All language subtitles for Mastroianni - Mi ricordo, sì, io mi ricordo 19971.ptbr

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Original subtitles

Marcello Mastroianni: I Remember, Yes I Remember

�amos ao cinema quase todas as tardes. Lev�vamos a merenda.

Ent�o, passavam dois filmes,

os an�ncios que havia entre eles e Mickey Mouse.

Entr�vamos �s 15:00 e sa�amos na hora do jantar.

Eu me alimentei de cinema como toda minha gera��o.

Essa sala m�gica, escura, misteriosa...

e a faixa do projetor, com a fuma�a dos cigarros.

Isso tamb�m era muito fascinante. Agora, j� n�o se v�.

Era um lugar pr�prio de evas�o, algo mais, no cinema sonhava-se.

Gary Cooper, Errol Flynn, Clark Gable.

Tyrone Power.

Quantos her�is! N�s t�nhamos paix�o por esses atores.

Quando sa�amos do cinema, imit�vamos lhes os gestos.

"A �ltima Dilig�ncia", Jon Wayne, com a pistola. Tent�vamos imitar sua maneira de caminhar.

E as atrizes. Hoje, j� n�o se encontram.

Greta Garbo, Marlene Dietrich.

Para mim, essas duas, n�o eram de quem eu gostava muito,

mas apreciava a valentia, ainda que com a idade de 15-16 anos,

a gente preferisse a menina da porta ao lado. Elas eram inalcan��veis.

Tamb�m t�nhamos nossos divos: Amadeo Nazzari,

Alida Valli. Gost�vamos muito de Nazzari, era uma boa pessoa.

Diziam que era o Errol Flynn italiano.

Eu trabalhei com ele, era um homem muito generoso.

Anna Magnani, Aldo Fabrizi. Extraordin�rios!

E Tot�. Bel�ssimo! Grandioso!

Tamb�m t�nhamos paix�o pelos atores franceses: Jean Gabin, Louis Jouvet.

Era mais dif�cil, porque naquela idade os her�is

mais f�ceis eram Gary Cooper, Clark Gable, etc.

O cinema franc�s era mais comprometido, mas tamb�m o am�vamos,

como tamb�m alguns atores alem�es,

que sa�am nas coprodu��es com a Alemanha.

N�o me lembro dos nomes.

- Sr. Mastroianni? - Sim?

- Iremos dentro de 10 minutos. - Obrigado, Pedro.

E n�o nos esque�amos de Ginger Rogers e Fred Astaire.

Com eles, j� estamos na mitologia.

Olhando Fred Astaire, podia-se chorar, de t�o excepcional que era.

Eu sempre tive predile��o pelas pel�culas musicais, pela dan�a.

Penso que a dan�a � para um ator

a maneira mais extraordin�ria de se expressar. Dan�ando, porque

em vez de ser com as palavras, � bonito expressar-se com o corpo,

apoiado pela m�sica.

Creio que � uma grande embriaguez para quem se dedica a essa profiss�o.

Muito f�cil de pronunciar.

Fac�limo de se recordar.

Meus destino chama-se Rodolfo Valentino!

Sapateado tamb�m?

Eu tamb�m pretendia fazer uma com�dia musical: "Ciao, Rudy".

Dan�ava o "tip tap", coisa que fiz tamb�m em Ginger e Fred, do Fellini,

e em Ciao Maschio, de Ferreri, em Nova Iorque.

- No come�o, o tip tap n�o era uma dan�a. - O que era, ent�o?

- Era o alfabeto Morse dos escravos negros. - Outra piada?

Os escravos n�o podiam falar entre eles, nos campos de algod�o.

Se falassem, ao inv�s de trabalhar, arrancavam-lhes a pele a chicotadas.

Ent�o, o que faz o escravo negro?

Comunica-se com o companheiro de desventura, assim...

Cuidado, l� vem o feitor!

Estou com a faca.

Vamos mat�-lo.

Ou, tamb�m...

Eu a amo.

Eu tamb�m.

Muito interessante! Uma linguagem de amor e de morte.

- Tip tap, tip tap. - E quem lhe disse isso?

Sempre soube. Quis escrever um livro.

15 anos dan�ando tip tap juntos e nunca me disse.

Mas repare, Pippo, isso � uma coisa muito importante! Fiquei toda arrepiada. Olhe!

- Ah, com esse marido! - N�o � meu marido.

- Ah, n�o? - N�o.

Muito obrigada pela entrevista, foi muito interessante.

Sim.

Perna.

- Jogue-me para l�. Segure-me com for�a. - E agora?

Duas vezes.

- Assim. - Oh, Deus, a c�imbra!

Assim, muito bem.

Sapateado.

Muito bem.

Como podemos descrever a beleza do cinema de ent�o?

Talvez f�ssemos mais ing�nuos e bastava pouco para nos encantarmos, nos entusiasmarmos.

Se penso naquele cinema,

o que a telona foi para minha gera��o,

pergunto-me se o cinema de hoje tem efeitos compar�veis

para as novas gera��es.

Ou se n�o tiv�ssemos esse apequenamento do cinema, que eu n�o soube amar,

que � a televis�o.

Um dia, Fellini me disse:

"No come�o, olh�vamos Marilyn Monroe assim, gigantesca,

agora a olhamos por terra, pequena."

H� uma diferen�a.

Outra coisa de que me lembro � que, seguindo os elefantes,

entrei pela primeira vez na Cinecitt�.

Avante o desfile!

A esposa! Vamos, as p�talas!

Mais p�talas! Mais!

Mais alto!

Mantenham a dist�ncia.

Mantenham a mesma dist�ncia.

Mais devagar! Vamos, assim!

Vamos!

Quem � esse? O que faz aqui?

Abaixe-se!

N�o se levante!

-Jogue as p�talas mais para cima! - Use o ventilador no centro!

Pare!

Cinecitt�, um nome m�tico.

Uma fortaleza inexpugn�vel. Quantos sonhos!

Fellini descreveu muito bem no filme "Entrevista".

O bonde azul que sa�a a esta��o e chegava � Cinecitt�.

Tamb�m um dos primeiros filmes de Dino Risi,

chamado "Il Viale Della Speranza",

falava nesse bonde

que chegava � Cinecitt�, com esses jovens cheios de esperan�as.

Aos 11 anos, fiz minha primeira apari��o.

Minha sorte foi que a fam�lia de meus melhores amiguinhos, a fam�lia Di Mauro,

tinha um restaurante dentro da Cinecitt�.

Tinham 3 restaurantes de fato, Primeiro, Segundo e Terceiro:

Para os artistas, para os intermedi�rios e para os oper�rios.

Durante anos a sra. Di Mauro fez todo o poss�vel, em v�o,

para que eu pudesse trabalhar como extra, se n�o, n�o se entrava na Cinecitt�.

Pappalardo, o porteiro, uma esp�cie mastim, n�o deixava ningu�m,

se n�o tivesse o visto pr�prio de que iria trabalhar.

A primeira vez que entrei na Cinecitt� foi num filme com Baniamino Gigli,

chamado "Marionete". Aparecia em uma festa de uma em uma aldeia

e tamb�m levei minha m�e.

Trabalhamos a noite inteira

e comemos tanta uva que passamos mal no dia seguinte.

Quando amanheceu, eles nos deram 10 liras, ao todo.

N�o era apenas um jogo ou o sonho de fazer desse o meu trabalho,

devo dizer que era a

necessidade de ganhar algum dinheiro a mais, devido �s nossas condi��es.

N�o quero contar vantagem, mas

creio que era a condi��o de 80% dos italianos,

correr atr�s de um peda�o de p�o.

H� uma lembran�a, que me comove,

n�o s� por sua ingenuidade,

mas porque eu realmente atormentei Vittorio de Sica.

Quando jovem, minha m�e trabalhava no Banco da It�lia, como datil�grafa.

Sua companheira e amiga era a sra. Maria, irm� de Vittorio de Sicca.

Imagine, eu queria ser ator!

De tempo em tempo, eu lhe dizia: Mam�e vamos ver a sra. Maria,

para que me fa�a uma carta de apresenta��o ao seu irm�o.

A� �amos visit�-la, tom�vamos caf�, tais.

E essa mulher, muito pacientemente, fazia-me sempre a mesma carta

E eu regularmente me apresentava

durante a hora de descanso onde De Sica estava filmando e lhe dizia:

"Senhor, desculpe-me, sua irm�..."

e De Sica me dizia: "Filho meu", eu tinha 15 ou 16 anos,

"Por enquanto, estude, logo chegar� o dia" Eu o agradecia e ia embora.

Tr�s meses depois, l� estava eu de novo. Fiz isso durante anos. Pobre De Sica.

Eu o adorava, ainda mais depois de ter trabalhado com ele.

No in�cio de minha carreira, dois diretores foram muito importantes para mim.

O primeiro foi Luciano Emmer,

com ele fiz um filme que teve muito sucesso: "Domingo de Agosto".

Fazia o papel de um pobre metropolitano, que no domingo ficava sozinho,

enquanto os demais iam para o mar, com seus problemas, sua noiva gr�vida...

Fez muito sucesso tamb�m no exterior.

E depois Mario Monicelli, com o qual fiz "Filhas do Desejo".

Naquela �poca, Monicelli dirigia junto com Steno.

E depois fiz um personagem bonito, o mais formoso do filme,

que se chamava "Pais e Filhos", onde eu

n�o era pai, mas me encarregava pouco a pouco de um sobrinho

que depois me tiravam, pois tinha que voltar a seus pais.

Bom proveito.

Obrigado.

- Doeu o dente, enquanto o extra�am? - Nada, nada, nada.

Viu o que eu lhe disse?

O que faz a� embaixo?

- Falei com voc�! O que est� fazendo? - Guardei algo para comer com voc�.

Pegue uma cadeira e sente-se a�.

- Quer provar? - N�o.

Com Monicelli fiz muitos outros filmes, inclusive a obra prima: "Os Companheiros".

Era um filme sobre as primeiras tentativas de greve em Piamonte.

Eram oper�rios pobres, liderados por um louco, o professor Sinagaglia,

um socialista idealista perigoso porque

criava muitos problemas com suas fantasias.

No final, se n�o vai embora, acaba morto.

Calma, amigos. Escutem-me um momento.

Fomos obrigados a fazer greve para nos defendermos.

- Portanto, todas estas pessoas passam fome. - Tamb�m estamos com fome.

- H� um m�s que n�o pagam um centavo. - Eu sei, por isso, os donos aproveitam.

Mas n�o pode ajud�-los contra n�s.

- Se ningu�m trabalhar, morreremos de fome. - N�o ser� sempre assim.

- D�-lhe maquinista. Esses querem nos deter. - Esperem. Aonde v�o?

- Esperem! - Saia do meio, pregador!

Amigos!

Por que fazem isso?

Quantos ser�o contra um?

Em Nova Iorque, estando no hall de um hotel, um americano me disse:

"Sr. Mastroianni, O Organizador!",

esse era o t�tulo americano, "Eu sou socialista!" e se foi.

Fiquei assombrado, pois o filme n�o tinha feito sucesso na It�lia,

onde o partido comunista era mais forte do que o socialista.

Por outro lado, nos Estados Unidos, um socialista definia como filme fant�stico!

O filme era maravilhoso. Parecia um document�rio, rodado hoje,

nesta �poca. Totalmente real, extraordin�rio.

- Mas quem �? - Eu o conhe�o.

N�o pode, � proibido.

- D�-me alguma coisa para ele. - Duas liras? Quem �? Giuseppe Verdi?

V� andando, por favor.

Senhor!

Senhor!

Espere!

Tome.

Obrigado.

- Voc� � um dos da f�brica? - N�o, sou professor.

- Ah. Professor de... - N�o, de escola.

- Ent�o desculpe-me por ter lhe dado... - O dinheiro? Eu toco para receber.

Voc� aceita meu dinheiro, n�o faz como aquele morto de fome.

Qual? Conhe�o tantos.

Meu dinheiro d�-lhe asco, porque diz que ganha honestamente, com o suor da fronte..

Quem?

Meu pai. Queria que eu continuasse na f�brica t�xtil

16 horas por dias, com as m�os na �gua,

para terminar no hospital, como outras idiotas que conhe�o.

Em vez disso, mudei de of�cio. Fiz mal a algu�m?

Que mal eu fiz, hein?

Voc� fez muito bem.

- Est� dizendo a verdade? - Claro.

Como v�, eu tamb�m mudei de of�cio.

Por que se meteu em confus�es?

Por ego�smo.

- N�o entendo. - Porque eu gosto.

E quando se gosta de uma coisa, n�o � sacrif�cio.

E tamb�m porque desejo que um dia garotas como voc�

O qu�?

n�o se vejam obrigadas a fazer o que fazem.

Aqui est�o as fotos que tem que assinar para suas admiradoras.

- Como se chama esta? - Colette.

- Colette. - Quer a caneta?

N�o, assinarei depois.

Essas meninas como Colette,

pedem a foto e logo dizem: "N�o � para mim, sabe, � para minha av�."

- N�o... - Sim. J� se passaram quase 50 anos!

- A que horas chegar� o carro? - �s 10h.

Pelo amor de Deus, o diretor tem 88 anos. Dizem que tem que dormir 10 horas.

N�o sei como faremos. Deixe, mudamos na caravana.

- Ent�o eu mesma levo. - Sim.

Aos 88 anos deve dormir 10 horas!

Ao envelhecer, dormimos menos. Eu durmo, no m�ximo, 6 horas.

- Quer caf�? - Sim.

- "Descafenado?" - "Descafeinado", como dizem aqui.

- J� lhe trago. - Obrigado.

Bem...

Ainda bem que h� uma bela vista aqui.

Quero viver assim, com o sol em frente,

e feliz canto, afortunadamente... �ngela!

"Porca mis�ria!"

Parece que estou na Noruega mas em vez disso,

em certos momentos, parece-me estar em minha casa de Lucca.

Sim, faltam alguns ciprestes, mas a paisagem � quase a mesma.

Aqui estamos no Hotel Boavista, de Peso.

O pa�s � belo e o povo muito gentil.

Agora tamb�m dei para falar sozinho? �ngela, o caf�!

- Que trabalho duro! - Eu coloquei na garrafa.

"Para a cadeia!" Como Bracardi diz, eles deveriam envi�-la.

- Est� quente? - N�o.

"Para a cadeia!" lamentam-se. "Que trabalho!"

Depois de tantos filmes, estou sempre �vido por novas experi�ncias,

como esta nas montanhas de Portugal, onde nunca tinha estado.

Penso que

a ideia de filmes mais seguros, mais certos no que eu chamo de "f�brica"

isto �, em �ltima an�lise Cinecitt�, onde tudo � mais silencioso e confort�vel...

N�o, sei, com a idade

vejo-me como um empregado que vai ao trabalho toda manh�.

Por anos eu escolhi filmes que me levam daqui para l�,

francamente, devo dizer,

vou como um turista de luxo.

N�o h� nenhum turista, por mais rico e famoso que seja,

que possa saborear profundamente

a natureza de um pa�s, de um povo, de uma gente.

O cinema, como chamam aqui, leva-o a entrar nas casas das pessoas, a fazer amizade.

� dif�cil entender-se por causa da l�ngua, mas no final sempre se entende.

Manoel de Oliveira tem 88 anos.

Nunca vi seus filmes, mas conhe�o sua fama

A mim pareceu-me um privil�gio trabalhar com um homem de 88 anos.

Trabalhar com um diretor de cinema de 20, 30, 35 anos � normal, mas de 88 anos!

Corre, pula. Sua energia � irritante.

Fiz dois filmes na Gr�cia, com Angelopoulos,

e tive que me esfor�ar para falar em grego, porque

naquele pa�s n�o existe a ideia de dublagem.

Lembro-me de que a equipe era formada por 13 pessoas.

� rid�culo, se pensarmos que normalmente s�o 30 ou 40 pessoas.

A ideia de um grupo pequeno, concebido como uma pequena fam�lia, entusiasmava-me.

� a coisa que mais amo, porque tudo tem o sentido de uma aventura.

desse pequeno grupo que se move em busca um lugar, um enquadramento.

Devo dizer que na Gr�cia demos muitas voltas.

O carro que me levava fez, em dois meses, 17 mil quil�metros.

E voc�s perguntar�o como � poss�vel.

Na Gr�cia, durante os 500 anos de domina��o turca, n�o deixaram nada.

Falo da Gr�cia do Norte, da Maced�nia, onde Angelopoulos roda seus filmes.

Aconteceu de o enquadramento de minha companheira, de uma mo�a, ser num beco

onde havia uma pequena fonte, uma estatueta algo que compusesse um pouco de cen�rio.

Quanto ao campo ao redor de mim n�o havia nada.

Ent�o, era necess�rio andar at� outra cidade, a 100km, para fazer o contra plano,

buscando qualquer coisa que tivesse um m�nimo de significado, de beleza.

Assim, percorremos toda a Gr�cia, exceto as ilhas.

Nunca havia descanso.

Lembro-me de quando est�vamos com fome, desc�amos a janela traseira do caminh�o

e l� tinha p�o, azeitonas, "feta", o queijo grego, vinho e �gua.

Por sorte, adoro p�o e azeitonas.

Tamb�m tenho projetos jamais realizados, sonhos bizarros.

Por exemplo, essa minha mania de dizer: "Gostaria de fazer Tarzan velho."

Por que n�o? Um filme humor�stico, mas com um fundo melanc�lico, pois

� o problema, o drama da terceira idade desse her�i gentil

de quem, hoje, n�o se fala nada.

Hoje os her�is t�m metralhadora,

est�o arranhando o ingl�s, tiro na boca...

E ningu�m mais se preocupa com Tarzan.

Essa ideia de Tarzan, no fundo, me vem...

Lembro-me de que vivia em uma villa no come�o da Appia Antiga.

E ali tive um par empregados et�opes, de abiss�nios, marido e mulher.

Sempre foi dif�cil encontrar pessoal para trabalhar.

No come�o, tudo ia bem.

Mas eu me lembro de que num domingo entrei na cozinha e, por acaso,

vi dois outros abiss�nios.

N�o falo isto por ser racista.

Pareceu-me normal que os parentes ou conhecidos viessem visit�-los.

Mas com o passar dos domingos, a cozinha se enchia cada vez mais

desses parentes ou conhecidos.

A minha atitude democr�tica e generosa

animou-os a aumentar cada vez mais essas presen�as at� que

lembro-me de que um dia,

que ao voltar para casa depois de uma longa aus�ncia, fazendo um filme,

encontrei uma tenda de campanha que haviam montado no jardim,

e haviam acendido uma fogueira.

Al�m disso, na tenda havia 4 com fogueira e com tambores,

e eu j� estava me vendo for�ado a viver numa �rvore, como Tarzan.

Sabem que mora aqui, no come�o da Appia Antiga?

Meu amigo Marcello Mastroianni.

N�s nos divertimos muito, trabalhando juntos. Fizemos-lhe uma surpresa.

Ele � um romano de "pura cepa" ainda que, na realidade, seja de Frosione.

Mas tem todas as virtudes e defeitos dos verdadeiros romanos.

N�o pise na grama.

- Cesarino! Onde est� o casaco? - Este?

Em uma cat�strofe at�mica, que livro salvaria, sr. Mastroianni?

Mas olhe que pergunta! Creio que mais do que livros

o necess�rio seria salvar os manuais

sobre como construir uma casa, ou como fabricar um telefone.

- Voc� salvaria "Quattroruote" e "Linus". - Sobretudo.

Perfeito!

- Marcello, mude de express�o. Mais viril. - Viril?

- Sim, mas t�mida. - Viril e t�mida?

Assim � demais.

D�-lhe tempo para comer! N�o, isso n�o. Quer o visom?

Sr. Mastroianni, nossos leitores querem saber

- qual o segredo de sua eleg�ncia. - Que eleg�ncia?

- Tem que trocar o casaco. - Sim. N�o creio ser particularmente elegante.

O segredo de sua eleg�ncia � uma s� palavra: simplicidade.

- Sr. Marcello, as gotas. - Obrigado.

Para voc�, qual a diferen�a entre a mulher latina e a n�rdica?

- N�o quero respondes essa pergunta. - Sr. Marcello, posso tomar um banho?

Claro.

- Segue alguma dieta? - N�o, como tudo que me apetece.

- Telefonou um produtor ingl�s, Davigon. - Davidson, ignorante.

- Quer fazer o abade Faria. - N�o fa�o o abade Faria.

Tem raz�o.

Federico, fa�amos Mandrake. Pensa como n�s nos divertiremos. Adapte-o para mim.

- Mandrake de Frosinone! - Vou fazer!

- Por que est� sempre rindo? - Ele me faz rir.

Continue gravando. � o amante latino.

- Esta � a villa... - Ouviu? O �nibus carregado de loucos.

S�o os americanos.

Primeiro v�o ao Coliseu, depois �s catacumbas e logo vem para c�, gritando:

"Mastroianni! Mastroianni!" E ele tem que aparecer.

Ele fez "A doce vida" Marcello Mastroianni!

- Marcello Mastroianni! - Ol�, Mastroianni!

Outro sonho era fazer, como Perry Mason, um papel numa cadeira de rodas.

Isso exalta muito minha pregui�a. Em cadeira de rodas e fazendo um surdo-mudo.

Assim, n�o tenho que me cansar. O p�blico. que � bem ing�nuo, dir�:

"Est� em cadeira de rodas, n�o fala, n�o ouve e n�s entendemos tudo."

Esquecendo-se de que a hist�ria foi escrita levando isso em conta

e talvez, tamb�m correndo o risco de ganhar dois ou tr�s Oscar.

Um, porque est� em cadeira de rodas,

outro por ser surdo e outro por ser mudo.

Eu digo isso porque... pelo amor de Deus,

a cr�tica � muito sens�vel a esse tipo de infelicidade.

Ei, ciganos! Sou eu! Lembram-se? Romano!

Romano! Ciganos!

J� vou, mas voltarei logo! Esperem por mim!

Ciganos!

Cortam-se milhares de �rvores,

est� se destruindo o habitat dos animais, das aves

e desaparecem para sempre paisagens maravilhosas.

E por que acontece tudo isso?

Somos uns b�rbaros insens�veis por acabar com toda essa beleza.

Destru�mos o que somos incapazes de criar.

O homem tem raz�o e uma grande for�a criativa para melhorar

tudo o que lhe foi dado, mas at� agora n�o fez outra coisa sen�o destruir.

Os bosques est�o cada vez menores,

secam os rios, a selva desaparece

e a terra, dia ap�s dia se encontra mais pobre e est�ril.

Voc� me olha com ironia porque o que lhe digo n�o lhe parece s�rio.

Talvez possa ser que seja uma extravag�ncia,

mas quando passo na frente de uma floresta que salvei do machado

ou quando ou�o o rumor de um jovem bosque que plantei com minhas pr�prias m�os

dou-me conta que a pureza do clima depende tamb�m um pouco de mim

e que se o homem dentro de mil anos for feliz,

um pouco desse m�rito tamb�m haver� sido meu.

Quando eu planto uma pequena b�tula e a vejo crescer e mover-se com o vento,

minha alma se orgulha.

Esse era um mon�logo do dr. Astrov, do primeiro ato de Tio Vanya, de Tchekov.

A dire��o foi de Luchino Visconti.

Interpretei-o h� muitos anos, quando era muito jovem.

Eu tive um lampejo por Tchekhov.

Com o passar dos anos, esse amor foi se mostrando mais importante, mais profundo.

Talvez eu ame a Tchekhov desta maneira t�o especial

porque seus personagens e seus relatos assemelhem-se � vida.

Ou talvez se assemelhem mais � minha natureza.

Tamb�m � minha natureza de ator.

Eu gosto do pequeno mundo submisso feito sempre de personagens perdedores,

cheias de entusiasmo, de sonhos, de ilus�es.

"A mosca! A mosca!" aonde n�o ir�o nunca.

E Vania que diz: "Trabalhar, trabalhar..."

� o �nico recurso que tem o homem.

Sua mesquinhez, sua inveja, seus absurdos.

Porque, para mim, Tchekhov � o autor da com�dia russa.

De fato, e n�o por acaso, ele sempre escreveu para atores e atrizes

que representavam suas com�dias: "N�o se esque�am de que s�o com�dias."

Ele n�o morde. N�o tenha medo, pode se apoiar em mim.

- N�o tenha vergonha, posso ajud�-lo, asseguro-lhe. - N�o, mas...

- Voc� n�o deve ter medo. - Era uma piada.

Conhe�o essa doen�a, porque minha av� tamb�m tinha.

Segure minha sombrinha.

Eu ouvi o que voc� disse para a sua amiga.

Que voc� tem a sensa��o que as pernas est�o mortas. Certo?

- Sim. - Deve ser uma sinovite. N�o � isso?

Gostaria de que fosse uma sinovite! Tenho calcifica��o em ambos os joelhos

- N�o s�o exatamente, mas estilha�os. - Como aconteceu?

Deve ter sido por causa do terremoto. Voc� ouviu falar do Ves�vio?

- Claro, aconteceu antes de Cristo! - Sim, mas � heredit�rio.

Meus antepassados eram de Pompeia. Mas, espere! Agora que penso nisso,

meu antepassado foi curado por uma russa.

- S�rio? - Sim, mas creio que � uma lenda.

Conte-me.

- N�o. N�o acredito nesses milagres. - Mas j� que come�ou...

- S�o apenas bobagens. - Estou pedindo-lhe.

Bem, podemos provar. Diga-me uma palavra russa no ouvido.

- Qual? - Uma qualquer.

- Qualquer uma? - Sim.

Est� bem.

- "Sabachka." - O qu�?

"Sabachka".

- Sabach... - Sabach... ka.

- Sabachka. - Quer dizer "cachorrinho".

Sabachka.

Sa...

Sa...

Sabachka.

Sa...

Sabachka.

Sabachka!

Sabachka!

Sa... Sabachka!

Sabachka! �Sabachka!

Estou curado.

Sabachka! Milagre!

Milagre!

Calma! N�o aconteceu nada.

Senhorita, espere!

Era s� uma piada.

Mas � bom que seja dito que na Europa, mais do que em qualquer outra parte,

Tchekhov vem sido sempre representado em tom dram�tico.

Tem drama, claro que tem,

mas � um drama que raia o rid�culo, que faz rir.

Creio que essa � a grandeza desse autor maravilhoso.

Shakespeare � grande, imenso, mas

os tons m�dios de Tchekhov, ao menos para mim, s�o mais emocionantes.

Foi um grande privil�gio entrar pela grande porta no teatro.

Com Visconti comecei a fazer teatro profissional, embora por casualidade.

Viram-me declamar na universidade e chamaram-me para fazer parte do grupo.

Na companhia estavam Rina Morelli, Paolo Stoppa, Vittorio Gassman.

Fizemos "As Tr�s Irm�s", espet�culo que foi legend�rio.

Atuei em "Um Bonde Chamado Desejo", de Tennessee Williams.

E "A Morte de Um Caixeiro Viajante", de Arthur Miller.

Com "A Hospedeira", de Goldoni fomos tamb�m a Paris,

ao festival Internacional do Teatro.

Esses 10 anos de atividade teatral s�o os que realmente me formaram porque

com a disciplina de Visconti, sua grande exig�ncia e perfeccionismo de artista.

Se eu sei fazer alguma coisa, creio que em grande parte devo isso a eles.

O teatro � importante para um ator.

Ap�s esses 10 anos, eu fiz o meu primeiro filme com Visconti "Noites Brancas"

que foi o filme com o qual me libertei, n�o do personagem ing�nuo

porque isso tamb�m eu era, mas n�o em um n�vel

do taxista. Aqui falamos de um filme mais sofisticado.

Agora tamb�m posso dizer que j� dancei.

Agora posso dizer tamb�m que j� fui feliz.

Gina, chama o papai. J� passam das 10.

Pensei que era o momento de montar minha pr�pria companhia.

Escolhi uma com�dia de Tchekhov, "Aquele Louco do Platonov".

Convidei Visconti para dirigi-la, e ele, muito simpaticamente, aceitou.

Bem naquele momento, chegou o pedido de Fellini

para que eu fizesse "A Doce Vida".

Francamente, eu vivi um momento de d�vida atroz,

mas finalmente optei pelo cinema, pelo filme de Fellini.

Falei com Visconti que, gentilmente, disse que far�amos no ano seguinte.

Mas os anos se passaram e n�o fizemos mais.

Mas, o mais paradoxo, que confirma ainda a validade dos textos de Tchekhov,

foi que 30 anos depois fiz essa com�dia dirigida por Nikita Mikhalkov.

O ver�o se espera como uma festa.

Quando chega, espera-se impacientemente, que termine.

Era t�o bonito!

Estar em casa, tocar o viol�o, n�o ver viva alma.

N�o saber coisa alguma.

Agora estou impaciente para que chegue o inverno.

Espero novamente, para poder esconder-me de novo em meu abrigo de neve.

Como?

Nikita chamou-o de "Partitura Incompleta para Pianola Mec�nica",

da qual, na R�ssia j� haviam feito um filme espetacular.

Vire-me.

�s vezes, perguntam-me a diferen�a entre o teatro e o cinema.

Deveriam perguntar ao te�ricos, aos estudiosos.

� certo que existe uma diferen�a.

O teatro pede disciplina, religiosidade,

algo que n�o existe no cinema. O teatro � um templo, um templo onde o sol nunca entra.

Trabalha-se sempre com pouca luz, no sil�ncio mais absoluto.

O texto � respeitado em profundidade porque

tudo est� na palavra.

O cinema, por outro lado, � outra coisa.

N�o falo de estilo de recita��o, ainda que algumas coisas tamb�m mudem.

No cinema, os olhos s�o o mais importante, o primeiro plano, no teatro, � a voz.

O ator deve levar isso em conta.

No cinema n�o se recita com o corpo, no teatro, sim.

No cinema, corta-se por aqui.

Isso � o que me incomoda, porque o corpo tem sua fun��o precisa.

A atitude do corpo expressa tamb�m o estado de �nimo.

Mas confesso que o cinema com sua extravag�ncia

com suas aproxima��es, suas confus�es, as coisas s�o organizadas

para esse tipo de microcosmo. No filme h� de tudo.

Desde a sa�da da pris�o, como do poeta.

Porque o cinema n�o pede refer�ncias, todos cabem no caldeir�o.

Esse � o aspecto m�gico do cinema.

N�o sei o motivo, mas agora me vem � mente Nova Iorque,

que n�o tem nada a ver com essa paisagem. Talvez sejam os picos dessas montanhas

que me fizeram lembrar. � uma cidade de que gosto muito.

Gosto de sua arquitetura.

Quando jovem, era ambicioso e queria ser arquiteto, mas o teatro me pegou.

Lembro-me de que em uma entrevista a um jornalista americano

disse-lhe que Park Avenue era t�o bela quanto � Pra�a S�o Marcos e ele se escandalizou.

Foi-me dif�cil faz�-lo entender que eram em duas �pocas diferentes,

em duas express�es excepcionais de arquitetura e de eleg�ncia.

Gosto de Nova Iorque tamb�m porque � grandiosa e miser�vel, rica e pobre.

H� de tudo. Poderia ser um extremo da Europa.

Para al�m do mais, foi criada pelos europeus e pelos africanos, claro.

Sim, � uma cidade de que gosto. Gostaria de fazer um filme.

Fiz um, mas realmente n�o foi excepcional.

Em contrapartida, fiz um com Marco Ferreri, que se chamava "Ciao Maschio".

Lembro-me dele como um de minhas pel�culas favoritas.

Creio que foi um dos personagens mais formosos que interpretei,

algo extravagante.

Era como faz�amos os italianos. Eu estava no mar, na It�lia,

quando recebi uma liga��o de Marco que me dizia para fazer,

uma vez que Tognazzi n�o podia.

Respondi-lhe que nem conhecia o filme, mas ante sua insist�ncia, eu fui.

Efetivamente tudo foi improvisado, tudo em tempo real.

Sou totalmente convicto que o cinema como n�s o faz�amos

era o mais exaltante, o mais bonito.

O personagem acabou por ser delicioso

em sua melancolia, seus desespero de pobre velho emigrante.

D�-me um beijo... Aqui.

- N�o. - Por favor!

D�-me um beijo.

Venha, Luigi, vamos nos.

O amante latino! Que paci�ncia!

H� 35 anos interpretei "A Doce Vida",

e que os americanos disseram que eu era o amante latino.

Eles sempre v�o atr�s de f�rmulas.

F�rmula que logo foi usada pelos jornalistas italianos e europeus.

Porque � f�cil "Amante Latino" e j� est� dito tudo. Mas amante latino por qu�?

Eu nunca frequentei boates,

nem mesmo fui � Via Veneto, ainda que tenha rodado um filme ali.

Quem sabe a algum caf�, se tanto.

N�o sei... talvez pelo fato que

em muitos de meus filmes estive rodeado de belas mulheres,

mas isso n�o significa ser um amante latino.

Pagavam-me para abra��-las. Fing�amos que nos am�vamos.

Isso de "amante latino" � uma loucura uma estupidez, at� mesmo algo vulgar.

Depois de "A Doce Vida", os produtores gostaram

de voltar a me ver imediatamente com o palet� azul com bot�es dourados.

Eu fiz um filme, onde fazia um impotente: "O Belo Ant�nio".

Logo fiz "Div�rcio � Italiana", onde eu era um corno nojento.

Fiz tamb�m como um homem gr�vido

e como homossexual, em "Um dia Especial".

Fiz um filme onde n�o havia nada de sexo,

como na pel�cula de Fellini, que era uma fantasia er�tica,

de um adolescente, quase um menino.

E o que vou fazer? N�o posso fazer nada.

Agora tenho 72 anos e ainda seguem escrevendo essa coisa de "amante latino".

Mas o que eu sou, um show de horrores?

- "Italian Power"? - Sim.

- "Italian Power." - "Amante italiano!"

A primeira vez que estive em Nova Iorque, fui convidado por Lee Strasberg,

o diretor do Actor's Studio,

onde estavam todos os atores. Menos Marlon Brando, os outros estavam.

Paul Newman, todos andavam por aqui e por ali.

Eu tomei umas doses de u�sque para tomar coragem e ficar mais solto.

Al�m do mais, n�o falava ingl�s.

O fato � que ao entrar em uma sala,

vejo uma morena bel�ssima, sentada ao ch�o,

rodeada por jovens alunos do Actor's Studio.

E fiquei escutando-a.

Em algum momento entendi que ele dizia algo de Anita Ekberg e de "A Doce Vida".

"Mas quem �?

� minha m�e, a irm�, a terra, a lua? Quem �?"

E ela respondeu-me: "Quem � voc�"?, em italiano.

"Fala italiano?" "N�o s� falo, meu nome � italiano."

Eu lhe disse: "O que faz no meio de todos esses meninos que a escutam absortos?"

"� a primeira vez que venho a Nova Iorque.

Por que n�o me mostra a cidade, uma vez que fala italiano"?

Deus, qual era o nome dela?

Anne Bancroft! A mem�ria come�a a falhar.

Era bel�ssima, parecia-se com uma filha de Ana Magnani.

A t�pica mulher do sul da It�lia.

Ela foi muito am�vel, j� que eu n�o tinha sequer uma lira no bolso,

pois abusava do fato de ser convidado do distribuidor de meu filme,

Joe Levin, que tinha uma grande simpatia por mim, saia sempre sem dinheiro.

Comportei-me como um italiano que vai ao exterior,

como faz Sordi em seus filmes

quando vai a Londres, ou n�o sei onde. Assim, fiz uma coleta.

Um deu-me um d�lar, outro dois, etc, sem que me envergonhasse em absoluto,

ainda que, agora que me lembro, sei que me envergonho.

Fomos a um restaurante que se chamava "Pompei",

gerenciado por irm�os g�meos italianos.

Falamos de teatro, de cinema. Foi uma conversa muito gostosa.

Eu admirava muito essa atriz, mas quando disse?

"Quem �, a lua, a m�e, etc"

realmente merecia o t�tulo de amante latino.

De fato, foi muito feio.

Eu os uno em matrim�nio, em nome do Pai, do Filho e do Esp�rito Santo.

Am�m.

Na Argentina, fiz um filme dirigido por Maria Lu�sa Bemberg,

onde me caso com uma an�.

Fi-lo pelo prazer de derrubar a imagem de amante latino.

Logo fiz "O Belo Ant�nio", a hist�ria de um jovem siciliano impotente.

Esse filme deveria ter sido feito por um tal Charrier,

que era o marido de Brigitte Bardot.

Lembro-me de que exatamente numa quinta feira recebo uma liga��o de Bolognini que me diz:

"O ator franc�s n�o apareceu. Voc� faz "O Belo Ant�nio"?

"Voc� sempre tem mania de escolher os estrangeiros. "

Aceitei pois conhecia o romance.

Al�m do mais, sabia que Pasolini tamb�m estava na dire��o.

N�o sei por que Charrier n�o veio, talvez

teve receio por ser o marido de Brigitte Bardot.

�s vezes, os atores s�o um pouco tontos.

Qui�� pensava que depois o tachariam de impotente, mas como? Com Brigitte Bardot?

Por sorte eu fiz, Acho que � um filme muito bonito.

A prop�sito, tenho uma anedota muito simp�tica.

N�o me lembro se foi no Brasil ou na Argentina,

um ano depois da estreia nos Estados Unidos,

havia um navio de guerra em desuso.

O navio n�o funcionava e foi apelidado de "O Belo Ant�nio".

- Sabe que seu pai essa manh� foi ver o meu? - Sim, sei.

- Desde quando voc� sabe? - Soube depois.

Seu pai toma uma decis�o importante sem consult�-la?

Diga-me a verdade, B�rbara, aprova o que ele fez?

- Responda-me! Aprova? - Sim.

Juramos continuar nos amando cada vez mais.

Quantas vezes me disse que Deus aben�oava nossa casa?

Mas agora soube que a Igreja n�o nos aben�oa mais.

- Por qu�? A quem fazemos mal? - A ningu�m.

Mas nosso casamento n�o existe diante Deus.

Desde quando sabe que n�o existe ante a Deus?

Desde que o arcebispo me explicou.

- Falou disto com ele? - Sim, faz sete dias.

Por qu�? Por que contou a seu pai? - Foi Francesca

quando a despedimos de casa. Tive que confirmar.

Mas por que o arcebispo se interessou por nossa s� h� 7 dias se sabia h� meses.

- Talvez tenha algum projeto para voc�. - N�o sei.

B�rbara, aonde foi todo o amor que tinha por mim?

Responda-me.

- Onde est� o amor que me tinha? - Vou querer voc� sempre,

- mas n�o como uma esposa a seu marido. - Por qu�?

Porque n�o somos marido e mulher.

- Desde quando n�o o somos? - Nunca fomos. Agora eu sei.

N�o v� que desde que me explicaram n�o posso estar com voc� sem me ruborizar?

N�o B�rbara, n�o...

Devemos confessar � Igreja nosso erro e que ela o repare.

- Como? - Anulando o casamento.

- N�o! - N�s nos enganamos.

- N�o. - Sim, foi um engano.

Sua fam�lia era muito respeitada.

A cidade inteira est� esperando. Voc� n�o poderia...fui claro?

N�s chamamos alguns amigos de confian�a. D�-me 24 horas e saberemos onde est�o.

Coragem!

- Voc� � o Bar�o Dom Ferdinando Cefal�? - Sim.

Meu nome � Immacolata Patan�

Sou a esposa dele.

Vim de Catania para descobrir o que voc� pretende fazer.

Eu realmente n�o sei...

Sim, agora eu tinha sido provocado.

Gravemente provocado, eu poderia acrescentar.

"Div�rcio � Italiana", de Germi. Ele n�o me queria.

Depois de "A Doce Vida" e "O Belo Ant�nio", pensava que eu era um amante latino mundano.

N�o era verdade, mas tinha essa rejei��o contra mim.

Ele tinha um elenco de atores, que, por diferentes raz�es,

n�o concordaram em fazer o filme. Talvez,

n�o acreditavam na qualidade Germi bem humorado,

que at� aquele momento s� havia feito dramas.

Enfim, lembro-me de ter feito umas fotos com o cabelo todo esticado,

e outra todo eri�ado e fiz com que chegassem a Germi, que se convenceu.

E foi assim que eu fiz este filme maravilhoso, com o famoso tique...

No come�o, Germi me disse: "Est� gozando minha cara?"

- "Gozando sua cara, por qu�? - Por que est� fazendo isso?"

"N�o sei, talvez um tique pudesse sublinhar o nervosismo do protagonista."

"N�o, n�o estou gozando. Quem tem problemas de gengiva

sempre faz isto. Ent�o comecei a faz�-lo tamb�m."

"Ent�o pensei que este pequeno tique, esta varia��o, poderia funcionar."

E ele, sempre com o cigarro na boca, se acreditou ou n�o, n�o sei.

De qualquer modo, disse: "Est� bem!" e fizemos esta pel�cula maravilhosa.

Sim, a vida come�a aos 40 anos. � realmente verdade!

As mem�rias s�o uma esp�cie ponto de chegada. � certo.

Talvez as mem�rias sejam verdadeiramente a �nica coisa nossa.

Sempre me pergunto quais s�o as que me tocam com mais intensidade.

O cinema? O que me aconteceu? N�o, n�o � nada disso.

As mem�rias mais reais s�o as associadas � minha inf�ncia, � adolesc�ncia.

Minha m�e, meu pai, meu irm�o, meus amigos do bairro.

Nos ver�es, quando encerrava a escola. Nessa �poca

passava o ver�o na oficina do meu pai e meu av�. Era uma pequena garagem

onde eles trabalhavam como carpinteiros.

Meu av�, um homem de poucas palavras, na hora da comida

ia com meu pai e me dizia: "Varra o ch�o".

"Tem que lixar esse m�vel

e se tiver tempo, amole as ferramentas."

E eu dizia: "Mas eu n�o como?"

No fundo, n�o me desagradava, pois apreciava muito o trabalho daqueles homens.

Frequentemente, discutiam entre eles. Meu pai dizia:

"Por um dia de trabalho que gasta com esta cadeira, quanto deve pedir?"

E meu av� dizia:

"Meu dever � faz�-la bem feita. Foi a senhora do 3� andar quem pediu."

E ent�o estava estabelecido o conflito geracional.

Tenho uma mem�ria bonita daqueles anos, ainda que me envergonhasse um pouco.

Tinha 15 anos e come�ava a olhar para as garotas.

�s vezes, meu av� dizia: "Recolha as ferramentas e v�

ajustar a persiana que n�o funciona mais."

Chegar na casa onde morava uma menina de quem gostava,

sinceramente, me dava vergonha. Mas eu me lembro, por outro lado, que aqueles anos

foram muito bonitos. O cheiro da madeira -

quem n�o conhece, n�o pode apreciar -

misturado com o suor de meu pai, de meu av�, as blasf�mias,

as escarradas de meu av�, que fumava cachimbo!

Creio, tamb�m, ter aprendido algumas coisas com aquelas experi�ncias.

Um certo conhecimento das coisas modestas, uma certa humildade.

Bra�os e pernas magros,

que me impediram, talvez por sorte, as fun��es de her�i.

Este nariz curto, os l�bios carnudos,

eu, na verdade, queria l�bios finos como os de Jean Gabin...

o nariz fino, teria que citar outra vez Gassman.

Os et�opes, os abiss�nios, t�m nariz aristocr�tico.

Sempre tive um comprazimento em ironizar meu aspecto f�sico,

se fosse poss�vel, quase anul�-lo.

Sempre fiz personagens mais velhos do que minha idade.

Tamb�m porque, astutamente, dizia-me:

"N�o quero que o p�blico possa dizer que envelheci."

"N�o, envelhe�o antes, assim dir�o que estou disfar�ado de velho."

S�o pequenas ast�cias, n�o sei se funcionaram.

Gostar das mulher, mas como se faz?

Esse ar indolente, astuto e indolente, que efeito ter�?

O fraque � um pouco apertado, mas � melhor assim

controla-me mais, gesticulo menos, n�o mais que assim.

E como a olho com os olhos para cima,

ou mais pessoal, estilo oriental, com as p�lpebras baixas?

E agora o cabelo, perfeito, pronto!

Gostar das mulheres, as espl�ndidas mulheres desta cidade.

O paradoxo de Diderot sobre os atores est� todo aqui.

A sensibilidade faz os atores limitados, med�ocres.

C�rebro e sangue frio fazem um grande ator.

No que se refere ao sofrimento do ator

li entrevistas feitas com grandes atores americanos.

que para encarnar os personagens t�m que se atormentar e sofrer.

H� quem se enclausura num convento, quem v� a uma montanha para refletir.

N�o entendo por qu�. Se consideramos esse trabalho como um jogo

e nos lembrarmos de como, quando pequenos, brinc�vamos de guardas e ladr�es,

por que esse tormento, esse sofrimento?

Eu entenderia se n�o o chamassem para trabalhar,

ou se se esquecessem de voc�, isso sim seria um sofrimento,

se tem d�vidas a pagar e n�o tem trabalho, isto � sofrimento.

O p�blico acredita neles quando leem esses sofrimentos,

e tamb�m a cr�tica. Porque quem se faz de despreocupado, como eu digo:

"Fazer esse trabalho � um divertimento",

na realidade � subestimado.

Mas, se ao contr�rio, disser: "Tive que estudar seis meses",

"e deu-me muito trabalho para sair do personagem!"

A� eu digo, o que faz quando volta para casa? Continua?

E sua esposa n�o lhe cospe na cara?

Voc� senta-se � mesa e continua fazendo o personagem?

Parece-me excessivo. Esse � um trabalho maravilhoso.

Pagam-no para brincar e todos batem palmas. Sim, se tiver um m�nimo de qualidade.

Um anci�o morreu no domingo passado,

sentado no vaso sanit�rio.

Dizem que foi um enfarto,

que lhe foi fatal sua constipa��o,

o esfor�o excessivo para conseguir expulsar

esse maldito tro�o de pedra, que o fazia sofrer todos os dias.

Se assim se foi, isso tamb�m � sagrado.

Mas eu acho que morreu de desgosto

porque naquele pequeno vaso sanit�rio os fantasmas se amontoam

e ficam muito perto, muito em cima.

Juntos surgem todos os pensamentos, todas as recorda��es,

todos presos com voc� no banheiro, todos tormentosos,

enquanto se espera que essa pedra o abandone.

E agora, pode chegar uma manh�

em que j� n�o se pode mais suport�-la,

em que a pedra e as mem�rias s�o mais fortes do que voc�.

E assim, naquela manh� � sagrado,

e � sagrado tamb�m o anci�o escorb�tico e solit�rio

que um dia n�o se levantar� mais de sua cadeira.

Encontraram-no com os olhos fechados e as m�os r�gidas sobre os joelhos...

enquanto seu aparelho auricular cantava-lhe ao ouvido

um coral de Bach.

Queria apenas poder escolher o tempo,

mas quem n�o queria?

Creio que sempre deve haver um certo distanciamento

entre o ator e o personagem que interpreta.

� necess�rio sempre ter um olho que o guie de maneira ir�nica,

e diga-lhe: "N�o exagera! Recorde-se que est� exercendo uma fun��o."

"N�o a est� vivendo. � um personagem."

�s vezes, acontece que um tamb�m se comove,

algo que nunca deveria acontecer ao ator.

� ele quem tem que comover o p�blico.

Quando algo acontece que o toca de perto, pessoalmente.

Por exemplo, na �ltima com�dia que recitei, e ainda estou recitando, "As �ltimas luas",

h� num momento em que fico com os olhos brilhantes.

E isso me incomoda muito, porque

quer dizer que n�o tenho o distanciamento que se deve manter

com respeito ao personagem que estou interpretando.

Um ator tem que controlar o personagem

seguir o humor do p�blico, aproveitar a atmosfera que foi criada

ou bem, fre�-la. Essas s�o coisas

que talvez outros atores com mais experi�ncia de teatro que eu,

poderiam contar melhor. Para mim, o maior � Vittorio Gassman.

Como ele, trabalhei pela primeira vez como profissional.

Lembro-me de que era uma trag�dia de Vittorio Alfieri: "Oreste".

Em versos. E havia versos dific�limos.

Eu n�o tinha prepara��o acad�mica, ent�o me era muito dif�cil.

Ele, muito generosamente,

e �s escondidas de Visconti, que era o diretor, dava-me li��es.

Mas o medo e a emo��o eram t�o fortes,

que na tarde da estreia, no teatro Quirino, de Roma,

veio buscar-me no banheiro. Eu n�o parava de fazer xixi.

Era pelo meu nervosismo. Pegou-me como se leva um gato:

"Temos que entrar em cena!" Corri, abotoando as cal�as! Esta

� uma mem�ria muito terna,

demonstra que um cria profundamente no que fazia.

N�o � que agora eu n�o creia, mas se tem a vantagem da experi�ncia,

agora n�o me solta o xixi, j� n�o fico com a boca seca,

j� n�o tenho um copo de �gua escondido atr�s do cen�rio.

Porque se a l�ngua n�o � umedecida, as palavras n�o saem! E isto � por medo.

Ajuda-me!

Est� mal!

- Est� morto! - N�o!

Absolvo seus pecados, em nome do Pai, do Filho e do Esp�rito Santo. Am�m.

O honor�vel Michelozzi est� morto, algu�m lhe deu um tiro.

Fechem todas as sa�das, que ningu�m saia do hotel.

Controlem os telefones!

Dentro de uma hora na capela: medita��o sobre o inferno.

"Ju�zo Final" � um documento important�ssimo.

Rev� nossa primeira rep�blica. Obst�culos, messes, sociedade, dinheiro.

Curiosamente, nem tanto curiosamente, esse filme depois de todos os esc�ndalos que aconteceram

depois do assassinato de Aldo Moro, que no filme foi antecipado por Elio Petri

foi muito impressionante quando realmente aconteceu,

porque ele j� havia mostrado no filme.

Curiosamente, esse filme, que considero muito importante,

nunca teve uma resposta. � curioso, estranho.

Temos que pensar que a deixaram escondida,

por qu�? N�o gostam de voltar a falar no tema?

Agora temos muitos mais esc�ndalos, escandaloso, escandalinhos...

Aquele filme que era muito importante, n�o me ocorreu voltar a v�-lo.

Por outro lado, recordo-me da morte de Moro,

em Mil�o, pela televis�o, sempre com Elio Petri,

em uma adapta��o televisiva de uma com�dia de Jean-Paul Sartre:

"La mani sporche". N�o tinha grande qualidade teatral,

mas Petri, com sua sagacidade de diretor,

conseguiu dar-lhe um ritmo e um suspense extraordin�rio.

Enquanto rod�vamos esse filme, chegou a not�cia do assassinado de Moro.

Muitos jornalistas vieram atr�s de Elio Petri, por Ju�zo Final,

em que ele anunciava a morte de Moro.

- Por que me incomodam? - N�o quero que me sigam.

N�o?

- Se n�o ir� me registrar, vou-me embora. - Bem.

- Se n�o nos deixar em paz, iremos todos. - Sentem-se.

A prop�sito, Ugo, pode me tutear, aqui todos o fazem.

Como se chama?

- Tuteia tamb�m as mulheres? - sim.

Chamo-me J�ssica.

- Achava que era feia. - Sinto muito!

Sim, � reprov�vel!

- N�o sei, posso raspar o cabelo. - N�o.

- Eles estavam indo para ficar por voc�? - N�o.

Isso nunca deveria acontecer.

O registro n�o importa. � irrelevante, vamos conversar.

O que aconteceu? O que reprovaram? Que v�o muito bem vestidos?

- Que falam como um livro aberto? - � uma quest�o de pele.

As peles foram deixadas na antessala!

Companheiro, voc�s entraram com o p� errado.

Voc� se faz de insolente, porque � o mais fraco.

Tem a cara dos dias errados.

Hoje olhamos de soslaio, amanh� far�o algumas de suas piadas est�pidas.

Na semana que vem, chamarei para ditar-lhe uma carta

- e me dir�o que foi encontrado no fosso. - Eles n�o v�o ter sucesso!

N�o se pode fazer nada, se quiserem sair.

E isto n�o deve acontecer.

Quatro homens que vivem juntos, ou se d�o bem, ou se massacram.

Voc�s me far�o o favor de se gostarem muito.

Elio Petri � um magn�fico diretor!

"Investiga��o Sobre um Cidad�o Acima de Qualquer Suspeita" � bel�ssimo.

Volont� est� maravilhoso.

Sua estreia como diretor foi comigo, no filme "O Assassino". Ficamos amigos.

Meu irm�o tamb�m � muito amigo de Elio.

T�nhamos ideias extravagantes e �amos cont�-las a Elio Petri.

Diz�amos lhe: "N�o gostaria de fazer esse filme?"

Podemos fazer dois caub�is, mortos de fome,

que assaltam casas mexicanas, roubando caixas de feij�es."

Tamb�m pensamos num necr�filo,

a hist�ria de algu�m que estava em um por�o rodeada por cad�veres, entre os quais,

aparecia um manequim que se parecia com a Sophia Loren e Gina Lollobrigida,

mas eu passava e as ignorava e escolhia um menino.

Eram loucuras. Elio Petri era um diretor comprometido!

Nunca nos dava essa satisfa��o

equivoc�vamo-nos cada vez que recorr�amos a ele.

Meu irm�o era, acima de tudo, um amigo.

Sei que esse tipo de amizade n�o � f�cil.

Era 5 anos mais novo do que eu,

mas na realidade eu o via como um irm�o mais velho.

Gostava de sua seguran�a, pelo menos aparente,

ainda que tivesse sua fragilidade. Era um homem muito espirituoso.

De poucas palavras, Quando contava alguma coisa ou fazia uma cr�tica,

ou mencionava algo, sobretudo em seu trabalho de montador...

Seus golpes eram fulminantes! Humorismo real!

Uma vez, fizemos um filme juntos. Gigi Magni queria-o a todo custo.

O filme chamava-se "Scipi�o, O Africano, General de C�sar."

Ele era Escipi�n, dito "O Emiliano", um pol�tico ladr�o.

Passaram-se 2 mil anos, mas nada mudou!

As primeira duas semanas n�o faz�amos outra coisa a n�o ser rir!

Ao ponto de Gigi Magni zangou-se: "O que est� acontecendo, sempre fazendo gra�a?"

Disse-nos que fic�ssemos s�rios, mas n�s n�o par�vamos, at� que

um dia uma mulher com a qual eu tinha uma rela��o me deixou,

e entrei naquele pesar profundo, que havia sido abandonado, tra�do.

Que temperamento forte voc� tem Scipione!

- � pior do que seu pai! - Eu entendi!

Porque eu, Publius Cornelius Scipione tamb�m conhecido como Africano,

tenho o temperamento ruim.

� natural!

N�s gostar�amos de saber, n�o s� de voc�,

mas tamb�m de seu irm�o, se se dignasse,

Lucio Cornelio Scipione,

- Tamb�m conhecido como o Asi�tico, por favor. - De acordo, dos dois,

comandantes conjuntos do ex�rcito romano na S�ria,

onde foram parar os 500 talentos

que o Rei Antiochus adiantou a Roma para pagar tributos

mas que a Roma nunca chegou.

Scipione...

- voc� n�o sabe de nada? - Voc� n�o sabe?

T�nhamos um elenco muito bom de atores,

mas naquela �poca n�o eram brilhantes.

Eu estava com minha dor de namorado tra�do,

Gassman vinha de uma enfermidade no f�gado

e parecia um gato que volta ao amanhecer,

com as orelhas mordidas, todo desgrenhado.

Silvana Mangano, pobrezinha, para mim nunca foi uma mulher loquaz,

era muito reservada. Por esses motivos, Pompeia

n�o era uma paisagem das mais alegres!

M�ximo, permite-me dar um giro?

Aonde ele est� indo com a cavalaria?

Aonde voc� quer que ele v�? Sonha! Sonha!

Quando o filme estreou e minha m�e o viu,

disse: "Marcello, voc� est� bem, como sempre,

mas o cachinhos"

era assim que chamava meu irm�o, pois quando pequeno tinha o cabelo cacheado,

"O cachinhos est� melhor que voc�!"

- Lembra-se do pobre papai? - Ah, mais lembran�as!

- Scipione, o Espanhol! - Espanhol!

Aquele sim que era um homem!

- Quando ele dizia sim, era sim. - Era sim.

- E quando dizia n�o, era n�o! - Era n�o.

- De quem voc� teria sa�do? - Serei na verdade filho de uma serva!

- Voc� era mais bonito, mais inteligente.

- Eu? - Exatamente!

Era a menina dos olhos de papai.

E voc�, da pobre mam�e.

Muito bem! Muito bem!

- Calma, calma! - Venha c�! Aonde vai?

Quando comecei a fazer os primeiros filmes, meu pai e minha m�e

ficavam deliciados. Vinham v�-los todos. Vinham duas ou tr�s vezes,

mas devo falar de um detalhe muito singular.

Meu pai ficou cego por causa do diabetes,

e minha m�e h� muitos anos era surda.

Iam ao cinema para ver Stan Laurel e Oliver Hardy, O Gordo e o Magro,

porque quando se sentavam na plateia, eles incomodavam.

Minha m�e dizia: "O que ele disse?" e meu pai explicava.

Logo meu pai dizia" "O que aconteceu?" porque n�o enxergava,

e minha m�e lhe explicava o que tinha acontecido.

Eu podia contar tudo isto de uma maneira dram�tica,

mas na realidade eram uma dupla c�mica.

Minha m�e quebrou o f�mur, saindo do cine Appio,

pela Porta San Giovanni. As cl�ssicas cal�adas romanas

em que havia um furo, caiu e quebrou o f�mur.

N�o � que se lamentou tanto,

por essa desgra�a, haja vista ser uma anci�,

e apenas disse: "se, ao menos, tivesse podido ver o filme de Marcello

e era um filme de Alberto Sordi.

Ami�de perguntavam-me sobre os pr�mios que recebi,

e eu n�o sei se foi a hora certa de merec�-lo,

ou se, em troca, houvesse sido melhor em outras ocasi�es.

Tamb�m ao se premiar � necess�rio contentar a uns e a outros,

a tal governo, a tal pa�s, e a tal cinematografia.

Vai saber quando fomos realmente grandes mentirosos!

Cada vez que recebi um pr�mio,

curiosamente, meu pensamento ia para minha m�e.

Imaginava-a estar ali, presente,

com seu sorriso discreto,

enquanto se esfor�ava para n�o se emocionar,

orgulhosa do pr�mio que seu filho havia recebido.

Sim, isto pode parecer um pouco banal, mas n�o �.

H� alguns anos foi criado um pr�mio europeu similar ao Oscar,

chamado Felix. Uma estatueta horrenda, monstruosa.

O primeiro local onde pr�mio foi atribu�do, foi Berlim.

Eu fui premiado junto com Ingmar Bergman

e havia tamb�m um famoso ator alem�o.

Pela ideia da Alemanha sempre ligada a mem�rias da guerra,

eu n�o esperava ao chegar a esse teatro de Berlim,

ver toda uma plateia, cheia de senhoras e senhores em trajes de noite.

� minha chegada, todos se levantaram,

na It�lia isso se faz menos.

Por causa dessa curiosa ideia sobre a Alemanha, fiquei muito surpreso.

Tamb�m ali, meu pensamento foi at� minha m�e.

Eu me dizia: "Pobrezinha, se pudesse me ver em Berlim, recebendo o pr�mio

E devo dizer que me saltaram l�grimas

e a televis�o... zoom, pegou-me.

Coisa que me deixou muito embara�ado,

porque um n�o tem que se emocionar, trabalhando nesse of�cio.

Quando recebi a segunda nomea��o ao Oscar, por "Um Dia Especial",

Ettore me disse que f�ssemos a Hollywood, mas se j� n�o havia ido quando da primeira,

n�o queria ir para essa, porque n�o acreditava que ganhar�amos.

Afinal, decidimos ir e nos divertir em Los Angeles.

Naturalmente eu n�o ganhei como melhor ator, nem ele como melhor filme estrangeiro.

Mas como curiosidade, fomos convidados � casa do famoso diretor Scorsese.

Em sua casa, n�o havia quadros pendurados nas paredes,

s� p�steres de filmes italianos.

Lembro-me que se destacava sobre todos "O Leopardo", de Visconti.

Cheio, estava cheio de cartazes, como se tivesse sido empapelado!

Em certo momento, ele me disse:

"Que filme � esse?" Era um cartaz branco com dois sinais pretos.

Eu respondi: "N�o sei, n�o tem nomes, nem nada."

E ele disse-me: "� Divorcio � Italiana, na Pol�nia."

O epis�dio de Scorsese e seus p�steres nos recorda

quantos jovens diretores do cinema americanos

nutriram-se do cinema italiano,

j� que nosso cinema esteve na vanguarda durante 30 anos.

Se pensarem em "Caninos Perigosos", de Scorsese,

as analogias com "Os Boas Vidas", de Fellini, nascem espontaneamente.

Tamb�m ali era "Os Boas Vidas", s� que eram de Nova Iorque,

ainda que... mais violento.

Foi o filme que marcou o sucesso internacional de Robert de Niro

e Harvey Keitel.

Sim,

Scorsese � um diretor magn�fico, mas nos deve muito. E, como ele, outros tamb�m.

Eu digo por vaidade, sim, porque eu amo meu cinema.

- O que voc� esperava? - N�o...

Beijos, mordidas, m�os debaixo das saias? � o que queria desde manh�?

� o que deve ser feito quando se fica a s�s com uma mulher?

- Responda! Acha que todos os homens s�o iguais? N�o � verdade? - N�o me toque, deixe-me"

- Sinta! - N�o me toque!

- Precisam senti-lo porque � o m�sculo mais importante, n�o �? - N�o me toque!

Lamento por voc�, mas est� enganada, querida! Est� enganada, n�o sou o macho viril que esperava!

Sou um marica! Marica! Assim nos chamam!

No bilhar da Pra�a Tuscolo, quando descobriam algu�m como eu

abaixavam-lhe as cal�as e enfiavam-lhe uma vara pelo cu!

- Era isso que faziam! - Minha Nossa Senhora, agora chega!

O que voc� sabe? O que voc� sabe? � uma mulherzinha ignorante e obtusa!

Uma casada no cio, mas algu�m de bem! De bem!

- Uma das que dizem, foi um momento de fraqueza! - Calado!

- Disposta a se entregar no terra�o! - N�o � verdade. - Pronta para julgar.

a linchar! E no entanto, o que sabe voc�?

- Calado, a zeladora! - Eu chamo a zeladora!

Zeladora! Zeladora!

Assim, finalmente, todos saber�o que o inquilino do sexto andar

� um desviado, um homossexual,

um invertido,

um marica!

Na �nsia de vagar, recordo-me h� muito tempo...

Logo chegou "A Doce Vida", Fellini teve uma ideia maravilhosa.

Quis contar uma It�lia noturna atrav�s das comiss�rias.

Uma em Mestre, outra em Fiumicino, outra na Sic�lia...

Esse lugar curioso, misterioso, noturno.

As mudan�as de atitude, onde est� a prostituta, o b�bado,

aquele que brigou com sua mulher,

o que n�o sabe onde ir� dormir.

Lembro-me de dizer "vamos" ao comprar uma grande van,

para poder percorrer toda a It�lia, fech�vamos e dorm�amos na van.

Sempre com esse ar um pouco infantil de aventura!

E lembro-me que naquele tempo na televis�o,

perguntaram-lhe qual era sua posi��o pol�tica,

era a �poca dos "Barrigas Vermelhas".

Os carabineiros n�o entendiam que Fellini

n�o era o que queria dizer, era mais

um quadro de toda It�lia,

terna, ainda que desesperada,

cheia de humor, porque isso n�o lhe faltava.

Mas nada foi feito e n�s t�nhamos esse sonho de andar para l� e para c�.

Porque tamb�m ent�o, isso ir� surpreender,

mas t�nhamos mania de autom�veis.

Compet�amos para ver quem trocava mais frequentemente.

Fellini tinha uma Mercedes 300 SL,

aquela com asas de gaivota.

� dif�cil imaginar Fellini com um esportivo desse jeito.

Ele adorava os carros americanos e eram sempre pretos.

Brinc�vamos para ver quem trocava de autom�vel com mais frequ�ncia. Rid�culo!

Quanto dinheiro jogado pela janela! Sinto falta s� de n�o ter uma �nica documenta��o.

Eu poderia ter preenchido um grande quadro de avisos,

com minha fotografia, ao lado de cada carro que tive,

para ensinar a meus netos, que veriam que cretino era seu av�!

Talvez n�o os interesse saber essas idiotices sobre os carros,

mas tenho que falar de mim. N�o tenho grande qualidade de exposi��o,

ent�o falo tamb�m de meus pequenos defeitos e minhas pequenas fraquezas.

Segundo Proust, os melhores para�sos s�o os perdidos.

� uma frase muito famosa.

Gostaria de acrescentar que talvez haja para�sos mais atraentes do os perdidos.

S�o aqueles que jamais os vivemos.

Os lugares e as aventuras que deixamos para tr�s.

N�o �s nossas costas, como os para�sos perdidos que nos causam nostalgia,

mas diante a n�s, em um futuro que talvez um dia, como num sonho,

chegaremos a alcan��-los, a toc�-los.

Quem sabe, talvez a fascina��o de viajar esteja nesse encanto,

nessa paradoxal nostalgia do futuro.

� a for�a que nos faz imaginar fazer uma viagem

e encontrar em uma esta��o desconhecida

qualquer coisa que possa mudar nossa vida.

Quem sabe se se deixa realmente de ser jovem,

quando se come�ar apenas a sentir falta

e amar t�o somente os para�sos perdidos.

Eu a olho.

Eu a olho assim.

Voc� me olha.

Voc� me olha assim.

Porque, porque

Olhando-a � como

Se uma m�sica soasse em meu cora��o.

Eu lhe falo

Eu lhe conto de mim

Eu lhe confio

O que h� dentro de mim.

Eu sei! Eu sei!

Eu sei, sei o que voc� �! Agora sim eu o sei!

Quem sabe seja isso

O amor!

� absurdo

Se calcularmos 50 cigarros por dia, durante 50 anos,

teremos quase um milh�o de cigarros! Um milh�o.

Suficientes para escurecer o c�u de Roma.

Mas por qu�? Se se sabe que � ruim, mas se continua.

Servir� para preencher um vazio? Mesmo admitindo que � ruim,

estou bravo com os americanos.

Eles querem meter os fumantes num gueto.

Que cada um viva e morra como quiser.

Mas � ruim!

Este � o rio Duero: significa "de ouro", � f�cil.

Aqui � o desaguadouro, estamos chegando ao oceano Atl�ntico.

Ante a ideia da imensid�o desse oceano,

d� vontade de fazer reflex�es profundas.

Eu acredito na natureza, no amor, no carinho, na amizade,

nessa paisagem maravilhosa,

em meu trabalho, em meus companheiros.

Eu gosto das pessoas, eu amo a vida!

Talvez por isso a vida me pagou com amor,

Considero-me afortunado.

Com altos e baixos, como todos, mas afortunado.

Depois de ter rodado "Oito e 1/2", com Fellini, lancei-me

em arriscada aventura teatral.

Queria provar a emo��o de estar na Broadway: A com�dia musical!

Um g�nero de espet�culo que sempre adorei.

Essa com�dia chamava-se "Ciao, Rudy".

Devo dizer que foram seis meses muito excitantes em minha vida.

Havia bailarinos e bailarinas, atrizes de primeira linha,

com um p�blico excepcional

e uma m�sica...

N�o tenho uma voz de cantor, mas recordo-me de

que Gloria Swanson me disse: "Por que n�o vem � Am�rica?"

E eu respondi-lhe: "Na Am�rica os atores s�o muito bons.

Cantam, saltam, dan�am!"

E ela disse-me: "N�o importa, voc� � um ator, n�o precisa cantar.

Rex Harrison, em "My Fair Lady" n�o canta, recita as m�sicas.

Mas eu n�o me deixei seduzir.

Sobretudo porque naquele momento, Fellini me chamou

para fazer o famoso "Viagem de Mastorna, que, afinal, nunca foi feito,

e ao final da esta��o romana, suspendi essas atua��es.

Quebrei o contrato e em outubro tive que ir realizar o espet�culo em Mil�o.

Isso me custou uma multa,

creio que nenhum outro ator nunca tenha pagado tanto

por quebra de contrato com o teatro.

Mas logo Fellini ficou doente e "A Viagem de Mastorna"

n�o se realizou.

Prova de Mastroianni, "Mastorna primeira".

Abaixe um pouco a cabe�a, Marcello. Calados a� atr�s! Abaixe a cabe�a.

Pare! Coloquem-lhe um pouco de col�rio.

Por que sempre est� com os olhos vermelhos, Marcello? O que tem feito?

Outra coisa, firme bem o bigode, ele est� sempre caindo.

Marcello, n�o pode tocar de qualquer maneira,

- Sim, eu o entendo! - O que tem? Est� nervoso? - Quer um caf�, Marcello?

- Agora, n�o! - N�o estou nervoso, � que n�o o entendo.

Primeiro diz uma coisa e logo depois, outra! J� acabou?

Tem que tocar como com crescente terror, com se de improviso.

Tem que buscar essas luz no alto. Est� vendo?

Sil�ncio, a� atr�s!

N�o, n�o gosto do chap�u. Tire-o. Quem sabe logo o colocaremos.

De vez em quando, olhe para a c�mara... O mais importante �

tratar de exprimir um sentido crescente de desconcerto,

porque esse instrumento que representa a realiza��o mais genial...

Foram uma provas com muita tens�o. Marcello sentia meu desconforto,

e estava desorientado pela minha inseguran�a.

Provamos com bigode, sem bigode, com peruca, sem peruca,

com lentes de contato... mas Mastorna n�o aparecia.

Continuava ocultando-se, era imposs�vel indetect�vel.

- Vamos comer? - Sim.

Quando fizemos "A Doce Vida", o personagem era o ideal

- e tamb�m em "8 e 1/2". - Sim. - Ent�o...

por que esse Mastorna � t�o complicado? Tem duas personalidades?

Federico, o pior

� que eu n�o sinto que tenho sua confian�a.

� como se voc� tivesse medo.

Se se convencer que eu sou Mastorna

n�o teria mais d�vidas. Eu me transformo em Mastorna!

Pediram a Fellini um pref�cio para um livro sobre minha biografia,

e ele disse: "Marcello e eu nos vemos muito pouco,

para al�m de quando filmamos um filme.

Talvez isso tamb�m foi um das raz�es de nossa amizade,

uma amizade que n�o amarra, que n�o obriga,

que n�o condiciona, que n�o estabelece regras e limita��es.

Uma boa amizade baseada em um total e m�tua desconfian�a.

Quando me chamou para "A Doce Vida"

parece que est�vamos na na floresta de pinheiros de Fregene,

onde Federico tinha uma villa.

O encontro foi na praia de Fregene.

A poucos passos sob um sombreiro estava Ennio Flaiano que tamb�m, ent�o

colaborava com ele nos roteiros.

Naturalmente, eu estava muito nervoso.

Fellini, de repente, com seu ar encantador,

com sua voz que parecia uma flauta m�gica,

disse: "Querido Marcellino..." esses diminutivos

serviam para manter-me tranquilo

"Querido Marcellino, estou muito contente em v�-lo. Tenho um filme projetado.

O produtor � Dino de Laurentis".

"Ele quer Paul Newman no papel principal."

"Paul New � um grande ator, uma estrela

� demasiado importante e para mim serve a cara de qualquer um."

Eu n�o me senti em absoluto humilhado.

Eu disse-lhe: "Estou pronto, eu tenho uma cara qualquer!"

Ele disse: "O personagem � uma esp�cie de beija-flor."

"N�o deve ter a personalidade de Paul Newman."

Eu lhe disse: "Muito bem!"

A�, para me dar um brilho no ego, um pouco de dignidade, eu disse-lhe:

"Tenho curiosidade de dar uma olhada no roteiro."

Queria dar uma de profissional! Ele disse: "Claro!"

E chamou a Flaiano: "Ennio, pode trazer o roteiro a Marcellino?"

Ennio Flaiano, com aquela pinta de astuto que tinha

trouxe-me uma fich�rio como esse. Abri-o e n�o havia nada.

S� havia uma das habituais caricaturas que Fellini sempre fazia.

Representava um homem que nadava no meio do mar

com um longo sexo at� o fundo,

ao redor do qual, como nos filmes de Esther Williams,

rodopiava um bal� de sereias.

Eu fiquei rubro, amarelo, verde, de todas as cores.

Senti que haviam zoado comigo!

Eu entendi que eu tinha pretendido demasiado pedindo o roteiro

e disse-lhe: "Parece-me muito interessante. Onde tenho que assinar?

Desde ent�o, nunca mais pedi um roteiro ao Fellini.

Fiz 5 filmes com ele! Qui�� os mais importantes.

Foi muito bom. At� hoje, sonho com isso.

Para que serve o roteiro?

Se voc� me descreve bem como � o personagem,

� importante que eu saiba o que acontecer� amanh� pela manh�?

� melhor como fazia com ele!

Quando chegava, via o cen�rio, os personagens, as situa��es

e simplesmente dizia-lhe: "Federico, o que eu tenho que falar?"

E ele respondia: "Diga isso, mas depois veremos, na fase de dublagem!"

Eu era ator, mas sobretudo espectador do que se passava ao meu redor.

Creio que n�o h� melhor maneira para se fazer este trabalho.

N�o pude fazer com todos, mas com ele sim, podia-se!

Boa noite, Maddalena. Como vai? Sozinha?

- Quer dan�ar? - N�o.

- Tomamos uma vodca? - N�o! Nada vai bem hoje.

- Vou-me embora. - Acompanha-a? - Pode ser.

Boa noite!

- Seus amigos j� v�o atacar. - Marcello, aonde voc� vai t�o elegante?

- Senhorita Maddalena - Hoje n�o, por favor.

Ela voltou! � mais fotog�nica que uma artista!

Sempre a mesma coisa. Eles n�o cansam?

Chega, Paparazzo. Devia estar acostumada � personagem do notici�rio!

Marcello, aonde vai lev�-la?

H� dois anos, tive um sonho estranho.

Chegava � Cinecitt�, onde n�o ia h� muito tempo.

Apenas cruzava o umbral

e n�o via ningu�m, n�o havia pessoas, nem carros.

O grande espa�o da entrada estava deserto.

Encaminhei-me at� a rua que levava ao bar.

Em certo momento, encontrei 4 ou 5 jovens trabalhadores

que estavam carregando peda�os do cen�rio para um filme mitol�gico sobre H�rcules.

Mas nenhum me saudou.

Que estranho!

Continuei e � altura do bar encontrei outro oper�rio jovem.

Nem ele me saudou.

Perguntei-lhe se o bar estava aberto e ele me respondeu que sim.

Quando estava entrando no bar, vi que tinha o teto muito baixo.

Para poder entrar, teria que faz�-lo de gatinhas.

Naquele momento eu acordei.

Foi um pesadelo.

Eu me disse: "Esse sonho � muito significativo.

Ou na Cinecitt� j� n�o h� espa�o para mim.

ou, quem sabe o cinema se converteu em uma coisa para homens pequenos,

e para filmes pequenos."

� baqueta do Mandrake, a minha ordem � imediata.

faz voltar os bons tempos do passado.

Marcello, venha!

Sim, Silvia, vou!

Vou.

Sim, voc� est� certa, eu estou errado!

N�s todos estamos errados!

Sylvia!

Sylvia, quem � voc�?

Ou�a...

Sylvia...

Como voc� � linda. Fico at� sem jeito, como um adolescente.

N�o acredita?

N�o acredita que transmite um respeito verdadeiro, profundo?

-Por quem est� apaixonada? Com quem est�? De quem voc� gosta? - De voc�.

Voc� chegou bem a tempo.

Por que sorri assim? N�o se sabe se est� julgando ou absolvendo...

se est� me gozando...

Estou escutando. Voc� ia me falar sobre o filme. Eu n�o sei de nada.

Voc� seria capaz de recome�ar a sua vida do in�cio?

Escolher s� uma coisa e ser a raz�o de sua vida?

Uma coisa que se torne tudo, pois a sua f� a torna assim?

Voc� seria capaz?

Por exemplo, se eu dissesse: "Cl�udia..."

Para que lado? N�o conhe�o o caminho.

E voc�, seria capaz?

Devemos estar perto da nascente, ou�a? Vire aqui.

N�o, este tipo n�o � capaz.

Ele quer ficar com tudo, n�o sabe renunciar a nada.

Muda todo dia de caminho por medo de escolher o errado. E est� morrendo.

- E o filme termina assim? - N�o, come�a assim.

Depois ele encontra a garota da fonte, uma das que servem �gua curativa.

� lind�ssima!

Jovem e antiga.

Menina e j� mulher. Aut�ntica, solar.

N�o resta d�vida que ela seja sua salva��o.

Estar� de branco, com cabelos longos, assim como os seus.

Apague os far�is.

E depois?

A televis�o � um invento colossal! Mostrou-nos um homem na lua!

Mas fazemos uso incorreto!

Se continuarmos com os pequenos jogos: "Ol�? Quem � voc�? De onde liga?"

"Quem tinha uma m�o na frente e outra atr�s? - Napole�o - Voc� ganhou "!

E um espet�culo que me deixa louco: "Jogos Sem Fronteiras."

Deve custar muito dinheiro e fazem muitas coisas est�pidas.

� poss�vel que todo o mundo haja se imbecilizado

detr�s dessa caixa que poderia oferecer outras coisas melhores?

De vez em quando, h� algo bom: Um filme cl�ssico ou algum document�rio.

H� muitos desfiles: Mulheres rebolando, uma vez ou outra.

Falam com se fossem Greta Garbo ou Madame Curie,

que dariam voltas no t�mulo se as vissem.

N�o consigo suportar. Ser� a idade?

Ou essa televis�o � realmente uma cretinice?

Eu s� vejo document�rios sobre animais.

De p�ssaros e peixes, eu n�o gosto. Falo de mam�feros.

Ou document�rios sobre a guerra.

N�o pensem que sou beligerante, ou amante de atos heroicos, n�o!

� s� porque esses document�rios lembram-me dos anos de guerra.

Naquele tempo, consegui escapar a Veneza

ao Instituto Geogr�fico Militar, onde trabalhava,

que quase fazia fronteira com a �ustria.

Naquelas montanhas, onde havia ido trabalhar,

todos tinham um su�ter, com cervos correndo,

coisa da moda, naqueles anos.

Eu tinha um pouco de dinheiro que havia guardado

que era o que nos pagava o Instituto Geogr�fico Militar.

Ent�o, tive uma ideia genial!

Desfiz todo o su�ter que minha m�e havia feito,

que se chamava "l� Marchigiana."

Quando a colocava, picava e depois de dois dias acabava a coceira,

era de cabra n�o sei com que l� ela fez.

Eu o desmanchei completamente.

Fiquei sabendo que em Bassano del Grappa havia fiandeiras

onde, quem sabe, me fariam um su�ter com cervos.

Era uma loucura. Apenas com 19 anos pode se ter ideias assim,

apesar dos riscos que havia ent�o: alem�es e fascistas!

Um dia, me pus a caminho com meus ovos

e � noite, em Mestre

peguei um trem que ia a Bassano del Grappa.

Como havia riscos de ataque a�reos,

os trens viajavam �s escuras, com todas as luzes apagadas.

Esse trem estava cheio de gente, apoiando-se uns aos outros

e n�o se podia ver nada!

Em certo momento, senti

uma presen�a feminina, uma mulher que falava com uns amigos

talvez fossem ao campo em busca de algo para se comer.

Em certo momento, apesar do espa�o reduzido, eu, que sempre fumei,

acendi um cigarro.

Dessa maneira, iluminei meu rosto,

mas cego pela luz n�o vi quem estava na minha frente.

Essa mulher aproximou-se, encostamo-nos e demo-nos um beijo.

Foi algo muito emotivo, misterioso!

Nunca soube quem era.

se era jovem ou velha.

Nunca soube porque na primeira esta��o, sempre tudo �s escuras,

esse grupo de pessoas desceu

e jamais soube a quem beijei. Que era uma mulher, estou seguro!

N�o sei se era bonita ou feia!

Esse beijo foi muito belo porque

ele deu � minha viagem absurda um sentido quase rom�ntico.

Passaram-se muitos anos,

mas esse momento, ainda hoje em dia

� uma das recorda��es mais intensas de minha vida.

A mem�ria � rara como o amor.

Eu nunca fui um grande leitor, mas sei que h� alguns autores,

ou algumas passagens de suas obras,

que me impressionaram e que ficaram na mem�ria.

Penso na espl�ndida met�fora na qual Stendhal imagina que o amor

� uma esp�cie de cristaliza��o.

Sim, de cristaliza��o!

Ele disse: "Pegue um raminho seco

e coloque-o no fundo de uma mina.

Quando voltar a recolh�-lo,

encontr�-lo-� recoberto de m�gicos cristais."

E que outra coisa � o amor?

Estou aqui, eu o esperava.

- Adelaide! - Como se sente? - Bem.

Orestes, preparei-lhe seu caf�-da-manh� favorito.

- Olha. - P�o tostado, ricota, caf� com leite!

� o caf� da manh� mais sadio, n�o me cansarei nunca de aconselh�-la.

- Assim... - Adelaide. - Sim?

Estou bem aqui, com voc�.

- Como est� bonito esta manh�! - Ah, sim? - Espera.

Olhe, consegui!

Alisei todo seu cabelo. Gostou?

Assim parece mais moderno, mais jovem, n�o?

Tamb�m coloquei laqu�!

- Parece um capacete. - N�o!

N�o sei se me resistir�o.

- S�o rebeldes. - Aguentar�o. - Posso? - Sim.

Sou feliz.

- O que voc� fez? - Uma martelada.

- Era o �nico bom! - Sim.

- E o dente! O que aconteceu? - Nada... Colocarei outro.

Quanto deve ter sofrido!

- E eu pensava: "Talvez ama ele!" - Est� louco?

"E se n�o quiser mais me ver!"

Cale-se, Oreste, n�o � simp�tico.

Sou sua, tem que me acreditar!

Acredito, mas...

Vejo uma sombra em seu rosto.

O passado est� enterrado.

Ent�o conven�a-se do presente.

"Amo te, amo te, s� a te!"

O primeiro filme com Ettore Scola foi "Ci�me � Italiana".

Ganhei o pr�mio de melhor ator no Festival de Cannes.

Espero fazer logo outro filme com Ettore.

Gosto dele, tem humor, � irresist�vel, inteligente, simp�tico.

Com ele � poss�vel o trabalho colaborativo.

"Um Dia Muito Especial" � um exemplo de cinema extraordin�rio,

natural, puro, uma obra mestra!

Havia uma cena em que meu personagem homossexual fazia uma liga��o a seu amante.

E eu lhe disse: Ettore... creio que o pudor

sugere-me fazer a cena de costas,

para que essas coisas que digo n�o pare�am violentas,

n�o cheguem de maneira desagrad�vel ao espectador."

Ettore concordou e de fato foi um dos melhores momentos.

Como quando me perguntou se me lembrava de alguma can��o de minha adolesc�ncia.

Sim, eu me lembrava de uma que ouvia ami�de

na casa de minha tia, que tinha 3 filhas, quando dan�avam aos domingos.

Dizia: "Belas mo�as apaixonadas comprem as laranjas"

T�m um m�gico sabor, perfume de amor".

Perfume de amor.

Soltou um fio em minha meia.

Tentemos. � f�cil. Venha. Com o esquerdo.

Belas mo�as apaixonadas comprem as laranjas

- t�m um m�gico sabor... - Voc� normalmente vai dan�ar?

- Nunca! - Ent�o, como aprendeu a rumba? - Assim!

Aos domingos faziam festas de baile, em minha casa, ou na casa ao lado,

sempre depois que papai tivesse sa�do, se n�o, n�o se podia fazer.

E sempre est�vamos preparados para sair antes que ele chegasse.

Agora, tinha a coisa de arregimentar os discos americanos, Armstrong, Duke Ellington.

Em Roma, na Via Cavour, havia uma loja que alugava o gramofone e os discos.

Faz�amos esses bailes em casa, uma coisa ing�nua,

em que diz�amos: "Voc� traz sua garota e diga-lhe que traga uma amiga."

Em minha casa, que era um dormit�rio, uma cozinha e uma salinha de estar,

a desculpa para darmos um beijinho era: "Vamos beber alguma coisa na cozinha."

Beb�amos �gua, n�o havia mais nada. L� tent�vamos dar um beijinho.

A mem�ria tem que ser alimentada. Com qualquer coisa,

Com uma can��o, um acontecimento, com uma comida,

talvez porque esta comida nos una a um momento particular

a um encontro, a uma festa.

Os odores!

Uma paisagem!

Encanta-me a fic��o cient�fica. Inclusive, em um filme como "Blade Runner",

o replicante sofre de uma maneira comovente

porque, como replicante, n�o tem um passado, n�o tem mem�ria.

E isso d� a medida de quanto isso � importante.

Li em algum lugar, ou vi em algum filme

uma can��o dos �ndios Navajo. Um di�logo, que diz:

"Tudo o que viu, recorde-se,

porque tudo do que se esquece volta a voar no vento."

Recordo-me de um epis�dio simp�tico!

Ponti decidiu fazer o filme Um Lugar Para os Amantes, com Faye Dunaway.

O roteiro pareceu-me uma idiotice.

N�o entendi por que tinha que fazer um filme t�o banal.

Eu disse a Ponti: "Eu n�o quero faz�-lo, � muito est�pido."

"Mas como, temos uma atriz internacional, por que fazer esse filme?

Respondeu-me: "V� dizer a De Sica."

De Sica estava na casa de Tonino Guerra,

que era um dos autores desse roteiro.

Durante o caminho, eu me repetia:

"Senhor, esse filme � uma idiotice."

"Senhor, esse filme � uma idiotice."

At� no elevador: "Senhor, esse filme � uma idiotice."

Bato. Abre Tonino Guerra. "Eh, Marcello!"

"- O sr. De Sica est�? - Sim, est� no sal�o."

"Senhor, esse filme � uma idiotice."

- Senhor, bom dia, esse filme � uma estupidez." - E ele:

"E quem pagar� nossas d�vidas?"

Era verdade, eu n�o havia pensado nisso.

Eu sempre gastava tudo. De Sica tamb�m. Por jogar no cassino

ele gastava tudo, dizia: "Quem pagar� nossas d�vidas?"

Assinamos imediatamente, mas infelizmente, n�o foi um bom filme.

Sete dias. Somente sete dias juntos! � uma pena, poderiam ser dez!

- Giulia, escute... - N�o suporto gente que me olha com olhos bons.

Fui feliz com voc� porque seus olhos n�o eram bons.

Eram justos!

Agora s�o como os outros!

- Tenho muitas coisas para lhe dizer. - N�o quero ouvi-las, Val�rio!

N�o quero ter uma esp�cie de enfermeiro

- que fique comigo por piedade. - Que piedade?

- Temos for�a suficiente para tudo isso! - N�o!

Que piedade! Estou lhe dizendo, tem que me escutar! Eu a amo!

De Sica era um homem fant�stico!

Que humor! Era grande! Parecia um Papa!

Quanto me diverti com ele. Que homem t�o espirituoso.

E que mestre!

N�o me mexo mais daqui! Vou ficar em sua cama por toda a eternidade.

Deito ra�zes, n�o me mexo!

N�o grite!

- Ponha um disco. - Sim. - Tire a roupa.

Eu a olho, eu a admiro daqui.

N�o podemos, n�o podemos!

Nunca tive coragem de tratar De Sica de voc�.

Eu o via como um tio fant�stico, desses que esperamos nas festas.

Conheci-o quando era um garoto, assim que...

Lembro-me de que... Quem sabe foi ele quem me ensinou

a amar N�poles atrav�s de seus filmes.

N�o pense em mim, deixemos as coisas como est�o. Cada um pegue seu caminho.

Filomena, essa noite irei ver seus filhos e lhes direi a verdade.

"Eu sou rico, um de voc�s � meu filho."

"- Descubram voc�s quem � o herdeiro." - Dumi!

Dumi! Dumi!

- Deixe-os em paz! N�o os jogue uns contra os outros! - Solte-me!

- Fique longe deles! - Deixe-me!

Se disser aos meus filhos o que lhe disse, eu o mato!

Farei de verdade, n�o como voc� que me disse durante 20 anos!

- Cale a boca! - Os tr�s devem ser iguais!

- Filomena, pare! - Eu o mato!

- Cale-se! - Eu o mato!

Eu o amei, Dumi.

E agora mais do que antes.

Eduardo De Filippo prop�s a mim e a Sophia Loren

fazer na Broadway "Filumena Marturano". Uma ocasi�o extraordin�ria.

Sophia fala perfeitamente ingl�s e eu me defendo.

Haja vista o homem ser sempre menos inteligente que a mulher,

era bom para mim que estivesse instalado em N�poles.

Depois da guerra, essa dupla havia se transferido para Nova Iorque

em vez de ficar em N�poles.

Haviam nascido dois filhos, os conflitos, as desaven�as.

Eduardo pediu-me que eu dissesse a Sofia. Eu lhe disse: "Claro! Direi!"

Porque naquele momento, Sophia vivia em Paris. Assim como eu.

Ent�o chamei-a e disse: "Sofia, repare, temos uma oportunidade incr�vel!"

"Eduardo quer fazer Filumena Marturano, na Broadway, com voc� e comigo."

"N�s j� fizemos o filme Matrim�nio � Italiana, n�o tem problema!"

"Eduardo quer sua presen�a!"

"� uma aventura que nos rejuvenescer�

mude, fa�amos teatro!"

E ela me disse: "Eu sou jovem!"

"N�o preciso fazer teatro."

Tinha medo do teatro, como muitas outras atrizes.

Inclusive � Catherine Deneuve propus que fizesse teatro.

Quem nasce no cinema teme o teatro.

Paris � uma de minhas cidades prediletas.

Junto a Roma, naturalmente! Paris e Roma!

Para mim, s�o as cidades mais belas do mundo.

Voc�s dir�o: "Sim, mas Nova Iorque, na �ndia... Bombaim."

"Buenos Aires..." Sim, s�o cidades formosas,

mas Paris e Roma s�o �nicas.

E n�o creio no estere�tipo de xen�filo, porque eu perten�o � Europa.

Para mim, Paris � uma prov�ncia da Europa, como o � Roma.

Que maravilha!

Em Paris h� de tudo! Tudo que um homem com interesse procure

pode encontrar. Eu, particularmente, n�o busco muito.

Mas a ideia de saber que por perto posso encontrar tudo que quero

a n�vel cultural at� a prazeres ef�meros,

que posso ver, isto me basta.

Roma, naturalmente, � outra coisa.

A� est�o minhas ra�zes, � a beleza dessa cidade,

onde muitas coisas n�o funcionam, mas, em troca, temos o sol,

temos uma bela natureza,

muitas coisas bonitas.

Que est�tua � essa? Aonde a levam?

O qu�?

Aonde a levam?

Lavam-na ao Papa.

Quer o n�mero do telefone. N�o!

Alberto, a quest�o que devemos fazer � a seguinte:

Si Ambleto Di Meo fosse igual a mim, ela tinha me deixado?

Minha resposta � n�o. Qual sua opini�o pol�tica?

Orestes, est� se sentindo bem?

N�o, n�o me sinto bem, Bertochi. Por que, estou falando bobagens?

- N�o, mas escuta o que diz Pietro. - Sim.

Depois voltaremos a falar nisso.

Parece mesmo perdido!

Roma ser� sempre, junto a Paris,

onde minha atividade profissional se desenvolveu.

Hoje faz frio.

O que dizia? Ah, sim! Sim, agrade�o-lhe a dupla oferta.

A sua beleza e sua bela casa de campo.

Amei uma e outra.

Creia-me, entre n�s dois, s� eu terei arrependimentos.

N�o foi este velho que lhe cortou a respira��o...

Mas o seu nome,

sua reputa��o, seu passado.

Todas as coisas que hoje n�o mais existem.

Ainda assim, querida senhora, agrade�o novamente.

Estou feliz por ter encontrado o grande Restif.

Conservarei uma preciosa recorda��o do Cavalheiro de Seingalt.

Comandante, seu cavalo morreu, o cora��o n�o resistiu.

Se quiser, posso mandar selar outro.

Eh! Voc� a�!

Castiguei a bunda sobre a sela por 40 l�guas, 6 l�guas por hora.

Tem um lugar vago, seguirei a viagem na carruagem com voc�.

J� que pede com tanta eleg�ncia.

A� est�o, os companheiros de viagem que a nova sabedoria me obriga preferir.

Obrigado pela sua colabora��o, meu jovem amigo, voc� foi �timo.

- Irei me lembrar de voc�. - E eu de voc�, sr. Casanova.

Que pena! Se tiv�ssemos nos encontrado mais jovens, quem sabe!

Claro! Por que n�o, depois de tudo! Nunca excluo nada por princ�pio.

Firmes!

Lixo! Voc�s n�o s�o soldados, s�o lixo!

� lindo! Que pena que haja tantos �ndios.

Sim.

George Armostrong, a que horas ser� a batalha?

N�o sei, querida, tenho que esperar.

Viu a presa? Tenho que esperar o general Gibbon.

� um outro golpe do general Terry.

Creio que ele est� com inveja de sua gl�ria.

De minha gl�ria e de minha presid�ncia.

Sim.

� verdade que s�o feras selvagens?

- Marilene, como se sente? - Bem. Mas envergonhada.

O que vai pensar de mim, depois dessa noite?

Ah, George Armstrong! Juntos para sempre!

Ao ataque!

H� mais de 30 anos, fiz o primeiro filme com Marco Ferreri

"O Homem dos Cinco Bal�es", em Roma.

E depois, em Paris, fizemos "N�o Toque na Mulher Branca"

"Liza" e o famoso "A Comilan�a".

Filmes que marcaram a hist�ria do cinema.

Filmes muito importantes.

Com Marco, mantenho uma rela��o que ultrapassa a profissional.

Marco tem uma grande qualidade: fala pouco.

Minha rela��o com ele � de grandes sil�ncios,

muito relaxantes, mas que se entendem bem.

Gosto muito de sua vis�o do mundo, das coisas, das pessoas,

sempre olhando mais � frente

da dist�ncia que existe do pr�prio nariz.

� original, gosto muito dele,

gosto, inclusive, como amigo, � afetuoso...

� um diretor que deixa espa�o para os atores. N�o fica em cima deles.

Se entende que o ator tem uma boa ideia,

ele o deixa concretiz�-la.

Em "A Comilan�a" criamos uma rela��o maravilhosa.

Michel Piccoli, Philippe Noiret, Ugo Tognazzi, e eu, nenhum de n�s

t�nhamos o pecado do protagonismo. Demo-nos muito bem,

divertimo-nos durante dois meses e tamb�m comemos muito!

Francamente, at� isso se tornou uma brincadeira.

Isso para dizer como Marco conseguiu coagular, juntar um grupo de pessoas

e a gui�-las

da melhor maneira, ideal para trabalhar.

Perd�o!

Parece a "Piet�" de Michelangelo.

O fot�grafo fez de prop�sito. � uma blasf�mia!

Abaixe a m�o.

Marcello, est� pronto para o desafio? Uma d�zia, hein?

- 15 segundos! - Perdi.

Catherine tinha lindos peitos.

Toda a express�o de uma �poca!

S�o dois man�acos sexuais.

Est�o ficando excitados com o filme!

N�o, � uma cole��o que fiz quando era um menino,

por raz�es sentimentais e art�sticas.

� a vida!

Vejam. Esta � a minha.

- Posso beijar a ostra? - Sim, a pequena ostra!

Tome.

Que luz art�stica!

Paris tamb�m significou o retorno ao teatro depois de muitos anos.

Sim, h� uns 12 anos que fiz teatro em franc�s.

O meu mau franc�s justificava-se porque

era a hist�ria de um emigrante que havia feito carreira em Paris.

A obra chamava-se "Tchin-Tchin, de Fran�ois Billetdoux, um autor franc�s.

O diretor foi Peter Brook.

Pam!

Sim?

Pamela.

Ces�rio...

Senhorita Paffy!

Meu amigo...

Bebamos tranquilamente.

- Beije-me a m�o. - Voc� n�o treme mais.

N�o � indispens�vel ser corajosa, n�o � verdade,

basta come�ar e n�o pensar no fim.

- Bem, seu segundo copo. - O segundo? - Sim.

Permita-me dizer lhe que eu a amo.

- Voc� me ama? - N�o, mas deixe-me diz�-lo,

acreditar, esquecer...

Sim, diga. Diga!

Eu a amo.

Voc� � monstruosamente bela

e vulgar... como a multid�o na embriaguez da vit�ria.

Esse menino ir� se tornar um ladr�o.

- Um ladr�ozinho sujo! - Basta!

- Basta! - Agora se ouvem os gritos!

Isto me acalma, senhora, alguns golpes.

- Bata, bata! - Eu bato! Eu bato!

- Mas o que est� fazendo? - N�o discuto mais!

N�o � assunto seu!

Melhor fazer amor comigo!

N�o, fa�o amor com uma bola de socar!

- Eu n�o sou uma bola de socar! - Largue essa garrafa!

Foi um grande sucesso.

� que Paris...

podia ser uma coisa banal, como o que disse Josephine Baker: "tenho dois amores, meu pa�s e Paris."

Mas num certo sentido � verdade!

Tenho uma filha em Paris. Tenho uma casa com minha mulher. � importante.

Ore, h� dias pensava no nosso amor.

Como nasceu, apesar de contrariado.

Eu sei! Foi fulminante.

- Foi um raio, um rel�mpago. - Sim.

Nem mais nem menos que um trov�o, no c�u sereno!

- Poder� acabar? - N�o! Nunca, adorada!

Se algum dia se cansar de mim...

N�o, voc� de mim!

Eu de voc�, n�o!

De que vale discutir?

Eu lhe digo que nunca me cansarei!

Adorada! - Quanto deve ter sofrido!

- Que dias passei sem voc�! - Querido!

Desempregado e ainda por cima pouco amado.

- Oreste! - Presente!

Houve entre n�s dois um quiproqu�

que nos perturbou, mas que agora j� passou.

- O amor triunfou! - "What a lovely day!"

- Se me deixar, amor, um dia... - N�o diga isso!

Est� bem, disse por dizer!

- Sou �nico! - Homem de meu destino!

Em Paris, foi motivo de grande satisfa��o, quando um amigo arquiteto, parisiense,

sabendo de minha mania pela arquitetura,

convidou-me uma manh� para uma reuni�o nos arredores de Paris,

num centro cultural, a uma reuni�o internacional de arquitetos e engenheiros

todos que haviam projetado o famoso bairro de "La Defense",

um bairro futurista tipo Nova Iorque, cheio de arranha-c�us.

Ao final dessa reuni�o, que come�ou �s 9h e terminou �s 13h30,

o diretor desse debate disse: "temos aqui Marcello Mastroianni, suba ao palco."

E eu, muito envergonhado, subo para fazer o qu�, dizer o qu�?

Estamos diante dos especialistas, que posso dizer?

O tema era "La Dalle, que, em franc�s, significa "uma superf�cie".

Pode ser uma superf�cie de cimento, armado ou mesmo um azulejo

qualquer coisa que n�o corresponda ao n�vel do terreno.

Essas "dalles" s�o usadas para autoestradas e grandes edif�cios,

que n�o acompanhando o n�vel do terreno, se faz uma base

sobre a qual se pode construir.

E eu disse uma estupidez: "N�o sei o que dizer."

"Como estamos aqui desde as 9 horas e j� s�o 13h30,

"la dalle" lembra-me uma torrada! Duas "dalles" com presunto dentro.

Recebi aplausos colossais, porque estavam todos com fome

e queriam ir comer.

E eu continuei: "Tamb�m uma esta��o estratosf�rica,

at� Veneza foi constru�da sobre uma dalle.

Dei uns exemplos mais ou menos banais,

mas que eles gostaram muito. A �nica coisa que lamentei foi

que esse conceito moderno de construir

� ruim para as crian�as, pois lhes tirou a terra onde brincar.

J� n�o h� espa�o para brincar, para jogar bola.

J� n�o podem acompanhar o caminho das formigas

que se metem num buraco misterioso, em fila indiana.

Recebi um aplauso gigantesco!

Foi publicado um livro e me colocaram na primeira p�gina,

como se eu tivesse dito coisas prodigiosas!

O engenheiro-chefe agradeceu-me e disse-me: "No pr�ximo projeto

deixarei um grande espa�o de terra para as crian�as." Agradeci-o.

Est�o vendo aquela ponte de ferro, com essa bel�ssima arcada audaz?

Chama-se "Dona Maria" e foi desenhada pelo engenheiro Eiffel,

que todos conhecem pela famosa Torre Eiffel, de Paris.

Quando vejo espet�culos como esse

arrependo-me de n�o ter sido arquiteto.

Quem sabe se n�o teria sido um bom arquiteto.

� um trabalho onde se mesclam a fantasia e a arte.

Os arquitetos e os engenheiros deixam coisas s�lidas,

constroem, realizam coisas que ficam!

E n�s, em nosso trabalho? O que ficam? S� sombras chinesas.

Quando vi a primeira vez a famosa Torre Eiffel,

fiz uma reflex�o elementar. Eu, que sempre pensei em casas,

como n�o pude ser arquiteto, fi-las com o dinheiro do cinema.

Gostaria de ter feito com ele a minha casa ideal.

Uma torre de ferro dentro da qual houvesse um elevador,

em cima, ancorado, um dirig�vel. A casa ideal!

Adormece-se ao norte a acorda ao sul, porque o dirig�vel se move com o vento.

Infelizmente o engenheiro Eiffel n�o vive mais,

e minha casa de sonho ficou apenas em um sonho.

Quando eu disse isso o pintor Rauschenberg,

ele pintou um quadro usando peda�os jornal, de acordo com seu estilo,

em que havia uma torre que chegava ao c�u

onde estava ancorado um dirig�vel. A cabina era o apartamento.

Quando se � pequeno, os pa�ses que n�o conhecemos e com os que fantasiamos

sempre nos parecem mais belos e misteriosos,

inclusive mais reais que a cidade em que vivemos.

Talvez o fasc�nio de viajar

esteja para sempre ligado a essa esp�cie de perspectiva fant�stica

que faz dos lugares mais longes mais misteriosos

e mais reais do que aqueles que temos diante de nossos olhos.

Fiz filmes no Congo, Argentina, Brasil,

Arg�lia, Marrocos, na Hungria.

Budapeste � uma cidade maravilhosa. O filme n�o era bom, mas n�o importa.

Os filmes ruins ningu�m vai ver, mas Budapest � muito bela!

Nunca me havia ocorrido passar dois meses ali.

Em Londres, em Berlim,

na Fran�a, naturalmente, muitos.

Na R�ssia tamb�m fiz dois filmes.

Que frio passamos!

Mas sempre vivi essas aventuras como

se fossem hist�rias ou f�bulas nas quais eu era o protagonista, um privilegiado.

Por desgra�a, tenho que admitir que n�o tenho grandes interesses

fora de meu trabalho. � o meu limite.

N�o tenho uma grande riqueza espiritual e cultural.

N�o vou nunca nem ao cinema, nem ao teatro.

No teatro, s� o ator � quem se diverte, porque satisfaz seus histrionismo.

Mas aquele que est� sentado durante 2 horas, n�o morre de sono?

Dos museus, nem falar! N�o gosto, aborrecem-me.

Meu grande museu � precisamente l�, onde o cinema me leva!

Por qu�?

Por qu�?

Por qu�?

Voc� n�o fala muito, fala?

H� anos, isso estava em moda.

Estou cheio de nada,

e nada abunda para mim.

Oh, Deus meu! Estou cheio de mim mesmo!

E agora soltamos uma bela longa e grande risada.

Vamos!

� bom! Landolfo, Ordulfo, Bertoldo, Arialdo, Enrique IV!

At� voc� est� assustado, pois lhe pare�o um louco novamente.

- Essa � a prova... - Que prova? - De seu espanto!

Agora acredita que eu esteja louco de novo!

Sabe o que significa encontrar-se de frente com um louco?

Significa encontrar-se de frente com um que discorda dos fundamentos

de tudo que foi constru�do ao redor de voc�,

a l�gica de todas suas constru��es. O que quer?

Os loucos constroem sem l�gica. S�o afortunados!

Ou qui��, t�m sua pr�pria l�gica, que voa como uma pluma.

S�o vol�veis.

Hoje assim, amanh� quem sabe como!

Voc�s se mant�m firmes? Eles se deixam levar. Vol�veis!

Para voc�s, "n�o pode ser". Para eles, "tudo pode ser".

Mas dizem que n�o � verdade! Por qu�? Porque n�o lhes parece verdade e a outros cem mil.

Para mim, desde crian�a, parecia-me verdadeira a lua dentro do po�o.

Quantas coisas me pareciam verdadeiras!

Tudo aquilo que os outros me contavam, acreditava

e era feliz!

Porque ai... ai se voc� n�o se mant�m forte

naquilo que hoje lhe parece verdade, e que lhe pareceria verdade amanh�

mesmo sendo oposto daquilo que me parecia verdade ontem.

E a�, se vai at� o fundo, como eu,

para observar aquela horrenda coisa que faz realmente enlouquecer

que se voc� est� perto de algu�m e olha em seus olhos

como eu olhei um dia certos olhos

pode se sentir como um mendigo diante de uma porta por onde

n�o posso mais entrar.

Quem entra pela porta n�o ser� voc�, com seu mundo interior,

como o v� e o toca,

Ser� algu�m que voc� n�o conhece.

- J� anoiteceu. - Majestade, acendo o lampi�o?

Que lampi�o? N�o acenda a luz.

- O que quer? - Sou americana, sinto-me sozinha.

Gostaria de falar com algu�m, mas se incomodo...

- Sim, acertou, incomoda-me! - Chamo-me Caroline Meredith.

- E da�? - Est� ocupado essa noite?

Essa noite provavelmente estarei morto.

Aten��o Sou uma v�tima.

Mas voc� � muito corajoso para se expor desse modo!

N�o, � que n�o tenho dinheiro para organizar uma defesa eficiente.

Como se trata de salvar sua vida...

Boa sorte!

O que est� acontecendo? Eu vou l� ver!

Quieto, velho de merda!

- E ent�o? - N�o disse nada. Melhor ir embora.

Escuta bem: voc� nunca viu a gente.

Fique quieto, porque se voltarmos ser� para pegar voc�.

Vamos.

Monteiro Rossi! J� se foram!

Se j� se foram, terminou.

J� se...

Monteiro!

Que tonta! Achou que a deixaria sozinha?

Vamos, o jornal logo vai sair, n�o temos um minuto a perder.

Jovem jornalista � assassinado brutalmente!

Sostienne Pereira que no meio daquela multid�o

sentiu que a idade j� n�o lhe pesava tanto

era como se voltasse a ser jovem, �gil, esbelto com grande vontade de viver.

Ent�o lembrou-se das praias da Granja e de uma delicada mo�a,

que lhe proporcionou os melhores anos de sua vida.

Ao lembrar tudo isso, come�ou a sonhar, um sonho maravilhoso com os olhos abertos.

Mas desse sonho, n�o quer falar Pereira.

porque j� contou tudo pessoalmente a quem lhes contou esta hist�ria.

�s vezes me dizem que fa�o um filme atr�s do outro,

que n�o paro nunca, "mas quando � que vive"

Referem-se a vida normal, a de todos.

�s vezes, eu tamb�m me fa�o essa pergunta.

Ainda que a coisa possa ser um pouco ret�rica,

mas o ator sempre procura entender qual animal �...

passando de um personagem a outro, vivendo hist�rias inventadas...

mas quem � realmente?

Fazendo esse trabalho, tem-se quase a impress�o, sendo honesto,

que se escapa de sua vida real. Esconde-se detr�s dos personagens

detr�s das hist�rias, mas a vida � real...

Vem-me � mente meu irm�o, que era montador

e vivia do cinema, mas de outra maneira de viv�-lo.

Era um t�cnico, n�o estava transtornado

com o ambiente associado a esse trabalho.

De fato, sempre o invejei e � sua fam�lia

com uma vida t�o normal, com seus altos e baixos, em certo sentido...

diria que mais honesta, porque n�s fugimos da realidade.

Sim, � como se houvesse vivido em um par�ntese

esperando pela vida real.

Mas essa, talvez seja exagerado falar assim,

talvez nunca tenha acontecido.

Quem sabe se passou nas rela��es com meus seres queridos,

familiares, amigos, minha mulher, minhas filhas.

Adoro N�poles, � a cidade menos americanizada da It�lia, diria da Europa.

A Am�rica latina est� evidentemente americanizada!

De fato, tiveram tropas americanas durante muito tempo!

Uma vez que eles foram embora, al�m algum negro que deixaram aqui,

tudo que era americano foi eliminado.

A for�a dos napolitanos nisso...

est� em seu car�ter, em sua natureza, em suas tradi��es.

Em N�poles, para dar um exemplo banal, vi em uma famosa padaria

al�m de todos os bolos t�picos napolitanos,

macarr�o e feij�o, macarr�o e gr�o de bico expostos na vitrine.

Isso quer dizer qu�o fortes s�o as ra�zes dos napolitanos.

Seu humor...

sua capacidade de resolver com uma piada os problemas di�rios,

porque eles t�m esses problemas de sobreviv�ncia!

- Carmelo. - At� que enfim. Entre.

- Quem �? O que quer? Aonde v�o? - Ali. - Vamos.

- Como "vamos"? N�o pode entrar! - Pasquale, Amedeo...

- Onde est�? - Advogado, ajude-nos, n�o podemos mand�-la � pris�o.

Mas que pris�o? Multaram-me por contrabando de cigarro.

Sabe o que me custa ganhar 28 mil liras?

E n�o falemos das 2 horas que passo na �gua.

Sabe h� quanto tempo meu marido est� sem trabalho?

Desde que acabou o servi�o militar. Como vivem meus filhos?

E logo chega um corno e prende-me!

N�o, espere. N�o podem prend�-la!

- Como, advogado? - Est� gr�vida!

- N�o podem det�-la. Est� gr�vida. - O que est� acontecendo?

N�o podem prend�-la, ela est� gr�vida!

N�o podem prend�-la porque est� gr�vida.

- N�o est� entendendo? N�o podem prend�-la. - Por qu�?

- Porque est� gr�vida! - Est� gravida!

- N�o posso mais! - Tem raz�o.

Tem que se cuidar. A sa�de � importante. Vou lhe fazer um ch� de camomila.

Estou h� tr�s anos no inferno, e voc� quer me dar um ch� camomila?

- Tem sido uma maldi��o. - H� 3 anos, a mesma hist�ria:

"Carmine, fa�a alguma coisa!" "Carmine, aque�a a mamadeira!"

"Carmine, deite-se logo!" "Carmine, apague a luz!"

Tudo isso, comendo uma sopa de feij�o por dia!

N�o sou de ferro!

Tenho que fazer as coisas que ela manda e sem parar!

- Voc� est� abatido. - Claro!

Tonturas, fraqueza nas pernas...

Desmaiei duas vezes na rua!

E quanto pior estou, mais bonita ela est�.

Ela est� t�o bonita, mam�e. Floresceu como uma rosa.

Ela est� usando voc�. Ir� destru�-lo! Como est� mal!

Parece um macaco. Ela est� mais formosa?

- Ainda vai encontrar quem a engravide quando ela quiser. - Eu a mato!

Se acontecer algo assim...

Carmine!

Fiz cinco ou seis filmes em N�poles

e gra�as a De Sica, Ettore Scola em "Macarrones" com Jack Lemon.

Talvez esperasse... Ele estava receoso. Trouxe uma maleta de medicamentos.

Quem sabe o que lhe teriam dito em Hollywood!

Pensou que podia pegar c�lera em N�poles!

Mas viu que n�o era assim, que era uma cidade carinhosa

cheia de simpatia pelos estrangeiros,

n�o era interesseira, nem desordeira.

Inteligente, a ponto de ter que espremer as meninges para entend�-los.

Lembro-me de um camareiro, camareiro n�o,

um que depois da meia-noite come�ava a passar o aspirador.

Est�vamos no bar...

Jack Lemon, Ettore Scola e eu.

Eram 2 horas e convers�vamos entre uma vodca e outra.

Quando decidimos ir dormir, dirigimo-nos ao elevador

onde Giovanni passava o aspirador.

Sem perder um segundo, disse:

"Assim n�o sujar�o os sapatos!" Pode-se inventar algo t�o genial?

Claro que para receber uma gorjeta!

Toda noite me acompanhava. E dizia: "Doutor, eu o acompanho".

E eu lhe dizia: "Aonde me acompanha? H� anos que venho ao Excelsior..."

"Todos os dias quer me acompanhar. Sei qual � o meu andar, o meu quarto, o 402."

"Eu o acompanho!" � in�til discutir com um napolitano.

� melhor nos rendermos logo e apreciar o esfor�o que fazem.

Chegando ao quarto, colocava a chave na fechadura

e ele disse: "Doutor, a vida � uma vista de uma varanda."

Ent�o eu disse lhe: "Eu sei, voc� me diz todas as noites. Tem raz�o,

a vida dura uma fra��o de segundo e fecham-se as persianas."

Senhoras e senhores, agora o ex�mio maestro Raffaele Capece

tocar� uma pe�a cl�ssica... solo.

- Preferem Bach ou Vivaldi, Da Venosa ? - Preferimos que nos deixe em paz.

Tome.

Obrigado.

- Dez mil. - Rafaelle, fico com isto e estamos quites.

- Como? - Seu pai veio recolher o dinheiro.

Tenho dois problemas: a p�lio e meu pai.

Da p�lio pode-se curar, mas de meu pai, n�o!

A prop�sito, essa manh� ligou o homem do jogo e disse que tem que ir urgente essa noite.

Chegou o n�mero tr�s!

Em Roma, por exemplo, na Via del Corso,

eu ia a p�, ainda que um pouco incomodado, porque parece um mercado �rabe,

cheio de gente, que vai de um lado para o outro, sem saber aonde v�o.

e ouvi algu�m atr�s de mim dizer: "Viu como est� envelhecido?"

Em voz alta, para que eu o escutassem. N�o sei se falava a uma garota ou a quem.

"Que monte de rugas!" O mesmo aconteceu-me em N�poles.

"Marcellinho, estamos ficando velhos, hein?"

"Quer um caf�?" Viu que diferen�a?

Que garbo, que gentileza de alma!

Gostaria de viver num planeta todo napolitano. Estaria bem.

N�poles � uma cidade �nica, muito inteligente.

� muito especial, n�o s�o todos que podem entend�-la.

Essa � uma paisagem formosa, mas pode-se comparar com o Golfo de N�poles?

Perderiam!

Felline elegeu N�poles para os personagens de pap�is menores.

Em uma ocasi�o, fui com ele, como em "Ensaio de Orquestra".

Colocou um an�ncio no jornal que dizia: "Fellini procura int�rpretes."

"Apresentem-se amanh� em tal hotel, em tal quarto."

O primeiro que chegou, toc, toc, toc. Fellini disse que entrasse.

Entrou o napolitano

e Fellini, que queria m�sicos, disse: "Qual instrumento voc� toca?"

"Nenhum, mas meu irm�o � um g�nio!"

Que outro diretor teria levado em considera��o

a piada desse homem? N�o sou nada, mas meu irm�o � genial.

Foi contratado imediatamente!

A boa qualidade que tinha Fellini quando dirigia

era a capacidade de colocar juntos toda quantidade de personagens,

estabelecendo entre n�s, os atores, inclusive os extras,

uma rela��o como de amigos que est�o fazendo uma grande festa juntos.

Tinha a capacidade de se lembrar at� o nome dos extras.

"Maria, coloque-se um pouco � direita."

Entenda que um extra que seja chamado por seu nome,

se atiraria ao fogo pelo seu diretor! Essa era uma de suas feiti�arias.

Mas esse � um detalhe menor. Falar de Fellini em um sentido mais amplo

levariam muitos livros. E j� foram escritos!

Ol�, rapazes! Estamos com problemas? Os problemas financeiros de sempre?

N�o t�m nenhuma lira, ou algo pior, problemas sexuais?

N�o tenham medo, aqui est� Mandrake. Com dois toques de baqueta, toque, toque,

sua coisa ficar� ereta! Viva!

- N�o � perigoso? - Marcello, tenho que lhe dizer uma coisa. Espere um momento!

- Mais tarde. Mais tarde. - Iremos nos ver l� embaixo.

Mais tarde. Espero voc� aqui embaixo.

- Bravo, Marcellino, est� bem assim. - Voc� gosta? Publicidade!

A mim j� n�o me oferecem nunca, maldita seja! Conhece o S�rgio?

O Fellini jovem. Uma de suas noivas de ent�o?

- Desculpe-me. � sua noivazinha. - Uma de minhas noivas.

Disseram que toca muito bem o saxofone. Tive uma ideia para o final, depois lhe conto.

Escute, Marcellino, � uma sorte que esteja aqui.

Estava pensando que s� voc�... Venha, venha c� um momento.

- Est� no intervalo, n�? - Sim. - � verdade que sabe tocar aquela coisa?

- Sim. - Ent�o, voc� toca? - Arranho.

Gino, vou-me embora. Marcello me acompanha.

- Vamos! - Voc� tamb�m vem. - Tchau, Antonella, lembre-me, hein?

- Aonde v�o com essa �rvore? - Pensei que fosse uma pequena homenagem floral.

- Marcello, por favor, o cigarro! - N�o me lembrava.

Era uma maneira diferente de fazer cinema.

Quando se diz: "Que confus�o, que balb�rdia, parece um set de filmagem!" � jeito de dizer,

e Fellini dizia: "Enquanto todos fazem balb�rdia, posso pensar!"

Se estivessem todos � espera, isso tornaria o dia mais complicado.

Guido, meu marido me escreveu. Importa-se se eu for para casa no Ano Novo?

- Se n�o quiser, digo-lhe que n�o. - Sim, acho que sim! Carlotta, vamos!

- Quem � aquela negrinha? - Uma surpresa para voc�. Veio do Hava�.

N�o se lembra?

Falava-nos sempre dela.

Obrigado, Lu�sa, como voc� � gentil! Que pensamento delicado!

- Aquele diadema � para mim. - Sim, eu sei, logo lhe dou.

- Meu caro... - Que emo��o encontr�-la aqui!

- Como vai? - Bem. Satisfa�a-me uma curiosidade, bela senhora.

- Quem � voc�? - N�o importa o nome. Estou feliz por estar aqui.

N�o me pergunte nada. - Posso ficar?

-Claro, querida. Agora tenho o que fazer. - E depois?

Tamb�m est� aqui, Rossela. O que faz?

- Sou o Grilo Falante. Incomodo? - N�o.

- Por que est� rindo? - Quero ver como se sai.

- Afinal tem o seu har�m, n�, rei Salom�o? - J� era hora! - Claro.

- Ponham-me l� dentro! - Guido, escute: n�o est� com um pouco de medo?

- Medo de qu�? Tudo est� indo bem. - Posso ficar tamb�m?

- � t�o divertido! N�o quero nada, s� olhar. - H� um regulamento, como sabe.

Venha, ajude-me.

Guido, completamente coberta de penas de avestruz. Gostou?

- Ol�, Edy. � lindo! - Que regulamento � esse?

N�o sei. Prometeu-me um papel num filme com muitas trocas de roupa.

O seu amor pelos atores, pelos seus atores expressava-o sempre em pormenores,

que nunca encontrei em nenhum outro realizador.

Talvez porque suas hist�rias eram diferentes.

A sua aten��o, todas as manh�s, na maquiagem:

"Repare que colocou um pouco mais de preto do que ontem." N�o sei como conseguia ver.

Tinha uma �nsia de exaltar seus atores.

Dizia a Giuseppe Torunno, seu operador de c�mara preferido: "F�-lo belo! Tem que fazer belo!"

"E agora Peppino, d� uma pancadinha de frente num refletor

para apertar um pouco os maxilares porque tem cara de salio, de provinciano.

Tentaram alargar-me os dedos, "mas como alongar-me os dedos?" Com tamp�es de pl�stico!

Em "Oito e Meio!, n�o podendo me dar um ar mais intelectual,

j� que dizia que tenho m�os de campon�s, n�o podendo alargar-me os dedos,

disse: "Ent�o tiramos todos os pelos do peito,

porque o peito peludo denota demasiada virilidade

e ele queria um intelectual de aspecto fr�gil, delicado,

pelo menos no aspecto exterior. Ent�o fui todo depilado com cera.

porque nunca certa cena de um casamento famoso,

em certo momento, eu aparecia com o torso desnudo.

Ele... tinha raz�o quando dizia: "F�-lo belo, f�-la ela"

porque � o ator o tra�o de uni�o entre o autor e o p�blico,

e se o p�blico n�o se sente fascinado por um cara, por um f�sico,

n�o segue a hist�ria com o mesmo interesse.

Repito, falo de um cinema diferente dos demais

ou talvez isso fosse uma necessidade, como com o cinema hollywoodiano de minha juventude.

De fato, ao rever esses velhos filmes na televis�o

lembro-me de como Joan Crawford, por exemplo, tinha sempre sombras aqui.

Iluminavam-na somente os olhos, que eram formosos.

Rottuno tinha que fazer malabarismos para deixar-me mais bonito!

Em alguns casos, n�o estava belo, mas fui melhorado!

O Le�o de Ouro, por toda uma carreira, para Marcello Mastroianni!

Entrega o pr�mio Federico Fellini!

Caro Marcello! Voc� se lembra de mim?

Sou seu �lter ego!

Fiz bastantes filmes ruins, sim, � verdade.

Em cerca de 170, uns 20 foram maus.

Especialmente no come�o de minha carreira e qui�� depois tamb�m.

Isso aconteceu porque... temos que nos mostrar no cinema,

n�o podemos escolher idealmente o filme que queremos fazer.

Por vezes aceitamos, sabendo pelo roteiro que n�o ser� um bom filme, mas

sempre confiando na sorte de que, talvez, o filme funcione!

Ou porque se necessita de dinheiro, temos impostos atrasados,

ou porque queremos o �ltimo modelo de autom�vel,

o s�mbolo do ator bem sucedido. Antes era assim, agora menos.

Depois, � medida que o �xito aumenta, temos que ter uma casa,

depois uma piscina e, depois um iate. Fiz tudo isto, � verdade.

Assim, esses objetivos

representam a conquista de um �xito, de um bem estar.

Sobre os filmes ruins...

Por que se lamentar? Ningu�m o obrigou a faz�-los.

Al�m disso, tudo somado,

Serviram para nos dar calos.

A habilidade de um ator est� tamb�m na mal�cia,

a capacidade de andar at� uma marca, sem olhar para o ch�o,

a capacidade de se mover, apesar de rodeado de gente. Sem medo da c�mara

de filmar, esse olho implac�vel que o fot�grafa at� por dentro. E os filmes ruins servem para isto.

E depois, servem para nos sustentar. N�o coro, ao penar nisso, mas tenho vergonha.

Lembro-me de um filho, "O Tr�gico Retorno", em que termino na legi�o estrangeira,

acusado de um assassinato que n�o cometo, naturalmente.

Conhe�o-o bem, mas

agora que estou aqui, fala de ir-me embora, por�m n�o o fa�o. Por qu�?

Aqui n�o h� nada que me segura.

- J� n�o gosta mais de mim, n�o �? - Sim, gosto. Sempre gostei.

Mas n�o me ama. N�o me importa, porque eu o amo.

- Senti-o de imediato. - Sinto muito.

Lamento, porque me vou embora, n�o posso me ligar a voc�.

Sou em quem quer me ligar a voc�!

Depois "Princesa das Can�rias", com Silvana Pampanini!

Tenho uma recorda��o terna de Silvana, vestida como uma �ndia.

Como aquele povo ind�gena, das Can�rias.

Toda manh�, chegava bel�ssima e dizia ao diretor: Paolo, sou real?

e ele: "Claro."

Eu sempre tive as pernas magras, e tinha de acolcho�-las

com umas cal�as de veludo, at� a metade da coxa.

E depois, com a espadas. N�o tenho jeito com armas... Infernal!

Ao me lembrar, est�o as coisas mais divertidas desse trabalho!

E depois, como � poss�vel fazer bons filmes?

Se eu tivesse feito s� bons filmes, teria medo de mim mesmo!

Esse s�o os privil�gios dos santos, apenas eles nunca se equivocam.

Inclusive her�is. S� que eu me antipatizo com santos e com her�is.

� preciso que haja um diagrama assim, de altos e baixos.

Se falha num filme e o seguinte, por outro lado, � bom,

sente um enlevo. Se sempre o fizer bem, ir� se manter na mesma altura

que tamb�m � menos divertido. Parece paradoxo, mas � verdade.

Senhorinha, que cat�logo � esse?

S�o as belas que amou o patr�o meu.

Um cat�logo feito por mim. Observe-o, leia-o comigo.

Observe-o, leia-o comigo.

Na It�lia, 640

Na Alemanha, 231.

100 na Fran�a, 91 na Turquia,

Mas na Espanha,

na Espanha j� s�o 1003!

1003!

Entre elas h� camponesas, criadas e citadinas,

h� condessas, baronesas, marquesinhas e princesas,

de todos os graus, de todas as formas, de todas as idades!

Feliz anivers�rio,

desejamos-lhe todos, um feliz anivers�rio.

Hoje completo 72 anos. � uma bonita idade.

Quando tinha 20, imaginando um homem com 72, teria visto um velho bab�o,

Mas eu n�o me sinto assim t�o velho, talvez por ter a sorte de trabalhar sem parar.

E estou contente por este meu anivers�rio

coincidir com esse filme, no meio dessas montanhas inating�veis.

por isto est�o longes essas coisas oficiais,

os parab�ns, os artigos enaltecedores,

as manifesta��es de simpatia, de entusiasmo,

cansam-me um pouco, aborrecem-me um pouco, essas coisas.

Eu n�o tenho mau car�ter,

Em geral sou muito paciente e conciliador.

Muitos dizem que sou muito bom, mas n�o � verdade.

Outros dizem que sou um filho da puta, quem sabe qual � a verdade!

H� um bel�ssimo conto de Kafka: "A Aldeia Mais Pr�xima",

que diz: "Meu av� costumava dizer que a vida

� extraordinariamente breve

Ora, na recorda��o, chega a tal ponto que, por exemplo,

quase n�o consigo compreender como um jovem pode decidir-se

cavalgar at� a pr�xima aldeia

sem temer o espa�o de tempo

em que se desenrola a sua vida,

possa ser suficiente para tal cavalgada."

Quando eu era jovem, a vida parecia longu�ssima, eterna,

agora, pelo contr�rio, quando olho para tr�s,

acontece-me que n�o me lembro de quando fiz determinado filme.

Creio que foi h� 5 anos, mas que 5 anos, na verdade foram 15.

Quando jovens, subimos no cavalo para fazer essa viagem,

acreditando que ser� uma viagem intermin�vel, longu�ssima.

Depois quando atingimos uma certa idade, ocorre-nos que

essa aldeia mais pr�xima n�o estava muito longe

e que realmente tinha sido uma cavalgada breve, brev�ssima.

A vida, sim, a uma certa idade, damo-nos conta, que se passou assim

e a vila est� ali, vizinha.

Legenda em portugu�s do Brasil: Lu Stoker

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