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A GAROTA DA MOTOCICLETA
Daniel!
Daniel!
Meu Deus, preciso vĂȘ-lo.
Preciso ir até ele.
Raymond! Raymond!
Acorde!
Apenas me toque e eu nĂŁo vou.
Hum... pele. Ă como se fosse pele.
Sou como um animal.
NĂŁo. Mesmo se Raymond estivesse acordado,
eu iria do mesmo jeito.
Algumas vezes, basta o instinto para voar.
NĂŁo vou me sentir culpada.
Oh! Aqui estĂĄ ela.
SerĂĄ que ele realmente estava dormindo ou sĂł estava com medo de me ver partir?
Ele vai me ouvir agora!
Para que tipo de lugar vocĂȘ me trouxe, Raymond?
Nada além de cemitérios e campos militares.
Quase 1 milhĂŁo foram mortos aqui.
Este lugar fede a velhas guerras. E eles morreram pelo que?
Cada rua tem o nome de um soldado. Na SuĂça, nĂłs sĂł temos uma rua
com o nome de um general. NĂŁo lembro seu nome de qualquer forma.
Outro cemitério. Mas nem todos os mortos estão sepultados.
Por que eles nĂŁo se rebelam? Ao menos os jovens.
Rebeldia Ă© a Ășnica coisa que mantĂ©m alguĂ©m vivo.
Inferno! Não trouxe dinheiro algum. Deixei até meu relógio para trås.
Ah, bem, isso bastarĂĄ para me pagar uma bebida na Alemanha.
Cale a boca!
Encha, por favor. Super.
O tanque todo?
- Vai tĂŁo longe assim? - Bem longe.
Sabe quem sou, nĂŁo sabe?
Meu marido Ă© o professor Raymond Nase.
Esqueci meu dinheiro. Poderia pedir-lhe quando ele for para a escola? Ele pagarĂĄ.
Assim como estĂĄ vestida, parece uma piloto de corrida.
Mas eu conheço essa moto. Não hå duas iguais nesta parte do mundo,
tem uma potĂȘncia incrĂvel.
Seu marido deveria usĂĄ-la. Chegaria mais depressa na escola
e as crianças não ririam tanto dele.
à minha moto. Ninguém mais vai uså-la.
Desta vez, tenho que calibrar os pneus.
Veja se os pneus estĂŁo calibrados. 28 no traseiro, 26 no dianteiro.
36 no dianteiro...
38 no traseiro.
Seu marido Ă© um homem muito generoso.
Ou um idiota sortudo.
Seu marido Ă© um homem muito generoso.
Raymond usar minha moto? Deixe-o ousar.
Mas, claro, ele nĂŁo ousaria. NĂŁo pediria nem que tivesse que andar quase 200km.
E as crianças não ririam tanto dele.
Por que os deixa? Sinto vergonha sĂł de vocĂȘ me contar, Raymond.
E o Reno nasce, de fato de onde eu venho,
SuĂça.
No maciço... de... Saint... Gothard...
Por que estĂĄ acenando, Philippe? O que vocĂȘ quer?
Queria ir ao toalete, senhor.
EstĂĄ bem. Mas nĂŁo demore muito.
SilĂȘncio!
Isto Ă© demais! JĂĄ passou da conta!
- Onde ele estĂĄ? Ele colocou um rĂĄdio. - VocĂȘ gosta de mĂșsica?
- Onde estĂĄ? - LĂĄ!
Por ali! EstĂĄ ali!
O dono do rĂĄdio deve se levantar imediatamente!
Deve ser punido!
- Pensei que o senhor gostasse de mĂșsica. - Ă a isso que chama de mĂșsica?
Onde estĂĄ? Todos serĂŁo punidos.
Daniel estĂĄ certo, claro. Ele estĂĄ sempre certo.
As cidades estĂŁo morrendo nos subĂșrbios. Imagine viver numa casa assim.
Sufocante. Morte lenta e sufocante.
Até eu morrer, estar casada é como morrer aos poucos, vivendo aqui.
Cristo, eu falo como se estivesse casada hĂĄ anos.
E sĂŁo apenas 2 meses.
Ă maldita gentileza dele que estĂĄ me matando.
Merda!
Veja, Daniel. Posso apagar tudo, como num caderno de desenho.
Girando o acelerador, posso obliterar essa lama e me transformo.
Rebecca! Em velocidade, numa estrada molhada, deve antever o obstĂĄculo a 1km
Ă frente. Freie suavemente e volte para a 3ÂȘ, antes de freiar.
Lembre-se, hein?
Eu me lembrarei de tudo.
Todas as pequenas coisas.
Voo para vocĂȘ, como aqueles pĂĄssaros..
Não. Como um foguete em direção ao sol.
VocĂȘ me acenderĂĄ? Eu quero estar em brasas.
Eu quero ser exatamente como... exatamente como a Ășltima vez!
Quando o relĂłgio soar Ă s 20h, em Heiderberg,
deverei estar em seus braços.
08h00, Ă© muito cedo. NĂŁo devem ser mais de 04:00h.
Que horas eu saĂ? NĂŁo posso chegar muito cedo.
Quero que ele me espere naquela casa de verĂŁo.
Ah, ele vai sentir que estou indo. Ele pressente sua presa.
Pararei um pouco e viverei. Tome seu desjejum. Chegarei quando terminar seu café.
Ah, estĂĄ tĂŁo quente. Entretanto, Ă© cedo.
Como milhares de dedos.
Acho que sĂł voltarei Ă vida quando ele me tocar.
Sou um pouco como uma folha.
Verde. NĂŁo no senso comum. Mas flexĂvel e maleĂĄvel.
Dependente. Começando a florescer. Jovem e adaptåvel.
E entĂŁo as similaridades acabam. Fui pega por Daniel,
e no momento em que ele me pega, eu começo a morrer.
Parece que foi hĂĄ tanto tempo, tĂŁo entediante
Nunca fiquei sem Daniel por tanto tempo.
Oh, vocĂȘ nĂŁo sabe o quĂŁo entediante tem sido. Eu fico entorpecida.
E a moto, esperando, quase campeĂŁ no do pĂĄreo.
NĂŁo, muito melhor que um cavalo e mais rĂĄpida, rĂĄpida.
A Ășltima vez que passei neste lugar o sol estava tĂŁo quente em meus Ăłculos.
Eu estava a 130km.
à uma mulher. Hoje me dia Não då pra saber a diferença.
Eu consigo.
Sabe que estou nua sob este traje. Se mandar abrir, para ver se sou contrabandista?
Passaporte!
NĂŁo confio no jeito que eles abordam. Pode ser devido aos seus pensamentos pervertidos.
Eu sĂł tenho a mim mesma para declarar.
Alguma coisa a declarar?
O que eu dizia.
Nada, sĂł eu mesma, como pode ver..
Ă uma mercadoria muito bonita.
Nada? Tem certeza? Mostre-me.
O que?
Os documentos da moto.
Muito bem.
Pode ir.
Volte algum dia e me dĂȘ carona em sua PM.
Vou segurar bem apertado!
Agora estou deixando o paĂs de Raymond e entrando no de Daniel.
Bom dia. Seu passaporte, por favor.
Muito obrigado.
Boa viagem.
Como Ă© lindo o paĂs do meu amor. E que arquitetura!
Seu corpo Ă© como um violino num estojo de veludo.
Daniel, oh, Daniel.
Deixe-me nua.
Se querem ser homens tirem as flores do capacete.
Esse nĂŁo Ă© vocĂȘ.
Pobres cretinos. São só crianças.
Tiveram tempo de fazer amor? Se eles souberem como...
VocĂȘ jĂĄ foi soldado, Daniel? NĂŁo posso imaginĂĄ-lo recebendo ordens de alguĂ©m...
VocĂȘ nunca entraria numa porcaria dessas.
Sol, rĂĄpido!
Me queime.
- O que achou, Daniel? - Sua idiota!
NĂŁo lhe disse que embreagem nĂŁo aguenta 5 minutos desta maneira?
VocĂȘ estĂĄ se exibindo, Ă© tudo.
Ratinha tĂmida. Capturada e presa,
circulando na minha gaiolinha.
Preciso perguntar a Daniel por que as pontes se parecem monstros.
Ele deve saber a razĂŁo. Se nĂŁo souber, inventarĂĄ uma.
Agora, acredite em mim, este é o espaço do fim.
LĂĄ Ă© o caminho da fuga. Por enquanto.
Imagine, eu sempre achei que os trens fossem mais ligeiros.
Pequeno e engraçado trem vermelho da montanha.
Chacoalhando bastante. Senti-me tĂŁo feliz
de ir com Jean e Catherine. SĂŁo tĂŁo simples e descomplicados.
A vida pode ser bem simples e eu poderia aproveitĂĄ-la.
- Veja o que ele gosta de ler. - Schubert, sinfonia em Si maior.
Um livro de mistĂ©rio nĂŁo seria mais apropriado para vocĂȘ?
Esses livros sĂŁo muito complicados para mim. Nunca consigo acompanhĂĄ-los.
- VocĂȘ nĂŁo se interessa por coisas normais? - Muitas.
Ele quer dizer: eu.
Chegamos.
Obrigado! Vamos, querida! Vamos subir!
Ah, Ă© muito bonito! Estamos bem aqui.
- Nos vemos depois! - Sim, nos vemos lĂĄ embaixo.
Esse Ă© meu quarto.
- Um quarto vermelho! Que sexy! - Vermelho para o perigo.
Muito obrigado!
Ah, que lindo.
- Meu quarto Ă© do lado do seu. - E daĂ...?
NĂŁo tranque a porta essa noite!
Vamos, vamos dar mais uma volta! Vamos!
- Não, pra mim jå deu. - Tudo bem, vou parar então, também.
- Por que? NĂŁo estĂĄ se divertindo? - NĂŁo exatamente.
Mentiroso. VocĂȘ nunca faz o que quer fazer.
SĂł faz o que tem que deve fazer.
Certo, vamos fazer um acordo. Vamos dar mais uma volta.
Ătimo. Pelo menos agora admitiu o que quer fazer. E vocĂȘ sabe o que deveria fazer?
NĂŁo.
Deveria ter me mandado calar a boca...
...e ter feito o que queria fazer.
Querido, se vocĂȘ for tĂŁo condescendente...
...vai me transformar em uma vadia mimada.
VocĂȘ deveria procurar outra namorada. Uma legal, nĂŁo como eu.
Ah, Rebecca.
Quem Ă© aquele homem encarando vocĂȘ? VocĂȘ o conhece?
Eu acho que jĂĄ o vi entrando na livraria do meu pai.
EstĂșpida! VocĂȘ nĂŁo pode colocar Oscar Wilde ao lado de Charlotte Bronte.
Isso seria uma ofensa terrĂvel!
- Onde eu coloco entĂŁo? - Perto de Bernard Shaw e Santo Agostinho, claro.
Se tornaram péssimos colegas juntos após a morte.
- Bom dia! - Bom dia!
Eu estava passando e imaginei se a edição de African Genesis tinha chegado.
Receio que nĂŁo. Esses editores sĂł fazem o que querem e sem pressa.
Mas eu encontrei algo outro dia que talvez lhe interesse.
à uma edição de O Meio Divino, do Chardin.
- A edição de Marselha? - Não.
- VocĂȘ conhece minha filha Rebecca, nĂŁo? - NĂŁo.
- Ah, querida, esse Ă© o senhor Daniel... - Coline.
De Lausanne, ele dĂĄ aula em Heidelberg.
Amor e Sabedoria Divina...
Tenho certeza que jĂĄ lhe vendi um na primavera passada.
- NĂŁo o li ainda. - Que pena!
Contudo, o inverno é a estação para a sabedoria divina...
...mas o amor divino, Ă© para todos os meses do ano.
Acho que a Rebecca concorda comigo.
Vou procurar O Meio Divino.
- Aqui estĂĄ! - Mal posso esperar para pegĂĄ-lo.
- Em Ăłtimo estado. - Vou levar com certeza.
Obrigado!
Ele Ă© um homem interessante, mas um tĂpico suĂço.
Ele despreza o pensamento alemĂŁo, mas o explora mesmo assim.
VocĂȘs sĂŁo loucos!
- Me dĂȘ minha chave! - VocĂȘ nĂŁo vai precisar.
Agora estou cansado.
Ah, meu amor!
Boa noite!
Boa noite, Raymond!
Boa noite!
Aqui estou eu.
NĂŁo, nĂŁo esse.
Branco! Branco para o Raymond.
NĂŁo, nĂŁo posso.
O que hĂĄ de errado comigo? NĂŁo consigo mais controlar isso.
Rebecca.
Rebecca.
Raymond! Ele deve estar bĂȘbado.
Sabia que vocĂȘ nĂŁo era o Raymond.
Nunca estive tĂŁo feliz.
Ele nem olhou para trĂĄs
Rebecca!
Rebecca?
Rebecca, sou eu!
Levante-se, NĂŁo quer esquiar! JĂĄ sĂŁo 10 horas.
VocĂȘs estĂĄ dormindo hĂĄ horas.
- Como vocĂȘ sabe? - Eu entrei no seu quarto.
- Quando? - Assim que nĂłs subimos.
Beijei seu nariz, mas vocĂȘ nem percebeu Deve ser os ares da montanha!
Sim, deve ser os ares da montanha.
Raymond, nĂłs temos que esperar trĂȘs meses antes de nos casar?
Foi a ideia do seu pai, mas eu concordo e volto pro meu emprego ruim enquanto...
Vou convencĂȘ-lo.
Vamos nos casar semana que vem! Por favor Raymond, estou com medo.
- Medo de que? - De perder vocĂȘ! E a mim...
Se pelo menos vocĂȘ soubesse...
Se pelo menos eu tivesse certeza...
EntĂŁo eles se casaram e viveram felizes para sempre.
Isso Ă© uma piada! Que loucura essas garotas sĂŁo loucas para se casar?
Quem vai ser a primeira a sair da escola? Aquela Gisela gorda.
Que inadequado. SĂł de branco, parecendo uma porca gorda no altar.
Mas por que eu fiz isso? Melhor que na livraria das 9 Ă s 5?
24 horas presa em um subĂșrbio nojento a quilĂŽmetros da SuĂça.
Que futuro! Muitos filhos, pouco dinheiro.
Cavando minha prĂłpria cova, sem escapatĂłria.
EntĂŁo por que me casei com Raymond? Para nĂŁo virar uma vagabunda?
- Bom dia! - Bom dia!
O que vocĂȘ tem de Swedenborg?
Era ele, claro... o estranho.
Ele conhece mais meu corpo que qualquer outra pessoa.
Eu tenho Humanidade e Redenção. Se que o coloquei em algum lugar.
- Vou ver no escritĂłrio. - Obrigado.
Sabia que era vocĂȘ.
Sim, eu tenho o resumo em inglĂȘs. Mas Redenção deve estar lĂĄ embaixo.
- Quer eu eu vĂĄ pegar? - NĂŁo, tenho que me acostumar a procurar sozinho.
O problema com filhas Ă© que elas se casam. Essa vai se casar em algumas semanas.
Parabéns! Ela parece um tanto pålida para uma noiva.
Podemos ver que ela não transparece a nada além dessa poeira dos livros.
Se ela sabe falar, gostaria de passear com ela em minha moto.
Dar um pouco de cor a essas bochechas.
Sim, pode ir junto. Por que nĂŁo? Pode animĂĄ-la um pouco.
VĂŁo, mas nĂŁo demorem muito! Vou separando os livros para quando voltar.
- Obrigado. - Certo, vĂŁo!
Aqui estamos.
Segure firme! Coloque seus pés!
NĂŁo vĂĄ muito rĂĄpido! Ela nunca andou numa moto antes.
Segure firme!
Coloque as mĂŁos em minha cintura! E firme!
VocĂȘ estĂĄ bem?
- Pra onde vocĂȘ estĂĄ me levando? - Pra um lugar que eu conheço.
- Eu achei que vocĂȘ nĂŁo viria novamente. - Foi difĂcil.
Se passaram duas semanas! Achei que nĂŁo quisesse me ver novamente.
Foi o que planejei!
- O que? - Em nĂŁo vĂȘ-la novamente.
- Por que vocĂȘ veio? - Cale a boca!
Por que vocĂȘ nĂŁo queria me ver nunca mais?
Ă porque vocĂȘ nĂŁo me ama mais ou porque eu fiquei noiva e vou casar?
Sim.
Espere!
Me matar enquanto eu vou com vocĂȘ seria sagaz,
mas eu perguntei se Ă© porque vocĂȘ nĂŁo gosta de mim ou se Ă© pelo meu casamento.
- Porque eu nĂŁo gosto de vocĂȘ. - NĂłs nĂŁo temos futuro, nĂŁo Ă©?
Sim.
- EntĂŁo por que fez isso? - Porque aqui tem um presente.
Porcaria!
Eu nĂŁo tinha certeza se o negro estavam lĂĄ dessa vez.
Desse vez Ă© melhor ele manter as mĂŁos suaves dele longe de mim.
Ele nĂŁo estĂĄ aqui. Que pena. E esse Ă© horroroso.
Identidade, documentos da moto.
Quanto dinheiro vocĂȘ tem?
Cinquenta marcos!
Aposto que ele Ă© gay.
Identidade, por favor.
Sem bagagem. O que faz na Alemanha?
Apenas tentando outras estradas para dirigir.
Em Alsace, as ruas sĂŁo muito estreitas. E hĂĄ muito trĂĄfego. NĂŁo Ă© seguro.
Que imbecil nojento! Por que eu fiz questĂŁo de mentir?
NĂŁo Ă© nada da conta dele.
Da Ășltima vez que eu vim estava tĂŁo calor.
Eu gosto de ser aquecida.
Vento gelado foi o que matou minha mĂŁe. Talvez o frio seja um mau sinal?
Ah, sou uma tola.
Champagne! Meu querido cavaleiro!
E ĂĄgua para Raymond! Pobre Raymond...
Eu devo atrair professores. Tanto meu marido quanto meu amante.
Gosto da palavra amante.
Raymond provavelmente sabe que eu tenho um amante.
E continua me amando. Daniel nĂŁo toleraria. Ele me trata como uma escrava.
Mesmo que ele me solte eu nĂŁo serei livre.
O que vocĂȘ leciona, Daniel?
Filosofia?
Psicologia?
Antropologia?
Eu sei!... VocĂȘ Ă© doutor em pornografia.
Eu deveria me sentir culpada. E sei que deveria me sentir culpada.
Pobre Raymond. Eu fui uma jovem noiva infiel.
E me casei com ele porque eu era masoquista?
Daniel disse que sim, antes dele ... Daniel...
Daniel disse que em 50 anos nĂŁo haverĂĄ mais casamentos.
Eu nasci cedo demais... SĂł amor livre...
Amor livre, campos livres. Quem determina como nos amamos?
- Quem? - A revista Playboy, Professor?
Talvez... Mas citando Tennyson...
NĂŁo sabia que pensavam em amor livre no tempo dele.
O que acha que eu quis dizer? Uma relação alternativa ao casamento.
VocĂȘ come o biscoito sem precisar comprar o pacote, certo, Professor?
O que vocĂȘ entende por "amor livre"?
Vamos, alguém!
Foi a geração de vocĂȘs que aboliu o casamento tradicional.
Bem, amor livre é ser livre para amar alguém.
- Sem compromisso! - Muito bem! Na medida em que vai.
Amor livre: amor sem casamento. Amor sem amor.
Com amor quero dizer sexo. EntĂŁo?
Desejo sem amor.
- Ă possĂvel? - Claro, Professor!
VocĂȘ pode gostar de uma garota sem amĂĄ-la.
EntĂŁo o que Ă© amor?
Ă a palavra menos compreendida em qualquer idioma e a mais mal empregada.
NĂłs a usamos como uma coberta para cobrir todos os sentimentos mais obscuros:
Desejo, luxĂșria, necessidade de machucar
e ser machucado.
Mas o amor nĂŁo torna esses outros sentimentos aceitĂĄveis?
Se vocĂȘ quer dizer respeitĂĄvel, diga!
Se a virtude Ă© um valor em si, entĂŁo o mesmo vale para o pecado, certo?
Acredito que sim, Professor.
EntĂŁo amor Ă© sĂł uma palavra para tornar o pecado
mais respeitĂĄvel para nĂłs, assim como tantas outras.
E o casamento uma forma de nos proteger contra julgamentos e fofocas?
- Eu acho que sim! - Ah, Ă© mesmo?
EntĂŁo vĂĄ e se apaixone, depois volte e me diga quĂŁo livre vocĂȘ Ă©.
VocĂȘ vai descobrir que ainda terĂĄ problemas com o amor livre.
O que hĂĄ de errado com o amor livre, Daniel? Ah, sim, agora eu entendo.
Coitada! Quatro filhos e grĂĄvida. Ela parece esgotada.
NĂŁo Ă© de vitaminas que ela precisa.
Como vocĂȘ disse, Daniel. Motoristas alemĂŁes andam em comboios como soldados.
Como vocĂȘ disse mesmo? NĂłs somos todos como lemingues.
Indo em direção aos cemitérios, um após o outro.
Eu pensei que tivesse uma identidade.
Minha mãe me causou essa distinção na escola.
Um pai erudito. Professores gostam disso.
Identificada por meus pais, mas sem identidade.
Eu nĂŁo tenho identidade. Perdi-a em vocĂȘ para sempre, Daniel.
Um putinha safada que adora apanhar.
Era o que vocĂȘ queria, nĂŁo era? VocĂȘ nĂŁo se importa em ouvir.
VocĂȘ Ă© um sĂĄdico, meu querido. Um sĂĄdico magnĂfico.
VocĂȘ Ă© um IMBECIL!
Imbecil! Imbecil!
Isso parece um mausoléu.
Daniel, fico pensando se Ă© aqui onde vocĂȘ esconde seus segredos obscuros.
Meu Deus, preciso de uma bebida!
Ainda Ă© hora de matar.
Ainda sĂŁo vinte para as sete.
Espere um instante!
- O que vai querer? Café? - Não, não, Kirsch, por favor.
Do jeito que vocĂȘ me ensinou a beber.
Um quarto e uma garrafa de kirsch.
Certo, senhor. Quarto oito. EstĂĄ livre.
- Obrigado. - Ele jĂĄ esteve aqui antes.
Entre.
Obrigado, senhor.
Isso foi estĂșpido.
Daniel, me ensine a dirigir uma moto?
Ensino. Vamos começar amanhã.
Lembre-se. Trate a mĂĄquina como se ela fosse humana. E ela responderĂĄ.
Somente pessoas que se amam podem cuidar dessa mĂĄquina, certo?
Solte a embreagem levemente. NĂŁo mais.
Agora! DĂȘ uma acelerada! Pronto!
Agora mude para a primeira marcha.
Agora lentamente, muito lentamente, nĂłs vamos.
Calma, calma! Vamos!
Acelere mais! Mas nĂŁo muito!
Fique calma. Acelere um pouco.
NĂŁo, foi muito! Calma.
Agora mude para segunda marcha.
Mude! Certo.
Isso.
- Consegui! - Olhe para a frente!
- O que vocĂȘ estĂĄ fazendo, sua idiota? - VocĂȘ nĂŁo deveria gritar assim comigo!
Eu tenho que gritar por causa do motor.
Certo, pare de tagarelar e mude de marcha novamente.
Certo. Na prĂłxima, vire na curva.
NĂŁo olhe para trĂĄs, idiota!
Bom! NĂŁo, nĂŁo olhe pra trĂĄs!
- EntĂŁo, como foi? - RazoĂĄvel.
Uma pequena melhora. Sente atrĂĄs.
Eu vou mostrar a vocĂȘ como dirigir em curvas.
Segure firme!
Eu desacelero um pouco antes de entrar na curva.
NĂŁo tenha medo. A velocidade estĂĄ me levando. Entendeu?
Sim, eu acho!
- Certo, Ă© a sua vez. - NĂŁo, eu nĂŁo consigo.
VocĂȘ consegue.
Uma moto se aproxima de nĂłs mais do que qualquer ser humano.
O carro Ă© algo... externo a nĂłs.
Mas a moto se torna parte de vocĂȘ.
VocĂȘ Ă© a sensação entre suas coxas.
- Ă o Ășnico amor em sua vida? - Que coisa estĂșpida para se dizer.
Claro que nĂŁo. E amor Ă© sĂł uma palavra estĂșpida.
- Sempre cavando em um labirinto. - Amor Ă© um sentimento.
Assim como dor de dente.
O que vocĂȘ faz com o dente?
Se dĂłi muito, eu o arranco pela raiz. E nĂŁo hĂĄ mais problema.
Foi isso que vocĂȘ fez com ela?
Onde ela estĂĄ agora?
- Ela morreu? - Pense o que quiser!
- Daniel, vocĂȘ se casaria comigo? - NĂŁo.
- Por causa dela? - VocĂȘ disse que ela morreu.
Ainda pode ser o motivo.
Daniel, em trĂȘs semanas me casarei com Raymond.
Anotarei isso em meu calendĂĄrio e mandarei um presente de casamento.
Acabou de chegar! Ă o presente de casamento mais ridĂculo que eu jĂĄ vi em minha vida!
NĂŁo faz sentido!
- Assine aqui, por favor. - VocĂȘ nĂŁo pode aceitar, nem pensar!
O homem pode ser rico, mas hĂĄ limites! VocĂȘ nĂŁo pode aceitar isso! Devolva!
EntĂŁo, Raymond? Ă o que vocĂȘ quer que eu faça?
NĂŁo se isso nĂŁo deixar vocĂȘ feliz. Faça o que quer fazer.
VocĂȘ teve sua chance ali, Raymond. E vocĂȘ desperdiçou.
Eu sei que serĂĄ infeliz.
Daniel, hoje Ă© o dia.
Vou voltar para a França de trem.
VocĂȘ pode ficar com sua maldita moto.
Querido Raymond.
Meu querido Raymond. Oh, Deus!
O ponto Ă©: eu o deixei.
Digo, eu nĂŁo vou voltar.
NĂŁo posso fazer nada.
Ele também não me då nenhuma identidade.
Ele nem mesmo diz que eu sou bonita.
Meu demĂŽnio negro! Faz amor maravilhosamente.
Assim como meu demĂŽnio vermelho, Daniel!
VocĂȘ Ă© a cafetina dele. Nessa velocidade, as putas me atirariam
nas mĂŁos dos clientes.
Me leve até ele, minha cafetina maldita!
Oh, Deus!
Sua estĂșpida maldita. E ainda se diz motorista.
VocĂȘ deveria ser assassinada! E vocĂȘ merece.
VocĂȘ estĂĄ certo. Fui uma puta estĂșpida. Mas vou me recompor.
NĂŁo se preocupe, querido. Eu vou manter meu corpo intacto para vocĂȘ.
Eu sei que meu corpo Ă© a Ășnica coisa com que vocĂȘ se importa.
Por que estou fazendo isso?
- Daniel, por que vim aqui? - Porque vocĂȘ quis.
Porque eu quis? Sim.
Porque eu quero vocĂȘ.
Isso me torna uma ninfomanĂaca? Querido, eu sou uma ninfomanĂaca?
Acredito que sim.
TĂŁo astuto me dar a moto como presente de casamento.
Se eu nĂŁo tivesse aceitado, nĂŁo poderia vir atĂ© vocĂȘ.
Sabe que tudo que o Raymond disse foi:
"Nunca imaginaria que um amigo do seu pai lhe daria um presente de casamento tĂŁo Ăștil."
Pobre Raymond.
Eu tentei contar o tempo todo para ele. Deus sabe como eu tentei.
Mas nĂŁo importa. Tarde demais.
EntĂŁo eu resolvi ficar com a moto.
Apenas para irritar vocĂȘ por tĂȘ-la me dado e nunca mais vĂȘ-lo novamente.
- Quanto tempo mantive a promessa? - Um mĂȘs.
15 dias! VocĂȘ nem percebeu.
Sabe por que eu e o Raymond nos casamos tĂŁo rĂĄpido?
Eu me casei com ele para me proteger de vocĂȘ.
Eu tentei fazĂȘ-lo feliz.
Eu tentei desesperadamente esquecer vocĂȘ.
Sabe o que eu fazia para alcançar meu objetivo?
Todas as noites, antes de dormir ficava pensando em seus defeitos.
Sua crueldade.
Sua arrogĂąncia, sua vaidade,
seu desleixo.
Nada difĂcil pensar neles.
EntĂŁo eu me concentrava em cada um deles esperando que
na manhĂŁ seguinte nĂŁo pensasse mais em vocĂȘ.
Mas eu pensava. E eu sei que vocĂȘ nĂŁo me ama.
- VocĂȘ mandava rosas para ela? - Sempre.
VocĂȘ nunca me mandou nenhuma.
VocĂȘ nunca vai deixar de amĂĄ-la. NĂŁo importa onde ela esteja!
Eu diria que nunca mais vou amar alguém novamente.
NĂŁo vamos pensar nisso!
Ăguas passadas nĂŁo movem moinhos, minha menina!
Vou beijar seus olhos.
No caminho pra cå eu o chamei de sådico imbecil com toda a força de minha voz
e eu disse a sério.
Ă assim que vocĂȘ me vĂȘ?
VocĂȘ quer que eu seja assim?
Eu nĂŁo sei.
Eu nĂŁo sei.
Seus dedos parecem lĂĄpides.
Obrigada.
De fato, vocĂȘ estĂĄ longe de ser irresistĂvel.
- EntĂŁo por que me pediu para vir? - Eu nunca pedi para vocĂȘ vir.
VocĂȘ pediu, meu querido!
VocĂȘ me mandou uma linda motocicleta, e eu estou aqui pagando as prestaçÔes.
Mas agora eu terminei de pagar. Eu nĂŁo virei aqui nunca mais. Nunca!
Eu lhe dou dez dias.
Mas vocĂȘ estava errado querido. Foram doze dias.
Eu sei, eu os contei.
TĂpico! Mesmo quando saem do paĂs
esses idiotas tĂȘm que ficar sentados em seus carros.
Legendas: Lu Stoker, Brunocll e Pietraux
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