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Faço 30 anos daqui a um mês.
Licenciado, um emprego invejável... Em casa, está tudo bem.
Em que estás a pensar?
Na cara que vão fazer.
Estás com ela há três anos.
Achaste que era a mulher da tua vida e foste viver com ela.
Depois, passou aquela fase inicial, que, mais cedo ou mais tarde, passa.
Não é bonito pensar assim, mas começaste a fartar-te.
Sentiste que começava a faltar alguma coisa...
... mas o quê?
Desculpem...
... temos uma coisa para vos dizer.
O que começou a faltar-te?
Vamos ter um bebé.
Meu Deus, querida...
Querida, mas isso é fantástico!
Que fazemos com estas caras de parvos...
Vamos festejar!
O meu coração está a bater tão depressa...
Vamos brindar!
Esperem um momento. Não digam nada sem mim!
- Eu já tinha percebido. - Sim?
Vai ser uma experiência maravilhosa.
Carlo, esta é a primeira grande reviravolta da tua vida.
Sim, eu sei...
E tu, pai, não dizes nada?
Preciso de tempo para assimilar.
Está bem, mas diz-me ao menos se estás contente.
Estou feliz se tu estiveres.
Estou muito feliz.
Estou mesmo muito feliz.
Ela está muito feliz.
Então, também estou contente.
E agora? Vão casar-se?
Ainda não sabemos.
- Como assim, não sabem? - Ainda estamos a pensar nisso.
Já vivemos juntos. O que mudava com o casamento?
O casamento é uma forma de proteger o vosso filho...
Mas separaram-se quando eu tinha três anos e criaram-me bem, não foi?
Só encontrei uma garrafa de espumante que não está bem fresca...
... mas não faz mal, pois não?
Toma, querido, abre tu. Sempre fui um desastre...
sobretudo nestas ocasiões...
- À vossa! - E a nós, que vamos ser avós!
Como assim, avós?
Também vou ser avó?
Meu Deus...
Meu Deus, não tinha pensado nisso...
O ÚLTIMO BEIJO
A tua prima nunca recuperou a forma que tinha.
Mas ela tem um corpo diferente do teu.
E a Silvia?
A Silvia já tem dois filhos e também tem outro corpo.
Ficou um barril.
Amor, teve o bebé há menos de um mês.
Li que só cinco em cada dez mulheres recuperam a forma depois do parto.
E se ficar um barril e deixares de gostar de mim?
Vou gostar sempre de ti.
- Tens a certeza? - Claro!
Com quilos de celulite e inseguranças...
... e um rabo feito um balão, vou gostar sempre de ti.
És tão bonito, meu amor!
O que fiz para merecer isto...
Estou a ficar feia.
- Percebeste o que disse? - Sim.
Desligas a TV quando estou a falar contigo?
Porquê?
Porque nunca conversamos.
Não vamos recomeçar esta noite.
Esta noite aconteceu uma coisa terrível.
Tive inveja da minha filha porque...
... porque ainda tem a vida inteira pela frente...
... porque o homem dela ainda olha para ela daquela maneira...
... porque ainda está longe de tudo se tornar uma rotina...
... e tu, que sabes?
Tu, que estás sempre mal-humorado desde que te conheço, o que achas?
És monótona e repetitiva.
- Aprendi contigo. - Sou assim com quem não me estimula.
Logo tu vens falar-me de estímulo?
Tu, que já nem olhas para mim...
Desisti de procurar alguma coisa bonita para ver.
Meu Deus, sou tão infeliz!
Sou tão infeliz!
Os problemas começam quando chegarem a casa os três.
Tu, ela e o bebé.
Ela fica histérica e tu sentes-te um idiota...
... pelo que não lhe deres.
E são milhões de coisas que, de repente, vai esperar de ti.
Vai acusar-te de seres irresponsável,
de não teres instinto paternal...
Lembra-te da reunião desta tarde.
- Temos de os arrasar! - Sim!
Idiota!
Não penses, nem por um instante, que vai ser um passeio,
porque não vai ser.
- Percebeste? - Sim.
- Quero experimentar separar-me dele. - Já te ouvi dizer isso muitas vezes.
Há uma vida que acordo com ele, durmo com ele, vivo com ele...
... insulto-o, volto a dormir com ele...
Quero apagar tudo.
Agora sinto que sou capaz.
Chora e acordas a cada duas horas,
dás-lhe de mamar, mudas a fralda e volta a dormir.
E embalas quanto tempo?
Entre dez e 40 minutos.
Se tiver gases, pode demorar uma hora.
Mal o consegues adormecer...
volta a ter fome e começa tudo de novo.
É assim que as coisas são.
Não te digo isto para te assustar,
daqui a seis meses, vais envelhecer de repente.
Se te perguntas se há forma de escapar a isto,
a resposta é não.
Não há escapatória...
... a não ser fugir.
O Dale mandou-nos uma mensagem.
Vem a Itália em maio. Podemos recebê-lo e ao Christopher...
durante duas semanas.
Em maio, temos o bebé.
Pois, estou a responder-lhe que não temos espaço.
Já vou.
Vais demorar?
Não volto muito tarde...
Amor, é pelo Marco, que vai casar-se...
Diz lá se não é uma ocasião especial...
- Até logo, amor. - Até logo.
É para mim!
Que idade tem?
Mais ou menos a nossa.
- Separaram-se há muito tempo? - Há uns seis meses.
Ela tem outro?
Ainda não. Teve um caso, mas já acabou.
Agora anda à procura de alguém para namorar.
E quem é que não anda à procura de alguém para namorar?
Quem está apaixonado.
Esses já estão bem...
À nossa!
Ao que fomos e ao que seremos!
E ao que não seremos!
Ao que não seremos!
E àquela puta! Que pague por tudo!
E a todas as cabras que nos puseram os cornos...
... e às que ainda nos vão pôr!
Vai levar no cu!
E ao teu casamento!
Que é uma grande merda!
Cala-te. Tens um filho de seis meses, não podes falar!
Se tivesses tomates, não te casavas!
E se a Arianna voltasse e te pedisse em casamento?
- o que fazias? - Não me casava.
Muito bem!
Mandava-a ir levar no cu!
Michele?
Estamos aqui, chegámos. Desculpem o atraso.
- Estava só a habituar-me. - Sempre conseguiste trazê-la!
Então, és a famosa...
Sim, a famosa... Anna.
Prazer. Michele.
Ela já sabe tudo de ti. Contei-lhe tudo.
Fantástico.
Assim, se te fores embora enquanto falo, já sei porquê...
Vou cumprimentar uma pessoa.
Até já.
Mas o que é isto?
É mesmo isso.
Vocês são loucos, são...
Para eles, o objetivo do artista contemporâneo...
era romper com o passado...
e mergulhar por completo no mundo contemporâneo.
Por isso eram vivos, exuberantes...
e estavam em constante evolução.
Nasci no meio de quadros.
- O meu pai era um crítico de arte famoso. - A sério?
- Como vão as coisas com o teu marido? - O quê?
O casco está impecável. É o que importa.
Só precisa de uns arranjos. Sabes o que aquilo é?
É um Wing 69. Corta o mar como uma espada.
Fazes a costa grega até Istambul.
Depois vais para onde quiseres.
O que importa é não ter pressa. E eu não tenho.
Não é também do teu tio?
O meu tio nunca quis saber da porra do barco.
Se lho pedir, dá-mo.
Vamos, caralho! Vamos juntos!
Não, tu estás louco...
Entre o céu e o mar, sem mais nada,
diz-me quem é louco. Eu ou tu?
Não quero passar o resto da vida no mesmo sítio.
Nem eu.
Ninguém quer, rapazes.
Esperem por mim!
Então, mudaste de casa?
Comprei um sofá e pu-lo no escritório do meu pai.
Por enquanto, estou lá.
Sentes-te bem lá?
Estou lá...
Mas uma separação depois de 18 anos de casamento não é fácil para ninguém.
Imagino.
Queres ir beber alguma coisa a minha casa?
É aqui perto.
Bebemos qualquer coisa, conversamos...
Se quiseres ir...
- Sim, mas já bebi muito... - Anda, vamos...
E o que faço com a Luisa?
Diz-lhe que te levo a casa...
Tens a vida toda para a ver. Mas nós...
... sabe-se lá quando nos voltamos a encontrar...
Que mal tem?
Somos Touro e Peixes.
A união perfeita...
Para encontrar o sentido da vida, é preciso fugir, voltar...
... mudar, comer uma mulher por noite, experimentar tudo até ao último suspiro.
Mas que raio ainda estamos aqui a fazer...
Já decidi partir. Já andava a pensar.
- Dizes isso há dez anos, caralho. - Desta vez, é a sério.
Despedi-me. Já lá não vou há duas semanas.
Foda-se!
3, 2, 1, já!
É demais!
Não sei se consigo...
É uma das últimas peças que me restam...
da coleção do meu pai.
Preparei-te outro gin tónico.
Estou com a cabeça à roda.
Só um golinho...
Porque olhas assim para mim?
És uma mulher fascinante, Anna.
És muito bonita.
Espera!
Tenho um pouco de cocaína...
Só um bocadinho.
Nunca experimentei.
Nem eu. Quer dizer, só uma vez.
Encontrei-a no quarto do meu filho.
Disse-lhe que, se encontrasse uma coisa destas,
o punha fora de casa.
E acabei eu posto fora de casa.
A vida é assim.
Anda, senta-te aqui ao pé de mim.
O que diria a minha mulher se me visse aqui contigo?
- O que diria? - Porque não tentas relaxar um pouco?
Sou um homem infeliz, Anna.
Sou muito infeliz e solitário.
Perdi a minha mulher e não consigo esquecê-la.
O que devo fazer?
Podes dizer-me o que devo fazer?
Ouve, acho que não devias estar aqui comigo.
Acho que nem tu queres.
Acompanhas-me a casa?
Queres ir embora?
Se não quiseres, chamo um táxi.
Não...
Não queres cocaína?
Não, nada de cocaína.
Estou a cometer um erro. Foda-se, estou a ver!
Está tudo controlado. Calma!
Tem coragem! Salta, não penses nisso!
Pensa em ti, velho e de pantufas, um merdas do caralho,
concentra-te nisso e salta!
Pronto. Tens de ficar furioso!
- Estás furioso? - Não!
- Tens de te enervar! Estás furioso? - Não!
3, 2, 1, já!
Ainda estás vivo?
Que horas são?
Três.
Divertiste-te?
Porque já não gostas de mim?
Não te divertiste.
Tenho a honra de ser o primeiro a brindar ao meu filho e à sua linda mulher.
Sejam felizes!
Discurso! Discurso!
Bem...
- Estou muito emocionado... - Muito bem!
E...
... antes de mais, obrigado por terem vindo.
E depois, queria dedicar este dia à mulher com quem quis casar...
desde a primeira vez que a vi,
antes sequer de saber o seu nome.
Admito que conquistá-la não foi nada fácil,
achava-me pouco de confiança e superficial...
E tinha razão.
... mas, pelo contrário...
Mas só posso dizer uma coisa.
Ela nunca vai achar que tinha razão.
- Nunca mais, em toda a vida. - Muito bem, Marco!
É um grande homem!
Beija-a! Beija-a!
- Aonde vais? - Volto já.
Não, amorzinho, o papá volta já.
- Olha! - Que linda menina! Como se chama?
Matteo. É um rapazinho.
- O que lhe dizemos? - Qualquer coisa...
Alberto!
- Olá, como estás? - Bem.
- Já não nos víamos há imenso tempo. - Há algum.
- Que estranho encontrarmo-nos aqui. - Pois. Ia com eles para...
- Ainda há pouco pensei em ti. - A sério?
Sim. Devo ter o teu número apontado algures.
Podíamos encontrar-nos uma noite destas.
- Até breve. - Até logo, então.
- Sim. - Ligo-te, está bem?
Certo.
- Adeus. - Adeus.
Não me lembro de onde a conheço, caralho.
Lindo.
Fui para a cama com ele uma noite em que estávamos completamente bêbedos...
Cheguei a casa e vomitei até a alma.
Mas voltava a fodê-lo se tivesse outra oportunidade.
E de que maneira.
Arianna?
Podemos falar um minuto?
- Chega? - Sim, obrigada.
Sabes que não lhe faz bem ver-te.
Com esta gente toda, nem dá por mim.
Que merda querem? Porque tenho de continuar a esconder-me?
- Não é esconderes-te. - É o que me pedem.
Era para ires só à igreja.
- Mudei de ideias. - Ele está mal.
Já estava mal antes de mim.
- Mas não tanto. - Vai-te embora, por favor.
Sabes o que me estás a pedir?
Olha, ele viu-nos.
Os teus amigos estão muito preocupados contigo.
Estão quase a expulsar-me.
Combinámos que não vinhas.
Convidaram-me e mudei de ideias, porra.
Qual é o problema?
O problema é teu, que já não me consegues ver, Paolo.
- Larga-me. - Paolo!
Ouve, preciso de pôr a minha vida em ordem.
Sem deixar de te ver, não consigo. Peço muito?
Muito.
Porque és tão cabra?
Queres que me mate por ti? É isso?
- Tem calma. - Queres ver-me morto?
Não devias ter vindo, Arianna.
Também era melhor não terem vindo.
Porque não o levam daqui?
Odeias-me, não é? Odeias-me.
Não te odeio.
Lamento ter-te conhecido.
Sabes porquê? Porque estás cada vez mais insuportável.
Estás a destruir o carinho que ainda restava entre nós.
Acabou, Paolo.
Finge que nunca me conheceste e recomeça a tua vida.
- Calma, Paolo! - Paolo!
- Estou calmo! Larguem-me! - Paolo!
Estás a fazer uma figura triste! Para!
Para.
Vamos sentar-nos.
Tenho de esquecer esta puta, caralho!
Estou melhor assim.
Isso mesmo, muito bem.
Beija-a! Beija-a!
Estão a rir-se...
Quero ver-te daqui a dois anos, está bem?
Não, rapazinho, fica quieto...
Estava ali tão bem. Olha a cara de assustado!
Querido, anda à mamã, anda!
Meu amor, o papá assustou-te?
- O que fiz eu? - A culpa é sempre tua!
Nunca me ouves! Ele estava ali bem!
- Vou contigo! - Sim, claro.
Quanto tempo mais a vou aguentar?
Quanto tempo?
É egoísta, só pensa nele. Tem todos os defeitos do meu pai!
E eu nunca me dei bem com o meu pai...
Também deve ser difícil para ele...
É difícil para todos, Giulia, mas já não somos crianças.
Está na altura de assumir as suas responsabilidades.
E custa tão pouco cuidar desta coisa linda...
Olha para ele!
Quando se sente protegido, descontrai-se, relaxa...
Não é, amor?
Deve ser uma experiência extraordinária.
É a coisa mais bonita do mundo.
O que queres beber?
O quê?
Não sei, ainda não decidi.
Já nos vimos em algum lado?
Sem ser hoje?
Porquê?
Não, porque me parece que...
Acho que nunca nos vimos.
Não, tens razão.
- Chamo-me Francesca. - Carlo.
Já foste à cabana?
- Cabana? - Sim, a casa na árvore.
Não.
Queres ir?
Basta fazer força. Se fizeres bem, nasce mais depressa.
Além disso, há os cursos.
É melhor fazê-los, porque,
se fizeres força a mais, pode acontecer-te como à minha irmã...
que rebentou as veias da cara
e ficou uma semana roxa.
Meu Deus, que horror!
É aqui.
Não é o máximo?
Sim, é mesmo!
- Vamos subir? - Sim.
Anda!
Então, és amigo do noivo?
Sim, andámos juntos na universidade.
Ele, eu e outro rapaz, o Adriano.
Não sei se o conheces.
E tu, és de onde? De Florença?
De perto. Os meus pais mudaram-se para cá há três anos.
E eu vim com eles.
Não tive escolha. Não me deixavam ficar lá sozinha.
É giro, não é? Vemos toda a gente e ninguém nos vê.
Giro.
Posso perguntar-te uma coisa?
Tens alguém?
- Porquê? - Só para saber.
Sim, mais ou menos.
- Em crise? - Sim, em crise.
Está toda a gente em crise? Todos dizem isso. Porquê?
Quem sabe...
Mas as crises vão e vêm, não é?
- Sim. - E a tua está a ir ou a vir?
A minha está a vir.
Bem me parecia. E porquê?
Não sei.
Tem de haver um motivo...
Já não há a paixão que havia.
Então, é esse o motivo...
Sim, também.
Mas parece que é normal a paixão acabar ao fim de algum tempo.
Pois, mas não deixa de ser triste, não é?
Sim, muito.
- O que fazes? - Trabalho em publicidade.
A sério? Sabes que gostava de ser atriz?
Acabando a porcaria do secundário, vou para a escola de teatro.
- Que área? - Estudos clássicos.
- Mas que idade tens? - Dezoito.
- Dezoito? - Achavas-me mais nova?
- Não, um pouco mais velha. - Que idade me davas?
Não sei, não tinha pensado nisso.
E tu, que idade tens?
- Não, deixa lá isso... - Vinte e sete?
- Vinte e nove, quase 30. Custa-me. - Porquê?
Porque, quando tens 30, num instante chegas aos 40.
- E depois fazes o balanço da vida... - Desculpa...
Estou? Sim, já desço e vamos.
Vim de carro com três atrasadas...
que querem ir embora há duas horas.
Ouve, se quiseres, podíamos voltar a ver-nos.
O quê?
Sim, se quiseres...
Claro que quero.
Descemos? O que achas?
Sim, como quiseres.
Sou a única das minhas amigas que ainda não casou...
E dizem-me: "Tens 32 anos. Quando te casas?"...
... "Quando tens um filho? Se não te despachares..."
Que merda.
Estive dez anos com um tipo que não me deixava sair,
nem com as minhas amigas.
Finalmente acabou o sofrimento. Agora desfruto da minha liberdade.
Fazes bem.
- Faço, pois... - Chamo-me Alberto.
- Sabes onde estão? - Aqui.
Queres o meu número de telefone?
Quero.
Tens uma caneta?
- Não, não tenho. - Francesca!
Toma. Vai ter comigo à saída da escola. Ando no Ducale.
- No Ducale. - Saio à uma e meia,
menos quartas e sextas, que saio uma hora antes.
Está bem.
Fica combinado, então?
- Sim. - Fico à tua espera, está bem?
Sim.
- Até logo. - Até logo.
Parem! Parem aqui!
- Estão lindos! - Tu também!
- Viram o Carlo? - Não.
Se estiver com aquele cabrão, mato-a.
- Calma. - Juro que a mato!
- Já disse para teres calma. - Mato-a!
Acho que não te convém. Sou perigosa.
A sério?
Sim, há muitos homens que te podem contar.
- Isso não me assusta. - Não?
Não.
Não perdes tempo, pois não?
A culpa é tua, que és muito bonita.
Amor!
Ando à tua procura há uma hora. Onde estavas?
Estava aqui.
Amor...
Viste que lindo é o bebé do Adriano?
Imagina que, daqui a pouco, vamos ter um bebé assim.
Não estás emocionado?
Estou.
Amor, em que estás a pensar?
Pensas em ir atrás dela e dizer-lhe que foi muito bom conhecê-la.
Foi mesmo bom.
Meninos, olhem para aqui.
Mas depois lembras-te de que vais ser pai daqui a seis meses.
E não é bonito pensar nisso.
Finalmente. O pai perguntou por ti.
Está sempre a perguntar por ti.
Como está ele?
Vais arrepender-te do que estás a fazer.
- Não me vou arrepender! - Não levantes a voz.
Vai cumprimentá-lo. Vai.
Olá, pai.
É o Paolo.
Queres cumprimentá-lo?
Paolo...
Hoje perguntou-me se tinhas voltado à loja.
Diz-lhe que voltaste.
Fui lá, pai. Fui à loja.
Está tudo bem, pai. Não te preocupes com nada.
Ouviste, pai?
Que vergonha!
Estás a gozar connosco.
- Cala-te. - Porquê?
Porque decidi assim.
- Mas não era o que ele queria. - Por favor.
- Tem de haver um motivo. - Há um motivo. Há!
- Qual? - Quero sentir que a vida tem sentido.
Ao menos um sentido.
Mas o que sabes tu disso...
Porque estás a olhar para mim?
O que fazias se eu morresse?
Comprava um belo fato escuro.
Estou a falar a sério.
Sentias a minha falta ou arranjavas outra mulher, talvez mais nova,
que aceitasse melhor o teu silêncio?
Ias encontrar uma mulher tão chata como tu?
Temos de nos atormentar até durante o jantar?
Decidi deixar-te. E desta vez vou até ao fim.
- A sério? - Sim.
Não consegues sobreviver sem mim.
- Não? - Não.
E não é por seres frágil, como gostas de pensar.
Então, é porquê?
Vamos ouvir o professor.
Porque ainda gostas de mim.
Não estaria tão certo disso.
E é mesmo uma pena.
Vivias muito melhor se conseguisses reconhecê-lo.
De qualquer forma, já decidi.
A partir de agora, estamos separados.
- Percebeste? - Sim.
Então?
Não concordo.
Não me interessa se concordas.
É para mim.
Percebeste o que disse?
Não me interessa se concordas.
Estou?
Sou eu.
- O que queres? - Tem calma.
- Só queria pedir desculpa por hoje. - Não quero saber de nada.
- Posso ir aí? - Não.
Porquê? Quem está aí? Tens alguém?
- Sim. - O que estás a fazer?
- Por favor. - Diz-me!
Queres saber se acabei de fazer amor?
- Fizeste? - Sim.
Pronto. Estás a sentir-te melhor?
O que mais queres saber?
O que foi? Perdeste a voz?
Não.
Da próxima vez, pensa duas vezes antes de me ligares.
Pensas em mim quando fodem?
És louco!
Sim, estou a ficar louco!
Ouve, vou passar um tempo fora, até ficar melhor.
Desta vez, vou-me mesmo embora. Ouviste?
É uma boa ideia.
Achas que é uma boa ideia?
Assim é que não podes continuar, isso é certo.
Sim, posso continuar assim.
Outra coisa, Paolo. Não me ligues mais.
Mas onde é que eu errei?
Adriano?
Estás aí fechado há 20 minutos. Estás bem?
Adriano, ao menos responde-me.
Adriano?
Estou bem!
Então sai e vem dar-me uma ajuda!
Preciso de ti. O Matteo tem fome.
Sai daí e vem ajudar-me!
Adriano!
- O que faço? - O que achas?
Querido, anda à mamã, que te vai dar a papa.
E não voltes a pedir-me para te acompanhar...
a festas, casamentos, comunhões ou crismas.
Agora o miúdo não nos vai deixar dormir esta noite.
- Por acaso, és tu que o embalas? - Claro que sou.
Como? Se nem sequer o ouves!
Mas porque estou a falar? É como falar para uma parede!
Já desisti de ti como companheiro.
Ouviste?
Mas ele merece um pai melhor.
- A sério? - Sim! Merece melhor!
Sabes, Livia, tenho uma novidade.
- A sério? Qual? - Já não te amo, Livia.
Já não te amo. Aliás, de manhã,
quando acordo e te vejo na cama, fico angustiado!
Mudaste muito desde que ele nasceu.
- Já não te reconheço! - Nem eu te reconheço a ti!
Francamente, esperava melhor de ti!
- A sério? - Sim!
Muito bem! Ótimo!
- Vou sair. Não me procures! - Ninguém te procura! Vai!
Adriano, se saíres por aquela porta, morro de raiva! Ouviste?
Que grande novidade!
Adriano!
O teu pai é um idiota!
- Quem é? - Um vizinho!
Sai da frente!
Não digas nada!
- Que raio vieste cá fazer? - Não sei! Não sei!
Só vim dizer que os meses e os anos vão passar.
Talvez me odeies a vida inteira, mas talvez um dia mudes de ideias.
Vou estar à tua espera! Ouviste? Sempre à espera!
- Estás louco! - Não consigo viver sem ti!
- Não consigo! Amo-te! - Larga-a!
Amo-te.
Nunca te sentiste como eu me sinto agora, pois não?
Tens de passar por isto para perceber.
- Que merda fazes só de cuecas? - Paolo, vai-te embora.
- Queres que me vá embora? - Quero.
Está bem, vou-me embora.
Vou-me embora.
Vou-me embora!
Nesta fase, até as mulheres mais fortes
têm de lidar com as emoções,
ansiedades e preocupações,
que aos outros podem parecer exageradas.
Mas não guardem tudo para vocês.
Conversar com alguém
é uma boa forma de afastar os receios
ou, pelo menos, evitar que se tornem demasiado grandes.
Percebeste?
Sim. Está a dizer que deves deitar tudo cá para fora.
Amor...
... e se comprássemos uma casa para nós,
em vez de continuarmos a pagar renda?
O que achas?
Anda... Vem comigo... Anda!
Não te preocupes, está tudo bem.
- Quem é? - Alberto!
- Foda-se... - Sou eu!
Mas quem é?
Um amigo meu. Não te preocupes, está tudo bem...
- Alberto, abre! - Espera!
Ouve, assim não dá...
Vou ver que porra ele quer e já volto.
- Pronto? - E eu faço o quê?
Esperas por mim. Mando-o embora e volto.
Já vou, caralho! Já vou!
Acabou! Desta vez, acabou mesmo!
Já não a suporto!
Voltaram a discutir?
Está a correr-te bem no trabalho.
Se comprarmos casa, gastamos mais ou menos o que custa a renda.
O que achas?
O que acho...
Acho que me angustia um pouco pensar em coisas definitivas.
Mas estamos quase a formar uma família. Não é pouca coisa...
Nunca achei que não fosse importante.
Então, qual é o problema?
Já não fazemos amor há uns sete meses.
Uma vez até me enganei e lhe chamei mamã.
Foi terrível.
Se não fosse o miúdo, já se tinham separado.
Não, ter o miúdo é uma experiência maravilhosa.
Ela é que mudou.
Mas porque mudou?
Transformou-se numa daquelas mães insuportáveis.
- Mas porquê? - Não sei, porra!
Pronto.
Vou passar aí.
Estou?
- Alberto? - Quem é?
Olá, sou a Gemma.
Ouve esta.
Casa remodelada, soalho de madeira, 100 metros quadrados...
Zona da Cassia, duas casas de banho, jardim de 30 metros quadrados.
Até podíamos ter um cão.
Garagem, despensa, 900 milhões.
Meu Deus... É um pouco cara.
Vens buscar-me amanhã?
O que achas, amor?
Vens ou não vens?
- O quê? - O quê?
O que se passa?
Dá cá o charro.
- Olá. - Ela é a Gemma.
- Decidi ir-me embora. - Ora essa!
Não faças essa cara, que me enervas ainda mais.
Desta vez, estou a falar a sério.
E tu, aqui a esta hora, que caralho fizeste?
Sabes o que fizeste? Voltaste a discutir com a Livia.
Já não a suporto.
Ela é uma chata, sempre to disse. E tu és infeliz.
Não me digas que és feliz, que me desmancho a rir.
Não és feliz nem por sombras, pá!
E tens muitos motivos para largar tudo e vir comigo!
- E tu também vens! - Para onde?
Mas já olhaste bem para ti?
Querias trabalhar na Greenpeace. Acabaste a piratear CD...
e a foder uma por noite,
e há dez anos que dizes que, apesar de tudo, ainda te falta algo.
O que esperas encontrar se continuares assim?
Chegar aos 50 frustrado e patético,
com a vida vazia e só uma madeixa de cabelo?
Vem comigo e não chateies.
Não fodo uma diferente por noite...
É verdade, querida.
Mais vale saberes certas coisas já.
Dizes isso só para me embaraçar.
Pouco me importa. Eu faço o mesmo.
Ótimo, estão quites. Tanto melhor.
O que foi?
Sei que digo isto há anos,
mas estou a ficar louco.
Já não aguento mais.
Se continuar aqui, dou em doido.
Ou vamos agora, ou nunca mais vamos.
Já não temos 20 anos, mas, graças a Deus, ainda não temos 40.
Porque aos 40 a vida acabou, como sempre dissemos.
Preciso de me libertar da angústia da doença do meu pai,
tenho de esquecer aquela puta
e quero passar um tempo longe daqui.
É só isso. Que porra tem de mal?
O que estou a pedir? É pedir muito?
Só quero ir-me embora.
Vêm comigo?
Já pensaste em trair-me?
Precisas de pensar para responder?
Claro que não preciso de pensar...
Então?
Então, a resposta é não.
Porque não?
Porque estou apaixonado por ti.
E quando te sentires atraído por outra?
Mas porque haveria de me sentir atraído por outra?
Porque pode acontecer.
Pode acontecer-te a ti, talvez.
Sim, mas sei que não vai acontecer.
Porquê?
Porque sou mais forte do que tu.
Sempre fui e sempre serei.
E, se algum dia descobrir que me traíste, mato-te.
Percebeste?
Sim.
Podes dormir, amor. Tens os olhos vermelhos.
- Boa noite. - Boa noite.
Boa noite.
Conseguiste?
O Marco está perdido.
Tu estás no abismo. O Carlo ainda se pode salvar.
- Mas partimos quando? - O mais depressa possível.
- Vamos de barco para a Turquia. - Esperem!
Podemos fazer voluntariado em África,
abrir uma escola de mergulho na Polinésia
ou até voltar à Patagónia...
Fazemos algo. Tristes é que não vamos ficar.
Disseram que somos três idiotas.
Mais vale idiotas do que infelizes. Lembrem-se disso.
O segredo é não pensar muito.
Se pensares, ficas na dúvida e já não vais.
E chegas aos 60 uma cópia do teu pai.
Se pensares no que podias ter feito...
... merda...
e não fizeste,
ficas triste de morte, cospes na tua própria cara,
porque já vai ser tarde.
- De quanto precisamos? - Dez milhões, dois anos na Tanzânia.
Aqui, em cinco meses, acaba-se e estás fodido.
Lá longe, decidimos se voltamos ou continuamos.
Então, peço licença no trabalho?
Pede licença.
Aqui tens uma casa, uma mulher chata e um filho à tua espera.
Mas sabes que só tens uma coisa a fazer...
- Ir-me embora. - Ir-te embora!
Só temos de decidir.
- Vocês estão mortos por dentro! - Vai levar no cu!
Isso mesmo, vai levar no cu!
- Vai levar no cu! - Vai levar no cu!
- Vão todos levar no cu! Adeus! - Sim!
- Vai levar no cu! - Vamos conseguir!
Sozinha, não consigo separar-me dele.
Tenho de procurar o Eugenio.
- O Eugenio? - Sim.
- Já não o vês há uns dois anos... - Quase três.
Precisas de um caso novo, sem passado nem rancores.
Foi o caso mais importante que tive desde que casei.
- Mas foi o único. - Exatamente.
Se tenho de começar por algum lado, prefiro começar por aí.
Ainda sonho com ele de vez em quando.
Há de significar alguma coisa, não?
Bulgari, bom dia.
E como a diferença está na textura e não no sabor,
pensámos num slogan para toda a campanha.
Será a frase-chave. "Tão cremoso que se engole inteiro."
Tão cremoso que se engole inteiro...
Após dois meses de publicidade, revelamos que é o gelado Regina.
- Vai ser uma bomba! - Sim, uma bomba.
Olá, tio.
Finalmente. Por onde andaste?
Estou à tua espera há duas semanas.
Decidi que não volto.
Pensei muito e tomei uma decisão.
Já não quero continuar a trabalhar aqui.
Não há muito mais para explicar.
- Isto também é teu. - Eu sei.
Então, que disparate é esse?
Preciso de dar um rumo à minha vida.
Uns nascem para vender Cristos e Virgens...
... outros para dizer merda, como tu.
Andas a drogar-te?
Por favor...
Por favor, o quê?
E porquê esse ar de superioridade?
Vens aqui e tratas-me como se fosse um imbecil...
As coisas não são assim. Vais perceber isso.
Está bem.
O teu lugar é aqui, onde o teu pai te pôs.
- Tens de baixar a cabeça. - Não acho. Nem pensar.
É um dever. Estou a falar-te de um dever.
Está bem? É o nosso negócio. Tudo o que temos.
Para mim, não chega.
- Não te chega... - Não, não me chega.
Se o teu pai estivesse bem, não me falavas assim.
Se estivesse bem, dizia-lhe exatamente o mesmo.
- A sério? - Sim.
Então, diz-lhe.
Ele ainda consegue perceber, sabes?
Mas não lhe dizes. E sabes porquê?
Porque não tens tomates!
Por isso, vens aqui,
mas eu não posso fazer nada por ti.
Só posso pedir-te que penses.
Autorizas-me a voltar a pôr o nosso barco na água?
Quero arranjá-lo e partir.
Pago os arranjos do meu bolso.
Preciso dele por algum tempo. Quero ir para a Turquia.
Eu e o teu pai demos a vida para construir este negócio.
Sei navegar. Não tens de te preocupar com nada.
- Dás-me uma tristeza... - Tu é que me entristeces.
- A sério? - Sim, entristeces-me.
Então, não temos mais nada para conversar.
Aliás, faz-me um favor.
Quero que te vás embora, está bem?
Vai!
Vai.
Nada de barco, imagino.
O que tens para me dizer?
Eu, o Paolo e o Alberto tivemos uma ideia.
- Queria saber o que achas. - Sim.
Do que se trata?
Depois conto-te, quando voltares.
Mas quando voltas?
Não sei, desculpa.
Giulia?
Amor, daqui a meia hora...
... temos a ecografia.
Tinha-me esquecido por completo.
Mas lembrei-te ontem à noite...
Agora não me digas que não podes ir...
Diz-me que vens já. Sim ou não?
Sim, está bem.
- Fico à tua espera. Até já. - Até já.
- Olá. - Olá.
Ia a passar e vi-te.
Não vieste ver-me...
Não, mas vinha um dia destes. Juro.
- Mentiroso... - Juro.
Queres boleia?
Tenho de ir a um sítio, mas posso dar-te boleia.
Moro aqui mesmo perto.
- Eu levo-te. Entra. - É mesmo perto.
Eu levo-te, a sério.
Fico contente por te ver.
Eu também.
- Então, para onde vamos? - Sempre em frente e chegamos.
Está bem.
Como correu o casamento ontem? Divertiste-te?
Os casamentos sempre me deixaram muito triste.
Porquê?
Porque são a feira das boas intenções.
Grandes amores, paixões, sorrisos, juras eternas...
... dois anos depois, falam em tribunal por advogados.
Depende de quem encontras.
Para. É este portão.
Pronto, cheguei.
- Era mesmo perto. - Eu disse-te.
É terrível perder as ilusões.
Como nos apaixonamos se não acharmos, ao menos no início, que é para sempre?
- Não achas? - Sim.
- É o teu? - Sim, desculpa.
- Uma mensagem? - Sim.
AMOR, DESPACHA-TE
- Desculpa, tenho de ir. - Está bem.
Queres ir comigo a uma festa amanhã à noite?
Uma amiga minha faz 18 anos.
Se estiveres livre, podemos ir juntos. O que achas?
- O que acho? - O que achas?
Acho bem. Porque não?
- Vou dar-te os meus números. - Está bem.
O que fazias se eu estivesse no teu lugar?
Se me ligares amanhã a esta hora, combinamos.
- Não me deixes pendurada. - Não.
- Até logo. - Até logo.
Que caralho estou aqui a fazer...
- Já é muito tarde... - Estou aqui. Estou pronto.
- Vamos. - Vamos, vamos.
Aqui. Para aqui.
Quanto é?
Posso fazer-te uma pergunta?
Podes.
O nosso caso...
é só sexo ou gostas um bocadinho de mim?
Gosto um bocadinho de ti.
Eu sabia.
O professor Bonetti ainda dá aulas aqui?
Sim, está a dar aulas.
- Sabe quando sai? - Às três e meia.
Obrigada.
Francesca, vem comer! Já te chamei quatro vezes.
Francesca?
Há 90% de probabilidades de ser uma menina.
Noventa por cento.
Uma menina...
Meu Deus, amor...
Só tens de seguir o teu coração.
Na vida, não há táticas, estratégias nem contra-ataques...
No amor, só o destino dá as cartas.
- Mas é mesmo bonito? - Lindo.
Meu Deus, devo ter deixado o telemóvel ligado...
E agora? Atendo?
O quê?
Giulia...
Giulia?
Mãe, é uma menina! É linda! Está ótima!
É uma coisa fantástica!
É uma coisa fantástica!
É uma emoção fantástica!
Meu Deus, que emoção...
Vou ligar ao pai para lhe contar. Falamos depois. Adeus!
Pronto.
Era a minha filha.
- Diz que vai ter uma menina... - Estou contente por te ver.
Eu também.
Meu Deus, tantas emoções...
Não são demasiadas emoções todas juntas?
Agora que estou aqui e posso olhar-te nos olhos,
é como se nunca tivéssemos deixado de nos ver.
Nem sabes as vezes que pensei em ti.
E eu em ti...
É verdade?
Sabes que é.
Não sei. Diz outra vez.
- Sentiste mesmo a minha falta? - Sim.
- Sim, sim... - Amor, meu amor...
Meu Deus, estou tão feliz por te ver!
Porque desapareceste assim?
Não vamos falar disso, por favor.
Vamos falar precisamente disso.
- Porque desapareceste? - Tu sabes.
Quero que me digas.
Porque sempre achei que...
se deixássemos de nos ver,
conseguiria salvar o meu casamento.
- E conseguiste? - Não, não consegui. Não consegui mesmo.
Não.
Mas isso são águas passadas.
Agora, o que importa é que estou aqui.
Não achas?
Agora estou com outra mulher.
É uma coisa importante?
O que queres dizer com importante?
Amas essa mulher?
Estás apaixonado por ela?
Temos um filho.
- Sim? - Sim.
Fez um ano anteontem.
Vocês têm um filho...
que fez um ano anteontem...
E o que hei de dizer?
Vou ter uma netinha e...
tu tens um filho que fez um ano anteontem...
A vida tem destas coisas e muitas mais, não é?
É parecido contigo?
Como eu esperei por ti...
Nem me digas...
Esperei meses que me ligasses e me dissesses...
que tinhas tido coragem de o deixar. Meses.
Nem sabes quantas vezes tentei...
e não consegui...
Tu é que quiseste assim.
Mas... já não sentes nada por mim?
A minha vida mudou muito...
E porquê?
Porque não nos vemos há três anos?
Porque estás com outra? Porque tens um filho? Porquê?
Também.
Até eu faço perguntas idiotas, não é?
Estou a ser dramática, não estou?
Olha...
preciso de te dizer que,
se pudéssemos voltar atrás, ia contigo para qualquer lado.
Posso separar-me dele agora mesmo.
É verdade. Agora estou muito mais forte.
Agora é tarde.
Dizes isso porque agora se nota a nossa diferença de idades?
Que idade tem a tua mulher?
É uma miúda?
- Meteste-te com uma miúda, Eugenio? - Porque não tens calma?
Claro que tenho calma.
Tenho de ter calma. Claro que tenho de ter calma...
até porque esta situação se tornou trágica e incontrolável.
Até um dia destes.
Mas fica a saber que gostei de ti durante este tempo todo.
Também gostava de ti, Anna.
Voltavas a fazer amor comigo?
Anna...
Não, esquece.
Esquece esta pergunta.
Vou refazer a minha vida. Vais ver que vou conseguir.
Adeus, meu amor. Adeus.
Ouve bem. Aconteça o que acontecer, não te mexas.
- Vai doer muito? - Um bocadinho tem de doer.
Estás pronto?
- Sim. - Cá vai.
- Doeu assim tanto? - Foda-se...
Bom dia, minha senhora.
- O meu marido está aí com alguém? - Está.
Não interessa.
Não o pode incomodar agora...
Ainda sou mulher dele.
Faço o que quiser.
- Vai ficar furioso! - Que fique.
Cá estamos.
O que se passa?
Para ti, nada de importante, não é?
- Estou a trabalhar. - Estou a ver.
Sai e volta em 40 minutos, quando eu acabar...
Temos de falar.
Não pode ser daqui a 40 minutos...
- ou à noite, em casa, por favor? - Não.
É a minha mulher. Calma.
Preciso de te dizer uma coisinha agora, por favor!
Meu Deus, que medo...
- Estou a provocar uma reação! - Bebeste? Bebeste?
Se bebi? Esta noite, vou deixar-te, querido!
Ouviste o que disse? Deixo-te para sempre!
Está bem... Agora, rua! Sai!
Traí-te! Ouviste o que disse?
Traí-te!
Até logo e desculpe o incómodo.
Espera aí...
Que ímpeto! Pela primeira vez em 30 anos!
Que história é essa?
Foi há três anos.
Hoje voltei a vê-lo.
Se me pedisse para ir até ao fim do mundo,
tinha ido sem sequer passar por casa!
- Espero que não seja verdade! - Mas, para teu azar, é.
Que tal é a sensação?
É a vida real.
Então? Não respondes? Não consegues?
Odeias-me ou isto deixa-te indiferente, como sempre?
Estou aqui! Estás a ver-me? A ouvir-me?
Nunca fizeste nada para salvar o nosso casamento!
Não sei o que dizer!
Falamos esta noite!
Claro!
Tens sempre algo mais urgente...
- do que a tua vida privada, não é? - É!
Certo?
O que é certo, Emilio? O que é certo?
Nem agora sabes o que dizer.
Não há nada minimamente certo na nossa vida.
Durante este tempo todo, fizeste-me sentir tão sozinha!
Não levantes a voz!
Foi por isso que te traí!
- Não quero saber! - E também me deu prazer!
- Ao menos fez-me vir! - Cala-te!
Isto não é normal! Estás a ficar louca!
- Não, não é normal. - Não é normal! Estás louca!
Estou a tentar sentir-me viva.
Tu estás morto e nem dás por isso!
O que fazia? O que querias de mim?
A paixão da adolescência?
Ter um filho com um marido jovem, no nosso ninho de amor?
O que querias de mim?
Nós vivemos a nossa vida!
Não foi uma merda, como estás sempre a dizer.
Tenho muitas boas recordações!
- Sorte a tua! - Tu é que estás a deitar tudo a perder!
É isso que estás a fazer!
- O que fazes? Tem calma! - Quero partir tudo!
Precisas de depender de alguém,
para o acusares de te roubar a liberdade.
És um cato cheio de espinhos!
Sim!
Um cato cheio de espinhos!
Não sei que porra isso quer dizer,
mas é exatamente o que penso de ti!
- Muito bem! - Sim!
Também estamos de acordo nisso!
Estamos de acordo!
Onde é a saída?
Onde é a saída?
Estou?
Hoje separei-me do teu pai.
O que aconteceu?
Desta vez, é para sempre.
Vou para casa da Luisa.
Liga-me para o telemóvel, querida.
Liga-me quando quiseres.
Estou feliz por ti e pela menina na tua barriga.
Estou feliz e não tenho inveja de ti. Estou feliz. Estou feliz.
Luisa?
Mãe?
... e, de repente, o colchão começa a encher e tenta sufocar-me.
Para fugir, atiro-me da janela
e vejo-o a correr atrás de mim.
Corre, tenta apanhar-me.
Diz-me para parar, mas começo a voar e já não consigo parar.
Significa que quero voltar para ele e não consigo?
Ou que quero ir-me embora, mas tenho medo?
Atravessamos o deserto do Saara, caralho,
entramos no Chade, República Centro-Africana, Zaire,
Zâmbia, Botsuana e, pumba, Cidade do Cabo.
Lá, decidimos o que fazer.
Se voltamos ou embarcamos para a Austrália.
Da Cidade do Cabo a Sydney são 18 dias de mar. Não é muito.
E atravessar África leva quanto?
O tempo que demorar.
Podemos demorar três meses ou três anos.
- Claro. - Tens de começar a relaxar.
É a filosofia da viagem.
Sinto-me como quando...
saí de casa pela primeira vez.
Habituas-te depressa.
Esta é a tua última grande oportunidade de refazer a vida.
Anna...
Só depois da morte é tarde demais. Lembra-te disso.
Está bem.
Como os dinamarqueses em Míconos,
de Copenhaga até lá, de bicicleta.
África de bicicleta, porra?
Então, vamos de mota.
Uma boa mota de enduro são dez milhões de liras.
São 30 milhões para os três...
Metade dá para uma autocaravana 4x4,
que vai a todo o lado. Dormimos lá sem gastar um tostão.
Porra, é ela.
Sim.
Voltas tarde?
Não disseste que não te interessava a minha presença em casa?
Não sejas assim, Adriano. Preciso de voltar a ter alguma paz.
Quando voltas?
Compra leite, que acabou.
O Matteo tem fome daqui a meia hora.
Vou daqui a pouco.
Fico à tua espera, está bem?
Espera.
Adeus.
Onde vendem autocaravanas todo-o-terreno?
Amor! Amor! Anda!
Amor, não consigo continuar assim.
Precisamos de voltar a entender-nos, os dois.
Percebeste?
Percebeste?
Mas o que fizeste?
O que fiz?
Fizeste um piercing?
E então?
Quando? Estás completamente louco!
Porquê? Não gostas?
Tenho nojo, tenho.
Já viste o que fizeste?
Como podemos voltar a gostar um do outro?
Como, merda?
Pega no leite.
Se quiseres mesmo, nunca é tarde. Percebeste?
Se quisesses, podia ser melhor do que antes!
Tu é que já não queres.
E esse piercing é uma merda!
Pareces um idiota!
- Sabes uma coisa? - O quê?
Estou a pensar seriamente em ir-me embora.
Podias apresentar-me aos teus amigos, não?
Já quase podemos dizer que estamos juntos, não é?
Não sei se podemos dizer isso.
Porque não?
Porque tens tanto medo de criar raízes?
Sais com outras raparigas?
Não.
Não acredito que queiras mesmo ir-te embora.
Queres mesmo deixar-me?
Quero.
Porquê?
Porque já não somos felizes juntos.
Não vai ser fácil deixar o miúdo,
mas o meu lugar já não é aqui.
E acho que finalmente percebi isso.
O que mais queres que diga?
Estás a pensar em mim?
Vou voltar a trabalhar.
Recomeço do zero e alugo uma casa.
Mas já não tens idade para essas coisas.
Outra vez a idade!
Mãe, tens de pensar bem!
É o que estou a fazer!
A minha vida desfez-se em pedaços. O mal está feito.
O que faço? Rendo-me? Não!
Esse caso foi assim tão importante?
- Para mim foi. - Mas agora acabou.
É isso que interessa.
Qualquer um pode trair uma vez na vida.
O pai vai compreender, não vai?
Achas mesmo que é tarde para eu recomeçar?
Achas-me assim tão velha?
Que idade me davas se não soubesses que sou tua mãe?
A que tens.
- Não são assim tantos anos... - Também não são poucos.
Meu Deus, nem uma palavra amiga.
Mãe, estão juntos há uma vida.
Estão a entrar numa fase em que vão precisar cada vez mais um do outro...
Não deites tudo a perder agora.
Estou?
É o Carlo.
Olá, como estás? Estou a estudar. E tu?
Estou na Sothens.
Onde?
Na empresa.
Como se chama? So... quê?
Sothens & Sothens.
Liguei para dizer que, se fores esta noite, podemos ver-nos.
Esta noite? Sim, à festa... Está bem. Como combinamos?
Não sei...
Vens buscar-me a casa?
Claro.
Lembras-te de onde moro?
Claro.
Está bem.
Não, está bem. Está bem.
- Fico à tua espera. - Combinado.
Ótimo. Até logo.
Até logo.
Digo à Giulia que vou sair contigo.
Não, sabes que não sei mentir.
Não te metas nisso. Sou um desastre.
Adriano...
preciso de voltar a sentir-me vivo.
Percebes?
Nunca traí a Livia.
Sabes o que acho?
Que é por isso que estás prestes a explodir.
Diz ao Bonardi que agora não posso. Que me ligue em cinco minutos.
Tenho cinco minutos para tentar salvar o teu casamento?
Porque te preocupas tanto com isto?
Tens a tua vida. Nós, a nossa. Qual é o problema?
Pai, tento evitar que se separem.
Já pensei dela muitas vezes as coisas horríveis que diz de mim.
Mas ainda gostam um do outro.
Não sei se ainda gostamos.
Além disso, a vida é nossa.
Deves ter coisas mais interessantes com que te ocupar, não?
- Tens razão. - Sei que tenho razão.
- Tenho a minha vida e vocês a vossa. - Exatamente.
Quando voltas a falar com ela?
Não sei.
Diz-lhe para voltar para casa.
Tenta convencê-la.
Diz, Giulia...
Falei com o pai. Onde estás? Encontramo-nos?
Não, quero ficar sozinha um bocadinho, para pensar.
Mas não há nada para pensar.
Pelo contrário, tenho muito em que pensar.
Passa cá quando saíres.
Temos de falar.
Sim ou não?
Como quiseres.
É importante. Ouviste?
Sim.
Até logo. Adeus.
Adeus.
Mãe?
Sim?
Estou a fazer isto tudo para vosso bem.
Como sabes o que é melhor para mim...
se nem eu sei?
Está bem, até logo.
Como quiseres.
Adeus.
Adeus.
Fabricada na Rússia.
Modificou-a um maluco que fez três Paris-Dacar.
Não fez a última. Morreu de enfarte.
Coitado...
Pronto, três Paris-Dacar. Então, rapazes?
Quatro camas.
O estilo é um pouco espartano,
talvez não seja ideal para levar a família.
Nada de família.
Ótimo. Tem capacidade para 900 litros de água.
Dá para atravessar o deserto todo.
- Nós gostamos. Quanto custa? - O que disse. Não baixo mais.
É muito.
Esta máquina é uma pechincha!
Não avaria ao sair da cidade?
Rapazes, isto faz 400 mil quilómetros sem ir à oficina...
Estou?
Estou?
Força, meu amor...
Força...
Senta-te.
Pega-lhe na mão e aperta-a.
Vai passar depressa...
Vais sentir-te melhor.
Não nos deixes. Vamos, vamos...
Força...
Os teus pais são um caso raríssimo.
É difícil encontrar a alma gémea. Pode nunca acontecer.
Só aparece uma vez. Temos de estar atentos para não a perder.
Sinto que esta é a minha vez.
Para onde vão?
Não sei, ainda não decidimos.
- Talvez para África. - África?
Posso ir convosco? Levam-me?
Acho que não.
Amor?
Estás aí?
Vê o que comprei.
Sim...
Amanhã mudo-me para casa do Alberto.
É inútil continuarmos a enganar-nos um ao outro.
Ouviste o que disse?
Não sei se estás mesmo a perceber...
Tens noção da falta que lhe vais fazer?
És o pai dele. Não estás só de passagem.
És o pai dele, foda-se.
Sais todas as noites?
Nunca queres ficar comigo?
Não, não saio todas as noites.
Deixas-me sozinha sempre que podes.
Vou ter com o Adriano, que precisa de falar comigo.
Está a separar-se da mulher e precisa de me ver.
- Vais jantar com ele? - Vou.
- Voltas tarde? - Não sei.
Espera.
Gostaste mesmo do carrinho?
Não disseste nada.
É lindo. Eu disse-te.
Tens a certeza de que está tudo bem?
Já te disse que sim. Está tudo bem.
Mas acho que estás nervoso.
Não estou nervoso. É a história do Adriano, já te disse.
Carlo, não me escondas nada.
Achas que te estou a esconder alguma coisa?
É a minha mãe.
- Olá. - Olá.
- Vieste de carro? - Sim, está ali.
- Vamos. - Vamos.
Não olhes. Molhei o vestido e vê-se tudo.
Não olho, juro.
- Até secar? - Até secar.
Então, para onde vamos?
Sempre em frente. Vai.
Se não fazemos amor há tanto tempo, a culpa é tua.
Eu penso o mesmo de ti.
Tem de haver uma maneira de encontrarmos uma saída, não?
Não, não há.
Já não nos amamos. É tudo.
É verdade, antes estávamos apaixonados.
Agora já não estamos.
Se quiseres, podemos passar anos a discutir...
o fim do nosso amor. Não ia adiantar nada.
Acabou e pronto.
Dizes que não, mas será melhor para ti,
melhor para mim e melhor para ele também.
Não terá de crescer com um pai e uma mãe que se odeiam, Livia.
Vai ser melhor para todos, é isso?
É isso mesmo, Livia.
Estou?
Sim, um momento.
É o Marco.
Estou?
- Que loucura! - O quê?
Disse que é uma loucura!
Esta é a Mariposa, a aniversariante.
- Parabéns! - Obrigada!
Aquela é a Sara e a outra é a Adele.
Aquele está completamente passado!
Deixe a sua mensagem após o sinal.
Carlo, não consigo falar contigo.
O teu telemóvel e o do Adriano estão desligados.
O Marco ligou. Vou a casa do Paolo. O pai dele morreu.
Todos vão. Espero ver-te lá.
Adeus.
Já vou.
- Então, o que vais fazer? - Tu sabes.
Porque és tão teimosa?
Preciso de tentar resistir mais um pouco.
Mãe, não estás a fazer uma prova de resistência.
Preciso de provar a mim mesma que...
... sou capaz. Talvez seja, talvez não, mas...
Preciso de acreditar um pouco mais em mim.
De qualquer forma, vou conseguir. Vais ver.
Mas tu tens de ficar tranquila e serena.
Está tudo bem. Vou ultrapassar isto, vais ver.
Está tudo bem.
A tua mãe sabe o que faz. Adeus.
Consegui arranjar isto!
A Mariposa disse que te acha o máximo.
- A sério? - Sim. Queres?
- Quero. - Toma. Só eu é que bebi.
Esta é maravilhosa! Anda, vamos!
- Isto é tudo natural para ti? - Não.
Nunca me senti assim.
Fazia qualquer coisa por ti.
Quero ficar contigo a vida inteira.
E se eu me apaixonar? O que acontece?
O quê?
Minha senhora, está na hora de fechar.
Boa noite.
Boa noite.
- Os meus pêsames. - Obrigado.
Estão na sala.
Obrigada.
Obrigado por teres vindo...
Como estás?
Ainda não me apercebi bem do que aconteceu.
Leva algum tempo.
A ideia da morte é incompreensível.
A última coisa que lhe disse foi um disparate.
Mas que merda faço agora?
Que merda vou fazer?
Mas ele sabia que o amavas, Paolo.
- E o Carlo? - Saiu com o Adriano.
O Adriano está ali.
Está?
Olha, aqui está ela. Anna?
Anna?
Olá.
- Esta é a Virginia. - Olá.
Trouxe um doce ótimo. Queres?
Não, obrigada. Vou para o quarto, porque...
- Até já! - Até já.
Olá.
O Carlo não veio.
Porquê?
Não sei. Ia dar uma volta.
Mas talvez já esteja em casa. Já tentaste ligar para lá?
Experimenta.
Já nos vamos embora.
- O quê? - Vou com o Carlo.
- Espera pelo bolo... - Não, tenho de ir. Gosto muito de ti.
- Adeus. - Adeus.
Não está em casa. Disseste-lhe que vinhas aqui?
O quê?
Disseste-lhe que vinhas a casa do Paolo?
Ouve, Giulia, não quero meter-me nos vossos problemas, está bem?
Que problemas?
O que aconteceu?
Quais são os nossos problemas?
Por favor, Giulia...
Há algo que não me queres contar?
Tens de falar com ele. Já te disse.
Como assim, tenho de falar com ele?
Por favor, Giulia.
Só te faz pior. Não insistas.
- Só me faz pior? - Sim!
Que porra estás a dizer?
Que porra quer dizer que só me faz pior?
- Saiu com uma rapariga? - Meu Deus, que chatice. Não sei!
Não sei.
- Não sabes? - Não sei!
O que estão a fazer?
Tem calma, rapaz. Aqui há pessoas de luto!
Deixe a sua mensa...
- Onde está? - Saiu.
Carlo, cabrão, não sei como safar-me.
Liga assim que ouvires a mensagem!
Que merda estás a fazer?
- Estás a ligar-lhe? - Não!
Para lhe dizeres o quê, Adriano? Quem é ela, caralho?
Ouve, não sei!
- Sabes, sim! - Não!
- Conheces a rapariga? - Não!
- Conheces. - Ele mal a conhece!
- Não é o que estás a pensar! - Cala-te!
É só uma amiga!
Vou matá-lo!
É só uma amiga!
Sinto-me dez anos mais novo.
Sou eu que te faço sentir assim?
Gostas de te sentir mais novo?
Decidiste mesmo fazer-me perder a cabeça, não foi?
Não, tu é que te arriscas a fazer-me perder a minha.
Queres ir a minha casa?
Os meus pais estão fora e só voltam depois de amanhã.
Quero dormir contigo.
Meu Deus, não posso. Não posso, tenho de voltar.
- Não... - A minha situação não é fácil.
Porquê?
Porque...
Porque não posso passar a noite fora. Não posso.
Não é por não querer.
Não penses que não quero, porque...
... é o que mais quero neste momento.
Então, qual é o problema?
- Qual é o problema? - Pois... Qual é?
Deixe a sua mensa...
Sim?
- Como estás? - Bem.
Queríamos saber se estavas a dormir.
Não, não estava a dormir.
- Queres beber alguma coisa connosco? - Não, obrigada.
Aconteceu mais alguma coisa?
Não. Queria ficar um pouco sozinha.
A sério, por favor.
Como quiseres.
- Boa noite, Anna. - Boa noite.
É só uma amiga.
Ele já volta.
Tenho de ter calma. Tenho de ter calma.
Promete-me só uma coisa.
O quê?
Que vais a casa dela e acabas tudo.
Promete-me ou vem comigo.
- Vou ver. - Promete-me.
Preciso de algum tempo.
Quando as coisas deixam de funcionar,
já não há nada a fazer.
Isso dizes tu...
Claro que digo.
Mas agora a questão é outra.
Como vou dormir sem ti?
Diz-me, como faço?
Vais conseguir...
Adeus, minha gatinha.
- Não vás. Fica. - Tenho de ir. É muito tarde.
Então, vai depressa.
Ou vais depressa, ou nunca mais vais.
Boa noite, amor.
Boa noite.
Foda-se!
- Giulia? - Onde te meteste, caralho?
Giulia, tive um acidente!
És um filho da puta!
Tive um acidente!
Com quem saíste, porra?
Giulia!
Foda-se!
Eu sabia, caralho! Eu sabia!
E agora, o que lhe vais dizer?
A situação está uma merda.
Inventa uma mentira,
boa e depressa, que a Giulia não é burra.
Ela percebe se lhe mentires.
Porque a traíste?
Porquê?
Estou aqui! Estou aqui!
- O que aconteceu? - És um cabrão!
Porque me enganaste assim?
- Porquê? - Calma!
Tens de ter calma. Faz mal à menina!
Onde estiveste a noite toda?
Tu sabes!
- O quê? - Com o Adriano!
- Com o Adriano? - Com o Adriano, juro!
És um filho da puta! Um mentiroso nojento! Tenho nojo de ti!
É o Adriano. Agora podes perguntar-lhe!
- Estou? - A Giulia sabe tudo. Não fui eu!
O que vai ser da confiança que tinha em ti?
Os nossos sonhos todos...
O que vai ser deles agora?
Giulia, não fiz nada de mal.
- Quem é ela? - Não é ninguém!
Quero saber quem é, Carlo!
Giulia, não vai voltar a acontecer...
Quem é ela, caralho?
Traíste-me?
Diz a verdade, Carlo. Traíste-me?
Diz!
Foi só um beijo!
- Juro que não volta a acontecer! - Tenho nojo de ti!
Quem é essa puta dessa Francesca?
- Quem é essa Francesca? - Chega!
- Querias dormir com ela? - Não!
- É bonita? - Giulia, por favor!
- É mais bonita que eu? - Não!
És um mentiroso. O que faço contigo agora?
Diz-me, grande mentiroso!
O que faço contigo agora?
- Mentiroso! - Giulia!
Temos tanto para fazer juntos, Giulia!
- Estávamos a formar uma família. - De facto!
Estou grávida de três meses e dizes "de facto"?
O que me fazes daqui a dez anos? O que me fazes?
Vou deixar-te agora.
Sai desta casa.
Volta só para buscar as tuas coisas e desaparece para sempre!
Espero ter sido clara!
Giulia!
Estás a exagerar, porra!
- Vamos ter uma filha! - Eu é que estou grávida!
Tens de dizer que eu estou grávida, Carlo!
Estou eu, não estás tu!
Mais vale criá-la sem pai...
do que com um merdas como tu!
Porra, não brinques, está bem?
Não estou a brincar!
Foda-se! Um beijo depois de três anos juntos...
não é assim tão grave!
Pode acontecer, caralho!
- Comigo não! - Não grites!
Faz-te mal!
Tens de te ir embora.
Tens de te ir embora.
Tens de ter calma, Giulia!
Dás-me vómitos! Dás-me vontade de vomitar! Percebeste?
Numa só noite, perdeste-me para sempre!
Agora abre aquela porta e desaparece!
Tens de te ir embora!
- Giulia! - Sai!
Giulia, porra! Para onde vou, caralho?
Para onde quiseres. Volta para ela.
Vai-te embora! Desaparece!
Giulia...
Que merda estás a fazer? Não tenho medo, está bem?
Que merda estás a fazer?
Tens de te ir embora! Pedi-te uma coisa. Faz!
Vai-te embora!
Vai levar no cu!
Vai levar no cu! Tu é que quiseste!
Tu é que quiseste!
Quando perceberes que erraste, já vai ser tarde, caralho!
De repente, livre.
Ela é que quis.
És livre de fazer o que quiseres.
Livre, sem ter de mentir a ninguém.
Livre de voltar para ela sem ter vergonha.
Livre de te apaixonares, mesmo tendo ela só 18 anos.
Finalmente livre.
Não era isso que sempre quiseste?
O que aconteceu?
- Ainda posso entrar? - Não, quero que te vás embora...
Decidi voltar...
Calma.
Espera um pouco. Pensa bem.
Estou a obrigar-me a fazer uma coisa...
que, no fundo, não quero.
Isso é o que meteste agora na cabeça.
Não sei o que fazer com a minha liberdade.
Sinto que a minha vida só fez sentido ao lado dele.
Sem a minha casa, sem as minhas coisas,
não tenho para onde ir.
Ele amou-me durante 30 anos. À maneira dele, mas amou-me.
Talvez não da maneira que eu queria, mas...
agora quero aprender a envelhecer ao lado dele. O resto não interessa.
Olá.
Saíste sem te despedires de mim?
Tens razão, desculpa. Esqueci-me das chaves de casa.
Lembras-te de onde as deixei?
Onde as deixei, caralho?
Mal podes esperar para ir, não é?
Queres voltar para ela, não é?
Por favor, não me perguntes mais nada.
- O que te fiz? - Nada.
Nada. Não me fizeste nada. Desculpa.
Tenho as tuas chaves.
Estás a brincar?
- Fico à espera que ligues? - Sim.
Sim, eu ligo-te.
- O Paolo está em casa? - Sim.
- Como está, minha senhora? - Mal. Muito mal.
- Pois. - É uma coisa terrível.
- Imagino. - Não, nem consegue imaginar.
- É mesmo terrível. - Pois é.
Paolo, está aqui um amigo teu.
- O seu pai ainda é vivo? - Sim, ele está bem.
É terrível perdê-lo. Esteja com ele enquanto puder.
Claro.
Paolo!
- Queres café com leite, Paolo? - Já disse que não quero nada.
Ele não a vai deixar sozinha.
Passei pelo concessionário. Há um interessado em comprá-la.
O tipo perguntou-me o que tencionávamos fazer.
Que merda faço? Passo um cheque para o sinal?
A vida continua! Já te esqueceste de tudo?
Não. Passo-te um cheque.
Faz o seguro e traz a autocaravana.
Boa.
Giulia...
- Giulia! - Estou de saída.
- Volta depois. A casa estará vazia. - Precisamos de falar, Giulia.
Por favor, não pode acabar tudo assim.
Dizes-me tu isso?
Tira o pé, por favor.
Giulia, eu errei.
Senti-me encurralado. Entrei em pânico. Errei.
Giulia!
Giulia, abre! Giulia!
- O que se passa? - Nada, está tudo bem.
Giulia!
Abre, Giulia! Tens a nossa filha na barriga!
Talvez decida não a ter!
Giulia, foda-se, não me faças perder a cabeça!
Nem te atrevas a pensar nisso!
Posso pensar no que me apetecer.
Não somos casados.
Livres e independentes, como quiseste, cabrão.
Se abortares, faço uma loucura!
Faz! Voltou-te o orgulho machista?
Sabes o que me dás, Carlo? Pena. Muita pena.
Nunca deixei de te amar, Giulia! Tenho toda a certeza!
- Tivesses pensado antes. - Por favor, Giulia, pensa bem.
Sempre pensei. Tira a porra do pé!
Giulia, por favor...
O funeral do pai do Paolo é mais tarde. Vemo-nos lá, Giulia?
Não!
Caralho, Giulia!
Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso...
E brilhe para ele a luz perpétua.
Ave Maria...
Para quê tanta pressa de partir?
Podes esperar mais um pouco, não?
- Quanto? - Um ano, não mais.
Não a aguento nem mais uma semana.
Ficar em casa do Alberto não te faz bem, neste estado.
Se já não aguentas, vem ficar connosco.
Só precisas de algum tempo para pensar.
Não estás pronto para deixar o miúdo.
Se forem mesmo embora,
vais encontrá-lo tão mudado que nem sabes se é teu filho.
Pensa como vai ser horrível se ele não te reconhecer...
Tenho de resolver esta situação.
Mas vais trocá-la por outra?
Quem me dera!
A Livia é teimosa, mas é inteligente,
tem encanto. Alguma coisa te deve ter feito apaixonar por ela...
Marco, preciso de viver uma coisa nova todos os dias,
para sentir que a vida continua.
Quando estás com alguém tanto tempo,
chega uma altura em que parece que paraste.
Mas essa paragem é só aparente.
Na verdade, é um ritmo diferente.
Se perceberes isso, sentir-te-ás especial por amares sempre a mesma pessoa,
sem pensares secretamente em fugir.
Sem ela, andava perdido, sem ter para onde ir.
Não seria nada bom.
A normalidade é a verdadeira revolução.
Fizeste o que qualquer um de nós teria feito no teu lugar.
Conheceste uma rapariga e saíste com ela.
Apeteceu-te ir para a cama com ela e foste.
O que há de errado nisso? Nada.
A fidelidade é uma utopia.
E agora?
Agora, o quê?
Como resolvo o problema?
- Vai levar no cu! - Giulia!
Minha menina!
O que aconteceu?
Só me odeia se o fizeres ver-me...
como um pai ausente que não quer saber dele.
É o que tu és.
Não, é como me sinto hoje, Livia.
Daqui a seis meses, um ano, volto.
Se quiseres, levo o Matteo comigo
e podes partir, como eu. Sem problema.
Ou talvez, daqui a seis meses, voltemos a estar juntos.
Quem sabe...
Tudo pode acontecer, não?
Sabes que já nem consigo ter raiva de ti?
É por isso que nos separamos, Livia.
Já não despertamos emoções fortes um no outro.
Vai levar no cu.
Por favor, amor, liga-me. Liga-me, vá, liga-me...
1, 2, 3, vá, liga-me...
- Francesca? - Mãe, podes sair, por favor? Sai!
- Estou? - Sou eu. É tarde? Incomodo?
Foda-se!
Estou? Carlo?
Deixe a sua mensagem...
- Estou? - É o Paolo.
- Que horas são? - Acordei-te?
Não, mas amanhã tenho de me levantar cedo.
Queria dizer-te que vou partir.
Soube do teu pai. Lamento.
Desta vez, vou mesmo.
Disseram-me. Vai fazer-te bem.
Vai fazer-me bem.
Ouve...
Quando voltares, liga-me para contares como foi.
Ainda vai demorar...
Quando for. Se quiseres, liga-me.
Estás em crise com o teu namorado?
Bem...
Se quiseres, podemos ver-nos agora.
Podes contar-me como vão as coisas.
Estou perto da tua casa.
Paolo, não comeces outra vez.
Não estou a começar outra vez.
Disse quando voltares.
Quando voltar, sim.
Faz uma boa viagem.
- Está bem. - Boa noite.
Boa noite.
- Estou? - É a Francesca.
- Quem é? - Mãe, é para mim. Desliga.
- Ainda estás com ele? - Sim, já se vai embora. Desliga!
- O que foi? - Está sempre desligado.
Deve ter ficado sem bateria...
Não digas disparates para me iludir. Acabou, estou a sentir.
Só estás a atrair azar para ti.
Já te disse, mas não acreditas em mim.
Vai correr tudo bem. Vai dormir.
Vai correr tudo bem. Amanhã voltas a vê-lo. Tem calma.
Podes voltar a ligar-me?
O quê?
- Quero ver se o telefone funciona... - Agora não, Fra, desculpa. Boa noite.
Estou?
Não vos entusiasma a ideia de romper com tudo?
Tudo o que fizemos até hoje...
É uma grande emoção, não é?
- Francesca, o pequeno-almoço. - Sai.
- O que foi? - Nada! Disse-te para saíres!
Vai passear...
- Vou pedir licença. - A Giulia desapareceu!
Se me impedir, levo atestado médico.
Preciso de descanso. Chega!
Tem o telemóvel desligado desde ontem!
Deve estar na mãe...
Que te importa?
Sempre quiseste que te deixasse!
Agora conseguiste. Que porra queres mais?
- Estou? - É o Carlo.
Procuro a Giulia. Está aí?
- Sim. - Não a chame.
Se tentar sair, não a deixe. Vou já para aí.
Carlo!
Carlo!
Carlo!
Olá...
Sei que estou a ser chata a esta hora,
mas não consegui resistir. Olá, amor.
Ontem comprei-te uma coisa. Queria dar-ta.
Não pegas nele?
Não tens curiosidade em saber o que é?
É o meu preferido.
Ontem reli um bocado e lembrei-me de ti.
Pensei em ti o dia inteiro.
Não achas que foste depressa demais?
Corri atrás de ti...
Não sou a pessoa maravilhosa que pensas.
Porque não?
Porque vou ter um filho com outra pessoa, de quem ainda gosto muito.
É isso.
Disseste que estavas em crise e que a querias deixar...
Sim, mas preciso de ficar com ela.
Lamento.
Não há mais nada a dizer.
Como assim?
Não disseste que ias ter um filho.
Só quero ser feliz com ela.
Assim magoas-me muito.
Pensei que podia nascer uma coisa bonita entre nós.
Por um momento, também pensei.
E agora, qual é o problema, amor?
- Tenta compreender... - Compreender o quê?
Agora, o meu lugar é outro.
Não é culpa de ninguém. Nem tua, nem minha. É assim.
Se quiseres, aceito que continues com ela.
Talvez, com o tempo, as coisas se resolvam...
Nada se vai resolver se continuarmos a ver-nos.
Acredita.
É isso.
Adeus, minha gatinha.
Perdoa-me, se puderes.
Não vás, amor. Imploro-te.
Não me puxes. Tornas tudo mais difícil.
Imploro-te...
Carlo!
O Carlo ligou-te.
Não lhe disseste que estava aqui...
Esta não é a altura de fugir.
Contaste-lhe?
Não te zangues, vá...
Pedi-te para não lhe contares nada...
Mãe, tinha-te pedido uma coisa...
- Vão ter uma menina... - Eu é que estou grávida!
Giulia, estas coisas acontecem...
Hoje errou ele. Amanhã, podes ser tu...
Mãe, por favor!
- Também traí o teu pai... - Isso é um problema vosso!
- Mas ainda estamos aqui, não é? - Chega!
Querida, a vida também é feita de cedências...
Não vou acabar como tu.
Porquê?
Como é que eu acabei?
Já olhaste para ti?
Não te precipites.
Estou?
Sou eu!
Que porra queres?
Só conversar!
Tens de te ir embora!
Vai-te embora!
Contente?
O que fazemos?
Deixamo-lo entrar, não?
Espera, deixa-me falar mais um pouco com ela.
- Está bem? - Está bem.
Querida?
Querida, abre.
O Carlo não está aqui. Está com o teu pai.
Não podemos dar por garantido o amor que sentem por nós,
nem a sua dedicação,
nem a vida aparentemente monótona,
nem os corpos que mudam com o tempo...
Abre.
Não podemos achar que o casamento torna a vida monótona e repetitiva.
Ainda estás apaixonada por ele.
Odeio-o!
Não podemos deixar de as ouvir,
mesmo quando repetem a mesma coisa vezes sem conta.
Não podemos deixar de as achar atraentes,
nem deixar de ser gentis e carinhosos.
Não conseguias viver sem ele.
Se quiser mesmo, consigo.
Se o homem se casa há milhares de anos,
há de haver um motivo, não é?
O teu destino agora é ficar com ele.
Tens de recuperar aquilo que até ontem te fazia feliz
e cuidar com ele da menina que aí vem. Acredita em mim.
Agora, só isso importa.
Achas que consegues ficar com ela a vida inteira?
Eu sei que achas que sim.
Nunca mais vai ser como antes.
Isso não sabes.
Não...
Vá lá...
Vai correr tudo bem. Vai correr tudo bem...
Como se vai chamar?
Ainda não decidimos.
Quando a vossa filha for adulta e vos disser que vai ter um filho,
se ainda estiverem juntos, estarão no nosso lugar.
De repente, vão sentir-se velhos.
E vão perguntar-se se valeu mesmo a pena...
terem passado juntos todos esses anos.
Vai valer a pena?
Acho que sim.
Mas é inútil falar.
As palavras valem tanto como uma brisa.
Se ainda estiverem juntos, é porque superaram tudo.
E, como não vai ser fácil, é porque acreditaram um no outro.
É o que vos desejo.
Nunca deixem de acreditar um no outro.
Ela está à tua espera no quarto.
Cuida dela.
A chorar
A chamar por ti
Como se não estivesses aqui
Ao meu lado
Comigo
Nunca mais vai acontecer.
Nunca mais, em toda a minha vida.
Tens a certeza de que foi só um beijo?
Sim.
Se fosse um pouco mais forte, a nossa história acabava aqui.
Odeio-te.
Percebeste que te odeio?
Pensa na nossa filha.
Porque me fizeste uma coisa tão feia? Porquê?
Tive medo de não estar pronto para algo tão grande.
Chega!
Não te quero ouvir mais!
Calamo-nos e voltamos a estar juntos.
Vais ver que vale a pena.
Não!
Temos tanta coisa para fazer juntos. Amo-te!
Amo-te, amo-te... Fomos feitos um para o outro.
Sempre o dissemos.
- Estávamos enganados! - Não estávamos nada!
- Eu estava enganada. - Dá-me outra hipótese!
Só uma!
Vais ver que vou amadurecer...
Vou amadurecer, meu amor. Vou amadurecer.
E como?
Como caralho vais amadurecer?
Se ainda quiseres, podemos casar.
É só tratar dos papéis e casamos.
Estou a ser sincero. Não digo isto por dizer.
Pensa na nossa filha.
Podemos recomeçar. Basta querermos.
Vamos casar e vamos ser felizes.
Vais ver.
Vais ver, meu amor.
Porque não consigo odiar-te? Porquê?
Fomos feitos um para o outro, os dois.
Vais ver, meu amor.
Cá estamos.
Decides que a tua adolescência eterna acabou...
e é hora de crescer.
E vais crescer.
Então, tudo vai mudar.
Desta vez, vai mesmo mudar.
Vais ter uma casa maior.
Piscina, garagem, um jardim bem cuidado.
Flores na varanda e portas bem pintadas.
O cão vai chamar-se Marx e o barco, Giulia.
Vais ter um seguro de saúde e um seguro de vida...
O frigorífico sempre cheio, para não te sentires pobre.
Um tapete étnico, para continuares a sentir-te jovem,
e janelas por onde entra sempre o sol.
Vais ter uma família feliz.
Filhos saudáveis.
E ela. Vais tê-la a ela,
que te vai lembrar todas as coisas boas que tiveste.
Não é isso que sempre sonhaste?
Às nossas vidas!
Ao que fomos e ao que seremos!
Foi assim.
Há quem parta e há quem fique.
Eu decidi ficar.
Lembro-me de que vou ser pai dentro de poucos meses.
Tento ganhar confiança,
até porque acho que ainda não percebi bem...
... o que isso significa.
Às vezes penso naqueles três.
Onde estarão? O que estarão a fazer?
Gosto de imaginar que, um dia, talvez me junte a eles...
... e fique com eles algum tempo.
É um pensamento que me faz bem.
A mão que estão a ver é da Sveva,
a menina mais linda que já vi na vida.
Dizem que é parecida com a Giulia. Talvez por isso a ame tanto.
Fez um ano há dois dias.
Está a aprender a falar.
Diz televisão, céu, sol, barriga, mamã e papá.
A Giulia, por sua vez, está cada dia mais bonita.
Anda obcecada com o corpo.
Nada três vezes por semana e corre todas as tardes.
Que mal pode isso fazer?
A Sveva adora dançar Strauss comigo.
Primeiro olha-me nos olhos, depois sorri e adormece.
Posso passar horas a olhar para ela.
Ouço-a respirar e tento olhar para mim de fora.
E a minha vida não me parece nada má.
Afinal, não há nada que me faça realmente falta.
Mesmo nada.
Então, isto é a felicidade?
Acho que sim.
O ÚLTIMO BEIJO
Tradução: jribeiro Adaptação: Nisbgui
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