da capacita��o de todos n�s.
Mas nem todos os colegas de contracultura de Jobs tinham as mesmas perspetivas.
Muitos hippies viam os computadores como ferramentas de opress�o,
feitos por grandes empresas
com o objetivo de aumentar a influ�ncia de outras grandes empresas.
Jobs, por�m, tinha crescido a fazer experi�ncias eletr�nicas em casa.
Pessoas dessas
t�m outra perspetiva no debate sobre se a tecnologia � boa ou m�.
Elas acham que a tecnologia que as amea�a � m�
e que a tecnologia boa
� aquela que as leva a concretizarem o que querem fazer com ela.
Mesmo quando ainda era estudante,
Jobs trabalhou numa
das grandes empresas inform�ticas perto de sua casa, em Silicon Valley.
E foi l� que fez um amigo que iria mudar a sua vida.
Est�vamos a falar sobre eletr�nica e eu disse que projetava computadores,
fossem eles quais fossem. J� ele tinha trabalhado na Hewlett-Packard
e constru�do o chamado contador de frequ�ncia.
E torn�mo-nos amigos.
Apesar da sua filosofia hippie, Jobs n�o revelava miseric�rdia.
A ent�o recente empresa inform�tica Atari pediu-lhe
que projetasse um novo jogo, Breakout.
Jobs pediu a Wozniak para constru�-lo em apenas 4 dias,
dizendo ao amigo que iriam partilhar o lucro.
Ele disse-me que cada um de n�s iria receber metade dos lucros,
mas na verdade n�o era bem assim.
Wozniak trabalhou sem parar para entregar a sua parte,
mas mais tarde descobriu que Jobs lhe pagou consideravelmente menos
de metade da quantia que tinha recebido da Atari.
N�o achou que n�o podia confiar no Steve
ou que ele era demasiado astuto para si?
Ele podia simplesmente ter dito
que precisava de dinheiro para comprar uma comunidade no Oregon.
O senhor nunca lhe ficou com rancor por isso?
Eu n�o guardo rancores.
Mesmo que algu�m tivesse acabado de me fazer uma coisas dessas, n�o os guardaria.
Por�m, descobri a verdade e cheguei a chorar.
Chorei bastante quando li sobre isso num livro.
As ra�zes da Apple come�aram a ganhar forma quando Wozniak apresentou a Jobs
um misterioso mundo de entusiastas de tecnologia amadores.
O Homebrew Computer Club tinha ideias sobre como pessoas normais
que percebiam de inform�tica
poderiam mudar o mundo e tornar-se especialistas.
O Homebrew Computer Club fez com que a computa��o
deixasse de ser exclusiva das grandes empresas.
O que acontecia era que, se quis�ssemos um computador, um software
ou algum outro produto que n�o existisse,
n�s constru�amo-lo, simplesmente.
Depois, mostr�vamo-lo aos nossos amigos, que � uma coisa de que todos gostamos,
e eles diriam: "Isto � fant�stico. Posso ficar com um?"
N�s partilh�vamos os nossos valores. Se tiv�ssemos componentes inform�ticas �teis
ou conhecimentos sobre determinada coisa, partilh�vamo-los.
Wozniak trouxe Jobs para o Homebrew Computer Club,
onde andava a exibir um computador que tinha feito recentemente.
Esse computador viria a ser o Apple I.
Ele viu uma oportunidade de neg�cio no facto de muitas pessoas quererem fabricar
o computador que eu tinha projetado, mas n�o possu�rem compet�ncias para isso.
E pensou: "Investimos algum dinheiro, projetamos um circuito impresso,
gastamos 20 d�lares na sua constru��o e vendemo-lo por 40."
Eu n�o sabia se ir�amos vender o suficiente para reaver o investimento.
T�nhamos de vender cerca de 50 circuitos.
Nem sabia se havia 50 pessoas dispostas a comprar o meu computador.
E o Steve disse: "Sim, talvez n�o seja poss�vel reaver o nosso dinheiro,
mas, pelo menos,
finalmente teremos a nossa pr�pria empresa."
Ena p�. Ningu�m tinha mais jeito para aquilo do que ele.
Em 1976, Wozniak e Jobs come�aram a vender o computador Apple I
a partir da garagem da fam�lia de Jobs.
Os compradores tinham de acrescentar a sua pr�pria caixa ao computador.
O nascimento da Apple como empresa tinha sido idealizado por Jobs,
um hippie com faro para o neg�cio.
Um n�mero surpreendente de pessoas provenientes da cultura hippie
e da contracultura das d�cadas de 1960 e 1970
acabou por entrar no neg�cio.
Ter um neg�cio era uma forma de conseguir alguma liberdade.
Mais tarde, Jobs viria a dizer que tinha criado o neg�cio quase por acaso.
N�s come��mos a Apple porque quer�amos aquele computador para n�s mesmos.
Por�m, os nossos amigos tamb�m quiseram quando nos viram a construir um prot�tipo.
E o nosso neg�cio foi crescendo aos poucos.
O nosso objetivo n�o era construir uma grande empresa,
mas sim fazer computadores para n�s e para os nossos amigos.
Para o cofundador da Apple, a realidade � um pouco menos idealista.
O Steve focava-se muito na ideia de que se uma pessoa conseguisse construir coisas
e vend�-las, ser-lhe-ia poss�vel ter uma empresa, e de que ela s� ganharia dinheiro
e import�ncia na sociedade se apostasse em empresas.
E ele sempre disse que queria ser uma pessoa importante na sociedade.
Ele sabia como fazer mover a parte comercial de uma empresa.
Sim, � verdade, mas guiava esse faro para os neg�cios segundo este princ�pio:
"� assim que se fazem coisas de qualidade para as pessoas".
Ele n�o estava interessado s� no dinheiro.
Foi o computador seguinte de Wozniak
que levou a Apple a alcan�ar extraordin�rios n�veis de sucesso.
Lan�ado em 1977,
o Apple II foi o primeiro computador dom�stico com gr�ficos a cores.
Nos tr�s anos seguintes, as vendas cresceram rapidamente
atingindo mais de 150 milh�es de d�lares e levando a Apple,
que tinha come�ado numa garagem, ao patamar mais alto de uma nova ind�stria,
a dos computadores pessoais.
H� grandes parcerias pelo mundo fora,
como entre o John Lennon e o Paul McCartney e entre o Steve Jobs e o senhor.
Entre voc�s, quem era o John e quem era o Paul?
Fico muito lisonjeado por me incluir numa categoria dessas,
mas sim, � verdade.
Sabe, entre o Steve e eu havia uma...
Exatamente, uma parceria do tipo "John e Paul". N�o sei dizer quem era quem.
Sempre achei que as pessoas me viam mais como o "John Lennon",
pois eu era brilhante a n�vel t�cnico e constru� e projetei as m�quinas.
J� o Steve sabia como fazer com que elas chegassem �s pessoas.
Ele tamb�m era brilhante, � sua maneira.
Quando a Apple passou a estar cotada em bolsa, em 1980, tornou-se a empresa
com maior subscri��o excessiva de a��es desde a Ford, em 1956.
Tal n�vel de sucesso mudou a Apple.
Qualquer empresa que passe a estar cotada em bolsa e que cres�a,
torna-se diferente. A pol�tica come�a a infiltrar-se nela.
A partir desse momento, a meta da empresa deixou de ser mudar o mundo
e passou a ser aumentar o lucro dos acionistas.
E foi mesmo isso que a Apple fez.
No final de 1980, j� valia quase 2 mil milh�es de d�lares.
E Jobs possu�a uma fortuna de 250 milh�es de d�lares.
Por�m, agora acorriam � Apple homens e mulheres da �rea financeira,
que n�o levavam Jobs, ent�o com apenas 25 anos, muito a s�rio.
O Steve era o presidente da Apple, mas n�o era visto como uma pessoa
que tivesse estatuto e maturidade suficientes para administrar a empresa.
Principalmente porque o mundo em torno de Apple estava a mudar rapidamente.
A concorr�ncia no mercado dos computadores pessoais estava a aumentar.
Em 1981, a IBM lan�ou a sua resposta ao Apple II,
o IBM PC.
Foi o primeiro tiro de uma batalha que duraria 15 anos.
A Apple passou de l�der entre as empresas de computadores pessoais
para segundo lugar
e, na verdade, estava numa posi��o muito prec�ria
pois o sistema IBM podia ser utilizado em m�quinas de outras marcas.
Era evidente em que requisito � que a Apple iria continuar a ficar para tr�s.
A Apple precisava de um diretor executivo experiente e que ajudasse a empresa
a enfrentar dificuldades cada vez maiores.
A busca de Steve Jobs levou-o at� Nova Iorque
e a John Sculley, presidente da empresa de refrigerantes Pepsi.
Os dois homens come�aram em lados opostos.
O mundo de onde eu vinha era hier�rquico.
Era um mundo muito competitivo, de grandes empresas,
e a ideia de construir uma empresa que iria mudar o mundo
era algo completamente diferente de tudo aquilo a que eu tinha sido exposto.
A forma como Jobs convenceu Sculley a aceitar o cargo
entrou para a hist�ria do mundo dos neg�cios.
O Steve tinha uns olhos castanhos profundos e penetrantes,
e olhou-me diretamente nos olhos a uns 40 cm de dist�ncia.
Ele disse: "Quer vender �gua com a��car para o resto da vida
ou quer vir comigo e mudar o mundo?"
Eu fiquei muito espantado
porque at� ent�o ningu�m me tinha dito uma coisa daquelas.
Sculley era um empres�rio pragm�tico
e um especialista em marketing que sabia exatamente o que a Apple devia fazer.
O que a empresa precisava era de algu�m que conseguisse manter o Apple II vi�vel
de um ponto de vista comercial e a gerar lucro por mais tr�s anos.
Depois de algumas novas linhas de produtos n�o terem sido bem-sucedidas,
eram os lucros do Apple II que sustentavam a empresa.
A esperan�a de um renascimento da Apple estava num novo computador dom�stico,
o Macintosh, o nome de uma variedade de ma��.
O Macintosh definiria a abordagem tecnol�gica da empresa.
A equipa do Macintosh estava repleta de esp�rito rebelde.
�ramos todos jovens, todos da mesma idade e todos n�s ach�vamos
que pod�amos fazer coisas melhores do que o que j� tinha sido feito.
Jobs julgou que seria necess�rio um ano para construir o Macintosh,
mas, na verdade, seriam necess�rios mais de tr�s.
Ele tinha um "campo de distor��o da realidade".
O Steve queria o imposs�vel
e, de algum modo, conseguia convencer toda a gente
de que o imposs�vel era poss�vel.
Jobs estava determinado a fazer com que o Macintosh fosse f�cil de utilizar.
Teria um rato e atalhos no ecr�,
uma novidade num computador pessoal a um pre�o acess�vel.
A hist�ria sobre como Jobs introduziu esse rato no mercado
acaba com o mito
que diz que ele inventou tecnologias revolucion�rias.
� que Jobs n�o agia num v�cuo intelectual.
Perto dali, em Silicon Valley, a Xerox tinha um departamento de investiga��o
chamado PARC.
O PARC estava repleto de radicalistas tecnol�gicos, de esp�rito livre
e com ideias inspiradoras.
O PARC era um lugar de sonho.
N�s t�nhamos uma ideia geral daquilo a que cham�vamos
"o escrit�rio do futuro."
E foi-nos pedido que arranj�ssemos uma maneira de concretizar essa ideia.
Jobs estava desesperado por ver como era o interior
desse precioso armaz�m de ideias.
Finalmente p�de faz�-lo quando a Xerox fez um investimento na Apple
e o convidou a l� entrar.
Eu apresentei v�rias tecnologias que o nosso grupo tinha,
mas, para os visitantes, o que se destacava
era o dispositivo apontador, o rato, que n�o t�nhamos sido n�s a inventar.
Ele j� existia h� 15 anos. N�s s� o melhor�mos.
Por�m, era algo que a maioria das pessoas nunca tinha visto.
Larry Tesler estava a demonstrar como um computador com atalhos no ecr�
podia ser controlado com este dispositivo, o rato.
Jobs n�o podia acreditar no que estava a ver.
Ele come�ou a andar pela sala de um modo quase nervoso,
e depois mais entusiasmado, at� que n�o se conseguiu conter mais.
Teve de falar.
Nisto, come�ou a dizer coisas como: "Isso � uma galinha dos ovos de ouro.
� algo grandioso, � simplesmente incr�vel.
Porque � que n�o o comercializa?"
Ao contr�rio da grande Xerox, Jobs agiu rapidamente.
Entrei no escrit�rio dele, sentei-me e disse:
"Steve, estive a pensar em algumas ideias para produtos..."
E mal tinha eu come�ado a falar quando ele disse: "Pare, Dean.
Eu sei exatamente o que temos de fazer."
Ao dizer-me que se tratava de um rato, eu olhei para ele e perguntei: "Um rato?"
N�o fazia ideia do que era um rato.
A Xerox viu o rato como um componente caro de um computador de trabalho.
Jobs via as coisas de uma forma bastante diferente.
Ele l� me explicou claramente o funcionamento do rato.
Havia quatro pontos essenciais acerca do rato.
O primeiro era que a sua constru��o teria de nos custar menos de 15 d�lares.
Ou seja, seria barato para o consumidor. O segundo era que teria de durar 2 anos.
Terceiro: teria de funcionar em superf�cies de f�rmica ou metal.
E, por fim, o Steve inclinou-se para tr�s na sua cadeira,
colocou a m�o no joelho e disse: "E funcionar sobre as minhas cal�as."
O rato, tal como o conhecemos hoje, tinha nascido.
Jobs melhorou uma tecnologia j� existente e obteve excelentes resultados,
tal como viria a fazer nas tr�s d�cadas seguintes.
A diferen�a entre a inven��o e a inova��o � que a inova��o p�e as ideias em pr�tica.
Ela pega numa ideia e concretiza-a.
E passa por comercializar o resultado dessa ideia. O Steve juntou um mais um,
percebeu isto, percebeu aquilo...
E disse: "� isto que temos de fazer.
Temos de transformar um produto empresarial caro
num produto pessoal e de baixo custo e constru�mos uma empresa a partir disso."
Al�m de fazer do Macintosh uma ferramenta de uso f�cil,
Jobs deixou que a sua sensibilidade est�tica influenciasse o design desse PC.
Seguidor de longa data de medita��o Zen,
Jobs acreditava na beleza da simplicidade.
Quando fui a casa dele pela primeira vez,
fiquei impressionado, pois havia muito pouca mob�lia.
No quarto, ele tinha apenas uma pequena cama,
uma fotografia do Einstein, em cima da mesma,
e uma outra fotografia, do Gandhi.
Na sala de estar, havia um abajur de vidro colorido
e n�o t�nhamos onde nos sentarmos. As pessoas sentavam-se no ch�o.
O Steve n�o tinha interesse em bens materiais
ou no dinheiro, mas sim nas coisas em que acreditava,
da maneira mais plena poss�vel.
Essa integridade aplicava-se a todos os aspetos da vida dele:
a sua devo��o aos produtos, o seu trabalho, a sua �tica...
Influenciava tudo nele, incluindo o desejo de beleza a n�vel est�tico,
essa import�ncia das coisas que n�o se veem
e que apenas se revelam implicitamente. Na minha opini�o,
isso denotava uma esp�cie de filosofia muito consistente
que mant�m tudo interligado.
Essa busca pela beleza da simplicidade levou Jobs e a Sculley ao Jap�o.
Em T�quio, a tecnologia altamente personalizada abundava,
levando os seus utilizadores at� ao seu mundo privado.
Jobs ficou maravilhado.
Esta m�quina chama-se "discman".
O Steve era um grande f� do Akio Morita, o cofundador da Sony
e, em muitos aspetos, ele era tal e qual o Steve.
Se gosto do walkman, tamb�m vou gostar do discman.
Morito tinha sido o criador do primeiro walkman.
O Steve queria que a Apple fosse como a Sony.
O Morita ofereceu-me a mim e ao Steve o primeiro discman,
antes de ser lan�ado no mercado. Durante a viagem de regresso � Calif�rnia,
o Steve disse-me: "Tamb�m quero ficar com o teu". E eu perguntei-lhe porqu�.
Ao que ele respondeu: "Vou desmont�-lo.
Tenho que saber como � que o Morita fez isto."
Ele estava t�o focado no detalhe, ajuste e acabamento do hardware
como na beleza da interface do utilizador que o software possu�a.
Tanto perfecionismo teve o seu custo.
O futuro da Apple estava no computador pessoal Macintosh,
mas o aperfei�oamento da sua beleza interior e exterior
demorou mais dois anos do que Jobs e a sua equipa tinham planeado.
�ramos todos idealistas e dedicados. Aquela era a nossa causa pessoal.
O Macintosh foi finalmente apresentado em janeiro de 1984,
pelo pr�prio Jobs e em grande estilo.
O que come�ou aqui em 1984, com o lan�amento do Mac,
tornou-se num modelo que foi claramente melhorado
e a Apple ia-se tornando numa das melhores empresas de sempre ao n�vel do marketing.
Foi a� que nasceu a marca Apple.
O Mac um produto muito falado e a sua estrat�gia tinha como base uma revolu��o.
E esse tema revolucion�rio
foi claramente essencial para o sucesso que a Apple teve nos anos seguintes.
Apesar de o p�blico ter adorado a apresenta��o de Jobs,
as a��es da Apple
tinham ca�do 500 milh�es de d�lares pouco antes do lan�amento do Mac.
O problema era que as empresas inform�ticas rivais
tamb�m tinham desenvolvido os seus pr�prios produtos.
O clima competitivo em que o Mac seria lan�ado era verdadeiramente perigoso.
O IBM PC estava a tornar-se um fen�meno.
Todos os especialistas diziam:
"A IBM tem um produto perfeito, por isso voc�s n�o precisam de lan�ar nenhum".
Contudo, na Apple, e especialmente o Steve e a equipa do Mac,
disseram: "Nada disso, voc�s n�o entendem.
Quando as pessoas virem o Mac, v�o quer�-lo."
O Mac foi a concretiza��o da perspetiva de Steve Jobs
relativamente ao que a tecnologia deveria ser:
f�cil de utilizar, pessoal
e concebida para mudar as vidas de pessoas comuns.
Antes do Macintosh, as pessoas evitavam os computadores.
S� os consegu�amos controlar movimentando meticulosamente
um pequeno cursor no ecr�,
que parecia um dispositivo alien�gena, com aquelas letras verdes e brilhantes.
O Macintosh tornou os computadores mais "humanos".
Quem utilizava computadores da Apple, levantava-se cedo,
entusiasmado com o facto
de estar perante um mundo repleto de facilidade, fluidez, suavidade e prazer.
Disseram-nos que �ramos convencidos, bo�mios e pretensiosamente art�sticos.
Ouvimos coisas como: "Para ti pode servir, mas para mim tem ser �til no escrit�rio."
N�o percebiam o nosso objetivo.
Contudo, por melhor que fosse, o certo � que o Mac custava 2500 d�lares,
uma quantia mais de 1000 d�lares acima do pre�o de um IBM PC.
Ainda assim, Steve Jobs n�o duvidava de que o Mac conquistaria o mundo.
Tal como todos os grandes empres�rios, o racioc�nio do Steve era este:
"Quem � que neste planeta n�o desejaria comprar um Mac agora mesmo?"
Ele tinha enormes expetativas.
Expetativas essas que estavam prestes a colidir com o mundo real.
Ent�o come��mos a saber do valor das vendas.
E, na melhor das hip�teses, era metade do que esper�vamos.
Uma das maiores qualidades do Steve era a sua for�a de vontade
e o facto de impor sempre a sua pr�pria vers�o da realidade.
Por isso � que n�o ficou incomodado como valor deprimente das vendas.
A nova f�brica do Macintosh estava a funcionar a 50% da sua capacidade.
Perdemos dinheiro e foi tremendo para todos n�s.
� claro que isso criou p�nico na Apple.
Discutimos sobre qual seria o problema e como poder�amos resolv�-lo,
o que gerou disc�rdia entre os elementos da Apple.
A diverg�ncia mais grave foi entre Steve Jobs
e o homem que ele tinha posto no lugar de diretor executivo, John Sculley.
O Steve tem tend�ncia para ser inconstante com as pessoas.
Ele mudou de opini�o em rela��o ao Sculley.
Os dois homens estavam a lutar pelo futuro da Apple.
Eu estava focado na liquidez do Apple II.
Era determinante que ela existisse.
O Steve queria baixar o pre�o do Macintosh
e apostar mais na sua divulga��o,
mas eu achava que n�o t�nhamos dinheiro para isso.
Jobs, ent�o com 30 anos, tinha feito um grande inimigo.
O Sculley vinha da Pepsi Co, uma grupo bastante pol�tico,
e era um profissional h�bil,
que sabia o que fazer no mundo empresarial, ao contr�rio do Steve.
Eu disse ao Steve que ia consultar o conselho de administra��o.
Ele achava que eu n�o faria isso, mas fiz.
Nisto, a administra��o disse que concordava comigo
e disse ao Steve que n�o concordava com ele,
pedindo-lhe que abandonasse a lideran�a do departamento do Macintosh.
Jobs foi for�ado a sair da empresa que tinha criado.
Foi uma derrota humilhante para ele.
Nessa noite, recebi uma chamada do Steve.
Ele parecia ter perdido quase toda a esperan�a e estava muit�ssimo triste.
E eu sabia que ele estava sozinho, naquela grande mans�o sem mob�lia,
em Woodside.
Por isso, peguei no carro e fui at� l�. A noite estava muito escura,
o que era bastante assustador. Quando achei a casa dele,
entrei, subi as escadas sozinho e encontrei-o
no quarto, deitado. Ele estava extremamente triste.
E fiquei ali, como amigo.
11 anos depois, Jobs continuava ressentido.
Que posso dizer? Contratei a pessoa errada.
- Refere-se ao Sculley? - Sim.
Ele destruiu tudo o que constru� durante 10 anos.
A come�ar por mim, mas esse n�o � o aspeto mais triste da hist�ria.
N�o me teria importado de sair da Apple se ela tivesse ficado como eu queria.
A demiss�o de Jobs parecia normal para o homem versado em vender �gua com a��car.
Olhando para tr�s, reconhe�o que foi uma decis�o terr�vel. E eu contribu� para ela.
Do meu ponto de vista, as grandes empresas americanas
despediam pessoas sempre que havia desentendimentos,
por isso, n�o dei valor �quilo que significava fundar uma empresa
e ter idealizado a mesma.
Eu s� pensava em como ir�amos vender os computadores Apple II
e ele s� se questionava sobre como poder�amos mudar o mundo.
Jobs cortou todos os la�os com a Apple, mas, ainda assim,
ficou com uma a��o da empresa que tinha criado,
vendendo o resto por mais de 100 milh�es de d�lares.
O Steve odiava a empresa. N�o via como � que a Apple iria ter sucesso sem ele
nem queria que ela fosse bem-sucedida sem ele.
Nos 11 anos seguintes, Jobs n�o cedeu.
Criou uma nova empresa chamada NeXT, que fabricava computadores especializados.
Possuindo caixas feitas de magn�sio e tendo um pre�o elevado, n�o venderam bem.
Por�m, um especialista inform�tico, que estava a tentar mudar o mundo, comprou um.
O Steve tinha prometido que toda a gente que comprasse um computador da NeXT
receberia uma mensagem dele.
Uma das coisas que me lembro de ele ter dito
foi que o importante n�o era s� o computador pessoal, que estava na moda,
mas que tamb�m deveria haver espa�o para o computador interpessoal.
E eu pensei: "Sim, ele tem raz�o."
Jobs reconheceu que a tecnologia estava na imin�ncia
de nos permitir comunicar entre computadores.
E, de facto, o poderoso sistema operativo da NeXT
ajudou Tim Berners-Lee a ligar pessoas atrav�s de computadores.
Ele criou a World Wide Web, no seu computador NeXT, em poucos meses.
Se o tivesse feito com outro computador, teria demorado muito mais tempo.
Para al�m da tecnologia de ponta,
Jobs apostou numa debilitada empresa de anima��o por computador,
a Pixar, investindo 50 milh�es de d�lares nela, o que manteve a empresa de p�,
at� ela criar o primeiro filme de anima��o por computador.
Toy Story foi um �xito estrondoso.
E quando a Pixar passou a estar cotada em bolsa, Steve Jobs ficou podre de rico.
Ele permaneceu na empresa, tornando-a bem-sucedida,
e n�s, em troca, fizemos dele um bilion�rio.
Pareceu-me um belo neg�cio.
Agora, o magnata hippie dos computadores era uma mandachuva em Hollywood.
Jobs tinha tudo a seus p�s, mas n�o tinha a Apple.
Diz-se que nos EUA n�o h� segundas oportunidades,
mas isso n�o � verdade.
Uma das coisas surpreendentes em rela��o ao fen�meno da Apple
� que ele se divide em duas partes.
Nos 11 anos em que Jobs esteve fora da Apple,
o mercado dos computadores mudou radicalmente.
Agora, era a Microsoft que dominava esse mesmo mercado.
O seu sistema operativo estava em 90% dos computadores pessoais dos EUA.
A Apple tentou concorrer com a Microsoft
ao permitir que outros fabricantes
fabricassem e vendessem as suas m�quinas e software,
mas essa estrat�gia n�o estava a resultar.
A Apple tinha perdido a lideran�a do setor dos computadores,
estava a perder muit�ssimos clientes e sem rumo, parecendo n�o ter futuro.
A empresa estava a deparar-se com problemas graves.
Os nossos amigos que utilizavam o Windows diziam-me a mim e a outros utilizadores
da Apple, com um sorriso de esc�rnio, que se quis�ssemos manter as nossas m�quinas,
ter�amos de ir a lojas de colecionadores, pois apenas l� haveria PCs da Apple.
Na NeXT, Jobs tinha-se concentrado na cria��o de um sistema operativo poderoso.
A Apple precisava de um sistema operativo desses.
A Apple estava com problemas t�cnicos
e a NeXT enfrentava problemas financeiros terr�veis. Por isso, decidiram juntar-se.
A Apple comprou a NeXT por 400 milh�es de d�lares,
conseguindo assim o novo sistema operativo de que precisava e Steve Jobs.
O Steve estava verdadeiramente entusiasmado por estar de novo na Apple.
Era a empresa que ele tinha fundado e da qual tinha sido expulso.
Era uma empresa que tinha perdido o seu rumo e que estava a fracassar
e por isso � que o Steve p�de voltar e tentar reergu�-la a todos os n�veis.
Alguns dias depois, a Apple revelou a verdadeira extens�o dos seus problemas.
A Apple anunciou que iria perder cerca de mil milh�es de d�lares.
Na altura, mil milh�es de d�lares era muito dinheiro
e eu disse ao Steve: "J� viste bem em que � que nos metemos?"
Ele mesmo fazia essa pergunta! Tudo era uma grande surpresa para n�s.
Jobs tinha de tomar medidas dr�sticas
para parar com a sangria financeira da Apple.
Antes de o Steve voltar,
t�nhamos come�ado a atribuir licen�as a v�rios fabricantes de PCs.
O Steve acabou logo com isso,
afirmando que n�o era boa ideia vendermos o nosso software
a esses fabricantes, pois pagavam pouco por ele.
N�s ganh�vamos uns oito ou dez d�lares
por cada c�pia do sistema operativo,
quando pod�amos ganhar 500 d�lares se o vend�ssemos com um computador.
O Steve disse que aquela estrat�gia era rid�cula e acabou de vez com ela.
Ele era exigente,
n�o hesitava em ligar �s duas da manh�
quando tinha alguma ideia que quisesse concretizar.
O Steve n�o tinha tempo para pessoas que n�o respeitasse.
O ambiente era t�o tenso, que as pessoas tinham medo de ir no elevador com ele.
Uma vez, o Steve estava na entrada do quarto andar do primeiro edif�cio
e diz-se que ele tinha despedido pessoas � sa�da do elevador, depois de estar
l� dentro com elas durante 25 segundos.
Ele ensinou � empresa o que tinha aprendido quando estava na NeXT
e na Pixar, que tinha sido o seguinte: a concentra��o � importante,
as despesas devem ser controladas
e faz-se mais quando se faz menos.
Ele n�o se limitou a reduzir a produ��o de 1000 produtos
para 800 ou algo assim.
Reduziu-a a apenas alguns produtos.
Jobs precisava de um produto
que conseguisse impulsionar a reviravolta financeira da empresa.
Um empregado da Apple, o designer brit�nico Jonathan Ive,
andava a trabalhar h� j� algum tempo num prot�tipo bastante incomum.
Ele entrou no gabinete do Steve, saindo dez minutos depois,
e inclinou-se contra a parede, sem acreditar no que tinha ouvido,
que tinha sido: "Vamos parar tudo na Apple
e vamos fabricar este teu prot�tipo."
Nisto, o Johnny perguntou: "Tem no��o de que o prot�tipo � transparente
e que � assim que quero que ele seja?"
E o Steve respondeu que sim.
Jonathan sempre se esfor�ara bastante para desenvolver o interior dos seus produtos.
Com o lan�amento do iMac, o seu cuidado com os pormenores
podia ser apreciado pelo p�blico pela primeira vez.
Reparem neste extraordin�rio objeto transparente.
O iMac era amig�vel.
Isto soa rid�culo, mas o iMac parecia ser uma coisa agrad�vel de se ter.
Tratava-se de um computador de secret�ria,
mas tinha sido concebido como um objeto de prazer e de fasc�nio ir�nico.
Isto �, o computador tinha deixado de ser s� um aborrecido equipamento de trabalho.
T�m t�o bom aspeto, que quase d�o vontade de lamber.
O iMac aliava um design admir�vel
� sua capacidade de se ligar facilmente � Internet.
O Steve estava muito orgulhoso do design
e tamb�m da ideia do nome do computador, inspirado no I, de "Internet".
O iMac foi um enorme sucesso e fez com que a Apple voltasse a ter lucro.
O iMac n�o era um produto melhor do que o computador que veio a substituir,
mas a maneira como foi divulgado e lan�ado no mercado marcou a obra do Steve Jobs.
Era o tipo de conjunto que atra�a as pessoas
que at� ent�o n�o se interessavam por computadores.
Um ter�o dos iMacs foram adquiridos por pessoas que nunca tinham comprado um PC.
Quem imaginaria que seria poss�vel ter uma liga��o emocional com um computador?
A Apple queria mudar a rela��o das pessoas com os computadores.
O Steve queria que os iMacs fossem elegantes, mas era o Jonathan que dizia
que a Apple tinha de fazer deles produtos que as pessoas adorassem.
A palavra "amor" come�ou a fazer parte do conceito geral da empresa.
Agora havia uma nova parceria bem no cora��o da Apple.
O Jonathan Ive e o Jobs tinham uma rela��o muit�ssimo especial,
que se baseava
numa intensidade meditativa, quase Zen, carater�stica de ambos.
A abordagem de Ive em rela��o ao design
serviria de novo alicerce a partir do qual se construiria o futuro da Apple.
T�nhamos uma tecnologia e pessoas incrivelmente poderosas
e acho que o design contribui de uma forma muito importante
para a natureza dessa liga��o.
Penso que estamos a tentar criar produtos que fa�am sentido
e com os quais as pessoas possam estabelecer algum tipo de afinidade.
S�o produtos que se tornam pessoais.
Alguns produtos tecnol�gicos possuem uma dimens�o po�tica,
pois foram criados com esse mesmo intuito. N�o se trata de um facto acidental.
� parte essencial de uma miss�o e ajuda � funcionalidade dos produtos.
Na viragem do s�culo, a tecnologia estava a mudar rapidamente:
os consumidores apressavam-se a comprar dispositivos de m�sica e c�maras
e os PCs iam-se tornando suficientemente poderosos para guardar e reproduzir v�deo,
m�sica e outros conte�dos audiovisuais.
A Apple come�ou a trabalhar secretamente num dispositivo digital pr�prio,
que iria revolucionar a empresa e o nosso mundo cada vez mais digital.
O iPod surgiu gra�as a um g�nero de converg�ncia de tecnologias.
Descobrimos que pod�amos juntar um pequeno disco r�gido
com grande capacidade a pequenos dispositivos eletr�nicos
e fabricar um excelente leitor de m�sica.
Tal como aconteceu com o rato na d�cada de 1980,
Jobs e a Apple n�o inventaram o leitor MP3,
mas redefiniram-no para os consumidores.
O iPod podia armazenar 1000 m�sicas,
mas a sua verdadeira inova��o estava no design de Jonathan Ive.
J� havia um monte de leitores MP3 antes do iPod,
mas eram todos t�o feios quanto a bateria de um carro
e apenas a Apple teve o bom senso de fazer do iPod um artigo lind�ssimo.
A cor do primeiro iPod n�o foi acidental.
N�o foi apenas o Johnny
que decidiu que o iPod seria branco. Essa foi uma decis�o m�tua entre ele e o Steve.
Eles levaram muito a s�rio a ideia da cor branca.
Era uma cor que denotava um certo estado de esp�rito, assim como pureza.
Eles investigaram v�rios tons de branco
e procuraram materiais especiais, incluindo pol�meros especiais,
para produzir, transmitir e manter uma certa brancura com o iPod.
Ao contr�rio do que tinha acontecido com outros produtos, a Apple n�o elevou
demasiado a fasquia em rela��o � procura que o iPod poderia ter.
Com o iPod, havia um imperativo em particular que t�nhamos de garantir:
produzir um n�mero baixo de artigos em rela��o aos que eram procurados,
de forma a que os disponibiliz�ssemos
quase s� porque existiam cidades com gente a implorar que o iPod chegasse at� elas.
E foi assim que fizemos com que o iPod fosse t�o atrativo nos seus anos iniciais.
Procedemos igualmente a uma vasta an�lise de dados,
de modo a determinar a for�a relativa
de fazer o mesmo em Roma ou Madrid.
A Apple atravessava um per�odo de grande sucesso.
O iPod rapidamente se tornou
no leitor de m�sica digital mais vendido nos EUA e n�o s�.
De repente, havia iPods por todo o lado.
O sucesso do produto deu um novo rumo � empresa.
Na altura, n�o perspetiv�vamos
que, depois do iPod, far�amos o iPhone e o iPad.
Por�m, sab�amos que nos tornar�amos numa empresa
mais orientada para os produtos eletr�nicos de consumo.
A Apple estava prestes a tornar-se num fen�meno � escala global.
Com o objetivo de se tornar numa empresa de produtos eletr�nicos de consumo,
o passo seguinte foi a cria��o de lojas de artigos eletr�nicos, ao estilo da Apple,
com pontos de venda projetados de modo a condizerem com os produtos que ofereciam.
O que � interessante no investimento da Apple em estabelecimentos pr�prios
� que o objetivo n�o passava tanto por abrir lojas,
mas mais por disponibilizar a "experi�ncia Apple" �s pessoas
e permitir que elas comprassem produtos da empresa
num tipo de ambiente que conseguisse representar a marca.
Todos os aspetos do conceito visual das lojas foram influenciados por Steve Jobs,
que at� patenteou o design das escadas de vidro dos pontos de venda americanos.
O facto de Steve Jobs
ser hippie contrastava enormemente com a sua mania de querer controlar tudo,
mas essa combina��o gerou resultados brilhantes na Apple,
pois os artigos da empresa
denotam um estilo de vida simultaneamente hippie, requintado e descontra�do.
Isto apesar de a multinacional
ser um dos organismos mais controladores do mundo.
A Apple possui alguns dos espa�os comerciais mais lucrativos do mundo,
mas os objetivos das lojas v�o muito para al�m da mera venda de produtos.
As lojas da Apple s�o templos de um sistema de cren�as.
A estrutura delas assemelha-se � de uma religi�o,
pois possuem objetos de venera��o, como o smartphone ou o tablet,
um poderoso sacerd�cio,
uma congrega��o de pessoas que pertencem � Apple ou que acreditam nela,
e, em �ltima an�lise, possuem igualmente um Messias,
o seu l�der religioso, o falecido Steve Jobs.
� medida que a sua tribo crescia por todo o mundo,
a Apple reinventava a inform�tica e o com�rcio,
obedecendo o seu slogan: "think different" (pense de forma diferente).
A etapa seguinte levaria a Apple para outro empreendimento revolucion�rio.
Steve Jobs foi daquelas pessoas
que reconheceu que, na era digital, o conte�do seria essencial.
O iPod foi projetado de modo a podermos passar para ele a m�sica
que t�nhamos no computador e lev�-la para todo o lado.
S� ap�s o sucesso do iPod
� que a Apple se apercebeu de que havia um mercado para poder vender m�sica,
apesar de esse n�o ter sido o seu plano inicial.
Por�m, enquanto Jobs precisava de m�sica para o iPod,
a ind�stria musical deparava-se com um problema.
O crescimento de sites de partilha de ficheiros,
como o Napster, estava amea�ar a forma como a ind�stria musical ganhava dinheiro.
Pass�mos de um mundo em que t�nhamos de ir comprar bens materiais a uma loja
para um mundo onde existiam servi�os de m�sica "em nuvem",
o que constitu�a, na pr�tica, uma fonte ilimitada de m�sica gratuita.
Isso era uma ideia muito amea�adora para a ind�stria musical.
Perante esta crise, a ind�stria discogr�fica tentou encerrar o Napster
e processar as pessoas que tinham descarregado m�sica de gra�a.
A ind�stria musical ficou assustada com o iPod.
As editoras estavam muito insatisfeitas com essa situa��o
e achavam que a m�sica s� sobreviveria porque o Napster era dif�cil de usar.
E, de repente, a Apple aparece com um leitor de m�sica digital
que era f�cil de usar e iria aumentar em muito a utiliza��o do Napster.
Mesmo assim, certos membros das editoras achavam que a Apple poderia ajud�-las.
Em 2002, uma delega��o de empres�rios musicais viajou at� � sede da Apple
para apresentar uma proposta de como as editoras e a empresa poderiam colaborar.
Steve Jobs n�o ficou particularmente entusiasmado com as ideias deles.
Ele ouviu as propostas, mas sem grande paci�ncia.
A certa altura, levantou os bra�os, abanando-os,
e disse: "Parem, n�o � para isso que aqui estou.
Eu n�o vim at� aqui para vos ouvir.
Tenho as minhas pr�prias ideias em rela��o ao que temos de fazer.
Voc�s, da ind�stria discogr�fica,
andam h� anos a agir como idiotas!"
Toda a gente do meu lado da mesa ficou calada, depois de ouvir aquilo.
E eu disse: "Steve, � por isso que aqui estamos. Precisamos da sua ajuda."
Para Jobs, era evidente que as editoras
n�o entendiam os novos consumidores, habituados � Internet.
Ele insistia que a forma de acabar
com a partilha de ficheiros n�o passava por punir as pessoas que a praticavam,
mas sim por oferecer uma alternativa mais adequada e a pre�os razo�veis.
Em menos de um ano,
todas as grandes editoras discogr�ficas tinham aderido � iTunes Store, da Apple.
Ele conseguiu convencer as editoras, o que constituiu uma incr�vel conquista.
Fazer algo assim � saber fazer um neg�cio,
que � uma carater�stica essencial de qualquer grande magnata.
Na primeira semana, a iTunes Store vendeu mais de um milh�o de faixas.
Ao fim do primeiro ano, era um sucesso t�o grande, que a posi��o
de vantagem de os propriet�rios dos conte�dos passou para a Apple.
Alguns artistas achavam
que agora, com o iTunes, a Apple tinha autoridade sobre eles
e que dava mais import�ncia aos lucros do que aos artistas.
As obras s�o sugadas como sangue por um vampiro digital, com comiss�es enormes,
que decide ficar com 30% dos lucros.
� uma pena que toda a gente aceda � Internet hoje em dia.
Mas n�o podemos censurar ningu�m. � o mundo atual.
Por�m, n�o deixa de ser um grande neg�cio.
O iPod deu � Apple autoridade
sobre a ind�stria musical, atrav�s da sua liga��o ao iTunes,
e, por sua vez, o iTunes fez aumentar as vendas de iPods.
"Se eu satisfizer tudo o que precisa, fico com todo o seu dinheiro todo."
Era essa a abordagem do Steve.
Ele queria disponibilizar dispositivos
que as pessoas pudessem utilizar para consumir v�deo e �udio
e depois queria disponibilizar-lhes o v�deo e o �udio a consumir.
Ele criou o futuro do entretenimento.
Jobs costumava ser muito resguardado em rela��o � sua vida privada,
mas em 2005 escolheu uma ocasi�o p�blica, uma cerim�nia de estudantes finalistas,
para revelar que estava a lutar contra uma doen�a grave.
H� cerca de um ano, diagnosticaram-me um cancro.
�s 7:30 da manh�, fiz um exame
que mostrou claramente que tenho um tumor no p�ncreas.
O meu m�dico aconselhou-me a ir para casa "tratar dos meus assuntos",
que � cal�o m�dico para "prepara-te para morrer."
Depois descobriram que era uma forma muito rara
de cancro do p�ncreas, que pode ser curada com uma cirurgia.
Eu fiz a cirurgia e, felizmente, agora estou bem.
Mas na realidade, Jobs continuaria
a sua luta contra o cancro durante os seis anos seguintes.
O seu diagn�stico teve um impacto profundo.
A morte � muito provavelmente a melhor inven��o da vida.
� o agente de mudan�a da vida, ela limpa o velho para abrir caminho para o novo.
O nosso tempo � limitado e n�o devemos desperdi��-lo a viver a vida dos outros.
Era uma filosofia que o pr�prio Jobs seguia.
� incr�vel o que ele conseguiu fazer enquanto lutava contra a doen�a.
Ele n�o s� lutava contra uma doen�a debilitante,
como tamb�m liderava uma empresa enorme, trabalhando em projetos desafiantes
que afetariam centenas de milh�es de pessoas.
O grande projeto seguinte de Steve Jobs
reuniria tudo o que ele representava
e constituiria uma jogada muito ousada
num mercado onde a empresa nunca tinha apostado.
Funciona �s mil maravilhas.
O produto viria a revolucionar a forma
como uma ind�stria j� estabelecida funcionava e rendeu milhares de milh�es.
Ele disse: "Acho que vamos ter sucesso neste mercado,
pois somos uma empresa de software
e a nossa concorr�ncia ser� toda composta por empresas de hardware."
Na altura, n�o me apercebi da profundidade dessa afirma��o.
O iPhone tornou-se no telem�vel com mais unidades vendidas em menos tempo.
As pessoas n�o o compravam apenas para fazer chamadas telef�nicas.
Adoro-o, Steve!
O que tornou o iPhone diferente foram as aplica��es
O iPhone foi a porta de entrada para um mundo de software descarreg�vel,
com todos os prop�sitos, desde compras a encontrar amor ou sexo nas proximidades.
Quando o iPhone foi comercializado, demonstrou inequivocamente �s pessoas
como era poss�vel embrulhar peda�os da Internet e oferecer-lhos
de uma forma realmente simples,
r�pida e f�cil de entender, com as aplica��es.
Atrav�s das aplica��es, a Apple tinha aberto a sua plataforma fechada
apenas o suficiente para continuar
a fazer dinheiro com os seus mais recentes iPods, iPhones e iPads,
mesmo depois de os termos comprado. O dinheiro continuava a entrar na empresa.
Durante um curto per�odo, a Apple chegou mesmo
a ultrapassar a Exxon Mobil como a empresa mais valiosa do mundo.
A Apple � muito rent�vel, mas n�o � t�o dominante quanto se pensa.
Curiosamente, a quota de mercado da Apple � muito baixa.
� muit�ssimo baixa no setor dos PCs, embora a empresa lucre imenso com eles.
At� a sua quota no setor dos smartphones � baixa. A Apple n�o � l�der mundial,
mas, de qualquer forma, os seus lucros
fazem dela a maior empresa do planeta.
A Apple � muito mais forte do que a concorr�ncia
e por isso tem de garantir que n�o se acomoda
porque o que a pode vir a fazer cair
� a eventualidade de outra empresa passar sorrateiramente a comercializar
algum produto melhor que os da Apple.
Houve um aspeto da batalha contra o cancro que Steve n�o revelou.
Ele adiou uma cirurgia durante 9 meses, depois de saber o seu diagn�stico.
Em vez disso, experimentou medicamentos alternativos
e praticou uma dieta vegana, ignorando os conselhos de pessoas pr�ximas.
E o cancro espalhou-se.
Ele era o tipo de pessoa que se convencia a si mesma de coisas
que n�o eram necessariamente verdade
e isso sempre resultou com a cria��o de produtos,
quando ele ia ter com as pessoas
e lhes pedia que fizessem algo que pensavam ser imposs�vel.
Por isso, acho que ele julgava mesmo
que conseguiria curar-se atrav�s de m�todos pouco convencionais.
Um sub�rbio californiano.
Esta � a casa de Steve Jobs ap�s a sua morte, aos 56 anos de idade.
Era o lar um diretor, bilion�rio e hippie inconvencional.
Ele n�o era inventor, n�o era programador,
n�o era designer inform�tico nem era exatamente um empres�rio.
A palavra que se usar para descrev�-lo � "vision�rio".
Se considerarmos a maneira como ele via as coisas,
ele era um vision�rio. Ele simplesmente via as coisas.
Pelo que sei,
o Steve Jobs nunca abandonou as suas refer�ncias contraculturais,
por isso, seguir a filosofia hippie era a sua pr�pria maneira permanecer jovem.
N�o percam a avidez nem a insensatez. Muito obrigado.
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