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Cinema do nosso tempo.
UM DIA NA VIDA DE ANDREI TARKOVSKY
Larissa buscava no c�u o avi�o vindo de Moscou.
Aeroflot!
Ao v�-lo pela janela...
pensa nas primeiras imagens de sua m�e em "O espelho".
Um russo vindo de traz � um sinal de esperan�a.
Andriusha!
Larissa n�o via seu filho a cinco anos...
nem tampouco a sua m�e.
Quando Tarkovski e sua mulher decidiram ir para o oeste...
as autoridades sovi�ticas, utilizaram a sua pol�tica de ref�ns...
negaram o visto ao resto da fam�lia.
O tempo suficiente para sair do aeroporto...
e verificar a surpreendente capacidade dos jornalistas...
de fazer as perguntas corretas...
e Andriusha achava-se em outro planeta.
Esta imagem lembrava outras imagens, outros filmes.
Era como se todas as crian�as que fizeram seus filmes...
se tivessem reunido junto a Andrei Tarkovski...
que estava morrendo.
Deus meu... N�o � que ele � o mesmo de sempre!
Meu querido filho! E veja os dentes!
Tem uns dentes grandes.
Sua av� n�o mudou nada!
Tire seu casaco.
Levanta.
Fique junto da tua m�e.
Chris, tem de tudo?
- Tenho de tudo. - L�on! Vem aqui com o champanhe!
Ap�s 5 anos de solicita��es e de muita burocracia...
as autoridades sovi�ticas souberam pelos m�dicos...
do grave estado de Tarkovski...
antes de consentir com a ida de Andriusha.
Quando os dois enviados da Embaixada foram anunci�-lo...
Andrei achava que eram assassinos da KGB.
"Vieram me matar!".
Uma id�ia absurda agora...
mas que poderia n�o ser em outros tempos...
e que vinha de tempos atr�s.
Tens algo para beber?
Limonada, kvas, licor ale...
Ele disse de beber!
Eu disse...
Ir, para uma cidade alegre...
Claro, como se chama?
Summit...
Em seu primeiro filme, como estudante da VGIK...
a lend�ria escola de cinema de Moscou...
dirigiu com dois amigos nos pap�is de assassinos, e n�o s�o assassinos qualquer.
... a comida.
Parece-te boa?
Claro que sim.
� um cara muito esperto, n�o?
- Claro. - Pois n�o!
Um di�logo que parece familiar...
Talvez n�o houvesse visto nunca o filme de Robert Siodmak...
mas adaptou o mesmo roteiro de Hemingway: "Os assassinos".
Que cara esperto, n�, Max?
Nesta cidade s�o todos espertos.
- O que tinham pedido? - O que, j� esqueceu?
Ovos com bacon...
E este exerc�cio de estudante tinha outra surpresa...
a apari��o do autor, que se apresentava num papel secund�rio.
Em sua primeira apari��o na tela, Andrei Tarkovski...
assobiava como um p�ssaro.
N�o tem nada para vestir.
Temos roup�es.
N�o v�o passear por ai de roup�o!
Este foi o coment�rio de Andrei sobre estas imagens em seu di�rio de 1986:
"Tenho um aspecto r�gido � antinaturalmente horr�vel...
reprimo minhas emo��es e repito frases est�pidas, como...
"N�o, mas, o que houve com a bagagem?"
A bagagem me preocupa.
Larissa tamb�m est� bem, faz um mon�logo, prop�e brindes...
ri e chora �s vezes.
Mas isso em casa...
no aeroporto, todo o sofrimento e os desesperos acumulados...
durante os seis �ltimos anos refletia-se em seus olhos.
Est� chovendo!
Como nos filmes de Andrei.
Hoje � um dia mais feliz...
est� chovendo!
Como em "O espelho"...
como em "Stalker", chove...
Chove muito nos filmes de Tarkovski, como nos de Kurosawa.
Sem d�vida, � uma das massas...
da sensibilidade japonesa que mencionava tanto.
Igual aos japoneses, uma rela��o f�sica com a natureza.
N�o h� nada mais terreno, mais carnal...
que o trabalho deste reputado cineasta m�stico.
Talvez porque o misticismo russo n�o � o dos cat�licos...
assustados pela natureza e o corpo.
Os ortodoxos respeitam a natureza...
veneram o criador atrav�s de sua cria��o.
e um contraponto aos personagens...
cada filme tem uma trama entre os quatro elementos...
�s vezes tratados em separado, �s vezes em duplas.
Em "O espelho"...
um simples movimento de c�mera re�ne a �gua e o fogo.
Ao contr�rio de "Solaris".
N�o � raro que os personagens dos filmes se molhem ou se queimem...
mas o elemento � parte da a��o...
se surgem como �ltimo recurso...
como a resposta a uma ora��o, n�o reduzindo a sua fotogenia.
A �gua, quando a mulher � perseguida se perde em "Andrei Rublev"...
quando Ivan segue correndo al�m da morte...
� uma �gua liberadora, misericordiosa...
como a natureza e como Deus.
No principio de "Andrei Rublev"...
o som do ar e do fogo se mesclam.
A �gua n�o demorar� muito para desaparecer.
Estou voando!
Yefin, aonde vai?
Estou voando!
Arjip!
Estou voando!
E a terra, presente at� o ponto de filmar a cerca...
ao n�vel das ra�zes.
Quantas vezes os personagens enfrentam a terra, o lodo...
o barro dos fatos que foram...
que n�o parecem ter sido libertados...
e escolhem ser sepultados no mesmo?
Tio Fiodor...
Encontrei-a!
Aqui, tio Sim�n!
"Boris Godunov" n�o � um filme...
e sim uma obra teatral representada em Londres.
E para o autor deste retrato...
a ocasi�o � uma confiss�o muito russa.
Roubou os belos bin�culos que eles alugaram em Covent Garden...
por uma raz�o n�o mais inconfess�vel que um delito...
a esperan�a de que algum dia, por arte da magia...
devolveriam as imagens que tinham visto.
Por estranho que pare�a...
n�o havia rastro da representa��o de Londres.
Muito menos uma honesta reconstru��o no Teatro Kirov de Leningrado que...
ao menos nos ofere�a as grandes id�ias daquela cena.
Como nos filmes, Boris se enterra na terra russa...
Ele � o czar, ou seja, um s�mbolo...
e se enterra no s�mbolo da terra...
um tapete com as marcas do Imp�rio.
Se enterra na R�ssia...
O mapa se converte no territ�rio...
e a Historia, � sua vez, � um elemento.
Sete meses antes, Tarkovski estava rodando uma cena...
de "O Sacrif�cio" na Su�cia...
uma das mais dif�ceis da hist�ria do cinema.
Seis minutos de filmagem sem pausa...
quando o olho segue o personagem que acaba de atear fogo em sua casa...
sua fam�lia que corre atr�s esta angustiada...
a ambul�ncia que chega...
tudo com a mesma rela��o de enquadramento.
� filmada com a c�mera em movimento, �s vezes atr�s, �s vezes � frente.
Aqui ir� queimar o carro, Sven.
Isso espera!
A alegria de Andrei enquanto senta ao volante � sobre-humana.
A natureza da cena...
com a casa queimando e os personagens que correm...
exige uma s� tomada.
Mas esta tomada j� havia sido rodada e tudo sa�ra errado...
Os efeitos especiais n�o funcionaram, a c�mera se prendeu...
A equipe de produ��o conseguiu reconstruir o exterior da casa...
mas n�o haver� uma terceira oportunidade.
A exig�ncia de uma s� tomada...
n�o � o capricho de um diretor virtuoso.
Aqui os quatro elementos interagiram entre si.
A terra e a �gua se mesclaram...
o mar liberador no horizonte...
o fogo contribuiu com o homem...
o ar que envolve tudo...
que fa�a sentido para o espa�o, a dist�ncia entre as arestas...
que na linguagem fotogr�fica se chama precisamente "ar".
Tratar tudo do modo cl�ssico, com primeiros planos, contra-planos...
inserts do fogo, que havia arruinado tudo.
Toda a a��o tem que transcorrer num s� enquadramento.
A filmagem j� n�o � uma quest�o moral...
mas sim metaf�sica.
Que lente � essa?
O diretor de fotografia Sven Nykvist...
era o c�mera de confian�a de Bergman.
No princ�pio, Sven se preocupava com a maneira que tinha Andrei...
de compor seus planos, atr�s da c�mera...
ele estava filmando o lugar...
Logo chegou a cumplicidade...
e o jogo se converteu em adivinhar quem seria o mais perfeccionista.
Sven, v� o que quero dizer?
Quero um grupo pequeno, compacto.
Todos bem juntos.
O que acha?
Um minuto, veja o que vem agora.
Durante a filmagem falam-se quatro l�nguas, �s vezes seis.
Gra�as ao italiano que aprendeu no ex�lio...
Andrei se comunica com Sven, que trabalha na Cinecitt�.
No mais se falava russo, sueco e ingl�s...
todos orquestrados pela formid�vel Leila Alexander...
que traduzia inclusive os gestos.
Muito bem na verdade quando executada a partir deles
Susan, eh...
Valerie...
Filippa...
Enquanto filmei a paisagem da terra...
Susan come�a a andar, e voc� tamb�m.
Quando voc� sai para despedir-se...
voc� tem que ficar mais perto dele e fazer tudo direito.
Leve-o ali...
Andrei repassa tudo pacientemente com eles.
Um erro de coloca��o ou de gestos e ser� um desastre...
desta vez irrepar�vel.
Outra coisa...
quando voc� contar dois...
voc� tem de correr...
para a direita.
� sua esquerda.
Para a direita da c�mera.
� minha esquerda.
� sua esquerda...
Erland, voc�...
voc� n�o pode deixar que te peguem.
Tudo arrumado.
Voc� tem de correr como um grupo, preso...
sem dispers�-los.
Porque sen�o, n�o vai dar tempo.
Vamos comer.
A prepara��o durou toda a tarde.
Entre centenas de graciosos gestos...
Houve um que nos preocupava...
mas ainda n�o o conhec�amos.
O dia terminou com um bom clima...
mas quando Andrei disse: "A��o!" na manh� seguinte...
deve ter se sentido como o jovem tocador de sinos "Rublev"...
quando ele diz: "Davai!".
Davai!
O sino foi bem tocado.
A tomada foi bem filmada.
O que chocava os visitantes...
era que Andrei dedicava a mesma intensidade e concentra��o...
para preparar um plano seq��ncia que filmou.
Algo que a maioria dos diretores deixavam ao departamento de anima��o.
Com esse cavalo...
para a direita...
Com esta �rvore no centro.
Posteriormente vertical...
Apenas vertical, isso.
O que mostra?
O retrato na parede.
Eu n�o consigo v�-lo bem.
Est� sob o vidro, e est� escuro.
� a "Adora��o dos Magos"...
Leonardo.
Leonardo da Vinci foi frequentemente mencionado nos filmes...
com um significado preciso.
O homem que vemos aqui durante uma tomada...
esticado como um arco, disse uma centena de vezes:
"Meu objetivo � colocar o filme ao mesmo n�vel que as outras artes."
N�o existe um �nico filme onde ele n�o mostre quadros...
geralmente ao virar as p�ginas de um livro.
E em "A Inf�ncia de Ivan", mesmo em meio � guerra...
S�o alem�es?
Sim, de outra �poca.
Eu n�o me importo, os alem�es...
E esse servi�o � cavalo.
Claro que eu vi, tal como o de uma motocicleta.
Veja, vai intensificando pra baixo...
� fic��o...
Sim, fic��o, claro!
Eu sei.
Estas imagens s�o como normas e desafios.
"Andrei Rublev" � em si uma longa medita��o...
sobre o significado da arte, onde a confus�o de nomes...
trai a ang�stia de um criador nunca satisfeito.
Andrei?
Vou dizer na cara...
� como um irm�o para mim...
� famoso, e com raz�o...
Pinta com habilidade e finesse.
Mas h� algo que falta...
o medo.
A f� que � retirada do fundo da alma.
E a simplicidade.
Tal como a epifania...
de S�o Sergio...
Simplicidade, sem artif�cios.
"A beleza est� no cora��o da f�"...
escreveu o padre Florenski.
O fim de "Andrei Rublev" partiu totalmente com a narrativa...
e tornou-se um poema sobre os �cones.
Os exalta, olhando atrav�s deles...
explora as formas que cont�m...
Tal como filmou a terra nas ra�zes.
E tal como este filme sobre a R�ssia, na Idade M�dia...
� o �nico verdadeiro filme em nossa �poca...
Tarkovski nos mostra a origem das formas que nos chocaram...
no in�cio do s�culo XX...
e como Malevich esteve presente em Rublev.
Muitas vezes, o personagem principal � confrontado com a cena.
Um espelho falso...
incompar�vel beleza...
a ser medido contra.
A reflex�o em uma quadro � uma segunda abordagem no espelho.
Em seguida o pr�prio espelho torna-se uma met�fora do quadro.
Eu n�o me reconhe�o em nada.
N�o me lembro.
Eu fecho os olhos...
e n�o consigo lembrar da minha cara. E voc�?
O qu�?
Te reconheces?
Como todo mundo...
Quando escolheu o titulo do seu filme mais pessoal "O espelho"...
Tarkovski sobe sem uma trama de seguran�a....
pela sua luta com o Anjo.
Agora cabe aos filmes refor�ar tudo o que ele aprendeu com pintura...
e juntamente com seu fiel aliado, a suprema arte da m�sica...
demonstrar que ele pode atingir, pelos seus pr�prios meios...
Beleza pura.
O �ngulo de c�mera favorito do grande cinema cl�ssico...
de acordo com os c�digos de Hollywood...
� um �ngulo um pouco cortado...
que destaca os personagens e permite os efeitos do c�u.
Nos filmes de Tarkovski geralmente acontece o contr�rio...
A c�mera fica ligeiramente acima dos personagens...
que est�o enraizadas na paisagem.
A ingenuidade Americana contempla o c�u.
O russo, pelo menos nesta R�ssia...
� colocado no c�u e contempla a Terra.
�s vezes o �ngulo alarga e a c�mera domina a a��o.
Mas s� admirar a perfei��o formal de um plano...
seria como reduzir a unidade errada.
Esta vis�o tem um significado.
Estamos em "Andrei Rublev"...
quando o jovem que afirma conhecer...
o segredo de como fazer uma campainha...
mobilizou uma multid�o de trabalhadores para o seu projeto.
No final, n�s compreendemos que ele nada sabia, que era mentira...
mas esta mentira poderia ser a presen�a clandestina da f�.
E � medida que o trabalho progride, a c�mera n�o apenas domina a cena...
mas ela voa atrav�s do ar e termina com um salto absoluto...
Perpendicularmente, um olhar...
que n�s, crist�os Ortodoxos, conhecemos bem...
o olhar do Cristo sacrificado...
que contempla desde o alto das c�pulas e nos julga.
Esta vis�o abruptamente reaparece nos principais momentos de outros filmes.
Na cena Apocalipse em "O Sacrif�cio".
No final de "Solaris".
Ap�s a esta��o espacial...
sobre um misterioso oceano que envia ondas alucinat�rias...
modelado como as mem�rias dos astronautas...
O protagonista retorna � Terra � sua terra natal.
E o v�o da c�mera revela que esse retorno � apenas mais uma ilus�o...
que o oceano esconde ilhas de mem�rias sobre a sua superf�cie.
Tem se afirmado muitas vezes que este oceano � uma imagem de Deus.
Mas se � Deus...
ent�o, quem ir� olhar de cima?
o ocultismo para Andrei era muitas vezes um atalho para o al�m.
Durante uma sess�o de espiritismo...
se comunicou com Boris Pasternak...
quem disse a ele que rodaria apenas sete filmes.
"S�?" Perguntou Andrei.
"Mas ser�o bons", Boris Leonidovich respondeu.
E al�m de seus trabalhos na escola no cinema...
Tarkovski criou sete filmes...
"A Inf�ncia de Ivan."
"Andrei Rublev".
"Solaris".
"O Espelho".
"Stalker".
"Nostalgia".
E "O Sacrif�cio".
Desde o primeiro, "Inf�ncia de Ivan", Existe um tema sempre presente...
o "outro lado"...
uma regi�o para alcan�ar ao pre�o de uma transgress�o.
E se eles descobrirem o que deixaram...
do outro lado sem permiss�o...
n�s estaremos em apuros.
Aqui, os c�digos s�o claros, em um filme de guerra...
a �rea a explorar em busca de informa��es...
� uma refer�ncia respeit�vel.
Pronto, rapazes. Este � o lugar.
Em "Stalker" se invertem os c�digos.
Elas s�o as cl�ssicas imagens de um campo de concentra��o...
mas atrav�s de um giro fant�stico...
a liberdade est� dentro da veda��o...
voc� fugiu para entrar.
N�o nos pegaram?
Eles t�m muito medo.
De quem?
A pergunta permanece sem resposta.
Tr�s personagens: O escritor, o professor e o Stalker...
que conduz para uma sala da Zona...
onde ele disse que os desejos ser�o realizados.
O Stalker parece um exilado, mas � uma falsa pista.
A Zona...
� um sistema complexo...
e com armadilhas.
Armadilhas mortais.
Quando ela est� vazia, n�o sei o que acontece...
mas quando aparecem humanos...
tudo � posto em marcha.
As armadilhas desapareceram, mas outras apareceram.
As Trilhas seguras est�o bloqueadas.
E o caminho f�cil logo se torna complexo.
Essa � a Zona.
Pode parecer bizarro...
mas cada momento �...
O que nossa consci�ncia diz que �.
O Oceano de "Solaris" tamb�m se comunicava...
com a consci�ncia dos personagens.
ordenava aos Visitantes...
o clone de uma mulher amada e perdida.
� t�o escuro...
Vem c�, n�o tenha medo.
Mas tudo o que aconteceu em termos de fic��o cient�fica...
com um repert�rio de causas e efeitos.
Uma esta��o espacial...
um estranho planeta cujos fen�menos teriam que ser estudados.
Uma cena de levita��o se explica com um movimento em gravidade zero.
Em "O Espelho"...
em "O Sacrif�cio"...
a levita��o acontece por si s�, sem pretexto.
� medida que o jogo progride escapa de pretextos e desculpas.
At� mesmo o diretor se livra dos seus pr�prios pretextos.
O ciclone de Grama no in�cio de "O Ospelho"...
serviu para evitar um clich�...
O do homem olhando logo atr�s a mulher que tinha acabado de conhecer.
Ele tinha que passar alguma coisa fora do comum.
Em "Stalker" � a fic��o da Zona o que faz mover a relva...
n�o h� nada a explicar, � aut�noma.
Pare, n�o se mova.
N�o, n�o toque!
Mas o que h�, esta louco?
Eu j� te disse que n�o � um bom lugar para passear.
A zona exige respeito; ou sen�o, vai punir.
Mas em uma entrevista, Andrei disse que talvez a zona n�o existisse...
que talvez fosse inven��o do Stalker...
"para que os homens sejam menos miser�veis. "
Se voc� supera o cansa�o que tem...
S� Deus sabe.
Se chamassem intelligentsia, escritor e professor...
Calma...
Nem sequer acredita em nada.
O organismo com o qual acredita-se j� foi atrofiado...
- Acalme-se. -... por falta de uso.
Tente relaxar, ok?
Eu n�o creio em nada.
N�o s� naqueles dois, nada.
Quem pode me levar l�?
O pior de tudo...
� que n�o precisa de ningu�m.
Ningu�m precisa deste quarto.
E todos os meus esfor�os foram em v�o.
Imagine o efeito dessas palavras nas autoridades sovi�ticas...
"Stalker" foi citado como um exemplo do "n�vel med�ocre"...
dos filmes produzidos pela Mosfilm.
Estou de luto...
pela morte de Andrei Tarkovski.
Todos n�s estamos.
Ele era o favorito...
Do nosso grupo.
Eu sei muito bem...
pelo que voc� est� passando.
Devo dizer-vos...
que o nosso grupo n�o aprova...
a condena��o do seu trabalho.
Com o mesmo pesar que o seu...
como muitos outros, em Paris...
Lamentamos a perda...
desta grande pessoa.
Agora...
passado o tempo...
que tudo isso pudesse acontecer.
Sim, mas isso aconteceu...
e a homenagem comovente de um velho Bolshevik...
n�o pode apagar vinte anos de tormentos de todos os tipos.
"A Inf�ncia de Ivan", foi criticado por seu "individualismo e sonho burgu�s".
"Solaris", honrado com uma lista de 35 "observa��es"...
que sugeriam grande quantidade de cortes...
desde "livrar-se do conceito de Deus"...
a "livrar-se das cenas de Chris andando sem cal�as"...
embora n�o se saiba qual das transgress�es foi a mais grave.
"Andrei Rublev" e "O Espelho" foram sabotados em sua estr�ia.
Um cont�nuo tormento que o levou a preferir o ex�lio...
ele, que era t�o natural e profundamente Russo...
poderia n�o voltar para a R�ssia.
A mera id�ia � matar-me.
Porque � imposs�vel que n�o volte a v�-la em vida...
o pa�s onde nasci.
os Vidoeiros...
o ar da minha inf�ncia.
Andrei n�o era um dissidente.
Depois, convidado a participar de um filme sobre a dissid�ncia, ele respondeu...
"por que n�o sobre koljoses?".
Seus her�is n�o eram rebeldes, eram estrangeiros nesta terra...
como "O Idiota" de Dostoievski, que sonhava em se adaptar.
Em todos os seus filmes existiam est�pidos, loucos e estranhos...
Foi o seu arqu�tipo yurodivi que, numa falta de algo melhor...
o traduzimos como "o inocente", em "Boris Godunov".
Para esclarecer o que � um yurodivi, havia inclu�do no programa...
a lend�ria hist�ria da pianista Maria Yudina e Stalin.
Uma noite, Stalin ouviu no r�dio...
Concerto n � 23 de Mozart interpretado por YUDINA...
e ordenou-lhe para trazer-lhe a grava��o do pr�ximo dia...
para retornar a ouvi-la.
Consterna��o: era um �ao vivo� e n�o se gravou nenhum disco.
Chama-se um primeiro diretor, mas foge a esconder-se...
o segundo desmaia-se, um terceiro aceita tremendo...
todos eles entram em p�nico menos Yudina...
uma mulher intr�pida que amava gatos...
e se benzia antes de seus concertos.
Ao amanhecer o disco est� gravado...
e Stalin, maravilhado...
envia um pr�mio de 20.000 rublos � pianista, que responde...
"Ofere�o esse dinheiro para a minha igreja...
e rezarei ao Senhor para que perdoe os seus pecados contra o nosso povo".
Fornece um mandado de captura, mas Stalin n�o diz nada...
e Yudina esta salva.
Era uma yurodivaia.
� incr�vel? Mas a cena aparece em "Boris"...
onde milhares de russos, v�timas de sucessivas tiranias...
decifraram havia um s�culo.
Andrei insistiu em cit�-lo no programa de Covent Garden.
O Inocente proclama o assassinato do Czar...
os guardas se apressam para peg�-lo, mas Boris os p�ra...
e pede ao yurodivi que reze por ele...
Ao contr�rio de Yudina, o Inocente se recusa a rezar pelo tirano.
Mas n�o � isso o mais extraordin�rio da hist�ria...
Stalin queria ouvir o Concerto n � 23, de Mozart?
"Eu pare�o um pirata", disse Andrei.
A doen�a progrediu...
e este v�deo que iniciou em Gotland, debaixo de sol e alegria...
tinha mudado de cores.
Mas a energia tarkovskiana leva todos a ver um filme em jogo.
De seu leito dirigia a montagem, que fizera em Estocolmo.
Sven tinha ido a Paris com a indispens�vel Leila...
para refinar as cores.
N�o h� propor��es matem�ticas nas sombras...
mas existe...
um estado de esp�rito...
uma atmosfera agressiva.
Aqui s� em branco, e n�o em s�pia.
Voc� sabe, planos abertos e os detalhes.
Se em um plano n�o havia luzes...
ou uma cor brilhante concreta...
ou luz do dia entrando pelas janelas...
ent�o haveria que fechar a cor...
e encontrar uma grada��o.
Em 23 de janeiro de 1986...
O montador Michal Leszczylovski veio com uma vers�o quase final.
N�o, por outro lado, querido.
Estes polacos...
Come�ou a proje��o.
Foi a primeira vez que Andrei via o filme.
Sven tomou notas.
Em "O Sacrif�cio" a casa era um personagem.
Quando voc� pensa sobre os outros filmes...
poderia pensar que, embora constru�sse uma casa de verdade...
�s vezes com as suas pr�prias m�os...
Andrei levantava uma casa imagin�ria...
uma �nica casa onde as habita��es estavam interligadas...
e todas num mesmo corredor.
Abrindo uma porta aleat�ria, os atores de "O espelho"...
poderiam encontrar-se com os de "Nostalgia".
Agora, a casa constru�da na R�ssia tinha sido irremediavelmente perdida.
Sua nova estadia na It�lia foi bem curta.
Tarkovski olhou para a casa de seu filme a partir de outra casa de passagem...
como tantas outras que tinha conhecido antes.
� por isso que o objetivo final do sacrif�cio tinha que ser uma casa.
Vou te dar aquilo que tenho...
Vou deixar minha fam�lia...
a que tanto queremos...
e destruirei a minha casa...
a proje��o foi conclu�da.
Algu�m aplaudiu.
Andrei grita: "Luzes"!
Foi pensando na profecia de Pasternak?
Andrei Tarkovski morreu na clinica de Hartmann, em Neuilly...
Em 29 de dezembro de 1986.
Era um Ano Novo.
Tal como no antigo cinema expressionista...
um cortejo f�nebre tem que passar por um carnaval...
t�nhamos que passar por uma floresta de pinheiros decorados...
para chegar � catedral com nome de filme...
S�o Alexander Nevski.
Em 1984...
o diretor sovi�tico Andrei Tarkovski...
falecido em 28 de dezembro, na idade de 54 anos.
O seu funeral realizou-se na catedral ortodoxa russa...
do 8� distrito de Paris, onde foi realizado o funeral...
e depois que Rostropovich interpretou uma su�te...
de Bach.
O primeiro plano de seu primeiro filme...
mostrava uma crian�a de p� ao lado de uma �rvore jovem.
O �ltimo plano de seu �ltimo filme...
uma crian�a deitada ao p� de uma �rvore morta.
Pode-se considerar que se fecha o c�rculo...
que � um sinal de despedida.
Mas quando rodou esse plano, Andrei n�o sabia que estava doente.
Mais um enigma, todos v�o decifr�-lo a sua maneira.
Alguns pregam serm�es...
Os grandes nos deixam em m�os nossa liberdade.
Cada um vai decidir por si mesmo se o oceano de "Solaris" existe...
se a Zona de "Stalker" existe...
Se Alexander, o personagem de "O Sacrif�cio"...
realizou ou n�o um milagre.
Cada um vai achar sua chave Tarkovski para entrar na casa de Tarkovski...
o �nico cineasta cuja obra fica...
entre dois meninos e duas �rvores.
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