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-Sinto muito. VocÊ está bem? -Estou.
Então gente.
Para um funeral, até que foi muito agradável.
-Sim, muito. Foi bom mesmo. -É, foi.
As flores eram lindas.
-Sim, lindas demais. -Muito.
Sabe aquele arranjo com rosas, em forma de...
-coração partido? -O que tem ele?
Será que foi porque Bill morreu de ataque do coração ou...
Não, Matthew, a culpa foi minha. Sentei nele na limusine.
Bill iria rir com tamanha ironia.
-É. -lria rir, sim.
Ele diria: "É um coração partido...
porque estava assistindo TV em casa...
tive um ataque do coração e morri" .
Algo do tipo.
-Dave estava muito bem, não é? -Sim, fabuloso.
Ele caprichou na homenagem.
-Sim, caprichou. -Belo trabalho.
Será que só eu achei a homenagem de Dave um saco?
Mais chata impossível.
Acho que Dave queria que ficasse impecável.
Então exagerou e se perdeu um pouco.
Será que foi por isso que durou duas horas e 1 7 minutos?
-VocÊ contou? -Eu tinha de me manter acordada.
-Pobre Dave. -Matthew, o que está fazendo?
Estou arrumando uma xícara de café...
do jeito que Bill gostava.
Tínhamos um trato. Se eu não lhe servisse...
uma xícara de café fresquinho antes que a reunião acabasse...
ele ficava uma arara.
Bons tempos aqueles.
Bem, vejam só.
-Oi, Dave. -Olá, gente.
Sua homenagem foi demais.
Obrigado, mas não foi.
-Não, ela foi... -Totalmente abrangente.
Nem um pouco chata.
Ouçam.
VocÊs me escolheram para falar em nome de todos.
Foi um caos, e tÊm o direito de ficarem bravos.
Gente, eu disse que entendo a contrariedade de vocÊs, certo?
Dave, não se trata da homenagem.
Matthew serviu café...
como um gesto simbólico a Bill, e vocÊ...
-Estão ocupados? -Não, não.
Na verdade, dizia a Dave como a homenagem dele foi legal.
Por que não faz o mesmo?
-Está bem. -Vá embora.
Sim, Dave, eu realmente, realmente, realmente...
realmente gostei dela.
Ótimo. Fora isso, como vai? Tudo bem?
Para ser franco, não sei.
Eu sinto... A quem estou enganando? Nunca estive melhor.
Como assim?
É que, cá entre nós, Bill não morreu de verdade.
-Matthew. -lsso é parte de um plano secreto...
que ele só contou a mim.
-Um plano secreto. -lsso mesmo.
Bill sempre falou que, um dia, na hora certa...
largaria a vida em sociedade e iria para o Afeganistão...
para montar uma empresa de aluguel de canoas.
Entendeu?
Então foi isso. Bill transformou o sonho em realidade.
É. Tem razão.
Sim, imagino...
-Ele realizou a proeza, hein? -É, ele conseguiu.
Mas eu sabia.
Sabia, sim, seu danado.
Dave, Dave, Dave. lsso fica só entre nós, entendido?
Prometo que isso não... lsso não sairá desta sala.
Dave. Acho que temos um problema. Parece que Matthew...
Eu sei. Ele me contou sobre Bill ter investido...
em aluguel de canoas no Afeganistão.
Ele me disse que era uma escola de mergulho no Nepal.
E, neste momento, Bill está passeando em algum lago...
no alto do Himalaia, em seu próprio submarino.
Neste momento, são trÊs da manhã em Katmandu.
Então ele deve estar dormindo, o que também é ótimo.
-Posso falar com vocÊ? -Claro, Lisa. O que é?
Deve ter acionado o piloto automático.
Assim pode dar uma cochilada até o sol nascer.
Espero que o ar não seja tão rarefeito lá no alto do Himalaia.
É, mas se ele descer de submarino ao nível certo, tudo se resolve.
-lsso. Não há problema. -O que queria mesmo, Lisa?
Falar comigo? O que é?
Sim. Espere só um pouco, porque primeiro quero falar com Beth.
E com o Sr. James e Joe. A sós. Agora.
Eu tenho medo do que vá acontecer com ele...
assim que se der conta de que Bill morreu.
Deve ser só uma reação estranha.
Acho que todos reagimos assim quando nos demos conta.
-Foi o meu caso. -É? O que fez?
Fui ver os meus pais às trÊs da manhã...
e dormi entre os dois na cama.
Do jeito que fazia quando criança.
lsso não é tão estranho.
Não foi o que minha mãe achou, mas ao menos conheci o marido dela.
Ele ficou um pouco nervoso.
-É um cara legal? -Sim, muito.
Ronca bastante, mas dei um jeito.
E o senhor?
Estava em casa quando ligaram.
Aquilo me deixou com tanta raiva e tão confuso...
que esmurrei a parede.
-Não se machucou? -Não, era de gesso.
E olhem que fui bem claro ao pedir que fosse de concreto.
Então fiquei ainda mais irritado.
Saí, vi a escavadeira do paisagista...
e atravessei a minha casa de um lado a outro com ela.
VocÊ destruiu a casa que levou trÊs anos construindo.
Sim, basicamente.
Mas agradeço a Deus por ter aquela casa na árvore...
ou estaria dormindo na rua.
Uau, tudo o que fiz foi sair para uma longa caminhada.
Aonde foi?
Não sei. Acho que andei a cidade toda.
E então fui parar...
na frente do prédio de Bill e...
eu queria ter certeza de que ele havia morrido.
Procurei a janela dele...
e comecei a berrar: "Bill. Oi, Bill."
-E o que aconteceu? -Alguém abriu a janela...
e berrou de volta: "Cale essa boca, sua vadia louca" .
-Exatamente o que Bill faria. -É.
Eu sei. E isso me fez pensar...
que o espírito dele vive em outras pessoas.
Que lindo.
E vocÊ, Lisa?
A minha história é sem graça.
Tomei um porre.
-E depois? -Depois fui dormir.
E o que fez quando acordou?
Tomei outro porre.
E fiquei bÊbada por uns trÊs ou quatro dias.
Foi bem estranho para mim mas...
-Ainda está de porre, não é? -Não.
Não, Beth. Após quatro dias, já me recuperei.
-Ei, gente, não estou bÊbada. -É claro.
-Não estou bÊbada. Estou bem. -Muito bem.
-Não precisa ficar irritada. -É que eu não estou bÊbada.
Gente, eu não viria trabalhar...
bÊbada.
Que coisa triste.
Dave, o que está fazendo?
Reeditando a homenagem a Bill.
Por acaso vamos enterrá-lo de novo, filho?
Se para Dave é uma forma de catarse, que o faça.
Catarse. Bela palavra para uma pinguça.
Não estou bÊbada, ouviram? Não estou bÊbada. Estive bÊbada.
Sim, estive bÊbada por quatro dias, ou cinco.
Mas não estou mais.
Além do mais, lembro-me de vocÊs bebendo além da conta no velório.
-No quÊ? -No velório de Bill.
-Lisa? -O quÊ?
Não houve velório.
É.
Bem, então...
seja lá em que velório estive ontem...
foi uma bela e revigorante maneira de celebrar a vida de Bill.
Ou de quem quer que fosse a vida. Com licença.
-Sabe o que me incomoda? -O quÊ?
Ninguém consegue vir aqui...
dizer como foi chata a homenagem.
Talvez não tenha sido.
-Bill teria dito que foi. -É verdade.
Mesmo sendo a mais eloqüente e emocionante...
Bill ainda assim diria que foi chata.
VocÊ gostava disso?
Não, mas acabei me acostumando.
E agora ele, vocÊ sabe...
-não pode mais dizer isso. -Então dá mais saudade.
Sim, é verdade.
Dave...
a sua homenagem foi de doer.
Está dizendo isso só para eu me sentir melhor.
Não. Se aquela homenagem durasse mais um minuto...
vocÊ também ganharia uma.
-VocÊ é muito gentil. Obrigado. -Falo sério, Dave.
-A homenagem foi chata. -Não precisa fazer isso.
Foi ruim demais.
-Senhor, sei que quer ser gentil. -Nada disso.
-Foi a pior coisa que já vi. -Não. Senhor, não precisa...
Bom, estão todos aqui.
Tenho duas surpresas.
Uma veio de Londres, lnglaterra.
Senhores, Catherine Duke.
Olá.
-Que bom vÊ-la. -Vim no primeiro vôo da madrugada.
Oi, querida.
Dave, desculpe-me por ter perdido a sua homenagem.
Tudo bem.
Está disponível em quatro fitas de 90 minutos.
-Foi muito chata. -Ruim mesmo.
-Foi demorada e chata. -Obrigado, gente.
A segunda surpresa é que Bill teria pedido ao advogado...
para me entregar este envelope caso algo lhe acontecesse.
E eu só deveria abri-lo com todos nós juntos...
então vejamos o que é.
É para eu ler em voz alta.
Aí vai: "Meus queridos, se Dave estiver lendo isso agora...
eu fui demitido ou morri.
O meu talento exclui a primeira opção...
então devo pensar que se trata da segunda.
Por favor, expliquem isso a Matthew depois."
Não entendi.
-Explicarei depois, amigo. -Obrigado.
Continuando: "É estranho...
mas queria certificar-me do cumprimento de meus desejos.
Desejo número um: Desejo que não estivesse morto.
Jimmy, bote os melhores da sua equipe nisso.
Hahaha, brincadeirinha.
Em anexo, envelopes...
contendo recados para todos.
Favor distribuí-los de forma correta.
Matthew parece a pessoa certa para tarefa tão desafiadora."
-Pronto. -Quem pegou...
Aqui.
Por que não lemos em voz alta?
Beth?
-Está bem. -VocÊ.
Tudo bem.
"Querida Beth: Desculpe-me pela vez que disse que suas roupas...
pareciam recolhidas do latão de lixo...
depois que o circo deixa a cidade."
lsso foi a única coisa que ele disse que realmente me magoou.
-E quando ele falou que... -Quer me dar licença? Obrigada.
"Queria que fosse um cumprimento, mas algo saiu errado."
Que amor.
"Querido Joe...
Desculpe-me por quebrar a impressora propositalmente...
toda segunda-feira de manhã, e mandá-lo consertá-la."
Sabia que havia algo errado com a impressora.
"Só fiz isso por que adorava ouvir seus textos intermináveis...
sobre os eventos esportivos importantes do fim-de-semana.
Mais de uma vez, ajudou a embalar...
o meu sono do meio da manhã.
Por isso, eu lhe sou eternamente grato. Louvado seja.
A impressora já não deve estar dando muito trabalho."
Será que ele sabia o quanto eu adorava consertá-la?
-Acho que sim. -É claro.
Minha vez.
"Querido Jimmy: O que lhe dizer?
VocÊ confiou em mim o suficiente para dividir...
alguns de seus maiores segredos.
Espero que, um dia, revele para o resto do mundo...
os verdadeiros culpados pelo assassinato de John F. Ken..."
Na verdade, isso é meio pessoal, então...
Tudo bem.
"Querida Lisa...
Sinto muito por minha obsessão em querer saber como vocÊ é pelada.
Sinto mais ainda por nunca ter tido a chance...
de vÊ-la pelada.
Por favor, pense em mim da próxima vez em que estiver nua...
porque se eu conseguir virar fantasma, estarei lá...
apreciando-a em sua nudez esplendorosa."
-Tem certeza de que não é para mim? -É minha, Matthew.
Está bem.
"Querido Matthew: Estou morto.
lndependente do que tenha dito sobre o meu plano secreto...
não pegue um avião para sair pelo mundo me procurando.
Assegure-se também de que isso não seja outro truque...
para despistar a todos sobre o meu plano secreto."
Lamento, Matthew...
"P.S: O pássaro voa à meia-noite."
-O que isso quer dizer? -Nada. Esqueçam. É segredo total.
Está bem.
"David: Deveria dizer que sinto muito...
por atormentá-lo tão implacavelmente, mas não vou.
VocÊ gostava do jogo, como eu...
e soube dar o troco. Tem minha admiração, senhor.
Na minha homenagem, faça algo o mais longo e chato possível."
Viu? Fez exatamente o que ele queria.
"Se durar menos de trÊs horas, considerarei a falha imperdoável."
Dave, vocÊ quase conseguiu.
Catherine.
-Bem. É meio pessoal. -Sua vez.
-Não, vá em frente. Leia. -Calma, Lisa.
Ninguém gosta de bÊbada emotiva.
-Vamos, Catherine. -Vá, querida.
Foram vocÊs que pediram.
"Querida Catherine: Lamento só termos dormido juntos aquela vez.
Achei a sua técnica de fazer amor uma delícia, especialmente como..."
-Vá em frente. Leia. -É.
Bem, há... Há mais um recado para todos.
"Qualquer um: lsso conclui o assunto.
Adeus, cuidem uns dos outros e eu...
os verei assim que chegarem aonde quer que eu esteja agora."
É isso. "Matthew, recolha os recados...
e os queime imediatamente."
Sim.
Espere. Há algo meio apagado aqui.
"P.S.: Para animar este dia desnecessariamente triste...
tomei a liberdade de tratar o papel com uma substância inflamável que..."
-Joe, o escritório está em chamas. -Deixe comigo.
-Querem saber? lsso é legal. -É.
Uma pena não termos marshmallows.
-Eu só tenho um. -Minha nossa.
Obrigada por tudo, Bill.
Não só pelo grampeador.
Acho que me entende.
-Oi, Matthew. -Boa noite, Dave.
Boa noite.
-Onde está a bandeja de Bill? -Não sei.
-O suporte para fita adesiva? -Não sei.
-O grampeador? -Não sei.
-A xícara dele? -No meu bolso.
-Sei. -Estou levando por segurança...
para o caso de Bill voltar e precisar.
Dave?
Cá entre nós, Bill não fugiu...
para outro país para montar o seu próprio negócio.
Eu também já começava a suspeitar.
Mas não conte aos outros que ele morreu mesmo, certo?
Não estão prontos para encarar a verdade.
-Sim, eu prometo. -Só mais uma coisa, Dave.
Se...
por uma dessas coisas estranhas, Bill voltar...
não conte sobre a xícara no bolso da calça.
Não contarei.
Boa noite, Matthew.
-Oi. -Olá.
Quer o risque-rabisque dele?
Prefiro ficar com o fichário.
-Claro. Por quÊ? -Obrigada.
Porque Bill sempre fazia uma coisa para que eu risse.
Na frente dos cartões, nome e endereços.
Atrás, um desenho de como ele os imaginava pelados.
-Deixe-me ver o seu. -Certo. Aqui está.
-Lisa Miller. -Por que ele a desenhou de biquíni?
Bill o fez para mim, recortando de um papel adesivo.
Veja, dá para tirar.
-Quer dizer... -Não tire a parte de baixo.
-Lisa? -Sim?
Sei que a homenagem estava horrível, mas foi assim tão chata?
Não sei dizer, Dave.
Enchi a cara desde as oito da manhã.
Olá?
Alguém em casa?
Tudo bem, rapazes, entrem.
É esta aqui.
Podem descÊ-la e colocá-la na caminhonete.
-Se quiser mesas, sei de um cara... -Não, obrigado, obrigado.
Mas quero esta mesa aqui.
Muito bem.
Vamos.
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