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Meu coração Não
sei porquê
Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos ficam
sorrindo E pelas ruas
Livros encapados, telefone fixo.
É um homem à moda antiga.
Livros são eternos e telefone fixo eu não atendo nunca.
Só quem liga é minha mãe ou os robôs. Pode ser sua mãe.
Minha mãe só liga em caso de doença.
Pode ser caso de doença. Bom, você quer atender? Pode ficar à vontade. Atende
lá. Aliás, tem uns robôs que são bem simpáticos, viu?
Alô?
É Laura.
Tudo bem. E a senhora?
Alô, mãe?
O que houve? É doença? A senhora está bem? Está passando mal? Como é que...
Ah, que eu vou, Paulo.
Eu estou ótima.
Minha saúde tá perfeita, nunca me senti tão bem. Ah, e o colesterol, bom, ruim,
médio, como tá? Então, você vê. Meu colesterol bom, tá ótimo.
Tem que tomar azeite, hein, mãe? Muito azeite, hein? Ah, eu sei. Você já falou
a história do azeite. Então, se a senhora tá bem, por que a senhora tá me
ligando? Porque eu tenho uma notícia pra te dar. É uma grande notícia. Ah, é?
É. Eu vou me casar.
Paulo?
Paulo?
Alô?
Você ouviu o que eu acabei de dizer?
Escutei. Eu escutei. A senhora está morrendo. Não, eu não estou morrendo. Ao
contrário, eu estou vivendo. A senhora só pode estar morrendo. Porque de onde a
senhora tirou essa ideia absurda de casar? A senhora sempre foi contra
casamento. Pois é, mudei de ideia. Qual o problema?
Uma ideia que não pode ser mudada é uma péssima ideia.
Não, não, não. Isso a senhora não pode fazer. A senhora pode pisar na memória
do meu pai. A senhora pode ser a inconsequente que a senhora quiser.
Agora, usar uma frase minha, não.
Isso a senhora não vai. Ai, não seja dramático e não exagere. E depois, essa
frase não é sua.
Deve ser de algum grego. Ou alemão. Não sei, mas... Bom, você tá certa.
Desculpa, mamãe. Desculpa, é que eu fiquei emocionado. Eu não esperava isso.
Imagina, minha mãe casando. Como é o nome do Felizardo? Ah, é o Evaristo.
Você vai conhecer.
Evaristo? É.
É um nome antigo, né? Deve bater com a idade dela.
Menos mal.
Menos mal por quê? Que preconceito é esse? Não tem preconceito nenhum.
Homens podem casar com garotinhas, mas mulheres têm que casar com homens da sua
idade. Mulheres não, Laura. A gente tá falando da minha mãe. Mães são mulheres
antes de serem mães.
Eu espero nunca me esquecer disso. Mães são mulheres antes de serem mães. Mães
são mulheres.
Você não vai esquecer disso.
Aliás, você vai ser uma mãe maravilhosa.
Quanto a isso, nenhuma dúvida.
Ah, por que o Oliveira não pode ir com a gente?
O Oliveira é pisciano, enjoa demais nas curvas da estrada. E ele vai ficar com
quem? Com o Domingos, que a de Libra os dois se dão muito bem. Eu tenho quase
certeza que o meu filho ou filha vai ser sagitário.
com um acidente em câncer pra equilibrar. Não tem como você saber
disso agora.
Não discute com mãe. Mãe sempre tem razão. Mãe é mãe.
É, já o pai, né? Quem é que sabe a verdade sobre o pai? Quem sabe? Se Deus,
ou natureza, escolhe aí o nome que vocês quiserem dar, quisesse mesmo que a gente
soubesse quem é o pai da gente, teria dado uma prova inequívoca. O que você tá
querendo dizer? Que Deus tinha que ter criado o exame de DNA?
Uma prova, uma pinta na testa, um código de barra.
Mas essa dúvida existe.
E ela existe.
Deve ter algum sentido. Tudo na natureza tem algum sentido. Não, nem tudo.
Apêndice, por exemplo, parece que é inútil.
Assim como essa dúvida pode ser inútil também.
Pai é quem cria. Já parou pra pensar que esse filho poderia ser meu? Não poderia,
não. Em tese.
Em tese. E na prática, esse filho ou filho é meu. Ou minha.
Eu tô falando que eu poderia ser o pai dessa criança. Ou mãe.
Gente, eu tô falando sério. Eu casaria com você se você quisesse.
Obrigada. Achei que você fosse contra o casamento. É da minha mãe.
Eu também não sou contra, eu só acho estranho.
Estranho por quê?
Porque é na idade dela, né? Mas que bobagem. Tua mãe é tão jovem, tem o quê?
60 anos?
Sim, é igual a você, a sua idade. Eu não tenho 60 anos. É, prioridade por lei.
Legalmente velho. Tudo bem ter 60 também, Cabral.
Eu não tenho. 60 são os novos 45. Não tenho 60.
E não existe idade pra casar. Ai, que melancolia.
Você tem 60, você esqueceu porque tá velho.
Pensando bem, não existe idade pra casar.
Eu acho que o Cabral poderia casar agora, por exemplo. Ia ser super bom pra
ele. Eu gostaria muito de me casar de novo, muito. Eu adoraria, adoraria me
casar, mas não com uma pessoa que eu conhecesse muito bem.
Quando duas pessoas sabem tudo uma da outra, não funciona.
Na paixão, é preciso mentir um pouco, mentir, exagerar.
Sei que nada será como antes amanhã
Que notícias me dão dos amigos Que
notícias me dão de você Sei que nada será como está
Que saudade de falar de você.
Nossa, você tá linda, linda, linda. Tá jovem. O que você fez?
Eu cortei o cabelo. Foi o cabelo. Nossa.
Mais prático. Você gostou? Tá linda, né? Eu adorei. Esse cabelo realmente tá
muito bom.
E você que tá igual, igual. Você acha?
Só engano seu, minha mãe, que ela tá grávida.
Grávida? Você acredita? Tô.
Parabéns. Obrigada.
Quanto tempo você tá?
Acho que uns oito. Oito?
Dez semanas.
Oito? Oito. É, oito.
É o pai?
Não, não. Esse é o Cabral, aquele amigo que eu falei pra você.
Cabral.
E não, não é o pai. Não, eu já entendi.
Prazer.
Parabéns. O segundo casamento é o triunfo da esperança.
E da sabedoria também.
Eu aposto que aquela lenda que a primeira vez é a melhor foi inventada
por um homem.
Certamente, homem. Vamos entrar,
vamos entrar. Vamos.
Ah,
já mudou muita coisa. Isso é novo.
Isso aqui não estava aqui também.
Aqui tinha uma estante com... todos os livros que você pode imaginar, de todos
os tipos. Tinha almanac, tinha enciclopédia britânica, tinha um Atlas
Mundial.
Nossa, esse era o meu preferido.
Eu lembro muito, toda tarde era isso, era escalar a estante, pegar o Atlas,
abrir aquele mapão e ficar viajando, imaginando que eu era um capitão de um
navio pirata, sabe?
Ou então eu ficava brincando com os carrinhos no chão da sala, imaginando
umas estradinhas nos labirintos desse tapete aqui.
Ali também tinha um... Que tapete?
Esse tapete.
Mãe! Que tapete? Mamãe, que tapete? O tapete vermelho, mamãe. O tapete da
sala.
Vermelho?
Bordeaux. Bordeaux, um tapete antiquíssimo. Mas pelo amor de Deus,
vermelho, Bordeaux, Foucault, o que seja, o tapete da sala.
O único tapete que tinha na sala. Cadê?
Eu dei um fim nele, um tapete velho. Acho que da última vez que você esteve
aqui a gente não tava.
Mamãe, você não acha simbólico você se livrar de um tapete assim que decide se
casar de novo?
Simbólico? É.
Ácaros não são simbólicos? São aracnídeos? São animais com oito patas?
E depois aquele tapete acumulava muito pó? Mamãe, meu pai... O seu pai não dava
nada por aquele tapete. Seu pai tinha um espírito livre, exatamente como você.
Não sei nem como é que aquele tapete durou tanto.
Sabe uma coisa que eu aprendi com o Evaristo?
É deixa a vida me levar.
Isso é Zeca Pagodinho.
Ele adora Zeca Pagodinho.
Eu amo o Zeca Pagodinho.
E como vocês se conheceram? No laboratório de análises clínicas.
Não é muito romântico, mas nós estávamos tão felizes. Por quê? O resultado dos
nossos exames estava dentro dos valores de referência. Daí ele me deu uma
carona. E ele faz o quê?
Ele... Ele mexe com o dinheiro.
Banqueiro. Não, nem tanto.
Bancário? Também, né? Ele é financista.
Que isso?
Ele trabalha na bolsa, meu filho.
Mamãe, eu não estou acreditando. Você vai casar com um especulador?
Para com isso.
Preconceito absurdo. Que coisa.
A bolsa representa a economia real.
São ações de empresas que produzem coisas reais e geram muitos empregos. É
isso.
Ele chegou.
Tô acreditando, a minha mãe se converteu ao capitalismo em Cabral.
Que bom que você chegou.
Paulo já tá aí. Já.
Me atrasei? Não, nada disso.
Paulo.
Como vai? Tudo bem? Tudo certo.
Eu adorei a sua peça.
Ah, você leu minha peça?
A Di me passou a cópia.
A Di.
Não era pra ter lido. Era, era pra ter lido, imagina.
Gostou da peça?
Muito.
Eu ri muito.
Não é exatamente uma comédia.
Sim, mas tem partes muito engraçadas.
Eu também chorei no final. Também não é pra tanto.
Não pensou em fazer um final feliz pra história de amor?
É, isso não existe, meu amigo.
Vamos comer?
Já vou.
Tá ótimo esse peixe. Maravilhoso.
Maravilhoso. Tá bom, né?
Receita do Evaristo. Mas o seu é muito melhor.
É? É.
Agora tem alguma coisa nele. O que é?
Qual o segredo, Evaristo?
Eu vou contar, mas fica na família.
Cardamomo. Cardamom. É o tempero da família do gengibre. Mas tem que colocar
pouco no recheio, porque é forte, sabe? Carne.
É, é carne.
Você não vai comer o peixe?
Não sou muito de peixe, não, mamãe. Peixe come carne.
Você come carne.
Você adora churrasco. É, mas a vaca não come carne, Laura.
Isso deve fazer algum sentido. Em algum lugar desse mundo aí. Ainda investe na
bolsa?
Um pouco.
No cenário econômico atual, sugeriria o quê? Comprar dólar? Comprar ações?
Quanto você tem?
Nenhum centavo.
Então tem a hora. Tem a hora. Para quem não é profissional, o melhor é
diversificar o investimento. Não botar todos os ovos na mesma cesta.
Tá aí. Raramente compro ovos, mas sempre boto na mesma cesta.
Fracasso. Fracasso financeiro.
Mamãe, quando foi que você tirou o tapete da sala?
Por quê? Faz tempo? Que tapete? Que tapete?
Tapete velho que ficava naquela sala, você nem chegou a conhecer.
Faz mais de ano.
O que você fez com ele?
Eu joguei no lixo.
Mamãe, a senhora não joga nada no lixo. A senhora é acumuladora. Isso deve estar
lá naquele quartinho, não é isso?
Não, acho que não.
Eu vou resgatar esse tapete.
Vamos, Cabral. Vem comigo.
Resgatar o tapete.
Existe alguma possibilidade desse tapete ainda estar lá?
Nenhuma. Eu confesso que eu não entendi.
Mas eu entendi.
É tranquilizador partir numa empreitada cujo desfecho ele é conhecido.
Mesmo que seja, com certeza, um fracasso.
Você sempre pode dizer para si mesmo que foi impossível.
Faz sentido.
Eu achei que era só uma desculpa para sair um pouco de lá.
Você acha que a gente consegue encontrar esse tapete aqui?
Não. Então, para que procurar?
É só uma boa desculpa para não voltar para lá.
Então vou sentar.
Sentar do tempo passa igual.
Ele tá muito emocionado com o seu casamento.
Ele é muito sensível, um artista. Se emociona com tudo.
O Náudico tem bom coração, se importa com você.
É um bom filho. Seria um bom pai, hein? É, uma criança ciumenta, quer todas as
mulheres do mundo só pra ele. A começar pela mãe. Tem bom gosto.
Tem bom gosto até demais, por isso tá solteiro.
Quem tem todas, não tem nenhuma.
Ele tem, sim. Tem a Maria Alice.
Ele continua sonhando com essa Maria Alice até hoje. Não há mais chance com
Maria Alice? Onde ela quer ir?
Maria Alice fugiu para o Europa.
Longe? Caro? Não.
Melhor esquecer.
Que triste, hein? Triste por quê, gente?
Por que que é triste?
Ser solteira é ótimo. Eu tô solteira, tô achando ótimo. Ser solteira é diversão e
ensinamento todos os dias.
Com filhos, você troca a diversão pelo trabalho em três turnos. Você é com ou
sem pai, hein? Ter pai ajuda.
Pai é quase tão importante quanto avó.
Preciso te confessar uma coisa terrível.
Adorei o Evaristo.
Eu também.
Eu achei ele ótimo, Cabral.
É mais um motivo por preservar a memória do meu pai.
Não entendi nada, não entendi.
É porque se ele fosse um grosso, fosse um chato, fosse um ignorante, eu estaria
tranquilo.
Tô acreditando.
Olha isso, minha mãe guardou, eu não tô acreditando.
Futuro arquiteto. Eu amava esse brinquedo.
Todo mundo teve isso na infância, todo mundo. Eu odiava essa tampa. O
cheirinho, o cheirinho era ótimo.
Nossa, eu adorava, adorava isso aqui.
Sabe o que eu fazia? Eu fazia uns labirintos no chão, aí botava inseto
dentro e botava um vidro tampando em cima.
Futuro sádico. Sádico não, cientista. Não posso te culpar, eu brinquei muito
de cowboy, matei muitos, muitos indiozinhos nas tardes de sábado da
minha infância.
Engraçado, essa perversão não deixou marcas, eu odeio árvores, odeio. Vai,
esquece esse tapete, vamos embora.
Esquece o tapete, esquece. Ele tá completinho, tem até o telhadão ainda.
Esquece o tapete. No carpet.
O seu tinha isso aqui?
Não achamos o tapete.
Sim, olha só quem diria. Inclusive, inclusive o tapete. Lavem as mãos. Tá,
pode deixar, mãe. Aliás, me desculpe ter saído daquele jeito, tá? Mas enfim, a
vida é pra frente que segue, né? Laura, não achei o tapete, mas olha isso.
Olha isso aqui, mãe. Eu achei esse brinquedo que eu amava quando eu era
criança, amava. Eu brincava muito, aí eu trouxe pro seu filho. Ou filha, né? Vai,
futuro arquiteto, arquiteto, não sei. Mas olha, mãe.
Ah, que legal. Fiquei feitinho, igualzinho que era.
Aquele, aquele do trinco. Eu lembro, primeiro presente do padrinho.
Eu sou o padrinho?
É.
Laura, e você vai me contar assim na frente de todo mundo?
Vou. Sem nem poder chorar direito?
Pode chorar um pouquinho.
Amém.
Só mostra que você vai ser a melhor mãe do mundo.
Melhor. Métido, métido.
Eu tinha esse brinquedo. Quem não tinha esse brinquedo?
Quero ser seu pás Odeio na roda andei
Dança da moda eu sei
Cansei de ser sozinha
Verso implantado usei
Meu namorado é rei
nas lendas do caminho onde
andei onde andei
Só quero que você saiba, minha mãe, que eu tô muito feliz.
Porque você tá muito feliz.
Eu sei.
E se alguém disser pra você que a vida tem a mínima coerência, você manda vir
falar comigo.
Eu mando.
Você daria um ótimo pai.
O Evaristo concorda. Eu sei.
Eu até me ofereci pra casar com a Laurela, que eu não quis. Deus me
defenda. Você se apaixona por uma mulher por semana?
Duas, às vezes?
O que tem uma coisa a ver com a outra? Casamento não tem nada a ver com paixão.
Nem com sexo. Nunca case com quem você quer transar. Case com gente que você
quer conversar, ficar junto, quietinho. Que isso vai acontecer cada vez mais.
Transar, cada vez menos.
Nem sempre.
Querido, ele tem razão. Nós somos mais sensíveis.
Mamãe...
Vinha um pouco?
Não, não. Não põe, porque eu esqueço que eu tô grávida às vezes e eu posso beber.
Desculpa, é claro.
Faz suco? É de beterraba, é bom. É bom pro leite. É bom pro leite, minha mãe.
Ela tá no segundo mês ainda. Não, é bom. É bom fazer uma reserva com essa crise
toda. Vai que falta leite, mãe. Você acha que vai faltar leite aqui, ó?
Que isso, para. Não exagera. Vocês estão exagerando. Não, não tem ninguém
exagerando, não. Sim, claro que estão. Não fala isso nem de brincadeira. As
coisas estão melhorando, não estão?
Estão melhorando onde?
No país.
A bolsa sobe, é bom sinal. O dólar desce, é sinal de confiança.
Confiança de que o rico vai continuar rico, né? Mas riqueza e crescimento são
mãos pra todos.
Ou alguém quer dividir a pobreza? Que eu saiba, ninguém quer dividir nada, minha
mãe.
Mão.
Você pensa o que disso, Evaristo?
Disso o quê? De política.
Eu não me interesso por política.
Se o país vai bem, eu compro ações e vendo dólar. Se o país vai mal...
Eu compro dólar e vendo ações. Não se interessa por política. Isso é política.
Não foi isso que eu disse.
Isso é política.
Pra vocês, o país é sempre um bando de números.
Vocês acham que é só isso. Um país é um bando de números. Você já imaginou o que
meu pai ia falar do discurso? Não.
Não diga.
Eu não imaginei. E o assunto é encerrado. Seu pai morreu.
Ai, ai.
Desculpa. Eu não gosto de meter nada.
Você acha que eu exagerei?
Um pouco.
Você acha que eu devo pedir desculpa?
Um pouco de desculpa é bom.
Eu odeio pedir desculpa, principalmente quando eu sei que eu devo pedir
desculpa. É humilhante.
Agora, daí o cara dizer pra mim que não se interessa por política, pelo amor de
Deus, é a mesma coisa que virar e falar, ui, eu sou um unicórnio. Você sempre diz
que detesta política, que só tem gente feia e que não faz nada. O que é uma
verdade. Agora, dizer que eu não me interesso, muito pelo contrário.
Poesia, arte, sexo, amizade e política são as coisas mais importantes que
existem nessa vida. Nessa ordem. Pois é.
Olha, acredita em mim.
Ter uma pessoa dentro de você muda completamente seus critérios.
Enquanto isso, a única coisa que eu posso fazer é acreditar em você.
E fazer uma massagem no meu pé.
Esse pezinho quer uma massaginha.
Massaginha.
Ai!
Mãe. Me desculpa.
Não precisa me pedir desculpa.
Não precisa concordar comigo em nada.
Eu vou continuar amando você do mesmo jeito.
Eu também.
Eu só queria que você soubesse que eu gostei do Evaristo. Eu achei ele gente
boa, embora a gente não concorde em nada.
Vocês concordam em quase tudo, menos na política.
Aliás, política serve pra isso mesmo, pra gente discordar.
Política e futebol.
Aliás, que time que ele torce?
Pra nenhum, como você.
Olha aí.
Bom, então vou procurar ele amanhã pra pedir desculpa. Ele almoça aqui?
Não, ele almoça no centro, amanhã. Onde?
Sabe o restaurante que tem atrás da prefeitura?
Sei. Rebento!
A reação imediata A
cada sensação de abatimento
Se eu rebento o coração dizendo
Bata!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah!
Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah! Ah!
Ah!
Ah!
Eita! Realmente não existe nada que eu possa dizer em minha defesa.
Meu comportamento tem sido deplorável até agora. Isso é um fato, é verdade.
Só que ontem eu estava imbuído, eu estava motivado por um sentimento ruim.
E aqui não.
Aqui eu estava movido por um sentimento nobre até.
Nobre de amor filial, de defesa da honra, de dignação também.
Misturado com um pouco de burrice, que é sempre muito perigoso. Eu entendi. Ainda
bem.
Tá perdoado. Ah, com certeza.
Tchau, pai.
Tchau.
Ah, isso deve ter doído, hein? Um pouco.
Um pouco, mas eu mereci.
Prazer, Paulo.
Desculpa, desculpa. Eu não queria ter começado assim. Ainda mais que a gente
vai ser quase irmão, né?
Eu sei que é difícil pra você entender a minha atitude, mas eu... Eu entendo
perfeitamente a sua atitude. É que eu sou psicóloga.
Eu convivo diariamente, assim, com pessoas com problemas.
É? É.
Você quer uma carona? Quero.
Vamos? Aqui?
O Jean Renoir, ator, cineasta francês, era filho do Pierre Auguste. Pierre
Auguste Renoir, grande, grande pintor.
O Jean dizia que o pai, o Pierre, ensinava as coisas para ele, apontando,
dizendo assim, isso é feio, isso é bonito.
Feio, bonito, bonito. Mas isso todos os pais e mães fazem, né? É.
Isso é feio, isso é bonito, isso é legal, isso é chato. Isso aqui é
amaciante de roupa. E a gente sabe que as crianças cresceram quando elas
respondem. Eu não acho.
Com certeza, foi assim que eu tomei amaciante de roupa. Pela primeira vez.
Às vezes fico feliz da vida de não ter posto filho nesse mundo horroroso.
Outras vezes me arrependo de não ter posto filho nesse mundo maravilhoso.
Eu concordo com você, mas eu concordo ao contrário.
Se as pessoas boas não tiverem filhos, o mundo só vai piorar.
E eu e minha mãe, a gente nunca foi muito íntimo, assim. A gente nunca teve
essa conexão verdadeira, sabe?
E agora que ela tá casando de novo, mesmo que seja um absurdo o que eu tô
falando, né? Porque ela já tá viúva faz bastante tempo. Meu pai ainda é muito
presente dentro de casa. Mas eu realmente, eu não posso estragar a
felicidade do seu pai.
Nem a felicidade dela. Eu não posso estragar a felicidade dos dois só pra
manter viva a memória do meu pai.
Porque talvez seu medo seja de perder a sua mãe. Mas ela não vai morrer tão
cedo, ela só vai casar.
É isso, é isso, é só isso.
É ciúme, né?
Deu até vergonha.
Mas também deu um alívio.
É bom.
Ainda bem que você estava aqui. Ainda bem que você me ajudou. Você realmente é
uma psicanalista excelente. E muito interessante também.
Você vai muito para o Rio? Raramente.
Quando for, me liga.
Porque... A gente não é irmão de verdade, né? Nem eu sou seu paciente
ainda. Então acho que nada impede da gente sair, tomar um... Eu sou casada.
Ah, é? Que pena. Nem parece, sabia?
É. Mas é isso que a gente tava falando, né? O ciúme é quase uma falta de
educação, né? Ele é ciumento, seu marido? A minha esposa.
Ela é um pouco ciumenta, sim. E tem isso também. Eu tenho um lado feminino muito
aflorado, sabia?
É uma coisa que eu carrego comigo desde pequenininha. Agora eu vou realmente
precisar ir.
Estou de volta.
Então, encontrou com o Evaristo?
Encontrei com o Evaristo, com a filha dele.
Filha? É, a Clarissa.
Clarissa. É, a Clarissa é um amor de menina.
E deu tudo certo.
Deu? Deu tudo certo.
Eu dei um tapa nele, ele me deu um tapa, eu tentei seduzir a Clarissa, que já é
casada com a esposa dela, mas no final deu tudo certo.
É, isso é o que importa. É, é isso que importa.
Aliás, eu estou morrendo de fome. Por que você deu um tapa nele?
Ah, não me faça pergunta difícil.
É o túnel do tempo. Não, o túnel bom é o vermelhinho. Esse é o portal. Mas só tem
duas? Porque tinha três. É, não tem. Ô, mãe, obrigado.
Escuta aqui, meu filho. Eu quero que você e a Clarícia sejam nossos padrinhos
de casamento.
Eu e... Meu Deus do céu, mas pra quem nunca foi padrinho, eu tô saindo daqui
matando dois coelhos. Tem que comprar um monte de presente.
Mãe, é uma honra pra mim, mas eu acho que a esposa da Clarícia pode ficar
chateada, né? Ô, padre, o padre não vai aceitar duas madrinhas?
É, mas o Papa aceita, hein? A gente pode subir os três no altar. Mas isso eu acho
que nem esse Papa aceita. Então eu faço o que você quiser. Eu posso ser dama de
honra, eu posso ser coroinha, eu posso ser menino que leva aliança. Não,
padrinho. Padrinho. Eu posso ser padrinho? Padrinho. Oi, pessoal.
Oi, Evaristo. Eu trouxe um presente.
Um presente. Pra quem?
Pra lá fora. Mas é pra gente?
Não, venham ver, venham ver.
Cabral. Vamos, Cabral. Cabral, é presente pra você. Nossa, pode ler um
livro. Vem, vem, vem.
Adoro o presente. Eu adoro o presente.
O tapete.
O tapete.
O antialérgico, a prova de ácaros.
Deixa quem quiser falar, meu bem, deixa. É, vamos estrear.
É, vamos estrear. É, vamos estrear.
Olha, toda, toda, toda a felicidade do mundo pra esse novo casal. De coração.
Obrigada, meu filho.
Aliás, quem foi o idiota que disse que uma história de amor não pode ter final
feliz?
Foi você, o idiota.
E tem razão.
O amor é um eterno recomeço.
Não tem final.
Essa sabedoria toda eu tinha que ter dado de alguém, né mãe?
Eu quero a esperança de óculos E meu filho de
cuca legal Me liga, tá? Liga de verdade, mãe. Eu tô ali.
Com a mão, a pimenta e o sal
Aliás, se cuida.
Meus amigos, meus discos e livros
e nada mais.
Minha mãe tem razão mesmo.
Casar, sossegar o facho, dividir as coisas com alguém, cuidar da vida, é uma
boa ideia.
Preciso confessar uma coisa.
Achei aquele tapete horroroso. Nossa, eu também. Eu também achei horroroso. Você
acha que eu devia ter falado a verdade?
De jeito nenhum.
A verdade é superestimada. Uma boa mentira tem o seu valor.
É, mas mentir pra mãe é pecado, né? Ao contrário. Você acha o quê? Que Jesus
falava tudo pra Maria? Meu filho como foi no trabalho hoje? Foi ótimo.
Mamãe e eu multipliquei uns pães, caminhei sobre as águas. Pra que deixar
a mamãe aflita? E tem outra coisa. O gosto da gente muda muito.
Vou lá agora, acho o tapete feio, ela fica chateada comigo. Daqui a um ano eu
volto lá, acho o tapete bonito.
É verdade isso. Eu, por exemplo, quando eu era criança, os meus pais cantavam
uma dança pra mim.
Vim cantarei... Eu odeio essa música, mas adoro. Eu achava lindo.
Aí fiquei adolescente e comecei a achar a música a coisa mais horrorosa do
mundo. Agora tô adulta de novo e tô achando a música linda.
Mas é linda mesmo. Os churrascos acabaram com a música.
Mas a música é boa.
A lua descansa, meu caminho amor.
É bom, é bom, é bom.
Quero ser você.
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