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Original subtitles

- Todo mundo! - Um, dois…

Vai!

Vai!

Vai!

Leva pra lá, ó.

- Vem comigo aqui! - Bora!

- Calma aí. - Calma aí.

Foi?

Vamos?

Bora?

Aí, já foi.

Vai!

Por baixo.

Traz mais.

Para lá, Inox.

Inox, para lá.

Vai, vai, vai!

Ei…

Eia.

Vai lá!

Você, ouvinte incauto,

que nesse exato instante encontra-se sintonizado

nessa inusitada frequência radiofônica,

aproveite!

Eu…

convido a sua pessoa

a desvendar mistérios aparentemente

indecifráveis.

A penetrar labirintos e mundos

ao mesmo tempo vulgares

e silvestres.

Agora, feche os olhos.

Cruze essa última fronteira, meu camarada.

Ela te guiará pelos corredores distorcidos

do teu inconsciente,

e pela inércia de tuas vomitadas

vidas antepassadas,

para finalmente

te libertar dos teus temores mais recônditos,

de tua leviana mediocridade,

e, sobretudo,

de tua escancarada preguiça mental.

Porque, meu camarada,

ninguém nesse mundo é perfeito,

e a vida que a gente vive

é assim.

Não, Zolah, agora não. Não! Você já está pra entrar.

É bom pros momentos que antecede o salto, Teorema.

Não quero, não. Me deixa.

Só você que sabe.

Olha aqui.

Vai estragar minha maquiagem.

Vem cá, aqui, ó.

Psiu!

Delícia!

Respeitável público,

Senhoras…

e senhores.

Rapazes e, naturalmente, moças.

Crianças em geral.

É chegado o momento

tão esperado nessa noite estrelada.

- Vem… - Eu vos peço um minuto…

…da sua honrosa atenção.

O circo Netuno

tem o privilégio de devolver a vocês

um filho natural dessa paradisíaca ilha

e encravada nas profundezas

do Oceano Atlântico,

a meio caminho entre o Brasil e a África.

Eu, o ilusionista Kaleb,

tenho orgulho de apresentar

nessa memorável noite…

o retorno

do mais sublime…

…do mais corajoso,

do mais belo…

Zolah!

O homem-bala!

Hey!

Pedro.

Pedro, meu filho.

Como tu cresceu!

Raquel.

Oxe!

Tá lembrado dele?

Tu não tem nome de peixe?

Tenho, meu velho.

Cangulo.

Qual foi o anzol que te fisgou?

A gente tá noivo.

Tu é o padrinho.

Vocês vão ficar bastante tempo por aqui, meu filho?

Depende de vocês, quer dizer…

O circo depende do público, né?

Se depender da gente, vocês vão ficar aqui pra sempre.

- Meu irmão, muita história. - Obrigada.

- Oi. - E aí!

- Teorema. - Prazer.

- Prazer. - Quer um copo?

- Aí, Pedro, um golinho. - Não bebo.

Tá bebendo não, rapaz?

- Meu nome agora é Zolah. - É Zolah!

Me dê licença. Ele não bebe, mas eu aprecio a danada. Bote aí.

Boa.

Agradecido. Prazer, meu nome é Inox.

Inox.

O homem mais forte desse mundo.

E você? Qual é sua graça?

É Cangulo.

Para! Esse é o peixe que eu mais gosto.

Tem muito peixe nessa ilha.

Eu não entendi.

Ele falou que é cangulo, um peixe muito comum na ilha.

Reza a lenda nessa ilha que pra cada sete sereias,

existem 51 tubarões.

Interessante…

Poxa…

Se não tem ninguém pra dar

sardinhas pra elas,

como é que elas se viram pra comer?

Aí, Kaleb,

reside a grande metáfora da história da humanidade.

As fragatas

ficam espreitando o mumbebo subir com a pesca.

Na força bruta,

surripiam o peixe do bico deles.

Kaleb, tu sabe

como é que um mumbebo morre?

Não faço a menor ideia.

De tanto mergulhar

atrás de peixe,

o sol e o mar cegam ele.

Como pode ver,

morre de fome.

Ô, Kaleb!

Venha cá comer um peixinho comigo, venha.

Aí se Mumbebo quiser, traz ele também.

Vamos lá, Mumbebo, traçar um peixinho.

Kaleb, não sou fragata, sou mumbebo.

Não gosto de nada que me é oferecido.

Só como peixe que eu mesmo pesco.

- Oi, Kaleb. - Oi, Rosa.

Sente aqui.

Guardei uma cachacinha especial pra tu, visse?

Elegante o teu estabelecimento.

Tu mesma que construíste tudo?

Eu faço umas coisinhas, mas o verdadeiro artesão é Cangulo.

Olha lá. Tá vendo aquelas esculturas de ferro ali, imitando vários peixes?

- Foi Cangulo que fez. - É bonito.

Se não fosse Cangulo, eu já tinha desistido dessa bodega.

Não para de entrar sujeito indisposto aqui.

Eu não tenho mais idade, nem paciência, pra aguentar gente bêbada.

Mas difícil, difícil mesmo,

é encontrar alguém sóbrio nessa ilha pra contar história.

É por isso que eu prefiro conversar com as minhas galinhas, e pronto.

Um arrozinho.

- Cangulo. Vá chamar Pedro pra comer. - Oi?

Zolah, dona Rosa. O menino só quer ser chamado de Zolah agora.

Zolah…

Por que tu trouxe o menino?

Não foi o circo?

Sei. Quem não te conhece, que te compre.

Tu, Kaleb, é capaz até de acertar a hora do relógio no escuro.

E diz tua bronca safada pra cima de mim?

Eu, Kaleb, o ilusionista,

que novamente aporta essa paradisíaca ilha, vindo diretamente

do vale sagrado do rio Jordão.

Mas tu não tá feliz, não?

Claro que eu tô!

Qual é o problema?

Fico agoniada.

O passado tem mania de cobrar fiado.

Fica não, Rosa.

Já faz muito tempo.

E o tempo sabe muito bem o que faz.

Ê!

Respeitável público,

é com imenso orgulho

que o grande circo…

que o grande circo

Netuno…

vai…

apresentar finalmente ele,

o incrível…

ele, o máximo,

ele…

Porra, essa chapeleta.

O inimitável,

ele que é indiscutivelmente o…

O que é que é agora mesmo, porra?

- Vamos dançar. - Bora!

Cuscuz!

Me segura, Cuscuz.

Cuscuz, me segura.

Ai, meu Deus! Me desculpe.

Vai lá, meu bem.

Arrebenta com eles.

Senhoras e senhores, senhoritos e senhoritas.

Criancinhas desse tamaninho.

O circo Netuno tem o prazer de apresentar…

Inox!

O homem mais forte do mundo!

Hey!

Johnny Strabler

era um deus, né, Zolah?

Um deus!

Às vezes…

parece que…

aquela gangue de motoqueiro,

que invade aquela pacata cidade da Califórnia,

tem muita semelhança…

com a nossa presença aqui.

Parece muito

com nós.

Como assim, Kaleb?

Nós quem?

O circo, porra.

Isso é verdade.

Tem uma coisinha parecida mesmo.

Você tá certo.

Vamos tirar essa roupa.

O cinema,

Zolah…

nasceu no circo.

Naquela época, era aberração.

A mulher barbada,

o homem-elefante,

o mágico de Oz…

A natureza do cinema era o sonho.

Mas também havia a aberração

e a barbárie.

Conheço muito bem.

Bora deitar.

Você sabe, Zolah,

como é que um mumbebo morre?

Sabe ou não sabe?

Sei, Kaleb.

Tô ficando cego.

Que nem um mumbebo.

Não enxergo mais nada.

Você…

nunca vai ficar cego, Zolah.

Você não mergulha.

Você não vai ficar cego.

Você não mergulha.

Larga de ser mole. Vai, Pedro, pula!

Vai, Pedro! Bunda-mole, pula!

Vai, vai, pula! Pula!

Vai, Pedro, vai! Pula!

Pula, pula!

Pula, pula, pula!

Pedro e Raquel tão namorando.

Tão namorando.

Tão namorando, namorando!

Que foi? Sonho ruim de novo?

Kaleb!

- Kaleb! - Kaleb!

Tu é profissa mesmo, hein?

Fumo essa porra todo dia e nunca me viciei.

Ô, minhas bichinhas, minhas bichinhas bonitinhas.

Meu galinho lindo, Vicentinho.

Olha que milho lindo aqui que eu trouxe pra vocês.

Ai, mas vocês tinham que ver

o circo, que coisa mais linda do mundo!

Meu filho, Pedro, é o Homem-Bala!

O Homem-Bala!

Me diz uma coisa.

E o Rio? É bonito mesmo, é?

Meu irmão, o Rio de Janeiro é massa!

Rio de Janeiro é foda, é pra se foder!

- É mesmo, é? - Mulherada dando na canela.

Tudo ó…

É tome, receba, tome, receba.

E São Paulo, já fosse também?

Mas menino! Pense.

Meu dentista é de lá.

Me deu um medo danado.

Meu coração ficou disparado, assim ó…

É, Soninha, disparado. Pensei que ia ter um troço.

Mas quando ele saiu lá, que ele virou, assim,

saiu com o braço assim, Vicente, que nem você de manhã…

Eu ia ficar maluco se saísse dessa ilha, tá ligado?

Uma vez só fui no Recife, rapaz.

Mal consegui sair do barco, pisar na cidade. Saindo do porto,

já fui topando com os carros.

Aqui é carro pra caralho, meu irmão! Carro pra tudo que é lado.

A porra toda. Me tire daqui, pelo amor de Deus!

Foda.

Recife é a cidade que mais tem carro…

Foda-se. Tá rindo de quê?

De nada, não…

Toma aí, fuma aí.

- Não, tô legal. - Estás neném, é?

Perdeu a tartaruga.

Nossa senhora!

Me dá uns ovos bem bonitos, hein?

Que eu quero fazer um bolo bem lindo pro meu filho.

E Raquel?

O que tem Raquel?

Eu fiquei remoendo o pensamento com essas coisas,

passei a noite inteirinha em claro, e posso lhe afirmar.

Eu vi, Gaetan! Eu vi mesmo, era ele, sim!

Ei, Inox. Você não viu, tá enxergando mais que um cego, agora.

Era ele, sim, velho!

Na estrada da Alamoa, de moto. Tô falando!

À rainha do circo! À beleza dela!

- Posso ir agora? - Não sei.

Olha, peraí!

O que o moço falou?

Ele disse

que nosso circo é uma ilha

dentro de uma ilha.

- Que bonito! - Gostou?

Vamos fazer outro brinde.

Pessoal.

Tenho uma proposta.

Uma proposta.

Uma quebra de braço

entre o homem do circo

e o homem da ilha. Hã?

- Mas… - Acho justo.

Um detalhe.

A dinheiro.

- Só se for agora! - Grana!

Aqui, o dinheiro.

- Aqui o dinheiro. - Dinheiro e satisfação garantida.

- Vou vencer! - Aqui, mais, mais.

- Vou vencer pra você. - Eita!

Vamos!

Cara feia pra mim é fome.

Bora, Benigno, bota pra foder.

Ok?

Valendo!

Aí, seu frango!

Vai, homem!

Vai, Inox!

Força!

Vai, bonito!

- De quem é esse? - Pra você.

Triste, triste.

Dinheiro, é? Todo mundo estribado.

E aí, acharam o homem?

Inox fala que viu Kaleb.

É, Zolah, ontem à noite eu vi um homem de moto, de preto, na Alamoa.

E depois ele saiu voando.

Zolah, se não for ele, eu xoxe, velho!

Vocês tão vendo coisa demais!

E bebendo demais também, né?

Inox, tu escute:

você, pra mim,

- é problema seu. - Oxente.

- Cangulo, feche a conta dele. - Não, meu pirralho.

Fecha a conta de todo mundo, que hoje à noite tem espetáculo.

- Que fofo! - Pode espalhar pra todo mundo nessa ilha.

Hoje vai ter função!

Procurando alguém?

E aí, Pedro? Acharam o Kaleb?

Achamos nada.

Batemos essa ilha todinha, e nem sinal dele.

Estranho, né?

Pessoal da ilha tá até dizendo que ele virou assombração e tudo.

Ai, liga não. Daqui a pouco vocês encontram ele.

É.

Mas que é estranho, é. Né?

A única coisa que achamos dele foram esses óculos aqui.

Tu fica bem com eles.

Eu tô usando porque vai que o danado lembra e volta pra buscar.

Vamos descer?

Por quê?

Vamos mergulhar!

Oxe!

Mas nem se chovesse canivete na ilha, eu ia.

- Vou não. - É de graça pra você.

- Nem se tu me pagar. - Meu irmão.

Oi, oi.

Cuidado aí.

Tu não perdesse esse medo ainda não, Pedro?

Senhoras e senhores, com vocês,

a pontaria infalível do grande Gaetan!

Allez!

Allez!

Uma dança.

Mademoiselle.

Dá porrada nesse francês, porra!

Me dê duas.

Duas cervejinhas, por favor.

Vamos dançar, Pedro?

Vamos.

E aí?

Vou tomar uma cerveja.

Tu visse?

O quê?

Rapaz! O francês tá pegando, é?

- Tu é dessa ilha? - Tu tá na pilha.

- Tá de que lado? - Ela tava aqui.

Tava aqui porque é nossa amiga, não?

- Amiga? Ele tá comendo. - Cala a boca!

Tá comendo. Tem que bater nesse francês.

Você tá comendo, todo mundo come ela?

Eu já comi, mas agora é a vez dele,

esse francês tem vez aqui, não.

- É brother, amigo de infância. - Brother uma porra.

- De infância é Zolah. - Hã?

Se aquiete aí, porque o que não falta na ilha é homem.

- Dá uma porrada… - É a figura de quê?

Peraí, porra!

- Eu lhe quebro! - Acabou!

Eu lhe quebro a sua cara!

- Eu lhe quebro a cara! - Ei, ei!

Haule! É isso que tu é! Haule!

Já acabou, já acabou.

Vale nada!

Merda!

Besteira, viu?

Benigno não precisava ter esquentado tanto, né?

Jandira só tava dançando com o cara.

Tu sabe que, nessa ilha, quando é mabuia, todo mundo acha que tem razão.

Ainda mais aquele ali, que só briga por mulher ou pelo Sport.

Mas não necessitava de ter pegado ar, não.

Vem cá, sereia.

Pra onde?

Vem cá, vem.

Tu tava tão bonita dançando hoje…

Vamos pra cama.

Tu já escovasse o dente?

Hoje não, amor.

Amor…

Por que não, hein?

Porque não! Parece criança, não sabe ouvir!

Desculpa…

Boa noite.

Raquel.

Te amo, visse?

Também te amo.

Primeiro você vê a imagem.

Depois, vem o estrondo.

- Não dá? - Igual a uma leoa.

Aí eu vou e dou!

- Ah, tá… - Né bom?

- Tá bom, eu quero mel. - Então fica aí.

Lá vai, te concentra.

Eu tô me concentrando.

Pra pegar o mel nas flores, né?

Oxente, parece uma vaca!

- Ô, Cuscuz. - Oi!

Eu não falei, quando eu bater minhas asas, tchim-tchim-tchim…

- Sim! - …tu vai dizer "abelhinha,

me dá mel na boquinha"?

Esqueci!

- Leseira! - Faz de novo, vai.

Vai!

- Agora eu vou. - Concentra!

- Tô concentrado, mais que nunca. - Agora ele vai ver.

Agora ele vai ver.

Cuscuz! Eu não combinei

que quando eu bater as minhas asas,

você dizer: "Abelhinha, abelhinha, me dá mel na boquinha"?

Som…

e luz.

Bom dia.

Desculpa. Bom dia.

Tu sois o Homem-Bala agora, né?

Tu vai querer mergulhar?

Mergulhar, não.

Quero falar com Raquel. Ela está?

Tá, sim.

E tu poderia chamar ela? Diz que eu tô aqui.

- Claro, só um minutinho. Não sai daí. - Tá certo.

Ela mandou dizer que tá ocupada, pediu desculpa

e falou que depois te procura.

Tá certo.

Olha só, como é mesmo teu nome?

Tu não lembra? Jandira, a seu dispor.

É, Jandira…

Jandira, diz pra Raquel

que eu tô esperando ela no circo hoje, tem espetáculo.

Eu dou o recado.

E se tu quiser ir, pode ir.

Vou deixar dois ingressos na bilheteria.

Eu vou, vou com certeza. Sou tua fã.

Olha, pra mim, tu sois um artista de verdade.

Olha lá, Zidane!

- Vai lá. Atrás! - Vai, Camarão!

Vai! É haule agora, boy!

Vai, menino!

Enterra, vai! Vai!

Toma essa, Camarão!

Vai, Zolah! Vai!

É pênalti!

Os meninos tão com os nervos à flor da pele.

Né não? Ainda ontem, eles tavam quase de mão dada.

E agora só querem saber de se atracar.

É essa ilha.

Todo mundo pensa que ela tá parada,

mas ela não para de se mover.

Vai, Cangulo!

Vai lá, Ca… Racha!

Mandei parar!

Água?

Uhum.

E Raquel?

Deve estar mergulhando.

Fica na pilha pra atender cada maluco que chega aqui querendo mergulhar.

Vôti!

É turista que não acaba mais.

Passa mais tempo dentro d'água do que fora dela, né?

Qualquer dia, ela vira peixe de vez.

Ou então, vira sereia.

Não é?

E aí, palhaço?

- Vai pro hospital? - Tá foda.

Menos, Cuscuz

Foi só um machucadinho de nada.

Nossa! Esse bicho é mole que só a gota!

Zolah, quem vai fechar o espetáculo hoje?

Tu.

Eu? Tá bom.

A sensualidade arrebatadora da pérola do Caribe.

Teorema!

Oxe.

Tu não era pra estar no circo?

Hoje meu número foi o primeiro.

O que tu viesse fazer aqui?

Sei lá.

Queria lhe ver.

Tava de bobeira por aí…

Ontem eu fui lá na loja, achei até que tu ia no circo com Jandira.

Posso entrar?

Melhor não, né? Tá meio tarde, Cangulo deve tá chegando.

Ué! O que tem isso?

Tem problema? A gente não é irmão?

Eita, porra!

♪ Que amar é gostoso demais ♪

♪ Vem, quem dança, balança Que a alma não cansa, cai e se levanta ♪

Quais os métodos que o senhor utiliza para prender delinquentes?

Ah, bom. Isso varia para cada tipo de delinquente.

Ei.

Pedro.

Tu já parasse pra pensar o que seria da nossa vida

se você não tivesse ido embora da ilha?

Tu e eu?

Se eu não tivesse ido embora daqui, embora com o circo?

Não sei…

Você acha que a nossa vida ia mudar tanto assim?

Certamente tu não seria o Homem-Bala.

Uma estrela do circo, o homem mais famoso do mundo, mais querido,

mais amado, cheio de amigos…

Não teria viajado o mundo todo,

não teria conhecido tanta gente interessante…

Não teria ido, sei lá…

Pra Melbourne?

- Melbourne? - É!

Num seria esse…

esse cara sem compromisso com nada, sem destino…

sozinho…

E eu não seria mergulhadora.

É…

É, não ia tá nesse mundo aí dos peixes, né?

Tubarão, arraia, golfinho…

Mergulhada no mundo,

no teu mundo particular,

aquático.

Silencioso, né?

É.

Onde ninguém te vê, e tu não escuta ninguém.

Isso é metal, metal de fusquinha também.

Mas isso aí é sou eu que faço na ilha. É minha assinatura, ninguém faz isso.

- É mesmo, é? - É.

E esse cangulinho aí custa quanto?

Rapaz, pra tu, que é meu brother,

só porque tu é meu brother,

- vinte conto. - Sou seu brother, é?

E né não?

Sei não, 20 conto…

Faz o seguinte:

fica com isso aí, irmão. Depois a gente acerta.

Bom, vou nessa, minha mulher tá me esperando. A gente se vê aí.

A gente se vê, com certeza.

Rapaz, que moleque talentoso, olha que jeitoso!

Cangulinho lindo.

Eu acho que eu seria,

sei lá, dono de supermercado, pousada.

Ou então ficaria plantando pimenta.

Pimenta?

É, qualquer coisa que fosse bem longe do mar.

Não sei…

Cangulo?

- Tudo joia? - Tudo bem.

Tudo joia?

Isso acontece.

- Tá passando mal, meu filho? - Não, não.

Desculpe. Já vi esta cara, não sei aonde.

Teorema deu um show fuderoso hoje lá no circo.

Foi mesmo?

Cubana danada!

Os menino tão tudo cercando ela lá no bar.

Tu não vai lá hoje, não?

Vou nada!

Todo mundo vai lá só pra encher a lata e falar mal da vida dos outros.

Pronto.

Tá bebendo não, é, Quel?

Se deixar a porta aberta outra vez, eu te mato!

Que é que há?

Terminou?

Beije direito!

Ai! Porra, Cangulo!

Cacete!

Foi mal aí!

Oxe…

Vou nessa aí.

A gente se esbarra.

A gente se vê.

Tchau, Raquel.

Tchau.

Vai mais pra lá.

Vai!

Trouxe um peixinho aí, pra gente jantar.

Tá tarde pra jantar, né? Eu já comi.

Deixe isso aí, sereia. Vamo pra cama.

Pra cama… porra!

E aí?

Cangulo!

Traz outra aí!

Cachaça, Zolah?

E apois! Cachaça! Aproveita e traz pra todo mundo, que hoje eu pago.

Esse é meu pirralho! Eita!

Aproveitar a ocasião aqui pra fazer um brinde, né?

Ao meu amigo de infância, Cangulo!

O caba mais sortudo dessa ilha!

- Saúde! - Saúde!

Saúde.

Deixa a garrafa aí.

Certo?

Hey!

Tire essa mão daí, macho!

- Tire a mão daí! - Não, não!

- Um segundinho. - É aqui, né?

Uma anestesia, que senão, não dá.

Anestesiou? É aqui? Dói aqui?

- Dói… - Então respire, que vai doer mais.

Isso foi nada. Foi um pequeno acidente de percurso.

Eu mesmo já presenciei um no Circo Nerino, igualzinho.

Não passa nada, isso aqui. Agora, vamo comemorar, não foi nada.

Me dê também, que eu quero comemorar também.

E tu merece!

Devagar.

Dança, vem.

Melhor você.

Eu não sei muito, não.

Não sabe dançar?

- Então, vamos ali. - Ali aonde?

Nas pedras.

Vamos.

O que aconteceu com a Bala-Humana?

A maresia.

A maresia é foda.

Atrapalha pra caralho.

Eu não disse que tu ia voltar?

A certeza plena

é o maior ato de covardia.

Só o risco e a dúvida me colocam em movimento.

Fiz um bolo pra você.

Sabia que todo ano, no dia do seu aniversário,

eu fazia um bolo

e me sentava aqui mais Raquel,

a gente ficava

comendo bolo, apagando a vela,

pensando onde que tu estarias

naquele momento,

largado por esse mundo de meu Deus.

Tu gosta mesmo desse bolinho.

Desde pequenininho.

Tudo comia tanto, tanto bolinho de tubalhau, que passava mal.

Mas tu nem ligava, e dizia:

"Comer carne de tubarão vai me deixar forte pro resto da vida!"

Não é que deixou mesmo?

Rosa…

Vai me chamar de mainha, não?

Era assim que tu me chamava antes.

Por que tu me deixasse ir com o Kaleb?

Tu era grande demais pra essa ilha, meu filho.

Não era só eu que achava isso.

Todo mundo achava.

E Raquel?

O que tem Raquel?

Por que tu não desse ela também pra alguém?

Ela é mulher.

E tu sabe que nessa ilha mulher faz falta.

Raquel também não ia aguentar essa vida.

Raquel é diferente.

Tu sempre foi assim…

despachado…

conversava com todo mundo, tá sempre no meio do povo…

Raquel tem um mundinho só dela.

Por isso que ela vive embaixo d'água.

Eu não ia aguentar, meu filho.

Quando tu foi embora.

Eu perdi metade de mim.

Eu não ia aguentar perder tudo de uma vez só.

Pode deixar.

Foi o Kaleb que me mandou as foto.

Eu fiz ele me prometer, antes de ele te levar pra longe de mim.

Foi um jeito que eu arranjei de ficar mais perto de tu esses anos todos.

Filho, se tu quiser ficar aqui…

o quarto ainda é teu,

tá do jeitinho que você deixou.

Pedro…

eu queria que tu soubesse que eu lhe amo, visse?

Meu nome agora é Zolah.

Pula, Pedro.

Venha, Pedro. Pula!

Eu tô aqui, pode pular.

Pedro, olha pra mim. Respira.

Bota o regulador aqui.

Bota o regulador.

Agora, olha pra baixo.

Ei, calma.

Eu tô do teu lado, e lá embaixo é muito mais tranquilo.

Confia em mim, vamos descer.

Tá feliz é?

É muito…

Só tenho uma coisa a lhe dizer.

Muito obrigado.

Muito obrigado.

Muito obrigado.

Obrigado por quê, rapaz? O mar tá aí pra todo mundo!

Você me mostrou teu mundo.

Obrigado mesmo.

Vai no circo hoje?

Eu vou ver.

Vai, sim. Promete que vai.

- Eu vou ver. - Não, não. Tu vai.

Agora eu tenho que ir, tá?

Ir aonde?

- Vai voltar? - Pro mar!

Vou…

Tu é danada, hein!

Você se cuide, viu? Que terra é muito perigoso!

Vai.

Hey!

Tá na hora de ir embora daqui dessa ilha, Zolah.

Acha que não estou vendo o que tá acontecendo aqui?

Tá certo não, Zolah. Não tá.

Você nessa ilha.

Eu sei muito bem o que acontece numa ilha.

Eu vim de uma ilha, você já esqueceu?

Olhe, Teorema,

o público vai voltar pro circo.

Pode ter certeza.

Eu conheço esse povo, eu sou daqui.

Eu te peço mais uma vez.

Vamos…

Vamos voltar pro continente, por favor.

Vai, tá na tua hora.

E aí, Cangulo? Tudo em paz?

Tô invisível.

Eu nunca errei.

Eu nunca… nunca errei uma faca.

Tu tem certeza que não foi tão sério assim, Inox?

Teorema? Teorema tá bem! Teve sorte, não pegou nenhum

órgão importante, nenhuma veia.

Ela tá bem.

Eu vou enlouquecer nessa ilha.

Eu vou enlouquecer aqui, tô falando sério.

Isso que aconteceu foi um aviso.

Primeiro foi Kaleb que sumiu, e agora Teorema? Gente…

A gente tem que se ligar!

Amanhã mesmo vou falar com Zolah, quero saber quando chega

essa merda desse barco pra buscar a gente!

Acho que deu minha hora, visse? Eu vou.

Nunca errei.

Nunca errei uma faca.

Por que tu voltasse?

Ó, infame distância.

Que insiste em me aproximar de você.

Há milhões e milhões de anos atrás,

durante o período quaternário

da era geológica,

quando a terra era pangeia

e o mar era de Tétis,

esta ilha não era uma ilha ainda,

era um vulcão.

O magma incandescente

exprimido das profundezas da terra

criou uma grande erupção…

e sedimentou!

Esta formação em sua área,

encravada aqui,

na vastidão

do Atlântico Sul.

Nesta ilha vivia então

um casal de gigantes.

E eles copulavam continuamente.

Zeus,

deus que rege a todos,

não se conformava

e resolveu impor um castigo terrível

aos dois fornicadores.

Transformou-os em pedra.

Ela…

teve os seios expostos

à flor d'água.

E ele…

o falo petrificado,

colocado ali no mais alto morro da ilha…

apontando para o firmamento.

Mas prestem atenção.

Nem os deuses mais poderosos

conseguem impedir…

o que está a acontecer.

Agora, crianças, podem se divertir.

- Bora! - Bora!

Espera!

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