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Esta � uma hist�ria real.
Contei como aconteceu, sem enfeites.
Aqui, sob a ocupa��o alem�,
dez mil homens sofreram
v�timas dos nazistas.
Sete mil sucumbiram.
UM CONDENADO � MORTE ESCAPOU
OU
O VENTO SOPRA ONDE QUER
EXTRA�DO DO CONTO DE ANDR� DEVIGNY
ROTEIRO E DI�LOGOS DE ROBERT BRESSON
Eu podia sentir que estava sendo observado.
N�o me atrevi mover.
Nada quebrado, mas n�o era algo bonito de se ver.
Limpei-me.
As acusa��es contra mim eram t�o graves.
E eu ainda as agravara.
Por que eles n�o me fuzilaram?
No p�tio, me acostumei com a ideia de morrer.
Eu teria preferido uma execu��o imediata.
A batida do meu companheiro na parede n�o ajudava.
Minha coragem me abandonou e, por um momento, chorei.
Dormi t�o profundamente que os guardas tiveram que me acordar.
Levante!
Instintivamente, fingi estar muito fraco.
Fiz esfor�os enormes apenas para sentar.
Ser� que aquele pequeno truque salvou a minha vida?
Jogaram-me de volta, e eu estava sozinho novamente.
Minha cela media menos que 3 metros por 2.
Tinha poucas coisas.
Um estrado de madeira com um colch�o, dois cobertores.
Ao lado da porta, um sanit�rio.
E, na parede, uma estante de pedra.
Esta estante me permitia alcan�ar a janela.
No p�tio, em frente a mim,
3 homens, bem vestidos e barbeados circulavam livremente.
Tenha cuidado. Eu voltarei.
- Seu nome? - Fontaine.
O meu Thierry.
Posso mandar mensagens para fora?
Eu sei de um jeito.
Eu sabia que tinha que ser cauteloso.
Pegue isso.
Porque o estranho "sabia de um jeito",
tudo j� havia mudado para mim.
Apesar das algemas, consegui limpar meu rosto e meus ferimentos.
Logo, eu consegui me comunicar com meu vizinho,
um jovem ferreiro, ele matara um soldado alem�o numa briga.
Ele esperava pelo pelot�o de fuzilamento. Tinha 19 anos.
Com seu fio e meu len�o, fiz uma esp�cie de saco.
D�-me as suas cartas amanh�.
Para dar � minha fam�lia esperan�as que eu mesmo n�o tinha,
mas principalmente para avisar meus l�deres que o transmissor que eu estivera usando
estava ajudando os alem�es, que haviam descoberto nossos c�digos.
Decidi correr o risco.
E que risco!
Dar cartas para um estranho.
Colocava a mim e ao meu grupo em perigo.
Poder�amos ser vistos
ou sermos pegos de surpresa.
Voc� tem um alfinete?
Alfinete?
Espere.
Ele foi at� o alojamento das mulheres.
Um presente delas.
No papel, escrito com letra feminina, a palavra "Coragem".
Havia tamb�m um alfinete.
Meu companheiro teve que me explicar e isso demorou um tempo.
Eu n�o achava que era poss�vel.
A PRESS�O SOLTA A TRAVA
Estiquei meus bra�os e meus pulsos machucados.
Senti uma sensa��o repentina de vit�ria.
Como um favor especial,
o chefe dos guardas permitiu Thierry ver sua filha.
Fiquei sabendo disso muito depois.
N�o tinha ideia dos riscos que ele e sua filha estavam correndo.
Chegando em casa, ela selou e mandou as cartas.
Suas cartas foram mandadas ontem. Elas chegar�o hoje.
Obrigado, obrigado!
Voc� fez seu dever. As cartas devem ter ajudado.
Olhe!
Tenha cuidado.
Ent�o, tenente Fontaine,
voc� aceitou sua derrota?
Deixe-me ser franco. Em seu lugar eu tamb�m teria pulado do carro.
Agora me prometa que voc� n�o ir� mais tentar fugir.
Eu prometo.
Que jogo era aquele?
Ele obviamente n�o acreditava em mim.
Quanto a mim, decidi escapar assim que poss�vel.
Ser� que ele esperava me ver pular de felicidade?
Minha primeira refei��o em 4 dias.
Eu passava mais e mais tempo na janela.
Estudava o p�tio, as paredes, a enfermaria.
Inconscientemente, me preparava.
Sabia que as execu��es aconteciam dentro da pris�o.
Um pensamento terr�vel cruzou minha mente.
Ele estava l�.
Passei o dia batucando
a m�sica do batalh�o que ele pedira para aprender.
Era a �nica ajuda que eu podia dar para ele.
No pr�ximo dia, o chefe dos guardas veio falar comigo.
Jaqueta.
Toalha.
Sa� do primeiro andar
para a cela 107 no �ltimo andar.
� minha direita, ningu�m. Uma cela vazia.
� minha esquerda, um vizinho que n�o respondia minhas batidas.
Olhei para as caras deles para ver como elas eram.
Olhei para as paredes tamb�m.
Novato?
Eu estava no andar de baixo h� 15 dias...
ou 15 anos!
Voc� se acostuma.
Acredite em mim.
Meu nome � Hebrard.
Sem conversa!
O meu � Fontaine.
Depois de esvaziar nossos baldes e limpar nossos rostos,
volt�vamos �s nossas celas para mais 24 horas.
Nada para fazer, sem not�cias, vivendo em uma solid�o terr�vel.
�ramos cem ou mais aguardando nosso destino.
Eu n�o tinha d�vidas quanto ao meu.
Escapar. Fugir.
A sorte e o �cio
me deram minha primeira chance.
Eu frequentemente sentava de frente para minha porta,
sem nada para fazer, al�m de olhar para ela.
Era feita de dois pain�is de seis t�buas de carvalho,
dispostas em espessuras iguais.
Em uma rachadura entre duas t�buas,
vi que a madeira que as juntava n�o era carvalho.
Eram de outra cor: �lamo ou faia.
Havia certamente uma maneira de desmontar esta porta.
Eu precisava de uma colher de ferro. Estanho ou alum�nio eram muito flex�veis.
Precisei esperar v�rias refei��es.
Fiz uma esp�cie de form�o.
N�o, as t�buas n�o eram juntas
por ripas do mesmo carvalho,
mas por feixes de madeira mole que a minha ferramenta poderia atravessar.
Imaginei que precisaria 4 ou 5 dias para cavar atrav�s de cada feixe,
cortando ou cavando a madeira.
Mas cada noite, na mesma hora, eu tinha que tomar ar.
Eu n�o podia trabalhar r�pido,
por causa do barulho e do medo constante de ser pego.
Eu precisava varrer debaixo da porta
com um peda�o de palha da minha vassoura.
Fontaine, voc� est� a�?
� voc�, Thierry?
Finalmente. Senti sua falta.
Estou indo embora.
Est�o deixando voc� ir?
Eles v�o me levar, Deus sabe para onde.
Como ele conseguiu evitar os guardas e chegar at� a minha cela?
Eu nunca soube.
Meu companheiro do andar de baixo?
Foi fuzilado h� dois dias.
Adeus.
A partida de Thierry, e a morte daquele amigo que jamais vi,
me deixaram desesperado.
Continuei trabalhando. Isso me impedia de pensar.
Eu tinha que abrir aquela porta. N�o tinha outros planos.
Um novo prisioneiro, pastor de Leyris,
ganhou minha confian�a e supriu minha necessidade de amizade.
Eles me prenderam em meu p�lpito. N�o pude pegar nada.
Nada?
�s vezes eu sonhava em ficar sozinho com a minha B�blia...
N�o tenho uma B�blia, mas tenho um l�pis.
� o suficiente.
Voc� tem que se manter ocupado... Escreva, tente manter a sanidade.
Eu tento.
Tr�s t�buas me dariam espa�o suficiente.
Em minha frente,
algu�m mantinha guarda. isto facilitou muito meu trabalho.
Mas o sil�ncio de meu vizinho me incomodava.
Podemos conversar. Eles est�o no andar de baixo.
Voc� est� com medo?
Eu sabia que ele estava ali. Tinha certeza.
Ele me assustou tanto, que eu n�o tive mais coragem de tocar na porta.
Tampei os buracos com papel que tirei do ch�o.
Ele olhou para n�s, perdido.
Aquela noite, na janela, Blanchet, que era o seu nome...
D�lares, Sr. Blanchet? Os d�lares pertencem ao senhor?
N�o, eles s�o de uma garota judia. Eu nunca havia visto ela antes.
Ela os deu para mim no dia em que foi capturada.
Como eles descobriram?
Uma carta em uma pilha de roupa suja.
Eles v�o liberar voc�.
N�o.
O que eu posso fazer por voc�?
Nada.
Deve haver algo...
Se voc� quer me ajudar, pare de arranhar.
Voc� vai destruir o ch�o todo.
Depois de 3 semanas,
trabalhando no maior sil�ncio poss�vel,
eu fui capaz de separar,
no sentido do comprimento, 3 t�buas.
Mas elas ainda estavam no esquadro,
presas por juntas que entortavam minha colher.
Para tir�-las do esquadro
eu precisava de outra colher.
S� assim eu conseguiria for��-las o suficiente.
A B�blia?
Tenho sorte.
Um milagre!
Desde ontem, tudo est� diferente.
Sil�ncio! Sem conversas!
Tamb�m tenho sorte.
Tirei o esquadro, mas mais do que eu pretendia.
Consegui colocar a pe�a de volta em seu lugar.
Por que faz�-lo?
Para lutar. Lutar contra as paredes, contra mim mesmo, minha porta.
Sr. Blanchet, deveria lutar tamb�m. E ter esperan�a...
Esperan�a de qu�?
De ir para casa, de ser livre.
Livre?
Algu�m espera por voc�...
Ningu�m.
Um amigo?
N�o tenho amigos.
Lute assim mesmo. Lute por todos aqui.
Pensar s� em si mesmo...
Por que voc� faz, ent�o?
Eu observo voc�. E isso me d� coragem.
Se eu tivesse coragem, me mataria.
Eu tentei. Fiz uma forca com meu cadar�o, o prego caiu.
E?
Eu ouvi algu�m batendo.
Fui eu. Por que voc� n�o respondeu?
Por qu�?
Estava com medo que algu�m abrisse ou fechasse minha porta violentamente.
Por sorte, dei um jeito eu mesmo.
- Como voc� est�? - Bem.
A sua esposa o denunciou, o traiu.
Coisas assim acontecem.
� a vida.
Que vergonhoso!
A vida dela n�o vale muito.
Ele n�o a matou?
Quase.
N�s pensamos que ele ia enlouquecer.
Agora ele � um novo homem.
Sua face n�o conhece mais o �dio ou o sofrimento.
O nome dele � Orsini.
Falando de mim, padre?
Eu disse que voc� � a pr�pria coragem.
Depois de um m�s de trabalho,
minha porta estava aberta.
Demorou foi coloc�-la de volta no lugar, camuflada.
Dentro, nenhuma ronda, nenhum guarda.
N�o havia nada de especial em andar nos corredores.
Mas eu tinha um objetivo.
SEM COMIDA NEM EXERC�CIO.
O que � isto?
Sou eu, da cela 107.
Imposs�vel.
Espere a�. Se precisar, eu volto amanh�.
A surpresa dele me deixou feliz.
Naquela noite, fui dormir menos infeliz.
Era voc� no corredor. N�o minta.
Era eu.
Voc� vai fugir. Como vai conseguir?
N�o fa�o ideia.
O chefe da guarda e o sargento dormiam no 1� andar.
O cabo no t�rreo, perto da porta, da qual ele tinha as chaves.
Essa porta fica fechada de noite.
Eu considerei todas as alternativas poss�veis,
e at� mesmo as imposs�veis.
Fiz mil planos. Nenhum era bom.
Leia e reze.
Deus vai salv�-lo.
Se n�s apenas O ajud�ssemos...
Voc� nunca reza?
�s vezes.
Quando as coisas v�o mal?
Assim � f�cil.
Muito f�cil.
Seria f�cil se Deus tomasse conta de tudo.
Voc� � o �nico aqui que pensa em fugir.
O �nico, porque � imposs�vel.
Leve-me.
Voc� n�o vai conseguir.
Eu tenho que conseguir. Os militares chamam isto de miss�o de reconhecimento.
Tenha cuidado.
Se �s 22 horas eu n�o estiver no corredor...
�s 22, eu estava sob a luz do c�u.
Eu temia o pior.
O plano de fugir da pris�o e de como desmontar a porta.
Leia e rasgue.
Acredite em mim, n�o sou a "coragem em pessoa".
Se voc� conseguir perdoar e esquecer.
Penso nisso,
mas � como se tivesse acontecido com outra pessoa.
Acredite em mim. Vai funcionar.
12 metros de corda, forte o suficiente para aguentar um homem.
Era o que eu precisava.
A rede do estrado, me deu 40 metros
de fio r�gido.
Fiz meu primeiro peda�o de corda com o travesseiro.
Coloquei o enchimento para dentro do colch�o.
Dobrei o tecido em quatro, com as dobras para dentro,
para evitar desgaste.
Torci com for�a.
Dobrando o fio na dire��o oposta
consegui deixar o tecido enroscado.
Sua porta?
Vou tentar de novo.
Tente, Orsini. Tente de novo.
Amanh�, vou Ihe contar se nos separamos ou n�o.
O que foi?
Muito demorado, muito complicado.
Tudo.
� a �nica maneira.
H� outra.
Diga.
Durante o banho de sol, com duas cordas e dois ganchos.
Que ganchos?
Ele n�o disse.
E os guardas fazendo rondas?
Ele espera at� que eles passem.
Onde?
No telhado. Ele sobe pela calha e se esconde.
Em plena luz do dia, v�o ach�-lo.
O plano dele n�o � bom.
No dia seguinte, n�o consegui falar com Orsini.
Ele foi levado para interrogat�rio.
E o interrogat�rio?
Eles nos tranquilizam e nos amea�am... voc� conhece as t�ticas deles.
Orsini est� feliz.
- Como vai? - Bem.
Voc� tem que se manter calmo.
- Voc� vai desistir? - V�o me libertar.
- Voc� acredita neles? - Sim.
Voc� tem raz�o.
Orsini!
Fui observado t�o de perto nos �ltimos 8 dias, que perdemos contato.
O que ele estaria tramando? Eu n�o entendia.
O que foi?
Onde est� Orsini?
Deus, d� uma chance para ele.
Ser� que eles v�o me fuzilar?
Seja forte, Orsini. Claro que n�o.
Minha corda quebrou na segunda parede.
Voc� vai precisar de ganchos, Fontaine.
Que ganchos? Como?
Com qu�?
A estrutura da lanterna.
Cuidado!
N�o culpe a si mesmo. Voc� n�o teria como impedi-lo.
Ele n�o podia mais esperar.
Por qu�? Por falta de esperan�a?
Esperan�a demais numa vida nova.
Vida nova?
Talvez tenha sido isto que Cristo quis dizer.
"Necess�rio � nascer de novo... "
Eu escrevi para voc�.
As palavras d'Ele a Nicodemos.
"Nicodemos disse: Como pode um homem nascer, sendo velho?"
"Por ventura pode tornar a entrar no ventre de sua m�e, e nascer?"
"Jesus disse: N�o te maravilhes de eu ter dito: Necess�rio � nascer de novo. "
"O vento sopra onde quer. Mas n�o sabes de onde vem... "
Voc� est� ouvindo?
Estou ouvindo.
� ele.
Tem certeza?
Certeza? Podemos ter certeza de alguma coisa?
Joguei tudo pelo ralo.
O terra�o sobre nosso pr�dio e as paredes externas
provavelmente tinham o mesmo tipo de borda.
Eu tinha que esperar. Estava pr�ximo.
O menor erro poderia ser fatal.
L�.
Estou vendo.
Era muito arriscado cruzar com eles durante as rondas
e escalar a segunda parede. Minhas for�as haviam diminu�do.
Vou jogar uma corda entre as paredes
e ir escalando por elas.
Voc� vai precisar de 2 ganchos para isto. 3 ao todo. Voc� os tem?
Terei.
Orsini tinha que falhar para que voc� conseguisse ter sucesso.
� extraordin�rio.
N�o estou Ihe ensinando nada.
Sim, est� sim.
O que � extraordin�rio � o que voc� acabou de dizer.
Eu fiz o terceiro gancho com as 2 barras menores.
Era t�o bom quanto os outros, em forma e for�a.
Com o fio, eu fiz 3 an�is
que eu juntei a cada gancho.
Meus testes mostraram que os ganchos e os an�is aguentavam minha puxada.
Acabei de ver 3 prisioneiros fuzilados por enviarem cartas escondido.
Mandaram falar � voc�s que todos os que enviarem cartas escondido ser�o fuzilados.
Todo mundo dever� entregar seus l�pis na hora do jantar.
A partir de amanh�, as celas ser�o revistadas.
Quem tiver um l�pis ser� fuzilado na hora.
Todo mundo entendeu?
Voc� vai dar o seu?
� melhor.
Sem conversa!
L�pis?
Sem l�pis.
Que idiotice... S� fiz para n�o ceder.
No dia seguinte, s� de pensar em ser revistado, fiquei paralisado.
Pacote.
Um pacote.
Poderia me salvar? Talvez.
Que outro jeito?
Pena, eu tinha que fazer.
Fiz tran�as, como vi minha m�e fazer no cabelo de minha irm�.
Rasguei tudo menos um len�o.
Usei o fio para amarr�-los.
Eu ia jogar isso de uma parede para outra.
Tinha que ser flex�vel.
Um arame n�o teria funcionado.
Al�m disso, n�o tinha sobrado mais nenhum.
Com o cobertor de Blanchet, eu tinha o suficiente para outra corda.
Agora s� nos deixavam sair em pequenos grupos.
A pris�o estava enchendo. Algumas celas tinham 2 prisioneiros.
Outros apareciam e desapareciam como fantasmas.
Eu vi um com um terno de noivo.
Fontaine deveria ir o mais breve poss�vel.
A ficha dele n�o � boa.
Ele � um dedo-duro.
E se for verdade?
O Fontaine fala demais. Isso n�o � prudente.
Faltou for�a, padre?
Estou na cela do pastor.
Ele � uma boa companhia.
Temos que avis�-lo.
O que ser�, ser�. N�o podemos controlar o destino.
Ele pode.
� o que ele diz.
Ningu�m acredita em voc�. Voc� est� protelando.
Protelando?
Voc� est� pensando demais.
Eu?
Voc� realmente precisa de algu�m?
Estou esperando por uma resposta.
De quem?
Cela 110. Ele n�o desistiu. Ele tem coragem.
Seu plano... � pura fantasia.
Depois de 3 meses voc� fica mais fraco.
Mais forte. Voc� se adapta, se acostuma.
Um tipo de gra�a.
Ou uma armadilha.
Voc� pode ir mesmo?
Estou pronto.
Ent�o n�o espere.
Voc� me seguiria.
Se eu tivesse outro corpo.
Nos encontraremos.
Em outra vida, talvez.
Nesta vida. Tenha f�.
Tenha f� nas suas cordas e ganchos.
E em si mesmo. Voc� tem d�vidas.
� duro me decidir.
O caso envolvendo voc� est� oficialmente encerrado, Tenente Fontaine.
As acusa��es contra voc� de espionagem e bombardeamento
tem como pena a morte.
Logo, voc� ser� fuzilado.
Eles estavam me levando para a pris�o?
Foi uma viagem tensa.
Eu ficaria na mesma cela?
Dei uma gargalhada nervosa que me aliviou.
Um pouco depois, mais uma vez,
temi que meus esfor�os tivessem sido em v�o.
Vestido como soldado meio franc�s, meio alem�o,
ele estava porcamente sujo.
Ele parecia ter menos de 16 anos.
Voc� � alem�o?
Franc�s?
Qual � o seu nome?
Jost. Fran�ois Jost.
Seria ele um delator?
Ser� que eles esperavam que a senten�a de morte me faria falar?
D�-me sua m�o, Jost.
N�o h� muito espa�o.
Eles me pegaram e disseram que eu era um desertor.
Voc� acredita em mim?
Sim.
Eu acreditei nele, mesmo assim, me senti incomodado.
Fiz pela Fran�a. Por que mais eu me uniria a eles?
A Fran�a � sua cal�a e sua perneira.
S� isso.
Como eu poderia saber?
Deveria saber.
Antes que a minha senten�a acabasse, fui mandado para a estrada de ferro.
Para impedir os passageiros franceses de usarem os vag�es.
Que vag�es?
Os reservados para as tropas deles.
Foi assim que eu cheguei aqui h� 3 dias.
Fique na porta. Pe�a um colch�o a mais.
Ele ganhou o que pediu, e um cobertor tamb�m.
Voc�s 2 estavam b�bados?
Est�vamos brincando com a minha arma, atirando para cima.
Mas n�o s� para cima!
O policial era franc�s?
Sim.
Voc� o viu caindo?
N�o me lembro. Apenas corremos.
N�o dev�amos ter feito isso.
15 minutos depois, est�vamos na pris�o.
Depois eles vieram atr�s de mim.
Por qu�?
Para me trazer para c�.
E voc�?
� hora de ficar quieto.
Tome o resto.
Deite e durma.
A chegada dele, j� que eu estava sentenciado, me perturbou.
Eu n�o tinha tempo a perder. Eu tinha que escolher.
Ou eu o levava junto, ou eu o matava.
Meu gancho mais pesado seria uma boa arma.
Mas eu conseguiria mat�-lo a sangue frio?
Limpe-se.
Agora v�. N�o espere mais.
Voc� n�o est� sozinho?
Cuidado, Fontaine.
Voc� n�o fala muito.
Eu perdi o h�bito.
Eu sei por que voc� est� aqui.
Diga-me.
Porque voc� explodiu uma ponte.
Eu juro...
Eu gostaria de ter feito este tipo de coisa.
Esse tipo de coisa? Jost, explodir uma ponte...
Elas s�o vigiadas. Isso pode custar sua vida.
Voc� n�o pode ser medroso ou covarde.
N�o sou medroso, nem covarde.
Nenhum homem pode servir a 2 mestres.
Voc� escolheu este uniforme.
Eu n�o escolhi nada.
Minha jaqueta Ihe incomoda?
N�o incomoda. Isso n�o muda nada.
Voc� � o que �.
O que eu sou?
Fique na sua imund�cie. Fique com seus piolhos.
Voc� deve estar infestado.
S� alguns, talvez.
Mesmo?
Voc� tinha que vir.
Eles j� se foram todos.
O que h�?
Nada.
Eu ficarei aqui por muito tempo?
Voc� pergunta isso para mim?
Muito tempo.
Semanas, meses, um ano, dois...
Trancafiado?
Ou talvez um ou dois dias.
Depende dos favores que voc� fizer para eles.
Que favores?
Cuidado, Jost.
A guerra vai acabar. Eles v�o perder.
N�o v�o, n�o.
V�o sim. E ir�o embora.
S�o anjos maus. Eles v�o deixar voc�
no seu pa�s, sem ningu�m para Ihe defender.
N�o haver� miseric�rdia.
Mas sou muito jovem.
Ningu�m ter� pena de sua idade.
Pense bem.
Pensar bem no qu�?
� tarde demais agora.
Tarde demais?
- Voc� acredita na sorte? - Eu acredito.
Ela nunca me levou a lugar nenhum.
Talvez voc� tenha estragado sua sorte.
Por que voc� saiu de casa?
Sem motivo. Para fazer alguma coisa.
O que o seu pai disse?
Ele n�o se importou.
E sua m�e?
Tentou me seguir.
Despistei dela. Depois peguei o trem.
Ela deve Ihe amar muito.
Mais do que ela ama meus irm�os e minha irm�.
Voc� tem irm�?
Ela era pequena, mas bonita.
Minha m�e era bonita tamb�m.
Voc� quer v�-las de novo?
Sim, mas eu n�o sei como...
O que voc� est� escrevendo?
Venha ver.
Este � o nosso l�pis. � seu tamb�m.
Se precisar.
Por que voc� o esconde?
� proibido. Se eles acharem, v�o nos fuzilar.
Fuzilar, por causa de um l�pis?
Nos deram a sopa. E eu ainda n�o havia dito nada para ele.
A noite estava escura.
Amanh�, a noite ser� mais escura.
Ter� que ser amanh�.
Ser� que eu teria que mat�-lo?
Acorde, Jost.
Meu �ltimo desejo, se eu n�o conseguir. Voc� se importaria em...?
Eu prometo.
Meu Deus.
Eu escrevi o que eu fiz e o que ainda tenho que fazer, para escapar.
Por favor, conte para todo mundo.
Reze por mim, padre.
Voc� tamb�m.
Adeus.
Nunca terei uma chance destas.
E se tiver?
Como quando levam voc� para o interrogat�rio?
O que voc� faria?
Tentaria escapar.
- Acha mesmo? - Acho.
� mais f�cil em dois.
Ambos se ajudam.
H� outros momentos, quando � poss�vel.
Como assim?
Se voc� concordasse em me ajudar.
Talvez pud�ssemos...
Ir embora daqui?
Voc� n�o pode estar falando s�rio.
Voc� j� viu essas paredes?
E essas barras?
Fontaine, use a cabe�a.
Est� brincando?
N�o estou n�o.
Tudo foi planejado e calculado.
De deixar o pr�dio a passar pelo guarda.
Quase tudo.
Podemos encontrar algumas surpresas.
Eu disse "n�s" porque agora...
Acredite em mim, tenho tudo a meu favor.
Tenho seguran�a nas minhas ferramentas.
Em mim mesmo, na minha sorte... e na sua.
Voc� n�o vai se arrepender.
Eu cuidarei de voc�.
Ajudarei voc� a aproveitar a sua liberdade.
Isso � realmente impressionante.
� tentador.
Tentador?
Mas Jost,
voc� n�o tem mais escolha. Voc� deve entender isso.
Sou livre para dizer sim ou n�o.
Agora que voc� sabe de tudo?
Agora que eu sei de tudo.
Chega!
N�o tente gritar.
N�o fa�a eles virem.
Se voc� tentar isso
e nos pegarem...
Quem voc� acha que eu sou?
Ent�o a resposta � sim?
Sim.
Esvaziei meu colch�o no de Jost
e cortei seguindo minhas medidas.
Em menos de duas horas, a corda estava pronta
e a cela limpa.
Voc� vai bater?
Baterei.
Adeus, meu amigo.
Primeiro o calcanhar,
depois a ponta.
Fizemos quatro sacos:
um com nossos sapatos,
outro com nossas jaquetas,
um terceiro com a corda longa e os ganchos.
O �ltimo com a corda para cruzar o caminho dos guardas.
O cascalho fez barulho sobre nossos p�s. T�nhamos que parar.
Isso fez levar mais de 20 minutos
para chegar � beirada do p�tio.
Que barulho era aquele que continu�vamos ouvindo?
N�o conseguia descobrir.
Ele estava armado com uma metralhadora.
Eu podia ver a granada em seu cinto
e a baioneta na bainha.
Ouvi o rel�gio soar meia-noite.
Depois uma da manh�.
Seus movimentos eram id�nticos,
movendo-se de um lado para outro do muro,
raramente chegando nos cantos,
e nunca passando deles.
Por outro lado,
eu poderia me esconder no canto e esperar pelo momento certo.
Pois este homem teria que morrer.
Sua vez.
Pus o gancho no ch�o. Eu n�o estava bem certo.
Eu tinha que agir, mas n�o conseguia.
Precisei das duas m�os para fazer meu cora��o parar de pular.
Ele estaria sentado?
Estaria acendendo um cigarro?
Ele parou de vir em minha dire��o.
Ele estava perto, a um metro de dist�ncia.
Ele estava virando.
Ele deixou nossas roupas e sapatos no telhado,
mas eu n�o disse nada.
Sozinho, eu talvez tivesse ficado ali.
Tudo o que eu sabia do sistema dos guardas
era que havia 4 guaritas, uma em cada canto.
Havia um guarda dentro ou n�o?
N�o havia.
Ele est� s�.
Corte a eletricidade.
Cortar? Como?
R�pido.
O gancho.
Jost estava tremendo. Talvez eu estivesse tamb�m.
Eu hesitei.
O rel�gio soou 4 horas.
O tempo estava acabando. E nossas chances tamb�m.
Se minha m�e pudesse me ver agora!
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