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Um filme de
MELHOR ACTRIZ
Estou farta destes tiros.
Mara, olha! Trouxe-te um animal de estima��o!
Essa parte fui eu que escrevi para ti para o "Sangue de Barro", 1962.
Obrigada pela homenagem.
O ga�cho maldito aproximava-se e tu,
a jovem inocente com as trancinhas, imploravas por miseric�rdia.
"N�o, n�o, de onde vem? Para onde vai?
O que quer de mim?"
"Eu venho do p�, e ao p� voltarei."
"E o que quero..."
"Bom, � �bvio, n�o �?"
"�s minha!"
Foda-se, merda, caralho!
Resume, Marita, resume.
Para qu� usar tr�s palavras se basta uma?
Quem me dera ter mais cinquenta!
Med�ocre, falhado, piroso... Argumentista!
Seu monte de merda!
Ora, a isso chamamos de pleonasmo...
ou redund�ncia.
- Porque... Do que pode ser feito um... - Cala-te!
Cena dois de "Safra Sat�nica".
Argentina Sonofilm, 1959.
N�o � o meu melhor filme, mas teve os seus momentos.
Porque � que n�o se v�o embora desta casa?
Eu nunca quis que viessem viver para aqui!
Odeio-vos tanto aos dois! Odeio-vos!
Na minha opini�o, falta subtileza.
Tantos anos como estrela de cinema, e nunca aprendeu a resguardar-se.
Parece-me que adoras faz�-la sofrer.
Parece?
� preciso ter cuidado com a Mara, parece-me cada dia mais fraca.
E se lhe acontece qualquer coisa?
Bem, se o esquecimento do p�blico n�o a matou...
o que � que uma pobre ratazana lhe pode fazer?
Pelo contr�rio, ela adora!
Ela grita para exercitar o seu boneco interior,
a sua ferramenta, bom...
essa coisa que serve de alma aos actores.
Tal como escreveste.
Como era mesmo o di�logo do "Um Grito na Noite"?
"O homem fortalece-se com um pouco das muitas fraquezas."
"Um pouco de...
anginas, um pouco de varicela,
um pouco de tristeza e um pouco de medo."
N�o era "um pouco de anginas",
eu escrevi um pouco de pert�ssis, ela disse "um pouco de anginas"
e tu deixaste-a diz�-lo!
Ela tinha raz�o. Ningu�m sabe o que � a pert�ssis.
Deus nos livre de aprenderem qualquer coisa!
O �nico problema desta casa s�o os vermes.
N�o s�o vermes, Martin, s�o bichinhos, bichinhos.
As doninhas, as galinhas, as ratazanas...
Bichinhos.
Alguns querem comer o que n�s temos,
outros s�o comidos por n�s, porque n�s tamb�m somos bichinhos.
Um bichinho come outro, que come outro, que come outro...
E assim aos poucos,
se fez a hist�ria do mundo.
Mas que filos�fico que est�s.
Estamos a sobrevoar altos n�veis de profundidade.
Rapazes! Venham c�!
N�o sei se consegui,
mas tentei captar a ess�ncia da paisagem.
Com o passar dos anos
as cores e a vida deste parque continuam a estimular-me.
� uma fonte de inspira��o inesgot�vel...
Fica mal ser eu a diz�-lo,
mas acho que � uma das minhas melhores obras.
Sim... Fica-te mal.
� a terra, mas com alma.
� o c�u, mas com sentimento.
Resumindo, � a paisagem, mas com a minha marca.
E que belo bocado de... marca!
N�o foi uma piada assim t�o boa.
N�o, mas ele � t�o engra�ado!
E tu �s muito f�cil.
Olha, vou-te dizer uma coisa:
a marca est� c�,
mas a paisagem...
Que queres que te diga?
E ri-se, que queres que fa�a?
Foi impress�o minha ou ouvi a Mara a gritar h� bocado?
Ah, sim.
Viu um bichinho, pobrezinha...
Sim, tem andado um pouco sens�vel ultimamente...
Bom, acho que vou ter que assumir o meu papel de marido e defend�-la.
N�o, j� desempenhaste demasiados pap�is na vida.
E todos mal, n�o foi senhor realizador?
Ui, l� vamos n�s outra vez!
Algum dia vais ter a coragem de me dizer na cara
o que achas de mim como actor.
Pedro...
Algu�m que � capaz de fingir amar a Mara durante 50 anos
�...
o melhor actor da hist�ria!
Que mau!
Que mau, ele � terr�vel!
Bem, bem, ch�zinho de am�ndoas caseiro
com tr�s gotas de mel para ti...
Obrigado.
Um pouco de vinho do Porto para mim.
Com mais a��car que Cuba para o Pedro...
Mais uma, mais uma por favor!
- Obrigado! - Um brinde!
- Sa�de! - Sa�de!
Esperem, n�o quero ser chato mas... Brindamos ao qu�?
Deixa-me pensar... Brindamos a qu�? Brindo...
Porque a nossa vida n�o � como um dos teus gui�es.
Ou seja, n�o � perfeita.
N�o, porque �!
No cinema n�o existem vidas como as nossas, sem problemas.
Uma bela amizade, s�lida,
com mais de 50 anos sem conflitos
� muito chata, n�o �?
Nos filmes tem de haver perigo,
uma amea�a. Um vil�o.
Que s� aparece quando tudo parece estar bem.
Exacto!
Ent�o brindo, porque...
a nossa vida n�o foi como nos filmes.
- Sa�de! - Sa�de!
Desculpem, bom dia.
Desculpem a invas�o. Precisamos de ajuda.
N�o temos...
S� demora um segundo.
Vai ser s� um segundo.
Temos que estar em Buenos Aires �s 14h30
e estamos completamente perdidos.
Temos uma reuni�o muito importante,
e � terr�vel se n�o avisarmos e n�o temos rede.
Podemos usar o vosso telefone?
N�o lhes mostres desespero s�o capazes de te cobrar a chamada.
Est�o com pressa, Mara, n�o vale a pena apareceres.
Porque n�o?
E v�o-se embora a pensar que somos todos mal educados nesta casa,
e feios ainda por cima, por amor de deus.
Desculpe, desculpe.
Mara Ordaz?
N�o!
N�o posso acreditar!
N�o, a minha deusa, por favor!
Afinal ainda existe eleg�ncia!
Tenho que sair mais.
� uma honra conhec�-la.
O prazer � todo meu.
Tamb�m o conhe�o.
- Martin Zarabia? - N�o.
� ele.
� s� o argumentista.
Sou uma grande admiradora dos seus filmes!
Bom, isto vai soar a frase feita,
mas os filmes de agora n�o s�o como os de antes, pois n�o?
Sim, tem raz�o.
Isso � uma frase feita, invente uma sua melhor.
Ao princ�pio custa um pouco, mas com o tempo melhora tudo.
Tudo n�o, olha para ti!
Percebes porque te amo?
Ent�o, o senhor deve ser o Pedro de C�rdova?
Sim, obrigado, obrigado.
� o seu marido, certo?
- Ent�o, tamb�m trabalhou em filmes? - N�o, n�o.
Sou p�ssimo actor, n�o sei escrever,
detesto transportar luzes, coser roupa,
maquilhar, pintar cen�rios...
Nem sequer sei fazer caf�.
N�o tenho qualquer habilidade.
� realizador.
Norberto Imbert, muito prazer.
N�o posso acreditar, est� c� a equipa toda!
Desculpem, sou o Franscisco Gourmand,
e esta � a B�rbara Otamendi.
N�o posso acreditar, quatro super mega g�nios,
aut�nticos deuses!
N�o exagere!
Quatro?
Entrem, est� tudo desarrumado.
Ai meu deus, meu deus!
- N�o � assim t�o especial. - Isto � o...?
As pessoas ficam muito impressionadas quando o veem,
mas para n�s � somente um adere�o.
� verdade que apenas duas actrizes o receberam
com um filme estrangeiro.
Eu e a Sophia Loren.
Mas � uma est�tua,
fria,
dura...
A Sophia Loren, claro.
Al�m disso, envelheceu t�o mal...
Est� t�o deteriorada!
Ou minto?
Sempre.
O telefone est� ali.
Obrigada.
Desculpe...
Posso?
Sim.
Ai, � t�o pesado!
Como todos os homens desta casa.
N�o imagina as vezes que eu revi as grava��es da cerim�nia...
Grava��es velhas, j� gastas...
Lembro-me de cada palavra que disse.
"Quero agradecer a toda a minha equipa
pessoas sem fama nem gl�ria...
e que se n�o fosse por mim
estariam sem trabalho."
Foi mais generoso que a Mara, o que ela disse foi:
"teriam morrido � fome."
O Martin n�o me perdoa que os nervos do momento
me tenham feito esquecer de elogiar o seu maravilhoso argumento.
Tudo resolvido!
- A reuni�o foi cancelada. - Boa.
O que � isto?
Que intenso, n�o?
Como se...
o artista fosse uma alma presa, mas cheia de paix�o.
N�o, foi ele que o pintou.
O Pedro.
Pintou isto?
Bom!
Que a mesma pessoa seja actor e saiba pintar assim, � demais!
Devia exp�-los!
N�o, n�o, n�o.
N�o gosto que as pessoas os vejam.
E vice-versa, meu querido.
Enfim, j� que aqui estamos, n�o nos fazem uma visita guiada?
Claro! Adorava! Venham, por favor.
Levem o Pedro l� para baixo.
Mand�mos instalar um pequeno elevador para o meu marido depois de...
Ah, sim, o acidente.
N�o, v�o voc�s andando. Eu fico aqui.
V�o l�.
O meu santu�rio neste mausol�u.
N�o imaginam como me sinto bem aqui, entrem.
Se a minha m�e visse isto, morria outra vez!
Ela adorava-a.
Mostrou-me todos os seus filmes.
Que querida!
Agradece-lhe por mim.
Ela j� faleceu.
Ah, ent�o d�-lhe os meus p�sames.
Anda, vou mostrar-te um filme do Demar, n�o vais acreditar.
Ele pedia-me conselhos.
� inacredit�vel que um realizador como ele
quisesse a minha opini�o.
Olha-me para esta cama!
� fant�stica!
Sou especialista em mobili�rio de �poca.
Diria que isto � do estilo... Isabelino?
� um adere�o, Francisco.
Do "A vingan�a de Lucrecia Borgia", n�o �?
Viu-o! Uma preciosidade, certo?
Sim.
Uma esp�cie de �pico "boutique".
Pouco or�amento, realiza��o pobre, argumento... que dizer?
Uma grande actua��o, s� isso.
N�s cham�mos-lhe "A Vingan�a de Mara Ordaz",
essa cama custou � produ��o 15 mil d�lares.
Tu mereces.
Tinha criado uma Lucrecia encantadora, cheia de vida...
e estes tipos transformaram-na numa assassina, envenenadora,
uma grande cabra, enfim.
A Lucrecia Borgia era uma cabra!
E tu estiveste perfeita!
Se n�o nos tivesses obrigado a comer a cena da morte...
O p�blico n�o me queria ver morta.
Toda a gente te queria ver morta, Mara.
Principalmente a equipa.
Cortaste a cena porque n�o tiveste coragem de a fazer.
Como?
Claro, as tr�s coisas mais dif�ceis para um actor s�o
rir, chorar e morrer.
Cortaste a cena porque n�o a conseguias fazer.
Que rid�culo!
Como �s capaz de me dizer isso?
Sabes que sou pura emo��o!
Vamos!
Sempre sonhei com descer estas escadas enormes!
N�o, n�o, por favor!
Desculpa, � muito perigoso!
As escadas s�o muito escorregadias.
A maior parte dos acidentes acontece em casa.
Vamos como uma deusa desce para junto dos modais.
Fica deslumbrante a descer as escadas.
Melhor do que a subir.
Pedro!
N�o consigo decidir se o acho melhor actor ou pintor.
A s�rio!
Quer conhecer o meu atelier?
N�o, Pedrito.
Esta visita guiada j� se alongou muito.
Quase todo um acto.
N�o, eu adorava!
- Eu levo-o. - Obrigado.
H� quanto tempo pinta, Pedro?
Quando era novo frequentei a Escola de Belas Artes...
Depois entrei no teatro e bom...
Agora voltei ao meu primeiro amor...
Que loucura, toda esta vegeta��o, Mara!
E aquela �rvore, quantos anos tem?
Querido, nesta casa n�o se pergunta a idade a ningu�m.
Gostava de a ver de perto, acompanha-me?
- Est� bem. - Venha comigo.
N�o me diga que tamb�m � escultor.
S� no duche.
E trabalha com moldes?
Que estranho!
A sua arte parece-me t�o livre que...
n�o imaginei que trabalhasse com moldes.
N�o, isso � para a est�tua que est� no jardim...
Foi um trabalho �rduo, foi por isso...
Esta �rvore faz-me lembrar de si.
Porque com o passar do tempo, n�o sei, vai ficando cada vez mais...
mais forte, mais...
mais bela... � verdade!
Honestamente, n�o consigo imaginar um homem que a veja e...
que n�o caia aos seus p�s.
Oh, meu querido.
Vamos ser realistas.
Nem toda a gente tem o teu bom gosto.
Bom, obrigado.
E nunca...
Nunca pensou em voltar a representar?
Cada minuto...
de todas as horas...
de todos os dias.
E porque n�o volta?
Mas, para voltar,
tem que dar tudo!
Tem que come�ar a ir �s estreias,
tem que voltar �s noites...
Tem que ir viver para o centro,
tem que mudar-se, aqui...
Aqui est� muito longe.
E o Ped...?
E o que fa�o a isto tudo?
- A esta mans�o? - Claro.
Bom, sim, n�o vai ser f�cil. � de outra �poca.
Deve ser pouco eficiente,
e a manuten��o muito cara...
Mas n�o se preocupe,
eu trabalho nisto, tenho...
Temos uma imobili�ria familiar, e podemos ajud�-la nisso.
E para mim seria uma honra.
� a casa da Mara Ordaz!
Honestamente, nunca tinha pensado nisso.
Sim, claro... Vai correr tudo bem com a casa.
O mais importante
� que o mundo volte a gostar de si.
� isso o mais importante.
Vamos fazer o seguinte.
Vou-lhe deixar o meu cart�o.
E estes buracos?
Parece que o humor n�o � a �nica coisa corrosiva nesta casa.
Ah, que esp�ctaculo!
Ent�o � aqui que tudo se passa?
O qu�? Como assim "tudo se passa"?
N�o se passa nada. Aqui n�o se passa nada.
N�o! Quero dizer, � este o vosso espa�o de criatividade?
"Chegar� o dia
em que as minhas pernas n�o ir�o suportar o peso do teu amor."
- Isto � seu, n�o �? - Sim, �.
Na escola secund�ria conquistei o meu grande amor, Patito Ruiz
ao recitar-lhe...
"A Luz do teu rosto..." - Espera!
Porque � que n�o deixas que seja um actor a s�rio a diz�-lo?
Pedro?
N�o, n�o, n�o.
Sim, meu amor.
Diz tu, sim!
Bom, ele n�o quer. Diz tu.
Sim.
"Chegar� o dia
em que as minhas pernas n�o ir�o suportar o peso do teu amor."
"A luz do teu rosto
ser� muito d�bil para que os meus olhos a vejam,
e a m�sica da tua voz muito t�nue para os meus ouvidos."
"Esse dia,
"esse dia...
"esse dia ser� demasiado triste para que a minha vida o suporte
e ser� o dia da minha morte."
"E se me rejeitares,
"esse dia
ser� amanh�."
Ent�o?
O que acharam?
Acho que o Patito era um oferecido, n�o?
N�o! N�o, n�o.
Foi o efeito das suas palavras, Martin.
N�o, as minhas palavras n�o s�o nada.
Sem um grande realizador que lhes d� forma
e um grande actor que lhes d� vida,
s�o manchas de tinta num peda�o de papel,
uma salada murcha de palavras sem sentido.
N�o, n�o!
Estou completamente em choque!
Nunca antes te ouvi admitir isso!
Nunca vi este tipo actuar.
Bom, espero v�-la em breve.
Ent�o, o que te disse?
Que ao contr�rio do que alguns acreditam,
as pessoas ainda se lembram de mim.
S�o simp�ticos.
S�o intrometidos.
S�o maus.
Desliga essa porcaria!
Quero anunciar uma coisa.
J� n�o aguento. J� n�o aguento os vossos di�logos,
nem os vossos mon�logos,
nem os vossos coment�rios.
Na verdade, j� n�o aguento as vossas vozes
em qualquer formato ou combina��o.
Tamb�m j� n�o aguento os vossos sil�ncios.
Resumindo,
j� n�o vos aguento.
Vou vender a casa.
Pedro,
se quiseres, podes vir comigo.
Voc�s dois
podem ir � merda!
Fim da declara��o.
Percebes porque te amo?
N�o vais vender a casa.
Fim da declara��o.
N�o lhe liguem...
Isto �...
uma grande merda!
Bom, tecnicamente � um conflito,
mas coloquialmente... - � uma grande merda.
Obrigado por me deixar conduzir esta preciosidade!
Um Triumph de 1963!
N�o tem ideia de quanto adoro estas rel�quias.
Desculpe.
N�o �?
- Sou. - N�o!
N�o posso! Que honra!
Entrou no...
No "Rel�mpago no Nevoeiro", n�o foi?
- Era eu mesma. - Por favor, que felicidade!
N�o acredito.
Mas hoje � toda minha.
- N�o, deixe-me oferecer. - A s�rio?
A s�rio.
Basta-me o seu sorriso.
- Entrem! - Obrigada, obrigada.
Um jantar com a Mara Ordaz.
Espero ter escolhido bem o restaurante.
- � caro? - Um roubo.
Escolheste bem.
Ol�, boa noite.
Desculpem, mas temos uma hora de...
Ai, desculpem.
Mara Ordaz!
Ainda sou, bato na madeira.
Vou morrer!
Oh, sou uma grande f�!
"Santa Ga�cha"!
Sim! � o m�ximo!
O m�ximo?
Um m�ximo!
M�ximo? Quem � o M�ximo?
Ai, n�o, fiquei nervosa, desculpe.
Por favor, fiquem.
Volto j�.
- Por favor. - Obrigado.
O que eu andava a perder por n�o sair de casa.
Por favor, aproximem-se.
Desculpe, estou t�o emocionada que nem sei por onde come�ar.
- O que querem beber? - S� �gua. E vinho, claro.
- Dois copos? - Uma garrafa.
Temos um muito bom, Pulenta de 2005.
- "Pulenta"? - O Pulenta � carote...
Traga-o.
Muito bem. Com licen�a.
Muito obrigado.
As coisas j� est�o muito bem encaminhadas.
No escrit�rio, j� est�o a trabalhar, � procura da sua casa nova,
e o mais dif�cil, � procura de compradores para a sua.
Mas para isso, preciso que assine
esta autoriza��o.
O que � isso?
� um documento em que autoriza que a imobili�ria, ou seja, eu,
a poder vender a sua casa.
Isto porque, n�o imagina...
sempre que digo que tenho a casa da Mara Ordaz para venda,
ningu�m acredita.
Dizem "O qu�? N�o gozes!"
� por isso que preciso da autoriza��o.
N�o s� te dou a autoriza��o, como te obrigo a vend�-la!
Deve estar farta de restaurantes de luxo, n�o?
N�o, estou farta dos outros.
O luxo nunca cansa, assenta-me muito bem.
Toma.
O Pedro era diferente.
Ele foi sempre mais discreto.
Imagina que quando entr�vamos num s�tio
toda a gente se matava
para me tocar, para me tocar no vestido...
Ele tinha que literalmente pegar-me ao colo
e levar-me para a cozinha.
Devias t�-lo conhecido antes.
Era t�o forte, estupendo.
As pessoas adoram-na, n�o �?
Adoravam-me.
N�o, porque � que diz isso?
O passado � um prel�dio do futuro.
Acho que querias dizer pr�logo, n�o?
- Desculpa. - N�o, n�o.
Estou rodeada do Martin e do...
Martin...
Que tipo, n�o?
Desculpe que lhe diga isto,
mas pelo que vi ele n�o p�ra de a torturar.
E o Norberto?
Quem � que ele pensa que �?
Acha-se o melhor de todos, e que sabe tudo...
Reparei que estavam a gozar comigo.
Estavam a gozar comigo, e est� tudo certo, n�o me importo.
O que me preocupa � que estejam a gozar consigo.
Sacrificou-se por pessoas que a odeiam quando o resto do mundo a venera!
At� o Pedro conseguiram virar contra mim.
�s vezes sinto-me como
uma velha tonta.
Mara,
� tudo menos uma velha tonta.
� uma mulher vibrante,
admir�vel.
Uma mulher linda.
- J� te disse que tinhas bom gosto? - Sim!
Bem, aqui t�m uma garrafinha de puro para�so.
- �ptimo. - Quem prova?
O cavalheiro.
- Onde fica o quarto de banho? - Ao fundo � direita.
Como me sai? Bem?
Perfeita.
Muito bem, muito boa actriz.
Bom, j� estudo h� dez anos.
Cinco com o Julio Ch�vez, quatro com a Nora Moseinco,
e agora estou numa oficina de teatro musical em Proscenio...
E o mi�do l� fora tamb�m foi fant�stico.
- � da tua turma? - Sim, mas est� a come�ar.
Nada a ver. N�o, n�o tem tanta experi�ncia.
Claro.
N�o � t�o bom como tu.
- Vais ser uma grande estrela. - Bom, muito obrigada.
Mas ent�o,
essa tipa foi mesmo muito famosa?
Honestamente nem sei.
Mas quero que se sinta bem, percebes?
Os anos n�o a t�m favorecido.
Que pena.
A nossa profiss�o � dif�cil.
Todas as profiss�es s�o dif�ceis.
Por isso � que s�o para profissionais.
O vinho.
Ah, sim.
E eu n�o posso ter uma opini�o?
Porqu�?
� a minha casa, que paguei com o meu dinheiro,
que ganhei com o meu sucesso.
O Norberto e o Martin foram muito importantes no teu sucesso.
E fizeram imenso dinheiro!
Fortunas que desperdi�aram sabe-se l� onde!
E fizeram de mim prisioneira em minha pr�pria casa.
- Tu convidaste-os, Mara! - N�o!
Eu convidei a minha melhor amiga, e a minha irm�,
e elas vieram com os maridos.
E quando elas morreram, porque � que eles ficaram?
Acho que o mereceram.
Ou n�o tomaram conta de ti, quando precisaste?
Est�s a disparar sobre o qu�, porra?
Doninhas! Por agora.
Vai dormir, sua m�mia!
Tens que estar no teu sarc�fago a esta hora!
F�ssil, dinossauro!
O que raio vais tu fazer contra uma doninha?
As doninhas s�o jovens, vigorosas.
Parece que esta era mortal.
Ca�a �s duas da manh�,
ca�a �s quatro da tarde,
ca�a �s tr�s...
Pensa que � o �tila, este velho de merda.
N�o vejo a hora de me livrar dele!
S� tu e eu, Pedro,
como devia ter sido sempre.
Tu n�o precisas de mim.
Preciso!
N�o quero morrer sozinha.
N�o sei viver sozinha.
Vamos vender a casa e voltamos para Buenos Aires.
Adorava ter outra oportunidade.
No qu�?
Em tudo.
E eles?
Damos-lhes algum dinheiro se quiseres, para que possam viver
algum tempo, sei l�, at� que se estabele�am.
Est�s � procura de qu�?
Isso n�o passam de velhas cr�ticas.
Ah, v�!
Est� aqui uma que fala de ti.
- Deixa ver. - V�.
Deixa-me ver.
Est� aqui o teu nome.
"Pedro de C�rdova,
o marido de Mara Ordaz na vida real,
cumpre adequadamente o pequeno papel
de Eunuco."
O que fizeste com a voz foi incr�vel.
"Mas � Umar Gaz�n quem brilha
no papel de Sult�o de Amara..."
"Com a sua importante e sensual presen�a."
N�o devias ter ci�mes de um boato.
J� te disse mil vezes que foi apenas um truque de publicidade.
Nunca o achei minimamente...
Nada...
Ah, olha aqui!
V�, v�!
Est� aqui!
A escritura da casa.
- Que foi? - N�o, nada...
Est� todo esborratado.
J� passou uma vida inteira.
Deixou-me dez mensagens durante a noite,
tive que desligar o telefone.
Mas porqu�? Arrependeu-se?
N�o, engra�ou comigo e n�o consegue parar de pensar em mim.
Sim, � esse o teu p�blico-alvo?
Giselle, a not�ria Otamendi vai estar a trabalhar no meu escrit�rio.
N�o h� problema se eu n�o estiver.
N�o, sou multi-alvo. Sou um produto das massas.
- Noutra altura explico-te... - Sim, eu sei.
Mas a s�rio, o que � que ela queria?
Que foi? Est�s com ci�mes?
Ah, sim...
N�o sei se estou � altura da competi��o...
E a concorr�ncia � muito boa, vais ter que te esmerar...
N�o acredito que te encontrei.
Francisco, o teu pai quer ver-te, com urg�ncia.
Tem calma.
Ligamos hoje � velha, precisamos da escritura o mais depressa poss�vel.
Fran?
N�o contes isto ao teu pai, est� bem?
Este � o nosso projecto.
Est� bem?
Est� algu�m?
G�nios!
N�o exageres, mi�do, j� est�s dentro.
Aqui dentro com este sol?
Aqui dentro por causa do sol.
Somos noct�vagos.
Ui, o que deve ter sido naquela �poca!
Consegues imaginar os anos 60?
Agora mudou tudo, � outro jogo.
Posso dar-vos uma dica?
- Desculpa? - Um conselho.
Um conselho, desculpem, posso dar-vos um conselho?
N�o, obrigado, n�o queremos abusar...
Precisam de apanhar sol.
Est�o muito p�lidos, t�m que apanhar sol,
tem vitamina D, � bom para a pele, para os ossos...
O sol � como a vida.
� verdade...
E a noite � como a morte.
E a morte
� uma noite eterna.
Gosto da noite.
E gosto da morte.
Estava a brincar.
Bem-vindos! Que bom voltar a v�-los!
Ficamos agarrados.
Tentaram com aguarr�s?
Fico contente que tenham vindo, porque a verdade
� que nos sentimos em desvantagem.
Voc� em desvantagem?
- Sim, claro. - N�o acredito.
Sim, porque voc�s sabem tudo sobre n�s, mas n�s...
N�o sabemos nada sobre voc�s.
N�o � que haja muito para saber.
Sim, h�. Claro que temos muito que conversar.
Jogamos um joguinho?
O qu�? N�o, n�o.
Eu nem nunca peguei num taco.
Francisco! �s tu?
Sim, Mara.
Que bom que chegaste, querido. Vem � sala de projec��o, desce!
Desculpem, vens comigo?
- N�o, vai tu. - Est� bem.
Eu fico aqui com os rapazes.
- Eu vou consigo. - N�o, Pedro, fique.
N�o me deixe sozinha com estes dois que me assustam.
N�o, porqu�?
- Ensina-me a jogar? - Voc� parte.
H� quanto tempo vivem c�?
Eu e a Mara,
h� quarenta anos gloriosos.
Quarenta anos?
Isso � mais do que a minha vida toda!
Podia ser, querida, podia ser.
Porque � que p�s o nome do Pedro na escritura?
N�o sei, foi logo a seguir ao acidente, quis mostrar-lhe que o amava.
Mas nunca lhe contei.
Ent�o, juntou-o � escritura para lhe mostrar que o amava
mas nunca lhe disse?
Est�s a come�ar a falar como o Martin.
Que horror, meu deus!
N�o podemos simplesmente apag�-lo?
N�o, est� registado em not�rio, n�o se pode apagar.
N�o percebo, ele n�o quer vender?
S�o aqueles dois Rasputines, est�o a domin�-lo completamente.
Juro!
N�o.
Bom, a Mara � uma mulher com um charme infinito...
Tenho a certeza que consegue fazer qualquer coisa.
Vamos tentar.
A beleza desta opera��o
� a sua simplicidade,
� como um jogo em que todos saem a ganhar.
N�o, n�o.
N�o conhe�o nenhum jogo em que todos saiam a ganhar.
Bom...
Isso depende de como se joga.
Obrigado.
Ah, muito bem!
Enganei-o, n�o foi?
Adoro enganar as pessoas!
Ainda por cima meteu duas listradas
e esta � uma tacada f�cil!
- J� a tinha visto. - J� ganhou!
Bom, n�o seja t�o pessimista.
J� ganhou.
Fico com as listradas.
Um jogo s� � divertido quando h� um vencedor e um perdedor.
Por exemplo, voc�s ganham este.
Mas n�s, para onde � que vamos?
N�o vos vamos deixar desprotegidos.
Temos muitos contactos na �rea das Resid�ncias Assistidas.
Vamos ajudar-vos com a mudan�a.
Resid�ncias Assistidas... O que � isso?
Um lar de idosos.
Desculpe, se me permite, vou limpar um pouco a mesa.
Ah, muito obrigada.
N�o gosto da palavra "lar", soa a coisa velha.
E as coisas velhas deitam-se fora.
Por favor, n�o fiquem agarrados a ressentimentos.
Agarrados?
N�o, o ressentimento e o que mais me motiva.
Alguns dos meus melhores amigos est�o ressentidos.
E, sei l�, ficariam juntos, com outras pessoas na mesma situa��o...
J� ganhou, j� ganhou.
J�...
perdeu.
Ah, sim?
A mim falta-me s� uma e a si faltam-lhe todas.
Sim, mas para ganhar � preciso meter a bola oito.
For�a!
D�-me outro, preciso saborear algo mais do que este triunfo.
Sabe qual � o seu problema?
Gosta de tacadas f�ceis.
E nada do que � bom, � f�cil.
Como assim?
Claro, quando viu uma bola f�cil, atacou.
- Eu ajudei-a a v�-la. - Eu vi-a sozinha.
Bom, sim, viu-a sozinha, est� bem,
mas depois assinalei esta, achou-a f�cil, e atacou.
Limpei a mesa,
viu uma tacada f�cil, e atacou.
Devia ter preparado a �ltima,
mas olhou para onde eu queria.
E eu estive a observ�-la todo este tempo.
E o que viu?
Uma jogadora jovem,
extraordin�ria,
soberba, eu diria...
Isso � o que os jovens t�m de extraordin�rio.
A soberba.
E voc�s "velhos" podem ensinar-nos a viver, n�o?
N�o, n�o.
S� a ganhar este jogo.
Para ganhar o jogo, � preciso estar de olho no advers�rio.
Pensar como o advers�rio,
sentir como o advers�rio.
N�o � nada f�cil.
� por isso que gosto de jogar com pessoas m�s...
S�o pessoas como n�s...
Boa!
� isso!
Cuidado...
Outra!
E quando parece que todos os caminhos est�o fechados,
encontra-se sempre uma sa�da.
Moral da hist�ria:
N�o basta olhar para o jogo,
tem que se olhar para o advers�rio.
O advers�rio pode ser mais perigoso do que parece.
O advers�rio pode parecer f�cil
e atacar quando menos se espera.
E agora vai-me pregar um susto?
N�o, n�o! Isso n�o a vai assustar,
� preciso uma coisa mais forte.
Doninha!
Desculpa, Martin, continua.
Voc�s n�o me assustam.
N�o, claro que n�o.
Voc� s� tem medo de ser vencida.
E eu venci.
Agrade�o o jogo... A li��o de moral n�o tanto.
As li��es de moral j� n�o se usam,
nem nos filmes nem na vida real.
Hoje em dia o importante � ganhar.
Final feliz, e siga.
Joga muito bem.
No lar h� uma mesa.
� linda.
� arrogante.
� m�.
Oh, meu amor,
meu amor
meu amor,
� impress�o minha, ou vai chover?
Estou a ouvir trov�es.
N�o, Pedro.
� o meu cora��o a bater como um trov�o.
Estive anos encandeada por rel�mpagos,
com a alma nublada.
Mas agora vejo o sol a despontar nos teus olhos
e de repente...
estou quente...
e h�mida...
Progn�stico:
paix�o...
com probabilidade
de lux�ria...
N�o devias comer tanto � noite, Mara.
N�o, Pedro.
O dia � nosso.
Vamos aproveit�-lo.
S� n�s dois.
Sozinhos.
Sim?
Porque � que n�o jogamos um joguinho?
Al�m deste jogo de sedu��o andas � procura de alguma coisa?
Por favor, Pedro, p�ra com o sarcasmo.
Isso faz-te rugas feias na cara.
Vamos simular, somos actores.
Fechemos os olhos.
Deixemo-nos hipnotizar.
Vamos sentir a brisa e pensar que estamos em Paris,
na nossa segunda lua-de-mel...
A caminhar pela Rive Gauche.
O vento traz uma m�sica linda, de um acorde�o parisiense.
Meu amor, meu amor,
meu amor,
Da boulangerie
chega-nos
um delicioso aroma...
Doninhas!
Podes parar de ca�ar? Estamos hipnotizados!
Fa�amos de conta que os nazis est�o a chegar.
O que mais me magoa � que aqueles dois te roubaram de mim.
Dois velhos sozinhos, frustrados, que desistiram.
N�o, n�o desistiram, Mara.
Lutaram,
quando tantos outros se exilaram, eles ficaram c�.
E n�s escondemo-los nesta casa.
Podiam ter ido para a Europa, para Espanha, por exemplo...
Ter grandes carreiras, ser algu�m.
Como lhes diziam as mulheres.
Uma, outra e outra vez...
Vamos embora, Pedro.
Por favor, tu e eu.
O Francisco diz que consegue um milh�o de d�lares por esta casa.
Vamos para a Europa.
Talvez encontremos um grande especialista para as tuas pernas.
Vamos voltar a ser como dantes, Pedro, por favor.
Nunca me tocaram como tu me tocavas.
Porque � que paraste?
Seu maldito, belo, sensual.
Drag�o de olhos verdes.
Comia-te vivo!
Tens raz�o, Mara,
fui um tonto, perdemos tanto tempo.
E agora,
podes dizer-me o que queres?
Agora, sim.
Vamos l� ver, campe�o!
Cheque.
Cabr�o... estou farto deste jogo, � uma tortura.
S� raz�o, n�o tem emo��o, precisa de vinho,
noite.
Eles v�m a�!
- Ol�, rapazes. - Ol�, ol�, como est�s?
Oi�am isto.
Parece que agora conseguem reproduzir na perfei��o,
a imagem de uma pessoa por computador.
V�o come�ar a fazer filmes sem actores.
Promessas, promessas.
Como queres o teu sumo, amor?
Com muito a��car, Marita.
Est� bem, amor.
E de caminho, traz umas bolachinhas para os rapazes.
Sim, meu amor.
O que se passou?
Nada.
Pedro, acabamos de ver com os nossos pr�prios olhos...
Ela estava a tratar-te bem.
N�o temos assim tanta imagina��o.
Vejamos...
Que ferramenta utiliza o actor para conseguir o seu trabalho?
O sexo.
N�o, j� tem o papel.
Pedro...
A motiva��o! O que quer o personagem?
Acabo de perceber que h� 40 anos
a Mara me adicionou como co-propriet�rio
na escritura desta casa.
E porqu�?
Para mostrar-me que me amava, depois do acidente.
Apesar de tudo, foi em parte por causa dela.
Se te adicionou � escritura para mostrar que te amava,
porque � que nunca te contou?
Porque � a Mara.
J� era suficiente mostrar a si pr�pria.
Bom, isso s�o not�cias incr�veis.
Porque se tu n�o assinas, ela n�o pode vender.
Fica tudo como antes, vou j� encomendar uma d�zia de ratazanas.
Algum problema?
N�o sei qual � a motiva��o deste personagem.
Lembram-se quando vos pedi
para me deixarem interpretar o papel do sult�o?
E os dois disseram-me que n�o,
que eu n�o era suficientemente rom�ntico.
O Umar Gaz�n era rom�ntico, o Pedrito, n�o.
Disseram-me isso.
Os dois.
Por isso...
Pedrito...
Todos nascemos...
para desempenhar um papel na vida.
A Mara
nasceu para que a Lucrecia Borgia n�o morresse.
O Martin
nasceu para dar vida a "Gertrudis, A Gansa com Pan�a".
Eu
para dizer aos outros o que fazer.
E tu...
Tu nasceste para n�o ser actor.
N�o consegues fazer de outro, n�o �s bom a mentir.
A Mara...
pode representar a nobreza,
tu...
�s nobre.
O Gaz�n pode fingir amar mil mulheres.
Tu entregaste o teu cora��o
uma s� vez...
E foi verdadeiro.
�s a pessoa com mais paix�o que j� conheci.
O problema
� que n�o consegues represent�-la.
Se me d�o licen�a,
a Mara est� a preparar-me um sumo de frutas.
Acus�mo-la de insanidade.
Quanta gente n�o viria para testemunhar?
Est�o todos mortos, Martin.
Para meter a Mara num manic�mio, levantavam-se dos t�mulos.
N�o, mas n�o podemos fazer isso.
O Pedro ama-a.
Lembras-te da sensa��o?
- Vagamente. - Bom, ele n�o.
Para ele est� muito presente.
N�o percebo o que v� nela.
N�o � pelo que v�, o Pedro n�o � uma c�mara.
O problema
s�o os outros dois.
Vermes!
N�o, bichinhos.
Bichinhos... S�o todos uns bichinhos.
Falando de bichinhos...
Vejamos, R�mulo!
Vamos l�.
Isso, vamos l�, come esses bichinhos.
� isso mesmo.
Que bom! Isso, isso. Olha!
At� parece que est� a dan�ar!
Isto sim, � um insecto!
Percebes? Olha.
Isto � um insecto, n�o � como...
N�o � como aquela B�rbara,
nem aquele outro.
Um bichinho
come outro bichinho.
Detesto quando � t�o f�cil!
- Bom dia. - Bom dia.
A Mara est� � sua espera.
N�o � uma mancha, � uma verruga.
Eu adorava aquela verruga.
Gostavam muito um do outro?
Eu � verruga, sim. Mas ela n�o o demonstrava muito.
Claro que esta � a vers�o do Pedro.
A Estela n�o era t�o...
T�o assim.
No princ�pio, t�nhamos muito amor um pelo outro, a Estela e eu.
Mais tarde...
sei l�.
Se os filmes que s�o feitos de pl�stico, envelhecem,
imagine-se o amor, que � feito de boas inten��es.
Desapareceu um dia, e n�o volt�mos a saber nada dela.
Lamento muito.
Muito obrigado, s�o coisas da vida.
Sim, bom...
Mas n�o deve ser f�cil ver algu�m que ama desaparecer.
N�o foi f�cil.
Est� a estudar o seu advers�rio.
Faz bem.
Sim, queria pedir desculpa, no outro dia...
Ol�!
Vieste sozinha?
Sim, o Francisco tinha uma reuni�o inadi�vel,
mas pediu-me para lhe dizer que pensa muito em si.
Ai, que querido.
Tivemos uma qu�mica t�o boa.
Encontrei um s�tio incr�vel para si e para o Pedro.
- N�o! - Sim.
Em pleno centro, boa localiza��o, boa vizinhan�a...
Lindo. Ficava com ele se tivesse como o pagar.
Conta-me tudo!
Norberto, podes ir � cozinha fazer-nos um ch�?
N�o.
Podes ir � cozinha dar um tiro na cabe�a?
Tamb�m n�o.
Podes ir dar um tiro na cabe�a a qualquer lado?
Prefiro preparar-te um ch�.
Sabia que ia convencer-te.
Cheque.
Vem, conta-me tudo.
Quando � que posso ver o apartamento?
Quando quiser! Convenceu o Pedro?
Estou a tratar disso. Estou enjoada de tanta falinha mansa.
Os outros dois preocupam-me.
N�o os acha um pouco estranhos?
N�o, eles s�o retorcidos, bizarros,
perversos, mas...
No nosso meio isso � normal.
Fala-me sobre o tal s�tio.
O Francisco gosta? Ele tem t�o bom gosto!
Tenho a impress�o
que se passou qualquer coisa com as mulheres deles...
Porque � que queres saber disso?
N�o... S� para os conhecer melhor.
N�o se davam bem?
Ningu�m se dava bem com ningu�m nesta casa.
Havia muita frustra��o.
Tinham um talento incr�vel, mas...
Os anos 70 foram um pesadelo para eles.
Porque raz�o � que o Martin foi fazer um document�rio sobre camponeses?
O que � que os camponeses fizeram por ele?
Nada, nunca.
E foi directamente para a lista negra.
O Norberto tamb�m foi proibido?
N�o! Retirou-se em solidariedade com o amigo.
Quando a democracia chegou, o tempo deles j� tinha passado.
Toda a gente lhes virou as costas.
O Martin acabou por inventar aquilo da "Gertrudis, a Gansa com Pan�a".
N�o!
- Ele criou a Gertrudis?! - Sim!
Trabalhava aqui, escondido.
Bom, vamos falar da casa nova.
Acha que a mob�lia desta casa cabe no apartamento?
Sim, claro.
Bom, alguma.
Como � que a sua irm� morreu?
A Elvira...
morreu com danos cerebrais.
H� oito anos.
Eu estava em Formosa com outro desmiolado
que se fazia passar por realizador.
N�o imaginas o que fez! Que obra-prima.
"A Rapariga que gritou Puta".
Era para ser um filme de terror e acabou por ser um filme terr�vel.
Desculpa, onde � que �amos?
Ah, sim! O apartamento.
Na morte da sua irm�.
N�o quero falar disso.
- Porqu�? - Porque n�o quero falar disso!
Desculpe.
� s� que...
Ela era compulsiva com a limpeza, limpava o dia todo,
Ch�o, janelas, mas a verdadeira obsess�o dela...
era isto.
Levava-o para todo o lado como se fosse um beb�.
Mostrava-o ao Martin e dizia-lhe:
"Olha, isto podia ter sido teu."
"Privaste-me disto."
"Tu e esses camponeses..."
- E o que � que aconteceu? - Escorregou.
Caiu pelas escadas abaixo,
veio a rebolar,
bateu no p�dio...
E o beb�
voou pelos ares
e caiu na cabe�a dela.
Morreu instantaneamente.
Foi um acidente... estranho.
Olha que n�o, v� bem o peso disto.
Quando � que assinamos a escritura?
N�o admira que a Estela se tenha ido embora.
N�o se dava bem com o Norberto.
E depois da morte da Elvira ficou insuport�vel.
Come�ou a beber, estava sempre a gritar com ele,
quase enlouqueceu.
E finalmente, um dia foi-se embora.
Evaporou-se
e deixou-me sozinha com eles.
Nunca mais me ligou.
Como se eu fosse respons�vel.
N�o quero falar sobre isto.
Desculpe...
H� pouco disse que estava em Formosa. N�o estava c� quando ela morreu.
N�o.
Foram eles que me contaram.
Mas chega, vamos falar do futuro.
Sim.
Tem raz�o. Tem os pap�is?
Sim.
Est�o l� em cima, tenho-os.
O ch�zinho.
N�o se incomodem, finjam que n�o estou c�.
Tenho a certeza que est� tudo bem, vou j� busc�-los.
Uma vez veio c� um inspector das Finan�as,
mas era t�o meu admirador, que nunca mais nos incomodaram.
Cheque.
A propriedade tem mais de dez hectares? Posso ver as plantas?
Vejamos...
N�o consigo abrir, est� colado.
Nesta casa fica tudo colado.
Tu, o tubo.
- Tudo. - D� c�.
N�o � isto.
N�o...
� s� isto.
Tem que ser uma destas.
Mas...
Estas cartas s�o notifica��es das Finan�as.
Nunca respondeu?
N�o as li.
Com a quantidade de cartas que recebo dos meus f�s que me adoram
que davam a vida por mim, e nem lhes respondi,
coitadinhos.
N�o as li.
J� devem sete anos de impostos.
E n�o podemos pagar depois da venda?
N�o. N�o se pode vender uma propriedade com d�vidas.
E isto...
entre multas e juros
pode custar alguns milhares.
E onde � que vou arranjar uns milhares?
Quantos milhares s�o "uns quantos milhares"?
Vivemos das nossas reformas, das poupan�as,
do que cultivamos aqui...
J� n�o temos dinheiro.
Devia ter lido algumas das cartas.
Porque at� me lembro de um que queria produzir um filme meu.
Era um grande admirador.
Enfim, n�o sei se seria bom ler algumas agora.
N�o ser� f�cil resolver a d�vida se j� n�o temos dinheiro.
Nunca nos disseram nada, nem nunca li nada.
Bom, e no fundo, sei l�, talvez n�o tenha sido feita para este mundo.
J� nada � como era.
N�o podem pedir emprestado?
N�o podem pedir emprestado?
J� n�o tenho ningu�m.
N�o sei, n�o tem uma j�ia, alguma coisa que possa vender?
N�o, fomos vendendo tudo, com o passar do tempo...
Ah, ainda tenho uma pulseira.
� muito valiosa.
� a �nica j�ia que nunca quis vender.
Boa! Ser� suficiente?
Vale muito mais do que isso, por favor!
Lembra-se de um filme meu que se chamava "O Sult�o de Muham�"?
Ah, sim! Com o Umar Gaz�n, certo?
- Sim. - Meu deus, ele era lindo!
Foi ele que ma ofereceu. De certeza que cobre o valor todo.
Vou procur�-la.
- Perfeito. - Vou procurar.
N�o se preocupe, ainda precisamos de uns dias para tratar da papelada.
Cheque.
Encontrou o R�mulo.
Como ser� que foi parar ao tubo?
Perseveran�a.
O que vou fazer convosco?
Onde est�?
Ladr�es!
Sempre a exagerar...
Temos que fazer alguma coisa.
Quem � o ladr�o?
Desliga isso!
Vamos, digam!
O escritor acabado, o deficien...
O realizador de s�rie B...
Quem foi o ladr�o?
- Al�m do ju�zo, perdeste algo mais? - N�o perdi nada, roubaram-me!
A pulseira persa do sult�o,
n�o se fa�am de parvos!
Mas qual, a que o Umar Gaz�n te ofereceu?
Mas n�o me dizias que era uma bugiganga?
N�o era uma bugiganga, foi uma lembran�a de amor!
Esquece, vale uma fortuna. Onde � que est�, caralho?
Querida, por favor, olha a linguagem. H� crian�as presentes.
Agora que fizeste uma pergunta clara posso dar-te uma resposta clara.
A Elvira levou-a.
N�o brinques com isso.
A Elvira adorava aquela pulseira, e queria ser enterrada com ela.
Mas que estupidez.
Eu disse isso, na altura.
Mas n�o era uma bugiganga?
Temos que a vender, temos contas para pagar!
N�o a temos.
Temos que a recuperar!
Mas era uma bugiganga!
Ouve, o teu cora��o est� fraco.
N�o vais gostar de ver os restos da tua irm�zinha
putrefactos,
decompostos, mal cheirosos,
cheios de vermes...
At� j� est�s um pouco p�lida.
� preciso recuper�-la! � preciso recuper�-la!
Eras capaz de uma coisa dessas, por um presente daquele est�pido?
Sou capaz de tudo.
V�o ver.
Ent�o, n�o era uma bugiganga?
N�o, parece que foi uma lembran�a de amor.
Eu ouvi "lembran�a de amor", tu n�o?
Sim, sim, foi o que ela disse.
"Lembran�a de amor".
Mas bom,
j� passou muito tempo, � melhor esquecer,
vender a casa...
Para que possam come�ar de novo...
Sim, �s vezes mais vale fazermo-nos de parvos.
Completamente.
O sult�o era o papel da minha vida.
E voc�s escolheram d�-lo �quele tipo.
Da pr�xima vez que tentarem manipular-me,
lembrem-se que sem essa decis�o,
tudo teria sido diferente.
A minha carreira,
a Mara,
a minha vida,
as nossas vidas...
Tudo.
D�s-nos uma m�o?
Ah, olha.
Um rel�mpago no momento certo.
Se fosse num filme ningu�m acreditava!
Vamos.
Ent�o foi uma lembran�a de amor?
Ele era o sult�o, eu... Um eunuco.
N�o tinha a m�nima hip�tese.
Cala-te Pedro, por favor!
Preferias que fosse mudo e desfocado
como este filme, n�o �?
Eras t�o boa actriz!
Fingias t�o bem a paix�o!
Fingias na perfei��o.
Especialmente quando o realizador dizia
"Corta!"
e continuavam a beijar-se.
Que grande piada!
Corta!
Corta!
Rias-te tanto, Mara!
E eu ficava ali especado, a rir-me como um idiota,
a fingir que aquilo n�o me incomodava.
At� parecia estar divertido.
E diziam que eu era mau actor.
Que belo eunuco!
E as entrevistas com a imprensa...
Chatas, n�o?
Mas tu eras uma profissional,
se era preciso estar, tu estavas.
E eu tamb�m.
Como mais um f� desgra�ado.
Preparavas-te t�o bem para cada papel!
"A emo��o, Pedrito,
a emo��o � o mais importante,
� preciso entregares-te � emo��o."
Tens de banhar-te em emo��o.
A tua emo��o era t�o cred�vel.
T�o real.
Como n�o acreditar em ti?
Tive mais sucesso que tu, e depois?
Mesmo assim amei-te.
Porque � que n�o eras capaz de controlar os ci�mes?
Porque eu fazia de eunuco, n�o era um!
Que querias que fizesse?
Que aguentasse calado?
Enquanto tu te divertias em frente a toda a gente!
Nunca mais volt�mos a rir juntos.
E como te rias, meu amor.
Toda a gente te adorava com essa gargalhada brilhante e luminosa.
E eu,
o teu f� n�mero um,
amava-te mais do que qualquer pessoa, mais do que a mim pr�prio.
�ramos t�o jovens, Mara!
T�nhamos imenso espa�o para amar, mas agora j� n�o.
A vida encheu-nos e j� n�o temos espa�o
para nada.
O que queres?
A verdade.
Enganei-te.
H� quarenta anos enganei-te.
H� quarenta anos que te destrua a vida.
E h� quarenta anos que sofro por isso todos os dias.
Est�s contente?
Podias...
pedir desculpa?
Para qu�?
O que est� feito, est� feito.
E ningu�m pede desculpa nesta casa.
Os caprichos do tempo.
De pensar que estas fracas falanges
em tempos tiveram o aspecto
de um monte de chouri�os.
- Onde vais? - �s Finan�as para ver se resolvo isto.
Marita, n�o sejas assim.
Se fazia o que queria quando eras o realizador, imagina agora.
Olha o que conseguimos para ti.
Fazemos as pazes?
Seus ladr�es!
N�o podemos fazer as pazes.
- D�-me isso. - N�o, n�o toques nisso.
- Nunca ouviste falar da cadaverina? - O que � isso?
O veneno dos t�mulos produzido pelos corpos em decomposi��o.
� preciso ser desinfectado.
Al�m do forte cheiro a urina,
putrescina,
vaginose bacteriana...
O que se diz?
Nojentos!
- De nada. - Comecem a fazer as malas.
Vou ter com o Francisco. D�-me isso!
N�o vais vender a casa.
N�o?
N�o vou assinar.
� essa a tua vingan�a?
N�o, n�o � uma vingan�a, �...
Melhor ou pior, foi a vida que constru�mos.
Isto,
mal ou pior,
� uma senten�a.
Quem me dera que nos tivesses matado aos dois.
Prefiro estar morta, a viver assim.
Inspirei-me em ti para escrever a Gertudis.
Abre!
- Idiota. - Vai � merda.
Prefere estar morta.
Isto est� um pouco claustrof�bico aqui dentro.
� preciso mudar de cen�rio.
- Porque � que n�o posso ir contigo? - Trabalho-a melhor assim.
- Sim, � verdade, o quebra cora��es... - N�o consigo evitar.
- Que queres que fa�a? - Sim, j� sei...
Com isto pagamos os impostos e depois ficamos prontos.
N�o acredito que ela te d� a pulseira.
� t�o...
Poderosa.
Poderosa?
- A pulseira da super-mulher? - Isso � porque tu n�o viste o filme.
V� o filme, querido.
- Acho que est�s a gostar da pulseira. - Quem n�o gostaria.
Se te pomares bem, j� vejo o que se pode fazer.
- Bom dia. - Bom dia.
Acabo de me cruzar com a B�rbara Otamendi,
e ela disse-me para esperar no seu escrit�rio, por causa do Tigre.
� o escrit�rio do filho do Sr. Gourmand.
Sim, claro, eles trabalham juntos.
Sim, claro.
Assinatura, nome, empresa e hora de entrada.
Claro, Mario Sofficci...
Dos est�dios Sofficci...
Del Carril
e Tinayre.
Sim. A B�rbara foi almo�ar, por favor sente-se.
Importa-se que eu espere no escrit�rio dela?
Estou um pouco, percebe...
Pouco jovem.
- Terceiro andar. - Obrigado.
Obrigado.
N�o, n�o lhe toques ainda!
� melhor n�o manusear tanta beleza.
O homem que lhe deu isto, devia ador�-la.
Bom, foi uma obsess�o passageira.
Mas percebo a adora��o.
Que rom�ntico. Enfim...
Achas que � suficiente?
� uma pena quando um casal perde o romance, n�o �?
B�rbara, o Sr. Sofficce est� � tua espera.
Quem?
Sofficci, da empresa Sofficci, Del Canil e Tinayre.
O que est� aqui a fazer?
Desculpe o nome, mas sempre quis ser um Sofficci.
N�o o conhece?
O que quer?
N�o o conhece.
O que quer?
Conversar.
�s vezes � triste... �...
� triste chegar � conclus�o que a pessoa que se amou
j� n�o � a mesma pessoa.
Terr�vel.
Ou seja,
para qu� ficar com algu�m que n�o a ama?
N�o, e � triste que n�o aprecie tudo o que fez por ele.
Agora que penso nisso, o div�rcio pode ser o melhor.
Porque nenhum dos dois est� feliz, pois n�o?
Espero que a casa de banho ainda esteja onde a deixei.
Vim at� c� porque
tinha vontade de a ver no seu habitat natural.
A verdade � que...
para um neg�cio familiar, estava � espera de uma coisa mais pequena.
� uma fam�lia grande.
A qual voc� n�o pertence.
Com tanto � vontade, pensei que fosse a chefe do Francisco.
Mas afinal � ao contr�rio.
Sou not�ria e independente,
n�o sou empregada desta firma.
N�o se preocupe, com os seus dotes...
de not�ria, em breve ser� a dona.
Temos muito trabalho, em que posso ajud�-lo?
Claro, vejo bem o trabalho que t�m.
Porque voc�s n�o vendem casas.
Fazem... como � que se diz agora?
Developers?
Desenvolvemos complexos de larga escala, sim.
Isso, isso.
Antes as coisas eram...
mais simples.
Agora � tudo complexo.
Vou-lhe dizer o que faria com o terreno da Mara.
Mandava demolir a casa.
E desenvolvia...
Um complexo.
Porque o nosso filme j� acabou.
Temos que desmontar o cen�rio.
Seria o mais pragm�tico, sim.
E voc� de pragmatismo percebe...
muito.
Estive a dar uma vista de olhos nos seus livros...
Toda a colec��o de
"Como ajudar-se a si pr�prio
fodendo toda a gente."
E isto chamou-me a aten��o,
tantos filmes da Mara!
Alguns realizados por este seu criado.
Os melhores, sem d�vida alguma.
Deu-se ao trabalho de nos investigar.
O trabalho de uma verdadeira artes�.
Tenho o maior respeito pelos bons artes�os.
Esse � o meu preferido,
"Almo�os de amor."
Era muito enternecedor.
N�o, muito levezinho.
Inteligente, divertido!
Mas n�o.
O Martin teve que salvar o mundo com os seus document�rios
e acabou a fazer "A Gansa Gertrudis�.
Pelo menos tentou salv�-lo.
De quem? O mundo � uma maravilha.
Funciona, � organizado, l�gico,
nem sequer � complicado.
S� existe uma regra:
ganha o mais forte.
O mundo avisa, e quem te avisa teu amigo �.
Foi a �nica pessoa que alguma vez me fez frente.
� forte.
Outro clich�?
Qual?
A mulher aranha,
a vi�va negra.
A culpa � do Martin,
que me fez observar o advers�rio,
e a partir do momento em que comecei n�o consegui deixar de o observar.
E al�m disso, conv�m que estejamos do mesmo lado.
O contrato vai ser assinado.
E mais vale que seja de comum acordo.
De uma artes� para um artes�o.
Pe�o-lhe, por favor,
que n�o brinque comigo.
N�o estou a brincar.
N�o.
N�o.
Porqu�?
Porque...
Para ti � s� uma obsess�o passageira.
E eu estou � procura de uma coisa para a vida toda.
Ent�o m�os � obra!
Mas que bonita que est�,
Senhora... Mardaz.
Gir�ssima!
Sim, estou a usar o vestido do meu primeiro filme.
- Ah, � isso! - Lembras-te qual �?
Diz l�...
Sou p�ssima com nomes, mas...
Como � que era?
"A Rapariga que Gritou..."
"Muito"?
N�o.
N�o, n�o.
"A Rapariga que Gritou..."
- "Alto"? "Muito"? - N�o te lembras?
Sim, sim, era incr�vel... E agora que a estou a ver...
Do que eu mais gostava era de dan�ar e morrer.
Como na cena da morte...
No "Lucrecia Borgia", lembras-te?
Chorei o filme todo.
� intenso, muito bom...
E as cenas de amor com o Alfredo Alc�n no...
"Gertrudis,
A Gansa...
com Pan�a."
Bom, de facto eu e uma amiga achamos que
essas s�o das melhores cenas do nosso cinema...
Mas como te atreves a representar � minha frente, med�ocre?!
Quem pensas que �s? Ningu�m, uma figurante!
- Desaparece ou eu mato-te! - Tudo bem, desculpe...
Mas...
Hoje andei � procura
do certificado de �bito da Elvira.
N�o est� em lado nenhum.
Procurei na Junta, na C�mara, no Registo Civil...
N�o existe.
Que trabalheira, andou por todo o lado.
Procurei online, Norberto.
Sim, para o Estado,
a Elvira n�o morreu.
Pareceu-me suspeito e pensei que talvez a sua ex-mulher
soubesse alguma coisa.
Atrav�s do nome cheguei ao bilhete de identidade, e...
a �ltima morada dela foi a casa da Mara.
Ia come�ar a investigar
e ent�o lembrei-me da banheira com buracos...
E pensei, n�o...
N�o vou encontr�-la.
Percebe porque digo que � forte?
A Elvira, a Estela,
o fim justifica os meios.
Esta � uma li��o de moral que eu aceito.
Ela percebeu, n�o sei... N�o sei como?
Diz-me l�, seu filho da puta!
O que � que querias? Achas que eu sou quem?
Tu desaparece daqui!
- Tenha calma. - Seu idiota!
Com todos os gal�s que eu tive, o que pensavas tu?
N�o tens estaleca para gigolo, seu merdas!
- Por favor, n�o quero fazer uma cena... - Sa�mos daqui!
Mara, Mara... Para, por favor.
Achas que nesta altura da vida vou fazer o papel da velha pat�tica?!
- Nunca estive nesse papel! - Eu s� queria facilitar.
N�o, por favor, por favor! Mara, Mara.
N�o se v� embora, por favor, fique aqui.
Esquece a casa.
Esquece tudo!
N�o, n�o, n�o.
Assinou um contrato, lembra-se?
N�o me podes obrigar a vender!
N�o.
N�o, mas aceitou...
cobrir todas as despesas incorridas na pesquisa por compradores.
E � uma fortuna, Mara.
Al�m disso, posso process�-la por perda de lucro, e dolo.
� muito dinheiro.
Dinheiro que n�o tem.
Isso era uma c�pia.
Se quer descarregar mais um pouco tenho aqui outra.
Rasgue-a.
Ent�o vamos falar da Mara.
N�o quero que lhe aconte�a nada.
N�o quero que escorregue,
que caia,
tropece ou deslize.
N�o quero enfartes, nem acidentes vasculares,
pneumonia ou tosse convulsa.
Nem dores de cabe�a, de dentes, diarreia ou gripe.
Basta um pouco de azia, e eu chamo a Pol�cia.
E nem vos passe pela cabe�a fazer-me alguma coisa a mim.
Com as provas que vou deixar, v�o directos para a pris�o.
H�o de implorar para ir para um lar.
Chega, chega, por favor.
Respire.
Tenha calma, sente-se.
"Respire", diz ele.
Isso mesmo.
Eu tamb�m n�o quero ir a tribunal.
Vamos chegar a um acordo.
Porque � que nos est�o a fazer isto?
O que � que te fizemos?
N�o, n�o. Voc�s nada. N�o, n�o, isto � um neg�cio.
Porque est� t�o perturbada?
Porque eu penso em mim primeiro?
A Mara tamb�m.
Toda a vida pensou primeiro em si pr�pria.
Fa�a com que o Pedro assine...
N�o complique, j� est�.
Se o conseguir convencer, �ptimo, se se divorciar, tamb�m est� bem.
Fa�a o que quiser.
Porqu�?
Porqu�?
Nunca conheci ningu�m assim.
No cinema, talvez.
Mas na vida real...
Nunca.
Na vida real as coisas correm melhor.
Foi por isso que me dediquei ao cinema.
Desculpem.
Depois de tudo o que fizemos por ti?
O que fizeram por mim?
Queres que te conte o que eu fiz por ti hoje?
N�o estou a falar dos filmes,
de h� 40 anos,
nem de te ter salvo a vida h� oito anos.
Estou a falar de hoje.
Hoje!
Hoje, estive a ponto de me rebaixar.
Em frente �quela... vil�
para lhe pedir por favor,
de joelhos, se fosse preciso,
que nos deixasse morrer em paz.
Mas n�o fui capaz. Felizmente, n�o fui capaz.
Porque mais uma vez, uma vez mais,
tive que te encobrir
pela morte das meninas.
- Bom, "meninas"... - Cala-te!
Essa hist�ria que invent�mos
cont�mo-la tantas vezes
que come��mos a acreditar nela.
- N�o sei a que te referes. - N�o sabes?!
Regressa � realidade, Mara!
Acorda!
A forma como repetias
aquela cerim�nia
uma vez, e outra, e outra e mais outra...
em frente da �nica plateia que te restava.
Umas vezes a Estela entregava, e a Elvira aplaudia.
Outras vezes a Elvira entregava e a Estela tratava de aplaudir.
E �s vezes, ningu�m entregava para que as duas pudessem aplaudir.
Mas dessa vez foi...
especial, n�o foi?
Foi muito emocionante!
N�o imaginam o que me aconteceu!
Mas fomos n�s
que escondemos os corpos.
N�s.
Para que a imprensa n�o descobrisse,
para que n�o houvesse nenhum esc�ndalo,
para que n�o te acontecesse nada, a ti!
Para que n�o te acontecesse nada! A ti!
E v�, como nos pagaste.
Perdemos...
Tudo.
Tudo.
� fria.
� actriz.
E � boa.
Mas isto n�o � um filme, meus senhores.
Isto acaba aqui.
Os quatro protagonistas derrotados.
Os maus vencem,
a m�sica n�o cresce...
Um final merdoso.
Como na vida real.
E um lento fade a negro.
Esperem um momento.
Acho que temos tempo para mais um acto.
E as minhas coisas?
N�o, mais suave, mais...
E as minhas coisas?
Num armaz�m?
Como assim? Num armaz�m?
SER ESTRELA DE HOLLYWOOD N�O MUDOU A MINHA VIDA
A minha obra, toda a minha traject�ria, a minha vida, o meu sangue,
a minha arte... A minha arte... a arte...
enfiada num armaz�m!
ENTRE O CINEMA E O AMOR
Que trapalh�o! Desculpem.
ENFRENTA UMA REVIRAVOLTA NA SUA CARREIRA
V�m a�!
- Est�s pronto? - Para o armaz�m?
No o armaz�m? Como?
O ch� ainda n�o arrefeceu. Chegaram cedo.
P�e isso no congelador.
- N�o h� electricidade. - Serve assim mesmo.
- Tem outro sabor. - Ningu�m liga a isso.
Eu ligo, o sabor � tudo!
O sabor � efeito, detalhe, o sabor � Deus.
Se quiserem posso representar a frieza.
A frieza � a �nica coisa que te sai bem.
N�o � o momento para ser mal educado.
Sil�ncio!
J� estou pronta.
Eu n�o estou pronto!
As am�ndoas t�m que arrefecer
� temperatura ambiente para que conservem a amargura.
Confio totalmente em ti.
A amargura � a tua especialidade.
- V�s por que te amo? - Por favor, n�o discutam.
Se vamos fazer isto,
fa�amo-lo com eleg�ncia.
Merda!
Boa sorte.
Bom dia!
Bom dia!
Est� contente.
Sim, sim, parecer contente � o que eu fa�o melhor.
Realmente bela.
Est� a usar a minha pulseira!
Que lindo.
Sim, paguei por ela!
Com a minha comiss�o como not�ria nesta opera��o.
Sim, adoro-a.
Adoro tudo o que representa e pareceu-me
a ocasi�o perfeita para a estrear.
Que bom gosto.
V�s? N�o se importou!
Por favor, pelo contr�rio.
N�o imagina como me agrada.
Vamos?
Ac��o!
Bem-vindos.
Ol�.
Que alegria, chegaram as crian�as!
- Ainda bem que est�o bem dispostos! - Que linda pulseira
para uma bela senhora.
Tem um cheiro estranho, n�o?
� o cheiro dos cl�ssicos, vai habituar-se a isso.
Vai � ca�a de doninhas?
N�o se perseguem doninhas.
As doninhas v�m at� n�s.
- Entrem, por favor. - Bom, aqui est� o combinado.
N�o t�m advogado?
N�o, n�o, n�o.
N�o querem testemunhas?
N�o, n�o, n�o...
Eu percebo como se est�o a sentir...
Quarenta anos nesta casa!
Claro que est�o confort�veis, mas...
Tamb�m foram quarenta anos longe do mundo, certo?
Agora podem voltar, fazer amigos novos.
Tem muitos amigos?
Claro.
E v�-os com frequ�ncia?
Trabalhamos todos muito, mas de vez em quando
sa�mos e vamos beber uns copos.
Ainda me dou com duas amigas do liceu.
Que lindo!
- E o dinheiro? - Estou a falar de amigos.
Que se preocupam consigo,
que se sacrificariam por si.
Ai, essas indirectas, Norberto.
Tudo bem.
Eu percebo a pergunta.
N�o tenho tempo para amigos.
Esse � o problema hoje, ningu�m tem tempo para os amigos.
- N�s, sim... - O Pedro e eu,
vamos tomar conta de voc�s.
Uma esp�cie de indeminiza��o.
Bom, � isso, desde que n�o destrua esta amizade,
mas percebam que este terreno � enorme para quatro pessoas.
Especialmente quando h� pessoas a mais no mundo.
Pelo menos duas.
Bem, aqui est� o ch�zinho.
N�o est� frio porque temos pouca energia el�ctrica,
mas tamb�m n�o est� quente,
porque n�o temos g�s, por isso...
O que v�o fazer com o terreno?
Quero l� saber dos planos deles?
Nesta casa s� h� recorda��es tristes.
Onde assino, querida?
- Aqui. - Nem acredito que n�o te incomode.
- � a nossa casa. - Um segundo. Martin...
Eu...
Quero deixar bem claro que n�o tem haver com a idade.
Est� bem?
N�o se trata de...
arrog�ncia juvenil, nem de desprezo pela velhice.
Estou bem ciente de que um dia tamb�m serei velho.
N�o tenhas tanta certeza. Como diria o meu amigo Tusam:
H� coisas que acontecem.
Eras amigo do Tusam?
Muito amigo, tratava-o por tu.
Desculpem, antes de assinar,
n�o dev�amos ver o dinheiro?
- Sim. - N�o me leve a mal.
N�o, n�o, n�o.
� t�o absurdo que n�o se possam fazer estes neg�cios com um cheque.
Como combinado:
200 mil d�lares agora,
vinte por cento...
O restante, quando desocuparem o espa�o.
- Querem contar? - N�o.
- Confiamos em voc�s. - Completamente.
N�o, por favor. Primeiro assine e depois ent�o, bebe o chazinho.
- Que bom, estamos as duas ansiosas. - Quero que isto acabe de uma vez.
Vamos deixar a casa imediatamente. N�o temos assim tanta coisa.
E eles j� fizeram as malas.
Desculpa. E as minhas coisas?
No armaz�m, Pedrito.
Como assim, no armaz�m? No armaz�m?
As minhas coisas, a minha vida, o meu sangue,
a minha arte, toda uma vida num armaz�m!
Uma carreira metida num armaz�m!
N�o, n�o, n�o! Vamos festejar.
Come uma bolachinha.
Eu tamb�m, dia de excep��o.
Bom, continuamos com as assinaturas do contrato?
Vamos l�. E autoriza��o.
N�o! Cuidado!
Ai, que trapalhada!
- N�o se preocupe. - Desculpem, desculpem.
N�o se preocupe com o contrato, tenho mais c�pias.
Ah, est� bem.
� ador�vel que com a idade, as pessoas voltem a ser como crian�as.
Bom, os acidentes acontecem, Pedro.
O importante � que assine.
- Muito bem. - Agora sim.
Tudo pronto.
Um brinde! Sa�de!
- Sa�de! - A vida!
Sa�de, sa�de!
J� � t�o tarde! S�o cinco...
... e vinte e tr�s.
A noite vem a�.
V�o a algum s�tio?
N�o, n�o.
N�s n�o.
Tome mais um pouco.
Sim, por favor, � delicioso!
Aposto que conseguia vender esta receita a uma cadeia de caf�s.
N�o, acho que n�o...
Conhe�o gente importante no Starbucks, posso por-vos em contacto.
N�o,
isto n�o � para empresas,
as am�ndoas t�m que ser mo�das � m�o, �...
um trabalho artesanal.
Am�ndoas?
Amargas.
E voc�s, n�o bebem?
M�os trapalhonas.
�lcera no est�mago.
Instinto de sobreviv�ncia.
Mas isto at� parece um vel�rio!
O que � que a vida tem a ver com um ch� de am�ndoas?
Muito.
Pode-se morrer por causa de um espinho de uma rosa?
Claro que n�o.
E com o t�tano?
A Isadora Duncan...
usava len�os
lindos e compridos. Um dia,
o len�o prendeu-se na roda do seu descapot�vel...
E adeus, Isadora Duncan.
A coisa mais inocente, pode ser mortal.
Claro, por exemplo, as am�ndoas amargas
s�o inofensivas, mas...
O cianeto, tem
o mesmo sabor.
A vida, a morte, dependem...
de quem combina os ingredientes.
Pedro?
O que me fizeste?
- Como assim? - O que � que te fez?
Mas, n�o est�o a pensar que eu...? Por favor.
Al�m disso, � muito f�cil distinguir o cianeto das am�ndoas.
Porque o cianeto e os seus derivados...
Produzem, poucos segundos ap�s a sua ingest�o...
uma sensa��o de asfixia.
Pedro...
Por favor...
V� l�, n�o sejam infantis! O que � isto?
Uma pe�a de escola? V�o trazer outra aranha?
N�o...
N�o consigo respirar.
Como assim, n�o consegues respirar?
- Mas o que � isto? - Enganaram-nos!
O que � isto?
Tra�ram-nos! Pedro...
Chega! Vamos cortar.
Eu j� n�o jogo.
Combin�mos deixar a Mara fora disto.
Mas viste-a beber...
Mas t�nhamos dito que os copos com veneno eram para eles!
O que � que se est� a passar?
Podem parar de gozar?!
Disse-lhe que tinha provas suficientes para os meter na pris�o!
Temos mais de 75 anos.
Ficamos em domicili�ria.
Pedro...
N�o, Mara. Combin�mos que o copo dela estaria limpo.
- O que � que fizeram? - O que era preciso.
Meu amor!
Pedro!
O que � que fizeram? N�o, isto n�o...
- Eu quero viver contigo, Pedro. - Sim, meu amor, eu tamb�m.
Perdemos muito tempo, n�o quero morrer agora.
N�o, n�o, n�o te preocupes.
N�o foi isto que ensai�mos.
Eu n�o posso viver sem ti, querida.
N�o sabias?
N�o!
Mara!
Isto � demais! D�-me j� o ant�doto! N�o aceito!
Se ela morrer, eu vou com ela!
N�o!
N�o! N�o!
Deixa-me, n�o posso viver sem ela!
N�o quero morrer. Agora n�o.
�gua!
- �gua! - O que foram fazer?
Mara!
O que � isto?
O que foi preciso.
Querida!
Meu amor.
O que foi, querida?
Fica comigo.
Sim.
- Eu amo-te, sabes, n�o sabes? - Sim.
Eu tamb�m, Mara.
- Sabes, n�o �? - Sim.
Aquilo do Umar Gaz�n era mentira.
Estava chateada.
Eu nunca te enganei.
Isso agora n�o impede.
Sim... importa.
S� te quis magoar.
Abra�a-me, meu amor.
Mara, meu amor! Meu amor...
E voc�s, como se est�o a aguentar?
Velhos de merda!
� isto que voc�s fazem?!
Se algu�m vos incomoda, elimina-se!
N�o, n�o. Algu�m n�o.
N�o qualquer pessoa. �s doninhas s� �s doninhas.
Filho da puta!
O ch� estava envenenado?
Acha que o Starbucks ainda estar� interessado?
Um Morto Grande?
Vou-vos processar! Tiro-vos tudo!
N�o, n�o, julgamento, n�o.
Um mau acordo � melhor que um bom julgamento.
Todos os venenos t�m o seu ant�doto.
E todos os contratos podem ser cessados.
Filhos da puta! Assassinos!
N�o se entusiasme, porque o veneno circula mais depressa.
� uma "dica" que lhe damos.
Na minha Estela, n�o!
Est� bem, aqui est�.
J� est�!
E agora?
Espera, espera.
Se lhe damos o ant�doto, podem ir � pol�cia.
N�o!
N�o vamos � pol�cia, n�o.
Tens raz�o, podem ir �...
Que est�pido, nem pensei nisso.
V�o � pol�cia, temos que os deixar morrer.
N�o, esperem!
N�s confessamos que mat�mos a Mara,
est� bem?
Assim ficam descansados.
Eu assino esta folha em branco e voc�s preenchem mais tarde.
Eu n�o vou assinar um papel em branco.
Bom, eu assinei!
- Se ele n�o quer, que se foda! - Est� bem, eu assino!
Muito bem, Martin.
D�-lhes o ant�doto.
Eras tu que o tinhas.
Ai, sim, tinha-o eu.
Mas... onde � que o meti?
Ainda bem que tenho a cabe�a presa ao corpo, sen�o...
Onde � que o meti?
Tenho uma ideia: vamos jogar �s escondidas.
- Encontrem-no. - O qu�?
� um frasquinho de vidro escuro, deste tamanho.
- No galinheiro? - N�o, frio, frio, frio.
- No armaz�m? - Frio.
Por favor, Norberto, por favor. Onde est�?
Est� onde? Por favor.
Fa�o o que quiser.
Gelado.
J� sei.
J� sei.
Seus velhos tarados.
N�o, como poderia estar a�, com as nossas mulheres?
Isso � um bocado ofensivo.
Ent�o, est� onde?
Frio, frio, frio.
N�o �amos estragar um pr�mio t�o prestigiante!
Talvez devam procurar...
noutra estatueta.
Ainda que...
n�o t�o pequena.
Filhos da puta! Velhos de merda!
Pensam que s� voc�s � que s�o perigosos.
D�-me, d�-me isso!
- D�-me, anda! - N�o consigo!
Mas, o que � que fizeste?
Enganaste-te no frasco.
Como?
Disse-te para usares o frasco grande. Esse s� tem uma dose.
O que � que eu percebo de doses!
Eu disse-te, Norberto. "P�e no frasco grande,
"o pequeno s� d� para uma dose". N�o te lembras?
Nem pensar. N�o!
Cabe�a de alho-chocho! E agora, o que fazemos?
N�s nada.
Mas s� d� para um!
Negoceiem, sei l�.
D�-me! D�-me!
- Larga! - N�o!
Por favor, crian�as. N�o discutam!
D�-me o frasco, d�-mo!
- Voc�s meteram-me nisto. - Porque n�o o dividem?
D�-me isso!
Volta aqui!
Parece que a mulher fatal
n�o � assim t�o fatal.
- D�-me o frasco! - Foda-se!
Larga-o.
D�-me o frasco, Fran!
- Est�s louca? - D�-me o frasco!
O que fizeram?
O que fizeram?
Acham que v�o sair por cima?
V�o apodrecer na pris�o, seus velhadas!
Perderam tudo!
Tudo!
At� a vossa liberdade. Vou chamar a pol...
O que...
O que �...
O que � isto?
O que bebeu em casa era mesmo ch� de am�ndoas.
Bem, ligeiramente tratado...
Apenas um em�tico.
Tri�xido de antim�nio.
A minha m�e dava-me para a indigest�o.
N�o imagina inf�ncia que tive.
O veneno estava no frasquinho.
Foi ideia dele.
Um toque genial. Do Martin, n�o meu.
Se dividissem o veneno, n�o haveria suficiente para os matar.
Sabes, para mim n�o h� li��o de moral...
Desculpa, querida.
Isto � meu.
Que intenso! Muito cinema verit�.
Olha, princesa,
se te serve de consolo, ele teria feito o mesmo.
H� muito poucos homens dispostos a morrer por amor.
Disseram-me que o veneno estava no ch�
e que era s� para eles,
e voc�s n�o acreditaram na minha representa��o.
N�o estavas a ser muito cred�vel.
Como assim? Fui muito cred�vel! Menina, n�o fui...?
Bom, ela acreditou.
N�o lhes d�s ouvido, Pedro.
Sem ti, n�o o teria feito t�o bem.
Isto � para os que dizem
que a Mara Ordaz n�o sabia fazer uma cena de morte.
Foi a melhor cena de morte que vi em toda a vida!
Foste melhor do que ela, que est� mesmo a morrer.
Da pr�xima vez n�o me ponhas esse "pentotato de pot�tio"
porque eu n�o preciso, eu sei fazer o v�mito.
Ningu�m consegue simular um v�mito.
Como assim? Eu fi-lo com dez gui�es teus.
Touch�!
Um aplauso para a deusa!
A minha deusa.
Obrigada, obrigada.
Obrigada.
Meu amor!
Deseja algo mais, meu rei?
Por amor de deus, n�o mere�o tudo isto.
Mereces...
Tudo.
Meu drag�o de olhos verdes.
Meu bonit�o.
Sensual!
Que quase deste a vida por mim!
N�o era preciso enganarem-me.
- Eu podia ter representado. - Sim, claro.
Conheci muitos actores,
mas nenhum como tu.
Sim, Mara,
mas o que disseste na sala de projec��o...
Deixa isso, Pedrito.
Deixa.
Amo-te tanto, tanto!
Tanto.
O que � isto?
A cama a bater contra a parede.
Diz-me que est� assombrada, ou n�o acredito.
Isto acabou por ser uma com�dia rom�ntica.
Com o dinheiro, podemos mand�-los para a Europa.
Os franceses adoram o sexo entre velhos.
Temos que ter cuidado com o dinheiro, foi ganho pela porta do cavalo.
Sim, temos que entrar no mundo da lavagem, do narcotr�fico,
do contrabando, da pol�tica.
Um mundo macabro e arriscado.
N�s gostamos do risco.
E do macabro, nem te digo.
Vamos pensar nisso.
Afinal, temos todo o tempo do mundo.
FIM
Tradu��o e Legendagem: Patr�cia Pimentel
Ripadas por: RicardoB/2019
O CONTO DAS DONINHAS
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