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Segundo o dicionário, um "tonto"
é uma pessoa lerda,
que carece de esperteza e astúcia.
Embora saibamos que um homem trabalhador,
honesto, que obedece as regras,
acaba virando sinônimo de "tonto".
Mas um dia, o abuso ao que nós tontos estamos acostumados
vira um verdadeiro chute no saco.
E a gente diz: "Chega".
E acaba fazendo algo que nunca se achou capaz de fazer.
A ODISSEIA DOS TONTOS
A METÓDICA
Vamos ter que investir muita grana.
É provável.
Lembre-se, isso está abandonado há mais de dez anos.
Mas nós pensamos...
por que não chamamos o filho do DeLuca?
E fazemos uma proposta. Nunca se sabe.
Você quer construir uma companhia
como a que faliu neste exato lugar?
Por favor, me explique essa ideia brilhante, eu não entendo.
Espere aí, isto é diferente. Vai ser uma cooperativa.
Vai dar a fazendeiros da região, a pequenos produtores,
uma chance de estocar mercadoria para não terem que vender...
Antonio Fontana é um revolucionário por natureza.
Ele chegou à cidade em 1984, quando o Alfonsín tomou posse.
Ele veio com a família para administrar o centro de asfaltamento na região.
Mas a verba nunca chegou,
sua esposa se cansou de Alsina, do Fontana,
e foi embora com as crianças.
Ele ficou.
Na década de 90, o centro foi fechado e ele abriu uma borracharia.
"É o emprego ideal, te deixa pensar", disse ele.
Eu ainda não imagino, Lídia.
Não fazemos ideia de como administrar uma processadora, ou vocês fazem?
Mas podemos aprender, Antonio.
O avô do Fermín sabia de fazendas quando começou?
-Mas ele foi à falência. -Depois de 30 anos.
Pense nisso.
Bem organizado, isto poderia empregar...
quantos nós falamos?
Umas 20 ou 30 pessoas.
Trinta pessoas, tem certeza?
No mínimo. Vamos fazer as contas.
Operários, uma equipe administrativa...
No mínimo, 30.
Puxa vida.
E acham que seja a hora certa para encarar uma coisa assim?
-Sim! -Sim!
É a melhor hora.
Pior não vamos ficar. O que mais poderia acontecer?
Agosto de 2001 Argentina
Ah, faça-me o favor.
Sempre falando de ferro, cara.
Do que está falando?
De soberania!
Foi isso que o General Perón comprou: tirar os ingleses das costas.
Fermín, você era uma cara esperto. Explique para ele.
Por que vocês sempre discutem sobre a mesma coisa?
Não podem falar de outra coisa? Vocês não enjoam?
Eu não te reconheci. Não exagerou na cor?
Rolo Belaúnde é o melhor mecânico da cidade.
Ele administra a estação,
embora o trem não pare mais aqui.
Ele é de Córdoba, um cara leal, solteirão convicto.
Ele é mais peronista que o 17 de outubro.
E aí, falaram com o DeLuca?
-Eu falei. -E aí?
Bom, ele ficou bem surpreso que alguém quisesse comprar A Metódica.
Mas parece que ele está disposto a conversar.
Ah, é um bom começo.
Mas você tem que ir lá. É como o Gardel para ele.
Por que eu? Vocês ficam à toa o dia inteiro.
Eu já fui jogador de futebol? Ele já foi?
-O que isso tem a ver? -Tem a ver, sim...
Coisa de cidade do interior. Que diferença faz se, há 30 anos,
joguei para dois timecos da primeira divisão em Buenos Aires
e fiz um golaço no Chacarita no último minuto de jogo no estádio deles?
Em Alsina, faz toda diferença.
Fora de Alsina, nenhuma.
A Lidia acabou me convencendo, para variar.
E fomos à capital para ver se valia a pena continuar nos iludindo
com essa loucura da cooperativa.
Eu teria que falar com a minha irmã, mas acho que não vai ter problema.
Vocês têm noção de quanto...
tudo aquilo poderia custar?
Não tenho estimativas recentes, mas...
Sei lá.
Considerando que vocês são de Alsina e tal...
Sei lá, acho que poderíamos fechar por 300 mil.
300 mil.
É mais ou menos o que vocês pensavam?
-Sim. -Sim.
Teríamos que conversar com nossos associados. Não descartaria a oferta.
-Não é? -Não.
Eu sei que vocês vieram pra falar de negócios,
mas olho para ele
e vejo um ídolo de infância.
Ídolo é exagero.
Eu te contei que o meu pai tinha o pôster do El Gráfico no escritório?
Fermín Perlassi, camisa 5.
A pérola da coroa.
Eu entrava na sala dele e te via naquela foto.
Que máximo.
Vocês não ligam se falarmos disso, não é?
Não, nem um pouco. Pode perguntar o que quiser, que ele adora essa época.
Ah, tudo bem.
Então, eu queria saber daquele gol.
Ah, não foi nada.
Eu bati na bola com os três dedos de fora da área. Chutei com força e...
ela entrou, foi isso.
Primeiro bateu no zagueiro.
Isso, bateu em um zagueiro e entrou.
Perlassi.
Você me desculpa por tê-lo feito falar do seu passado de jogador?
Hmm.
Mas não podemos reclamar.
Foi só você contar umas histórias sobre os seus anos dourados
e ele fez um desconto de $30 mil.
-O quê? -O que está fazendo?
-Nada. -É uma surpresa?
Quantas vezes você já viu esse filme?
-Eu não estava preparado. -Não?
Não, eu ia...
Prepare-se.
Tem certeza?
Numa cooperativa, o mais importante
é contar com gente trabalhadora, honesta, inteligente.
Por isso fomos falar com os irmãos Eladio e José Gómez,
que reuniam as duas primeiras condições,
ou mais ou menos.
Olá, rapazes.
Como vai, cara?
Tudo bem?
-Como vai? -Bem.
Bom, o Perlassi aqui teve uma ideia.
Sim, mas...
Vou deixar o Antonio contar, ele vai explicar melhor.
Certo, bom...
Vocês viram aqueles silos que estão abandonados há um tempão.
Quando vocês eram pequenos, faziam parte de uma processadora de grãos.
A ideia é formar uma cooperativa.
E o que é uma cooperativa?
Uma cooperativa... é como um bolo.
Bolo de quê?
É um bolo... Um bolo de chocolate.
Esse bolo de chocolate é de todo mundo na cooperativa...
Os Gómez trabalharam a vida toda
na metalúrgica de Villagrán.
Eles sempre se viraram.
Então, quando ela fechou e eles foram pra rua, não desanimaram.
Eles resolveram tentar sorte na indústria da pecuária.
Mas eles não conseguiram se conter.
E acabaram comendo metade do investimento.
E então?
Acho boa ideia.
A outra opção seria o que pensei com ele.
Ah, vocês pensaram em outro negócio?
E...
o que ele seria?
-Uma locadora. -Uma locadora.
Poderia ser.
Mas é que muita gente foi embora. Não saberia o que dizer.
Talvez...
não seja a hora certa?
Talvez não.
Felizmente, eles concordaram em que uma cooperativa
tinha mais futuro que uma locadora
e deram os $12 mil que tinham sobrado da indenização.
Depois, fomos falar com o "Turco" Safa.
Eu tive que insistir com o Fontana, porque não ia com a cara dele,
mas acabamos convencendo-o.
Ele adorou a ideia e entrou com $11 mil.
A Sra. Llanos abriu o cofre da estufa dela
e contribuiu com todas as suas economias: $2.500.
Fomos falar com o "Magrão" Cacheuta na mercearia,
e ali mesmo nos deu $3.000.
Um em cima do outro, literalmente.
Na reunião das sextas-feiras, combinamos quanto nós investiríamos.
Belaúnde deu $6.000, o Fontana $7.000, e a Lidia e eu $15.000.
Tudo estava indo muito bem.
Bem até demais.
-Fale você. -Por quê?
Por que é o único trouxa que acha
que o "Louco" Medina pode ser acionista de alguma coisa.
Ele tem uma fortuna.
Do que está falando? O Medina?
A prefeitura deu uma dinheirama para ele se mudar.
Mas não se mudou!
Exatamente.
Oi, Antonio!
Oi, como vai?
Calma, temos visitas.
-Sr. Perlassi. -Como vai, Medina? O que foi isso?
Bom, dinamite, pra pescar.
Como assim, pescar?
É mais fácil, pra não ficar o dia inteiro esperando com a vara.
O meu amigo Fontana aqui arruma pra mim.
Mas isso é perigoso, poderia explodir tudo aqui.
Nada disso. Medina, explique para ele.
Soldado Atanasio Medina, turma de 1952,
Punto Negro, San Nicolás, às suas ordens.
À vontade, soldado.
Medina, vou te explicar por que estamos aqui.
Imagine...
um bolo de chocolate.
Aah!
Só que é um bolo de várias pessoas.
-Ele vai explicar... -É uma cooperativa.
-Exatamente. -Uma cooperativa.
Atanasio Medina mora na beira da lagoa com a família toda.
Ao morar tão perto da água, é normal sua casa se alagar.
E os bombeiros sempre têm que vir resgatá-los.
A prefeitura ficou tão cansada de ter que evacuar os Medinas toda vez que chovia
que ofereceu um subsídio para ele se mudar.
O Medina pegou o dinheiro e assinou os papéis.
Mas depois mudou de ideia.
Ele comprou um carro de segunda mão.
Comprou colchões, cobertores, roupas e brinquedos para os filhos.
E depois das compras todas, sobraram exatamente...
$2.153, pode pôr no meu nome.
E o resto do dinheiro que eles deram?
O senhor me conhece, Fontana. Não sei administrar direito.
Mas pode anotar isso.
Certo.
Vou arredondar para 2.000.
Não, deixe os $2.153.
E sendo que ainda estávamos longe de conseguir juntar todo o dinheiro,
fui falar com a empresária mais importante de Alsina.
Carmen Lorgio.
Quem sabe de negócios é você, Carmen. Nós, não.
Estou lhe oferecendo isto porque achamos
que talvez possa estar interessada em participar.
Além do mais, uma companhia de transporte
é um par ideal para uma processadora de grãos, entende?
Sim.
E quanto vocês já juntaram?
Uns $58 mil e... quase $59 mil.
-Ah. -Hmm.
Oi, Fermín. Como vai?
Hernán, tudo bem?
E o Rodrigo?
Está em La Plata, na faculdade.
Não o vejo há muito tempo.
Ele deve vir no Natal.
O que você quer, filho?
O mecânico já está com o carro pronto.
Hmm.
E temos que pagá-lo.
Bom, fale para o Santiesteban resolver.
Por quê? Peça para ele me dar o dinheiro que eu levo.
Hernán, por favor. Vá falar com o Santiesteban.
Mande lembranças ao Rodrigo.
Obrigado, até mais.
Bom, Carmen. Não vou fazê-la perder seu tempo,
deve estar muito ocupada.
Não, não é nenhuma perda de tempo.
Fico feliz, realmente.
Olhe, eu queria falar do meu filho, porque ele...
Bom, é que depois que o pai morreu,
ele não tem mais bons exemplos e eu não soube direito como lidar com isso.
Bom, ele fica muito à toa.
Vai e vem, sai muito,
larga muitas coisas pelo meio.
Ele só não larga as noitadas,
as bebidas e um monte de confusões.
Por isso, acho que seria apropriado se...
Bom...
que ele estivesse com vocês, gente trabalhadora,
decente.
Isso o ajudaria. Sei que faria bem a ele.
O que quero saber...
é se há alguma chance de que ele possa participar nisso tudo?
É claro, Carmen.
Pode contar com isso.
Bom, posso oferecer $100 mil.
Não.
Obrigado.
Decidimos que a Carmen continuaria negociando com o DeLuca,
e ela conseguiu fechar em $250 mil.
E sendo que nós já tínhamos $158.653,
decidimos que o melhor seria deixar tudo em um lugar seguro.
Então, fomos para Villagrán,
a cidade mais importante da região.
Para fazer o que as pessoas fazem
para ficar tranquilas quando têm muito dinheiro junto.
Como vai, Lidia?
-É ótimo ver você. -Como vai?
-Como está todo mundo? -Oi.
Vamos?
-Obrigado. -Você espera aqui?
-Fermín! -O quê?
O Alvarado ligou pelo assunto do crédito.
Ele disse que tem que ir falar com ele hoje, sem falta.
-Ele falou isso? -Sim.
A sua pasta está impecável.
Mas na situação em que o país está,
o banco está tomando outras precauções
na hora de decidir autorizar ou não um empréstimo.
Entende?
E a sua conta não tem o volume necessário
para justificar a quantia que você está pedindo.
Mas pensei em uma solução.
Digamos que, ao invés de deixar o seu dinheiro em um cofre
você o depositasse na sua conta bancária,
o Banco Central veria
que Fermín Perlassi
está pedindo $100 mil, enquanto tem na conta...
Bom, $158,653.
$150... perfeito.
Viu? Aí é outra história.
Porque você está pedindo 60 por cento do dinheiro depositado.
Aí o crédito sairia na hora, eu garanto.
Eu teria que conversar com os meus associados.
O dinheiro não é só meu, entende?
Eu entendo. Entendo perfeitamente.
É que, hoje às 17h, o Banco Central
fecha o balanço anual para créditos desse ano.
E o que não for concluído hoje vai ser passado para março, abril,
maio, junho. Quem sabe?
Olhe.
São 14h50.
Se você resolver depositar,
em meia hora, esta pasta sai para Buenos Aires.
E eu, pessoalmente,
vou ligar para o Banco Central
para pedir que vejam o dinheiro depositado na sua conta.
Na segunda-feira, esse crédito estaria aprovado.
E na terça ou quarta,
já teria o dinheiro na sua conta.
Eu garanto.
Conhecimento é poder.
Não sei quem disse isso, mas é verdade.
Quem tem informação, tem poder.
Quem não tem noção, depois de hesitar um pouco,
dá ouvidos ao gerente do banco em quem confiou a vida toda
e deixa de ser um tonto
para, infelizmente, virar um grande otário.
DEPOSITADO
UM DIA DEPOIS
Fermín!
O resto do dinheiro que tiverem na poupança
-ou numa conta-corrente... -Lidia.
Quanto ele falou que pode sacar por semana?
-Lidia. -O quê?
Quanto ele falou que pode sacar por semana?
250 pesos.
-O que foi? -Nada.
-O que foi, Fermín? -Não...
Fermín!
Querido, o que foi?
Fermín?
Não, não, a minha pressão baixou. Só isso.
-Já estou bem, querida. Pode deixar. -Está mesmo?
Fermín, ninguém vai achar que é culpa sua.
Não?
E quem foi o imbecil
que depositou todo o nosso dinheiro na conta?
Qualquer um teria feito a mesma coisa, querido.
Ninguém podia imaginar que isso aconteceria.
Não acredito.
Puta que me pariu.
E nem deu tempo de avisar ninguém.
Devem estar todos pensando que a grana ainda está no cofre.
Eu cuido do pessoal.
Você fica aqui, tranquilo.
Como vamos explicar que não podemos sacar o dinheiro do banco?
Eu já falei.
Vou cuidar disso.
Como vai, Turco?
-O que eu posso dizer? -Eu sei.
Estamos indo para o banco
-para ver o que dizem. -O que eles vão falar?
-Vão falar que não vão devolver. -Talvez.
-Talvez. -Acontece que eu dei o dinheiro pra você.
-Não dei para o banco. -Eu sei...
Você não pode falar a mesma coisa.
-Espere aí... -Esperar o quê?
Eu te dei o dinheiro para a cooperativa, lembra?
Daí, você depositou tudo em pesos e não pode mais sacar?
Vou explicar o que aconteceu.
Eles me disseram que se não fizesse aquilo...
-Não quero que você explique! -Me deixe falar!
Não vou te deixar falar nada!
-Eu peço desculpas... -Desculpar para quê?
Enfie as suas desculpas no meio do rabo!
Quem é você pra falar assim comigo?
-Sou o paspalho que você roubou! -Eu não roubei ninguém!
Como assim? Foram $11 mil! Vou acabar com você!
Safa!
Se encostar nele, mato você!
Saia daí, querido.
Escute aqui, seu filho da puta.
Eles foderam o país inteiro e você vem implicar com o meu marido?
Nós investimos todo nosso dinheiro
para esta cidade não sumir do mapa,
e você vem aqui bancar o valentão?
Vá se foder! Até parece que é a única vítima disso tudo.
O que você está pensando, Safa?
Dê o fora!
Dê o fora porque não imagina a minha vontade de atirar em alguém!
Já passou.
Alguns dias após o início do famoso "corralito",
algo completamente inesperado aconteceu.
Venham.
-O quê? -Venha, quando você ouvir,
vai ficar de cara.
Entrem.
Você não trabalha no banco?
-O que esse cara está fazendo aqui? -Calma, Fermín.
Como espera que eu fique calmo?
O Fernando é filho da minha prima Beba.
Viu como é? Eu falei.
Calma, garoto. O problema não é com você.
Eu estou contando porque não quero ser cúmplice do que aconteceu.
Mas também não posso perder o meu emprego.
Eu falei para se acalmar, ninguém vai te mencionar.
-Ande logo! Fale alguma coisa. -Tudo bem.
É o seguinte.
Na sexta-feira passada, o senhor saiu do banco,
quase na hora de fechar.
E Alvarado, o gerente, deixou o Manzi entrar.
Quem é Manzi?
Manzi...
É um advogado de Villagrán.
Um amigo do prefeito.
Continue, Fernando.
O Alvarado aprovou um crédito para o Manzi em pesos naquela hora.
E com esse crédito em pesos, o Manzi converteu tudo em dólares.
Digamos que, ao invés de deixar o seu dinheiro em um cofre,
você o depositasse na sua conta bancária.
O Banco Central veria
que Fermín Perlassi tem em sua conta...
Bom, $158.653.
E na terça
ou quarta,
já teria o dinheiro na sua conta.
E ele levou embora todos os dólares do banco.
Os nossos, Fermín.
Os de vocês e os de todo mundo. Ele levou uma fortuna.
Eles sabiam o que ia acontecer.
Foi por isso que te fizeram tirar os dólares do cofre
e depositá-los na sua conta.
-Alvarado. -Desculpem por não ter ligado.
Tem sido uma loucura, mas tudo vai se resolver.
Eu só tenho uma pergunta.
-Quanto você faturou? -O quê?
Quanto o Manzi te deu para ferrar todo mundo?
-Não sei do que você está falando. -Olhe na minha cara.
-Olha para mim! -Olhe para ele e responda!
-Fale que não sabia de nada. -Não sei do que estão falando.
Não é culpa minha.
E ainda se faz de bobo, seu cretino?
Você não tem vergonha na cara?
Você ferrou todo mundo! Nós somos trabalhadores!
Volte aqui, filho da puta!
Seu cafajeste!
Morra, seu filho da puta!
O que você faz ao descobrir que não foi só um,
mas um exército de filhos da puta que estragaram a sua vida?
O que você faz?
Quem iria te defender?
Com quem você fala?
Com ninguém.
De repente, você descobre que roubaram tudo que era seu.
Levaram as suas economias
e destruíram os seus sonhos.
E você sente que foi o pior que poderia ter acontecido.
Fermín!
E não era.
A sua mãe...
Quando eu saí do hospital, o país estava em pedaços.
Era fevereiro,
e tinham passado cinco presidentes, acreditem ou não.
O povo estava mergulhado na pobreza.
Ou no melhor caso, na angústia e o desânimo.
Rodrigo largou a faculdade e ficou comigo.
Nenhum de nós teria conseguido superar tanta dor
se não estivéssemos juntos.
Carmen,
que tinha mais do que nós, segurou a barra.
E sem falar nada, deu emprego aos irmãos Gómez.
Ela não precisava, mas sabia que tinham famílias e dinheiro nenhum.
Belaúnde resistiu patrioticamente chefiando a estação do trem fantasma.
E pra piorar, pra tristeza dos Medinas, naquele verão não parou de chover.
O Fontana continuou o que fazia.
"Com ou sem crise, pneus furam", disse ele.
Ele tinha certeza de que, mais cedo ou mais tarde,
Manzi ou Alvarado iriam passar pela sua borracharia.
E se preparou para dar calorosas boas-vindas.
O Fontana é assim, nunca perde as esperanças.
Temos que acabar com eles!
Argentina!
Aceita patacones?
Patacones, Lecop, quebrachos, federales.
Aceitamos de tudo aqui.
UM ANO DEPOIS
-Dois, obrigado. -Obrigado.
-Garoto. -O quê?
Oi, Antonio.
-O seu pai ainda está enfiado aí? -Sim.
Escute, o que nós viemos falar
também vai te interessar. Vamos lá.
Oi, Fermín.
-Oi. -Boa tarde.
Você parece bem.
O seu amigo Fontana andou recolhendo umas informações.
Desde quando ele faz isso?
Um bom anarquista sempre tem que estar dois passos à frente do inimigo.
Você vai ficar de cara com o que temos pra contar.
Bom, desligue isso e escute.
Sim.
Ao que parece, Alicia, mulher do José Gómez,
é enfermeira no hospital de Villagrán. Disso você sabe.
Certo, bom.
Ao que parece, um dia, um tal Saldaña foi ao hospital
para ser internado. Não sei se você se lembra dele.
Aquele ermitão que morava atrás do aviário e bebia muito.
Ele mesmo.
-Sim. -Ele apareceu no hospital,
todo fodido.
Os médicos não davam conta e o cara estava morrendo.
Então, a Alicia estava cuidando dele, conversando e tal.
Até que um dia,
ela entrou no quarto
e havia um cara visitando o Saldaña.
Ela pergunta se era parente e o homem falou que não.
Ela explica que, nesse caso, ele não podia estar lá.
E pede para ele sair.
Depois que ele sai,
o Saldaña conta que era um cara que dava trabalho para ele.
"Um tal Manzi."
Quando Alicia ouviu o sobrenome "Manzi",
esperta como ela é, você imagina,
começou a perguntar de tudo.
E o cara contou pra ela que o último trabalho que ele tinha feito
tinha sido numa fazenda dele.
Uma fazenda enorme que o Manzi comprou do Lángara.
A questão é que o cara o levou para o meio da fazenda,
até um montinho de árvores.
Ele o leva até lá e pede
para cavar um buraco de 3m x 3m, com 2m de profundidade.
Quando o Saldaña pergunta para que era o buraco,
ele diz que é uma sala de máquinas para ligar os filtros da piscina
do sítio que ele ainda vai construir.
É ridículo. Você imagina?
Não pode começar pela sala de máquinas, depois fazer a piscina e o sítio.
Você acha?
Por acaso você é estúpido?
Não entendeu?
É um cofre.
Ele mandou construir um cofre pra esconder a grana que roubou da gente.
Como pode saber onde o cara vai esconder a grana?
Depois do "corralito", ele não iria depositar o dinheiro no banco.
Mas talvez em um cofre, sei lá.
Nada disso. Andam dizendo que, um dia desses,
vão abrir todos eles.
Por isso o Manzi pensou no cofre.
Ele só não pensou
que o Saldaña contaria à Alicia antes de bater as botas.
E que a Alicia contaria ao José.
E que o José contaria para mim.
Que eu contaria para este cara.
E que agora estaríamos contando para vocês.
E então? O que acha?
Que cada um perde o tempo como quer.
Mas o que há com você?
-Qual é? Faça-me o favor. -Antonio.
Quando eu soube disso, pirei.
Eu disse: "Puta merda, até que enfim uma a favor da justiça.
Achamos um jeito de dar o troco nesse vagabundo."
Mas parece que o nosso amigo aqui quer continuar bancando a vítima.
E ele pode bem ir à merda.
Porque nós fizemos muito por ele. Demos aquela força no luto,
como devia ser.
Mas já passou um ano, cara.
Estou de saco cheio.
-Calma. -Não vou me acalmar, estou cansado.
Ou melhor, ele me cansou.
Até parece que é o único que perdeu alguém na vida
E se ele estiver certo?
E se for um cofre?
Sabe o que estou pensando?
Se fosse ao contrário,
e a mãe tivesse sobrevivido ao invés de você,
e o Fontana chegasse falando tudo isso.
O que acha que ela teria dito?
Ou pior,
e se eu tivesse perdido vocês dois e ficasse sozinho.
E o Fontana viesse me contar tudo isso.
O que acha que eu deveria fazer agora?
Nada?
A volta dos mortos-vivos.
Entre.
Esse é o famoso ferro pra arrebentar a cara do Manzi?
Ou a do Alvarado, quem aparecer primeiro.
Alvarado... já quis tanto que ele morresse.
O que aconteceu?
Furou o pneu?
Vocês vieram me contar do Saldaño e...
e que talvez o tal Manzi tenha feito um cofre e tal.
Sim, e daí?
Eu vim dizer que sim.
Sim o quê?
Que precisamos fazer alguma coisa.
Quase todo mundo estava lá.
Só faltava o Safa,
que fechou a loja e se mandou convencido de que tínhamos passado a perna nele.
E o Cacheuta, coitado,
que a crise matou de um infarto.
Falamos para a Sra. Llanos não se preocupar, que daríamos um jeito.
E a Lidia, é claro.
Estava faltando a Lidia.
Senhores.
Senhora.
Hoje é um dia histórico.
Porque vamos atrás do sonho de Mikhail Bakunin,
o pai do anarquismo.
Isto é o indivíduo acima do Estado e das instituições.
O homem que controla o próprio destino,
que, no nosso caso é recuperar o que é nosso.
Sim, bom...
Acho que não preciso
dizer que...
estamos prestes a nos meter em um problema
muito maior do que aquele em que estamos.
Então...
se algum de vocês
se arrepender pelo motivo que for
ou estiver com medo,
que pode acontecer...
agora é a hora de falar.
Bom.
Então...
-Alô? -Oi, querido.
-Oi, querida. -Onde você está?
-Estou ocupado. -A que horas você volta?
-Depois eu ligo. -Está bom. Um beijo.
Um beijo.
Beijo pra você.
O que é isso?
Um celular.
Não, eu sei. Para que você quer ele?
Pra falar.
Eladio. Você mora em uma cidadezinha,
onde tudo fica a menos de dez quarteirões.
Para que quer um telefone?
Estavam baratos.
Estavam?
Você tem outro?
Tenho, mas ninguém me ligou ainda.
Dias atrás, aproveitamos uma promoção em Villagrán.
Uma promoção exclusiva pra pessoas com RG
terminando em número ímpar.
Ainda bem que o dele terminava em número ímpar.
O meu é par.
E aí não dava.
Rapaz, metade dos seres humanos têm documento terminando em número ímpar.
Como sabe disso, Sr. Fontana?
Esses garotos são uns paspalhos.
Bom, vamos voltar ao que interessa.
Sim.
Há chances
de que este homem, Manzi,
tenha um buraco, um baú, um cofre
ou algo parecido no meio do campo.
Se isso for verdade,
é provável que tenha
guardado todo o dinheiro lá.
O nosso e sabe-se lá de quem mais.
Hmm. Hmm.
Por isso
é importante que combinemos um negócio de uma vez.
Se isso for verdade, e acharmos o dinheiro,
só vamos pegar o que é nosso.
Todo mundo concorda?
Com licença, Fermín. É que se acharmos mesmo,
vamos ter que agir rapidamente.
Não podemos ficar lá contando o dinheiro.
-Ela está certa. -Sim.
Sim, ela está certa.
E o que sugere que façamos, Carmen?
Eu sugiro que, se tudo der certo, peguemos tudo.
Depois, é claro, separamos o que é nosso
e podemos doar o resto a alguma instituição de caridade.
Porque o dinheiro não é dele.
O cara é um bandido.
-Sim. -É mesmo.
-Ela está certa. -É verdade.
Você está certa, Carmen. Está certa.
Tem mais um negócio me preocupando.
Quando estivermos lá,
se ele aparecer, o que nós fazemos?
Já temos um plano para isso.
Pois não?
Sim, sou do viveiro Llanos.
Vim fazer a manutenção das plantas.
Ninguém pediu nada aqui.
Mas a minha chefe falou para eu vir, que já tinha combinado.
Não, não é aqui.
Não, desculpe, doutor. Fui eu que falei com ele.
Desculpe o atraso, tive que ajudar minha mãe com uns papéis.
Então, cuide você disso.
Sim, o senhor viu o bilhete que eu deixei ontem?
Tem uma reunião com o prefeito hoje às 19h.
Pode entrar.
Sou a Florencia, secretária do Sr. Manzi.
Miguel, é um prazer.
Tem certeza de que não vou ter que pagar nada?
Não, é completamente de graça.
A ideia é que provem o serviço e vejam se gostam.
Perfeito. Tudo bem.
As plantas são essas e tem um jardinzinho lá fora.
Se precisar de alguma coisa, me avise.
Obrigado.
Viu o que eu disse?
O cara mandou pôr um curral no meio de uma plantação
e colocou umas vacas dentro.
É uma cortina de fumaça.
É para que os funcionários daqui
não se metam naquela colina, que é onde o dinheiro está.
-Aposto o que quiser. -Sim.
Perlassi! Estamos prontos aqui.
Fique atento.
-Já pegaram tudo? -Sim.
-Vamos lá. -Vamos lá.
O que está fazendo, Medina?
Para não me reconhecerem.
Não tem ninguém aqui.
É por isso que nós viemos. Não precisa.
-Nunca se sabe. -Tanto faz.
Vamos lá.
Pessoal.
Vamos indo.
O que coloca nelas?
Fertilizante.
Nas folhas? Tinha que ser na raiz.
É um produto novo, tem que aplicar assim.
Até parece que ele vai construir um sítio aqui. Pensa que somos bobos.
Sei lá, no seu caso isso é discutível.
A propósito, sabe o que podemos fazer com as casuarinas?
Por quê?
Não viu que estão com manchas amarelas nas folhas?
Sim.
Isso é por regarem demais.
Mas eu sempre me esqueço de regar.
Também pode ser por falta de água.
Sim.
Neste caso é falta de água.
Você não tem medo?
De quê?
De tocá-las assim, soube que são bem tóxicas.
Não, está tudo bem.
Puxa vida.
Nós achamos.
-Vamos entrar. -Espere aí.
Eu entro primeiro, caso...
-O quê? -Caso tenha colocado armadilhas.
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE.
-Aconteceu alguma coisa, doutor? -Não.
Não, um alarme foi acionado.
Não.
Está tudo bem?
Sim.
Está tudo bem, é que...
Acho que esqueci umas tesouras.
Preciso delas, estão no carro.
Vou deixar isto aqui um instante e já volto.
Tudo bem.
Alô?
Tocou um... ele está indo...
-Alô? -Tocou um alarme, ele está indo pra aí.
-Saiam daí agora! -O quê?
Filho da puta.
Este é um aviso...
Ele tem um alarme e está indo pra aí!
Não estou ouvindo, cara. O quê?
Alarme!
Alarme!
É o rapaz. Ele está gritando "alarme"!
-Vamos embora! -Vamos!
-Ande! -Vamos!
O Manzi está vindo!
-Vamos, vamos! -Droga.
Vamos! Vamos!
Vamos!
Ande!
Ande, cara!
Vamos!
-Vamos, José! -Andando!
Manzi!
Manzi!
O Manzi está vindo!
-Passe. -Vamos, vamos dar o fora daqui!
Vamos lá, passem.
O quê? O que foi? O quê?
Não. Não aguento mais.
Calma.
A bolsa, José!
-A bolsa! -Vão buscar!
Calma, se apoie em mim.
Assim, vamos. Hernán!
-Vamos, José! -Vamos!
Abra, com cuidado.
Segure-o. Passe a sua perna.
Pronto, a outra perna.
Rapazes!
Vamos!
Vamos.
Vamos lá, pessoal.
-Vamos! -Feche isso!
Onde essa estrada vai dar?
Daqui a 3km vai aparecer uma estradinha.
É paralela à rodovia.
-Está em bom estado. -Tem certeza?
Quem administrou o asfaltamento nessa região, eu ou você?
-Esqueça o que eu disse. -Tudo bem.
Quer beber alguma coisa?
Um copo d'água?
Um pouquinho de água, sim.
BATERIA EM 100%
FORNECIMENTO DE ENERGIA
Por favor, escutem. Escutem, por favor.
Por favor, podemos falar um de cada vez? Não dá pra entender nada.
O que, Florencia?
Bom,
prestem atenção pra que eu não fique me repetindo.
O alarme tocou.
Tocou alto?
Não, Medina. Foi um aviso no celular.
O telefone tocou e o cara saiu correndo.
Então, ele não chamou a polícia.
-Não. -Não.
O que eu quero saber é quanto tempo passou
entre o alarme ser acionado e o Manzi chegar lá.
Não sabemos, Carmen.
Não o vimos chegar lá, nós fugimos.
Mas se nos prepararmos,
vai dar tempo de levantar a tampa antes de o Manzi chegar lá?
Não sei, não temos como descobrir isso.
Nós nem sabemos como está trancada.
A única coisa que eu vi
foi uma tampa de aço maciço
e mais nada, não sei vocês.
Não, não faço ideia.
Eu sei o que temos que fazer.
Filho, deixe quem sabe do assunto falar.
Não, Carmen. Se ele tiver uma ideia, pode falar. Está todo mundo meio perdido.
Temos que vasculhar a papelada do Manzi.
Se ele tem um alarme, deve ter uma conta.
E se descobrirmos qual é o modelo do alarme,
temos chances de descobrir como desligá-lo.
Boa ideia.
Sim.
Sim.
Consegue achar?
Está vendo as beiradas murchas que eu falei?
O quê?
Aí, as beiradas estão meio murchas.
Ah, esta.
Sim.
Já vou dar um jeito.
Sim, já estou de saída.
Cancele a minha reunião com o Quinteros.
Aconteceu alguma coisa?
O Alvarado morreu.
-O moço do banco? -É.
O que aconteceu?
O chefe da polícia falou que foi um vazamento de gás.
Ele e a esposa.
Eles tinham filhos?
Não que eu saiba.
É muito triste.
Estragou o meu dia.
Coitados.
Você o conhecia?
Sim, o meu pai era cliente do banco.
E eu também tive que ir várias vezes por tudo que aconteceu.
A crise também afetou vocês?
Ela acabou com a gente.
Eu ia estudar em La Plata e tive que ficar para ajudar lá em casa.
Que saco.
Bom, felizmente arrumei este emprego.
Eu vou ao banheiro, se o telefone tocar, atende pra mim?
Pode ir, sem problema.
CONTAS
ALARMES SEOANE
UK16-VE...
O que está fazendo com o bico-de-papagaio?
Matou ele.
Não, isso é...
é um corte para enxerto, senão a planta não sobreviveria.
Vou levar esta comigo e quando a trouxer de volta...
você vai ver.
Eu sei que algumas pessoas não levam jeito com plantas...
Mas o seu caso, meu filho...
Chega, pai. Pare com isso.
O Alvarado morreu porque estava na hora, não porque você desejou isso.
Mas isso me afeta.
O cara era um cafajeste, um filho da puta. Mas e a mulher dele?
O Manzi contou como se fosse uma formalidade.
Aquele filho da puta não dá a mínima pra nada.
Não...
Nada, não.
Ele se importa com uma coisa.
E muito.
Muito.
Ande, vá almoçar.
Sensores de movimento infravermelhos.
Sensores de pressão.
Tem efeito mina.
E 120 segundos de latência.
Se não for desativado,
ele é acionado.
UK16-VE.
Ele soa no local?
Bom, não faria sentido.
Mas se vocês preferirem, pra dissuadir os invasores,
pode soar.
Ele manda um alerta a um telefone que vocês escolherem.
Com que tipo de energia ele funciona?
Eletricidade.
E se a luz acabar?
Bateria.
Com uma autonomia de 48 horas.
E se a carga da bateria cair
para menos de 50%,
o alarme é acionado.
Mas mesmo assim,
ainda teria 24 horas de autonomia
para manter o seu sítio protegido.
De qualquer forma, um corte de luz não iria durar dois dias.
Parece impenetrável.
Não parece. Ele é.
-Oi. -Oi.
Eu vim te trazer a planta porque...
Olhe só como ela está bonita.
Eu me lembrei de você e resolvi trazer.
Ah, não precisava.
Não é problema nenhum.
Eu queria trazer para você curtir.
Como fez pra deixá-la assim?
Bom, foram aqueles cortes que você tinha visto e...
fiz uns enxertos e tal.
O meu truque é deixar com outra planta lá em casa.
Ela é meio mágica, tem uma energia...
Sabe como as plantas se entendem? Elas têm...
uma coisa...
uma ligação... Posso te chamar pra sair?
Hein?
Para jantar,
assistir um filme, ir tomar sorvete.
Ah, Miguel.
-Obrigada. -De nada.
Não, mas não posso, tenho namorado.
Tudo bem, vamos nós três. Não sou ciumento.
Bom, eu...
Tudo bem... ah!
Durante a semana eu dou uma passada para ver as meninas.
Tudo bem.
Obrigada.
Qualquer coisa é só chamar.
Bom, tenho que voltar.
Tchau.
-Tchau. -Um beijo.
Alguém tem outra ideia?
Precisamos da senha do alarme.
Os números, sabem?
Com essa senha, podemos entrar no cofre e desativar o alarme.
-Eu tive uma ideia. -Pode falar, Medina.
Com todo respeito, minha senhora...
Ah, pode falar, Medina.
Bom... podia rolar uma surra.
Por que não vamos e enchemos o Manzi de porrada até ele falar a senha
e paramos de enrolar com aquele filho da puta.
Medina, a questão
é que somos pessoas pacíficas.
E queremos continuar vivendo em paz aqui em Alsina, entende?
Eu ia sugerir que fosse à noite, para que não nos visse.
Não, nós entendemos isso, Medina.
É claro.
E então?
Temos que pensar.
Eu tenho que pensar.
É uma guerra psicológica.
Com isso!
Filho.
-O quê? O que foi? -Já sei.
-Já sei. -O quê?
Tive uma ideia.
De como ferrar o Manzi. Venha.
Eles têm que roubar uma estátua,
mas o sistema de segurança é complicado à beça.
E eles o acionam uma vez após outra e enchem tanto o saco,
que até o presidente da França liga pedindo para desativarem.
E eles desativam.
Mas isso é só um filme velho, está brincando?
Esqueça o filme.
Estou falando da ideia!
Chame o pessoal e peça para eles virem.
A essa hora?
Sim, agora.
Então, a sua ideia
é fazer ele mesmo desativar o alarme.
Não, a bateria.
A bateria.
Temos que conseguir que o Manzi desligue a bateria.
Temos que convencê-lo de que a bateria está com defeito.
Então, ele a desliga
e deixa o cofre ligado direto na eletricidade.
Então, quando for a hora,
aí, sim.
Cortamos a energia.
E quando a eletricidade for cortada,
o alarme vai ser acionado.
Sim.
Mas não vamos cortar só a energia do cofre.
Se for um blecaute geral,
o Manzi não vai pensar que tem a ver com o cofre.
É só um blecaute geral. Ponto final.
Ele vai ver.
E como vamos saber quando vai ter um blecaute?
Nós vamos provocá-lo.
Ele quer explodir um transformador da usina elétrica.
Você está maluco.
Não.
Antonio, pense nisto.
Quantas vezes já faltou luz por causa de temporais?
Milhares de vezes.
Mas isso é porque os raios atingem os transformadores.
Estou falando que todo mundo vai pensar que foi isso que aconteceu,
inclusive o Manzi.
Mas você quer deixar a cidade inteira no escuro?
Sim.
Está mais doido que o Bakunin.
Sim.
A primeira coisa que temos a fazer
é descobrir
de onde vem a energia do cofre.
E como nós fazemos isso?
Temos que procurar em todos os postes de luz, um por um.
Até achar um com uma caixa
com um cabo que desça
até debaixo da terra.
Sinceramente...
Desculpem, mas não entendo.
Não é tão difícil, mãe.
Tudo bem, mas deixe eles explicarem.
É o seguinte.
Precisamos conseguir
que ele desligue a bateria,
que é a única coisa que não podemos fazer por nossa conta.
Para isso, temos que convencê-lo
de que o alarme está funcionando, mas a bateria, não.
Por isso temos que desconectar e restaurar o fornecimento de energia, entende?
Por isso precisamos saber por onde o cabo passa.
Mas, por acaso,
os Gómez não tinham achado o poste?
Tinham, mas não é bom cortar os cabos na base do poste.
É que nem o Hernán falou.
Quando cortarmos a energia,
o Manzi vai checar o ponto de aterramento.
E se fizermos um buraco na base do poste, ele vai perceber.
-Temos que saber por onde o cabo passa. -Por favor, Hernán.
Acho que precisamos ficar calmos.
E ouvir uns aos outros.
É importante, talvez alguém tenha algo a contribuir.
Não é?
Isto é um detector de metais.
Como os que são usados em praias pra procurar coisas enterradas na areia.
Sendo o fio tão longo,
tem que ser grosso pela queda de tensão que vai sofrendo.
Temos que ir andando a partir do poste e marcar o percurso no mapa.
Extraordinário.
Você devia me ouvir de vez em quando.
Com licença.
-Sim. -O quê?
-O sinal está mais forte aqui. -É mesmo?
Sim, bem mais. O cabo deve estar mais próximo.
-Olhe. -Por que não fazemos aqui?
Vamos fazer aqui. Para que vamos continuar?
Vamos entrar no terreno do Manzi.
É mais seguro aqui.
Sabe o que está me incomodando?
O quê?
Que se conseguirmos fazer isto...
aquele filho da puta do Manzi,
não vai saber que foi um ato de justiça.
Vai pensar que foi outro filho da puta como ele.
Que diferença faz?
Que diferença faz provar alguma coisa?
Hein?
Um filho da puta
não sente que é um filho da puta, Antonio.
Eles não acordam, se olham no espelho e pensam,
"Como eu sou um filho da puta." Não, eles não sentem culpa.
Isso é para paspalhos como nós.
-Bom, está pronto. -Certo.
Posso cortar?
Bom, acho que sim.
-Olhe a hora. -Cuidado aí,
o Rolo falou que é o azul.
-Não é o preto. -Sim, eu sei, eu sei.
-Vamos ver. -Olhe a hora.
-Vou cortar, hein? -Vá em frente.
FORNECIMENTO DE ENERGIA
BATERIA
BATERIA EM 100%
BATERIA EM 99%
É o transformador nọ3,
que leva a linha de Alsina a Villagrán.
Mas qual deles é o nọ3?
O que está em frente ao portão, no meio.
Esses troços tem uma voltagem do caralho.
Tem que ser maluco pra entrar aí.
Então, o que vamos fazer?
Vamos pensar em alguma coisa.
24 HORAS DEPOIS
Pode juntar.
Pode juntar, já passou do limite da bateria.
O alarme deve ter sido acionado. Precisa de ajuda?
Não.
Puta que o pariu...
Ele está ligando para alguém.
O que nós fazemos?
Vamos esperar ele ir, senão pode nos ver.
Rolo.
Rolo! Venha aqui.
Olhe.
Ele ligou para o Seoane, da companhia de alarmes.
Que momento lindo.
-Que momento. -É mesmo.
Ver esse filho da puta cheio de dúvidas.
O circuito está funcionando.
O senhor disse que apareceu que a bateria
estava pela metade?
De novo a mesma coisa?
Eu já falei que sim.
Dessa vez estava escrito pouco mais de 40%.
Porque na primeira vez que ele soou, a bateria estava cheia.
-Bom, agora está em 100%. -Sim, eu sei que está em 100%.
Sei lá, o fornecimento de energia deve ter sido interrompido.
Não, não teve corte nenhum.
A linha vem de Villagrán.
E não teve corte lá.
Não sei o que dizer, tudo está funcionando aqui.
Se quiser, podemos verificar o cabo.
Sim, é claro que eu quero.
Bom, vou subir e deixá-lo reativar o alarme.
De qualquer forma, não aconteceria nada aqui, no meio do nada.
Como assim?
Só quero dizer que esse lugar é isolado.
Não é da sua conta se for no meio do nada.
Por que tem que dar opinião se é no meio do nada?
O quê?
Só uma pessoa sabe desse alarme além de mim.
Não, não pode estar falando sério, Manzi.
Você está armando contra mim, desgraçado.
Não, como eu vou fazer isso?
É você, seu filho da puta.
-Não! -Quer me ferrar, seu desgraçado?
Vai matar ele, cara!
Fale a verdade ou eu atiro, filho da puta!
Não! Eu juro! Não fiz nada.
Este é o meu trabalho, isso...
Eu trabalho com isto, alarmes, segurança!
Por favor, peço que se acalme.
Ouça, se quiser, posso checar a instalação inteira de graça.
Por minha conta, está bem?
Puta que me pariu!
Ele é louco, cara.
Esse cara é louco.
Desculpe.
Têm sido dias estressantes.
-Desculpe. -Sim, tudo bem.
Eu garanto que os alarmes são bons.
Já instalei mais de 100 desses alarmes e eles funcionam.
Se quiser, podemos ir ao poste para ver o aterramento.
Podemos verificar o cabo.
Está bem?
Sim.
Certo.
Desculpe.
Desculpe.
Não, está tudo bem com a caixa.
A placa do cofre tem circuitos complexos.
E nesta região
a eletricidade não é muito estável.
Talvez as variações de tensão
tenham feito o sensor da bateria reiniciar e isso acionou o alarme.
Eu teria que retirar a placa do cofre e levar para Buenos Aires
para os técnicos darem uma olhada.
Mas...
ficaria sem alarme por duas semanas.
Não, isso não dá.
Bom...
a outra opção é...
desligar a bateria.
E se o problema for com o sensor,
não voltaria a acionar o alarme.
Será que não foi algum bicho?
Ou uma máquina que passou pelo fio?
Não, se tivesse sido, a bateria não teria recarregado.
Acho que é um problema eletrônico.
Certo.
Qualquer problema eu aviso.
Tudo bem.
Ele estava prestes a dar um tiro na cabeça do Seoane, não foi?
Sim.
Mas estava preocupado,
senão não o teria chamado lá.
Será que o Manzi tem desses celulares que fecham?
Do que está falando?
É claro que tem, ele é cheio da grana.
-Você não teria um? -É claro, são os meus preferidos.
Pessoal, isto é coisa séria.
Esse cara é perigoso, é da pesada.
Bom, estou acostumada com caras da pesada, não tenho medo.
E vocês, rapazes?
Estou dentro.
Vamos continuar?
-Sim. -Sim.
Bom, então vamos lá.
Temos que conseguir que ele desligue a bateria,
e para isso, precisamos fazê-lo enlouquecer.
Mas enlouquecer mesmo.
BATERIA EM 49%
FORNECIMENTO DE ENERGIA BATERIA
BATERIA EM 49%
Este é um alerta do seu alarme UK...
Com licença.
Com licença.
BATERIA FORNECIMENTO DE ENERGIA
BATERIA EM 72%
BATERIA EM 49%
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE.
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE.
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE.
BATERIA EM 72%
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE...
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE...
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE...
BATERIA DESLIGADA
-Isto ainda é propriedade do Estado? -Sim.
E por que você tem uma chave?
Quanto menos souber, melhor.
-Você sente saudades? -Do quê?
De administrar o Centro de Asfaltamento.
Acordar às manhãs orgulhoso de trabalhar sem roubar um centavo?
De ter uma família feliz?
Sabe que eu não tenho?
Não sinto saudade nenhuma.
Vamos.
Está aí.
Estão brincando?
Não estamos, não.
Venha, Fermín. Vou te mostrar, venha.
A cereja do bolo.
90 quilos de dinamite.
-E então? -Esqueça, não posso fazer isso.
Tem que fazer, ou quer que aquele filho da puta nos pegue com as mãos na massa?
-Eu te entendo, mas você me entende? -Eu entendo, mas precisamos disso.
-É uma relíquia. -O peronismo também é, mas ainda existe.
Vamos deixá-los a sós para que se entendam. Vamos.
Você é o melhor.
Não se esqueça.
Vou ao banheiro, já volto.
Tudo bem.
Fale o que está acontecendo.
Como assim, o que está acontecendo?
Pensa que sou idiota?
Desde que você apareceu, meu chefe não para quieto por causa de um alarme.
E eu sei mais de plantas que você.
Então, me diga o que está acontecendo.
Ou você me conta agora ou eu saio e falo tudo para o meu chefe.
Alô?
Você decide.
-Doutor, tenho que falar com o senhor... -Agora não.
-Não, senhor... -Não!
Ele está indo.
Fortunato Manzi,
o seu chefe,
é um monstro.
Um filho da puta.
O Manzi tinha um acordo com o Alvarado,
que sabia que ia ter essa desvalorização, e fez um empréstimo ao seu chefe
com todos os dólares do banco na sexta-feira anterior àquela confusão.
Todos os dólares.
Centenas de milhares.
Os da minha família, os da sua.
Os de um grupo de pessoas que tinham juntado pra formar uma cooperativa.
E vocês quer roubá-los.
Nós não queremos roubar nada.
Não somos ladrões.
Escute.
Queremos recuperar o que é nosso.
E se você quiser, o que é da sua família também.
Não, eu não quero.
Eu não quero saber de nada. Por favor, vá embora.
Espere, escute uma coisa.
Nós perdemos tudo.
Eu perdi a minha mãe.
Em um acidente.
Por causa desses filhos da puta.
Eles acabaram com as nossas vidas.
Eu quero que a cooperativa seja feita.
Porque era o sonho da minha mãe.
Eu só quero isso.
E o meu nome não é Miguel,
é Rodrigo.
O que aconteceu?
Foi só um transformador de média tensão que pifou, já estamos consertando.
E a luz foi cortada na região toda?
Não. O problema é aqui.
Para os lados de Villagrán, Alsina, está tudo com energia.
O problema é daqui pra lá.
-Daqui pra lá. -Mas...
acho que daqui a pouco deve estar tudo pronto.
Pessoal, como está tudo aí?
Está quase pronto.
Bom, sim.
Em breve vai estar tudo resolvido, doutor.
O senhor me conhece?
Não, por quê?
Me chamou de doutor.
Ah, não. É que...
alguém com um carrão desses só pode ser de doutor pra cima.
Certo.
-Obrigado. -Até logo e desculpe o transtorno.
-Alô? -Alô.
Liguem tudo e caiam fora porque ele está indo.
Pegamos ele.
-Pegamos ele. -Um abraço, camarada.
Camarada é o escambau.
É perigoso que o Manzi vá pra lá?
Não, pelo contrário. É melhor assim.
Ele tem que ver tudo bonitinho e funcionando.
Nós já sabemos que ele desligou a bateria.
Eu não podia fazer outra coisa, desculpem.
Ela me encarou e eu não soube como responder.
Você não teve escolha e pronto, filho.
-O que vamos fazer agora? -Nada.
Nada, largar de bobagem e parar com tudo.
Fermín.
Conseguimos que ele desligasse a bateria.
Nós só temos que esperar um temporal, estamos quase lá.
Quase onde, Antonio? Pense.
Quase acabando ainda pior?
A garota sabe de tudo!
Ela já deve ter contado tudo pro Manzi.
Do que ela sabe?
O que ela vai contar pra ele?
Que tem um garoto chamado Rodrigo
que quer recuperar o que roubaram dele.
Só isso!
-Só isso? -E daí se ela contar pro Manzi?
O que ele vai fazer, chamar a polícia?
O pior que pode acontecer é que tire o dinheiro do cofre.
Ela me ouviu, pai.
Eu sei que me ouviu.
Posso voltar e tentar descobrir se ela contou alguma coisa.
Você nunca mais vai pisar lá! Nós já falamos sobre isso, Rodrigo.
Você não entende?
Acabou!
Eu perdi a minha esposa.
Não vou perder o meu filho.
Acabou.
Assunto encerrado.
Você viu o temporal que vem aí, não é?
Não sei o que quer jantar,
mas sobrou um pouco de carne assada, posso requentar e fazer umas batatinhas...
Ei, a Florencia não vai falar nada.
Como você sabe?
-O Manzi já sabe de tudo. -Não, escute.
Eu estava lá.
Quando contei pra ela, senti que ela entendeu.
Ela não vai nos entregar, pai. Eu vi nos olhos dela.
Do que está falando?
Você não conhece essa menina. O que sabe dela?
O que viu nos olhos dela? Explique para mim!
O Manzi sabe de tudo!
Ele já deve ter esvaziado o cofre.
Pense! Não faz sentido.
É um milagre que não tenham te reconhecido!
O que está fazendo aqui?
Você devia estar estudando em La Plata com seus amigos, largue de bobagem!
Olhe para mim.
Esqueça tudo isso.
Obedeça.
Quer encher o tanque?
Fermín...
Antonio, nós já conversamos. Assunto encerrado.
Fermín.
Nós entendemos. Se não vier, está tudo bem.
Mas nós vamos seguir em frente.
Façam o que quiserem, não contem com a gente.
Comigo, sim.
Eu vou.
Não vou recuar.
Eu vou até o fim.
Vamos.
Vamos receber com uma salva de palmas,
María Gabriela e Juan Carlos!
Com este aplauso dizemos o quanto os adoramos
e o quanto os amamos.
Nesta noite que vai ser inesquecível,
e que todos nós vamos prezar para sempre
em nossos corações.
O seu pai não falou que o maçarico já era suficiente?
Combinamos que levaríamos tudo.
Mas depois, ele falou para ir mais leves, por causa da lama.
Vamos levar tudo.
Por que vamos levar tudo? Duas bananas não eram o suficiente?
O Perlassi falou para jogar tudo que sobrar na lagoa e não deixar pistas.
Vamos lá, até ligar.
E não encoste no pedal!
Os rapazes peronistas
Vamos lá, pessoal!
É o meu pai...
É o meu pai!
É isso aí, Perlassi!
Você disse que vai até o fim.
Eu vou com você.
-Esse cara é o máximo. -Escutem...
-Ele sabe das coisas. -Ouçam, por favor.
Espere o meu aviso.
Se por algum motivo,
não conseguirmos nos comunicar, os celulares não funcionarem ou sei lá,
use o sinalizador. Esse é o sinal para entrarmos.
-Entendeu? -Entendi.
-Todo mundo sabe o que tem que fazer? -Sim!
Certo, vamos lá!
Vamos lá, Medina!
Deixe um pavio bem longo para dar tempo de cairmos fora, está bom?
Sim! Pode ficar tranquilo, porra.
-Pronto! -Agora não vai atolar mesmo.
Pessoal!
-Vamos descarregar tudo. -Certo.
Aqui já está tudo pronto, pai.
Tudo bem.
Agora é esperar o aviso do Fontana.
Espere aí!
Não brinque com isso! O que está fazendo?
Estou testando! Qual é o transformador nọ3?
É o do meio, aquele ali.
Alô?
Antonio?
Alô?
A minha parte está feita!
Tchau!
Rolo! Vá em frente.
-Vamos lá, Medina! -Vamos lá.
Mande para o do meio.
Para o meio! Mande para o do meio, porra! É o do meio!
Não! Ele faz o que quer! Não consigo!
-Controle essa porra! -Ele faz o que quer!
Não!
Puta que o pariu!
A eletricidade desses aparelhos está dando interferência!
-Não deu certo, vamos embora! -Não!
Tem que ser agora.
E o que vamos fazer?
Vamos fazer as coisas pra valer, Medina.
Acenda, Medina!
Pronto!
Corra, Medina!
Corra!
Não atende e não usou o sinalizador. Que diabo está acontecendo?
Não sei.
-Puta merda! -O que é isso?
-Foi o sinalizador? -Nem a pau foi o sinalizador.
O que aconteceu?
Aconteceu algo errado!
O que vamos fazer?
Este é um alerta do seu alarme UK16-VE...
Aconteceu alguma coisa, querido?
Não. Está tudo bem.
O que vamos fazer?
Vamos seguir em frente.
-Vamos. -Vamos!
Vamos indo!
Você sabe o que aconteceu?
Já estão chamando a companhia elétrica.
Deve ter sido um raio. Sempre acontece.
O que aconteceu?
Ele disse que foi um raio.
Falaram que também está faltando luz em Rufino.
-Como assim, em Rufino? -Pois é.
Então não pode ter sido um raio.
-Alô? -Vázquez, é o Manzi.
Como vai, senhor?
Estamos sem luz.
O que aconteceu? Foi um raio?
Não, que raio? Isto foi intencional.
Eles explodiram tudo.
Nunca vi uma coisa assim. A subestação está completamente destruída...
Aonde você vai?
Minha Nossa!
A quantidade de gente que esse filho da puta enganou.
-Ande, Perlassi! -Vamos!
A outra.
-A outra. -Vamos, andem logo!
-Um minuto! -Vamos! Ande, Perlassi!
Já vai!
Puta que o pariu!
Tome.
Me ajude!
Vamos!
Cuidado.
Vamos!
Ande, cara! Vamos!
O Manzi.
É o Manzi. O Manzi está vindo! O Manzi!
Vamos embora!
Filhos da puta!
Nós conseguimos!
Não acredito!
Vocês estão vivos!
Como foi lá?
-Nós conseguimos. Conseguimos. -Nós conseguimos!
Ei!
Calma.
Não vamos perder tempo.
Vamos nos separar, por via das dúvidas. Certo?
Nós vamos levar um saco.
-Hernán, leve o outro pra sua mãe. -Certo, certo.
-Quem vem comigo? -Gómez, leve o Medina.
-Rolo, você vem com a gente. -Vamos!
Andem! Vamos!
Tomem cuidado, não vamos perder tempo. Vamos.
Passe para cá.
Nós conseguimos.
Bom trabalho, garoto. Muito bem.
Não!
Não! Filhos da puta!
Filhos da puta!
Não!
Não!
Não!
Não!
Filhos da puta!
Não!
Quanto ele levou?
Não sabemos ao certo, mas...
havia uns dois milhões de dólares naquele saco.
Carmen.
Sei lá, talvez, daqui a um tempo...
ele pense direito e...
e volte.
Ele não vai voltar.
A Carmen estava certa.
O Hernán nunca mais voltou.
A Metóidica reabriu as portas em 14 de setembro de 2003,
o dia do aniversário da Lidia,
e deu emprego a 57 pessoas.
Nós doamos o resto, como tínhamos combinado.
Os nossos sonhos se realizaram.
Os grandes...
e os outros.
Alô?
Oi.
-Alô, José? -Como vai, Eladio?
A verdade é que essa história mudou a vida de todo mundo.
Para sempre.
Finalmente, acho que ser um tonto não é tão ruim.
Porque o que ninguém diz,
nem mesmo os dicionários,
é que nós tontos somos pessoas que aprendemos a nos reerguer
uma vez após outra.
E a não desistir nunca.
Nunca.
A ODISSEIA DOS TONTOS
-Rapaz. -Tudo bem?
-Arrume o meu pneu, por favor. -Sim.
Vai um chimarrãozinho?
Obrigado.
Tradução: Rodrigo Henriques
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