All language subtitles for O Outro Lado do Paraíso (2014).port

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Original subtitles

♪ orquestrada ♪

♪

♪

[tiros]

[gritos ao fundo]

[Homem] O Jorjão!

Tão levando o Jorjão!

[Mulher 1] Não se mete. Você não tem nada a ver com isso.

[Mulher 2] O Ricardo falou pra tomar cuidado, pai.

Disse que esse pessoal do centro é tudo comunista.

[Homem] Esse Ricardo pra mim é um merda.

[Mulher 1] Tô com medo, Antônio...

[Antônio] A gente não fez nada. A gente não é criminoso!

[Menino] Olha a fumaça, pai!

[Mulher 1] Sai da janela, Nando! Sai da janela.

[Nando] Deve ser no Centro!

[gritos] [tiros]

[Mulher 1] Antônio! Antônio!

[Narrador] Meu pai não era um homem comum.

como muitos brasileiros,

ele acreditava que o Brasil podia melhorar.

[som do casco do cavalo]

Naquele tempo, ele andava pelo mundo em busca do paraíso

na Terra.

Um lugar cheio de riqueza.

Sem fome.

Sem tristeza.

Sem escuridão.

♪ suave ♪

♪ [murmúrios]

♪

♪ [murmúrios]

♪ [relincho]

♪ [som do casco do cavalo]

Até mais tarde.

♪ continua ♪

[Narrador] Ele chegava e saía como o vento,

nunca se causava de procurar por este lugar...

num misto de loucura e obsessão.

Meu pai tinha lido na Bíblia sobre aquele lugar

de nome estranho.

Evilath.

♪

Eu gostava de escutar as histórias que meu pai contava

sobre suas buscas por Evilath.

E eu não precisava nem sair da cidade

para conhecer o mundo inteíro.

[porta fechando]

Mas eu estava feliz com o meu mundo, que era apenas alí.

E gostava da Alice, de quem não queria me separar nunca.

[Nando] Oi.

[Alice] Oi, Nando.

♪

[Nando] Oi, dona Aparecida.

[Aparecida] Oi, meu filho. [Nando] Tudo bem com a senhora?

[Aparecida] Vou indo...

♪

E seu pai, continua sonhando?

[Nando] Ele dorme dois dias quando chega assim de viagem.

Não!

[Alice] O quê?

[Nando] Eu não li ainda.

[Alice] Mas é jornal velho! [Nando] Mas eu não li ainda.

[rangidos da cama] [respiração profunda]

[canto de pássaros]

[burburinho ao fundo]

[suspiro]

[chiado do rádio]

[Locutor] Os propósitos do plano trienal foram em parte

abandonados com recente decisão do Presidente João Goulart

de aumentar o salário mínimo acima da taxa prefixada

e do reajuste concedido aos funcionários públicos.

O trabalhador agradece.

Agora, um pouco de música!

♪ Cabelo Loiro, por Tião Carreiro e Pardinho ♪

♪

A mulher mais bonita dessa casa me dá essa honra?

♪

♪ Cabelo loiro vai lá em casa passear ♪

♪ Vai, vai cabelo loiro Vai acabar de me matar ♪

♪ Cabelo loiro vai lá em casa passear ♪

♪ Vai, vai cabelo loiro Vai acabar de me matar ♪

♪ Muito velho já foi moço Já gozou a... ♪

[Alice] Vai um quindim hoje, seu Chico?

[Chico] Aham...

[canto de pássaros]

[Menino ao fundo] Nando, o pai acordou! Ele tá te chamando!

[Nando] Pai!

[Nando] Benção, pai. [Antônio] Deus te abençoe.

[risos]

[Antônio] Danado!

Como foi lá na mina, pai?

Esquece da mina, filho. O importante...

foi a batalha com a serpente!

Que serpente?

[relincho]

[Antônio] Foi a maior serpente que eu vi em toda a minha vida!

[silvar da cobra]

Tinha uns olhões de fogo assim...

Aí quando achei que estava tudo perdido...

que eu ia ser picado pela venenosa...

[relincho]

Eu senti um anjo guiando a minha mão.

Anjo não, foi Deus mesmo,

que pra essas coisas ele não manda ajudante.

Ele guiou a minha mão até o Livro...

Peguei ele...

e zás!

Joguei pra cima da serpente.

A desgramada da cobra se tremeu toda...

e fugiu pela estrada de onde ela veio.

Aí eu me abaixei...

chegue¡ perto da Bíblia...

e aconteceu o que eu nunca imagineí que podia acontecer...

Tava aberto naquela página!

E aí eu entendi tudo.

Aquela batalha de vida ou morte não foi à toa.

Foi uma mensagem.

[Nando] "Deste lugar de delícias saía um rio,

que regava o Paraíso.

Um se chama Fison, e este é o que torneia todo o país

de Evilath, onde nasce ouro."

Atrás do sol estava tudo dourado!

[Nando] O senhor achou outra mina, pai?

Achei coisa melhor.

Quando eu botei a cobra pra correr,

sabem para onde que a desgramada foi?

Foi no rumo daquela estrada nova que fizeram...

aonde passa um monte de caminhão.

Vocês sabem que tão construindo uma cidade grande naquele rumo.

Uma nova capital?

É Brasília, minha gente!

Coincidência só existe pra quem tem mirada curta!

Agora eu tenho certeza:

Brasília é Evilath!

Essa foi a mensagem!

O senhor tá pensando em ir pra lá, pai?

Dessa vez eu não vou sozinho, a família inteira vai comigo!

É tanto emprego que tá faltando braço!

Diz que tão puxando dinheiro a rodo.

É que o presidente mora lá, né?

E a gente vai pra lá também.

Morar do lado da casa do Presidente!

[risos]

♪ suave ♪

♪

[Nando] Você já ouviu falar de Brasília?

[Alice] Já...

Lá é bonito.

♪

[Nando] Mas você ia querer morar lá?

[Alice] Acho que sim.

Num prédio bem bonito.

♪ [canto de pássaros]

[burburinho] [som do trote do cavalo]

♪ [burburinho]

[som de motor de carro]

[buzina]

[Antônio gritando] Nancy! Pessoal!

♪ continua ♪

Vem aqui, vou mostrar uma coisa!

[buzina]

Golpe de mestre, Nancy:

troquei esse caminhão pela nossa casa.

[Nancy] Mas a casa foi presente do meu pai, Antônio.

[Antônio] Lá o caminhão vale muito.

Depois a gente volta e compra cem casas igual a essa.

E eu comprei uma coisa pra você também.

♪

Não tem perigo.

Com ela nosso caminho tá protegido.

Vem, Nando!

[ruídos de madeira]

[Homem] O que é isso Antônio, perdeu a cabeça?

[Antônio] Boa tarde, Simeão.

[Simeão] Quem te autorizou a vender essa casa?

Eu comprei pra minha filha e pros meus netos,

pra eles terem um teto pra viver,

porque eu sempre soube que você é um errante.

Eu sempre respeitei o senhor, Seu Simeão.

O senhor vai ter que me respeitar também.

Eu tenho todo o direito de tentar um futuro melhor

pra minha família.

O senhor pode ficar sossegado que eu volto

pra lhe pagar essa casa. Em dobro.

Você pode ir, mas minha filha e meus netos vão ficar comigo!

Mas é minha mulher.

E são meus filhos.

[ruído metálico]

[passos]

[batidas na porta]

[tosse ao fundo]

[porta abrindo]

[Alice] Que foi?

[porta fechando]

[tosse ao fundo]

Fala, Nando!

[tosse ao fundo]

[Nando] Meu pai, Alice...

Ele quer ir morar em Brasília.

♪ violão ♪

♪

E ele vai levar a gente.

♪

♪ [tilintar de louça]

♪

♪ [tosse ao fundo]

♪

♪ [porta abrindo]

♪

♪ [som do motor do caminhão]

♪

♪ intensifica ♪

♪

♪ diminui ♪

♪

[Locutor] ...esquecido e abandonado durante séculos,

fez surgir no horizonte de nossa terra

uma esperança de melhores dias.

A reforma agrária, já proposta ao Congresso,

poderá ser a realização dessa esperança.

A de uma justa distribuição de nossos recursos.

[Antônio] Você vai gostar de Brasília, filho.

Confia no seu pai.

Vai fazer um monte de amigo novo, cê vai ver...

Olha, Nando...

Toda vez que o pai saiu pela porta de casa,

ficou com o coração apertado.

Mas foi sempre pelo nosso bem.

O senhor sempre viaja, pai, tá acostumado.

Olha pra mim, filho.

Olha pra mim, Nando!

Você já é grande.

Tá na hora de começar a entender o mundo como homem.

Não dava mais pra ficar em Minas.

[som de motor de carro ao fundo]

Um dia você vai entender isso.

[ruído dos móveis chacoalhando]

[som do motor do caminhão]

♪ lenta ♪

♪

♪ [porta fechando]

♪

♪ [passos]

♪

É muito lindo, pai.

Chegamos...

[risos]

[Antônio] Chegamos na nossa nova casa.

É Brasília!

[risos]

♪

[trovoadas]

[som da chuva]

[Nancy] Acho que erramos de lugar...

[som da chuva]

Será que tá certo, Antônio?

[porta fechando]

[som da chuva]

[Nando] Acho que não é aqui que mora o presidente.

[som da chuva]

[murmúrios] [sons da construção]

[Homem de branco] Bem vindos à nossa comunidade.

[Antônio] Obrigado.

[murmúrios]

[Antônio] Obrigado.

[Nando] Querida Alice, este é o nosso novo endereço.

QND 59, Lote 29.

Não é Brasília, como meu pai falou.

É Taguatinga.

♪ suave ♪

Não vejo a hora de voltar pra Minas.

Tô bem triste.

E não tô falando com ninguém,

apesar da casa estar cheia de gente ajudando.

Todo dia aparece gente nova.

Hoje apareceu o Padre Alberto.

Veio benzer a casa.

Ele parece legal.

[som do martelo pregando]

Veio também a Marina, que dá aula no centro comunitário.

Ela usa umas roupas diferentes, acho que você ia gostar.

[burburinho] [sons da construção]

E tem o Jorjão, um amigo do meu pa¡ lá da obra.

Ele sempre fala que temos que lutar pela justiça.

[burburinho]

Ele faia bonito, parece personagem de livro.

♪ [burburinho]

♪ [murmúrios]

[risos]

[murmúrios]

[Professora em latim] Pro Brasilia...

[Alunos] Pro Brasilia...

[Professora] fiant eximia. [Alunos] fiant eximia.

[Professora] Vox populi... [Alunos] Vox populi...

[Professora] Vox Dei est. [Alunos] Vox Dei est.

[batidas]

[risos]

[Professora] Shiu.

[Professora] Ex ore... [Alunos] Ex ore...

[Narrador] Quanto mais eu escrevia pra Alice,

mais aumentava minha saudade.

Mas ela nunca respondia, e eu não conseguia entender por quê.

[Alunos] Parvulorum veritas.

[Professora] Arbor... [Alunos] Arbor...

[Professora] Ex fructu cognoscitur.

[Alunos] Fructu cognoscitur...

[campainha]

[murmúrios]

[Professora] Fernando?

Fernando...

Não é a primeira vez que te pego escrevendo fora de hora.

Toma.

Na próxima sexta você vai fazer uma prova sobre esse livro.

Se você passar, eu te devolva a carta.

[Antônio] Pega essa galinha, meu filho!

Pega! Pega! Pega!

[Nancy] Ai, meu Deus, vai chegar todo sujo na festa.

[risos]

[Jorjão] Antônio, Nancy! Que bom que vocês vieram!

Boa noite, boa noite...

Boa noite, boa noite...

[Padre Alberto] Boa noite, Fernando.

[Nando] Boa noite, padre.

[burburinho]

[Marina] Como disse o professor Paulo Freire,

"nunca percam a capacidade de sonhar". Parabéns.

[Jorjão] Os adultos que foram alfabetizados...

[aplausos]

[Nando] Padre, por que eles estão recebendo esses livros?

[Padre] É o primeiro livro que eles ganham na vida deles.

Que legal.

♪ Querida Asa Branca, por Trio Siridó ♪

♪ Antes do sol clarear ♪

♪ Eu ouvi um lindo canto Era a asa branca ♪

♪ Que vinha me despertar ♪

♪ Desarmava a minha rede ♪

♪ Selava o meu alazâo ♪

♪ vestia o meu gibão de couro ♪

♪ Arrumava um matulão ♪

♪ Saía tocando a boiada Com muita alegria ♪

[Rapaz] Posso dançar com a dama?

♪ Saia tocando a boiada ♪

♪ Com muita alegria No meu coração ♪

♪

♪

♪ Minha querida Asa Branca ♪

♪ É bom a gente lembrar ♪

♪ Daqueles tempos passados ♪

[Nando] Peguei!

♪ continua ♪

[Nando] E o Vasco da 'Gama conseguiu chegar na Índia.

Mesmo com as tempestades os monstros e todo mundo

chama ele de louco.

Muito bem, Fernando.

Esse é o próximo que você vai ler.

Fernando?

Obrigado.

[Nando] Por favor.

[Funcionária] O seu dinheirinho não paga o selo, querido.

[Nando] Mas eu só tenho isso.

[Rapaz] Manda a carta do garoto.

Lembra de mim? Ricardo.

Sou amigo da Sueli e sou seu amigo também.

[som do motor do carro]

[Ricardo] E aqui.

[som do motor do carro] [latidos ao fundo]

Pode encostar aqui.

[latidos ao fundo]

Vai lá.

Você quer?

[som do motor do carro]

[Sueli] Nando...

Cê acha que o pai vai me deixar sair com o Ricardo algum dia?

Não sei.

Me ajuda, Nando!

[Nando] Já sei de tudo.

Sabe de quê?

A Capitu é inocente.

Eu, hein.

[Locutor] O Presidente João Goulart,

que defende com ardor as reformas de base,

principalmente a reforma agrária,

comparece à grande concentração popular...

[campainha]

E expõe os altos propósitos do seu governo neste sentido.

[Professora] Essa é sua terceira advertência, não dá mais!

[Diretora] Já sabemos que você vai repetir de ano,

mas não pense que vai voltar pra essa escola o ano...

[Menina] Tá assustado?

[Nando] Não. Só vim falar com a professora Iolanda.

[Professora] No último dia de aula, Mariano!

Essa escola é um lugar de respeito!

[Menina] Acho que hoje não é o melhor dia.

A não ser que você queira entrar nessa fila...

[Professora] Essa é a sua desculpa?

Melhor não...

[Nando] Tchau. [Menina] Tchau.

[murmúrios ao fundo]

[burburinho]

[burburinho] [campainha da bicicleta]

[burburinho]

[Nando] Pai, sabe aquele meu amigo Mariano?

[Antônio] Mariano, sei... da escola.

[Nando] Tava na sala da diretoria.

[Antônio] Ai, Nando, é o que eu falo.

Tá na sala de aula, tem que fazer silêncio,

tem que prestar atenção na professora.

Os garotos ficam tudo fazendo bagunça...

[burburinho]

Quer um?

Me vê um quindim, por favor.

[Feirante] Sim, senhor.

[burburinho]

[Antônio] Obrigado.

[Feirante] Muito obrigado, senhor. Volte sempre.

E aquelas cartas?

São pra Alice?

Logo logo a gente volta lá pra fazer uma visita.

[Antônio] Combinado? [Nando] Combinado.

Agora eu preciso que você me ajude em uma coisa.

Sua mãe disse que a Sueli pediu autorização

pra sair com aquele tal de Ricardo.

Só que eu tive uma ideia melhor.

Lançamento, viu, o sonho de cinco a cada cinco brasileiros.

Achei esse aqui, pai.

[Vendedor] Aqui passam os sonhos de todo mundo...

Quanto custa essa televisão?

[Vendedor] Barato... duzentos mil.

[Nando] Nossa!

[Antônio] É...

É de doer no bolso.

[Locutor] A exibição de cães adestrados desperta o entusiasmo

dos presentes, que surpresos com a perícia...

[risos]

[TV continua]

[Nancy] Você inventou de comprar essa droga de televisão

com o dinheiro do lote, agora aguenta!

Que que ele tá fazendo aqui?

[Nancy] Como se só ele fosse o problema.

[Antônio] O que você tá fazendo aqui?

Vai lá vigiar a sua irmã!

O Tuniquinho tá lá.

O Tuniquinho sabe lá vigiar alguma coisa?

E eu não vou fazer comida pra esse monte de gente não, viu?!

E você? Quer o quê aqui?

Posso ir?

[Nando] Licença... Licença...

[Voz na TV] ...demonstram o desenvolvimento

da indústria automobilística brasileira.

[gritos de crianças]

[palmas]

[burburinho ao fundo]

[palmas]

[porta abrindo]

[Menina] Oi!

[Nando] Oi...

Aqui não é a casa da professora Iolanda?

Manhêêê!

Que aconteceu?

Pegou recuperação e veio aqui agradar a bruxa?

Cê pode começar limpando o quintal...

[Iolanda] Oi, Fernando. Tudo bem, querido?

[Nando] Oi, professora. Eu trouxe o livro,

porque não deu pra devolver no último dia de aula.

[Iolanda] É, filha, o Fernando lê e escreve muito bem.

Você devia aprender com ele...

[risadas]

[Menina] Aprender com ele, mãe?

[Iolanda] É, Iara. Aprender a gostar mais dos livros.

[Iara] Eu prefiro ver filme.

E você, gosta de cinema ou tem medo do escuro?

Porque, eu não sei se você sabe, mas lá é tudo escuro.

[Iolanda] Iara!

Mãe, ele vem do meio do mato...

[tilintar de louça]

Desculpa, professora, mas eu tenho que ir.

[Iolanda] Ô Nando... [Nando] Tchau.

[Iolanda] Tchau, querido.

[burburinho] [ruídos metálicos]

[Capataz] Não adianta, que aqui ninguém vai ser recontratado.

[Jorjão] Mas isso é um absurdo!

Não podem mandar embora quem se acidentou trabalhando!

[Capataz] Eu tenho culpa de quê? E ordem de cima!

E vocês se não quiserem ter a mesma sorte, vai trabalhar!

[Homem] Esquece, Jorjão. Não adianta não.

Melhor você voltar pro trabalho.

[Antônio] Que que houve?

[Jorjão] O de sempre. Ele só faz o que ele quer.

[Gerente] Antônio! A ordem de serviço.

Vai logo, vai.

[ruídos metálicos]

Tá tudo bem, pai. O Antônio tá bem colocado.

A Sueli e o Tuniquinho tão mandando um abraço pro senhor.

[Tuniquinho] Eu quero falar, mãe!

[Nancy] Só um minuto, pai.

O Tuniquinho quer falar com o senhor.

[Jorjão ao fundo] Os companheiros foram demitidos

depois de um acidente de trabalho...

[Tuniquinho] Oi, vô, eu quase peguei uma galinha!

[risos]

[Jorjão] 0 Zepa, por exemplo.

Nos documentos constava que ele estava lá há 15 dias,

quando na verdade você estava há mais de seis meses...

[Zepa] Mais de sete meses...

[Jorjão] É só olhar pro companheiro do lado

que você vai ouvir a mesma coisa.

[Padre] O que eu queria falar pra vocês é o seguinte.

Eu acompanho a luta de vocês na construção de Brasília

desde que eu cheguei aqui, em cinquenta e nove.

Nós que somos cristãos não podemos apenas

ficar esperando uma vida melhor.

Nós temos que construir essa vida melhor aqui na Terra,

porque todos nós somos iguais perante Deus.

O que eu ouço falar por aí,

que quem luta por melhores condições de trabalho,

por mais justiça no trabalho...

Isso é só coisa de sindicalista, de comunista, de socialista.

Um monte de "ista" que tem por ai.

[risos]

Eu não sou nada disso.

Ninguém nessa vida vai ser feliz de verdade

admitindo a opressão prevalecer sobre os homens.

Jesus Cristo lutou por igualdade pra todos.

E nós, que somos filhos de Deus,

não podemos aceitar a injustiça e a opressão!

[aplausos]

[Antônio] Não sei não, Nancy.

É tanta pobreza nessa cidade...

[Nancy] Para de pensar errado, Antônio.

Os meninos tão estudando.

Aqui eles vão ter um futuro garantido.

Você pode até ter razão...

Mas às vezes eu acho que aqui não é Evilath não.

[suspiro]

Evilath... Evilath...

Isso é história pra criança, homem!

♪ suave ♪

♪

[Nando] Existe ouro escondido em Evilath.

Mas só os sonhadores podem ver.

Evilath não é uma mina para loucos.

Evilath é o paraíso para poucos.

Mas a gente tem que construir e fazer crescer.

♪

♪ [burburinho]

♪ [batidas na porta]

[porta abrindo]

[Nando] Acordou agora?

[Iara] Entra. Deixa de ser medroso...

Minha mãe saiu. E vai demorar pra voltar...

Então tá. Eu já vou indo.

[Iara] Espera aí. Você não veio ver um livro?

[Nando] É. [Iara] Então, vem cá.

Deixa eu te mostrar uma coisa.

[porta abrindo]

Escolhe o que quiser.

[Nando] Nossa...

[Iara] A minha mãe anota tudo aí nessas etiquetas.

♪ orquestrada ♪

Literatura brasileira, literatura estrangeira...

Não tem de política?

[Iara] Pra que você quer livro de política?

♪

[suspiro]

[tilintar de louça ao fundo]

[Nando lendo em francês]

[Iara] Você lê muito devagar.

[Nando] E que tá em francês.

Mas você sabe francês?

Eu não achei o que eu queria.

[Iara] Porque você não procura numa Biblioteca?

Você é esquisito.

Esquisito, mas é bonitinho...

[riso]

♪ Depois que eu beijei ele ♪

♪ Nunca mais amei ninguém ♪

♪ Que beijinho doce foi ♪

[Sueli] Oi, Nando. Ainda bem que você chegou.

Por que você tá passando minha roupa?

Porque a gente vai no cinema com o Ricardo.

O pai mandou te levar.

[Nando] Ah, não vou não. Vou ficar segurando vela?

Ai, Nando, vamos...

O pai não vai deixar eu ir sozinha com o Ricardo.

Vai...

Vamos...

[Nando] Então tá. Só se eu levar alguém.

[risos]

[Antônio] Você fica de olho nesse Ricardo, hein?

Não deixa ele ficar se encostando demais na Sueli não.

[Nando] E o dinheiro do ingresso?

[Antônio] Ele paga.

Ele paga o ingresso, ele paga as balas,

ele paga tudo que você quiser.

Vai.

[burburinho]

[burburinho] [som do motor do carro]

[Iolanda] Juízo, hein, filha?

[Iara] Oi. [Nando] Oi... Tchau.

[Iolanda] Tchau.

[Ricardo] Vamos lá que já vai começar.

Boa noite, são duas, por favor.

[Sueli] São três.

[Ricardo] Claro, são três... Desculpa.

[Nando] Na verdade, são quatro.

[Ricardo] Tá certo. São quatro.

Obrigado. Vamos lá?

[som de motor de carro ao fundo]

Bomba hidrogenada. Cirurgia plástica. Coeficiência RH.

Jato à propulsão. Avião supersônico. Terceira dimensão.

Chega!

Que que há, rapaz? Tá ficando maluco?

[risadas]

[risadas]

Odete!

Eu não sou Juscelino, não construí Brasília.

Como é que veio estourar um candango na minha mão, Odete?!

[Odete] Agora nós estamos sozinhos.

Diz quem gosta de mim.

E me dá um daqueles beijos de artista francesa.

[Homem] Dedé...

[risadas]

A porta tá fechada!

A porta tá aberta. Empurra pra dentro!

[filme continua ao fundo]

♪ suave ♪

♪

[clique do interruptor]

[Nando] "Querida Alice. Tô com muita saudade.

Penso em você o tempo todo e não vejo a hora de te encontrar.

Nunca vou olhar para outra menina."

[porta abrindo]

[porta fechando]

[burburinho]

[Iara] Oi! [Nando] Oi.

[Iara] Já tá com saudade?

[estalo do beijo]

[Nando] Preciso te contar uma coisa.

[Iara] Que foi?

Eu já tenho namorada.

Agora já é tarde.

Você vai ter que falar pra ela que eu tô grávida.

Grávida?

[risos]

Seu bobo! Eu tô brincando. Beijar não engravida.

Então tá tudo bem?

Aham.

E você achou o livro que estava procurando?

[Nando] Aqui não tem biblioteca. E Brasília é muito longe.

[Iara] Você tá com medo de ir até Brasília?

Pega um ônibus e vai!

[Nando] Vou pensar. Tchau. [Iara] Tchau.

[Locutor] Membros da ofícialídade militar

manifestaram seu desagrado com a posição neutra

do Presidente Jango frente à rebelião

de sargentos da Aeronáutica e da Marinha,

preocupados com a quebra dos princípios de hierarquia

e disciplina das Forças Armadas.

O Governador Carlos Lacerda deu entrevista inflamada ao jornal

Los Angeles Times criticando o presidente e seu governo.

[ruídos metálicos]

Pai?

[Antônio] Ahn?

O senhor vai sair agora?

[Antônio] Ahn.

[Nando] O senhor pode me dar uma carona?

[pressão de vapor] [ruídos metálicos]

[tosse]

♪ suave ♪ [som do motor do ônibus]

♪ [som do motor do ônibus]

♪

[Nando] Sabe aonde fica a biblioteca pública?

[Porteiro] É logo ali. [Nando] Obrigado.

♪

♪ diminui ♪

[Narrador] Naqueles livros, eu comecei a descobrir

que há muito tempo homens e mulheres tentavam encontrar

o seu Evílath.

Cada um à sua maneira.

E essa busca, assim como a do meu pai, era uma busca sem fim.

[Bibliotecária] Vamos fechar. Fechamos às seis horas.

[Nando] Posso levar esses livros emprestados?

[Bibliotecária] Tem que fazer uma ficha.

Você tem comprovante de residência?

[som do motor do ônibus]

[Nando] Com licença...

A senhora sabe se é aqui que passa o ônibus pra Taguatinga?

[Mulher] É, sim. Olha, mas o último já saiu... às seis horas.

Obrigado.

[Telefonista] Sua ligação, dona Solange.

[toque de telefone]

[Solange] Alô? Mãe, que saudade.

Não sei quando eu volto ainda...

[Telefonista] Fernando!

Sua ligação, na cabine um.

[Nando] Obrigado. [Telefonista] De nada.

[toque do telefone]

Oi. É do Centro?

♪ A Noite Do Meu Bem, por Dolores Duran ♪

♪ Hoje eu quero paz de criança dormindo ♪

[Nancy] Nando!

♪ E abandono de flores se abrindo ♪

♪ continua ♪

[Antônio] Você quase matou a sua mãe do coração!

Vi tanto livro lá na biblioteca, pai...

Não tem desculpa, filho!

Imagina se acontece alguma coisa...

[Marina] Na sua escola não tem biblioteca?

[Nando] Não.

Só os livros da Professora Iolanda.

[Marina] O que você tá procurando?

♪ continua ao fundo ♪

♪

[Antônio] Fala, Nando.

É um livro sobre as coisas que o Padre Alberto falou.

E o Padre Alberto não tem?

[Nando] Não sei...

[Antônio] Então tá faltando uma biblioteca aqui?

Será que não dá pra dar um jeito de arrumar uns livros, Marina?

Posso tentar conseguir alguma coisa.

[passos]

[Antônio] Ei!

O combinado com a sua mãe era que você vinha trabalhar aqui

em troca do castigo...

Não era pra ficar sentado lendo...

[Marina] E escrever?

[Marina] Aqui, o espaço é aqui.

[som das teclas da máquina de escrever]

[Antônio] Esse aprende rápido!

[som das teclas]

[Marina] Eu vou precisar da sua ajuda semana que vem,

acho que consegui resolver a história dos livros.

[som das teclas] [sinal sonoro da máquina]

[Voz na TV] Lançamento de uma nova linha de penteados.

A linha leoa, que lembra até certo ponto o estilo Cleópatra.

Boa moldura para o rosto, valorizando traços

e compondo a personalidade.

♪

[aplausos]

♪ ll Ballo Del Mattone, por Rita Pavone ♪

♪ Não seja ciumento ♪

♪ Se com os outros danço o twist ♪

♪ Não seja furioso Se com os outros danço o rock ♪

[Nando] Iara, desce daí. Minha mãe vai brigar.

[Iara] Sua mãe tá em casa? Dona Nancy!

[Nando] Iara! [Iara] Tá bom...

[Iara] Então vem dançar.

[Nando] Não gosto. [Iara] Não gosta ou não sabe?

♪ Não provoque briga Se com os outros danço o twist ♪

♪ Não me faça as cenas Se com os outros danço o rock ♪

♪ Contigo, contigo, contigo ♪

♪ Que és a minha paixão ♪

Não sei fazer isso não.

♪ Eu danço, O baile do ladrilho ♪

♪ Não seja ciumento Se com os outros danço o twist ♪

♪ Não seja furioso Se com os outros danço o rock ♪

♪ Contigo, contigo, contigo ♪

♪ Que és a minha paixão ♪

♪ Eu danço, O baile do ladrilho ♪

♪ Não seja ciumento Se com os outros danço o twist ♪

♪ Não seja furioso Se com os outros danço o rock ♪

♪ Contigo, contigo, contigo ♪

♪ Que és a minha paixão ♪

♪ Eu danço, O baile do ladrilho ♪

♪

[Locutor] E esse é o novo sucesso da cantora italiana

Rita Pavone, II Ballo Del Mattone.

[aplausos] [respiração ofegante]

[ruídos metálicos]

[Iara] Quem chegar primeiro escolhe o doce.

Eu quero esse aqui.

[murmúrios]

[Jango] Não apenas pela reforma agrária,

mas pela reforma tributária,

pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto,

pela elegibilidade de todos os brasileiros.

Pela pureza da vida democrática.

[Antônio] Isso!

Pela emancipação econômica, pela justiça social,

e ao lado do povo pelo progresso do Brasil!

[Antônio] Esse é meu presidente.

[Ricardo] Isso é uma provocação de um comunista baderneiro.

Como é que é?

Olha aqui, rapaz.

Ninguém fala mal do presidente João Goulart na minha casa.

[Ricardo] Então é assim?

[Antônio] É assim!

Pois muito bem, seu Antônio.

Sueli.

[porta abrindo e fechando]

[trânsito]

[burburinho]

O que tá acontecendo, Jorjão?

[Jorjão] Demitiram cinquenta companheiros sem motivo.

E não vão pagar indenização.

Não é possível...

[Voz ao fundo] Ou entra ou sai da frente!

[buzina]

[Voz masculina] Dá licença aí, pessoal.

[som do motor do caminhão]

[Voz masculina 2] Dá licença, dá licença.

[Colega 1] Demitiram todo mundo, Antônio.

[Colega 2] Não vão pagar ninguém.

[burburinho]

[Jorjão] Chegou a hora de mostrarmos a força

dos trabalhadores, e provarmos que estamos unidos na luta

pelo Brasil e pelas reformas de base!

[Voz masculina] Temos que nos unir contra a injustiça

dos patrões e apoiar o Presidente Jango.

Os direitistas e os conservadores não vão ter

vida fácil com a gente.

Segunda-feira vamos fazer uma greve geral da construção

civil e vamos parar Brasília!

[aplausos]

[murmúrios]

[Narrador] Meu pai continuava em sua luta

para construir Evilath.

E foi com a ajuda dele que minha primeira biblioteca

virou realidade.

[Padre] Pronto, professora. Precisando, é só chamar.

[Iolanda] Obrigada, Padre Alberto.

E esse aqui, professora?

Pode ser nessa segunda prateleira, Nando.

[Narrador] Eu acreditava que os livros poderiam mudar o mundo,

algum dia.

Ou pelo menos...

mudar as pessoas.

[Nancy] Não tem mais açúcar, Seu Joaquim?

[Joaquim] Tá faltando açúcar, tá faltando feijão!

Tudo culpa destes comunistas aqui.

[Manda] Hoje faz um ano que não te vejo.

Aquí tudo vai bem,

mas as pessoas estão ficando meio loucas...

[estrondo]

Que susto, Iara!

Minha mãe pegou estes livros aqui e levou lá pra casa.

Hummm, uma carta...

[Nando] Me dá isso aqui!

Esta carta não é sua. Entendeu?

[Iara] Quem não entendeu foi você, Nando...

Essa namorada... ela não existe!

É mentira sua.

♪ suave ♪

♪

[Locutor] A Marcha da Família com Deus Pela Liberdade

levou hoje às ruas da capital paulista,

mais de 500 mil pessoas...

[Narrador] Naqueles dias eu pensava que o Brasil

ia entrar em guerra.

Construir Evílath estava a cada dia mais difícil e perigoso.

A reação ao discurso do Presidente Jango

em defesa das reformas foi brutal.

[TV ao fundo]

[Nancy] Não se mete nessa história de greve, Antônio.

[Antônio] O que eles estão fazendo é uma injustiça.

[Nancy] Eu sei, homem. Mas você não tem nada a ver com isso.

[Antônio] Não tenho nada a ver com isso...

Tudo amigo meu, trabalhador inocente.

[Nancy] Se você se meter vai sobrar pra você,

e vão parar de te chamar para fazer os fretes.

[Nando] Mas, mãe...

[Nancy] Tá indo tão bem, Antônio...

pra que estragar tudo isso?

Isso aqui não é o paraíso.

Pensa nos meninos.

A gente chegou até aqui,

não vamos perder o pouco que a gente tem.

[Nando] O pai tá certo. Tem muita coisa errada acontecendo.

[Nancy] Viu o que você fez, Antônio?

Até o Nando tá se envolvendo nessa história.

Eu não vou permitir os meninos participando disso.

[Antônio] Vai dormir, Nando.

Vamos dormir também.

[canto de galo]

[porta abrindo e fechando]

[Nando] Pai!

Entra pra dentro de casa, Nando. Sua mãe vai ficar preocupada.

Eu deixei um bilhete avisando, tá tudo bem.

Sua mãe tem razão.

Isso não é coisa pra criança.

Eu não sou mais criança, pai...

[Multidão] Greve! Greve! Greve!

[vozerio]

[Voz masculina] Pelego!

[Multidão] Pelego, pelego, pelego!

[vozerio]

[Jorjão] A direção da empresa aceitou a recomendação

do governo de recontratar os trabalhadores demitidos!

Vão começar a negociação com o sindicato!

[gritos]

[Multidão] Vitória! Vitória! Vitória!

[Locutor] Após se recusar a punir os Marinheiros

e Fuzileiros Navais...

O Presidente João Goulart apareceu hoje

no Automóvel Clube do Brasil e declarou em um pronunciamento

que existe uma poderosa campanha contra o governo.

O Deputado Federal Leonel Brizola discursou

a favor de Jango, mantendo sua posição de apoio ao governo.

Nenhum representante das Forças Armadas se pronunciou.

[Jorjão discursando ao fundo]

[risos]

[Sueli] Eu tenho que ir. [Ricardo] Não.

[Ricardo] Você não tem que ir agora não...

[Sueli] Preciso ir, senão meu pai vai perceber que eu sumi.

Tô preocupado com ele...

Fala pro teu pai tomar cuidado, Sueli.

A festa dos comunistas tem hora pra acabar.

Meu pai não é comunista.

Eu tô passando o recado.

Presta atenção na turma com quem teu pai tá andando.

O Tenente mandou avisar todo mundo aí.

[Padre] E hoje nós temos mais um motivo pra comemorar.

É que hoje, graças ao esforço de vocês, da nossa comunidade,

nós estamos inaugurando a nossa primeira biblioteca!

Eu queria chamar aqui, no palco,

dois dos futuros frequentadores assíduos dessa biblioteca:

A professora Marina e nosso querido Fernando.

[aplausos]

♪ suave ♪

Quero agradecer a todo mundo que ajudou a fazer nossa biblioteca.

Ao pessoal do Centro Comunitário,

à professora Iolanda, à Marina,

ao Seu Jorjão e ao padre Alberto.

Mas o meu agradecimento especial

é para uma pessoa que inspirou tudo.

Uma pessoa que quer melhorar o que não tá bom.

Meu pai, Antônio.

♪ [aplausos]

Quer matar seu pai de tanta emoção, menino?

♪ [aplausos]

Jorjão...

Padre Alberto... Obrigado.

♪

[Nando] Oi, Professora.

Por que a Iara não veio?

A Iara estava triste.

E eu também tô um pouco, Fernando.

[Nando] Por quê?

Você não entende, mas eu tô muito preocupada

com a sua biblioteca.

A Iara trouxe estes livros pra cá, não foi?

[Nando] Foi. Mas são só livros, professora.

Os livros nunca são só livros.

E a Iara está de castigo,

ela não devia ter trazido pra cá os livros que levei.

[rosnados e latidos] [murmúrios ao fundo]

[batidas na janela]

♪ romântica ♪

[janela abrindo]

[Nando] Dá licença.

♪

[sussurrando] Tranca a porta.

♪

[ruído da maçaneta]

Você tá louco?

Minha mãe tá em casa, se ela te ver aqui ela vai te matar...

♪

[Nando] Eu gosto de você, Iara.

♪

E sua namorada de mentira?

Eu quero namorar com você, Iara.

♪ continua ♪

Você quer namorar comigo?

[batidas na porta]

[Iolanda] Iara!

[sussurrando] Vai!

[Iolanda] Iara? Tá trancada por quê?

[Nando] E aí? [Iara] Amanhã eu te falo, Nando!

[Nando] Amanhã então!

♪

♪ [portão abrindo]

♪

[tiro]

[Locutor] Leonel Brizola convoca o povo para se organizar

contra uma possível tentativa de golpe

para estabelecer uma ditadura.

[Locutor 2] Atenção, Brasil. As tropas do segundo exército,

sob o comando do General Kruel!,

já sitiaram o Estado da Guanabara.

[Locutor 3] e m Santos, os três navios da esquadra...

[Locutor 4] O General Mourão Filho iniciou o movimento

deslocando suas tropas de Minas Gerais

em direção do Rio de Janeiro.

[Locutor 5] O Governador Carlos Lacerda saíu armado à rua

para enfrentar os Fuzileiros Navais.

[Carlos Lacerda] Almirante Aragão! Assassino, monstruoso!

Incestuoso miserável.

Almirante Aragão, não se aproxime

porque eu te mato com o meu revólver!

[Locutor] O Presidente deixou a sede do governo.

Deixou a nação acéfala

numa hora gravíssima da vida brasileira...

Abandonou o governo...

[tiros]

O Presidente João Goulart fugiu do país

seguido de outros elementos do governo deposto.

o Palácio Guanabara deu nota oficial informando...

o presidente americano Lyndon Johnson

reconhece oficialmente o novo governo brasileiro...

[tiros] [gritos]

[Antônio] O Jorjão!

Tão levando o Jorjão!

[Nancy] Não se mete. Você não tem nada a ver com isso.

[Sueli] O Ricardo falou pra tomar cuidado, pai.

Disse que esse pessoal do centro é tudo comunista.

[Antônio] Esse Ricardo pra mim é um merda.

[Nancy] Tô com medo, Antônio.

[Antônio] A gente não fez nada. A gente não é criminoso!

[Nando] Olha a fumaça, pai!

[Nancy] Sai da janela, Nando! Sai da janela.

[Nando] Deve ser no Centro!

[gritos] [tiros]

[Nancy] Antônio! Antônio!

[Nancy] Você fica aqui, entendeu? Até seu pai voltar!

[tiros]

[Nancy] Nando!

[estalos do fogo]

[Antônio] Padre!

[Militar] Parado ai!

♪ triste ♪

♪ [g ritos ao fundo]

[Militar] Sai, comunista!

♪

[Tenente] Esse aí não é o seu sogro, cabo Ricardo?

[Ricardo] É, sim senhor.

Mas eu acho que ele não tem importância nenhuma,

é um Zé Ninguém!

[Antônio] Foram vocês que botaram fogo!

Foram vocês, seus covardes! Não foi?

[Marina] Fica quieto!

♪

[Antônio] Rato! Covarde!

[Tenente] Fica quieto! Se não vai levar mais!

[Nando] Pai!

♪

[Narrador] Evilath não existia mais para nós...

nem em Brasília, nem em nenhum outro lugar da terra.

Os militares chegaram.

O presidente João Goulart fugiu do país.

Estavam mesmo ficando todos loucos.

[Senador Auro de Moura Andrade] Para o fim de restaurar

nesta pátria conturbada

a autoridade do Governo, e a existência de governo,

não podemos permitir

que o Brasil fique sem Governo, abandonado.

Está sob a nossa responsabilidade

a população do Brasil, o povo, a ordem.

Assim sendo, declaro vaga a presidência da República!

[zunido do vento]

[batidas na porta]

[respiração profunda]

[batidas na porta]

[respiração profunda] [batidas na porta]

[passos]

[porta abrindo]

[Nancy] Oi, pai. [Simeão] Oi, minha filha.

[Sueli] Oi, vô Simeão. [Simeão] Oi, Sueli.

[Nancy] Cadê ele, Ricardo?

[Ricardo] Não se¡ onde foi. Não adianta procurar em delegacia.

[Nancy] Tá me pedindo pra cruzar os braços e esperar

notícia ruim pela TV, é isso?

[Ricardo] Não tem o que fazer agora,

ele deve estar sendo interrogado em algum lugar.

Ele só precisa colaborar.

[Simeão] Você não é bem vindo aqui, Ricardo.

Vai embora, por favor. Respeite essa família.

[passos]

[porta abrindo e fechando]

[som de motor de carro ao fundo]

A Iara quer falar com você, filho.

Tá preocupada.

[respiração profunda]

[respiração profunda]

[Locutor] Declaro empossado

na presidência da República dos Estados Unidos do Brasil,

Sua Excelência,

o senhor Humberto De Alencar Castelo Branco.

[aplausos]

[Castelo Branco] Defenderei e cumprirei com honra e lealdade

a Constituição do Brasil.

[aplausos]

Caminharemos para a frente com a segurança de que o remédio

para os malefícios da extrema esquerda não será o nascimento

de uma direita reacionária.

[aplausos]

[Narrador] Sangue.

Dor.

Escuridão.

O paraíso de meu pa¡ havia se transformado no inferno

para nós.

À noite, eu sonhava com demônios e dragões fardados.

Os primeiros personagens sombrias

dos livros que um dia eu iria escrever.

♪ triste ♪

♪

[suspiro]

Vai tudo entrar nos eixos, meu filho.

Eles já deram notícias do seu pai.

♪ continua ♪

Ele tá passando bem.

Ele vai voltar.

Logo logo seu pai tá em casa de novo.

♪ [murmúrios]

[Tenente] Como tá lá?

[Homem] Mais uns dois ainda.

Estão sumidos, mas a gente acha eles rapidinho.

[Tenente] Quero os dois aqui logo.

♪

[Nancy] Ei...

Com essas caras, o Antônio vai ver isso e dar meia volta!

[Simeão] Sua mãe tem razão.

Cadê o sorriso de quem tem saudade do papai?

Hein?

Tá na hora de dar apoio a ele.

[portão abrindo]

[rangido do portão]

[rangido do portão]

[portão fechando]

[respiração ofegante]

[Nancy] A gente não vai descansar

enquanto não te tirar daqui.

Tá todo mundo se unindo pra ajudar.

Todo mundo gosta de você...

[Antônio] Nancy...

Seu Simeão...

Eu quero pedir uma coisa pra vocês...

Levem as crianças de volta pra Minas.

O mais rápido possível.

Se é que eu posso ainda pedir alguma coisa pro senhor,

seu Simeão.

[Guarda] Trindade.

[burburinho ao fundo]

Leva a sua mãe e seus irmãos de volta pra casa.

E cuida deles.

[respiração profunda]

[Guarda] Trindade.

[rangido do portão]

[respiração ofegante] [portão abrindo]

[rangido do portão]

[portão fechando]

[porta abrindo]

[latidos ao fundo]

[porta abrindo e fechando]

[Nancy] Oi, Iara. [Iara] Oi.

[Simeão] Boa tarde. [Iara] Boa tarde.

[Iara] Oi. [Nando] Oi.

[Iara] Tudo bem? [Nando] Tudo.

Você vai mesmo?

[Nando] Vou pra casa do meu avô.

Então vamos combinar uma coisa?

Você promete que volta,

eu fico te esperando

e quando você voltar,

aí eu te respondo aquela pergunta que você me fez.

Minha mãe mandou.

Um livro...

Coisas da dona Iolanda.

[Nando] "Brigada"

♪ suave ♪

♪

Tchau.

[Nando] Tchau.

♪

♪ [som do motor do caminhão]

♪

[Narrador] Eu vi aquelas casinhas pobres

ficando para trás, assim como tinha ficado para trás

o sonho do meu pai.

Para trás ficavam também o padre Alberto, Marina...

Jorjão e Iara,

meu primeiro amor de adolescente.

♪

Quando o caminhão passou perto de Brasília

para tomar o caminho de Minas,

minha mãe não quis olhar as luzes da cidade.

Ela nunca mais ia querer ver Brasília,

para o resto de sua vida.

♪

♪ [som da chuva]

[canto de pássaros]

[som de água]

[Nando] Bom dia.

Posso ajudar?

Tô procurando pela Alice...

[Mulher] Se for a menina que morava aqui,

parece que ela mudou de cidade. Acho que a mãe dela morreu...

"Brigada"

[Mulher] De nada.

Ô...

Você conhece algum Fernando?

Eu me chamo Fernando.

Pera só um pouquinho ai.

Acho que isso é seu.

♪ lenta ♪

♪

♪ [ruídos metálicos]

♪

♪ [respiração profunda]

♪

♪ intensifica ♪

[Nando] Pai!

♪

♪ diminui ♪

♪

[passos]

Você tem ido à escola?

Tô ajudando o vô na plantação.

[canto de grilos ao fundo]

[gemido de esforço]

[gemido de esforço]

[mugido ao fundo]

[mugido ao fundo] [respiração ofegante]

[canto de pássaros] [som do trote do cavalo]

[Simeão] Por que você tá colocando a cerca aí, Antônio?

O gado vai beber água onde,

se ele não consegue chegar no riacho?

Do outro lado, Antônio! Eu te falei. Do outro lado!

[som de água]

[suspiro]

[porta abrindo]

[porta fechando]

♪ lenta ♪

♪

♪ [porta abrindo]

♪

♪ intensifica ♪

♪

♪ [sibilo da cobra]

[estrondo]

[estrondos] [gemidos]

[respiração ofegante]

[respiração profunda]

♪

[passos] [roncos]

[roncos]

[canto do galo ao fundo]

Nando.

[estalo do beijo]

Nando, filho...

O pai teve um sonho.

Um sonho lindo.

Quer ouvir?

Quero.

[Antônio] Eu acho que se te contar vai me ajudar a entender

esse sonho.

E acho que vai te ajudar também a...

encher todas as páginas em branco do seu livro.

Eu estava...

no meio de uma floresta...

♪ suave ♪

[Narrador] Naquele país agora ocupado pelos militares,

não havia mais lugar para nossos sonhos.

Acho que foi naquele momento que meu pai compreendeu

que não seria mais possível construir o paraíso ali.

♪

Pra reencontrar a alegria e o sentido de viver

teríamos que sair outra vez pelo mundo.

♪

[Antônio] Vamos embora, gente?

[Nancy] Embora pra onde, homem?

[Nando] O pai encontrou uma serpente enorme no caminhão.

[Nancy] De novo, Antônio?

♪

De novo.

♪

[Narrador] E eu finalmente entendi todo o sentido

de sua jornada, por mais louca e desvairada que fosse.

Assim, meu pa¡ continuou correndo o mundo

atrás de seu sonho, o seu adorado país de Evilath,

que jamais encontrou.

E eu o amei por isso, por essa grande lição.

O sentido da vida pode não ser alcançar um sonho,

mas apenas lutar por ele com todas as forças.

E é essa busca incessante que nos alimenta...

enquanto nos dura a vida.

♪

Legendas Inclusivas IGUALE

♪ Ventos Irmãos, por Milton Nascimento ♪

♪

♪ Ventos irmãos não sopram em vão ♪

♪ carregam meus sonhos em suas mãos ♪

♪ Correndo a imensidão ♪

♪ Esperando meu coração ♪

♪ Forte é o calor que leva ao torpor ♪

♪ Meu corpo ausente nega a dor ♪

♪ Buscando no amanhã ♪

♪ A luz de um talismã ♪

♪ Quem sabe ao longe encontrarei ♪

♪ Os prantos que derramei ♪

♪ E não querer mais que os homens larguem a fé ♪

♪ Há dor ♪

♪ Há pedras no amor ♪

♪ Distante de ver ♪

♪ Tão perto de ter ♪

♪ Ventos irmãos que sopram em vão ♪

♪ Que trazem o fogo e o frio às mãos ♪

♪ São ventos do coração ♪

♪ São vidas que vem e vão ♪

♪ Embora eu não veja pra onde vou ♪

♪ Não vou deixar de sonhar ♪

♪ E não desistir daquilo que faz meu viver ♪

♪ Sorrir, andar, partir ♪

♪ O novo e o bom eu sempre irei buscar ♪

♪ Irei buscar ♪

♪ Irei buscar ♪

♪ Ventos irmãos que perdem a razão ♪

♪ Que lambem os corpos sem vida ♪

♪ De sonhadores como eu que o tempo não escolheu ♪

♪ Eu sinto o vento que sopra em mim ♪

♪ E o sopro não vai ter fim ♪

♪ Não vou querer mais que os homens arranquem a fé ♪

♪ Há dor, há pedras no amor ♪

♪ Distante de ver ♪

♪ Tão perto de ter ♪

♪

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