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Original subtitles

E como � que voc� vai fazer?

Vou ficar aqui em Posadas, n�o vou voltar pra Buenos Aires.

-Por quanto tempo? -N�o sei. O quanto for preciso.

-Voc� est� falando s�rio? -Estou.

-Por que voc� n�o me contou antes? -Olha s� como voc� reage.

Olha s� como voc� ficou!

-Pra que eu deveria te contar? -Para eu poder mudar a situa��o.

Que situa��o? N�o tem nada!

Muito menos algo para mudar. Estou s� te avisando.

-Posso pelo menos opinar? -Opine.

Eu acho que isso � uma bobagem at�mica.

O que voc� quer que eu fale?

-Voc� n�o tem mais 17 anos, n�? -N�o.

-Ent�o, por isso, filha. -Por isso.

Voc� j� n�o d� mais pra esse tipo de coisa.

Voc� � quase uma doutora.

Voc� estuda h� muitos anos e trabalha h� muitos anos.

E faz uma carreira brilhante, voc� � brilhante.

Uma advogada de primeiro n�vel.

Voc� est� a ponto de defender a tese,

um doutorado que voc� insistiu durante meses.

Ou estou errado? E isso custa uma fortuna pra voc�.

-Voc� est� falando s�rio? -�bvio.

Uma advogada de primeiro n�vel, n�?

Faz um ano que comecei o doutorado.

Trabalho no plant�o do tribunal. Qual �?

Voc� vai jogar fora tua carreira para ser professora rural.

Professora rural. �timo.

Os teus amigos do Partid�o estariam orgulhosos.

Deixe de ser boba, Paulina.

Volte pra Buenos Aires, continue a trabalhar e estudar.

N�o acredito que voc� esteja falando assim comigo.

N�o acredito que logo voc� fale essas coisas, pai.

N�o venha enfiar a carapu�a do pai conservador.

Escute a si mesmo! Quem voc� pensa que eu sou?

N�o, n�o. Eu j� tenho toda essa experi�ncia de base, e muito mais,

e tudo o que voc� possa imaginar. E voc� sabe muito bem disso.

Melhor do que ningu�m.

Por isso � que eu te falo: se voc� quer mudar as coisas,

tem que fazer carreira na Justi�a subir muito alto,

da� voc� ter� poder de decis�o.

E poder� levar a justi�a onde � preciso,

e do modo em que deve ser feito.

N�o estou interessada em seguir carreira judicial.

N�o quero ser ju�za.

Se pra voc� isso � igual a ir pra selva organizar

guerrilha guevariana,

ent�o voc� est� sem no��o e n�o tem discuss�o.

-Argumente. -Que?

Argumente! Demonstre que voc� tem raz�o.

Que o que voc� quer fazer � importante,

e n�o s�o fantasias rom�nticas de uma mochileira.

Fantasias rom�nticas de uma mochileira.

Voc� est� se fazendo de engra�adinho.

Voc� fala que eu tenho uma carreira brilhante,

mas s� quando eu fa�o o que voc� acha que � melhor.

�s vezes voc� fala comigo como se eu fosse uma menina de 12 anos.

Estou cansada, de saco cheio.

Teu dogmatismo, teu autoritarismo,

Voc� parece um progressista quando te conv�m,

mas olha s� como voc� vive olha a tua rea��o

e olha com quem voc� anda.

Se eu te coloco algo que sai do esquema,

voc� se comporta como um reacion�rio, um conservador.

Voc� sabe muito bem que eu venho trabalhando

nesse projeto com o Rudy faz tempo.

Voc� tamb�m trabalhou nele.

Voc� sempre achou um projeto fant�stico, n�?

Com um pouco de cinismo, como sempre.

Bom, deu certo, est� aprovado, come�amos.

Eu quero estar l�. Eu quero trabalhar l�.

Eu estou abandonando uma carreira brilhante no poder judicial?

Sim.

Vou abandonar um doutorado pelo qual eu venho

dando o sangue h� meses? Tamb�m.

Mas, por que?

Por um projeto que eu acho muito mais importante

do que toda a carreira judicial que voc� tanto se orgulha.

Porque eu quero lutar.

Voc� diz que eu sou brilhante "uma advogada brilhante".

N�o me importa, se o que eu fa�o n�o muda a vida de ningu�m.

Talvez voc� tenha raz�o e eu seja uma menininha ing�nua,

uma mochileira,

mas eu prefiro errar agora e perder quanto? 2 anos agora?

Do que voltar ressentida e c�nica depois de 10 anos.

Fant�stico.

Fant�stico.

Ressentido,

c�nico e conservador.

Espetacular. Voc� me convenceu.

Voc� tem raz�o. Voc� tem raz�o.

Sabe o que eu vou fazer? Vou mandar tudo � merda e vou pra Formosa,

para o Impenetr�vel, alfabetizar os Tobas,

da� eu vou ser um her�i.

N�o seja infantil.

Discuta como um senhor da tua idade, por favor.

Se eu for...

Em uma semana, Bellocq militariza a seguran�a no Estado.

Em um m�s, ele deporta todos os benefici�rios

do maravilhoso programa.

Ir � luta?

N�o me venha com essa, filha, voc� acha que eu n�o vou � luta?

Voc� acha que o que eu fa�o

n�o muda a vida de ningu�m? Responde!

Voc� acha que eu n�o mudo a vida de ningu�m?

-Voc� n�o vai me responder? -N�o seja bobo, eu n�o disse isso.

N�o, n�o, n�o! Muda a vida de algu�m?

Sim ou n�o? Muda a vida de algu�m? Sim ou n�o?

-Sim, muda a vida de todo mundo. -�timo. Ent�o n�o seja malandra.

Voc� sabe que est� super qualificada pra isso.

Se voc� quer mudar as coisas fa�a o que deve ser feito.

Voc� est� preparada para ser a diretora desse programa.

Isso que voc� vai fazer, qualquer menina de 20 anos faz,

inclusive uma aluna de 2o. ano.

Voc� quer participar do programa?

Eu acho perfeito. Mas do teu lugar.

Um lugar condizente com a tua prepara��o,

da tua categoria profissional, do teu n�vel intelectual.

Voc� j� pensou como seria se eu passasse a ocupar

um cargo executivo no programa?

Voc� v� porqu� eu n�o posso fazer isso?

Porque eu sou tua filha.

Quanto tempo duraria o projeto se no Governo descobrem

que voc� est� envolvido nisso?

Agrade�a ao Rudy por levar adiante.

E o que � esse argumento iluminista de meia tigela?

Classista e elitista, horr�vel.

Voc� n�o pode admitir que uma mulher de classe m�dia

culta e educada, nas favelas de Missiones?

Se incomoda que uma mulher pobre ocupe um cargo executivo, n�?

-Desde quando se tornou racista? -Veja como fala.

-�, pode ser que eu tenha exagerado. -Eu acho que sim.

-Eu n�o acho que voc� seja racista. -Eu diria isso.

Um pouco classista sim. E elitista.

Se voc� est� dizendo...

Escuta...

Escuta, estou falando muito s�rio, hein?

N�o � capricho nem estupidez. Estou falando de pol�tica.

Eu sei que eu posso fazer muito mais do que isso.

Mas, ao mesmo tempo, sinto que o Programa

� muito importante, � fundamental que funcione.

Se funciona, pode ser um exemplo para todo o Estado.

Eu quero lutar por ele.

Eu acho importante que algu�m como eu

esteja l� e possa lutar, de dentro dele.

De dentro dele, sendo uma parte, conhecendo estando l�.

para lutar tenho que estar l�.

Come�ando de baixo, aos poucos, dando aula,

como voc� falou, sendo professorinha rural.

-O que? -Nada, tudo bem.

Me diz uma coisa:

por que voc� est� contando tudo isso pra mim?

N�o sei, a gente est� conversando.

-Voc� est� esperando minha aprova��o? -N�o.

-Voc� est� pedindo permiss�o? -Nem a pau.

Se eu te falo que n�o, voc� vai fazer mesmo assim?

Vou, �bvio.

Ent�o?

O que?

Nada.

Vamos comer alguma coisa.

-Fernando... -S� comer!

N�o posso, tenho que ir.

-Voc� j� falou com ele sobre isso? -Com quem?

Falou ou n�o?

-Um pouco. -O que ele acha?

-N�o sei, ele acha que tudo bem. -Imagino!

-J� deixei as coisas na tua casa. -Est� bem.

Eu vou ficar l� at� que eu consiga algo pra alugar.

-Voc� est� pronta? -Sim.

-Voc� se importa se eu gravar? -N�o, de jeito nenhum. Grave.

-Por onde devo come�ar? -Por onde voc� achar melhor.

Pelo come�o, imagino. Ent�o, ele n�o estava de acordo.

Ele dizia que n�o, mas no fundo, ele concordava.

E o teu namorado?

-O que? -Qual era a opini�o dele?

Foi dif�cil pra ele.

Senhoras e senhores, bem-vindos ao

Carnaval de Encarna��o. O Carnaval do Paraguai!

-Espere. -S� um pouquinho

Vai, vai, p�e.

Eu quero que voc� fa�a o que tiver vontade,

mas fique perto de mim.

Voc� acha que eu voltei por tua causa?

N�o.

-�, voc� acha isso. -N�o.

Um pouco voc� acha.

Um pouco eu gostaria de pensar que voc� voltou por mim.

-S� um pouco. -Um pouco quanto?

-Pouco. -Pouco pouquinho.

-Muito pouco. -N�o importa, � suficiente.

Subpack by DanDee

Alguns de voc�s j� a conhecem outros n�o.

Ela � a Paulina.

Oi, tudo bem?

Paulina participa do plano de difus�o dos direitos.

Primeiro eu queria dizer que estou muito contente.

Finalmente come�amos,

ent�o eu examinei o que voc�s prepararam fiz algumas corre��es.

S�o estat�sticas... Ivan, vai passando assim...

-Vem, assim voc� cumprimenta. -Milton, desligue essa m�sica.

Eu n�o quero!

N�o? Por que n�o?

At� terminar essa m�sica.

-J� Milton! -N�o.

Vamos, depois a gente volta.

Escutem um minuto, sentados.

Voc�s se lembram de mim, meninos?

Algu�m se lembra como eu me chamo?

Ningu�m. Ningu�m se lembra.

N�o importa basicamente um cacete, n�?

Voc� � o Rudy. Ah, menos mal.

Bom, venho aqui apresentar a professora Paulina.

A professora � respons�vel pela oficina de forma��o pol�tica

n�s j� conversamos.

� importante que voc�s venham �s oficinas, que n�o faltem.

Que qualquer d�vida que tenham voc�s podem falar com a professora.

Bom, professora, vou indo.

Tchau, meninos.

Voc� chegou tarde.

Bom, como disse o Rudy, meu nome � Paulina,

vou ser respons�vel pela oficina neste semestre.

Algu�m consegue imaginar com o qu� tem a ver essa oficina?

Com certeza todos pensam que tem a ver com os pol�ticos.

Porque quando se fala de pol�tica pensamos nos pol�ticos.

Algu�m pode me dizer em que sentido

a pol�tica se relaciona com quem n�o � pol�tico?

Quem sabe qual � o sistema pol�tico que n�s vivemos?

Ningu�m sabe? Nem uma pista?

O que voc�s acham se eu disser que vivemos numa monarquia?

Estou certa? Tem um rei na Argentina?

Vivemos em uma monarquia?

Vamos, algu�m pode abrir a boca?

Tem um rei na Argentina? Vivemos numa monarquia?

-Sim ou n�o? -N�o.

-N�o. -Ent�o?

-Democracia, se chama. -Democracia, muito bem.

E o que isso significa? Voc� sabe o que significa?

Democracia significa que o governo � do povo � de voc�s,

que o governo n�o � dos pol�ticos, � de voc�s.

Os pol�ticos trabalham para voc�s.

S�o empregados de voc�s, n�o o contr�rio.

Eles s�o empregados de voc�s.

Dif�cil de acreditar, mas � assim.

Aqui na classe, por exemplo, quem tem o poder, voc�s ou eu?

Voc� tem o poder, professora.

N�o, voc� est� errado.

Eu trabalho para voc�. Eu sou tua empregada.

Eu venho aqui pra te ensinar. Se voc� quiser que eu v�, eu vou.

Se voc� quiser ir, voc� vai.

Ent�o, se eu quiser ir embora, eu posso ir?

A senhora n�o vai fazer nada?

Eu vou dar aula, se voc� quiser ir embora,

� problema teu, eu n�o vou te impedir.

Ent�o eu posso ir embora? Podemos ir todos n�s?

N�o posso te obrigar a ficar.

Vou dar a aula de qualquer modo.

Sa�ram todos?

Uns poucos ficaram, mas sim, foi um desastre.

-Bom, mas voc� n�o desistiu? -N�o, nunca.

Nem mesmo depois de perder.

Hoje quero propor um jogo.

Imaginem que estamos presos aqui por um m�s.

Todos juntos. Sem poder sair da sala.

Bom, imaginem assim. Estamos trancados aqui.

Temos �gua e comida suficientes. Qual � a primeira coisa a fazer?

Ligar pra minha m�e.

Vamos, meninos, pensem um pouco, qual � a primeira coisa

que devemos fazer?

A primeira coisa que eu faria � tentar sair daqui.

Voc� n�o pode sair.

Voc� tem que ficar aqui, estamos presos, esse � o jogo.

O que eu quero dizer � que, primeiro,

temos que fazer combinados, n�?

Colocar regras para n�s mesmos

-E por que eu n�o posso sair? -Porque n�o,

porque � a regra do jogo.

O interessante � ver como entramos em acordo

para colocar as regras.

Como chegamos ao consenso entre todos.

-E quem disse que eu n�o posso sair? -O jogo, esse � o jogo.

A regra do jogo.

Ent�o � a senhora que est� colocando a regra, n�o todos.

N�o, n�o, n�o. Eu coloco a regra para que exista o jogo.

Quando come�a o jogo, somos todos iguais.

N�o somos todos iguais se a senhora p�e as regras.

A senhora que coloca a regra...

O que voc� falou?

N�o entendo. O que quer dizer? Algu�m pode traduzir?

Disse que a senhora coloca a regra porque � "cat�".

Voc�s acham isso? Voc�s pensam assim?

Que eu sou cat� e que por isso eu venho aqui colocar regras?

N�o! N�o! N�o! Esperem!

Solano!

Solte ele! Solte ele, Solano! Saia e espere l� fora!

Sente-se a�.

Chega, eu falei!

Obrigada.

Voc� tem mais?

N�o, mas pega.

O tio daquele grand�o, h� uns anos, talhou a cara do pai do Solano.

Eles s�o uns animais. Est�o sempre brigando.

Agora est�o mais tranquilos.

Mesmo assim eu suspendi tuas aulas, t�?

A �ltima aula tamb�m foi suspensa.

Eu soube.

Vem.

Vem, vai. Vem comigo.

O que voc�s fazem aqui ainda?

Voc� n�o ia ver a tua m�e no Paraguai?

Chegou um amigo dela.

-N�o � amigo. -� namorado, falei.

-Chega. J� comeram? -J� fizemos uma sopa.

Sabe qual � o teu problema? Voc� tem medo deles.

O que? N�o, n�o tenho.

Pior, voc� tem pena deles.

Voc� gosta que tenham pena de voc�?

Se voc� tiver pena deles, eles v�o complicar a tua vida.

V�o terminar odiando voc�, voc� vai terminar odiando eles.

Enfrente-os. Ganhe deles.

Eu conhe�o ele desde os 15 mais ou menos.

Ele ia num col�gio, era um liceu perto de casa.

Nessa �poca, eu achava ele um gato, ele tinha uma moto, era lindo.

Fiquei super apaixonada.

Desde esse tempo estamos juntos.

-E agora como est�o? -Mal.

Depois nos mudamos juntos pra Buenos Aires,

mas ele n�o aguentou e voltou.

-Ele voltou? -Sim.

Ele � t�o b�sico para algumas coisas...

Se voc� ouvir ele falando de pol�tica,

vai querer mat�-lo.

N�o, eu juro, � desastroso.

O pior n�o � isso, � como um castigo.

-E voc�? -Eu... o qu�?

N�o, zero.

O mais parecido a um namorado s�o esses guris que voc� viu.

-E na escola, algo, alguma coisa� -N�o, n�o, n�o.

-Abrimos outra? -Que horas s�o?

Porque est� um pouco tarde, n�?

�, � super tarde, Laura.

Ligo a motinho e vamos.

N�o, vamos ligar pra um taxi.

N�o tem taxi a essa hora, por essa zona eles nem vem.

Ser�? Mas espera, espera�

Voc� est� bem para dirigir?

Sim, agora eu subo na moto e o vento vai arejar tudo...

Tem certeza? Espera, espera� voc� acha seguro me levar assim?

Leve a moto e voc� me devolve amanh�

-Voc� sabe dirigir, n�? -Sim.

A� est� o arranque.

Amanh� eu s� vou pro col�gio mas � s� meia hora a p�.

Vai, leva ela, ou teu namorado traz de volta,

assim o conhe�o e o vejo andar na moto..

Bom, obrigada. Amanh� eu te devolvo.

Tchau.

-Oi Brian. -Ol�.

-Tua m�e est� a�? -Sim.

-Chame ela. Avisa que veio o Ciro. -Mami, vem c�!

-Ol�. -Entre.

Olhe, Ciro, n�o � nada com voc�.

Eu gostei de ficar com voc� e est� tudo bem.

N�o tenho um problema com voc�.

Mas eu te falei desde o come�o como eu sou.

Eu gosto de me divertir.

Eu gosto de ter a minha vida e voc� tem outro jeito.

Ent�o � isso, est� tudo bem,

mas eu n�o quero que voc� sofra, nem que eu sofra.

Ent�o a melhor coisa a fazer � deixar isso assim como est�

e cada um segue a sua vida.

Eu acho que voc� tem outro estilo, Ciro.

E voc� deixou bem claro o que voc� gosta nas meninas

e eu n�o sou assim, Ciro.

Eu gosto de sair, de me divertir.

� isso.

-Voc� j� est� com outro? -Isso n�o tem nada a ver.

Voc� est� com outro ou n�o?

Sim, estou come�ando uma rela��o.

-Com quem? -N�o importa.

-Quem � ele? -Voc� n�o conhece ele n�o � daqui.

-E de onde ele �? -Ele � brasileiro.

Olhe, Ciro, a� vem vindo a tua namorada.

Meu amor!

-Vivi! Meu amor! -Quero casar com voc�!

-Te amo! -Que linda que voc� �!

Quero te apresentar um amiguinho.

Vem j� aqui!

Meu amor, jogue um beijinho.

Olhe como o Ciro ficou.

Desculpe se a gente faltou ao respeito com a tua namorada,

mas ela � t�o linda.

Ou seja, n�o importa um cacete, basicamente.

Voc� � o Rudy. Ah, menos mal.

Bom, venho aqui apresentar a professora Paulina.

A professora � respons�vel pela oficina de forma��o pol�tica.

� importante que voc�s venham �s oficinas, que n�o faltem.

Que, mesmo que n�o queiram, que estejam aqui,

qualquer pergunta, voc�s podem falar com a professora.

Bom, professora, vou indo.

Tchau, meninos.

Se comportem.

Voc� chegou tarde.

Bom, como bem disse o Rudy, meu nome � Paulina

e vou ser respons�vel pela oficina.

Qual � a primeira coisa que devemos fazer?

A primeira coisa � tentar sair daqui.

Voc� n�o pode sair. Voc� tem que ficar aqui.

Estamos presos.

O que eu quero dizer � que primeiro, temos que fazer combinados.

Colocar regras.

Quem disse que eu n�o posso sair?

Vem, r�pido.

-O que foi? -Quieto.

O que foi?

Cala a boca idiota, eles podem te ouvir.

Vai ser melhor do que filme porn�. Tem teu celular a�?

-Tenho. Para que? -Me d�! Me d�!

Me d�! Me d�! Vai, mano.

Vai l�, mas n�o fa�a barulho, eles podem te ouvir.

Tire uma foto.

Filha da puta!

-A Vivi � gostosa. -Filma a�.

Filmo?

Que linda � a tua namorada, Ciro. Tenho inveja de voc�. Ciro.

Vivi, meu amor!

Vai.

Est� aqui, Ciro.

Vamos descer o cacete nele.

Esperamos ele estar sozinho e descemos o cacete nesse brasileiro.

Vamos, Ciro.

Brasileiro de merda.

Vamos r�pido, Ciro.

Vamos, o que te deu, velho?

O que deu em voc�, Ciro? Levante, ent�o.

Voc� est� com vontade de descer o cacete, Sandro?

Voc� quer descer o cacete?

N�o, tudo bem, Ciro.

N�o tem nada n�o.

Voc� quer descer o cacete ou n�o?

N�o, n�o � nada, est� tudo bem, Ciro.

Fique tranquilo, doido. Fique tranquilo, doido.

O que est� rolando, galera?

O que voc�s est�o fazendo? Sai daqui!

Ciro, vem aqui.

Ei, Ciro, relaxa. Vamos nos divertir!

Ciro, que foi, louco?

O que � que voc� tem?

Est� ali. Ali est� a Vivi. Ali est� a Vivi, vamos.

Vamos! Vamos!

-Vai l� busc�-la. -Vai voc�, que � sua namorada.

N�o era que voc� tinha inveja de mim?

Voc� queria trepar com a minha namorada?

Vai, pega ela e trepa com ela.

Trepa com ela que nem eu trepei com a tua irm�.

Que porra deu em voc�, louco?

Eu vou arrombar o cu da tua namorada, Ciro.

Vai, quero ver! Vamos, vamos!

N�o! N�o! N�o! N�o! N�o!

N�o! N�o! N�o! Para! Para! N�o!

Mete.

Mete!

Sai daqui viado.

Nem pra isso voc� serve, filho da puta.

-N�o, n�o, para! Deixa ela. -Cala a boca.

J� chega, vai, deixa ela. Chega disso, deixa ela!

Vamos embora!

J� vi quem �, j� vi quem �, mano.

-Vamos embora, vamos embora! -Vamos n�s, ent�o.

Paulina.

Estou perguntando se voc� quer parar.

Quer dizer...

antes de continuar com o que aconteceu naquela noite.

O estupro?

N�o preciso parar, vim aqui falar sobre isso.

Bom, como voc� quiser.

O que acontece � que �s vezes � dif�cil falar

quando chega neste ponto.

N�o, pra mim, n�o.

Acho que eu quero parar um pouco.

-Te incomoda se eu fumar? -Pode fumar aqui?

Se voc� n�o se incomodar, pode.

N�o, vai em frente, pode fumar.

Por que a senhora n�o fugiu quando eles te pegaram?

Sei l�...

Primeiro pensei que eles pediam ajuda,

depois n�o consegui reagir, eram muitos.

Que horas eram?

N�o me lembro bem...

Tipo umas 23hs, ou mais tarde.

Vamos colocar pela madrugada.

A senhora sabe o nome dos seus agressores?

N�o, se eu soubesse, tinha falado.

-J� os havia visto antes? -N�o, acho que n�o.

N�o, como eu falei, estava escuro, cobriram minha cabe�a, n�o vi nada.

-Pode ser que j� os viu antes? -N�o.

Como estava vestida?

-O que? -Sua roupa.

Que roupa levava no corpo?

Uma camiseta, uma cal�a, um par de t�nis.

Poderia descrever sua roupa?

Sim, uma camiseta vermelha de manga curta, uma cal�a larga.

N�o usava nada sensual nem provocativo,

se � o que pergunta.

Desculpe, s�o os dados que necessito para o boletim de ocorr�ncia.

-Havia ingerido �lcool? -Eu? Sim.

-O que? -Vinho, na casa da minha amiga.

-Quanto? -Bastante.

-Estava b�bada? -Um pouco.

Drogas?

Pronto, chega, deixa, at� aqui.

-O que? -Terminamos aqui.

Estou seguindo o procedimento, senhor.

O procedimento est� bem, j� terminou.

Contus�o na �rea vaginal, pequena hemorragia

e hematoma peroneal.

Vamos ent�o com o cotonete.

Sim, me passa...

Por favor, com as n�degas para cima, levante a perna aqui.

Isso.

Assim est� bem, levante.

Isto vai doer um pouco, t�?

Continue respirando fundo como antes.

Relaxada, n�o fique tensa.

Este e esse s�o os analg�sicos e os relaxantes.

Tome a cada 12 horas ou quando voc� achar que precise.

Agora, esses aqui s�o os mais importantes,

s�o os retrovirais.

Pode ser que voc� passe mal, tenha n�useas,

mas, por nada nesse mundo, interrompa o tratamento, sim?

Sim, obrigada.

Esse � um assunto delicado, mas eu tenho que perguntar.

Tudo bem.

-O acesso foi via normal, ou? -Sim, vaginal.

As les�es que a senhora sofreu, s�o somente as mencionadas

no informe m�dico ou tem mais?

N�o, est�o todas, segundo o forense,

est�o todas a� no expediente.

Tamb�m necessito perguntar isto:

a senhora fez algum exame com rela��o � doen�as ven�reas?

Sim, fizeram tudo o que se pode fazer.

-O kit estupro? -Tudo.

A senhora sabe que tem que declarar aqui?

Olha como ficou marcado aqui... e aqui.

Bom, aqui � onde eu come�o a n�o entender.

-O que? -O que estava acontecendo com voc�.

Eu tinha que continuar.

Mas o modo que voc� escolheu � estranho.

N�o, n�o tive muitos casos como o teu.

Ent�o? O que voc� quer me dizer?

Me pergunto o que voc� estava buscando.

-Bom dia. -Bom dia.

-Voc� vai sair? -Sim, vou trabalhar.

-Trabalhar? -Na escola.

J� avisei que estava de volta.

-A quem? Ao Rudy? -Ao escrit�rio do Programa,

n�o posso continuar faltando.

Olha filha, n�o sei se � o melhor � um pouco cedo demais.

Al�m disso, pode ser perigoso.

-Perigoso por que? -Bom, n�o sei, tenho medo.

Acho que voc� est� tentando reagir muito r�pido.

Essas coisas levam tempo. N�o sei se voc� est� preparada.

Estou preparada, me sinto bem.

Quanto tempo eu tenho que faltar com as minhas responsabilidades?

N�o se preocupe, s�rio, eu estou bem.

Est�o me esperando.

Come�o em 3 minutos.

Meninas, para a sala.

Vamos, pra dentro.

Pra sala, vai.

Distribua isto por favor.

Leiam seus papeizinhos.

Algu�m pode me dizer o que � isto?

A Constitui��o.

N�o.

Juan Francisco, leia voc� por favor.

Todos t�m o igual direito � prote��o contra toda discrimina��o

que infrinja esta declara��o e contra

toda provoca��o em tal discrimina��o.

Algu�m pode me dizer o que �?

C�digo Penal?

N�o, n�o � o C�digo Penal.

� a Declara��o Universal dos Direitos Humanos.

S�o os direitos que todos n�s temos s� pelo fato de ter nascido

em algum lugar do planeta.

Somente pelo fato de existir e pertencer � esp�cie humana.

Agora, eu quero que cada um fa�a uma reda��o de 20 a 30 linhas,

sobre o que significa para voc� o artigo que voc� recebeu.

Bom, meninos,

Silvana, leia voc�.

Bom, a frase que eu recebi fala da escravid�o,

diz que nenhum homem pode ser escravo de outro homem

porque os homens s�o todos iguais.

Antes, os homens brancos se sentiam superiores,

e, por isso, achavam que as outras ra�as eram animais.

E que podiam utiliz�-las como hoje usamos os c�es e os cavalos.

Eles tamb�m achavam que as demais ra�as lhes pertenciam.

Hoje em dia, muitos homens tamb�m acham que os outros lhes pertencem.

V�rios postos v�o ficar instalados aqui no p�tio da escola

durante toda semana.

Voc�s ser�o atendidos das 8hs at� as 19hs.

Lembrem-se: � importante vir na segunda-feira para preencher o formul�rio

durante o resto da semana.

Alguma pergunta?

Para os documentos, � preciso trazer as crian�as?

N�o, primeiro venham sozinhos cadastramos e depois

voc�s voltam outro dia na mesma semana.

Da� venham com as crian�as, para fazer o pianinho,

tirar a foto e eles assinarem.

-Ok, Paulina... -Bom, coisas para n�o esquecer:

2� feira � o dia de marcar o hor�rio para o resto da semana.

Ficou claro?

Estive falando com um amigo que trabalha numa empresa de seguran�a.

Eles conhecem gente por l�, se quiser,

eles podem come�ar a averiguar.

-Averiguar? -Sim, averiguar, come�ar a mover.

-Averiguar o que? -Averiguar quem foram eles, Paulina.

-Eu sei quem foram eles. -O que?

Eu acho que eu sei quem foram.

Acho que s�o uns moleques da escola.

Voc� est� falando s�rio?

N�o tenho certeza, mas acho que foram eles.

Faz quanto tempo que voc� suspeita deles?

N�o sei, desde que voltei pra escola, mais ou menos.

Por que n�o me falou antes? Voc� sabe o nome deles?

Escuta bem Alberto, n�o quero que voc� fa�a nada, entendeu?

Paulina, voc� ficou louca?

-Continua indo sabendo quem s�o. -Fique tranquilo.

-Teu pai sabe disso? -N�o falei, n�o tenho certeza.

Eu quero resolver.

Paulina, voc� est� louca. Voc� volta l�, depois vem me dizer.

N�o tem nada a ver eu vou l� porque � meu trabalho.

Voc� est� me dizendo que faz 15 dias

que olha os filhos da puta que te estupraram!

N�o fico tranquilo.

Vamos at� a delegacia vamos denunciar.

N�o vamos nada. N�o se meta nas minhas decis�es.

Tuas decis�es? Voc� est� me deixando louco, Paulina!

Deixe eu fazer as coisas do meu jeito.

Do teu jeito?

Dando aula pro filho da puta que te estuprou? Esse � o teu jeito?

-Pauli. O que voc� tem? -Nada. Me deixa!

-Pauli, voc� est� bem? -Estou.

-Vem aqui, Pauli. -Me deixa! Estou bem.

-Voc� j� sabia? -Suspeitava.

-Faz quanto tempo? -N�o sei, uns dias, uma semana.

-Tem certeza de que n�o � meu? -Tenho, bastante, e voc� n�o?

Prefiro fazer um teste para tirar todas as d�vidas.

-Um teste? -Um DNA, Paulina.

Ah, isso � o que importa, se voc� � o pai ou n�o.

-Voc� acha pouco? -N�o, acho que � � toa,

e acho que isso est� mal.

-Voc� faz mal pra mim. -O que?

Voc� faz mal pra mim.

Eu nunca o vi de novo.

Tudo bem?

Acho que ele saiu da cidade, foi pro Paraguai.

Filhinha.

Vai ficar tudo bem. Eu te prometo.

-Voc� tem saudade dele? -N�o.

Na verdade, n�o. De jeito nenhum.

Que �rvores de merda�

Como � que pode ser t�o filho da puta?

D� pra perceber? 700 hectares desse lixo.

Para que?

Pelo menos antes, quando havia planta��o de erva mate,

t�nhamos um pouco de horizonte.

Agora vem esses florestais filhos de puta e fodem com a terra,

devastam tudo: a selva, a fauna,

a flora enchem tudo com essa folharada de merda que cresce

pra todo lado e se forram de grana.

Voc� n�o sabe o que era quando a selva chegava at� aqui?

Eu me lembro.

Como voc� se lembra?

Se voc� era um macaquinho pequenininho assim.

Voc� n�o lembra de nada.

Me fez muito bem.

Descansei bastante, falei muito com a minha tia tamb�m.

Posso te perguntar sobre o que?

Posso perguntar sobre o que falaram?

N�o sei, sobre tudo, bobagens.

Olha esse aqui.

Fala se n�o � inacredit�vel!

-� um p�ssaro. -� lindo.

Mas eu n�o entendo a pergunta.

Queria saber se voc�s falaram sobre o assunto.

Tua m�e era t�o filha da puta.

Ela sempre dizia que ela era a boazinha, e eu a malvada.

Mentira, ela era uma bosta.

-Voc� se lembra alguma coisa dela? -Nada.

Um pouco, meio nebuloso.

Claro que voc� deve lembrar dela como um anjo, n�?

-Uma apari��o do c�u. -Alguma coisa assim.

Viu? Sempre a mesma coisa.

A rainha da bondade.

Voc� n�o sabe o que ela era!

Um dem�nio.

Vou te dar um exemplo:

Cada vez que eu gostava de algu�m ela fazia o imposs�vel

para ficar com ele primeiro.

E ela conseguia, hein! Fazia sucesso. Ela se dava bem.

Quando a gente era mais velha, e mor�vamos juntas,

ela se fechava no quarto com os caras, e gritava tanto,

que n�o se podia pensar em outra coisa.

Voc� acha que ela estava se divertindo?

N�o! Era um show, era de filha da puta.

-Voc� vai ficar mais uns dias aqui? -Acho que n�o.

Quero voltar, quero voltar pra escola.

A Victoria vai pra Buenos Aires, pra prestar um concurso.

-Voc� a cumprimentou? -N�o a vi.

Talvez ela tenha sa�do pra n�o me ver.

N�o seja paran�ico. Ela deve estar no viveiro.

Para mim � melhor. Evito ver a cara de cu dela.

Ela se comportou bem comigo. Eu gosto de falar com ela.

-Ela acalmou minha cabe�a. -Ela queimou tua cabe�a.

Bom, isso tamb�m.

Filhinha...

Eu queria te dizer...

Voc� deveria continuar com as tuas coisas agora.

Eu acho bom dar esse tempo...

E se voc� quiser continuar indo pra escola,

eu entendo, por esse momento, por um tempo.

Mas quero que voc� saiba que est� tudo acertado.

Obviamente que eu quero que seja a tua decis�o, o momento, o lugar,

a forma...

O que eu quero � te acompanhar da melhor maneira.

Mas eu j� falei com o teu ginecologista.

� pra voc� ficar tranquila. J� est� tudo acertado.

Ent�o, quando voc� decidir...

Papai, eu andei pensando muito...

-O que foi? -Voc� ficou louca?

-Voc� pirou de vez? -Se acalme, Fernando.

-N�o fico calmo. Voc� fez merda! -Deixa eu falar?

N�o te deixo falar!

Vai falar o que?

� uma loucura!

Por que voc� enfiou isso na cabe�a dela?

Eu n�o tive nada a ver com isso.

� ela.

Ela quer ter.

Ela est� decidida.

-Ela est� louca. -Mas � isso o que ela quer fazer.

Vamos esperar... Vamos esperar.

A pior coisa que a gente pode fazer agora � pression�-la.

-Como voc� est�? -Bem.

-E essas coisas? -Eu vim busc�-las.

Eu vou ficar na Laura.

Acho que vai ser melhor.

-L�? -Vai ser mais c�modo pra mim agora.

Voc� precisa de ajuda? Quer que eu te leve?

N�o, s�o poucas coisas agora.

Na semana que vem eu venho buscar mais.

Est� bem. Bom, vou indo.

Qualquer coisa estou no celular.

-Oi! -Oi!

N�o escutei voc� chegando.

Fiz espa�o ali pra voc�.

-Ali. Ali. -Obrigada.

-Quer comer alguma coisa? -Quero. Estou faminta.

Vem.

Vivi!

Segura aqui pra mim?

Vivi, voc� est� a�? Vivi! Brian!

Vivi.

-Oi -Oi, linda.

Ela � a Paulina... Vivi.

-Ol�. -Vivi� Paulina.

Brian, vem.

Venham, entrem.

Vamos l� pra dentro.

A Laura me disse que a senhora est� gr�vida.

Pode me chamar de "voc�". Sim, estou.

-Faz quanto tempo j�? -Um m�s e meio, mais ou menos.

Olha senhora, eu n�o a conhe�o bem, mas eu imagino o que est� passando.

Se precisar de ajuda, ou que eu fale com a pol�cia,

que eu testemunhe, o que for...

N�o, agora eu n�o quero fazer nada disso. Obrigada.

Eu tive o meu Brian aos 14.

O pai dele era um irm�o da minha m�e.

Eu sou de Eldorado.

Quando eu fiquei gr�vida, eu fui embora e nunca mais o vi.

Agora que passou o tempo, se pudesse v�-lo de novo, voc� o veria?

Est� morto o filho da puta. Era um vagabundo, um b�bado.

Minha m�e sempre defendia ele.

Quando eu soube que o mataram de uma facada, numa festa,

eu fiquei feliz.

Mas essa noite eu cheguei em casa e fiquei chorando como uma louca.

E Brian me perguntava o que eu tinha, e eu n�o sabia o que dizer pra ele.

Eu n�o sabia se estava chorando de alegria ou de raiva...

por n�o t�-lo matado eu mesma.

O cara que estuprou voc� � o Ciro.

� o mais velho de todos. Ele n�o vai pra escola.

Ele trabalha na serralheria Duque. Eu sa� com ele algumas vezes.

Como voc� sabe que foi ele? Como voc� tem tanta certeza?

Porque ele me contou.

Ele se chama Ciro do que?

Eu n�o sei o sobrenome dele. Eu falo s� Ciro.

E como ele �?

Ciro.

-Preciso falar com voc�. -Agora?

N�o, agora n�o, vai demorar.

-O que voc� quer? -N�o se preocupe.

N�o vai haver nada com voc�. Ningu�m sabe que eu estou aqui.

-O que � que voc� quer? -J� te falei, preciso conversar,

� a �nica coisa que eu te pe�o.

Acho que voc� n�o est� em condi��es de me dizer n�o para nada.

N�o se assuste. Te dou minha palavra.

N�o vai haver nada com voc�. N�o vai demorar.

Depois, voc� nunca mais vai me ver.

Eu j� averiguei.

Na quinta-feira voc� sai ao meio dia.

Voc� tem a tarde livre.

Na quinta, �s 17hs, eu te espero.

N�o vou com a pol�cia, nem ningu�m. Fique tranquilo.

Eu te vejo l�.

Tchau.

Ei! Onde?

L�, no mesmo lugar.

E voc� sente que conhec�-lo significou alguma coisa pra voc�?

N�o sei do que voc� est� falando.

Talvez voc� precisasse v�-lo primeiro, sei l�.

J� sei do que voc� est� falando, da S�ndrome de Estocolmo, � isso?

-Eu n�o chamaria assim. -Ah, n�o?

Voc� pensou sobre isso alguma vez?

-N�o. -Ent�o por que voc� mencionou?

Porque n�o � a primeira vez que algu�m menciona.

Voc� n�o acha isso significativo?

Veja bem, a S�ndrome de Estocolmo � uma menina rica

que fica afim do seu sequestrador.

Eu fui estuprada, fiquei gr�vida, e eu s� queria ver o cara que fez isso.

Explique a semelhan�a.

Eu n�o estou apaixonada, nem confusa, est� claro?

Ok.

-Ent�o o que voc� estava buscando? -Saber a verdade.

Isso n�o deveria ser feito pela Justi�a?

Quando h� pobres no meio, a Justi�a n�o busca a verdade,

busca culpados.

E por que voc� foi v�-lo?

Paulina.

-Voc� est� indo agora? -Estou.

Tem certeza que n�o quer que eu te acompanhe?

Tenho.

Preste aten��o: se voc� n�o me ligar antes das 18hs

pra me dizer que est� tudo bem, eu chamo a pol�cia. T�?

-Entendeu? -Sim, entendi Lau.

-Fique tranquila. -Me liga.

Sim. Tchau.

-Bem-vindo ao Paraguai. -Muito obrigado.

-Tem algo a declarar? -N�o.

Vamos verificar...

J� vou.

-Quando termina? -Em uma hora.

-Ela vai ter, n�? -N�o sei.

-E voc� n�o vai fazer nada? -N�o tenho muito o que fazer,

� ela quem decide.

Paulina n�o est� bem. Ela n�o pode decidir.

Eu sei, mas mesmo assim.

N�o entendo como voc� pode falar assim, tranquilamente.

Paulina precisa de ajuda e eu n�o posso.

Eu juro que estou tentando.

Acho que voc� n�o est� fazendo o que deveria fazer.

Porque voc� � o pai.

� por voc� ela faz tudo o que faz, e por teu lugar no tribunal.

Mas h� uma investiga��o e eu n�o posso me meter.

O que fizeram com ela � um delito muito grave, enorme.

E voc�, como juiz, n�o pode permitir.

Eu n�o posso agir contra a decis�o da minha filha.

Ela � uma mulher adulta, voc� entende?

Sim, eu entendo.

Uma mulher adulta que sabe bem quem s�o os seus estupradores

mesmo assim n�o denuncia.

-Como? -Ela sabe que eles est�o na escola.

Sabe os nomes de cada um deles, e ela n�o faz nada.

� verdade isso?

-Como voc� est�? -Bem.

E essas coisas?

Eu vim busc�-las.

Vou ficar na Laura, acho que vai ser melhor.

L�?

Sim, � mais c�modo pra mim agora.

-Bom dia, doutor Vidal. -Bom dia, obrigado por vir aqui.

N�o tem de qu�.

N�o sei se o senhor sabe, minha filha teve um incidente

com um bando da sua zona.

Eu soube, mas ordenaram n�o avan�ar.

Eu sei, fui eu que pedi isso,

mas agora eu preciso que voc�s resolvam.

O que o senhor precisa exatamente?

Preciso que identifiquem os agressores, prendam,

e que permane�am todos detidos.

E eu preciso que sejam muito discretos.

Sei que tem um deles que trabalha na serralheria Duque

e que tem outros que est�o no Programa da Secretaria,

mas n�o peguem eles l�, peguem no bairro.

Pare, pol�cia! Alto! Pare, pol�cia!

Pare, pol�cia! Pro ch�o!

-Pro ch�o! -O que voc� est� fazendo aqui?

Vem aqui moleque de merda! Parado a�. Parado a�.

Coloque suas m�os em cima do carro!

Em cima do carro!

Voc� n�o escuta porra nenhuma! Abre as pernas! Vai!

Vai se fazer de menino malvado, agora?

-Foi voc� que comeu ela? Foi voc�? -N�o! N�o fui eu!

Eu juro! Foi o Ciro!

Por que est� chorando agora? Por que est� chorando, viadinho?

Ei, voc�, de p�!

Ent�o quer dizer que voc� � o machinho?

Abre a cela, vai! Agora voc� vai ver.

De p�! De p�!

Voc� vai aprender... Vem aqui!

Ele est� ali, est� ali.

Repita o que voc� me disse agora pouco.

-Diga! Foi ele? Diga! -Sim...

Se voc� precisar de mais tempo, me avise.

Bom, senhorita Vidal, aqui est�o as pessoas

para o reconhecimento,

a senhorita j� sabe o procedimento,

quando estiver em condi��es,

por favor...

-Diga-me. -N�o s�o eles.

-Tem certeza? -Tenho.

Vamos?

-O que foi? -Nada.

N�o sei o que me deu.

Acho que voc� n�o est� fazendo a coisa certa.

N�o entendo voc�.

At� aqui eu te acompanhei, mas eu n�o posso continuar.

-N�o sei o que voc� quer demonstrar. -Eu n�o quero demonstrar nada.

N�o sei o que voc� quer provar.

Para quem voc� quer demonstrar?

Eu n�o dou mais.

Eu acho errado o que voc� est� fazendo.

Ok.

Est� ficando tarde.

N�o te d� medo quando voc� vir o teu filho,

ver a cara de quem te estuprou?

Me perdoa. Vai, me perdoa.

Me perdoa.

Posso ficar uns minutos a s�s com ela, por favor?

O que voc� vai fazer?

Voc� viu o estado em que os deixaram?

-Quem? -Voc� viu ou n�o?

Por que voc� n�o deixou isso pra mim?

Deixar pra mim? O que voc� faria?

-Melhor do que voc�s. -Melhor do que voc�s?

-O que? -Vai, Fernando.

Eu estou agindo de acordo com a Justi�a.

Voc� est� agindo de maneira fria e objetiva, n�?

Voc� sabe bem que estes s�o os caras que te atacaram.

Vamos supor que eu declare, os moleques v�o presos, e da�?

Serve pra quem? Pra mim? Para voc�? Para quem?

A quem serve?

� a justi�a, n�o importa � quem serve.

� a lei, voc� a conhece bem.

Sim, a lei, essa que fez voc� decidir

que era melhor descer porrada neles.

que arranquem uma confiss�o, que caguem nos direitos deles.

Foi voc� que n�o quis declarar.

Quem n�o quis que tivesse nenhum processo,

quem ficou obsessiva com uma cruzada incompreens�vel,

messi�nica e sem nenhum sentido.

Esque�a como se obteve a confiss�o.

Esque�a como eles foram detidos, das cagadas que voc� fez no processo.

Voc� se sente melhor que os moleques sejam presos?

-Voc� acha certo? -Sim!

Sim, eu acho certo.

Estes caras estupraram voc�! Eles te agrediram!

Eles poderiam ter te matado! Eu sou juiz, Paulina.

Esse cara � um estuprador.

Como voc� sabe que ele j� n�o estuprou?

Como voc� sabe que ele n�o vai estuprar de novo?

-N�o sei. -Ah!

Eu estava fazendo as coisas do meu jeito.

Por favor! Do meu jeito!

De que jeito voc� vem fazendo as coisas?

Negando o que aconteceu com voc�!

O que aconteceu com voc� � horr�vel!

� a pior coisa que pode acontecer com uma pessoa,

mas aconteceu com voc�, filha,

foi com voc�, voc� foi estuprada.

Voc� � uma v�tima, n�o uma hero�na.

Voc� � uma v�tima!

Por que te incomoda tanto que eu queira ter esse filho?

Por favor, n�o � pelo filho, � por voc�.

N�o, voc� n�o ficou louco quando me estupraram.

Nem quando n�o se investigou ou voltei pra escola.

Foi quando eu decidi ter esse filho, por que?

Porque � um filho de um estupro.

E se fosse o Alberto que me estuprou?

Uma noite, b�bado. � perfeitamente poss�vel.

Poderia ter engravidado tamb�m.

N�o sei!

-N�o foi isso o que aconteceu. -Bom, mas o que voc� diria?

Agora eu te fa�o uma pergunta:

se tivesse sido assim, o Alberto que te estuprou, se o filho fosse dele,

neste caso, o que voc� faria?

O que voc� faria?

Faria a mesma coisa ou abortaria?

-Abortaria. -Abortaria?

-Sim. -E ent�o?

Tudo bem, n�o foi nada.

Filha, por favor.

Voc� ainda tem tempo, repense...

N�o.

Eu n�o estou louca.

Eu acho que voc� tamb�m n�o est� louco.

Nem que voc� tenha se tornado um reacion�rio, nada disso.

Eu entendo voc�, juro que te entendo.

N�o sei o que eu teria feito no teu lugar.

Provavelmente eu teria feito o mesmo que voc�, ou pior.

Estupraram a tua filha, sim, uns filhos da puta

estupraram a tua filha.

Voc� tem raz�o, qualquer um te daria raz�o.

Mas eu n�o estou no teu lugar.

Eu estou no meu lugar.

Aconteceu comigo.

O que aconteceu comigo, ningu�m que n�o tenha passado pode entender.

Sabe o que mais?

Voc� tem raz�o, eu sou uma v�tima.

Eu sou uma v�tima.

Mas sabe o que eu sinto, com uma m�o no cora��o?

Sinto que n�o serve pra nada ser uma v�tima.

Que eu sou a consequ�ncia de um mundo horr�vel,

-que s� gera viol�ncia. -Chega! chega! chega!

N�o quero te ouvir mais. N�o posso te ouvir mais.

Cala a boca. Cala a boca.

Este filho � o resultado de uma realidade

que voc� n�o pode entender.

Eu tamb�m n�o.

Mas pelo menos eu tenho uma certeza:

Eu n�o quero me desfazer dele.

Ele est� dentro de mim, quero que ele nas�a.

J� n�o importa eu e voc�, n�o importa

o pobre do filho da puta que me estuprou.

N�o importa se aborto ou n�o aborto. Entende?

J� � outra coisa, papai. Eu j� estou aqui.

N�o escolhi estar aqui. Mas eu estou aqui.

Eu n�o posso ir embora, eu n�o quero ir embora.

Eu j� estou aqui e quero continuar.

Paulina Vidal.

Terminamos?

Voc� quer perguntar mais alguma coisa?

N�o, acho que n�o, j� � suficiente.

O que voc� vai colocar?

O que?

O que voc� vai escrever no informe?

O que falamos, o que voc� me contou,

o que eu observei.

-Bom, posso ir embora, ent�o? -Quando voc� quiser.

Bom, senhorita, estamos atentos.

A senhora jura, com pleno conhecimento

da responsabilidade, perante sua consci�ncia

que dir� tudo o que for perguntado e que n�o ocultar� nada?

Eu juro.

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