All language subtitles for [Peter Greenaway & Tom Phillips] [1989] A TV Dante

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Original subtitles

ATENÇÃO: Essa legenda foi traduzida direta do audio porém

tentando ser fiel à tradução do texto de Dante em português.

Podem haver alguns equívocos nas chamadas "notas de rodapé"

devido à má qualidade do som do arquivo utilizado.

Qualquer correção será bem-vinda. Movimento Cinema Livre

Vai-se por mim à cidade dolente.

Vai-se por mim à eterna dor.

Ó vós que entrais neste lugar...

deixai toda a esperança!

DANTE O INFERNO

...é um texto que sempre está aberto a novas interpretações...

TERÇA-FEIRA 7 de ABRIL 6hr da TARDE

Na metade da jornada de nossa vida

Me vi perdido numa selva escura

E a minha vida não mais seguia o caminho certo

Difícil dizer quão penosa era a tarefa de descrever a

Selvageria e crueldade daquela selva

Cuja simples lembrança me traz de volta o medo

Apenas a morte excede sua amargura;

Mas eu lá achei bondade

E falarei dela quando descrever as coisas que testemunhei

Não posso dizer como lá entrei

O sono me tomou os sentidos quando abandonei o caminho da verdade

Mas foi quando alcancei a base de um monte

Que marcava o fim do vale

Onde o medo esmagara meu coração

Olhando para cima, vi que sua vertente

Já estava coberta com raios de luz,

Mandados pelo planeta que ilumina o caminho correto

Que toda a humanidade deveria seguir

Tendo já repousado o corpo lasso

Segui pela deserta encosta adiante

Com o pé firme mais baixo a cada passo

E lá, bem perto de onde o chão começava a ascender

Um ágil leopardo move-se a toda velocidade

De pêlo manchado recoberto

O leopardo, diz-se, é a prole da união entre um leão e uma pantera.

Gerado de dois pais diferentes, o leopardo é freqüentemente

retratado como um símbolo de perda.

A fera não se afastava ante mim

E bloqueava meu progresso de tal forma que muito pensei em voltar atrás

Era cedo da manhã

E o Sol subia ao céu rodeado por suas estrelas, que um dia...

Foram movimentados pelo Amor Divino...

Me infundiram com a esperança de vencer a fera do dorso alegre e mosqueado

Mas não o suficiente, pois o pavor voltou ao meu peito

Ao ver um leão tomar a sua forma

Ele investia contra mim, com fome e raiva atroz, e a fronte tão erguida

Que o próprio ar parecia temê-lo

O leão é um símbolo importante do imaginário popular.

Desde a Idade Média, o leão tem sido usado como força e punição.

Eis que surge uma loba, de magreza espantosa, que parecia estar cheia de cobiça

Lobos são cães selvagens, que abandonaram

a lei e rejeitaram a vida urbana.

Por isso são considerados extremente raivosos, cruéis e lascivos.

A trindade das bestas representa os níveis de pecados:

O Leopardo, os pecados superficiais: luxúria e a concupiscência.

O Leão, os pecados da ambição: o orgulho.

E a Loba, os pecados profundos: a inveja e a ira.

A visão tornou minha alma tão pesada de medo

Que perdi toda a esperança de fazer a escalada

Qual homem que conquista seus bens, apenas para perdê-los quando o tempo alcança

Tal fez-me a fera que avançava lentamente, me fazendo descer, me empurrando

De volta para aquele lugar onde a luz do Sol não entra

Quando eu já me encontrava na beira daquele vale escuro,

Meus olhos viram uma presença, encoberto,

Talvez por excessivo silêncio, materializou-se ante mim

Vendo-o naquele vazio absoluto eu gritei alto:

"Não importa quem seja, uma aparição ou um homem de carne e osso".

"Tenha piedade de mim!"

Homem não mais. Homem eu fui um dia

Meus pais eram de Lombardi, Nasci em Mântua...

Nos tempos de Júlio César e vivi em Roma no império de Augusto.

Quando os deuses eram cheios de falácias e mentiras

Fui poeta e narrei a odisséia de Enéas

Que fugiu de Tróia depois do incêndio

Virgílio viveu no último século antes da vinda de Cristo.

Escreveu um longo poema épico que traça as origens do Estado Romano

de volta à mítica cidade de Tróia.

Você é Virgílio? A fonte de onde jorra a narrativa generosa?

És a glória e a luz de todos os poetas!

Deixe-me beneficiar de todo o tempo

Que estudei e que me fez ser seu seguidor

Foste tu que deu o belo estilo poético que me deu louvor

Dante, assim como Virgílio, inovou na Itália,

transformando sua língua italiana num instrumento de poesia.

Em Virgílio, Dante imaginava um poderoso ancestral.

Vê a fera que não me deixa prosseguir?

Esse animal do qual reclamas, em seu caminho barra os viajantes

E ao fazê-lo se alimenta de suas mortes

A natureza da fera é pervesa e ambicioso é seu apetite

Após comer está ainda mais faminta que antes

É insaciável, já consumiu muitos e muitos ainda irão perecer...

Até quando finalmente vier o Lebreiro que para ela será a agonia

O Lebreiro não se alimentará nem de dinheiro, nem de terras;

Só a sua sabedoria, amor e virtude poderão nutri-lo

O Lebreiro é o Messias vindouro inventado por Dante,

e a Itália, como resultado, acabou dando-o vários nomes em épocas diferentes:

Napoleão, Mussolini, Gramsci, Garibaldi.

Ele irá caçar essa fera em todas as cidades até encontrá-la

Quando então a matará e a conduzirá de volta ao inferno

Onde a Inveja, primeiro a trouxe para este mundo

Eu acho melhor, para teu bem, que me sigas

Eu serei o teu guia. Levar-te-ei para lugar eterno...

O sexto capítulo da "Eneida" se tornou uma espécie de protótipo...

para o "Inferno" de Dante.

Uma jornada pelo Submundo, então, literalmente, Virgílio é seu guia.

Onde ouvirás os gritos inúteis

Verás o tormento dos condenados que, em vão, clamam uma segunda morte

Depois verás as almas de outros que sofrem contentes no fogo

Pois têm esperança de um dia seguir ao encontro daqueles abençoados

E depois, se quiseres subir ao céu

Lá terás alma mais digna do que eu, para te guiar o caminho

Virgílio refere-se a Beatriz, que irá substituí-lo

como o guia de Dante no Paraíso.

Eu te imploro, em nome desse Deus que não conheceste,

Que me ajudes a fugir deste mal ou de outro pior

Guie-me a esse lugar que tu disseste

Que eu possa ver a porta de São Pedro

E aqueles que tão mestos descrevestes

Ele então moveu-se, e eu o acompanhei

O dia findava, e já de noite o véu

Ia dispensando os seres desta terra de seu labor

E eu, sozinho, me preparava para enfrentar a guerra

Já do caminho e ainda da piedade, que vai traçar a mente que não erra

SEXTA-FEIRA, 8 de ABRIL 18:00hrs

Ó Musas...

Grande inspiração, me ajudem agora

Tu, Memória, tudo o que eu vir será tua função demonstrar

Julga minha aptidão, se é compatível com o árduo passo que ora me confias

Lúcifer caiu do céu criando um grande buraco na Terra

Um buraco cônico, conhecido como Inferno dividido em 9 camadas

Nove áreas ou departamentos circulares

É uma caverna cônica cujo vértice é o centro da Terra

E a base é a cidade de Jerusalém,

considerada o centro do mundo terrestre.

Dizes que o pai de Sílvio visitou a zona imortal, ainda corruptível

E saiu ileso mesmo estando lá em carne e osso

O "Pai de Silvio" é um outro nome para Enéas.

Se inimigo, porém, de todo mal o apoiou

Obviamente pensando no alto efeito que dele surgiria

E quem e o qual

Não acha impróprio, quem julgar direito, que ele

Pai da alma Roma e de seu Império*, tenha sido no empírio Céu eleito:

A qual e o qual, segundo alto critério foram prescritos para o trono santo

Dos que herdariam de Pedro os pecados

*O trabalho da benção, quando Deus colocou o Universo em movimento, Ele

estendeu-o até o infinito desconhecido, provavelmente até além do espaço sideral.

E nas viagens que celebras, soube de coisas

Que trouxeram sua conquista e, após, o manto papal

Lá foi depois o Vaso de eleição para confortamento

Àquela fé, que é principio na via da salvação

O Vaso é S. Paulo, que desceu ao inferno guiado por um anjo.

Depois de ter visto todo tipo de atrocidades, S. Paulo perguntou:

"Quantos tipos de torturas existem no Inferno?"

O Anjo respondeu: "144 mil".

Por que irei? Quem permite isso?

Não sou Enéas nem Paulo. Nem eu nem ninguém crê que eu seja adequado

Receio que isso seja loucura

Para te libertar desse medo, deixa que eu te explique como cheguei até ti

Eu estava com os outros espíritos suspensos no Limbo

Quando apareceu-me uma mulher tão

Beata e bela, que implorei-lhe para dizer o que eu deveria fazer

Seus olhos brilhavam mais que estrelas e com voz de anjo suave me pediu:

Ó alma cortês de Mântua, que ainda hoje goza de fama

Que enquanto existir mundo, mais se ampliará

Ajude-me a socorrer um amigo, que está perdido na selva escura

Dá passos para trás de tão atemorizado

Pelo que soube dele lá no Céu

Temo que já esteja tão perdido Que seja tardia minha ajuda

Vai agora, e com tuas palavras habilidosas e o que mais

De salvá-lo for capaz, ajuda-o para que eu seja confortada

Eu, Beatriz, sou quem te manda lá

Eu venho do lugar ao qual almejo voltar

Beatriz existiu de verdade, era vizinha de Dante

Conheceram-se em 1274, quando Dante tinha 9 anos

Foi o amor que me trouxe e é ele quem me faz falar

Quando estiver na presença de meu Senhor,

Falarei de ti com o louvor que mereceres

Ó Senhora da virtude, só

Por quem tem tudo a humana espécie superado

Que em sua primeira esfera o céu contém

Estou tão satisfeito de te servir que, mesmo que eu já

Tivesse cumprido a ordem, ainda assim seria tarde demais

Você só precisa indicar-me vosso desejo

Mas dize-me, o que a fez descer até este fundo centro, sem medo

Vinda do Céu que tanto ardes por voltar agora?

Não tenho medo de vir aqui

Pois Deus me transformou em sua graça,

Sendo que não sou tocada por vossa miséria

Nem muito menos ferida por qualquer fogo deste lugar

Há uma Dama Gentil* no céu que se compadeceu

do que acontece com aquele a quem te envio

Que veta o mais severo julgamento vindo de cima

*A Virgem Maria tecnicamente nunca é idolatrada em si,

a ela é dada a maior das venerações, ela é a grande intercessora.

E pediu a Luzia:

Luzia de Zaragoza, a padroeira da visão e dos olhos.

Pois ela teve seus olhos arrancados durante a perseguição aos cristãos,

para que ela não excitasse a luxúria dos homens.

Luzia, do latim: Lux Luxes, "Luz"

Dante adotou-a como padroeira devido aos seu problemas de visão,

causados pela sobrecarga de leitura e exsudato na juventude.

Ela sofreu muitos tormentos terríveis,

dentre eles ser mandanda para um bordel

para que sua fé cristã fosse abalada, mas claro que isso falhou.

"O Cuidado dos Olhos"

E Luzia, sempre inimiga da maldade

Veio então a procurar-me, onde eu estava sentada.

Beatriz, por louvor verdadeiro a Deus...

Não vais salvar quem mais te amou

E que por ti se elevou do povo vulgar?

Não ouves tu ao seu pranto a amargura

E já não vês a morte como o afronta

Sobre a torrente que o mar não segura?

Nunca pessoa no mundo foi tão pronta para evitar o dano

Ou procurar proveito, como eu após palavras de tal monta

Desci aqui, do meu alto posto beato, por confiar na tua palavra honesta

Que honra a ti e a todos que a ouviram falar

Então eu cheguei a você como ela desejou

E te tirei das garras daquela

Besta que impedia sua subida ao o belo monte.

Então quê há? Por que estás reticente?

Por que não ser confiante e persistente

Quando tens três mulheres abençoadas

Que te guardam lá da corte celestial

E minha palavras te asseguram tantos bens?

A Virgem Maria, Luzia e Beatriz formam uma trindade divina.

Existem outras trindades no Inferno, a maioria malignas.

Como pequenas flores, que o frio noturno inclinou e cerrou

E agora erguem-se retas de novo, quando aquecidas pelo sol

Cada uma ereta em sua haste

Também meu valor se renova e fortalece

Meu coração, inspirado com tuas palavras, inclina-se a proceder

Voltando à primeira resolução de partir

Então vamos, que ora é dos dois um só querer:

Tu condutor, tu senhor e tu mestre!

Assim lhe disse e, quando o vi mover-se, entrei

Pelo caminho árduo e silvestre

Vai-se por mim à cidade dolente

Vai-se por mim à eterna dor

Vai-se por mim à perdida gente

Justiça moveu o meu Alto Criador

Que me fez com o divino poder, o saber supremo e o primeiro amor

Antes de mim, coisa alguma foi criada

Exceto coisas eternas, e eterno eu sou

Vós que entrais, abandonais toda a esperança!

Vai-se por mim à cidade dolente Vai-se por mim à eterna dor

Vai-se por mim à perdida gente Justiça moveu o meu Alto Criador

Que me fez com o divino poder, o saber supremo e o primeiro amor

Antes de mim, coisa alguma foi criada

Exceto coisas eternas e eterno eu sou

Vós que aqui entrais, abandonais toda a esperança!

Estas palavras escritas em tom escuro

Eu vi escritas em cima de um portal

A inscrição no portal é um tipo de apêndice à Criação.

"Amor" parece uma palavra estranha a ser usada,

mas Tomás de Aquino disse que a punição, quando merecida, é amor.

Aqui, convém, deixar toda a suspeita

Todo sentimento ignóbil será proscrito

Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei,

Onde encontraríamos as almas sofredoras

Que já perderam seu livre poder de arbítrio

Em seguida, Virgílio segurou minha mão, sorriu para me dar confiança,

E me guiou na direção daquele sinistro portal

Aqui, prantos e gemidos de "ais" irrompiam pelo ar sem estrelas

Que de ouvir me trouxeram às lágrimas.

Várias línguas, discursos insofridos, lamentos,

Vozes roucas, brados de ira, rumor de mãos, de punhos estorcidos

Retumbavam, girando e semilhando como o som de areia numa ventania

Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino,

Mas também não buscaram fazer o mal

Se misturam com aquele coro de anjos

Que não foram nem fiéis nem infiéis

Ao seu Deus, mas serviram apenas a si mesmos

O céu por não serem fiéis os rejeitam e o inferno também não os aceita

Os maus se gloriaram de os ter consigo

A que pena tão dura estão esses pobres submetidos para que lamentem tanto?

Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação

É tão vil seu viver nessa desgraça, que invejam a sorte de qualquer um

O mundo não se lembrará deles

A misericórdia e a justiça os desprezam

Deixe-os. Só olhe, e prossiga.

Dante prefigura um extermínio em massa,

mas o que torna isso tão assustador não

é apenas a morte física, mas a lembrança

de alguém morrer e perder-se para sempre.

Olhando em volta vi então uma bandeira

Tremulando tão rápida numa corrida

Que parecia não poder parar

Atrás dela, uma multidão tão grande a seguia que...

Eu mal podia acreditar que tantos já tivessem morrido

Reconheci alguns deles

Pela sombra vi aquele que fez tão ignóbil renúncia

Caracteristicamente, o primeiro

que vemos no inferno é um papa.

Dante era bem reflexivo em relação ao papa Celestino V.

De fato, para muitas pessoas ele era considerado um santo.

Afinal, ele foi o único a ser eleito e renunciar ao papado por não

suportar a pressão de sua administração, vez que não tinha um pulso firme.

Logo depois ele abdicou e voltou à vida solitária como um ermitão.

A escória estava nua, como se nunca tivesse vivido,

Exposta à picadas de vespas que a feria por todo o corpo

As picadas de vespas foram sempre

símbolo de violentos agentes de dor.

As picadas de vespas são induzidas

somente quando algo as deixa furiosas.

Ao acontecer isso, tais picadas costumam ser particularmente dolorosas.

Vespas eram consideradas criaturas do Demônio,

por serem inúteis e inflingirem dor ao homem,

características fortes daqueles inseridos no imaginário demoníaco.

O sangue escorria de seus rostos junto com as lágrimas até os pés

Onde ainda serviam de comida à vermes nojentos aos seus pés

Os vermes tinham muita influência na punição simbólica,

por serem agentes ativos na decomposição

Quando olhei além dessa turba,

Vi uma outra grande multidão que esperava às margens de um grande rio

Quem são aqueles?

E qual costume os torna pressurosos de atravessar?

Tu saberás no seu devido tempo

Quando tivermos chegado à orla triste do Aqueronte

Aqueronte, do grego "dor flutuante",

é o primeiro da trindade nos rios do Inferno.

Originalmente um rio verdadeiro no norte selvagem da Grécia.

Não muitos dos chamados "gregos civilizados" devem tê-lo visto.

Então, em silêncio envergonhado baixei os olhos, casto

Temendo ter feito perguntas demais, fiquei

Calado até chegarmos às margens do rio

Então lá, um velho pálido, branco da idade, veio direto até nós num barco

Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno!

Abandonai toda a esperança de ver o céu outra vez

Pois vou levar-vos às trevas eternas, ao fogo e ao gelo!

E tu que estás aqui, alma viva

Afaste-se destes que são mortos

Por outra via, por outro porto a outra praia virás,

E à hora azada mais leve lenho te dará transporte

Caronte, te irritas em vão!

Pois lá, onde se pode o que se quer, isto se quer, e não peças mais nada!

Caronte é o barqueiro do rio que separa os vivos dos mortos.

É preciso pagar uma taxa, uma moeda de ouro, para que

Caronte possa transportá-lo através do rio.

As almas nuas e dolorosas descoloriram-se

Dentes rangeram logo que ouviram a voz raivosa e cruel

Blasfemaram Deus e maldisseram seus ancestrais, a espécie humana

O tempo, o lugar e a pátria onde nasceram

Como folhas que o vento outonal colhe uma após outra até que

A nua ramagem só fita os restos seus que a terra acolhe

Assim dessa prole pervertida de Adão cada qual vai seguindo, um a um,

Aos chamados, como em vil passarinhagem

Agora competem aqueles que iraram a Deus

Que a morte colheu de toda a Terra

Buscam a sorte do Rio, pungidos e excitados pela justiça divina

Onde seu medo é transformado em desejo

A espera é a pior tortura.

Mesmo nos campos de extermínio, quando

as pessoas eram levadas para a execução, sentiam-se

aliviadas ao ser-lhes dito

onde ir, o que beber, o próximo banho.

Era dar um fim naquilo, ir em direção ao problema.

Poderia ser ruim, mas era melhor que esperar acontecer.

É uma última ilusão de controle, uma dimuição do fardo, eu creio.

Depois disso, o chão escuro tremeu com tanta violência

Que o suor ainda me banha de medo

Da terra lacrimosa, rompeu vento

Que um clarão respirou avermelhado

Tolhendo-me de todo sentimento

E cai, tal qual homem tomado pelo sono

Desse profundo sono fui tirado estremecendo por um trovão

Como quem é por força, despertado

BOA SEXTA-FEIRA, 8 de Abril, 8:00h da noite

Desçamos então ao mundo onde nada se vê

Eu irei na frente e tu me seguirás

E assim ele me guiou para o primeiro círculo que rodeia o abismo

Naquele lugar não ouvi sons de lamentação, somente suspiros

Vibrando o espaço inteiro do ar eterno

Pesares sem martírio os motivavam

Uma multidão de crianças, mulheres e homens

Santo Agostinho disse que todas as crianças quando nascem

são cercadas de maldições massivas.

Uma das doutrinas mais repulsivas e duras da Igreja medieval, era

a que crianças, se morressem antes do batismo, iam para o infeno.

Para as pessoas comuns isso se tornou uma enorme fonte de angústia,

então exitiam santuários especiais no final do Sec. XVIII,

onde se dava o pequeno cadáver ao Padre que o aquecia com velas,

para dar a impressão de ainda estar vivo,

e rapidamente ele batizava a criança, o que tranquilizava seus pais,

pois achavam que a sua alma estava salva.

As mulheres na visão da Igreja medieval

eram a maior armadilha do Demônio.

A mulher era fria e molhada, enquanto o homem era quente e seco,

então, a mulher incitava o homem a pecar com ela.

Esses espíritos, é bom que saiba antes de continuarmos

Estes coitados não pecaram, mas não podem ir para o céu

Faltou-lhes o batismo, portal da fé em que és ditoso crendo

Na vida antecedendo o Cristianismo, nunca prestaram o devido culto a Deus

Eu também pertenço a esse abismo

Somos por essa causa, essa somente, perdidos

Mas nossa pena é só esta: sem esperança ansiar eternamente

Há certos pontos da fé católica, que nós não gostamos muito.

Nunca poderemos entender a exclusão dos pagãos da salvação.

Senti pena dele enquanto falava e imaginei quanta gente

De valor deveria estar suspensa para sempre nesse limbo

O Limbo foi meio que uma invenção de Dante,

determinando a borda do Mundo ou fora de seus limites.

No Limbo encontraremos os heróis, os profetas e os pagãos virtuosos,

pessoas que viveram antes da vinda do Redentor.

Alguém daqui já subiu ao Céu por merecimento próprio ou alheio?

Eu era novato neste lugar quando um Rei poderoso aqui desceu

Ele usava o sinal da vitória na sua coroa

Cristo foi a isca enviada por Deus, o anzol era a cruz.

O Demônio a engoliu levando Cristo ao Mundo dos Mortos.

Mas era mais do que podia mastigar e assim expeliu Cristo de volta.

Cristo desce ao inferno e arromba as suas portas,

arrancado de lá pelas mãos Adão, os patriarcas e os profetas,

e as portas do Inferno foram fechadas com sete selos,

para não mais serem abertas até o Juízo Final.

Vi quatro silhuetas se aproximando

Aparentando nem lamento nem alegria

Veja aquele, qual monarca ufano,

empunha espada deixando os três distantes

É Homero, o poeta soberano

Homero era o protótipo dos poetas, e como tal acreditava-se ser cego.

Juntos prosseguimos, até finalmente chegarmos onde emanava a luz

Lá se erguia um nobre castelo de sete sólidos muros altos

Acompanho dos gênios, eu entrei

Passando pelos sete portais

Os sete muros do Castelo da Fama, são as sete virtudes.

Os sete portões, as sete ciências estudadas na universidade medieval.

Chegamos a um prado, fresco e verde

Onde os espíritos dos grandes me foram mostrados

À parte, minha alma alegrou-se pelo que viu

Eu vi Electra!

Electra está lá porque ela é a mãe de Dardano

que fundou toda a dinastia de Tróia,

que depois na pessoa de Enéas, fundou Roma,

o qual Virgílio, guia de Dante, celebrava.

Eu vi Camila...

Camila era uma princesa italiana que

dedicou sua vida à Deusa da Castidade.

Ela possuia um grupo de guerreiras que

ficavam nos campos, sem perturbar os demais.

Eu vi Pentesiléia...

Rainha das Amazonas, selvagem e perigosa, pelo que se sabe.

Eu vi Julia, Márcia e Cornélia!

As três eram exemplos das virtudes da velha República Romana:

Castidade, Fidelidade e Estoicismo.

Separado de todos, eu vi Saladino.

Salah al-Din representava a magnimidade oriental,

ele era o contrapartido de Ricardo Coração de Leão,

e estava no Limbo, ao invés das profundezas do inferno,

porque foi amável com os prisioneiros cristãos.

Alçando os olhos, vejo o imortal mestre de todo homem de saber

Cercado de sua família filósofa

Aristóteles, a quem devemos nosso moderno vocabulário europeu de discurso.

Dante inclui a "visão aristotélica" mas teve que ter muita cautela ao fazê-lo,

assim como todos daquele século que eram cristãos.

Eu vi Sócrates e Platão!

Sócrates deslocou a investigação filosófica para o que chamamos de ética,

matéria que lida com os relacionamentos sociais.

Platão era pupilo de Sócrates e escreveu vários de seus seminários,

oos quais chamou de "Diálogos".

Eu vi Demócrito, o atomista!

Eu vi Diógenes!

Um "cínico", conhecido como "filósofo cão",

morava num barril e desprezava as posses.

Eu vi Tales

Tão interessado em estudar as estrelas que

ao alhar para o céu não prestou atenção e caiu num poço.

Eu vi Heráclito

Formulou a teoria da necessidade de opostos, "tudo o que sobe desce",

"Tudo está em estado de fluência".

Eu vi Dioscórides

Descreveu uma detalhada lista de plantas para fins medicinais,

que continuaria a ser usada milhares de anos depois.

Eu vi Orfeu!

Um homem dotado, ou amaliçoado, com um grande talento musical.

Ele adormeceu as três cabeças de Cérbero

com o fim de lhe ser permitida a entrada no Mundo Subterrâneo.

Eu vi Túlio

Marcus Tullius Cicero, o grande orador romano,

traduziu Aristóteles para o latim.

Eu vi Sêneca

Um modelo de virtudes éticas,

tutor do notório futuro imperador Nero.

Eu vi Euclides

Seus tratados sobre os princípios da geometria continuam, até hoje,

sendo os textos básicos desse estudo.

Eu vi Ptolomeu

Escreveu um livro chamado "Sintaxe Matemática",

mostrando maneiras geometricas de calcular o movimento dos planetas.

É tido como o maior livro já escrito sobre o Universo.

Eu vi Hipócrates!

O pai de medicina, aquele que formulou...

o famoso "Juramento de Hipócrates".

Eu vi Avicena

Um médico árabe, "Abu Ali al-Hussayn ibn Sina".

Escreveu comentários sobre os estudos aristotélicos,

e através dele tais conhecimentos chegaram à ciência ocidental.

Eu vi Galeno

Notório por seus trabalhos em biologia e medicina,

a autoridade máxima no assunto, por 1300 anos.

E Averróis

Seu nome árabe era Ibn Ruchd, escreveu tratados sobre Aristóteles,

que teriam sido lidos por Dante.

Não conseguiria dizer tudo o que vi

Muitas vezes, por longo e urgente ser o assunto

que por vezes sou condenado à omissão

Dos seis, restamos apenas dois

Meu sábio guia me levou para um caminho diferente

do ar sereno para o tempestoso

Chegamos, então, a um lugar onde nenhuma luz brilha

Desci dessa arte ao segundo círculo

Que o espaço menos largo compreendia

Onde o pungir da dor é mais profundo

Lá estava Minós, rangendo terrivelmente

Julgando todos os pecados

Dante usa como modelo o sexto livro da Enéada de Virgílio,

- E Minós está lá. - Burocrata.

Sentado em seu trono, julgando os destinos.

Juiz, padre, banqueiro, advogado...

De certo modo esses pecadores,

precisariam de um guarda, de um juiz.

Ouvia suas confissões e proferia a sentença,

Quando uma alma desditada vem e lhe confessa seus crimes

Com perícia em pecados cosumado Minós lhe adapta um lugar no Inferno

O número de vezes que ele enrola sua cauda

Determina o número de círculos que a alma deve baixar

Sempre há muitos lá, cada qual tem sua vez de ser julgado

Falavam, ouviam e eram atirados no abismo.

Ó tu que entras no asilo da dor

Vê bem em quem confias e como entras aqui

É fácil de entrar, mas não te enganes!

Por que gritar?

Não podes impedir esta jornada, pois lá, onde tudo

O que se quer se pode, isto se quer e não peças mais nada!

Pouco a pouco comecei a perceber sons tristes

Onde intenso chorar me aviva os ouvidos

Neste lugar escuro onde eu me encontrava

O som das vozes melancólicas se assemelhava

Ao assobio do mar durante uma grande tormenta

Os tristes sons emanavam de um enorme redemoinho

Eram almas sofredoras, sacudidas pelo vento que nunca cessava

A devastação os encarava a cada um

Ouvi dor, soluços e lamentos

Enquanto eles blasfemavam contra a onipotência

Ouvi que estão naquele padecer, os que se entregaram aos vícios da carne

E aos seus apetites se submetiam

Quais estorninhos, que a voar se travam Em densos bandos na estação já fria,

Em rodopios as almas fracas volteavam

Ao capricho do vento que não parava

De menos dor a esperança

Estorninhos precisam ficar juntos em tempo frio.

Aparentemente desorganizados, eles sabem o que estão fazendo.

E como grous, que avançam do ar cantando seu grasnido

Vejo seu gemer que não descansa

Quando grandes pássaros migram,

posicionam-se em grandes linhas, com os pescoços retos.

Os grous possuem um pescoço curioso.

Eles possuem uma traquéia anelada, que carrega alimento muito bem.

A primeira, cuja história deves conhecer

Foi imperatriz de povos de muitas línguas

Aproveitou-se tanto da luxúria, que em lei dispôs ser lícito e agradável

Como desculpa, às suas torpes fantasias

É Semíramis

Foi rainha da Assíria, matou seu marido, e depois um segundo.

Ela cultivava o hábito de selecionar todas

as noites os mais brutos de seu exército,

levava-os pra cama e, de manhã, dispensava-os.

A que a segue é a viúva de Siqueu, que se matou por amor

Dido, rainha de Cartago, apaixonou-se por Enéas

e quando ele partiu, ela suicidou-se.

Dido estava no relato de Virgílio, mas

na verdade ela foi uma ótima esposa.

Ela foi muito fiel a Siqueu.

Veja ali, Helena, a causa fementida de tanto mal

Veja o grande Aquiles, que teve por amor, a batalha final

Veja Páris, Tristão

E, uma por uma, me indicou outras mil sombras

Que tiveram suas vidas desfeitas pelo amor

A compaixão me estava confrangendo, dessas damas

E antigos cavaleiros, nomes ouvindo e mágoas conhecendo

Eu gostaria, se for possível, de falar com aqueles

Dois, unidos, que tão leves parecem ser ao vento

Quais pombas, que saudosas de asas fitas, ao doce ninho, em vôo despendido

Vão pelo ar, seus desejos adstritas

Os pombos são parceiros por toda vida, passam o dia juntos...

Eles se separaram da turba em que era Dido

E a nós se inclinaram

Ó ser gracioso e benigno, o que desejares ouvir ou falar

Conosco, nós ouviremos e falaremos, se o vento permitir.

Nós, tendo dado o sangue ao mundo infando

Se amigo o Senhor fosse do Universo, da paz aos rogos nossos, gozarias

Pois te enternece o nosso mal perverso

O que dirias enquanto o vento é quedo

Ouviremos atentamente, e diremos quanto ouvir, desejarias

Amor, que ao coração gentil logo se prende, tomou

Este aqui, pela beleza da pessoa que de mim foi levada

E o modo ainda me ofende.

Amor, que a nenhum amado amar perdoa

Prendeu-me, pelo seu desejo com tanta força que

Como vês, ele ainda não me abandona.

Amor nos conduziu a uma só morte

Caína aguarda aquele que tirou as nossas vidas

Ela tinha 30 anos, quando foi morta pelo seu marido, por adultério.

Não há maior dor, que lembrar da felicidade passada

Mencionar é dor

Mas se teu grande desejo é saber a história de nosso amor

Te direi como quem chora e fala.

Francesca é uma heroína do Romantismo.

Dante também nos mostra uma pessoa

contando uma estória errônea, trapaceando um pouco.

Líamos um dia, sobre a história de Lancelote

Como o amor o tornou seu prisioniero

Éramos sós, de corações quietos

Várias vezes essa leitura nos ergueu olhar a olhar

Fazendo-nos empalidecer antes de ruborizar

Uma passagem em particular foi nossa ruína

Aquela que falava do sorriso que

Desejava ser beijado por um perfeito amante

Que este aqui que nunca me seja apartado

Tremendo, beijou-me a boca naquele instante

Nosso Galeoto foi aquele livro e quem o escreveu

Desde aquele dia, não o lemos mais adiante

Enquanto essa primeira alma falava

A outra chorava ao seu lado

E eu, comovido de piedade e dor

Desmaiei, e caí como um corpo morto cai

Quando me refiz, da infelicidade constristado

A infelicidade me confundia, trazendo de volta meus próprios lamentos

Estava cercado de mais tormentos e mais

Atormentados que surgiam de todos os lados

O círculo onde estava era o terceiro

Onde eternamente, sempre a mesma chuva caía

Fria, escura e pesada

Neve e granizo, caía sobre a lama podre que as almas encharcavam

Na Idade Média, chuvas anormais eram tidas com sinais de desastre,

Poderiam ter exércitos vindo dos céus, chuva de sangue, chuva de rãs,

que sugeririam mortes de reis ou famílias.

Aqui, Cérbero, fera cruel e perversa, latia com

Suas três goelas para as almas submersas na lama abaixo

Cérbero originalmente tinha 50 cabeças,

mais tarde a mitologia diminuiu para o número razoável de 3 cabeças.

Elas berravam como cães e se contorciam na lama

Tentando em vão se proteger das chicotadas da chuva dura

Quando Cérbero nos viu, abriu suas três bocas e exibiu suas presas

Rangendo e estremecendo diante de nós

Meu mestre, cauteloso, encheu suas mãos

De terra e atirou nas goelas do cão danado

Se você quiser entrar no Mundo dos Mortos,

você precisa alimentar Cérbero, geralmente com bolos.

Você dá um bolo por vez, para ir

acalmando-o e assim entrar mais rápido.

Dante usou muitos elementos infernas já existentes,

como é o caso de Cérbero, da Eneida.

Caminhamos, então, por entre as almas, pisando espectros

Vazios que se assemelhavam a formas humanas

Jaziam deitados se confundindo na lama que assumia suas formas transparentes

Exceto um que se ergueu na hora em que passávamos na sua frente

Ó tu que és guiado por este inferno, me reconhece?

Pois tu foste vivo antes que eu fosse desfeito

A angústia te deforma de maneira que eu não consigo reconhecer-te

Mas dize-me quem tu és, condenado a este

Lugar vil e submetido a tamanha tortura

A tua cidade tão invejosa, um dia me teve na vida serena

Teus conterrâneos me chamam Ciacco, o Porco

Não sabemos nada de Ciacco.

O Porco poderia ser qualquer coisa.

Por causa da gula sofro na chuva, como estas

Outras almas, condenadas por semelhante culpa

A punição da gula é um lugar úmido, pois a

maioria dos "gulosos" eram na verdade bêbados.

Pessoas gordas não eram má vistas na Idade Média, mas os bêbados

eram julgados com maior severidade pelo povo,

pois sua gula leva-os à luxúria, e esta leva-os à fornicação.

Ciacco, teu estado miserável me causa grande tristeza, mas dize-me

O que vai acontecer, se souberes, com os cidadãos de nossa Florença?

A divisão entre os Guelfos e os Gibelinos,

e dentro dos Guelfos, os negros e os brancos...

[nos Estados italianos da Idade Média, partidários

dos imperadores da Alemanha em luta contra os Papas]

Algum justo ali vive? Por que motivo se deve a cizânia que ali cresce?

Não sabemos nada sobre Ciacco, ele é o 1º florentino que encontramos.

Ele também aparece no Decameron de Boccaccio.

Depois da paz, haverá guerra e sangue

O partido rústico expulsará a outra parte brutal

Em 1300, Florença estava em duas mãos, os partidos Guelfos Brancos e Negros.

Dante estava no errado, no Branco, por isso foi banido.

Mas, depois de três sóis, com a ajuda

Daquele que agora parece estar dos dois lados

Voltarão ao poder, e por longos anos manterão

Os outros afastados, por mais que implorem ou chorem

Dante terminou o Inferno em 1321.

Os eventos relatados aconteceram em 1300,

então ele escreveu as profecias que já conhecia.

Justos há dois: ninguém lhes ouve

Avareza, Orgulho, Inveja, é o que deixado seus corações em fogo

Por favor, continue, com a informação completa que preciso

Farinata e Tegghiaio, homens bons. Jacopo Rusticucci, Arrigo e Mosca,

E tantos outros que usaram seu gênio para o bem? O que houve com eles?

Onde estão?

Estão entre os que sofrem punição mais crua, pelo mal que fizeram

Se desceres fundo verão a sua face

Dante encontrará Farinata, no sexto círculo.

Queimando numa cova.

Tegghiaio e Rusticucci estarão no sétimo círculo.

Junto com os sodomitas.

Mosca será encontado no oitavo círculo,

Com suas mãos amarradas por cobras.

Arrigo não mais será encontrado.

Mas quando voltares mais uma vez ao mundo doce

Te imploro que leve minha lembrança aos que lá deixei

Não sabemos nada sobre Ciacco.

Este não mais se levantará até o dia em que soar a trompa angelical

Quando a adversa potestade virá e cada alma voltará à sua tumba

Retomará sua carne e sua forma humana, e ouvirá a voz que eterna soa

E assim cruzamos aquela mistura suja de almas com chuva

Aproveitando para falar um pouco da vida futura

Mestre, quanto a este tormento, ele crescerá...

Será o mesmo ou será atenuado após a grande sentença?

Retorna a tua ciência na qual se ensina que o

Ser mais perfeito mais sente seja o bem ou a ofensa

Embora essas almas malditas nunca possam um dia chegar à perfeição

Para lá, mais que para cá, será sua sina

Perlustramos do círculo a cintura, de coisas praticando que não digo

Até descer um degrau na estância escura

Lá está Plutão, nosso grande inimigo

Pape Satàn pape Satàn aleppe!

James Joyce, em um de seus grandes textos, utilizou-se da frase dita por Plutão.

Creio que há uma ligação entre Plutão,

Deus dos Mortos, e Plutão, Deus da Riqueza.

E é bem possível que essa ligação esteja atuante em Dante.

Não tenhas medo dele, por mais que tenha poder

Ele não pode impedir nossa descida

Cala a boca lobo maldito! Consome em ti mesmo tua raiva

Nossa descida não é sem propósito, pois é algo que se quer nas alturas!

Diante daquela voz revestida de autoridade, mal pôde reagir

Logo fraquejou e diante de nós, tombou

Aproveitamos, então, para descer pela beira que contorna o quarto círculo

A qual todo seu mal o mundo envia

Ah, justiça de Deus! Que forte lei, dores, penas aos montes eu vi

Por que a venda da culpa nos obceca?

Como em Caridbe a onda que ressoa Embate noutra, e quebram-se espumantes

Assim essas turbas, uma às outras se abalroam

Provérbios geralmente opõe ou unem demônios com o profundo mar azul.

Organizadas em dois grupos que se enfrentavam, com os

Peitos nus, rolando grandes pesos em sentidos contrários

Até colidirem uns com os outros

Como na bolsa de ações, um lugar onde os negócios encontram o dinheiro.

Batiam, gitavam e voltavam

Sempre duas vezes em volta do círculo que seguiam

Depois do choque seguiam em sentido

Contrário até se encontrarem novamente

Do outro lado do círculo. E assim continuavam por toda a eternidade

Às vezes temos pessoas esperando os resultados nos monitores,

agitando os seus braços, gritando, chocando-se, batendo rosto com rosto...

Quem são essas pessoas? Eram padres com corte de cabelos em cercilha?

Todos em sua vida terrena, não foram judiciosos com seus gastos

Isto declaram, quando se encontram nas suas culpas opostas

Esses de coroa pelada são clérigos, papas e cardeais

Nos quais a avareza se manifesta mais facilmente

A Igreja tornou-se uma grande instituição burocrática,

arrecadando impostos em toda Europa Ocidental.

Ela converteu-se numa verdadeira corporação

latifundiária, lucrando muito com o preço dos aluguéis, etc.

Em um grupo como este certamente serei capaz de reconhecer alguém

Não perca seu tempo. Sua vida sem conhecimento os tornou imundos

E agora é mais difícil reconhecê-los

Eternamente se enfrentarão, aqueles de...

Punho cerrado e aqueles outros sem cabelos

Mal dar e mal guardar os tirou do mundo, colocando-os nessa rinha

Com mágoas, que não podem ser contadas

Os irresponsáveis gastam além de suas posse,

E e os avarentos poupam para o seu

próprio benefício, escondendo dinheiro.

Nem os irresponsáveis nem os avarentos

são de serventia alguma para a sociedade.

Vês, filho, como de nada adianta os homens brigarem pela fortuna?

Pois todo o ouro que está ou já esteve sob a lua não comprará um

Minuto sequer de descanso para essas almas cansadas

Existiam as "Casa dos Tesouros", locais onde eram armazenados

todo o ouro conseguido ou tomado. Eram verdadeiros estoques de ouro,

os reis tinham de ter, os papas também...

O que é a 'Fortuna' de que agora falas? Essa que guarda

Todas as riquezas do mundo em suas mãos?

Aquele cujo saber tudo transcende

Fez os céus e lhes deu quem os conduz, e cada esfera que

Brilha reflete sobre as outras, distribuindo igualmente a luz

Do mesmo modo, para as riquezas mundanas designou

Uma ministra para que ela cuidasse de permutar,

De tempos em tempos, os bens profanos entre

As nações e famílias, livres do alcance da cobiça humana

Então, enquanto uma nação impera

Outra enfraquece, de acordo com o arbítrio dela

Que é oculto como uma serpente na relva

Vosso saber não tem poder sobre sua lei

Pois ela prevê, julga e rege sobre seu reino

E ela nunca pára. É amaldiçoada até por quem

Deveria louvá-la, mas como é beata, ela não os ouve

Fortuna era uma deusa pagã, Dante a trouxe para seu sistema cristão.

A deusa Fortuna é sempre uma figura circular na astrologia.

E entre iguais criaturas primitivas, goza alegria em paz girando sua esfera

Desçamos agora às dores mais esquivas

Estrelas que surgiram agora baixam

Demora é defesa, é nociva

Descemos então por uma vereda escura onde

Nascia uma fonte de água preta e fervente.

Atravessamos o riacho e acompanhamos as encostas por de um caminho estreito

Até que chegamos finalmente às margens de um vasto

Pântano chamado Estige, onde o riacho desaguava

Aqueronte e Estige, diferentes rios, geograficamente falando,

designavam o mesmo rio mítico, aquele que separa os vivos dos mortos.

O Estige era um rio em Arcádia, cuja água, fria, venenosa e fatal, corroía até o ferro.

Apesar da escuridão, pude ver, naquela água escura

Vultos nus cobertos de lama remexendo-se, com feições iradas

Eles esmurravam-se com as mãos, batiam cabeças, se chutavam

E arrancavam as peles uns dos outros com os dentes

Aqui tu vês as almas dos vencidos pela ira, e vou dizer-te ainda, se me crês

Que embaixo d'água há gente que suspira, fazendo-a borbulhar

São aqueles vencidos pelo rancor, a ira contida

E passiva, porém igualmente destrutiva

Suspiram pela lama fétida

Eles gorgolam o lodo e formam as bolhas incapazes de soltar uma palavra

Depois demos uma grande volta, seguindo entre o rio e a orla seca

Sempre observando aqueles que engoliam a lama

Até chegarmos ao pé de uma alta torre

Eu devo explicar que, bem antes de chegarmos ao pé daquela torre

Já observávamos as duas chamas que havia no seu cume

Na escuridão do rio, outra luz tão distante

Que quase não se via, respondia com um sinal

Que sinais são estes? E aquela outra chama

O que ela responde? Quem é que as provoca?

Sobre esta lama imunda em breve poderás perceber o que se espera

Mal ele terminara de falar, da escuridão surgiu um barquinho pilotado

Por um barqueiro solitário, cortando a água em nossa direção

Chegaste, alma culposa!

Flégias, desta vez tu gritas em vão pois

Só vais nos levar à outra margem e nada mais

Flégias foi condenado à uma eternidade de tormento psicológico.

O deus Apolo estuprou sua filha. Flégias enraivecido queimou o templo de Apolo,

que condenou-o a permanecer no Inferno, bem abaixo de uma

pedra enorme, pendente, sempre prestes a cair sobre ele.

Como quem reconhece o engano, Flégias conteve sua ira

Meu guia calmamente embarcou e depois eu entrei

E só então o barco pareceu carregado

Um ser lamacento surgiu das águas e me chamou

Quem és tu que vens antes do tempo?

Venho, mas não demoro, mas quem és tu tão revoltoso?

Eu sou um dos que chora, como podes ver

Com choro e com luto, espírito maldito, que assim permaneças,

Pois eu te conheço, mesmo tão sujo!

Filippo Argenti era rival político de Dante, seu nome siginifica Prateado,

o nome vinha de seu hábito de cavalgar com ferraduras de prata.

Ele saltou sobre o barco, meu guia mais rápido conseguiu mandá-lo de volta

Cão, vá se unir com teus iguais!

Adorei vê-lo afundar na imundície, Virgilio me diz antes de continuar:

Abençoado seja, quem tão altivo e honestou te gerou

A mãe de Dante morreu quando ele ainda era jovem.

Ao ser parabenizado por Virgílio pela sua raiva, ele aceita a ausência dela.

Tão breve observação sobre sua mãe parece muito

estranha, pois trata-se de uma pessoa importante de sua vida.

Abençoado seja, quem tão altivo e honestou te gerou

Dante está dizendo que as pessoas ao lerem isto

saberão que tenho razão de estar zangado,

e terão orgulho disso. Saberão que fui parte de tudo isso,

e que por isso fui tão intolerante".

Abençoado seja, quem tão altivo e honestou te gerou

Virgílio está parabenizando Dante por não ter pena das almas do Inferno

No mundo este homem foi pessoa orgulhosa

E nada de bom resta em sua memória

Por isto é que sua alma está aqui tão furiosa

Quantos lá em cima se julgam grandes reis

E aqui estarão como porcos na lama?

Deixando fama de si poluída

Pouco depois, ouvi seus companheiros o massacrarem

Deletei-me tanto que ainda agradeço a Deus ter me permitido

E lá o deixei, e disso não falo mais

Comecei, a ouvir vozes dolorosas, que me impeliram a olhar adiante

Nos aproximamos da cidade que se chama Dite

Com seus tristes cidadãos e grande companhia

Já posso ver as suas mesquitas logo acima do vale

Elas brilham, vermelhas como ferro em brasa

É o fogo eterno que arde no seu interior que

Faz esse brilho rubro se espalhar pelo baixo inferno

Entramos no fosso que cerca a cidade

E Flégias deu uma grande volta em torno dela

Os muros me pareciam ser feitos de ferro maciço

Quando cheguei ao portão, vi uma multidão que caía dos céus como chuva

Quem é esse que, sem morte, anda pelo reino da morta gente?

O sábio mestre veio em meu auxílio. Dirigindo-se aos demônios

Fez sinais indicando que gostaria de falar com eles secretamente

Tudo bem, mas vem tu sozinho. E esse outro aí

Que achava que podia andar como rei nesta terra

Que prove que pode voltar sozinho se souber

Pois tu que o guiaste até aqui vais ficar conosco!

Apavorei-me diante dessas palavras e temi

Não mais poder voltar a ver o mundo outra vez

Não temas, porque o nosso passo, ninguém pode impedir

Fique aqui e espere por mim

Ele foi e me deixou só, confuso com o sim

Em conflito com o não em minha mente

Não ouvi a conversa. Só vi a briga para entrar

De longe e a porta da cidade se fechar

Diante de Virgílio, que voltou para mim

Cabisbaixo, em um passo lento, seu olhos fitando o chão

Faltava-lhe a afouteza de outrora, e dizia suspirando:

Olha só quem me nega a cidade da dor!

Não te aflijas, que os óbices te digo,

Hei de vencer que a entrada estão vedando

Essa insolência do inimigo não é nova, Já mostraram em mais patente porta

Viu comigo, as que estavam sem tranca, E a lúgrebe inscrição tu contemplaste

Já vem descendo a penedia, e sem guia

Passando pelos círculos aquele

Por quem esta entrada será aberta.

Legendas: Vander Colombo

Contribuição: Gianfranco Marchi

MOVIMENTO CINEMA LIVRE

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