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Original subtitles

O tribunal!

Kiosaku.

Em que pensa ele nesse momento?

Nunca o saberemos.

Quando acorda,

o p� de cabra j� atravessou a nuca de Marcel Dubois

e cortou a veia jugular de Nathalie Charpin.

� certo

que foi um golpe fenomenal,

mas n�o � na selvajaria que est�o as raz�es desta for�a herc�lea,

como o pretende a acusa��o, mas sim na tens�o e na adrenalina!

N�o!

E no entanto, falou de selvajaria, mas s� houve uma pancada.

Charpin teria consci�ncia da sua for�a?

Olhe para ele.

N�o.

A Nathalie foi v�tima de um infeliz conjunto de circunst�ncias.

Se os amantes estivessem noutra posi��o,

onde � que o objecto teria batido?

Dra.,

n�o estamos habituados a este tipo de "acidente",

trata-se de um duplo assass�nio, cometido por um bruto.

N�o nos deixemos guiar pela emo��o, n�o se sabe onde ela nos pode levar.

Alice!

Gaspard!

J�?

Boa-noite!

- Viste-me chegar? - Estava � espera.

Cheira bem!

N�o compraste flores?

Esqueci-me.

N�o faz mal, eu vou comprar.

Eles v�o trazer.

� mesmo por isso!

Gostava de saber porque � que em Paris as pessoas se atrasam sempre.

Por causa dos engarrafamentos.

Isso n�o � uma raz�o, h� sempre engarrafamentos.

Um encontro, � um certo local num certo momento, o resto n�o interessa.

Vai tu, fico sempre pouco � vontade quando me oferecem flores.

O Michel n�o vem contigo?

N�o, n�o vem.

Nunca mais!

� mesmo indecente. Isso j� durava h� quanto tempo?

Seis meses.

- E n�o te tinhas apercebido de nada? - N�o.

Parece imposs�vel.

O Michel tinha uma vida paralela e tu n�o davas por nada?

Bem eu tamb�m n�o dei por nada, mas n�o vivia com ele!

Ele disfar�ava bem,

quem diria!

Eu seria incapaz de fazer isto.

- N�s conhecemo-la? - N�o. Penso que n�o.

Tenho a certeza de que ela � menos bonita do que tu.

Os homens deixam a mulher por outra igual em mais feio, li na "Elle".

- Come mais bolo, vai sobrar. - Obrigada...

Fui eu que fiz, come. � bolo de "Savoie" com cerejas, � mais leve.

E tu Alice, n�o queres?

Obrigada.

- Em que est�s a pensar? - Em nada.

- Estava a sonhar. - Estavas a dormir, n�o tomaste caf�.

Vou-me embora.

N�o v�s j�, ainda s�o s� 11 horas. Queres que eu te leve?

N�o vale a pena, a esta hora ainda h� metro.

N�o quero que v�s de metro nesse estado. Vou buscar o carro.

N�o queres dormir aqui?

N�o.

Promete-me que n�o fazes asneiras contigo.

N�o te preocupes.

Telefono-te amanh�.

Est�s c�?

Sim, porqu�?

N�o sei, tenho sempre medo que n�o estejas. Tu est�s bem?

Sim.

- Amas-me? - Sim.

- Diz-me que me amas. - Amo-te.

Mais uma vez.

- Amo-te. Vemo-nos amanh�? - Sim.

Um beijo.

Dorme bem, meu amor.

Boa noite, meu amor.

N�o me fa�as c�cegas!

Gabinete Arnaud-Leroux, bom dia.

Bom dia Claire, � o Nicolas, a Alice est�?

N�o, est� na "Sant�".

Pensava que a "Sant�" era � sexta.

N�o faz mal, manda-lhe um beijinho.

Desculpe, sabe a que horas saem os advogados?

Hoje n�o h� advogados, quarta-feira � o dia das crian�as.

Sim, � verdade.

Por favor, os seus documentos?

Nicolas?

Juliette! Que surpresa!

- N�o trabalhas? - Tirei uns dias.

Fizeste bem. Aproveita para mudar de ares e ir at� � praia.

Sozinha � triste, prefiro passear em Paris.

Estou a "redescobrir".

A vida � engra�ada.

Vivemos na mais bela cidade do mundo, esquecemo-nos,

e � preciso um momento dif�cil para nos abrir os olhos.

� verdade. Desde ontem tudo ficou diferente.

Vais achar estranho, mas tenho inveja de ti.

N�o tenhas. � bem triste.

A vida n�o � triste. A vida � como �.

Um dia h� sol, um dia h� chuva, s� sol, n�o seria vida.

V�s, h� 20 anos que moras em Paris

e j� n�o vias nada, tudo cinzento...

De repente, tudo se ilumina, e v�s com os teus olhos de h� 20 anos.

Olhos de turista.

Cuidado. N�o te deixes ir na tua pr�pria infelicidade.

Vou chorar.

Est�s a ver! Por favor... N�o tenho tempo para te consolar.

Temos convidados e ainda n�o fui �s compras.

Vai-te embora, vou chorar sozinha. N�o me importo, chorar alivia-me.

N�o devias ficar a�, n�o � o s�tio ideal para se chorar.

Telefona-me quando quiseres, podes contar comigo, se te puder consolar...

Sou eu.

Tentei telefonar-te v�rias vezes � tarde.

Algo urgente?

Os T�ron v�m jantar logo � noite, e n�o sei se trazem os mi�dos.

A Louise telefonou-me para anular. O mais velho est� com papeira.

Na idade dele � um bocado chato.

As compras est�o feitas. Vamos comer br�colos durante tr�s dias.

N�o faz mal, adoro br�colos!

Durante tr�s dias... convidamos a Juliette. Hoje fui � "Sant�".

Fazer o qu�?

Para te ver. A Claire disse-me que estavas l�.

Eu sei, mas n�o era verdade. A Juliette pediu-me para a ir ver,

tive de arranjar um pretexto.

Ela n�o est� nada bem, n�o sai de casa.

Aconselhei-a a ir at� � praia, mudar de ares.

� uma boa ideia.

Ela tamb�m achou que sim. Que horas s�o?

Seis e meia.

S�? Vou tomar banho.

Kan ji zai, bo za tsu, gyo...

Kan ji zai, bo za tsu, gyo...

jin han nya hara mita ji...

Bem, agora chega!

Gabinete Arnaud-Leroux, bom dia.

Bom dia Claire, � o Nicolas, a Alice est�?

Sim, um momento.

Bom dia, querido.

Almo�amos juntos?

A Juliette vem buscar-me, acho que � melhor sermos s� as duas.

- Ficas aborrecido? - N�o, manda-lhe um beijinho meu.

- Est� bem. At� logo. At� logo.

Agora � que vamos ver...

Durante esse tempo o Raoul faz horas extraordin�rias.

E quanto mais ele trabalha, mais a Nathalie se aborrece,

deprime e recorre ao bom Dr. Dubois.

Sem d�vida bom m�dico, mas n�o homologado, e que receita imenso.

E o que � que ele receita? Calmantes, � evidente.

N�o...

A aut�psia revelar� que era um afrodis�aco chin�s � base de plantas.

Sem d�vida o seu conceito de medicina paralela.

Seja como for, as duas v�timas ingeriram este afrodis�aco...

Quem � que vai � farm�cia buscar estes afrodis�acos?

Charpin! Quem paga?

Charpin!

Quem aproveita?

- Sou eu! - Boa-noite.

Esqueci-me de alguns anos?

N�o. � sem raz�o. Uma prova de amor.

- Que querido. - Preciso de mais meia-hora.

- Ent�o vou tomar banho. - Est� bem, at� j�.

Ontem n�o me disseste que tinhas visto a Juliette.

Esqueci-me completamente. Coitada, podias t�-la convidado.

Convidei-a, mas ela ia ver o Michel.

Eu j� sabia. Um casal assim, nada lhe pode acontecer, alguns desvios,

eventualmente, mas mais nada...

Ali�s, n�o me admirava que ela tivesse tido algumas aventuras,

�s vezes tem uns arzinhos marotos.

Por favor!

Juro-te que j� a vi a olhar para mim com olhos bem glut�es.

Pretensioso.

Agora que ela foi ver o Michel, j� n�o corro perigo. Tudo acaba bem.

Penso que ele s� vinha buscar algumas coisas.

�s vezes basta isso.

Talvez.

Est�s a ver o ciclismo?

Isto ou outra coisa qualquer.

- Est�s doente? - N�o.

- Tens a certeza? - Tenho.

� a Flecha da Val�nia, ou a volta � Flandres?

N�o sei.

� bom saber. Os Belgas s�o muito suscept�veis, como os Corsos.

Viste?

O qu�?

O tipo da televis�o, a dizer adeus.

� simp�tico.

� foleiro.

Vais ficar a ver at� ao fim?

Penso que sim.

Isso ainda vai durar umas duas horas.

Acho apaixonante.

N�o sei como devo ver as coisas, mas � bastante perturbador.

N�o vejo porqu�.

Descobrir ao fim de 15 anos que a minha mulher gosta de ciclismo,

� perturbador.

Como se me dissessem...

que tinhas um amante holand�s. Um Van... qualquer coisa...

N�o tem nada a ver!

Claro que tem. Todos os campe�es de ciclismo s�o holandeses.

Todos se chamam Van qualquer coisa.

N�o tens nenhum amante?

N�o sejas rid�culo.

N�o � nada de extraordin�rio.

N�o. Mas n�o tenho nenhum amante.

Ainda bem.

Desculpe.

- Agora l�s a "Equipe"? - N�o...

estou s� a ver as fotografias.

O que � que est�s aqui a fazer?

Estava � tua procura, n�o estou bem.

- N�o viste o Michel? - Vi.

- Discutiram? - N�o, ele foi muito simp�tico.

Que parvo!

N�o lhe posso querer mal, ele � assim.

J� n�o gosta de mim, se eu tamb�m n�o gostasse dele n�o havia problema.

A culpa n�o � dele, se eu ainda gosto dele.

� verdade.

Ele esperou seis meses para n�o me magoar inutilmente.

Passar seis meses com uma pessoa de quem n�o se gosta, n�o � nada f�cil.

L� isso � verdade...

- Cheguei. - Almo�amos juntas?

Podemos tomar um caf�. Esta semana, tenho almo�os todos os dias.

- Est�s cheia de trabalho! - � verdade, as coisas v�o bem.

Vi-te na televis�o!

- No inverno n�o h� ciclismo? - N�o.

- Fazes o futebol? - N�o.

Ainda bem.

O que � que fazes?

- Trabalho no B.H.V. - A s�rio?

Basquete, Handball, Volley.

N�o sejas parvo.

Fica mais um bocado, eu levo-te.

E �s prudente?

Cinco minutos.

Merda!

Ol� Michel.

- Ol�, como est�s? - Bem, e tu?

Como v�s. Apresento-te a Romance.

- � o seu nome? - �.

A Juliette disse-me tudo o que t�m feito por ela,

muito obrigado, isso facilita as coisas.

Ela j� est� melhor.

� a sua mulher?

N�o tem nada a ver com isso.

Merda!

Como � que ela est�?

Por estranho que pare�a est� melhor.

Tu ressonas?

N�o sei. Porqu�?

Porque eu sei que a Juliette ressona,

que o Nicolas n�o ressona,

e de ti, amo-te, e n�o sei nada.

Nunca te vi dormir,

nunca acordei ao teu lado.

� triste, n�o �?

Um bocado.

� a primeira vez que estou triste desde que nos conhecemos.

Ser� que vais aguentar?

No pr�ximo fim de semana vou a It�lia, � o Mil�o-S�o Remo, levo-te.

Sabes que n�o � poss�vel.

Quero ir a p�,

vens comigo?

Sou eu.

Ent�o?

N�o � grave, est� deprimida.

O que � que aconteceu?

Ela atirou-se ao Sena, e houve um tipo que a salvou.

Esperemos que ela n�o apanhe uma hepatite, s� faltava essa!

Vou tomar banho.

- Foi onde? - Na Ponte das Artes.

N�o sabia que ela era t�o rom�ntica.

� bom saber que se nos atirarmos � �gua, algu�m nos vem buscar.

� reconfortante.

- Achas que ias? - N�o sei.

Penso que sim.

Espero que sim.

N�o podia viver com algu�m que n�o se atirasse � �gua num caso destes.

Mas tamb�m � falta de respeito, se ela quer morrer, � a sua escolha,

uma escolha que respeito, n�o vejo o suic�dio como um acto cobarde,

� um ideal de absoluto,

n�o pensei que ela fosse capaz de tanta abnega��o,

sobe na minha considera��o. Vou v�-la amanh�.

� um quatro-quartos, com ma��, � menos seco.

Tens de me vir visitar, quando est�s em baixo.

Tu n�o te exprimes. Fala,

conta. Os amigos s�o para isso.

De qualquer modo, decidi ocupar-me de ti.

Vamos os dois � piscina e vens fazer Zazen comigo.

Ao princ�pio magoa os joelhos mas depois vais habituar-te.

Vejam quem l� vem!

J� chegaste?

N�o h� horas para os bons.

Como est�s?

Trouxe-te uns bolos.

O teu irm�o telefonou hoje de manh�, e anulei.

Fizeste bem.

Como vai isso?

Tem visitas.

Parece estar a melhorar...

Hoje tem de comer.

At� j�.

N�o nos conhecemos?

Parece-me que j� a vi nalgum lado.

N�o, de certeza que n�o.

Sabe quando � que ela tem alta?

Pergunte ao m�dico, ela precisa ver o psic�logo. Talvez amanh�.

Queres que eu levante a cama?

N�o comes?

Tem bom aspecto, posso provar?

N�o queres?

Ol�, como est�o?

Bom dia.

Ent�o o que foi isso? Pregaste-nos um susto.

N�s vamos andando.

N�o v�o, fiquem, estou com pressa.

N�o fa�as disparates destes.

Trouxe-te chocolates.

Vou ficar com remorsos. Sinto-me culpado.

Quando � que sais?

Talvez amanh�.

�ptimo, n�o � assim t�o grave.

Desculpa, mas tenho de ir andando.

Eu tamb�m.

Eu ainda fico um bocado.

At� logo.

Qual � o teu signo? Escorpi�o?

Escorpi�o,

cora��o,

energia ardente,

nascidos antes do dia 3,

a fidelidade n�o ser� a principal virtude.

O segundo decano, t�o ardente como o primeiro,

ser� favor�vel mas pouco falador.

Nascidos depois do dia 12,

a sua sensibilidade dispersar-se-� em ondas de simpatia,

os destinat�rios ficar�o encantados.

O meu conselho: Vencer sem desejo � triunfar sem alegria.

Nicolas, a Alice tem um amante!

N�o!

� a minha mulher.

Estou-me nas tintas!

Sou eu.

Ol�, est�s muito cansada?

Um bocado.

- O que � que jantamos? - Massa com fiambre.

Bem bom.

P�e a m�sica mais alto, por favor.

Merda!

� um verdadeiro "contra-rel�gio",

fazem amor � pressa, a correr, cronometrando � justa.

Os encontros s�o minutados, condicionados pelos hor�rios de Charpin

e as consultas de Dubois.

Os pol�cias que estiveram no local do drama

ouviram tocar dois despertadores, um no quarto e outro na cozinha.

Ouviram-nos

�s 18 h 25,

apenas 5 minutos antes

do regresso te�rico de Charpin.

Ambos brincavam com o fogo.

Uma brincadeira bem estranha... que n�o exclu�a Charpin,

ele tamb�m participava. Simbolicamente,

o despertador era ele. O ponteiro dos segundos...

Ele estava sempre l�,

ausente e omnipresente.

Mas qual � o seu papel?

Ou � o risco calculado que excita, ou � a bala da roleta russa.

A paix�o de Dubois, seria apenas um inconsciente desejo de morte,

a sua rela��o seria uma terr�vel armadilha,

um suic�dio disfar�ado de crime,

e no qual Charpin seria a v�tima.

A tua hist�ria n�o tem sentido.

Nunca nos separamos mais de um dia. E porque ela havia de ter um amante?

Eu vi-a.

N�o estavas no teu estado normal, vias adult�rios em todo o lado.

Um motard!

N�o tem sentido. N�o se refaz a vida com um motard.

N�o disse que ela queria refazer a vida, disse que tinha um amante!

- �s tu? - J� chegaste?

J�.

�ptimo!

O que � que queres comer? Ainda n�o fui �s compras.

- Hoje n�o janto aqui. - Vais jantar com a Juliette?

N�o.

Vou-me embora, Nicolas.

Deixo-te.

Nunca te perdoei isto.

Sabias?

Via-se como se v� o nariz no meio da cara.

Foi em 81!

No amor n�o h� prescri��o,

n�o h� perd�o, n�o h� esquecimento.

H� condescend�ncia, concess�es, fraquezas, isso sim, mas � tudo.

O que � que fizeste em 15 anos?

Compras, casa e cozinhar.

Tenho a impress�o de viver com um mordomo.

Um casal n�o vive s� de br�colos, Nicolas.

J� n�o te amo.

Tornaste-te oco, sem subst�ncia, banal.

N�o me trazes nada.

N�o te imaginei assim.

Bom dia. Podia instalar-me um kit Olini e um escape Terminoli?

Podia instalar-me um kit Olini e um escape Terminoli?

Desculpe, mas � proibido.

S� se for para andar numa pista.

� para andar numa pista. � poss�vel para amanh�?

Tem de assinar um documento.

Est� bem. At� amanh�. � a azul, ali...

At� amanh�.

Talvez um dia, a gen�tica venha provar

que tr�s homens s�o biologicamente necess�rios a um tipo de mulher,

duas mulheres a um tipo de homem,

quatro para outro,

e cinco para outro.

E n�o teremos nada a dizer.

Talvez a combina��o gen�tica,

determine a esperan�a de vida dos casais,

os famosos sete anos!

Quem descobrir� o cromossoma da fidelidade,

que garantir� a perpetuidade da vida conjugal?

E onde houver esse gene, ser� que tamb�m h� prazer?

Talvez...

Mas segundo os conhecimentos actuais,

aquilo que dirige as nossas puls�es

s�o dois mil anos de cultura, de educa��o e de leis.

Dois mil anos negados � frente dele pela Nathalie e o Dr. Dubois,

mais do que Charpin podia suportar.

Ele podia deixar achincalhar assim 20 s�culos de cultura e civiliza��o?

Podia ou n�o?

Que ousadia! O amor seria um crime?

N�o � o amor.

� a trai��o, a cobardia, a inf�mia.

O amor � um sentimento que une os seres,

n�o � esta uni�o que se alimentava do sofrimento de Charpin.

� audacioso mas � uma faca de dois gumes.

Ent�o acusa-os, sobretudo o Dubois,

transforma-o num monstro, com o sexo no s�tio da cabe�a.

Segue o teu objectivo,

sublinha a encarnado, para todos perceberem bem.

Insiste no lado mesquinho, miser�vel do adult�rio,

p�e em paralelo a hist�ria de amor deles

e a candura e a inoc�ncia de Charpin.

N�o venhas mais, Nicolas.

Eu sei, tu sabes muito bem o que tens de fazer.

N�o � isso, � a tua presen�a na sala de audi�ncia.

N�o gostaste?

Fiquei bastante perturbada.

Ficaste surpreendida. A partir de agora vou vir todos os dias.

- P�ra, magoas-te a ti pr�prio. - N�o, pelo contr�rio.

� uma esp�cie de exorcismo.

Para mim n�o. Tinha a sensa��o de estar a usurpar o lugar a algu�m.

- N�o. - Juro-te.

De repente senti-me mesmo infeliz.

O teu tio viu-te e fez um coment�rio desagrad�vel.

N�o vejo com que direito.

Sabes muito bem.

Bem, n�o venho mais.

� pena, gostava de saber como � que te vais defender.

Eu conto-te.

Deixe-me morrer!

Deixe-me!

Deixe-me morrer!

Deixe-me! Deixe-me morrer!

N�o lhe agrade�o.

N�o tem de qu�.

J� pensou na coragem que � preciso para nos suicidar-mos?

Se calhar nunca mais a vou ter outra vez.

Pe�o desculpas. Foi instintivo.

- Queria impressionar algu�m? - N�o.

Al�m de grande, bonito e bronzeado, tem de se armar em esperto.

- Est� bem? - Vou indo.

Se voc� tivesse ficado quieto, eu j� n�o teria de pensar nisso.

E n�o espere que eu lhe agrade�a daqui a 8 dias, n�o estarei melhor.

Daqui a 6 meses, talvez.

Voc� � optimista.

Nada corre t�o mal como pensamos.

- Acha? - Acho!

Mas ent�o tamb�m nada corre t�o bem como pensamos.

Isso � verdade.

� budista?

N�o, porqu�?

Por nada.

Vamos secar-nos. Vou pegar as minhas coisas.

Eu tinha-as deixado aqui.

Foi um grandalh�o, de bigode, que pegou em tudo. N�o lhe levou?

- N�o. - Ent�o, foi desonesto.

Tirei as botas e o blus�o

e saltei.

� voc�, o desesperado?

Sou.

O seu nome?

Pierre Labb�.

- � o seu verdadeiro nome? - �.

Normalmente devia envi�-lo para o "Hotel-Dieu".

Mesmo se eu me ocupar do senhor?

� da fam�lia?

Sou, sou...

Bem, faz de conta.

- Obrigado. - Mando vir um serralheiro?

Tem a certeza que � serralheiro?

Fechaduras de seguran�a, s� assim. Pense nisso antes de perder a chave.

- Quanto �? - 750 francos.

- Para arrombar uma porta? - � a desloca��o.

A minha carteira ficou no blus�o.

Quer que eu mude a fechadura?

Por esse pre�o, eu mudo.

Obrigado.

- � a sua mulher? - � a minha noiva.

N�o a imaginava assim. V�o casar?

N�o, penso que n�o.

Porque � que diz a minha noiva?

Noiva, � com quem vamos casar. Sen�o n�o tem sentido.

Diga a minha concubina, se gosta do que � bonito.

Concubina, � parecido com Colombina.

N�o, n�o � isso. N�o vivemos juntos.

N�o me admira. Tem cara de amante. Ent�o diga a minha amante.

- Como queira. - N�o quero nada!

Chame-a como quiser, meu anjo, meu coelhinho, meu amor...

Na Pol�nia dizem "o cu de algu�m".

- Conheces? - Sim, � a Marika, o cu de Louboch.

- Nada delicado, mas � expl�cito. - � um bocado redutor.

Tanto como "meu cora��o".

E como � que dizem "amante" na Pol�nia?

Voc� � um pretensioso.

- Porque � que fez isso? - A minha mulher deixou-me.

- � rid�culo! - Acha?

Aos 15 anos morre-se de amor, aos 20, � limite, mas na sua idade,

� rid�culo. � mesmo muito curioso.

O homem maduro teria mais tend�ncia para matar...

- Nem sequer pensei nisso. - Porque ainda � um jovem!

- N�o � a opini�o da minha mulher. - N�o seja amargo.

Voc� tem gra�a, voc� tem o papel do bom.

Talvez ela volte.

- N�o, as mulheres nunca voltam. - � verdade.

Est� a ver?

Vai arranjar outra. Estatisticamente n�o h� d�vida. Uma melhor, talvez!

- � da minha que eu gosto. - Eu sei, mas n�o lha posso dar.

Ent�o n�o me devia ter tirado da �gua!

Voc� n�o � simp�tico. Vou-me embora.

Eu levo-o. A minha mota est� l� em baixo.

N�o, vou a p�.

O que � que vai fazer?

N�o sei. Vou para casa...

Deixe-me a sua morada, vou mandar-lhe os 750 francos.

Salvou-me a vida, ela vale mais ou menos isso, estamos quites.

Fique com o meu telefone. Nunca se sabe, se quiser falar a algu�m...

N�o fa�a disparates, pense no que eu lhe disse, amanh� � um novo dia.

Sim, � isso. Adeus.

� mesmo um bairro de ladr�es!

Bom dia, queria falar com a Dra. Obini, por favor.

- Da parte de? - Do Sr. Aubac.

Um momento.

- Estou. - Nem vais acreditar no que me aconteceu.

Achas que tem a ver com a �poca?

N�o, � puro acaso.

A Juliette que se atira ao Sena.

O marido da Claire que salva algu�m no canal de Saint-Martin.

Em tr�s dias, parece-me bastante.

Puro acaso! E depois, o que � que ele fez?

Levou-o a casa deles para tomar um copo.

� completamente doido.

N�o se leva um estranho para casa.

Pode ser um louco, pode voltar, ter uma fixa��o nele.

Se calhar tem-lhe um �dio de morte por o ter salvo.

- Achas? - Acho.

� corrente, na hist�ria do crime.

Acolhes um tipo que sai da pris�o, um vagabundo ou um desempregado,

e ele, assim que puder, surripia-te os candelabros de prata.

� conhecido. Chama-se "Sindroma Jean Valjean".

Ele tem de ter cuidado, o marido da Claire.

Ela tamb�m. Esse tipo deve ter desenvolvido uma misoginia desenfreada.

Devias telefonar-lhe j�.

N�o tenho o n�mero dela.

Digo-lhe amanh�.

- Queres um grogue? - Quero.

Pergunto a mim pr�pria onde � que apanhaste isto?

Foi de certeza na peixaria.

Compraste peixe?

N�o, estava imenso frio na peixaria.

E se nos cas�ssemos?

Porque n�o?

39,5�, bebe o teu grogue.

N�o vou poder fazer o Mil�o-S�o-Remo.

� para aprender a n�o me armar em her�i. Se eu soubesse...

N�o digas isso.

Ali�s, n�o tem nada a ver. O Nicolas tem a mesma coisa.

Daqui a tr�s dias, j� passou.

- Achas? - Acho.

Promete-me que se o doido voltar, vais ter cuidado.

Porque acontece muitas vezes. Fazem uma fixa��o na pessoa que os salvou.

Ele n�o � doido, e mesmo se fosse, n�o h� problema, sou muito maior.

Como � que eras quando eras pequeno?

Era muito baixinho, os outros chamavam-me o an�o.

Sofreste com isso?

Um bocado. E tu?

Eu usava �culos e um aparelho nos dentes. Podes imaginar...

- �ramos uns patinhos feios. - Sim.

Mas agora somos uns belos cisnes brancos.

Vais apanhar a minha constipa��o.

Est�s quente como um aquecimento.

J� deve estar bom.

Bom dia, � o Pierre.

� ele.

- Lembra-se, salvou-me a vida ontem. - Sim, lembro-me, est� bom?

N�o, n�o estou nada bem, estou constipado.

Eu tamb�m, se isso o consola...

Tem febre?

- Tenho. - Quanto?

39,5�.

Eu tenho 40�, por vezes deliro, voc� tamb�m delira?

N�o, acho que n�o.

� horr�vel, delirar. �s vezes tenho crises de tosse terr�veis.

Tamb�m tem crises de tosse?

Tenho tosse, mas n�o � assustadora.

Que xarope � que toma?

Renatiol.

Eu tomo Tulatou, mas acho que n�o � nada de especial.

Experimente o Renatiol.

Agora, adeus.

� por causa de mim que est� doente. Est� zangado?

N�o. Se tivesse de o fazer outra vez, fazia-o. Isto parece que � um v�rus...

Ele exagera. Que falador.

Dizias-lhe que estavas ocupado.

Est� deprimido. N�o podia desligar-lhe na cara.

Sim, sim. Depressa, s� temos meia hora.

Merda, ainda t�m 20 minutos.

Bom dia, meu anjo.

Bom dia, pregui�oso.

Estou doente.

J� est�s bom. O Nicolas estava muito melhor hoje de manh�.

Estou melhor.

O que � que est�s a fazer?

N�o quero que o louco nos apanhe na intimidade.

Vais para Mil�o?

Vou.

No fim, preferia que ficasses doente mais um dia ou dois.

N�o vou por muito tempo.

Vais, abandonas-me.

Kan Ji Zai Bo Za Tsu...

Merda.

Estou?

� grave?

Est� bem.

Onde? Vou j�.

Chegou no momento exacto.

N�o estou bem.

Pode tomar conta do apartamento?

- Se tiver gosto nisso. - At� j�.

O teu marido saber� tudo - Veio no correio das 2 h.

� tudo?

� tudo.

O que � que vais fazer?

Vou contar tudo ao Nicolas.

N�o quero que ele venha a saber assim.

- Vais deix�-lo? - Vou.

Quando?

Hoje � noite.

Se eu soubesse, h� muito que te teria enviado uma carta dessas.

N�o ia gostar.

Nunca saberias que era eu.

Sabia. A tua carta seria gentil.

Em que est�s a pensar?

- No Nicolas. - Tens a certeza de que ele n�o sabe nada?

De certeza.

Algu�m veio a minha casa partir tudo, enquanto fui � drogaria.

Foi o louco!

Sou mesmo parvo! Ele est� em minha casa. A guardar o apartamento.

Depois telefono-te!

Vou telefonar.

N�o consegui limpar isso, d�-me v�mitos!

N�o faz mal.

A Dra. Obini, por favor.

Estou, sim, sou eu. Est� tudo bem.

Telefono-te antes de partir. N�o te preocupes,

eu explico-te. Beijinhos.

N�o sei o que lhe hei-de dizer.

N�o diga nada.

Voc� � um tipo fixe, Pierre.

N�o.

N�o sou.

- Conhece o s�ndroma de Jean Valjean? - N�o.

� um bocado complicado. � uma teoria psicanal�tica.

Quando ajudamos algu�m, essa pessoa fica-nos com rancor,

n�o suporta dever favores, seja a quem for,

e o reconhecimento que tem ao princ�pio, natural, instintivo,

transforma-se num �dio feroz,

que pode levar ao crime.

Voc� chama a isso psican�lise?

Para mim, isso � psicologia de cordel!

E acho que essa teoria n�o tem sentimento.

N�o me admira que voc� tenha acreditado nisso.

Confesso que depois de reflectir... Mas acreditei.

Foi o marido, n�o h� sombra de d�vida.

N�o, ele � um mole.

- Voc� conhece-o? - N�o.

Em todo o caso, n�o sou eu que o vou criticar.

Voc� acha isso normal?

N�o desculpo,

mas compreendo.

E com as suas teorias sobre o homem maduro, considere-se feliz.

Se fosse eu, j� tinha mudado a fechadura h� s�culos.

Talvez, mas voc� n�o partiu tudo em casa do amante da sua mulher.

Eu sou suicid�rio. � outra escola.

Isso seria f�cil, mas nem todos os maridos enganados s�o cobardes.

O suic�dio n�o � cobarde. � muito belo.

Excepto quando falhamos.

A culpa n�o � sua. Fui eu...

De qualquer modo, a inten��o � que � bela, o dom de si pr�prio.

� muito mais generoso do que ir partir tudo a casa das pessoas.

Desculpe, tenho de me despachar. Vou para It�lia logo � noite.

O que � que faz?

Sou fot�grafo na "Equipe".

- Gosta? - Muito. Adoro fotografia e desporto.

- Vive da sua paix�o. - Diz muito bem.

Tive um amigo assim.

A sua paix�o era pesca submarina.

Desde mi�do, s� pensava nisso. Acabou na equipa do Cousteau.

- Formid�vel! - Depende.

Foi comido por um crocodilo no mar da Austr�lia.

N�o vejo a gra�a.

Desculpe, pensei que estava a brincar.

Nunca me levam a s�rio.

Tenho de mudar a fechadura e o meu comboio � �s 10 h.

Deixe-me adivinhar... Mil�o-S�o-Remo?

Isso mesmo. Gosta de ciclismo?

Nem por isso, ouvi uns tipos a falar no caf�.

Isto interessa imensa gente,

de todos os meios,

at� teria uma certa tend�ncia para ficar na moda.

Ainda h� uns dias, fiz a mesma reflex�o.

Quando � que volta?

No domingo � noite.

Podemos jantar juntos no domingo? Enterro a minha vida de solteiro.

O qu�?

Na segunda-feira, a minha amante passa a ser a minha concubina.

A da fotografia?

Sim.

Disse-me h� bocado que vai deixar o marido, este fim-de-semana.

Gostava de jantar consigo.

Lamento, mas no domingo n�o posso.

Desculpe.

N�o se esteja sempre a desculpar!

A felicidade n�o se partilha, e pronto, � assim.

Podia ter sido uma paix�ozita,

um instante de adolesc�ncia,

uma daquelas rela��es furtivas, que se confessam quando se � velhote,

e que at� o outro acaba por achar engra�ado.

Este id�lio podia ter sido amor.

Essas coisas acontecem sem prevenir...

Nesse caso, que fazer?

Confessar e partir,

assumir o seu amor at� ao sofrimento do outro.

Se fiz�ssemos um beb�?

Que hist�ria � essa?

N�o sei, acho normal, quando nos amamos, fazermos um filho.

Um casal sem filho, n�o � um casal, � uma merda, � uma coisa qualquer.

Porque � que me dizes isso?

Porque te amo.

Mas porqu� hoje?

Porque te amo hoje,

porque j� n�o me lembro de quando me disseste amo-te pela �ltima vez,

porque o Michel deixou a Juliette, e que tudo vai mal.

O que vai ser da Juliette sem o Michel?

Desculpa, n�o quis magoar-te.

Eu sei, meu amor.

Diz-me que me amas.

Amo-te.

Nicolas...

Sorri-me.

Est�s zangada?

- N�o. - Vou partir, Alice.

Queres deixar-me?

N�o, o que seria de mim sem ti?

Vou embora durante uns dias.

Sinto que neste momento te amo mal, acho que n�o te mere�o.

N�o sei o que � que tenho, n�o sou o mesmo, sinto-me mole.

� melhor eu partir

para assentar ideias, compreendes?

Sim.

Prev�-se uma corrida palpitante.

As grandes manobras v�o come�ar,

ningu�m vai desistir, a press�o aumenta.

� esquerda, Notre-Dame de Paris,

ber�o dos amores da bela Esmeralda e do horr�vel Quas�modo.

Sim, senhor!

Ponho-o aqui.

Assim n�o me esque�o.

- Esta noite, � importante. - N�o se preocupe, sei o que �.

Tens a certeza que n�o � simplesmente sexual?

� a ideia que d�.

Achas?

Acho.

Conhe�o-a mal, mas sinceramente, acho-a um bocado oca.

N�o sei de que � que v�o falar daqui a 10 anos!

Veremos daqui a 10 anos.

N�o podes responder assim.

N�o vou ser infeliz agora, para n�o o ser daqui a 10 anos!

Tamb�m h� a Juliette, nesta hist�ria.

Tamb�m h� a Romance.

� a Juliette que sofre.

A Romance tamb�m ia sofrer.

N�o � a mesma coisa.

Porqu�? As amantes sofrem menos?

N�o, mas...

Uma rela��o curta deixa menos recorda��es.

Para ela, vai ser mais f�cil...

Para ti tamb�m, tenho a certeza que n�o deve ser f�cil.

N�o. � a escolha que � dif�cil.

Assim que a escolha est� feita, mergulhamos na felicidade.

Bom dia.

Bom dia.

Sra. Obini, est�o � sua espera no ponto de encontro.

Sra. Obini, est�o � sua espera no ponto de encontro.

Que surpresa!

- Consegui vir. - Obrigado.

O comboio 218 de Mil�o entrou na linha 21.

Temos imensos preconceitos.

Sempre pensei que os jornalistas desportivos eram uns cretinos

mas nunca li a "Equipe".

J� estamos habituados.

Est�o habituados a ser parvos!

O que � isto?

Esperei por ti toda a noite. Onde estavas?

Come�a...

Est� a ser mau, a dizer isso.

E ainda n�o est�o a viver juntos!

Tem de a compreender.

Ela sai de uma discuss�o tempestuosa, talvez at� violenta,

que tentou adiar durante todo o fim-de-semana.

Atravessou Paris num t�xi s�rdido,

subiu a escada a correr, e chega, sem f�lego, fr�gil, vulner�vel,

� procura de bra�os onde se refugiar,

e encontra uma porta fechada.

Imagine o seu desespero.

- Tenho de lhe telefonar j�. - S�o seis da manh�.

N�o est� a dormir. Diz que esperou toda a noite.

Isso � uma figura de estilo. Ningu�m espera toda a noite.

N�o a conhece!

N�o lhe vai telefonar agora, se � o marido que responde...

Exacto.

Era melhor dormir.

N�o tenho sono nenhum.

Eu tenho.

Estou...

Oito horas, zero minuto e vinte segundos.

Pol�cia do XVIII�, diga por favor.

Desculpe, � engano.

Por favor, isso acontece a toda a gente.

Tu �s o mundo em que vivo. Amo-te. Nicolas.

Pobre idiota.

Prazer de amor, dura s� um momento

Viu o pre�o?

N�o a vai p�r a comer em pratos de papel.

Ela n�o se importa!

N�o pense isso.

At� agora, s� conheceu o prazer da clandestinidade,

mas agora, vai descobrir o charme do quotidiano,

e vai ter de estar atento, porque ela n�o lhe vai perdoar nada.

Acha?

Percebi isso tarde demais.

Temos de acabar por reconhecer que o senhor � um monstro,

Charpin!

N�o, n�o sou um monstro, eu amava-a!

E ainda a amo.

O que � que eu devia ter feito para acreditarem em mim?

Virar a arma contra mim?

Ela estava a morrer, ali, aos meus p�s.

Via-a a olhar para mim, os olhos cheios de l�grimas.

A culpa era minha, e eu j� n�o podia fazer nada.

Como fazer para atirar um p� de cabra contra si pr�prio?

Estou inocente, estou inocente, condenam um inocente!

Acalme-se, vamos recorrer.

Tu cala-te, cabra, tudo isto � culpa tua!

Eles dizem todos o mesmo.

Sim, mas este diz a verdade.

J� h� algum tempo que n�o nos vemos.

Sim.

Almo�amos juntas um dia destes? Gostava imenso.

Eu n�o.

Est� diferente.

Agora � a nossa casa.

Ainda n�o, meu amor.

- Ficaste decepcionado? - Fiquei.

Est�s zangado?

N�o, percebo que n�o deve ser f�cil.

N�o consegui.

Ele n�o est� bem, n�o me tinha apercebido.

Ele precisa de mim.

� s� uma quest�o de momento,

n�o era a boa altura, eu pensei que sim...

N�o tens de te justificar.

Sim, gostava de te explicar.

N�o se mexam!

Pedra que cai na �gua, n�o parte nenhum espelho.

� indecente

Vai atirar-se � �gua?

Nicolas!

O que � que est�s aqui a fazer?

Nada, ando a passear.

Sinto-me t�o sozinha, percebes?

Claro que percebo.

S� conhe�o casais, mulheres s� ou prisioneiros.

Quero refazer a minha vida.

Tens de refazer, ainda �s nova, atraente, seria um desperd�cio.

- Achas? - Claro.

D�-me um beijo.

Mais um.

Ele era bonito!

Assim que acabou o curso, entrou num escrit�rio de prest�gio.

Confiaram-lhe um caso importante, no tribunal criminal.

Era uma jovem muito bonita e muito culpada.

Ele apaixonou-se rapidamente.

Logo percebeu que ela era indefens�vel,

que n�o podia fazer nada por ela.

Naquela altura, havia pena de morte.

Ele podia t�-la evitado, mas isso n�o lhe interessava.

Ele queria-a livre.

Um dia ele escondeu uma lima no bolso para lha dar no palrat�rio.

Por azar, ele era desastrado.

No corredor, � frente dos guardas,

a lima caiu.

Evidentemente, disse-se que ela � que tinha combinado tudo,

que o tinha seduzido apenas para isso.

Ele jurou-me sempre que n�o,

que tinha tido a ideia naquela manh�.

S� sei que ela foi condenada � morte e depois absolvida.

- Penso que ainda est� em "Fresnes". - E ele?

O pai � baston�rio e o tio � juiz.

Limitaram-se a expuls�-lo da ordem dos advogados.

A sua carreira estava desfeita.

Eu j� o admirava muito,

mas depois desta hist�ria,

amei-o,

mas amei-o...

Era nova, achava tudo isso t�o bonito.

Ali�s ainda acho muito bonito.

� verdade, � muito bonito.

Pass�mos a viver juntos, era como se eu o tivesse recolhido.

N�o penso que ele me amasse, pelo menos ao princ�pio.

Quando comecei a defender,

ele ajudava-me a preparar os dossiers,

a escrever as minhas defesas.

Assistia �s audi�ncias �s escondidas.

Depois, � noite, fazia a sua cr�tica.

Um dia, apercebeu-se que j� n�o valia a pena,

que era s� para o seu pr�prio prazer,

e ent�o parou.

N�o, por favor.

N�o ficas?

Hoje n�o.

N�o � simples, sabes.

N�o, n�o sei.

N�o fiques zangado.

Preciso de ti.

Preferia que me amasses.

O que � que queres dizer?

Dormes comigo mas vives com ele.

Fica a saber que tamb�m durmo com ele.

Desculpa, precisava de te ver. Acordei-te?

N�o, estava a ler.

- Est�s melhor? - Vou andando.

- Tenho um amante. - J� sei h� muito tempo.

Ent�o eras tu?!

- A Alice est�? - N�o.

Entre, n�o incomoda.

N�o veio?

Veio. Quer bacalhau guisado?

Ainda sobrou?

- Ela n�o gostou? - Ela nem provou!

� o princ�pio do fim, meu caro.

N�o exagere.

Era a nossa primeira noite juntos e ela n�o ficou...

Est� a pagar pela noite passada.

Ela n�o deixou o marido, ela n�o lhe disse nada.

Eu sou s� uma aventura...

Ela ainda gosta dele, s� me falou dele.

At� � tranquilizador, ele � um tipo formid�vel, sabia?

A s�rio?

Ele deve ter desconfiado e partiu no bom momento. Bem feito.

Diz-se "longe da vista, longe do cora��o", mas estar longe, aproxima.

�s vezes, quando um homem vale a pena, as mulheres regressam.

Pelo menos, fic�mos a saber isso.

Devia ir para casa, ela est� � sua espera.

- Quem? - A sua mulher.

- Acha? - Tenho a certeza.

- E voc�? - Vou dar uma volta.

Quer que eu o deixe nalgum lado?

Quero.

O que � que queres agora?

Apresentar-te um tipo formid�vel!

- � a Juliette? - Sim.

- Sou o Gaspard. - Prazer, Gaspard.

Bom dia, sou eu.

Bom dia, onde � que est�s?

Em Brest.

Est�s melhor?

Muito melhor. Volto amanh�. Ficas contente?

- Fico. - Ent�o at� amanh�.

At� amanh�.

N�o faz mal. Adeus, Gaspard.

Adeus, Juliette.

Marie Fournond, o que sentia por Charpin?

Amava-o.

N�o � crime.

- Sabia que ele era casado? - Sim.

Qual era o sentimento dele em rela��o a si?

- Tamb�m me amava. - Mentira.

Cale-se, Charpin!

- Diz que Charpin a amava, ele disse-lho? - Sim.

Mentira, n�o a amo.

Nunca te amei!

Terminei a interroga��o da testemunha.

Dra. Obini, alguma pergunta?

Desculpe?

Quer perguntar mais alguma coisa � testemunha?

Desculpe, Sr. Presidente. N�o quero perguntar nada.

N�o � poss�vel! Ela est� a mentir!

Parvos! Isso n�o � defesa! � um disparate!

A audi�ncia est� suspensa!

Ela � uma rapariga com pinta! Podiam ter feito um belo casal.

- Isso n�o se pode decidir. - Eu sei.

Estou, sim, sim.

At� j�, um beijo.

Nove horas, logo � noite, voc� traz a sobremesa!

Amo-te!

Amo-te, amo-te...

Achas que posso pedir ao Pierre para ser o padrinho?

Claro, porque n�o?

Eu vou tentar arranjar uma madrinha gira, solteira, nunca se sabe...

Vai abrir, eu estou pronto daqui a 30 segundos.

Boa noite.

- � o Pierre? - Ele chama-se Nicolas!

Abre.

N�o abras.

Passe-ma.

N�o, Pierre.

Merda, Labb� Pierre!

Vamos a n�s. Os seus documentos.

- S�o os seus documentos? - S�o.

O seu caso torna-se complicado.

- Tenho direito a um telefonema. - Conta com isso.

Artigo 78 do c�digo penal, al�nea 3. Chame a Dra. Obini.

Os pratos, foi ele?

Deu-me a opini�o dele.

� para ti, � a pol�cia.

Estou...

Tenho � minha frente o Sr. Gardinier.

Nicolas, Bruno, R�my, nascido a 6 de Junho de 1944 em Arromanches.

Sim, � isso.

Diga-lhe que se lixe.

Vou tomar nota do seu depoimento.

Chamo-me Nicolas Gardinier, nasci a 6 de Junho de 1944...

Aos 6 anos, no Natal, consegui salvar o peru,

comemos pato com castanhas. Era uma voca��o precoce.

Tornei-me "empregado dom�stico",

era revolucion�rio, naquela altura.

As suas amigas estavam doidas por mim, podia ter curtido com todas mas n�o o fiz.

Tome nota, � importante.

Agora acabou-se, a �poca dos poetas terminou.

De qualquer modo j� n�o sei falar �s mulheres. Antes sim.

Enfim...

Ele tinha um ar de moleng�o.

Pensei que ele n�o me ia buscar. E o parvo, mergulhou.

E algu�m roubou a minha motocicleta!

Tentei telefonar de uma cabine, mas ele n�o ma quis passar...

E nesse momento, voc�s chegaram. E pronto!

Vai demorar bastante, escrever tudo isso.

Est� bom assim, v� para casa.

- Vai buscar croissants? - Vou.

- Eu queria falar com ela. - N�o, Pierre.

Chamo-me Nicolas.

� a mesma coisa. N�o serve para nada. V� para casa!

V� a vida de outra maneira

Pois?

N�o me quiseram.

Apesar de eu lhes dizer que era h�ngaro.

� para ti.

Para mim?

Procurei-te por toda a parte.

Vagabundeei um bocado. Queres dizer-me alguma coisa?

Volto j�!

Tradu��o: Ana Paula Correia-Arnould

Legendagem: C.M.C.

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