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Para mim, a arte n�o � uma forma de alimento.
Eu preciso da terra, preciso dela.
Quero compreender esse estado...
e essa energia que est�o em mim...
Essa energia e essa vida...
que vertem da paisagem.
Essa coisa intangivel que est� a� e depois desaparece.
O crescimento,
o tempo, a mudan�a,
e a no��o de fluxo que se encontra na natureza.
RIOS E MAR�S
Andy Goldsworthy
Trabalhando com o tempo
As duas grandes influ�ncias em meu trabalho
s�o o mar e o rio, formas aquosas.
Pode-se pensar que o tempo se associa melhor com a mar�:
o tempo e a mar�, esse fluxo e refluxo quotidiano.
Mas atrav�ss do rio, podemos aprender muito sobre o tempo.
Sempre estas formas obsessivas,
que n�o podem ser desfeitas.
Em viagem para Nova Escocia, Canad�. Um trabalho novo.
N�o gosto dessa sensa��o...
de estar viajando.
Tenho a impress�o de n�o estar no meu lugar, de estar desenraizado...
e leva um tempo para eu voltar a me enraizar.
E quando chego em um novo lugar,
Tenho que come�ar a trabalhar quase imediatamente,
n�o h� um periodo de investiga��o, ou de descanso,
vou direto ao trabalho.
A mar� � extraordinaria: esse movimento l�quido para frente e para tr�s...
e o frio e sua rela��o com a pedra e a fluidez.
Mas aqui sou um estrangeiro, e portanto...
n�o a conhe�o.
Primeiro eu coloco as m�os no lugar...
e come�o.
Se o trabalho caminha bem, tenho calor, mas se algo se rompe,
o frio me invade por completo.
A boa arte te mant�m quente.
Hoje eu escolhi uma hora ruim.
Me levantei as quatro da manh�.
E n�o conseguia ver nada.
A Lua havia sa�do,
mas aqui estava tudo escuro.
Quando faz muito frio, � imposs�vel.
E tenho que trabalhar sem luvas porque as luvas grudam,
n�o posso trabalhar com elas, porque sen�o, perco a sensa��o.
Eu gosto do contato direto.
N�o se d� a m�o a algu�m usando luvas.
� muito dif�cil...
As vezes tenho frio nas m�os, me levanto muito cedo...
e todos os esfor�os se v�o automaticamente na tentativa...
de criar algo que pare�a que foi feito sem esfor�o.
Se tivesse chegado a esse ponto antes do amanhecer, a uma hora!
O que � extraordinario E que nem em sonho...
poderia imaginar que o sol que vem de l�...
iria iluminar completamente os dois lados da rocha,
e que desse modo todo esse pingente de gelo seria iluminado contra o precipicio.
Nunca imaginei que isso poderia acontecer.
O potencial aqui � fant�stico.
� �gua.
O rio e o mar fazem algo s�lido.
Em muitos dos meus trabalhos,
aquilo que d� vida a obra...
� o mesmo que causa sua morte.
Na praia, a primeira coisa que vi foi o rio e uma po�a...
que o rio formava.
Tentei tocar e compreender esse fluxo...
e a uni�o do rio com o mar,
o encontro das duas massas de �gua.
Fant�stico!
- Precisa de ajuda? - N�o...
Quando era crian�a, mergulhava dessas rochas para a �gua.
Acredito que era um pouco mais profundo.
Ser� que isso tem um nome?
� um buraco de salm�es.
- Voc� pescou salm�es aqui? - Muitas vezes, sim, salm�o...
Eram t�o grandes que se tocavam uns nos outros.
Isto se parece muito com a Escocia,
onde h� muitos buracos de salm�o.
Gosto da sensa��o de saber que ali em baixo h� peixes.
Tem o sentido de uma piscina.
� exatamente o que eu queria.
Insere esse movimento na obra.
Pra voc�, o que vai acontecer quando a mar� subir?
Vai � deriva.
- Vai permanecer intacta? - Vai � deriva no redemoinho
N�o, com certeza n�o vai permanecer intacta.
� como se fosse transportada para outra dimens�o,
para outro mundo, ou para outra obra.
N�o se parece em nada...
com uma destrui��o.
Este momento realmente faz parte do ciclo eterno.
� como se toc�ssemos o cora��o deste lugar.
Para mim, � uma maneira de compreender.
Ver o que sempre estava ali,
mas que n�o se via.
S�o momentos de uma beleza extraordinaria,
quando um trabalho adquire vida.
S�o por esses momentos que vivo.
S�o quinze para as oito.
Creio que a mar� deve estar alta...
aproximadamente desde as tr�s.
N�o h� muito tempo,
e acho que deveria deixar de filmar,
e come�ar a juntar mais pedras. Fazer algo �til.
As pedras n�o est�o ruins,
mas tem que busc�-las longe,
e constantemente perde-se tempo.
Isso � para que o trabalho fique interessante.
Eu gosto muito dessa tens�o.
Existe a possibilidade de estar na metade quando a mar� chegar at� aqui.
� como uma referencia de tempo que vem atr�s de mim.
Comecei a trabalhar na praia.
Ela � uma grande professora,
no que se refere ao tempo.
� implac�vel...
N�o podemos escapar do fato de que o mar vai estar aqui.
Fui a Escola de Arte de Lancaster.
Os estudantes ficavam escondidos em seus cub�culos min�sculos.
Todos os dias, voltava de trem para casa, em Morecambe.
Ao descer do trem, via as grandes extens�es de espa�o,
um contraste enorme com a Escola de Artes.
Um dia, fui trabalhar na praia.
O que me causou impacto foi essa sensa��o de energia...
que experimentava quando estava fora da Escola de Artes.
A Escola de Artes era muito segura. Fora dela, sentia falta de ar,
era a incerteza.
O controle total pode ser mortal para uma obra.
A pedra fala...
Isto nunca me aconteceu antes. Pode ser a areia...
que est� sendo esmagada,
ou que a pedra seja muito fr�gil.
Ou talvez as duas coisas ao mesmo tempo.
Este ser� o ponto mais largo, e vou tentar...
colocar mais peso no meio, para que o conjunto seja mais est�vel.
Este � o meu trabalho!
Muitas coisas desconhecidas.
As possibilidades de sobrevivencia s�o muito poucas.
Aqui falta uma pedra bem grande.
Pode me trazer uma pedra quadrada grande?
Talvez n�o deveria ter posto esta pedra.
� o quarto.
O quarto desmoronamento.
E a mar�...
sobe.
Acho que � melhor esperar.
O momento em que algo desmorona...
� uma grande decep��o.
� o quarto desmoronamento. Cada vez...
Conhe�o a pedra um pouco mais.
A obra cresce na propor��o do meu conhecimento da pedra.
Uma das coisas que tento alcan�ar com minha arte...
� compreender a pedra.
Por�m, aparentemente, n�o a compreendo o suficiente.
Os homens ergueram...
montinhos de pedra para assinalar os caminhos nas colinas...
e montanhas, na Escocia e creio que em todo o mundo.
Ent�o, todos os montinhos est�o relacionados de alguma forma:
se convertem em marcas das minhas viagens, dos lugares aos quais me sinto vinculado.
O montinho que parece com um guardi�o...
na maneira como se sustenta, como se protegesse alguma coisa.
Gosto que a forma se pare�a com a de uma semente,
bem cheia e madura.
Olhar as pedras e encontrar um crescimento...
como o das sementes, para mim � uma imagem muito poderosa.
Veio o mar e o montinho simplesmente desapareceu...
e se foi.
Por�m estava ali.
Um trabalho que acabava de terminar,
mas que a minha rela��o com a pedra, por�m era muito, muito intensa,
de modo que estava com ela ali embaixo, mas n�o podia v�-la.
O que alcancei dessa vez...
foi que n�o fiz esta obra...
apenas para o mar destru��-la.
O trabalho foi dado ao mar como um presente.
E o mar tomou o trabalho, e fez com ele...
mais do que eu jamais havia esperado.
E penso que se pode ver nestas formas...
de compreender as coisas que acontecem na vida,
que mudam nossa vida,
que ocasionam choque e como��o...
N�o posso explicar isso.
Essa profunda transforma��o que posso ver...
em minha casa.
Essa � raz�o pela qual minha casa...
se mostra para mim cada vez mais importante.
Penpont, Escocia. Base de opera��es.
A samambaia � um material...
com o qual sempre gosto de trabalhar.
Mas � uma planta muito dura, muito resistente.
� muito agressiva: quando a arrancamos, corta-nos a m�o como uma navalha.
Sempre associei esse material com m�o ensanguentadas.
� uma das poucas plantas nas quais uso uma faca
E tamb�m � uma planta muito t�xica.
Quando produz esporos, � melhor n�o inal�-los.
Creio que nos equivocamos...
quando consideramos a paisagem como algo id�lico o bonito.
Ela tem um lado mais sombrio.
As que estavam na terra...
tornam-se pretas.
E gosto muito disso,
da ideia do contato entre...
as vacas de Highlands e seus sinos.
Eu gosto da ideia do contato...
entre as plantas...
e a chama...
tornando vis�vel o poder do fogo. Com este preto � a mesma coisa.
� o resultado dessa troca de energia...
entre a planta e a terra.
E atrav�s desse processo, h� uma troca t�rmica...
Parece carbonizada, pintada,
mas esta � a raiz assim como a encontrei.
Acredito que nesta �poca, no come�o da primavera,
o processo n�o come�a na superficie, mas sim de baixo.
Encontrar na terra evidencias deste calor...
� a maneira que tenho de compreender...
o que se passa nesse momento. E inclusive se estes...
s�o caules de plantas do ano passado, que n�o cresceram,
mas que est�o conectados com o sistema de ra�zes debaixo da terra.
E a ideia de que o que se passou ano passado vai se repetir esse ano...
e se manifestar.
Me fascinam esses processos...
que se desenvolvem na natureza com o passar do tempo,
e que est�o conectados com o sol, a luz, a mar�... O crescimento.
O verdadeiro trabalho � a mudan�a.
N�o se esque�a de dar algumas folhas verdes, Holly.
- Ponha seu dedo aqui. - Ok.
Orelhas... Orelhas ca�das!
Comecei a tirar fotos quando era estudante,
quando comecei a trabalhar ao ar livre.
Tinha que explicar meus trabalhos aos professores,
e o fazia tirando fotos. � sempre um pouco assim.
A fotografia se tornou uma maneira de falar das minhas esculturas.
Sobre a escultura, Brancusi disse:
"Por que falar de esculturas, quando se pode fotograf�-las?"
� a linguagem atrav�s da qual falo e descrevo o que fiz...
e tamb�m � a maneira de entender o que fiz.
Quando trabalho durante todo o dia debaixo de chuva, e estou cansado,
n�o posso ver nem sentir...
o que fiz.
E necessito desse tempo entre a cria��o e o regresso �s imagens,
para poder ver com novos olhos o que realmente fiz.
E aqui tem de tudo: trabalhos bons e maus.
Todo � colocado aqui.
At� logo.
- Vou trabalhar com a �rvore. - Com a �rvore?
At� logo.
O que vai fazer?
O que vai fazer com �rvore, Andy?
Para quem est� trabalhando?
O que vai fazer com a �rvore?
Trabalho intuitivamente, sem saber o que vou fazer.
N�o fa�o ideia. Faz tempo que n�o trabalho aqui, ent�o...
Wallace vem te ajudar?
Vem, sim...
Vivo aqui h� doze anos.
Todos os meus filhos nasceram aqui, quase todos os meus melhores amigos vivem aqui,
e aqui � onde fa�o meus melhores trabalhos.
Isso demonstra claramente tudo o que sinto...
por este lugar.
Vivia nos lugares por quatro ou cinco anos, e logo me mudava.
E isso n�o era suficiente para compreender as mudan�as que aconteciam.
� necessario viver durante muito tempo na mesma rua, na mesma cidade...
e ver as crian�as esperando o �nibus,
tornam-se adulto e ter seus pr�prios filhos.
Na cidade havia uma senhora, que j� faleceu,
uma senhora mal humorada, que teve uma vida dif�cil.
Ela ia e vinha pela cidade em que vivia,
e eu lhe disse algo como:
"Desde que vivo nesta cidade, todos os meus filhos nasceram".
Meu filho mais velho foi o primeiro que nasceu nessa cidade...
h� 21 anos.
E ela disse:
"Voc� s� v� nascimentos, e eu, s� mortes".
Ela conhecia todos os que haviam vivido nessas casas,
e que haviam morrido.
Espero nunca esquecer...
das pessoas que nasceram aqui, t�o pouco das que morreram.
De certo modo, o rio � a linha que sigo.
O rio...
tem algo imprevis�vel. � realmente imprevis�vel.
E essa linha que corre, que tem seus pr�prios ciclos, relacionados...
com o clima e com o mar...
Se tivesse que encontrar algo que ligasse as partes do ano,
seria algo como um rio.
O rio � um rio de pedras, de animais,
de vento, de �gua, de muitas coisas.
O rio n�o depende da �gua, falamos de fluxo.
O rio do crescimento...
que corre atrav�s das �rvores e da terra.
Aqui est� nosso cordeiro, que vem sozinho.
Colocamos ele aqui,
limpamos sua boca,
e inspecionamos as tetas.
Tudo foi muito r�pido e sem problemas.
Vamos nos afastar...
e deixar que volte para seus cordeiros.
As ovelhas destroem as plantas jovens,
com sua maneira de arrancar o pasto.
H� vezes em que � como um rio de ovelhas.
Fluem e se movem a sua maneira.
A causa da paisagem ser como �,
sem �rvores, s�o as ovelhas.
As ovelhas causam um impacto profundo...
na paisagem.
Por isso sinto a necessidade de trabalhar com as ovelhas.
Contudo, nossa percep��o das ovelhas...
� muito diferente da realidade das ovelhas.
Isso faz com que o trabalho com elas seja terrivelmente dif�cil...
porque para n�s s�o animais de pelucia,
e alcan�ar a essencia da ovelha...
� muito, muito dif�cil, porque a ovelha, a sua maneira,
� uma animal muito poderoso.
Foram respons�veis por transtornos pol�ticos e sociais,
como as "limpezas de Highland", quando pessoas foram tiradas das terras,
para colocarem as ovelhas.
E deixaram uma hist�ria para tr�s,
que est� escrita na paisagem.
Existe uma ausencia na paisagem devido ao efeito das ovelhas.
Aqui viveram, trabalharam e morreram pessoas. Sinto sua presen�a...
nos lugares em que trabalho.
E eu sou a pr�xima camada das coisas que aconteceram por aqui.
Creio que a terra n�o necessita de mim para nada,
mas eu sim, preciso dela.
Simplesmente ir ao bosque trabalhar...
me retorna �s ra�zes.
Se permane�o muito tempo inativo, me sinto desraigado,
e j� n�o me reconhe�o.
Se n�o trabalho durante duas ou tr�s semanas, e logo vou dar uma conferencia...
sobre meu trabalho, tenho a impress�o de estar falando de outra pessoa.
Eu preciso do meu tempo.
Gosto de estar sozinho.
Tamb�m gosto da companhia de certas pessoas,
algo que provavelmente seja meu lado social,
de que me alimento at� certo ponto.
Mas para ser honesto,
as pessoas...
me cansam.
Presto aten��o nos detalhes,
como o fato de que o vento logo agora soprou um pouco mais forte.
Ainda que pare�a t�o calmo como h� trinta segundos,
sinto esse pequeno aviso dentro de mim.
Quando trabalho,
frequentemente levo a obra ao limite do seu colapso.
� um belo equilibrio.
Eu estava perto.
As vezes, fico maravilhado em estar realmente com vida.
Algumas vezes aconteceu,
e uma ocasi�o em particular, de uma pessoa muito pr�xima morrer.
Era a mulher do meu irm�o mais novo. Ela era muito jovem.
A imagem de algu�m morrendo, de Julia morrendo,
est� bem gravada na minha memoria.
No dia seguinte a morte de Julia,
trabalhei com uma �rvore. Parecia o lugar certo para ir.
Trabalhei com um buraco que havia na �rvore.
Comecei a ver o buraco como uma especie de entrada,
uma entrada na terra, na �rvore, na pedra.
A abertura pela qual a vida vem e se vai.
Olhar por um buraco escuro � como olhar do alto de um penhasco.
A impress�o de ser atra�do para a escurid�o,
como se f�ssemos atra�dos pela profundidade.
Por outro lado, h� algo que empurra a partir do buraco.
� minha maneira de entender, compreender que...
n�o � somente a morte, a ausencia, porque a escurid�o � a ausencia...
� o intang�vel...
Mas se relaciona com uma �rvore que sei que vai voltar � vida.
N�o h� nada mais forte para mim do que um buraco que eu fiz,
e eu voltei a esse buraco mais tarde, e vi que l� cresceu uma folha de grama.
� uma imagem muito poderosa.
Parque de esculturas de Storm King. Estado de New York, USA.
Um compromisso de longo prazo.
O primeiro muro...
que fiz com um pedreiro...
Minha ideia era que iria levantar o muro com ele.
De fato, h� muito tempo, eu tinha erguido paredes.
Mas ele removia as pedras que eu colocava no muro
E tinha raz�o ao faz�-lo.
Aprendi que devemos respeitar seu trabalho, sua vida.
Quando trabalho com pedreiros, eles n�o somente passam o tempo comigo,
eles tamb�m trazem vida.
Eles n�o querem que eu toque o muro...
e que n�o brinque de ser pedreiro, assim como eu n�o querem que eles brinquem de ser artistas.
Cada um cumpre o seu papel. O meu � encontrar a linha do muro,
eu trabalho o espa�o.
De seu di�logo com a pedra nasce o muro.
Uma pedra em cima da outra... e de outra...
e a obra vai nascendo dela mesma. A fluidez...
do trabalho d� a escultura um sentido de movimento e energia.
Quando me pediram para realizar um trabalho em Storm King,
passei muito tempo caminhando por ali...
para conhecer o lugar.
E vi esses muros em ru�nas...
que me conectaram com minha casa.
Porque estes muros provavelmente foram feitos por gente que veio da Europa,
talvez at� mesmo da Escocia.
Esse colonos chegaram aqui e constru�ram fazendas e muros.
Essa foi a primeira coisa que me interessou.
Quis voltar a tra�ar a linha, voltar a erguer o muro,
para falar do lugar tal como � agora.
Os muros aqui surgiram do processo de derrubar as �rvores...
e converter o bosque em uma terra cultiv�vel.
Mas logo a agricultura desapareceu desta paisagem,
e as �rvores encontraram refugio nos muros e cresceram.
O que me interessava era esse di�logo.
O melhor de tudo � a linha que est�o em harmonia...
com o lugar que atravessa.
Esse sentido de movimento � muito importante...
para compreender a escultura.
O movimento do passo da gente, o movimento do muro,
o rio de pedras ao redor das �rvores,
o rio de crescimento que � o bosque.
E isso me fez tomar consciencia do fluxo que percorre o mundo,
as veias que correm no mundo.
A causa da pedra ser vermelha � o teor de ferro,
e essa tamb�m � a causa do nosso sangue ser vermelho.
Sinto que h� uma energia especial na cor vermelha.
Provavelmente isso est�o relacionado com o sangue.
Provavelmente � algo que n�o se pode explicar completamente.
Creio que esta cor representa a vida.
Inclusive se as coisas morrem, formam parte do fluxo,
se convertem em parte do rio vermelho.
No Jap�o, se pode ver...
uma �rvore com folhas vermelhas...
diante de uma montanha verde.
Um vermelho incr�vel!
� como uma ferida...
na montanha.
H� uma energia e uma violencia imensa nessa cor.
Sempre estou perseguindo...
a cor vermelha.
Tenho a sensa��o de que a medida que me aproximo de sua fonte,
come�o a compreender a cor.
H� muitas li��es para se aprender com essa cor.
Quando tomei consciencia de que essa cor tamb�m estava em mim,
senti...
que tanto a cor como a energia fluem atrav�s de todas as coisas.
Trabalhei muitas vezes aqui antes de me dar conta da cor vermelha.
N�o � t�o obvio.
Se olharmos debaixo das pedras, encontramos...
estas suaves pedrinhas de ferro.
� algo t�o dram�tico,
t�o intenso, e ao mesmo tempo est� t�o oculto,
t�o debaixo da pele da terra.
� um verdadeiro choque ver essa cor,
algo t�o alien�gena para rio.
Na verdade, a cor est� profundamente enraizada neste lugar.
Aqui estou trabalhando com as pedras,
moendo elas.
Levo muitas horas para formar um montinho de pigmento,
com o qual formo uma bola que logo lan�o no rio,
fazendo uma mancha.
� um instante no ciclo da pedra,
que atravessa um processo de solidifica��o,
logo recupera sua fluidez,
e por �ltimo se solidifica de novo.
E acho que �...
uma pequena memoria na vida da pedra,
mas que representa muito bem o esp�rito da pedra.
Estamos t�o apegados � ideia de que a pedra � s�lida,
que quando descobrimos que a pedra �, na verdade, flu�da e l�quida,
isso acaba...
com a ideia sobre o que perdura e o que n�o.
Digne, sul da Fra�a. Um trabalho para o museu.
Quando trabalho com um edificio, trato de utilizar a parede inteira...
para criar um contato com a paisagem que est�...
dentro e fora do edificio.
O que est� dentro da parede � uma lembran�a da origem do edificio...
que vem � luz.
Queria argila de Digne ou da Escocia,
n�o queria argila processada...
vinda de um lugar qualquer.
A argila foi extra�da do solo,
peneirada, secada,
triturada, misturada com cabelos humanos...
e �gua, para reconstitu�-la.
Os cabelos s�o necessarios para unir a mistura.
Poderia ter utilizado pelos de ovelha, vaca, cavalo,
mas eu gosto da ideia de que tem gente confinada ali dentro.
Os cabelos v�m do cabeleireiro da cidade onde moro,
ent�o minha cidade est� nesse trabalho.
Quando fiz as primeiras paredes de argila, descobri...
que a estrutura do edificio, onde estavam as funda��es,
afetava a secagem, formando rachaduras e figuras.
O que est� embaixo da superficie afeta a superficie.
Claro que parece vivo, sim!
� uma express�o...
da vida da pedra,
atingindo quase suas origens no vulc�o,
quando a pedra estava viva.
Sempre est� viva, mas essa � a evidencia vis�vel do movimento...
e da erup��o da pedra.
� esta sensa��o de energia dentro dela. E isso � a vida.
N�o posso explicar mais que isso,
mas eu sei que � mais...
que o simples colapso...
e fim do material.
Me esfor�o para dizer essas coisas,
sei que posso fazer este mapa, mas h� um mundo al�m...
do que as palavras podem definir para mim.
As palavras fazem o seu trabalho,
mas o que eu fa�o aqui � muito mais que isso.
Legendas: Filipe Augusto Miranda
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