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Juan.

Juan!

NEVE NEGRA

Ol�.

Ol�.

Est� se sentindo melhor?

Me fez bem dormir. Muito bem.

Ele d� pontap�s?

Est� vendo TV. � um pregui�oso.

- E voc�, como est�? - Bem.

- Tem certeza? - Tenho.

Vai ser r�pido. Vai dar tudo certo.

Est� bem.

Ol�, Marcos. Sou eu outra vez.

- Eu ligo mais tarde. - Al�? Al�, Sepia.

Finalmente! Estava quase desistindo.

Desculpa n�o ter ido busc�-lo.

- Estava muito ocupado. - Sim, n�o tem problema.

J� foi buscar a urna?

- N�o, acabamos de chegar. - Claro.

O que aconteceu para a casa estar assim toda desarrumada?

Foi a sua irm�. J� a viu?

N�o, acabamos de sair do avi�o.

Sim. Claro. Est� bem.

Olha, deixei o endere�o do hospital numa mensagem

e tenho uma carta do seu pai para voc�s.

Fa�a tudo o que tem que fazer

e amanh�, se vier ver seu irm�o,

pode passar aqui pela serraria,

eu lhe dou a carta

e conversamos com calma.

N�o, n�o vou.

Tem que me ajudar a resolver a quest�o dos canadenses.

Falta a assinatura do Salvador.

Tentei ligar para ele, mas n�o atende.

Eu sei. E j� lhe disse que...

se tem alguma coisa a falar com o Salvador,

fale com ele diretamente.

N�o vou falar, n�o posso.

Est� bem. Tudo bem.

Se n�o vem amanh�, arranjo um jeito de lhe enviar a carta.

�timo.

E, Marcos,

sinto muito pelo seu pai.

Sabe que, para mim, ele foi sempre

o irm�o que eu n�o tive.

Esta foi na cabana.

O Salvador.

Este sou eu.

O meu pai.

A Sabrina.

E o Juan.

Era muito bonito, n�o?

- Era. - Quem a tirou?

O Sepia, acho.

Olha.

Que sorriso t�o lindo!

- Quer conhecer a minha m�e? - Claro!

Olha.

� a �nica fotografia dela.

N�o!

N�o � uma boa hora.

Precisamos estabiliz�-la primeiro.

Por que n�o volta amanh� para vermos como ela evolui?

JUAN SABAT� MORRE EM UMA TERR�VEL AVALANCHE

A TRAG�DIA TIROU A VIDA DE UM MENINO

- Sr. Sabat�? - Sim.

Sinto muito.

- Laura? - Estou aqui, Marcos.

Como foi com a Sabrina?

- O que aconteceu? - Por qu�?

Liguei. Por que n�o atendeu?

� a casa do seu pai, n�o ia atender.

Chegou uma carta para voc�.

Filho da m�e.

O que � que diz?

"J� sabe onde p�r as minhas cinzas."

Filha! Venha.

Sabrina? Cheguei da Espanha.

J� estou aqui.

Sabe, vim com a Laura, a minha mulher.

Gostaria que a conhecesse.

Olha, trouxe algumas coisas da casa.

Umas roupas.

Uns l�pis.

Um caderno.

- Talvez queira desenhar... - Salvador.

Est� sozinho.

Tem que ir.

N�o.

N�o posso.

Leu a carta?

Sim.

E n�o vai fazer o que o pai disse?

Tem que ir.

Sen�o, ele briga com voc�.

Vi os cadernos da Sabrina.

Quais?

Uns vermelhos. Com desenhos.

Desenha muito bem.

Sim.

Ela sempre desenhou muito bem.

O seu pai tamb�m queria vender.

Ele me mandou falar com o seu irm�o.

Que me deixou este presente.

Agora, � tudo seu. Ou melhor, dos dois.

T�m que lutar por isso!

Principalmente agora, que vem a� um novo Sabat�.

O Salvador tem que compreender.

Ele n�o vai compreender.

Ele vive l�.

Vive l� h� 30 anos.

Duvido que ache gra�a que a gente apare�a e diga:

"Salvador, tem que sair,

vendemos a cabana aos canadenses."

Que cabana!

Os canadenses n�o est�o nem a� com a cabana!

Perd�o.

Para eles pouco importa a cabana.

Querem comprar a terra toda.

N�o sabe que � uma empresa mineradora?

Porque que haveriam de oferecer nove milh�es s� por uma cabana?

Por favor!

Nove milh�es de pesos?

De d�lares.

Ram�n!

N�o seja mal-educado.

Arrume umas empanadas ou qualquer coisa para beber.

N�o quero nada, n�o.

Vamos ver ent�o...

N�o se pode vender s� a parte da Sabrina e a minha?

N�o.

Eles querem tudo ou nada.

Fale com o seu irm�o, Marcos.

Tem todo o direito de vender!

Salvador!

Ali era o quarto do meu pai.

O nosso era l� em cima.

Estou cansada.

Salvador?

Espera. Sou eu, o Marcos.

Sou o seu irm�o.

Ela � a Laura, � minha mulher.

Espera!

Por favor.

Pensei que pod�amos dormir l� em cima.

N�o se importa?

Amanh�, mostra para eles o que herdaram, n�o �?

N�o � por isso que estou aqui.

Trouxe as cinzas dele. Ele me pediu

que as depositasse ao lado do Juan.

Que gesto t�o bonito.

Fale para mim onde � que ele estava?

N�o se lembra.

Laura?

- Ol�. - Ol�.

- Como vai? - Bem.

- Bom dia. - Como vai?

Fiz caf�. Quer um pouco?

- N�o. Ou melhor, quero. - Quer?

J� se conheceram?

J�.

Ele estava me contando...

de todos os preparativos para a ca�a.

Bem, vou buscar o caf�.

- Est� bem? - Perfeito.

Quer alguma coisa?

Levantou muito cedo?

H� uma hora, 40 minutos.

- E ficou conversando com ele? - Sim.

Ele � estranho, n�o �?

E, al�m da ca�a,

do que conversaram?

Ele disse alguma coisa?

- Sobre a venda? - Sobre a venda?

N�o, Marcos.

Eu n�o tenho nada a ver com a venda.

E ele � seu irm�o, n�o �?

Por qu�? O que foi?

Vamos.

A partir daqui vamos a p�.

Deixa isso aqui.

Nosso pai nos trazia sempre para ca�ar javalis.

- S�rio? - Sim.

Mas ele gostava de vir � noite.

Dizia que, de dia, era muito f�cil ca��-los.

Lembra de quando nos salvou do ataque de um javali?

A mim nunca me salvou de nada.

Este n�o � o caminho para o lago?

N�o.

Esse fica l� a dois quil�metros para oeste.

Ent�o, este n�o est� no nosso terreno.

Eu anexei. Agora est�.

Chegou a falar com o Sepia?

Sei que este � o seu lugar.

Sei melhor do que ningu�m.

Mas pe�o que considere a proposta.

Toma.

Pega nela.

N�o. N�o vim para ca�ar.

Vim para cumprir o �ltimo desejo do pai.

- Prefiro n�o ca�ar. - E o que v�o comer esta noite?

Deixa eu ver.

� dif�cil?

Na primeira vez. Depois, � como tudo.

Anda, vamos.

Quando pretendem ir embora?

Depois de enterrar as cinzas.

Andem logo. Vem a� uma tempestade.

Preciso que me ajude.

Com o qu�?

Onde o Juan est� enterrado?

Salvador!

J� se passaram quase 30 anos! Como � que vou...

Fica muito melhor quando foi ca�ado por n�s.

Tinha raz�o.

Ela est� gr�vida.

A Laura. Est� gr�vida.

Eu percebi.

Vai ser tio.

Certo.

Sei que � dif�cil falar disto, mas � preciso.

N�o quero incomodar com o assunto da casa.

Mas realmente devia considerar a proposta.

Sei que este � o seu lugar.

E que � injusto dividi-lo em partes iguais.

Por isso, do valor total...

pode ficar com metade. Metade!

Com esse dinheiro,

talvez possa encontrar um lugar aqui perto.

Um pouco menor.

Esta � a sua chance, Salvador!

Se n�o for assim...

A partir de agora vamos ter muitas despesas

de hospital e medicamentos.

Que eu n�o posso pagar. N�o podemos pagar.

N�o me parece justo.

Sabrina est� doente. � uma verdade.

- E o que te parece justo? - Considere a proposta.

N�o estou aqui para incomodar. Quero que entenda isso.

Mas, a partir de agora, temos que olhar pela Sabrina.

Ent�o, olhe por ela. � sua irm�.

� justo.

Ela tamb�m � sua irm�.

- Laura. - Sim?

- Por favor. - Estou enganada?

N�o.

Ela tem raz�o.

Isto � um assunto de irm�os.

Venham viver aqui comigo.

H� espa�o para os quatro.

Para os cinco. Desculpe.

E o que faz com o Juan?

O que tem Juan a ver com isto?

- O que tem a ver? - Sim.

Voc� quer vender este lugar, que � seu.

O que vai fazer com ele?

Vai deix�-lo aqui

ou vai lev�-lo?

Para onde?

Pensei que pod�amos ter uma conversa coerente,

mas parece que � imposs�vel.

Eu e o Juan n�o podemos sair daqui.

Vou lev�-lo

ao lugar onde o seu irm�o est� enterrado.

Quero ver se n�o muda de opini�o.

Laura.

- Laura? - Estou aqui em baixo.

Onde est� o Salvador?

N�o sei. Quando acordei j� tinha sa�do.

Deve ter ido resolver o problema da luz.

Quer?

Por que n�o quis ca�ar ontem?

Vou tentar pegar sinal.

Preciso falar com a m�dica.

- Marcos. - Sim?

Por que n�o quis ca�ar ontem?

- O qu�? - Por que n�o quis ca�ar ontem?

Porque era a espingarda

do acidente em que ele matou Juan.

Voc� perguntou.

Por que n�o me disse?

Por que n�o me disse?

- Porque n�o tinha certeza. - De qu�?

Certeza de qu�? De que era a espingarda, ou de me dizer?

- Al�? - De qu�?

N�o dev�amos ter vindo. Sim, al�?

Sim. Fala o Marcos, irm�o da Sabrina.

Al�?

Al�? Sim.

Queria saber como � que ela est�, como reagiu.

Amanh� levo voc�s para enterrar as cinzas.

Marcos n�o quer que fale com voc�.

Mas precisamos falar sobre as necessidades de Sabrina.

E as suas?

O que voc� quer dizer?

As suas necessidades.

Quando falamos sobre elas?

E s�o 11 milh�es, n�o nove,

como disse aquele velho de merda.

Onze milh�es?

Quem disse isso?

Como � que voc� sabe?

Por que Sepia mentiria para n�s?

Por que n�o pergunta para ele?

Tamb�m disse que Juan morreu numa avalanche.

Ela est� gr�vida.

Voc� j� me disse.

Onde �?

Filho da m�e.

Fa�a as malas. Vamos embora.

Vou aquecer a caminhonete.

E a sua irm�?

Anda.

Vamos embora.

Sei que j� passou muito tempo.

Foi quem mais sofreu, o pai foi um bruto com voc�.

Mas ambos sabemos que foi um acidente,

podia ter acontecido a qualquer pessoa.

�ramos crian�as.

Foi um acidente.

Tamb�m n�o pude falar com ningu�m.

H� muito tempo que queria lhe pedir desculpa.

Por t�-lo deixado t�o sozinho.

V� embora.

Agora!

- Marcos. - Eu estou bem.

N�o, est� tudo bem!

Marcos, o que aconteceu?

Caramba!

Marcos, freia! Freia!

Voc� est� bem?

O que voc� fez?

Merda!

D� marcha � r� quando eu disser!

Vamos! Agora!

Vou desligar. Quando tiver muito frio, volto a ligar.

N�o, n�o desligue!

Acende as luzes. Vou l� fora fazer xixi.

Eu vou sair seja o que for.

Espera. Tenho uma lanterna.

Marcos, n�o aguento mais. Temos que voltar.

- N�o podemos ficar aqui. - N�o.

N�o posso voltar. N�o entende?

Esqueceu que estou gr�vida?

- Temos que voltar agora. - Laura, n�o podemos voltar!

O que voc� quer? Quer que ele me mate?

Quer que ele me mate ou que eu o mate?

� isso que voc� quer?

N�o podemos voltar! N�o entende que n�o podemos?

Vou ver se encontro sinal outra vez.

- Vou embora! - Para onde?

- Vou embora, Marcos! - Laura!

N�o vou perder o beb� por sua causa!

Laura!

- Laura, volte aqui! - N�o!

Laura!

Juan.

O que est� fazendo aqui?

Ou�a, por favor.

Pare. Deixa eu falar! Por favor!

O qu�?

- O que faz aqui? - Salvador, deixa eu explicar.

- O qu�? - Por favor.

Do que voc� quer falar?

Quero explicar.

Agora? Quer explicar?

Espera, por favor! Salvador! Espera.

- Deixa eu explicar. - N�o.

N�o!

O que voc� fez?

N�o sei, pensei...

Ele ia mat�-lo, n�o?

N�o.

Ele nunca me mataria.

Falou com algu�m?

N�o falou com ningu�m a n�o ser comigo?

N�o, com ningu�m.

Que fam�lia, meu Deus!

Fui eu.

N�o queria mat�-lo.

Ele estava atirando contra n�s.

Fiquei assustada! Como ele matou o Juan

e o deixou maneta...

A mim? N�o.

J� perdi a m�o h� muito tempo.

Salvador s� me roubou a pr�tese.

N�o sei o que aconteceu aqui,

mas n�o quero saber.

Vou contar como as coisas aconteceram.

Estamos entendidos?

Traga a arma que voc� atirou.

N�o foi o Marcos que atirou.

N�o ouviu o que eu disse?

Ou quer passar a gravidez numa pris�o,

longe do seu pa�s?

Ram�n.

Leve-o ao local onde ele caiu.

Salvador me disse que eram 11 milh�es. N�o nove.

Acha que agora � hora de falar disso?

Comecei a atirar, sem pensar.

Para me defender.

- De quem era a arma? - Do pai dele.

O que isso interessa?

Foi autodefesa, pronto.

De qualquer maneira, precisa ir ao tribunal.

Para prestar depoimento formal.

- Tem advogado? - Sim, sou eu.

Eu vou antes.

Vou � cidade preparar os documentos do tribunal.

Est� bem.

Os agentes ficam aqui.

Pode preparar tudo e lev�-los.

Prepare uma mala com roupa para ele.

Laura.

Vamos.

Eu saquei a arma

e atirei.

E, quando fui ver,

ele estava morto.

Juan nos viu

e vai contar ao pai e ao Salvador.

Juan!

O que foi?

Nada.

- N�o conte a ningu�m o que viu! - Sen�o?

Quer saber? Quer mesmo saber?

Vamos ver!

Ent�o? Vai, atira!

Vai!

Medroso.

Est� morto?

Foi um acidente!

Juan nos viu e vai contar ao pai e ao Salvador

Pronto. Est� tudo resolvido.

Vamos ter que esperar um tempo por aqui,

mas podemos ficar no povoado.

Acabou.

O que foi?

S�o boas not�cias, Laura.

Sei porque o Juan morreu.

Porque Salvador matou Juan.

N�o foi um acidente.

Salvador o matou

porque Juan o pegou com Sabrina.

Agora vamos esquecer isso tudo.

PARA LARA

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