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Esta sou eu, Waad. H� dez anos.
Tinha 18 anos.
Naquele ano, sa� de casa
para estudar na Universidade de Alepo.
Os meus pais disseram-me para ter cuidado.
Sempre diziam que era cabe�a dura,
inclusive irrespons�vel.
Nunca percebi o que queriam dizer...
At� ter uma filha.
Tu.
Sama, mam�!
Mam�!
PARA SAMA - Sama!
Des�am! Todos! Des�am!
Est� a chegar outro!
Estamos a ir.
Algu�m pode levar a Sama, por favor?
Des�am, depressa!
- Foi um ataque a�reo? - Foi um tanque.
Que loucura! Todos os dias � isto.
Depressa, temos de descer!
Quem levou a Sama?
Sama!
Caiu bem atr�s de n�s.
A minha menina?
Quem levou a minha menina?
N�s n�o.
Tirem as crian�as daqui!
Vamos, temos de bombear os exaustores manualmente!
- Vamos, depressa! - A minha menina?
Enfermeira! Enfermeira!
Meu Deus!
Meu Deus!
- Sama. - A sua filha est� ali.
Estou a ir, meu amor.
- Onde � que ela est�? - Aqui, est� a mamar.
- Tinha uma m�scara nela. - Estava a dormir quando...
Agora est� a mamar.
Chega de divers�o por hoje.
N�o se preocupe, doutor. Somos fortes. Aguentamos.
- Estamos bem protegidos. - Por Al�, calem-se!
Ali�s, desde que disse que n�o bombardeiam hospitais...
- Est� sempre a ser bombardeado! - Exactamente!
Ela est� a dizer: "M�e, porque me deste � luz?"
"S� h� guerra, desde que nasci."
Sama...
Sama,
�s a coisa mais bonita da nossa vida.
Mas olha para que vida eu te trouxe.
N�o escolheste isto.
Perdoar-me-�s um dia?
JULHO DE 2016
O regime s�rio e os seus aliados cercaram-nos.
Alepo.
A minha cidade.
Nunca pens�mos que o mundo deixaria isto acontecer.
Continuo a filmar.
Filmar d�-me uma raz�o para estar aqui.
Faz com que os pesadelos valham a pena.
Quando ou�o os avi�es russos no c�u...
aquele som acaba comigo.
Sim, tenho medo de morrer.
Mas o que mais me assusta...
� perder-te.
Sama,
fiz esse filme para ti.
Quero que percebas
porque o teu pai e eu fizemos esta escolha.
Pelo que est�vamos a lutar.
5 ANOS ANTES
Estava no 4� ano de Economia, quando a revolu��o come�ou.
Hoje � a manh� de 29 de Abril de 2012.
Alepo. Departamento de Ci�ncias.
Este � o grande muro da universidade.
Bom dia.
O que est�o a fazer?
Vamos derrubar o Presidente Bashar,
mesmo que seja s� nos muros.
Somos os estudantes livres da Universidade de Alepo.
A ditadura da fam�lia Assad governou a S�ria
desde que o seu av� tinha 10 anos.
O pa�s afogava-se em corrup��o, injusti�a e opress�o.
Levantem a voz!
Viveremos com dignidade ou morreremos!
Estudantes livres em Alepo! A universidade da revolu��o!
A nossa revolu��o � pac�fica! Mu�ulmanos e crist�os juntos!
O regime negou que havia manifesta��es.
Filmar com o telem�vel era a �nica maneira
de mostrar ao mundo que lut�vamos pela liberdade.
Traidores, traidores! O ex�rcito s�rio traiu o povo!
Traidores, traidores!
Deixem-me passar!
Deixem-me passar!
- Observador da ONU! - Os soldados atr�s!
- Olhem atr�s! Os soldados! - Al� � grande! Ali est�o eles!
Veja com os seus olhos!
N�o diga que n�o os v�!
- Fechem a porta! - Bloqueiem-na!
N�o est� a ver? Eles n�o s�o das for�as de seguran�a?
Abram a janela!
N�o abras! V�o-nos prender!
- V�o-nos bater! - V�o-nos prender!
Deixa-a trancada! Canalha!
Sama,
naquela altura, a �nica coisa que importava era a revolu��o.
Hamza!
Est�o muito atrasados.
- P�ra de reclamar. - O qu�?
P�ra de reclamar.
- Estou animada. - Animada?
Vamos.
O Hamza era um dos meus melhores amigos.
Formou-se em medicina.
Ol�, Dr. Hamza.
Ele ajudava feridos nas manifesta��es.
A equipa de primeiros socorros
est� a caminho da manifesta��o da sexta-feira.
Vamos � pressa, porque estamos atrasados.
O Hamza tinha sempre um sorriso no rosto.
Ele acalmava-me.
N�o importa o que estava a acontecer.
Por ser um dos poucos m�dicos que tamb�m era activista,
sempre o filmava.
Estou bem? Como est� o som? A testar...
1, 2, 3...
Ele estava numa rela��o a longo prazo na altura.
Estamos a gravar!
Nenhum de n�s imaginava que a nossa antiga vida
iria por �gua abaixo.
Hoje � dia 29 de Janeiro de 2013.
Leste de Alepo.
Ouvimos dizer que encontraram corpos no rio.
Ou�am todos, por favor!
Por favor!
Se j� viram os corpos, saiam!
N�o precisam ter pressa. N�o ser�o enterrados hoje.
- Veio aqui para filmar isto? - Claro.
Hoje, Alepo acordou com um massacre.
E isto � um eufemismo.
Os exames preliminares mostram
sinais claros de tortura, na maioria dos corpos.
Todos os mortos eram civis algemados.
A maioria foi morta com uma bala na cabe�a.
O que est�o a fazer?
Est�o a tentar tirar os corpos.
Todos os mortos viviam em zonas que se opunham ao regime.
A maioria foi vista pela �ltima vez
no posto de controlo do regime.
Sentimos que era uma mensagem.
Os nossos mortos
Foram ao para�so
Bashar matou o nosso povo
Aquele filho de um assassino
Os nossos mortos
Foram ao para�so
Fic�mos chocados ao ver o que o regime fazia
para permanecer no poder.
Os teus av�s tinham medo de mim, Sama.
Ouve...
Disseram para ir para casa, mas n�o vou.
N�o tem como me libertarem, e h� muito para ajudar.
Como era teimosa naquela altura, claro que decidi ficar.
A mulher do Hamza pressionava-o para deixar a S�ria.
Ele teve de escolher entre a revolu��o e o casamento.
Ele decidiu ficar.
Quando rebeldes armados libertaram o leste da cidade,
a viol�ncia do regime ficou ainda mais radical.
O Hamza est� a�?
O Hamza era um dos 32 m�dicos que ficaram a leste de Alepo.
H� quantos a�?
Tir�mos a mulher daqui.
Disse que estava com o beb� de 5 meses.
Vamos cavar at� encontr�-lo.
H� um beb� de 5 meses aqui em baixo.
Sem o regime,
t�nhamos de fazer tudo sozinhos.
N�o havia escolas, emerg�ncias ou servi�os hospitalares.
Ent�o o Hamza e os nossos amigos montaram um hospital.
Temos de agradecer a Bashar Al-Assad
por nos obrigar a fazer tudo do zero.
Aqui temos de ser serventes, farmac�uticos, canalizadores...
Est� feliz, doutor?
� o gerente do hospital, e est� a gozar a equipa?
A liberdade era para isto?
- N�o, isto n�o � bom! - � pois!
Como te sentes?
� bonito ter a palavra "liberdade" pintada na testa.
O Omar, � esquerda,
tinha ganho uma bolsa para estudar arquitectura.
Gaith, � direita,
estudava medicina antes da revolu��o.
Ambos se ofereceram como enfermeiros.
�ramos uma fam�lia.
Partilh�mos muitos momentos juntos pela primeira vez.
A luta pela sobreviv�ncia.
Faz meia hora e ainda est� a respirar.
N�o foi errado tentar salv�-lo.
Ele quer viver.
Pass�mos pelo primeiro bombardeamento juntos.
Des�am, des�am!
Depressa, depressa!
Waad!
Eu n�o sabia se ria ou corria.
Eu disse: "Calma, vamos l�". E ele: "O jacto! O jacto!".
Infelizmente,
tamb�m partilh�mos a primeira perda.
Gaith e o seu irm�o Mahmoud foram mortos num ataque a�reo.
Omar foi morto por um disparo de tanque.
Est�s bem?
Perd�-los tornou isto
ainda mais importante para continuarmos.
N�o importava o pre�o.
Um dia no hospital...
Estava a filmar um rapaz que estavam a tentar salvar.
Aquilo fez-me chorar.
O Hamza veio e disse-me zangado:
"N�o podes chorar aqui, sai!"
Corri l� para cima.
Ele seguiu-me e disse: "O que se passa?"
"N�o suporto ver-te em baixo."
"N�o percebes que estou apaixonado por ti?"
"Queres casar comigo?"
N�o conseguia acreditar.
O nosso casamento foi pequeno, mas lindo, Sama.
A nossa m�sica soou mais alta que as bombas que ca�am l� fora.
Desliguem as luzes para eles!
� o tema da Pantera Cor-de-Rosa.
Por um minuto, pensei nisso!
� a �ltima m�sica!
Deixem-nos a s�s.
O Hamza foi quem me agarrou pela m�o e disse:
"Este � o caminho que vamos seguir."
"� um longo caminho, cheio de perigos e assustador."
"Mas a liberdade espera-nos no fim."
Anda.
Vamos caminhar juntos.
SETEMBRO DE 2016
3� M�S SOB CERCO
Sama!
Bom dia, minha querida!
Muitos ataques a�reos hoje, n�o �?
Mas n�o nos atingiram, pois n�o?
Meu amor.
Sama,
as coisas est�o bem m�s agora.
O pap� n�o pode sair do hospital,
ent�o agora vivemos aqui.
Este � o nosso quarto.
Atr�s dos quadros, h� sacos de areia
para nos protegerem dos bombardeamentos.
Sim, estou a ir.
Estamos a fazer o poss�vel para que se sinta em casa aqui.
Est� outra vez a come�ar?
Um helic�ptero aproxima-se da linha da frente
armado com uma bomba barril.
H� uma emerg�ncia.
Tenho de descer.
Esperem aqui fora, meninos.
- � o teu irm�o? - Sim.
Onde foi o ataque?
Estava na janela a dizer para o meu irm�o entrar,
quando houve uma explos�o e o m�ssil atingiu a casa.
Sem pulsa��o?
� o nosso irm�o!
N�o h� nada!
Ele s� estava no exterior da casa...
Que ele descanse em paz. Reza por ele.
O meu filho Mohammad foi trazido para aqui?
Qual � o sobrenome dele?
Mohammad...
Qual � o sobrenome dele?
� o meu filho! � o Mohammad!
- � o seu filho? - Sim! Claro que � ele!
- Deixe-me ajud�-la. - � o meu filho e vou lev�-lo.
� o meu filho! � o meu amor...
Porque n�o o posso levar?
- M�e, m�e! - � o meu filho!
Deixe-me lev�-lo para si.
- Eu levo. - N�o! N�o mo tire!
Eu n�o o perdoaria. N�o o perdoaria se fizesse.
� o meu filho, o meu filho!
Mohammad Amin est� morto.
O meu querido est� morto!
Ele est� morto!
O que foi?
Nada.
As crian�as n�o t�m nada a ver com isto. Nada.
Estou a sentir-me sufocada, Sama.
Ainda te vejo l� em baixo como aquele menino,
e eu como a m�e dele.
N�o posso dizer isto ao Hamza.
N�o suporto nem dizer a mim mesma.
1 ANO ANTES
Aqui � Alepo! Aqui � Alepo!
Alepo, 18 de Mar�o de 2015.
Durante um tempo, t�nhamos a certeza de que �amos vencer.
Na Alepo rebelde, viv�amos num pa�s livre.
Finalmente, sent�amos que t�nhamos um lar
pelo qual est�vamos preparados para morrer.
Est�vamos prontos para fixar ra�zes no solo.
Este � o quarto de h�spedes.
Porque est� a luz acesa?
Apaga. Os fios est�o manhosos.
Est� bem, desculpa.
Hoje � um dia muito especial para mim.
Finalmente entr�mos na casa e a limp�mos.
Tivemos muitos problemas,
mas agora podemos aproveitar para viver nesta bela casa.
- Amo-te! - Parab�ns pela casa.
Encontr�mos a nossa primeira casa juntos.
Tinha um jardim igual � casa onde cresci.
Al� criou esta coisa linda e queres cort�-la?
Naquela altura, tudo na cidade parecia bonito para mim.
Surpresa!
Olha para a mesa!
Olha como isto est� lindo!
Ficou lindo!
N�o est�s com medo?
N�o est�s com medo?
- D� c� isso. - A s�rio?
A minha c�mara!
Amo-te muito, at� mais do que a neve!
AMO-TE
Estou gr�vida! Meu Deus!
Hamza, estou gr�vida.
Hamza, estou gr�vida.
- Est�s a ver a m�o? - Sim.
Antes de nasceres,
sab�amos que serias especial, Sama.
Isto � a m�o.
Ela � danada!
Amo-te.
A felicidade que nos trouxeste estava ligada ao medo.
Esta nova vida contigo, fez-me sentir muito fr�gil.
Fr�gil como a liberdade que sent�amos em Alepo.
Os extremistas isl�micos tentavam liderar a revolu��o.
Mas o que eles faziam n�o era nada
comparado � brutalidade do regime.
Olha ali!
Eles lan�aram uma bomba?
Ainda n�o.
Est� a voltar.
Em nome de Al�.
Meu Deus...
N�o atingiu o nosso im�vel, mas os atr�s de n�s sim.
Pobres plantas...
- Maldito Assad! - Cuidado, meu amor.
O que foi?
Tipo, n�s criamos algo.
N�s as plantamos.
Regamos e elas crescem.
Apenas para uma bomba as destruir...
Espero que nem todas tenham morrido.
N�o quero morrer...
Quero viver, dar � luz. Quero que o Hamza esteja comigo.
Quero isto tudo. N�o quero morrer, quero viver.
Por favor, Al�...
Por favor, Al�, que nada aconte�a
ao meu beb� ou ao Hamza. Posso suportar o resto.
Por favor, Al�.
Todos que ficaram na cidade
tiveram de enfrentar o mesmo medo, Sama.
Est� com cara que vai ficar saboroso!
Afraa e o seu marido Salem t�m tr�s filhos.
Wisam, Zain e Naya.
Esta fam�lia era a nossa melhor amiga.
- Chegamos! Des�am! - V�, Naya! Agora � a minha vez!
As crian�as reflectem-se nos pais,
e somos optimistas.
N�o ligam se est�o sitiadas. Nem sabem o que isso �.
- Ol�. - Ol�.
- Como est�s? - Bem.
Queres sair de Alepo?
Eles disseram que haveria uma invas�o,
mas eu quero ficar.
E se os teus pais quiserem ir embora?
Ficarei aqui sozinho.
- Sozinho, onde? - S� vou ficar.
Onde vais ficar?
N�o sei.
E os teus pais, v�o sair ou ficar?
N�o sei.
Porque est�s a chorar?
V� l�...
N�o chores.
N�o vamos for�ar-te a ir, prometo.
Ningu�m vai embora, v� l�...
Ele est� triste porque o amigo dele n�o veio hoje.
Ele foi embora com a fam�lia.
At� as crian�as n�o querem ir. Como vamos embora?
Respeitava muito esta fam�lia.
Tentavam ser corajosos diante de uma escolha imposs�vel.
Sair da cidade
seria o pior exemplo para as crian�as.
Ficar era melhor que ser ego�sta e fugir para se salvar.
O que queres ser quando fores grande?
Quero ser arquitecto e reconstruir Alepo.
Mas ficar,
significava p�-las a viver no inferno.
- Tia Waad? - Sim?
- O que est� a fazer? - Estou a filmar.
N�o sabia o que far�amos quando nasceste.
Est�?
Ouve,
logo estarei a� no hospital.
Vou dar � luz hoje.
- A s�rio? - Sim.
Como te sentes?
Vou trazer uma macaquinha igual a mim.
Fomos ao hospital que o teu pai montou.
Ela parece bastante com a Waad!
Quando eu te vi...
Lembrei-me de tudo que sofremos, todas as pessoas que perdemos.
No entanto, deste-me esperan�a para come�ar tudo de novo.
N�o a fa�as chorar.
J� chega!
OUTUBRO DE 2016
4� M�S SOB CERCO
Esta noite, depois dos bombardeamentos di�rios,
um amigo trouxe-te at� n�s.
Estamos na sala das urg�ncias.
- � teu familiar? - � meu sobrinho.
Estavas em casa a dormir?
- Onde est�o os pais? - Ol�?
- Os pais dele? - Mortos, acho eu.
Detesto admitir isto...
Mas invejo a m�e deste menino.
Pelo menos ela morreu antes de enterrar o seu filho.
No sil�ncio que se segue a um massacre,
quando sinto que estou a sufocar,
tiro-te do hospital e levo a minha c�mara comigo.
S� preciso ver pessoas vivas.
Para tentar levar uma vida normal neste lugar,
tens de ser contra o regime.
Se o rei morre, o jogo acaba.
Se Bashar Assad morrer, a guerra acaba.
Esse desgra�ado tem um pesco�o longo.
- � um sinal de longevidade. - � a merda de uma girafa!
Hoje, Salem organizou uma festa para ti e para outras crian�as.
Somos uma equipa. Um balde e um pincel para dois.
Pintem � volta do autocarro.
- Fa�am a vossa parte ficar bonita. - Boa.
Tentamos dar-te a melhor inf�ncia poss�vel.
Pinta, pinta!
Pinta, Sama!
Linda menina!
Naya, como � que este autocarro pegou fogo?
Foi bombardeado.
Sabes o que atingiu o autocarro?
Uma bomba de fragmenta��o.
- Motorista, chegamos � escola? - Sim, chegamos!
Des�am!
As crian�as ainda v�o � escola.
Afraa dirige uma delas.
Estamos sob cerco. A situa��o � de emerg�ncia.
Os alunos v�o passar fome.
N�o se pode resolver equa��es com o est�mago vazio.
As aulas t�m de ser no subsolo,
para protec��o contra os bombardeamentos.
Mas como estamos sob cerco,
n�o h� como manter todos seguros.
Houve um ataque a�reo.
Est� a vir um segundo ataque a�reo!
N�o fiquem todos juntos!
Espalhem-se!
Por favor, Al�, por favor!
Amir!
Entrem!
Entrem!
Trouxeram uma mulher ao hospital.
Ela est� gr�vida de 9 meses.
O corte � muito fundo.
Sim, pode ter atingido a art�ria.
Ter�o de fazer uma cesariana de emerg�ncia.
- Ele tem pulsa��o? - Nada.
Meu Deus!
Al� seja louvado!
Ele chorou?
- � isso tudo! - Chora!
Ambos est�o bem.
� um milagre.
Isto d�-nos for�a para continuar a nossa luta.
Assim como tu, Sama.
8 MESES ANTES
7 de Fevereiro de 2016.
O meu primeiro beb�, Sama.
O nome dela significa "c�u".
N�s amamos o c�u, queremos o c�u.
Sem for�as a�reas, sem bombardeamentos.
Um c�u com sol, com nuvens...
Com p�ssaros.
Sama?
Sama!
Ouviste-me?
Sama?
Sama!
Sama!
Sama!
Ela est� a rir!
Sama!
Meu Deus!
A minha felicidade desaparecia
sempre que ouvia os avi�es russos.
Desencadearam um ataque rel�mpago em Alepo
para salvar o regime.
Certa noite, est�vamos longe do hospital.
De repente, os nossos telem�veis enlouqueceram.
O hospital foi bombardeado!
H� mortos! H� feridos!
Algu�m me pode dar detalhes? Qual � a situa��o?
Doutor, o Ismail, o homem da manuten��o,
foi morto.
Os russos mataram 53 pessoas.
O Dr. Washim foi uma delas.
Foi ele quem verificou os teus sinais vitais, Sama.
O bombardeamento a hospitais
acaba com o esp�rito das pessoas.
O ataque destruiu totalmente o nosso hospital.
N�o h� tempo para o luto em Alepo.
Por um milagre, o Hamza encontrou um edif�cio
projectado para ser um hospital.
O arquitecto disse que as paredes s�o bem fortes.
Os pontos fracos s�o as janelas.
O lugar n�o estava em nenhum mapa.
Desta forma, os russos e o regime
n�o saberiam onde bombardear.
Em Julho, fomos � Turquia, ver o teu av� que estava doente.
De repente, o regime lan�ou uma ofensiva
apoiada por avi�es russos.
Uns dias depois, soubemos que quase tomaram
a �ltima estrada para voltar a Alepo.
S� com um olhar,
percebi que o Hamza pensava o mesmo que eu.
L� vamos n�s, em nome de Al�!
Ningu�m percebeu nada.
Os pais do Hamza disseram:
"� muito perigoso. Pelo menos deixem a Sama aqui".
Avi�es russos a ir para norte.
Racionalmente, sab�amos que tinham raz�o.
Mas, emocionalmente, sentimos que t�nhamos de voltar
e traz�-la connosco.
N�o sab�amos a raz�o.
A verdade � que n�o acredito que fizemos isto at� agora.
Vamos, rapazes!
- Esse � o lugar, mano? - Sim, chegamos.
Tr�s amigos do hospital vieram connosco.
Meu Deus!
O �nico caminho de volta
era um caminho estreito pelas linhas da frente.
Fiquem aqui um bocado.
Vamos � frente para explorar o terreno.
- Dr. Hamza, porque est� a ir? - Vamos para Alepo,
porque estamos nesta luta h� cinco anos,
desde as manifesta��es pac�ficas.
Cada um de n�s, tem um papel muito importante
em apoiar a justi�a contra a opress�o.
At� ela tem um papel na decis�o do resultado.
- Para onde agora? - Vai, sempre em frente.
Estou contigo.
Se ouvirem um proj�ctil, deitem-se de imediato.
- A crian�a est� bem? - Est�.
- Vamos! - Segue-os!
Estou a ir!
J� pass�mos pelo...
O que foi, querida? Porque est�s a chorar, meu amor?
- Sama! - Estamos quase a chegar, Sama.
Ningu�m sabia o qu�o perto estavam os soldados do regime.
- Fala com ela. - Sama!
Aqueles pintainhos
S�o t�o bonitos
A andar alegres � volta da mam�
Eles beberam �gua
E disseram: "Op�!"
E agradeceram a Al�
Alepo!
De alguma maneira, sobrevivemos.
Que bom que est� a salvo, doutor!
Onde est� aquela menina?
Eles ficaram mais felizes por te verem do que a n�s, Sama.
Waad! Como te sentes?
Aliviada! Agora posso morrer feliz.
Era como se fosses a filha do hospital inteiro.
Era o nosso destino estarmos todos juntos aqui.
Feliz cerco!
Estamos sob cerco!
Estava a dormir e senti algo quente nas minhas costas.
Pensei: "Algu�m derramou ch� ou caf� em cima de mim?"
"Seria o meu marido, a trazer-me o caf� � cama?"
Dei conta que a minha filha
foi para a minha cama e fez xixi em cima de mim.
Que manh� po�tica!
Acho que esta p�ssima manh� foi um sinal
de que est�vamos a ser cercados.
NOVEMBRO DE 2016
5� M�S SOB CERCO
As pessoas queimam pneus
para que os russos n�o vejam onde bombardear.
Viva a rebeli�o de Alepo!
Fa�am tremer o pal�cio do presidente!
Os mantimentos est�o a acabar.
N�o temos vegetais, nem fruta.
� dif�cil encontrar fraldas e leite para ti.
Um lugar sob cerco n�o � bom para se criar um filho.
Vem, querida, vou contar uma hist�ria.
Pai, conte a hist�ria do menino que teve a casa destru�da.
- A do menino? - Sim.
O menino estava a jantar com os irm�os e as irm�s,
e com a m�e e o pai.
Enquanto comiam,
ele foi � varanda.
Enquanto estava l�,
veio um avi�o e disparou um foguete.
Onde o foguete caiu?
Sobre a casa dele.
Os vizinhos morreram. Os pais dele tamb�m.
A ambul�ncia veio
para o socorrer e tirou-o dos escombros.
Ent�o o que vais fazer quando ouvires um avi�o de guerra?
Como est�s?
Estou bem.
O que vais cozinhar hoje?
Isso � tudo que h�.
No fim, temos de comer,
mas n�o direi nada �s crian�as ou ao pai para n�o os aborrecer.
Eles desanimariam e n�o comeriam.
N�o est�o acostumados com estes alimentos.
Quem s�o estes?
Os meus amigos que partiram.
Como ficar sob cerco est� a afectar-te?
� bom, mas tenho saudades dos meus amigos.
Foram todos embora.
Algumas pessoas ficaram,
mas est�o a ser mortas, uma ap�s outra.
Elas ficam presas sob os escombros
ou s�o atingidas por um m�ssil,
ou morrem.
O que gostarias de dizer aos teus amigos que partiram?
Que Al� os perdoe por me deixarem aqui sozinho.
Vem aqui.
Tenho uma surpresa, nem vais acreditar!
Venham para a luz.
N�o � um tomate, juro.
Um di�spiro! Como � que o arranjaste?
Para ti e a Waad.
Tens de esperar que amadure�a. Infelizmente, s� h� uma �rvore.
Vai amadurecer sozinho?
� como se eu desse uma rosa ou algo assim.
Ando sempre a dizer-lhe:
"Que o cerco acabe depressa para comer um di�spiro".
- J� n�o precisa de acabar. - N�o, agora tenho um di�spiro.
N�o me sinto bem.
Acho que � devido � tens�o do cerco.
Estou gr�vida outra vez.
Meu Deus!
Mal consigo encontrar comida saud�vel para n�s, Sama.
N�o sei se a tua irm� ou irm�o chegar� a abrir os olhos.
Os russos destru�ram 8 dos 9 hospitais
a leste de Alepo.
Somos o �ltimo que restou.
N�o! A m�o dele!
- Leva-os para dentro! - Ele j� o levou!
Ele est� vivo, malta!
Est� vivo!
H� cerca de 300 feridos todos os dias.
Tragam soro!
O teu pai est� no comando de tudo.
At� a �gua foi cortada.
Continuo a filmar, a tentar apanhar tudo.
Est� a filmar? Porque nos fazem isto?
Filme isto!
� a mam�, trouxe-te leite!
Acorda, Alaa. Imploro!
- Controla-te! - Imploro, Alaa!
Por favor!
- Disse-te para o vigiares! - Alaa, acorda!
N�o sei se consigo aguentar isto.
Adeus! Podes ir.
Adeus, Sama!
Sama, adeus!
� a primeira vez em quatro dias que eu e o teu pai estamos juntos.
Ou ele estava no hospital ou eu estava l� fora a filmar.
N�o temos tempo nem para ti.
N�o temos tempo para sentir nada.
- Mam�? - Ol�?
Est�s a filmar-nos?
As for�as do regime avan�am para a zona rebelde.
Algumas pessoas est�o t�o desesperadas,
que tentam fugir para a zona do regime.
O regime est� a tentar mat�-las todas.
Uma fam�lia inteira, cerca de dez pessoas mortas!
Vamos, h� mais feridos!
Abram caminho!
Leve-o para baixo. Ele tem estilha�os na cabe�a.
Quero o pap�!
O que te aconteceu?
N�o sei. Desabou tudo e as nossas m�os foram atingidas.
Estavam todos a ir embora juntos?
Sim, a fam�lia toda.
E de seguida, estavam todos mortos.
Al�, por favor!
Al�, por favor!
P�ra, ela est� morta!
Deixa-a.
N�o h� pulsa��o, ela morreu.
Para onde foste, minha filha?
S� tent�mos escapar por ti, s� por ti!
N�o conseguimos, n�o conseguimos fugir!
Mesmo quando fecho os olhos,
vejo a cor vermelha.
Sangue por todo o lado.
Nas paredes, no ch�o, nas nossas roupas.
�s vezes, choramos sangue.
As for�as do regime capturam um bairro ap�s outro.
Est�o a amontoar-nos num pequeno espa�o,
apenas uns quil�metros quadrados.
Meu Deus!
A minha filha est� a� dentro.
- Mohammed! - Ele est� a dormir.
- A dormir? Viu-o? - Entreguei a Sama a ele.
V�o bombardear-nos de novo.
Mostra-me onde a bomba caiu.
- Espera! - Deixa isso onde est�!
- Porque queres tirar isso da�? - Est� muito quente!
Vamos aquecer-nos com isso.
- Olha. - Estamos a aquecer.
Mesmo com o presidente a bombardear, ainda est� frio!
Outra bomba! Fujam!
A s�rio, vi uma a vir.
Devemos descer?
- O que achas? - Achas que devemos descer?
Vamos.
Sama, sei que entendes o que est� a acontecer.
Posso ver isso nos teus olhos.
Nunca choras como um beb� normal choraria.
Isso parte-me o cora��o.
Est�o at� a usar g�s de cloro contra n�s.
Estamos a clamar ao mundo:
"Ajudem-nos"!
Uma mensagem do povo de Alepo para o mundo.
O teu pai fala com notici�rios o tempo todo.
Claro, a situa��o � muito assustadora.
Os bairros de Alepo s�o atingidos
por todo o tipo de armas.
Bombas, bombas de fragmenta��o,
g�s de cloro, bombas de barril e ataques a�reos.
� assustador e continuamos a ver a comunidade internacional...
E ainda continua a trabalhar
e a enviar mensagens para o mundo.
Obrigada, Dr. Hamza Al Kateab, por falar de Alepo via Skype.
A M�E E O BEB�
Milh�es de pessoas assistem aos meus relatos.
Mas ningu�m faz nada para deter o regime.
S� nos temos um ao outro.
Outro dia, algu�m chamou
de "A Novela do Bombardeamento Di�rio",
com as suas bombas favoritas.
M�sseis, proj�cteis, balas,
ou qualquer coisa em que o presidente pense.
Esta � a divis�o mais segura da casa,
se isso vale alguma coisa.
Est�o com medo?
Est�o. Principalmente a Naya.
Naya, ouviste o m�ssil?
Ouvi, um ali e outro ali.
Quem som faz?
Tem dentes deste tamanho!
Passamos a noite a ouvir os m�sseis a cair aqui e ali.
Estamos todos tensos.
Costum�vamos ler livros juntos,
ou ouvir boas m�sicas antigas.
Mas isso era antes da revolu��o. J� n�o fa�o isso, ainda bem!
Mas ontem mesmo cantaste para mim!
Canta!
D�-me um minuto.
Acabou.
As for�as do regime est�o a uma rua de dist�ncia.
O teu pai abra�a-me.
Diz: "Olha-me nos olhos."
"N�o vamos conseguir."
"Deixa a Sama."
"Ela tem mais hip�teses de sobreviver
se n�o souberem que somos pais dela."
N�o posso fazer isso, Sama.
O teu �nico crime, � que a tua m�e � jornalista
e o teu pai � m�dico.
Agora, gostaria de n�o te ter tido.
Gostaria de nunca ter conhecido o Hamza.
Gostaria de nunca ter deixado o meu lar.
- Ol�? - Ol�?
Est� a conseguir ouvir?
Sim, gra�as a Al�.
Quero falar com o encarregado.
N�o temos muito tempo.
Soubemos pelos russos que o tempo est� curto.
A ONU telefonou ao Hamza
com uma mensagem dos russos.
"Rendam-se e pouparemos as vossas vidas."
"Mas t�m de ir para o ex�lio."
Este � o plano dos russos.
Estavam a bombardear e a matar-nos,
e agora dizem-nos:
"Esta � a vossa �nica op��o. N�o t�m alternativa."
Ningu�m acredita que tudo acabou.
Ent�o, ou chegamos ao fim das negocia��es
ou continuar�o a enrolar-nos at� acabarem connosco?
V�o enrolar-nos, claro. N�o confias nos russos, confias?
Vamos esperar uns dias, numa linha da frente.
As pessoas est�o fartas de esperar.
Elas dir�o: "Sejam realistas,
n�o temos electricidade, nem comida."
Sabemos que esta � a �nica hip�tese de sobrevivermos.
Proteger-te, Sama, e todas as crian�as.
Mas isso tamb�m significa
que todos os nossos sacrif�cios foram em v�o.
O nosso futuro j� n�o est� nas nossas m�os.
Alepo acabou!
DEZEMBRO DE 2016
6� M�S SOB CERCO
Est�o todos a fazer as malas para o ex�lio.
Dizer adeus � pior que a morte.
VOLTAREMOS
Os feridos e fam�lias v�o primeiro.
Deixei-te a dormir no hospital.
Quero capturar este momento.
Que Al� torne esta viagem segura.
Assim Al� queira!
Que seja boa para todos n�s.
Devagar a fechar a porta. Est�o com frio.
Estamos a aproximar da linha da frente.
Estavam a disparar nas ambul�ncias.
Tivemos de voltar.
O franco-atirador enlouqueceu completamente!
Devias ter visto as crian�as a fugir da ambul�ncia.
As mesmas com quem estava a falar.
Est�vamos a tentar afast�-las.
Quase morremos todos!
N�o se pode confiar no regime, mas s� h� uma sa�da.
Agora, os autocarros est�o aqui para levar todos embora.
Ficaremos at� ao fim,
para garantir que todos os feridos v�o.
Esta � a �ltima vez que vou ao hospital,
o teu mundo inteiro no teu 1� ano da tua vida.
S� h� tempo para a enfermeira examinar a beb�.
Gra�as a Al�, ela parece bem.
Como est�s, agora que est�s a ser for�ado a sair daqui?
Neste hospital, durante mais de 20 dias,
realiz�mos 890 opera��es
e recebemos
mais de 6 mil feridos.
N�o se trata do lugar.
Os lugares s�o sobre as pessoas que os habitam.
Como o hospital.
Esta � a minha bela casa,
onde vivia.
N�o acredito que n�o voltarei aqui.
Nenhuma palavra pode descrever
o que estou a sentir agora.
N�o queremos obrigar-te
a fugir da nossa cidade.
Trouxe esta planta.
Ela vai crescer fora de Alepo.
O sil�ncio faz-nos sentir que a cidade est� morta.
Sama, vais lembrar-te de Alepo?
Vais culpar-me por ter ficado aqui?
Ou vais culpar-me por partir agora?
Oito dias desde que a evacua��o come�ou.
Agora � a nossa vez.
S�o 9:00.
Est� a nevar.
Continuamos � espera da evacua��o.
N�s voltaremos, prometo.
- Acabou. - N�s voltaremos.
N�o sinto mais nada.
Estamos � espera h� mais de 50 horas.
Ningu�m sabe a raz�o.
Mas mantemo-nos aquecidos.
At� que a ordem chegou.
Ningu�m conhece a minha cara,
mas o teu pai esteve em todos os notici�rios.
Hamza, tens medo dos postos de controlo do regime?
Tenho, claro.
Tudo pode acontecer.
Talvez tenham uma lista de nomes,
de certas pessoas que n�o dever�o partir.
O meu cora��o est� a bater depressa.
O pr�ximo posto de controlo � o mais perigoso.
Ali est� o posto de controlo do regime.
Hamza?
Hamza? Conseguimos!
Estou contente por estares a salvo.
- Contente por estarem a salvo. - Igualmente.
Gra�as a Al�! Al� � grande!
A mam� est� aqui!
N�s conseguimos, sua tolinha!
Entra.
Conseguimos, Sama.
N�o consigo pensar em tudo que acabou de acontecer,
s� agradecer a Al� por estarmos vivos.
Pensei que t�nhamos perdido tudo quando perdemos Alepo.
Mas n�o.
Agora temos a Taima.
Sinto o cheiro de Alepo na pele dela.
Tenho as minhas filmagens tamb�m.
As pessoas que filmei nunca me deixar�o.
Se pudesse voltar no tempo, faria exactamente o mesmo.
Mesmo que nunca me recupere do trauma,
n�o me arrependo de nada.
N�o posso esperar de te ver crescer, Sama,
para me dizeres como te sentes.
Quero que saibas que lut�mos
pela causa mais importante de todas.
Para que tu e todos os nossos filhos
n�o precisem de viver como vivemos.
Tudo o que fizemos, foi por ti.
Tudo por ti, Sama.
ISTO � ALEPO O QUE � JUSTI�A?
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