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ATENÇÃO: Essa legenda foi traduzida direta do audio porém
tentando ser fiel à tradução do texto de Dante em português.
Podem haver alguns equívocos nas chamadas "notas de rodapé"
devido à má qualidade do som do arquivo utilizado.
Qualquer correção será bem-vinda. Movimento Cinema Livre
Vai-se por mim à cidade dolente.
Vai-se por mim à eterna dor.
Ó vós que entrais neste lugar...
deixai toda a esperança!
DANTE O INFERNO
...é um texto que sempre está aberto a novas interpretações...
TERÇA-FEIRA 7 de ABRIL 6hr da TARDE
Na metade da jornada de nossa vida
Me vi perdido numa selva escura
E a minha vida não mais seguia o caminho certo
Difícil dizer quão penosa era a tarefa de descrever a
Selvageria e crueldade daquela selva
Cuja simples lembrança me traz de volta o medo
Apenas a morte excede sua amargura;
Mas eu lá achei bondade
E falarei dela quando descrever as coisas que testemunhei
Não posso dizer como lá entrei
O sono me tomou os sentidos quando abandonei o caminho da verdade
Mas foi quando alcancei a base de um monte
Que marcava o fim do vale
Onde o medo esmagara meu coração
Olhando para cima, vi que sua vertente
Já estava coberta com raios de luz,
Mandados pelo planeta que ilumina o caminho correto
Que toda a humanidade deveria seguir
Tendo já repousado o corpo lasso
Segui pela deserta encosta adiante
Com o pé firme mais baixo a cada passo
E lá, bem perto de onde o chão começava a ascender
Um ágil leopardo move-se a toda velocidade
De pêlo manchado recoberto
O leopardo, diz-se, é a prole da união entre um leão e uma pantera.
Gerado de dois pais diferentes, o leopardo é freqüentemente
retratado como um símbolo de perda.
A fera não se afastava ante mim
E bloqueava meu progresso de tal forma que muito pensei em voltar atrás
Era cedo da manhã
E o Sol subia ao céu rodeado por suas estrelas, que um dia...
Foram movimentados pelo Amor Divino...
Me infundiram com a esperança de vencer a fera do dorso alegre e mosqueado
Mas não o suficiente, pois o pavor voltou ao meu peito
Ao ver um leão tomar a sua forma
Ele investia contra mim, com fome e raiva atroz, e a fronte tão erguida
Que o próprio ar parecia temê-lo
O leão é um símbolo importante do imaginário popular.
Desde a Idade Média, o leão tem sido usado como força e punição.
Eis que surge uma loba, de magreza espantosa, que parecia estar cheia de cobiça
Lobos são cães selvagens, que abandonaram
a lei e rejeitaram a vida urbana.
Por isso são considerados extremente raivosos, cruéis e lascivos.
A trindade das bestas representa os níveis de pecados:
O Leopardo, os pecados superficiais: luxúria e a concupiscência.
O Leão, os pecados da ambição: o orgulho.
E a Loba, os pecados profundos: a inveja e a ira.
A visão tornou minha alma tão pesada de medo
Que perdi toda a esperança de fazer a escalada
Qual homem que conquista seus bens, apenas para perdê-los quando o tempo alcança
Tal fez-me a fera que avançava lentamente, me fazendo descer, me empurrando
De volta para aquele lugar onde a luz do Sol não entra
Quando eu já me encontrava na beira daquele vale escuro,
Meus olhos viram uma presença, encoberto,
Talvez por excessivo silêncio, materializou-se ante mim
Vendo-o naquele vazio absoluto eu gritei alto:
"Não importa quem seja, uma aparição ou um homem de carne e osso".
"Tenha piedade de mim!"
Homem não mais. Homem eu fui um dia
Meus pais eram de Lombardi, Nasci em Mântua...
Nos tempos de Júlio César e vivi em Roma no império de Augusto.
Quando os deuses eram cheios de falácias e mentiras
Fui poeta e narrei a odisséia de Enéas
Que fugiu de Tróia depois do incêndio
Virgílio viveu no último século antes da vinda de Cristo.
Escreveu um longo poema épico que traça as origens do Estado Romano
de volta à mítica cidade de Tróia.
Você é Virgílio? A fonte de onde jorra a narrativa generosa?
És a glória e a luz de todos os poetas!
Deixe-me beneficiar de todo o tempo
Que estudei e que me fez ser seu seguidor
Foste tu que deu o belo estilo poético que me deu louvor
Dante, assim como Virgílio, inovou na Itália,
transformando sua língua italiana num instrumento de poesia.
Em Virgílio, Dante imaginava um poderoso ancestral.
Vê a fera que não me deixa prosseguir?
Esse animal do qual reclamas, em seu caminho barra os viajantes
E ao fazê-lo se alimenta de suas mortes
A natureza da fera é pervesa e ambicioso é seu apetite
Após comer está ainda mais faminta que antes
É insaciável, já consumiu muitos e muitos ainda irão perecer...
Até quando finalmente vier o Lebreiro que para ela será a agonia
O Lebreiro não se alimentará nem de dinheiro, nem de terras;
Só a sua sabedoria, amor e virtude poderão nutri-lo
O Lebreiro é o Messias vindouro inventado por Dante,
e a Itália, como resultado, acabou dando-o vários nomes em épocas diferentes:
Napoleão, Mussolini, Gramsci, Garibaldi.
Ele irá caçar essa fera em todas as cidades até encontrá-la
Quando então a matará e a conduzirá de volta ao inferno
Onde a Inveja, primeiro a trouxe para este mundo
Eu acho melhor, para teu bem, que me sigas
Eu serei o teu guia. Levar-te-ei para lugar eterno...
O sexto capítulo da "Eneida" se tornou uma espécie de protótipo...
para o "Inferno" de Dante.
Uma jornada pelo Submundo, então, literalmente, Virgílio é seu guia.
Onde ouvirás os gritos inúteis
Verás o tormento dos condenados que, em vão, clamam uma segunda morte
Depois verás as almas de outros que sofrem contentes no fogo
Pois têm esperança de um dia seguir ao encontro daqueles abençoados
E depois, se quiseres subir ao céu
Lá terás alma mais digna do que eu, para te guiar o caminho
Virgílio refere-se a Beatriz, que irá substituí-lo
como o guia de Dante no Paraíso.
Eu te imploro, em nome desse Deus que não conheceste,
Que me ajudes a fugir deste mal ou de outro pior
Guie-me a esse lugar que tu disseste
Que eu possa ver a porta de São Pedro
E aqueles que tão mestos descrevestes
Ele então moveu-se, e eu o acompanhei
O dia findava, e já de noite o véu
Ia dispensando os seres desta terra de seu labor
E eu, sozinho, me preparava para enfrentar a guerra
Já do caminho e ainda da piedade, que vai traçar a mente que não erra
SEXTA-FEIRA, 8 de ABRIL 18:00hrs
Ó Musas...
Grande inspiração, me ajudem agora
Tu, Memória, tudo o que eu vir será tua função demonstrar
Julga minha aptidão, se é compatível com o árduo passo que ora me confias
Lúcifer caiu do céu criando um grande buraco na Terra
Um buraco cônico, conhecido como Inferno dividido em 9 camadas
Nove áreas ou departamentos circulares
É uma caverna cônica cujo vértice é o centro da Terra
E a base é a cidade de Jerusalém,
considerada o centro do mundo terrestre.
Dizes que o pai de Sílvio visitou a zona imortal, ainda corruptível
E saiu ileso mesmo estando lá em carne e osso
O "Pai de Silvio" é um outro nome para Enéas.
Se inimigo, porém, de todo mal o apoiou
Obviamente pensando no alto efeito que dele surgiria
E quem e o qual
Não acha impróprio, quem julgar direito, que ele
Pai da alma Roma e de seu Império*, tenha sido no empírio Céu eleito:
A qual e o qual, segundo alto critério foram prescritos para o trono santo
Dos que herdariam de Pedro os pecados
*O trabalho da benção, quando Deus colocou o Universo em movimento, Ele
estendeu-o até o infinito desconhecido, provavelmente até além do espaço sideral.
E nas viagens que celebras, soube de coisas
Que trouxeram sua conquista e, após, o manto papal
Lá foi depois o Vaso de eleição para confortamento
Àquela fé, que é principio na via da salvação
O Vaso é S. Paulo, que desceu ao inferno guiado por um anjo.
Depois de ter visto todo tipo de atrocidades, S. Paulo perguntou:
"Quantos tipos de torturas existem no Inferno?"
O Anjo respondeu: "144 mil".
Por que irei? Quem permite isso?
Não sou Enéas nem Paulo. Nem eu nem ninguém crê que eu seja adequado
Receio que isso seja loucura
Para te libertar desse medo, deixa que eu te explique como cheguei até ti
Eu estava com os outros espíritos suspensos no Limbo
Quando apareceu-me uma mulher tão
Beata e bela, que implorei-lhe para dizer o que eu deveria fazer
Seus olhos brilhavam mais que estrelas e com voz de anjo suave me pediu:
Ó alma cortês de Mântua, que ainda hoje goza de fama
Que enquanto existir mundo, mais se ampliará
Ajude-me a socorrer um amigo, que está perdido na selva escura
Dá passos para trás de tão atemorizado
Pelo que soube dele lá no Céu
Temo que já esteja tão perdido Que seja tardia minha ajuda
Vai agora, e com tuas palavras habilidosas e o que mais
De salvá-lo for capaz, ajuda-o para que eu seja confortada
Eu, Beatriz, sou quem te manda lá
Eu venho do lugar ao qual almejo voltar
Beatriz existiu de verdade, era vizinha de Dante
Conheceram-se em 1274, quando Dante tinha 9 anos
Foi o amor que me trouxe e é ele quem me faz falar
Quando estiver na presença de meu Senhor,
Falarei de ti com o louvor que mereceres
Ó Senhora da virtude, só
Por quem tem tudo a humana espécie superado
Que em sua primeira esfera o céu contém
Estou tão satisfeito de te servir que, mesmo que eu já
Tivesse cumprido a ordem, ainda assim seria tarde demais
Você só precisa indicar-me vosso desejo
Mas dize-me, o que a fez descer até este fundo centro, sem medo
Vinda do Céu que tanto ardes por voltar agora?
Não tenho medo de vir aqui
Pois Deus me transformou em sua graça,
Sendo que não sou tocada por vossa miséria
Nem muito menos ferida por qualquer fogo deste lugar
Há uma Dama Gentil* no céu que se compadeceu
do que acontece com aquele a quem te envio
Que veta o mais severo julgamento vindo de cima
*A Virgem Maria tecnicamente nunca é idolatrada em si,
a ela é dada a maior das venerações, ela é a grande intercessora.
E pediu a Luzia:
Luzia de Zaragoza, a padroeira da visão e dos olhos.
Pois ela teve seus olhos arrancados durante a perseguição aos cristãos,
para que ela não excitasse a luxúria dos homens.
Luzia, do latim: Lux Luxes, "Luz"
Dante adotou-a como padroeira devido aos seu problemas de visão,
causados pela sobrecarga de leitura e exsudato na juventude.
Ela sofreu muitos tormentos terríveis,
dentre eles ser mandanda para um bordel
para que sua fé cristã fosse abalada, mas claro que isso falhou.
"O Cuidado dos Olhos"
E Luzia, sempre inimiga da maldade
Veio então a procurar-me, onde eu estava sentada.
Beatriz, por louvor verdadeiro a Deus...
Não vais salvar quem mais te amou
E que por ti se elevou do povo vulgar?
Não ouves tu ao seu pranto a amargura
E já não vês a morte como o afronta
Sobre a torrente que o mar não segura?
Nunca pessoa no mundo foi tão pronta para evitar o dano
Ou procurar proveito, como eu após palavras de tal monta
Desci aqui, do meu alto posto beato, por confiar na tua palavra honesta
Que honra a ti e a todos que a ouviram falar
Então eu cheguei a você como ela desejou
E te tirei das garras daquela
Besta que impedia sua subida ao o belo monte.
Então quê há? Por que estás reticente?
Por que não ser confiante e persistente
Quando tens três mulheres abençoadas
Que te guardam lá da corte celestial
E minha palavras te asseguram tantos bens?
A Virgem Maria, Luzia e Beatriz formam uma trindade divina.
Existem outras trindades no Inferno, a maioria malignas.
Como pequenas flores, que o frio noturno inclinou e cerrou
E agora erguem-se retas de novo, quando aquecidas pelo sol
Cada uma ereta em sua haste
Também meu valor se renova e fortalece
Meu coração, inspirado com tuas palavras, inclina-se a proceder
Voltando à primeira resolução de partir
Então vamos, que ora é dos dois um só querer:
Tu condutor, tu senhor e tu mestre!
Assim lhe disse e, quando o vi mover-se, entrei
Pelo caminho árduo e silvestre
Vai-se por mim à cidade dolente
Vai-se por mim à eterna dor
Vai-se por mim à perdida gente
Justiça moveu o meu Alto Criador
Que me fez com o divino poder, o saber supremo e o primeiro amor
Antes de mim, coisa alguma foi criada
Exceto coisas eternas, e eterno eu sou
Vós que entrais, abandonais toda a esperança!
Vai-se por mim à cidade dolente Vai-se por mim à eterna dor
Vai-se por mim à perdida gente Justiça moveu o meu Alto Criador
Que me fez com o divino poder, o saber supremo e o primeiro amor
Antes de mim, coisa alguma foi criada
Exceto coisas eternas e eterno eu sou
Vós que aqui entrais, abandonais toda a esperança!
Estas palavras escritas em tom escuro
Eu vi escritas em cima de um portal
A inscrição no portal é um tipo de apêndice à Criação.
"Amor" parece uma palavra estranha a ser usada,
mas Tomás de Aquino disse que a punição, quando merecida, é amor.
Aqui, convém, deixar toda a suspeita
Todo sentimento ignóbil será proscrito
Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei,
Onde encontraríamos as almas sofredoras
Que já perderam seu livre poder de arbítrio
Em seguida, Virgílio segurou minha mão, sorriu para me dar confiança,
E me guiou na direção daquele sinistro portal
Aqui, prantos e gemidos de "ais" irrompiam pelo ar sem estrelas
Que de ouvir me trouxeram às lágrimas.
Várias línguas, discursos insofridos, lamentos,
Vozes roucas, brados de ira, rumor de mãos, de punhos estorcidos
Retumbavam, girando e semilhando como o som de areia numa ventania
Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino,
Mas também não buscaram fazer o mal
Se misturam com aquele coro de anjos
Que não foram nem fiéis nem infiéis
Ao seu Deus, mas serviram apenas a si mesmos
O céu por não serem fiéis os rejeitam e o inferno também não os aceita
Os maus se gloriaram de os ter consigo
A que pena tão dura estão esses pobres submetidos para que lamentem tanto?
Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação
É tão vil seu viver nessa desgraça, que invejam a sorte de qualquer um
O mundo não se lembrará deles
A misericórdia e a justiça os desprezam
Deixe-os. Só olhe, e prossiga.
Dante prefigura um extermínio em massa,
mas o que torna isso tão assustador não
é apenas a morte física, mas a lembrança
de alguém morrer e perder-se para sempre.
Olhando em volta vi então uma bandeira
Tremulando tão rápida numa corrida
Que parecia não poder parar
Atrás dela, uma multidão tão grande a seguia que...
Eu mal podia acreditar que tantos já tivessem morrido
Reconheci alguns deles
Pela sombra vi aquele que fez tão ignóbil renúncia
Caracteristicamente, o primeiro
que vemos no inferno é um papa.
Dante era bem reflexivo em relação ao papa Celestino V.
De fato, para muitas pessoas ele era considerado um santo.
Afinal, ele foi o único a ser eleito e renunciar ao papado por não
suportar a pressão de sua administração, vez que não tinha um pulso firme.
Logo depois ele abdicou e voltou à vida solitária como um ermitão.
A escória estava nua, como se nunca tivesse vivido,
Exposta à picadas de vespas que a feria por todo o corpo
As picadas de vespas foram sempre
símbolo de violentos agentes de dor.
As picadas de vespas são induzidas
somente quando algo as deixa furiosas.
Ao acontecer isso, tais picadas costumam ser particularmente dolorosas.
Vespas eram consideradas criaturas do Demônio,
por serem inúteis e inflingirem dor ao homem,
características fortes daqueles inseridos no imaginário demoníaco.
O sangue escorria de seus rostos junto com as lágrimas até os pés
Onde ainda serviam de comida à vermes nojentos aos seus pés
Os vermes tinham muita influência na punição simbólica,
por serem agentes ativos na decomposição
Quando olhei além dessa turba,
Vi uma outra grande multidão que esperava às margens de um grande rio
Quem são aqueles?
E qual costume os torna pressurosos de atravessar?
Tu saberás no seu devido tempo
Quando tivermos chegado à orla triste do Aqueronte
Aqueronte, do grego "dor flutuante",
é o primeiro da trindade nos rios do Inferno.
Originalmente um rio verdadeiro no norte selvagem da Grécia.
Não muitos dos chamados "gregos civilizados" devem tê-lo visto.
Então, em silêncio envergonhado baixei os olhos, casto
Temendo ter feito perguntas demais, fiquei
Calado até chegarmos às margens do rio
Então lá, um velho pálido, branco da idade, veio direto até nós num barco
Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno!
Abandonai toda a esperança de ver o céu outra vez
Pois vou levar-vos às trevas eternas, ao fogo e ao gelo!
E tu que estás aqui, alma viva
Afaste-se destes que são mortos
Por outra via, por outro porto a outra praia virás,
E à hora azada mais leve lenho te dará transporte
Caronte, te irritas em vão!
Pois lá, onde se pode o que se quer, isto se quer, e não peças mais nada!
Caronte é o barqueiro do rio que separa os vivos dos mortos.
É preciso pagar uma taxa, uma moeda de ouro, para que
Caronte possa transportá-lo através do rio.
As almas nuas e dolorosas descoloriram-se
Dentes rangeram logo que ouviram a voz raivosa e cruel
Blasfemaram Deus e maldisseram seus ancestrais, a espécie humana
O tempo, o lugar e a pátria onde nasceram
Como folhas que o vento outonal colhe uma após outra até que
A nua ramagem só fita os restos seus que a terra acolhe
Assim dessa prole pervertida de Adão cada qual vai seguindo, um a um,
Aos chamados, como em vil passarinhagem
Agora competem aqueles que iraram a Deus
Que a morte colheu de toda a Terra
Buscam a sorte do Rio, pungidos e excitados pela justiça divina
Onde seu medo é transformado em desejo
A espera é a pior tortura.
Mesmo nos campos de extermínio, quando
as pessoas eram levadas para a execução, sentiam-se
aliviadas ao ser-lhes dito
onde ir, o que beber, o próximo banho.
Era dar um fim naquilo, ir em direção ao problema.
Poderia ser ruim, mas era melhor que esperar acontecer.
É uma última ilusão de controle, uma dimuição do fardo, eu creio.
Depois disso, o chão escuro tremeu com tanta violência
Que o suor ainda me banha de medo
Da terra lacrimosa, rompeu vento
Que um clarão respirou avermelhado
Tolhendo-me de todo sentimento
E cai, tal qual homem tomado pelo sono
Desse profundo sono fui tirado estremecendo por um trovão
Como quem é por força, despertado
BOA SEXTA-FEIRA, 8 de Abril, 8:00h da noite
Desçamos então ao mundo onde nada se vê
Eu irei na frente e tu me seguirás
E assim ele me guiou para o primeiro círculo que rodeia o abismo
Naquele lugar não ouvi sons de lamentação, somente suspiros
Vibrando o espaço inteiro do ar eterno
Pesares sem martírio os motivavam
Uma multidão de crianças, mulheres e homens
Santo Agostinho disse que todas as crianças quando nascem
são cercadas de maldições massivas.
Uma das doutrinas mais repulsivas e duras da Igreja medieval, era
a que crianças, se morressem antes do batismo, iam para o infeno.
Para as pessoas comuns isso se tornou uma enorme fonte de angústia,
então exitiam santuários especiais no final do Sec. XVIII,
onde se dava o pequeno cadáver ao Padre que o aquecia com velas,
para dar a impressão de ainda estar vivo,
e rapidamente ele batizava a criança, o que tranquilizava seus pais,
pois achavam que a sua alma estava salva.
As mulheres na visão da Igreja medieval
eram a maior armadilha do Demônio.
A mulher era fria e molhada, enquanto o homem era quente e seco,
então, a mulher incitava o homem a pecar com ela.
Esses espíritos, é bom que saiba antes de continuarmos
Estes coitados não pecaram, mas não podem ir para o céu
Faltou-lhes o batismo, portal da fé em que és ditoso crendo
Na vida antecedendo o Cristianismo, nunca prestaram o devido culto a Deus
Eu também pertenço a esse abismo
Somos por essa causa, essa somente, perdidos
Mas nossa pena é só esta: sem esperança ansiar eternamente
Há certos pontos da fé católica, que nós não gostamos muito.
Nunca poderemos entender a exclusão dos pagãos da salvação.
Senti pena dele enquanto falava e imaginei quanta gente
De valor deveria estar suspensa para sempre nesse limbo
O Limbo foi meio que uma invenção de Dante,
determinando a borda do Mundo ou fora de seus limites.
No Limbo encontraremos os heróis, os profetas e os pagãos virtuosos,
pessoas que viveram antes da vinda do Redentor.
Alguém daqui já subiu ao Céu por merecimento próprio ou alheio?
Eu era novato neste lugar quando um Rei poderoso aqui desceu
Ele usava o sinal da vitória na sua coroa
Cristo foi a isca enviada por Deus, o anzol era a cruz.
O Demônio a engoliu levando Cristo ao Mundo dos Mortos.
Mas era mais do que podia mastigar e assim expeliu Cristo de volta.
Cristo desce ao inferno e arromba as suas portas,
arrancado de lá pelas mãos Adão, os patriarcas e os profetas,
e as portas do Inferno foram fechadas com sete selos,
para não mais serem abertas até o Juízo Final.
Vi quatro silhuetas se aproximando
Aparentando nem lamento nem alegria
Veja aquele, qual monarca ufano,
empunha espada deixando os três distantes
É Homero, o poeta soberano
Homero era o protótipo dos poetas, e como tal acreditava-se ser cego.
Juntos prosseguimos, até finalmente chegarmos onde emanava a luz
Lá se erguia um nobre castelo de sete sólidos muros altos
Acompanho dos gênios, eu entrei
Passando pelos sete portais
Os sete muros do Castelo da Fama, são as sete virtudes.
Os sete portões, as sete ciências estudadas na universidade medieval.
Chegamos a um prado, fresco e verde
Onde os espíritos dos grandes me foram mostrados
À parte, minha alma alegrou-se pelo que viu
Eu vi Electra!
Electra está lá porque ela é a mãe de Dardano
que fundou toda a dinastia de Tróia,
que depois na pessoa de Enéas, fundou Roma,
o qual Virgílio, guia de Dante, celebrava.
Eu vi Camila...
Camila era uma princesa italiana que
dedicou sua vida à Deusa da Castidade.
Ela possuia um grupo de guerreiras que
ficavam nos campos, sem perturbar os demais.
Eu vi Pentesiléia...
Rainha das Amazonas, selvagem e perigosa, pelo que se sabe.
Eu vi Julia, Márcia e Cornélia!
As três eram exemplos das virtudes da velha República Romana:
Castidade, Fidelidade e Estoicismo.
Separado de todos, eu vi Saladino.
Salah al-Din representava a magnimidade oriental,
ele era o contrapartido de Ricardo Coração de Leão,
e estava no Limbo, ao invés das profundezas do inferno,
porque foi amável com os prisioneiros cristãos.
Alçando os olhos, vejo o imortal mestre de todo homem de saber
Cercado de sua família filósofa
Aristóteles, a quem devemos nosso moderno vocabulário europeu de discurso.
Dante inclui a "visão aristotélica" mas teve que ter muita cautela ao fazê-lo,
assim como todos daquele século que eram cristãos.
Eu vi Sócrates e Platão!
Sócrates deslocou a investigação filosófica para o que chamamos de ética,
matéria que lida com os relacionamentos sociais.
Platão era pupilo de Sócrates e escreveu vários de seus seminários,
oos quais chamou de "Diálogos".
Eu vi Demócrito, o atomista!
Eu vi Diógenes!
Um "cínico", conhecido como "filósofo cão",
morava num barril e desprezava as posses.
Eu vi Tales
Tão interessado em estudar as estrelas que
ao alhar para o céu não prestou atenção e caiu num poço.
Eu vi Heráclito
Formulou a teoria da necessidade de opostos, "tudo o que sobe desce",
"Tudo está em estado de fluência".
Eu vi Dioscórides
Descreveu uma detalhada lista de plantas para fins medicinais,
que continuaria a ser usada milhares de anos depois.
Eu vi Orfeu!
Um homem dotado, ou amaliçoado, com um grande talento musical.
Ele adormeceu as três cabeças de Cérbero
com o fim de lhe ser permitida a entrada no Mundo Subterrâneo.
Eu vi Túlio
Marcus Tullius Cicero, o grande orador romano,
traduziu Aristóteles para o latim.
Eu vi Sêneca
Um modelo de virtudes éticas,
tutor do notório futuro imperador Nero.
Eu vi Euclides
Seus tratados sobre os princípios da geometria continuam, até hoje,
sendo os textos básicos desse estudo.
Eu vi Ptolomeu
Escreveu um livro chamado "Sintaxe Matemática",
mostrando maneiras geometricas de calcular o movimento dos planetas.
É tido como o maior livro já escrito sobre o Universo.
Eu vi Hipócrates!
O pai de medicina, aquele que formulou...
o famoso "Juramento de Hipócrates".
Eu vi Avicena
Um médico árabe, "Abu Ali al-Hussayn ibn Sina".
Escreveu comentários sobre os estudos aristotélicos,
e através dele tais conhecimentos chegaram à ciência ocidental.
Eu vi Galeno
Notório por seus trabalhos em biologia e medicina,
a autoridade máxima no assunto, por 1300 anos.
E Averróis
Seu nome árabe era Ibn Ruchd, escreveu tratados sobre Aristóteles,
que teriam sido lidos por Dante.
Não conseguiria dizer tudo o que vi
Muitas vezes, por longo e urgente ser o assunto
que por vezes sou condenado à omissão
Dos seis, restamos apenas dois
Meu sábio guia me levou para um caminho diferente
do ar sereno para o tempestoso
Chegamos, então, a um lugar onde nenhuma luz brilha
Desci dessa arte ao segundo círculo
Que o espaço menos largo compreendia
Onde o pungir da dor é mais profundo
Lá estava Minós, rangendo terrivelmente
Julgando todos os pecados
Dante usa como modelo o sexto livro da Enéada de Virgílio,
- E Minós está lá. - Burocrata.
Sentado em seu trono, julgando os destinos.
Juiz, padre, banqueiro, advogado...
De certo modo esses pecadores,
precisariam de um guarda, de um juiz.
Ouvia suas confissões e proferia a sentença,
Quando uma alma desditada vem e lhe confessa seus crimes
Com perícia em pecados cosumado Minós lhe adapta um lugar no Inferno
O número de vezes que ele enrola sua cauda
Determina o número de círculos que a alma deve baixar
Sempre há muitos lá, cada qual tem sua vez de ser julgado
Falavam, ouviam e eram atirados no abismo.
Ó tu que entras no asilo da dor
Vê bem em quem confias e como entras aqui
É fácil de entrar, mas não te enganes!
Por que gritar?
Não podes impedir esta jornada, pois lá, onde tudo
O que se quer se pode, isto se quer e não peças mais nada!
Pouco a pouco comecei a perceber sons tristes
Onde intenso chorar me aviva os ouvidos
Neste lugar escuro onde eu me encontrava
O som das vozes melancólicas se assemelhava
Ao assobio do mar durante uma grande tormenta
Os tristes sons emanavam de um enorme redemoinho
Eram almas sofredoras, sacudidas pelo vento que nunca cessava
A devastação os encarava a cada um
Ouvi dor, soluços e lamentos
Enquanto eles blasfemavam contra a onipotência
Ouvi que estão naquele padecer, os que se entregaram aos vícios da carne
E aos seus apetites se submetiam
Quais estorninhos, que a voar se travam Em densos bandos na estação já fria,
Em rodopios as almas fracas volteavam
Ao capricho do vento que não parava
De menos dor a esperança
Estorninhos precisam ficar juntos em tempo frio.
Aparentemente desorganizados, eles sabem o que estão fazendo.
E como grous, que avançam do ar cantando seu grasnido
Vejo seu gemer que não descansa
Quando grandes pássaros migram,
posicionam-se em grandes linhas, com os pescoços retos.
Os grous possuem um pescoço curioso.
Eles possuem uma traquéia anelada, que carrega alimento muito bem.
A primeira, cuja história deves conhecer
Foi imperatriz de povos de muitas línguas
Aproveitou-se tanto da luxúria, que em lei dispôs ser lícito e agradável
Como desculpa, às suas torpes fantasias
É Semíramis
Foi rainha da Assíria, matou seu marido, e depois um segundo.
Ela cultivava o hábito de selecionar todas
as noites os mais brutos de seu exército,
levava-os pra cama e, de manhã, dispensava-os.
A que a segue é a viúva de Siqueu, que se matou por amor
Dido, rainha de Cartago, apaixonou-se por Enéas
e quando ele partiu, ela suicidou-se.
Dido estava no relato de Virgílio, mas
na verdade ela foi uma ótima esposa.
Ela foi muito fiel a Siqueu.
Veja ali, Helena, a causa fementida de tanto mal
Veja o grande Aquiles, que teve por amor, a batalha final
Veja Páris, Tristão
E, uma por uma, me indicou outras mil sombras
Que tiveram suas vidas desfeitas pelo amor
A compaixão me estava confrangendo, dessas damas
E antigos cavaleiros, nomes ouvindo e mágoas conhecendo
Eu gostaria, se for possível, de falar com aqueles
Dois, unidos, que tão leves parecem ser ao vento
Quais pombas, que saudosas de asas fitas, ao doce ninho, em vôo despendido
Vão pelo ar, seus desejos adstritas
Os pombos são parceiros por toda vida, passam o dia juntos...
Eles se separaram da turba em que era Dido
E a nós se inclinaram
Ó ser gracioso e benigno, o que desejares ouvir ou falar
Conosco, nós ouviremos e falaremos, se o vento permitir.
Nós, tendo dado o sangue ao mundo infando
Se amigo o Senhor fosse do Universo, da paz aos rogos nossos, gozarias
Pois te enternece o nosso mal perverso
O que dirias enquanto o vento é quedo
Ouviremos atentamente, e diremos quanto ouvir, desejarias
Amor, que ao coração gentil logo se prende, tomou
Este aqui, pela beleza da pessoa que de mim foi levada
E o modo ainda me ofende.
Amor, que a nenhum amado amar perdoa
Prendeu-me, pelo seu desejo com tanta força que
Como vês, ele ainda não me abandona.
Amor nos conduziu a uma só morte
Caína aguarda aquele que tirou as nossas vidas
Ela tinha 30 anos, quando foi morta pelo seu marido, por adultério.
Não há maior dor, que lembrar da felicidade passada
Mencionar é dor
Mas se teu grande desejo é saber a história de nosso amor
Te direi como quem chora e fala.
Francesca é uma heroína do Romantismo.
Dante também nos mostra uma pessoa
contando uma estória errônea, trapaceando um pouco.
Líamos um dia, sobre a história de Lancelote
Como o amor o tornou seu prisioniero
Éramos sós, de corações quietos
Várias vezes essa leitura nos ergueu olhar a olhar
Fazendo-nos empalidecer antes de ruborizar
Uma passagem em particular foi nossa ruína
Aquela que falava do sorriso que
Desejava ser beijado por um perfeito amante
Que este aqui que nunca me seja apartado
Tremendo, beijou-me a boca naquele instante
Nosso Galeoto foi aquele livro e quem o escreveu
Desde aquele dia, não o lemos mais adiante
Enquanto essa primeira alma falava
A outra chorava ao seu lado
E eu, comovido de piedade e dor
Desmaiei, e caí como um corpo morto cai
Quando me refiz, da infelicidade constristado
A infelicidade me confundia, trazendo de volta meus próprios lamentos
Estava cercado de mais tormentos e mais
Atormentados que surgiam de todos os lados
O círculo onde estava era o terceiro
Onde eternamente, sempre a mesma chuva caía
Fria, escura e pesada
Neve e granizo, caía sobre a lama podre que as almas encharcavam
Na Idade Média, chuvas anormais eram tidas com sinais de desastre,
Poderiam ter exércitos vindo dos céus, chuva de sangue, chuva de rãs,
que sugeririam mortes de reis ou famílias.
Aqui, Cérbero, fera cruel e perversa, latia com
Suas três goelas para as almas submersas na lama abaixo
Cérbero originalmente tinha 50 cabeças,
mais tarde a mitologia diminuiu para o número razoável de 3 cabeças.
Elas berravam como cães e se contorciam na lama
Tentando em vão se proteger das chicotadas da chuva dura
Quando Cérbero nos viu, abriu suas três bocas e exibiu suas presas
Rangendo e estremecendo diante de nós
Meu mestre, cauteloso, encheu suas mãos
De terra e atirou nas goelas do cão danado
Se você quiser entrar no Mundo dos Mortos,
você precisa alimentar Cérbero, geralmente com bolos.
Você dá um bolo por vez, para ir
acalmando-o e assim entrar mais rápido.
Dante usou muitos elementos infernas já existentes,
como é o caso de Cérbero, da Eneida.
Caminhamos, então, por entre as almas, pisando espectros
Vazios que se assemelhavam a formas humanas
Jaziam deitados se confundindo na lama que assumia suas formas transparentes
Exceto um que se ergueu na hora em que passávamos na sua frente
Ó tu que és guiado por este inferno, me reconhece?
Pois tu foste vivo antes que eu fosse desfeito
A angústia te deforma de maneira que eu não consigo reconhecer-te
Mas dize-me quem tu és, condenado a este
Lugar vil e submetido a tamanha tortura
A tua cidade tão invejosa, um dia me teve na vida serena
Teus conterrâneos me chamam Ciacco, o Porco
Não sabemos nada de Ciacco.
O Porco poderia ser qualquer coisa.
Por causa da gula sofro na chuva, como estas
Outras almas, condenadas por semelhante culpa
A punição da gula é um lugar úmido, pois a
maioria dos "gulosos" eram na verdade bêbados.
Pessoas gordas não eram má vistas na Idade Média, mas os bêbados
eram julgados com maior severidade pelo povo,
pois sua gula leva-os à luxúria, e esta leva-os à fornicação.
Ciacco, teu estado miserável me causa grande tristeza, mas dize-me
O que vai acontecer, se souberes, com os cidadãos de nossa Florença?
A divisão entre os Guelfos e os Gibelinos,
e dentro dos Guelfos, os negros e os brancos...
[nos Estados italianos da Idade Média, partidários
dos imperadores da Alemanha em luta contra os Papas]
Algum justo ali vive? Por que motivo se deve a cizânia que ali cresce?
Não sabemos nada sobre Ciacco, ele é o 1º florentino que encontramos.
Ele também aparece no Decameron de Boccaccio.
Depois da paz, haverá guerra e sangue
O partido rústico expulsará a outra parte brutal
Em 1300, Florença estava em duas mãos, os partidos Guelfos Brancos e Negros.
Dante estava no errado, no Branco, por isso foi banido.
Mas, depois de três sóis, com a ajuda
Daquele que agora parece estar dos dois lados
Voltarão ao poder, e por longos anos manterão
Os outros afastados, por mais que implorem ou chorem
Dante terminou o Inferno em 1321.
Os eventos relatados aconteceram em 1300,
então ele escreveu as profecias que já conhecia.
Justos há dois: ninguém lhes ouve
Avareza, Orgulho, Inveja, é o que deixado seus corações em fogo
Por favor, continue, com a informação completa que preciso
Farinata e Tegghiaio, homens bons. Jacopo Rusticucci, Arrigo e Mosca,
E tantos outros que usaram seu gênio para o bem? O que houve com eles?
Onde estão?
Estão entre os que sofrem punição mais crua, pelo mal que fizeram
Se desceres fundo verão a sua face
Dante encontrará Farinata, no sexto círculo.
Queimando numa cova.
Tegghiaio e Rusticucci estarão no sétimo círculo.
Junto com os sodomitas.
Mosca será encontado no oitavo círculo,
Com suas mãos amarradas por cobras.
Arrigo não mais será encontrado.
Mas quando voltares mais uma vez ao mundo doce
Te imploro que leve minha lembrança aos que lá deixei
Não sabemos nada sobre Ciacco.
Este não mais se levantará até o dia em que soar a trompa angelical
Quando a adversa potestade virá e cada alma voltará à sua tumba
Retomará sua carne e sua forma humana, e ouvirá a voz que eterna soa
E assim cruzamos aquela mistura suja de almas com chuva
Aproveitando para falar um pouco da vida futura
Mestre, quanto a este tormento, ele crescerá...
Será o mesmo ou será atenuado após a grande sentença?
Retorna a tua ciência na qual se ensina que o
Ser mais perfeito mais sente seja o bem ou a ofensa
Embora essas almas malditas nunca possam um dia chegar à perfeição
Para lá, mais que para cá, será sua sina
Perlustramos do círculo a cintura, de coisas praticando que não digo
Até descer um degrau na estância escura
Lá está Plutão, nosso grande inimigo
Pape Satàn pape Satàn aleppe!
James Joyce, em um de seus grandes textos, utilizou-se da frase dita por Plutão.
Creio que há uma ligação entre Plutão,
Deus dos Mortos, e Plutão, Deus da Riqueza.
E é bem possível que essa ligação esteja atuante em Dante.
Não tenhas medo dele, por mais que tenha poder
Ele não pode impedir nossa descida
Cala a boca lobo maldito! Consome em ti mesmo tua raiva
Nossa descida não é sem propósito, pois é algo que se quer nas alturas!
Diante daquela voz revestida de autoridade, mal pôde reagir
Logo fraquejou e diante de nós, tombou
Aproveitamos, então, para descer pela beira que contorna o quarto círculo
A qual todo seu mal o mundo envia
Ah, justiça de Deus! Que forte lei, dores, penas aos montes eu vi
Por que a venda da culpa nos obceca?
Como em Caridbe a onda que ressoa Embate noutra, e quebram-se espumantes
Assim essas turbas, uma às outras se abalroam
Provérbios geralmente opõe ou unem demônios com o profundo mar azul.
Organizadas em dois grupos que se enfrentavam, com os
Peitos nus, rolando grandes pesos em sentidos contrários
Até colidirem uns com os outros
Como na bolsa de ações, um lugar onde os negócios encontram o dinheiro.
Batiam, gitavam e voltavam
Sempre duas vezes em volta do círculo que seguiam
Depois do choque seguiam em sentido
Contrário até se encontrarem novamente
Do outro lado do círculo. E assim continuavam por toda a eternidade
Às vezes temos pessoas esperando os resultados nos monitores,
agitando os seus braços, gritando, chocando-se, batendo rosto com rosto...
Quem são essas pessoas? Eram padres com corte de cabelos em cercilha?
Todos em sua vida terrena, não foram judiciosos com seus gastos
Isto declaram, quando se encontram nas suas culpas opostas
Esses de coroa pelada são clérigos, papas e cardeais
Nos quais a avareza se manifesta mais facilmente
A Igreja tornou-se uma grande instituição burocrática,
arrecadando impostos em toda Europa Ocidental.
Ela converteu-se numa verdadeira corporação
latifundiária, lucrando muito com o preço dos aluguéis, etc.
Em um grupo como este certamente serei capaz de reconhecer alguém
Não perca seu tempo. Sua vida sem conhecimento os tornou imundos
E agora é mais difícil reconhecê-los
Eternamente se enfrentarão, aqueles de...
Punho cerrado e aqueles outros sem cabelos
Mal dar e mal guardar os tirou do mundo, colocando-os nessa rinha
Com mágoas, que não podem ser contadas
Os irresponsáveis gastam além de suas posse,
E e os avarentos poupam para o seu
próprio benefício, escondendo dinheiro.
Nem os irresponsáveis nem os avarentos
são de serventia alguma para a sociedade.
Vês, filho, como de nada adianta os homens brigarem pela fortuna?
Pois todo o ouro que está ou já esteve sob a lua não comprará um
Minuto sequer de descanso para essas almas cansadas
Existiam as "Casa dos Tesouros", locais onde eram armazenados
todo o ouro conseguido ou tomado. Eram verdadeiros estoques de ouro,
os reis tinham de ter, os papas também...
O que é a 'Fortuna' de que agora falas? Essa que guarda
Todas as riquezas do mundo em suas mãos?
Aquele cujo saber tudo transcende
Fez os céus e lhes deu quem os conduz, e cada esfera que
Brilha reflete sobre as outras, distribuindo igualmente a luz
Do mesmo modo, para as riquezas mundanas designou
Uma ministra para que ela cuidasse de permutar,
De tempos em tempos, os bens profanos entre
As nações e famílias, livres do alcance da cobiça humana
Então, enquanto uma nação impera
Outra enfraquece, de acordo com o arbítrio dela
Que é oculto como uma serpente na relva
Vosso saber não tem poder sobre sua lei
Pois ela prevê, julga e rege sobre seu reino
E ela nunca pára. É amaldiçoada até por quem
Deveria louvá-la, mas como é beata, ela não os ouve
Fortuna era uma deusa pagã, Dante a trouxe para seu sistema cristão.
A deusa Fortuna é sempre uma figura circular na astrologia.
E entre iguais criaturas primitivas, goza alegria em paz girando sua esfera
Desçamos agora às dores mais esquivas
Estrelas que surgiram agora baixam
Demora é defesa, é nociva
Descemos então por uma vereda escura onde
Nascia uma fonte de água preta e fervente.
Atravessamos o riacho e acompanhamos as encostas por de um caminho estreito
Até que chegamos finalmente às margens de um vasto
Pântano chamado Estige, onde o riacho desaguava
Aqueronte e Estige, diferentes rios, geograficamente falando,
designavam o mesmo rio mítico, aquele que separa os vivos dos mortos.
O Estige era um rio em Arcádia, cuja água, fria, venenosa e fatal, corroía até o ferro.
Apesar da escuridão, pude ver, naquela água escura
Vultos nus cobertos de lama remexendo-se, com feições iradas
Eles esmurravam-se com as mãos, batiam cabeças, se chutavam
E arrancavam as peles uns dos outros com os dentes
Aqui tu vês as almas dos vencidos pela ira, e vou dizer-te ainda, se me crês
Que embaixo d'água há gente que suspira, fazendo-a borbulhar
São aqueles vencidos pelo rancor, a ira contida
E passiva, porém igualmente destrutiva
Suspiram pela lama fétida
Eles gorgolam o lodo e formam as bolhas incapazes de soltar uma palavra
Depois demos uma grande volta, seguindo entre o rio e a orla seca
Sempre observando aqueles que engoliam a lama
Até chegarmos ao pé de uma alta torre
Eu devo explicar que, bem antes de chegarmos ao pé daquela torre
Já observávamos as duas chamas que havia no seu cume
Na escuridão do rio, outra luz tão distante
Que quase não se via, respondia com um sinal
Que sinais são estes? E aquela outra chama
O que ela responde? Quem é que as provoca?
Sobre esta lama imunda em breve poderás perceber o que se espera
Mal ele terminara de falar, da escuridão surgiu um barquinho pilotado
Por um barqueiro solitário, cortando a água em nossa direção
Chegaste, alma culposa!
Flégias, desta vez tu gritas em vão pois
Só vais nos levar à outra margem e nada mais
Flégias foi condenado à uma eternidade de tormento psicológico.
O deus Apolo estuprou sua filha. Flégias enraivecido queimou o templo de Apolo,
que condenou-o a permanecer no Inferno, bem abaixo de uma
pedra enorme, pendente, sempre prestes a cair sobre ele.
Como quem reconhece o engano, Flégias conteve sua ira
Meu guia calmamente embarcou e depois eu entrei
E só então o barco pareceu carregado
Um ser lamacento surgiu das águas e me chamou
Quem és tu que vens antes do tempo?
Venho, mas não demoro, mas quem és tu tão revoltoso?
Eu sou um dos que chora, como podes ver
Com choro e com luto, espírito maldito, que assim permaneças,
Pois eu te conheço, mesmo tão sujo!
Filippo Argenti era rival político de Dante, seu nome siginifica Prateado,
o nome vinha de seu hábito de cavalgar com ferraduras de prata.
Ele saltou sobre o barco, meu guia mais rápido conseguiu mandá-lo de volta
Cão, vá se unir com teus iguais!
Adorei vê-lo afundar na imundície, Virgilio me diz antes de continuar:
Abençoado seja, quem tão altivo e honestou te gerou
A mãe de Dante morreu quando ele ainda era jovem.
Ao ser parabenizado por Virgílio pela sua raiva, ele aceita a ausência dela.
Tão breve observação sobre sua mãe parece muito
estranha, pois trata-se de uma pessoa importante de sua vida.
Abençoado seja, quem tão altivo e honestou te gerou
Dante está dizendo que as pessoas ao lerem isto
saberão que tenho razão de estar zangado,
e terão orgulho disso. Saberão que fui parte de tudo isso,
e que por isso fui tão intolerante".
Abençoado seja, quem tão altivo e honestou te gerou
Virgílio está parabenizando Dante por não ter pena das almas do Inferno
No mundo este homem foi pessoa orgulhosa
E nada de bom resta em sua memória
Por isto é que sua alma está aqui tão furiosa
Quantos lá em cima se julgam grandes reis
E aqui estarão como porcos na lama?
Deixando fama de si poluída
Pouco depois, ouvi seus companheiros o massacrarem
Deletei-me tanto que ainda agradeço a Deus ter me permitido
E lá o deixei, e disso não falo mais
Comecei, a ouvir vozes dolorosas, que me impeliram a olhar adiante
Nos aproximamos da cidade que se chama Dite
Com seus tristes cidadãos e grande companhia
Já posso ver as suas mesquitas logo acima do vale
Elas brilham, vermelhas como ferro em brasa
É o fogo eterno que arde no seu interior que
Faz esse brilho rubro se espalhar pelo baixo inferno
Entramos no fosso que cerca a cidade
E Flégias deu uma grande volta em torno dela
Os muros me pareciam ser feitos de ferro maciço
Quando cheguei ao portão, vi uma multidão que caía dos céus como chuva
Quem é esse que, sem morte, anda pelo reino da morta gente?
O sábio mestre veio em meu auxílio. Dirigindo-se aos demônios
Fez sinais indicando que gostaria de falar com eles secretamente
Tudo bem, mas vem tu sozinho. E esse outro aí
Que achava que podia andar como rei nesta terra
Que prove que pode voltar sozinho se souber
Pois tu que o guiaste até aqui vais ficar conosco!
Apavorei-me diante dessas palavras e temi
Não mais poder voltar a ver o mundo outra vez
Não temas, porque o nosso passo, ninguém pode impedir
Fique aqui e espere por mim
Ele foi e me deixou só, confuso com o sim
Em conflito com o não em minha mente
Não ouvi a conversa. Só vi a briga para entrar
De longe e a porta da cidade se fechar
Diante de Virgílio, que voltou para mim
Cabisbaixo, em um passo lento, seu olhos fitando o chão
Faltava-lhe a afouteza de outrora, e dizia suspirando:
Olha só quem me nega a cidade da dor!
Não te aflijas, que os óbices te digo,
Hei de vencer que a entrada estão vedando
Essa insolência do inimigo não é nova, Já mostraram em mais patente porta
Viu comigo, as que estavam sem tranca, E a lúgrebe inscrição tu contemplaste
Já vem descendo a penedia, e sem guia
Passando pelos círculos aquele
Por quem esta entrada será aberta.
Legendas: Vander Colombo
Contribuição: Gianfranco Marchi
MOVIMENTO CINEMA LIVRE
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