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Original subtitles

Mas isso acabou, é meu trabalho.

Calma, por favor.

Seja o que for que o senhor ficou sabendo, não condiz com a verdade. A

verdade está na minha frente, um velho, cuidado para ser avô da Adriana,

querendo se aproveitar dela.

Eu quero saber o que minha mãe te falou.

Tua mãe?

Tua mãe já sabia disso? Dessa proposta absurda de casamento? Não interessa, não

interessa, Adriana.

Não interessa. Meu assunto agora é com esse senhor aqui. Presta atenção, a

minha meta não está à venda.

Claro que não. Claro que não. Ela não é como uma de outras que você está

acostumado na vida.

Que outras?

Por favor, vamos. Sai daí.

Sai.

Você é um velho que eu conheço mesmo.

Só olhar para a tua cara.

Você acha que eu sou otário? Você acha que eu nasci ontem?

Olho para você e vejo longe.

E é por isso, é por isso que nenhuma fija ou terapeuta para nessa casa.

Porque o senhor...

Está na cara. Quer sempre abusar delas. Mas o que é isso? De onde é que você

ouviu isso?

Não. Mas ouviu o quê?

Não ouvi nada.

Basta constatar essa sua proposta absurda de casamento com essa menina,

rapaz. Basta isso.

Não é isso, não. Não é isso,

vô. É outra coisa. Olha aqui, eu só vou relevar o que o senhor está falando,

porque eu percebi que o senhor está fora de si.

Fora de si?

Fora de si, ô velho babão.

Para de citar o Senhor!

Se acha que eu vou deixar minha neta aí nas suas patas. Pata não, mais respeito.

Para, para. O senhor está ultrapassando todos os limites. Olha lá, o circo está

pegando fogo.

Deus, eu não estou conseguindo ver direito. É a voz do Toniel? O que esse

desocupado está fazendo aqui?

Retirar a satisfação do pedido de casamento do doutor Arthur. Eu sabia que

o Toniel não ia engolir isso direito.

Ele está muito irritado com o doutor Arthur. Olha lá, olha lá.

Fala, pega as tuas coisas e foi embora daqui.

Desculpa, tá, doutor Arthur? Porque o meu vô, ele não costuma ser assim. Tem

que pedir desculpa, não. Eu não sou assim, não. Mas mexeu com a minha neta.

Quem abusar da minha neta vai ouvir. Eu não quero abusar de ninguém.

Não tem nada de maldoso na proposta que eu fiz. Eu quero saber.

Quero saber qual foi a proposta, o que você deixou de propor.

Porque eu conheço bem.

Eu conheço o tipo.

Eu sei o que tem por trás disso. As intenções por trás dessa tal de

proposta. E presta atenção.

Se você encostar um dedo, um dedo que seja, na minha neta,

eu te mato.

Chega. Chega, foi. Eu te peço. Pelo amor de Deus, nós vamos embora.

Para, menina.

Eu também te peço para sair daqui, pegar tuas coisas e ir embora daqui. É melhor.

A sua neta é uma mulher maior de idade, responsável pelos seus atos.

Adriana. Você sabe que eu nunca te desrespeitei. Eu sei, doutor Arthur.

Eu conheço você.

Me desculpa. Ele está muito nervoso. Não vai dar para a gente conversar agora.

Vamos parar com essa conversa. Vamos embora.

Eu vou pegar. É lá.

Vem aqui, vô. Como é que você anda aqui?

Isso aqui parece um museu.

Por aqui.

Pra que o senhor foi lá fazer aquele escândalo desse jeito na casa do Arthur?

Ah, agora! Você tá ouvindo isso aí?

Elisa, olha aí. Que bonita! Agora não é mais doutor Arthur.

Agora já é Arthur e acabou.

Eu devia ter feito muito mais.

Muito mais.

Eu devia ter chegado lá e dado um soco no meio da fuça dele.

Era isso que eu tinha que ter feito. Ô, velho sem noção. Para com isso.

Foi assim que começou.

Ajudando. Ele é bonzinho. Ai, como ele é gente boa.

Tá vendo? Olha ele aí. Ele tava de olho na Adriana. Ele queria alguma coisa em

troca. Eu não vi problema nenhum nesse pedido, gente. Eu ia, inclusive, achar o

máximo ver minha irmã virar madame. Escuta aqui, ô, Máximo.

Presta atenção.

Baixa as asas. Baixa.

Baixa essas asas.

Segundo lugar, você não entende nada do que você tá falando. Quietinho. O senhor

é que não tá entendendo nada.

O senhor me desculpa.

Você não tem ideia do sofrimento do doutor Arthur com a família dele. Isso é

problema dele?

E eu não.

Eu estou cuidando da minha. O importante é que ninguém se meta com a minha.

É isso que tem que ficar claro.

Olha aqui, minha neta. Nós já passamos por muita coisa difícil nesse mundo de

Deus. Muita coisa. Mas nós passamos assim, ó.

Juntos.

Juntos.

E eu fico pra morrer.

Quando alguém se mete com um de vocês.

Pai, não fica assim. E você?

Fala pra mim, minha filha.

Você já sabia dessa historiada toda?

E nem falou pro teu pai?

Não falou pro teu pai por quê?

Hein? Por quê?

Mas isso é decisão da Adriana.

Tá? Ela é maior de idade. É dona do nariz dela.

Mas me dizer que você tá concordando com esse casamento absurdo.

Pelo que ela me falou, é só um casamento no papel, um acordo. Não é uma união de

corpos, pai. Isso é uma maneira do doutor Arthur não ter que dar a herança

dele pra essa família dele que só pensa em dinheiro.

E tem mais.

Dinheiro com quem sabe usar não tem problema nenhum. Eu, por exemplo, se

tivesse todo aquele dinheiro, ia saber usar muito bem.

Ô, Maurício.

Eu tô vendo que eu tenho que prestar mais atenção à sua educação. Tá tudo

errado com você. Tá tudo errado.

Seus valores, comportamento.

Esses... Ah, seus trejeitos.

Vô. O quê? Não fala assim com meu irmão, não.

Agora, eu quero entender uma coisa.

Se não foi minha mãe que te falou, quem é que te contou do pedido do casamento

do doutor Arthur?

Com licença, doutor Arthur. Tá precisando de alguma coisa?

Tô precisando, sim. Ficar sozinho.

Que homem grosseiro, né, doutor Arthur?

Deselegante. Ou já se viu entrar na sua casa e falar com o senhor dessa maneira?

Isso só prova que ele é um homem decente.

Que queria defender, proteger a neta.

Capaz de fazer de tudo para proteger a família.

Lá tem carinho, afeto, amor.

Se fosse um homem sem caráter, eu estava feliz de a neta estar casando com um

milionário. Eu, no lugar dele, faria a mesma coisa. Ou pior.

A atitude dele só mostra que eu tô tomando a decisão certa.

Vai, vô.

Fala.

Quem é que foi lá?

Mandar essa conversa pra você que eu ia me casar com o doutor Arthur.

Ele sempre foi mulherengo.

Mesmo casado.

Quando era casado, não podia passar um rabo de saia que ele ia correndo atrás.

Era literalmente. Não é literalmente ele ia correndo.

Minha cunhada sofreu muito. Muito. O que o senhor está querendo dizer com tudo

isso aí?

O meu irmão Arthur pediu a sua neta em

casamento.

Ah, eu não gosto.

Não gosto de fofoca. Eu não gosto de fofoca.

Nunca gostei.

Eu não tenho nem palavras pra dizer quais são as reais intenções

do meu irmão.

A dona aí tá querendo me dizer que aquele seu irmão, sem vergonha, tá

querendo é comprar a minha neta. Não, isso quem tá falando é você. Você que

usou essa palavra. Falou isso daí. Mas é assim, o Arthur nunca teve limites,

nunca.

Ele fez isso com todas as fisioterapeutas que trabalharam pra ele,

sabe? Ele cerca, ele assedia, propõe casamento,

fica prometido, vai casar. E aí, quando ele consegue o que ele quer,

ele dispensa.

Às vezes, sem carta de recomendação, né? Ele diz que se eu mato o irmão de vocês,

não é isso? Tô falando sério.

Eu mato o irmão de vocês.

Eu mato.

Por isso,

a

própria irmã dele me contou.

Esse homem é um monstro.

O senhor vai ouvir o que é.

Essa dona Pilar, ela é a pessoa mais perversa que eu já conheci na minha

vida.

Como é que ela vai lá falar isso para o senhor?

O senhor vai acreditar nela?

O que é isso, vô?

Ela que denunciou a gente para a polícia. Ela fez a polícia bater aqui

dentro de casa.

Chamou a gente de invasor. Essa mulher não presta e o senhor vai ouvir essa

mulher. E ela mentiu?

Não.

Esse homem não fez um pedido de casamento. Você não fez. Ele não fez um

pedido. Fez.

Então, pronto, acabou.

Isso aí foi um truque.

Truque, um golpe.

Eu não quero você metida com esse cafajeste.

O

que

é essa escuridão?

Com licença, Sr. Arthur, eu posso falar com o senhor um instante?

Olha, se você veio até aqui pra me recriminar, pode dar meia volta que você

tá perdendo seu tempo.

Devagar com a dor aí, viu? Que o santo é de barro. Eu não vim criticar o senhor,

não. Na verdade, eu só queria falar que... Eu sei que você é amiga do seu

Toniel, da dona Elisa, conhece eles há muitos anos, na certa tá contra o meu

pedido de casamento, acha que eu tô me aproveitando.

Muito pelo contrário.

Eu conversei com a Adriana.

Ela me contou sobre a proposta que o senhor fez com ela.

Desse casamento baseado na amizade, ela me contou também da briga com seus

irmãos, da ganância da dona Pilar.

Você não acha que eu tô louco?

Olha, pra ser bem honesta, eu já imaginava que isso pudesse acontecer.

Trabalho tanto tempo nessa casa, já vi tanta coisa, meu Deus do céu, já ouvi

tanta coisa.

É uma loucura. Você tem a mania de ficar ouvindo conversa atrás das portas?

Não, doutor Arthur, imagina. Não é assim também. É que a gente escuta as coisas,

né? Fazer o quê? Mesmo sem querer. A gente observa, a gente... Tá bom,

seria mentira dizer que não é assim.

Mas você ainda não me disse.

Você acha que eu cometi um engano?

O senhor não poderia ter escolhido uma pessoa melhor.

A Adriana é a pessoa certa pro senhor se casar.

E dá uma lição aí nesses seus irmãos que, meu Deus do céu, gente ruim.

Nunca cuidaram do senhor.

Sempre trataram o senhor mal.

Agora vão querer se refletir lá na sua herança depois que o senhor partir dessa

daqui pra melhor?

Não que eu queira que seja agora, né? Não é isso que eu quero dizer, meu Deus

do céu. Pelo amor de Deus.

Eu agradeço o seu apoio.

Pode contar comigo se eu vou.

É, mas agora deixa eu voltar pro meu serviço que eu tenho mais o que fazer,

né? Dá licença.

Eu vou... Ah, não, deixa.

Com aquela bengala pra cima e pra baixo.

Quem diria, hein, Ulisses?

Você quer mais champanhe?

Chega, bebi água.

Agora eu não quero mais emoções fortes. Quero ir pra casa tomar banho.

Você acha mesmo que essa coisa vai dar certo, hein?

Eu tenho certeza que amanhã a gente vai ter notícias do Arthur, da

musa sem teto e daquela família baixa renda dela. Não sei não, viu?

Olha!

Não vamos nem ter que esperar amanhã.

É a Dinah, é a Dinah. Deixa eu ficar quieta, fica quieta, fica quieta.

Oi, Dinah!

Dona Pilar? Eu não sei o que a senhora fez, mas deu certo.

O avô da Adriana saiu daqui de péssimo humor.

Ô, Dina, eu não fiz nada, querido. Eu só quero o bem pro meu irmão, porque eu

sou boa, né, Dina?

Mas só me fala uma coisa. O avô daquela pistoleira, ele foi aí?

Jura? Mas ele foi fazer o quê?

Falou um monte de desaforos pro doutor Arthur.

Bom, eu não ouvi tudo, né? Mas falou que ele era o aproveitador, que a neta dele

não estava à venda. Não, fez até uma ameaça, mas um horror.

O vovô tá saindo melhor que a encomenda.

Ah, e fala mais.

Tava furioso.

A senhora precisava ver.

E saiu daqui arrastando a Adriana. Mas com esse terremoto, né, Dinah?

Acho que esse casamento aí não vai mais acontecer, não, né? Também acho. Acho

bastante difícil.

Olha, você tá sendo muito boa, viu, Dinah? Muito obrigada. Você vai ser

recompensada.

Olha, o vovô foi lá, falou um monte de desaforo pro Arthur.

Aí ele pegou a neta, arrastou pra fora de casa. Sabe o que isso significa?

Não vai ter mais casamento essa história.

Acaba aqui.

Fim. O efeito foi imediato. Olha, realmente eu tenho que admitir. Você

sabe o que tá fazendo. Sei, eu sei o que eu vou fazer agora.

Eu quero abrir outra garrafa de champanhe. Vamos comemorar, vamos

comemorar, meu irmão.

Eu sei, eu sei.

Doutor Arthur te pediu em casamento?

Mas você não tinha me falado que ele gostava de você.

Não, não, não tem nada a ver com isso. Não é esse pedido. O que ele fez pra mim

foi um acordo entre dois amigos.

Como assim?

Ai, meu Deus, é tão complicada essa história pra explicar.

Pega ali a farinha pra mim.

É que assim, ó, a família do doutor Arthur é o ó.

Ele tá por aqui deles. A última, que é a pior de todas lá, a Pilar, né, a irmã

dele, aprontou.

Ela abriu um processo de interdição contra ele.

Eu não entendo muito de lei, amiga. Isso significa o quê? Sabe o que isso

significa? Que se o juizão lá, maioral, sentenciar que ele é incapaz, o doutor

Arthur perde a autonomia sobre tudo da vida dele.

Tipo tudo.

O cara quer ir lá na rua tomar um sorvete na esquina, não vai poder. Não

vai poder se não tiver um responsável que autorize. Você tá me entendendo?

Olha a loucura. E essa pessoa responsável seria... A irmã dele, a

bonitona lá, que quer tudo. Quer tudo, a Pilar.

Inacreditável. Pelo amor de Deus, rico realmente.

Pega ali o fermento, ali em cima.

Nossa, doutor, aí tu precisa fazer alguma coisa mesmo.

Você vai ajudar?

Não dá, não.

Eu até queria... Eu pensei na ideia, tá?

Cheguei a pensar, tô com o meu coração sim, mas se você visse a reação do meu

avô, o Elenice, eu juro, ele ia avançar no seu Arthur.

Ia ser um negócio horroroso.

Olha só, Adriana, eu não queria me meter, mas já me entendo. O que é isso,

Tom?

Eu acho que você devia ser mais esperta, isso sim. Você tava ouvindo atrás da

porta, Tom? Desculpa, amiga, ele deve ter... Não, pô, você chegou falando, ah,

tá, agora não tá... Ah, entendi. Você quer que eu não consiga ouvir? Eu ouvi.

É isso mesmo?

Quer dizer que o coroa vai fazer um contrato, depois que ele morrer, aí você

vai ficar com dinheiro? Nossa, você tá cheio das ideias erradas, não é nada

disso. O que ele não quer é que a herança dele vá pra família dele.

Tá, mas e aí? Aí você tá achando ruim. Eu não vou nem tentar explicar, porque

realmente você não alcança.

Não, quem não tá alcançando aqui é você, Adriana. Olha a vida te dando

oportunidade, aí você não vai aproveitar. Eu não sei se você se

lembra, mas eu acabei de ficar viúva.

Então pra mim...

Casar com outra pessoa, por mais que seja um acordo entre amigos, ainda é

estranho.

Mas deixa eu te falar um negócio.

Casamento tem esse negócio de contrato, né?

Às vezes você se dá bem, às vezes... Ah, não, mas é isso aí. Aí eu concordo com

você. Aí a gente tem um ponto em conforto.

Casamento, às vezes, é muito bom. É uma benção maravilhosa, como era o meu

casamento com o Carlos.

Mas às vezes, Tom, casamento...

Destrói a vida de uma pessoa. Ah, imagino. Puxa lá pra baixo. Mas no nosso

caso, né amor?

Te amo.

É lindo.

Para todo mundo a vida é difícil, mas todos fazem seu sacrifício

para melhorar, para melhorar.

Lá vem o sol para derreter as

nuvens negras, para iluminar o fim do túnel e a luz do céu.

Para inspirar os seus desejos Para fazer você encher o peito e cantar

Eu olho para essa geladeira, ela olha de volta para mim, falando pobreza.

Pobreza, pobreza, ai pobreza, quanta pobreza, quanta pobreza.

Pobreza é que nem espinha em cara de adolescente. Se espalha, vai se

espalhando, vai se espalhando. Não, só você vai conseguir me salvar.

Eu não tenho a menor vocação para ser pobre.

Essa é a realidade, gente.

Agora, vocês podiam muito bem colaborar.

Com alguma compra, uma compra significativa, como um cotágio, mano.

Você paga luz e aluguel todos os meses, enquanto as suas filhas não apagam uma

luz nessa casa e você não fala nada. Mas eu tô pagando IPTU e gás, e também só

garanto esse mês, todo mundo sabe que eu perdi meu emprego, mês que vem, não sei

o que vai ser.

Pior é que não tá aparecendo também nenhuma tradução pra eu fazer.

Ah, emprego não tá caindo do céu? Que loucura!

Estranho, né? Você tá indo atrás? Você tá indo até a porta das editoras, alguma

coisa? Não.

Eu trabalho como tradutora. Lançaram um aplicativo de tradução.

Eles estão começando. Deixa eles começarem. Quem são eles, os

aplicativos? Por que eles não arrumam um cursinho pra dar aula? Não. Não,

cursinho, você falou?

Ué, mãe? Não, cursinho não.

Cursinho, filha minha, não dá aula em cursinho. Você tá louco?

Decadência. Fala, mãe. Fila, coach.

Tá, tá bom. Coach, que dá dinheiro, filha. Lição número um do coach,

desista. Olha só.

Mas vem aqui, ó.

Aproveitando que vai sair sua rescisão.

O que é isso? Tem os boletos pra você pagar.

Aí você escolhe qual você quer. Ah, a fatura do seu cartão? Ah, que legal.

Ah, uma compra online.

Você imprimiu o boleto. É.

Doutora Susan, eu não vou pagar a sua ginecolosista.

É melhor pagar.

Eu uso suas calcinhas às vezes.

Mamãe e Rafa, querem sortear? Ah, claro.

Pega aqui.

Ó. Ai, que nojo.

Nossa,

que nojo. Eu vou pagar tudo isso, filha. Sério? Vou pagar.

Assim que eu colocar a mão na fortuna do seu tio, seja pelo processo de

interdição lá, ou seja porque ele vai passar dessa pra melhor.

Me dói o coração.

Me dói mesmo porque é meu irmão. Mas essa aí é a ordem natural das coisas,

gente. Ele é muito mais velho do que eu. Eu sou irmã caçula dele.

Daqui a pouco ele vai. Ele anda meio mal das pernas também.

E na idade que ele tá... A qualquer momento a gente pode receber uma má

notícia.

Né?

Vocês não ouviram o que eu falei? Ouvi. Hein?

Ouvi, sendo bem honesta.

Depois que ele me demitiu injustamente, eu quero mais é que meu tio se exploda.

Muito lindo, gente. Esse amor que emana da nossa família.

É muito lindo, mãe.

Filha, deixa eu te perguntar uma coisa? Se... Se eu

precisar... Se eu precisasse, assim, e te pedisse pra você ficar contra o

seu tio, eu tô perguntando só pra perguntar mesmo, tá?

Você ficaria, filha, assim, numa coisa mais radical, uma coisa de tribunal,

de juiz, radical mesmo.

Pode contar comigo.

Oh, meu amor.

Meu amor, eu sabia que eu podia contar com você, coração.

Você sempre foi tão especial, minha filhinha, tão talentosa.

Tão alta, tão...

Bom dia, família.

Bom dia.

Olha só a animação dele.

Diferente de ontem, gosta assim, viu?

É, aqui entrou uma grana de um negócio.

Um dinheiro que eu não tava esperando.

Entrou um dinheiro?

Vida, hello.

Vida.

Eu estava falando que é maravilhosa essa notícia.

Eu vou fazer um investimento com esse dinheiro hoje.

Faz. Eu vou ganhar muito com esse dinheiro. Muito, juro. Você vai

conversar com ela. Me aguarde.

Dá uma carona, pai. Espera aí. Claro, claro. Vamos, filha. Tchau, cara.

Aqui estão os ovos.

Obrigado.

Arrasou, viu?

Gema mole, Felipe.

É, como eu gosto.

Bom, e o Ulisses nem toca no assunto do meu carro, né?

Não, ele liberou a compra.

Como assim?

Ele liberou a compra. Você não ouviu ele mesmo falando, filho?

Sério? Entrou um dinheiro inesperado. A gente pode ir agora?

A gente pode ir até aquela concessionária.

Não tem o carro na cabeça. Vamos lá.

Como? Ué, o que o senhor falou antes? Meu filhote, vai que eu falo dele. Não,

eu vou fazer só o test drive, mãe, mas eu já sei o carro que eu quero.

Esse é aquele processo que o doutor Ademir precisa da mãe. Voltei do fórum

agora, vou fazer uma ligação importante, não quero ser interrompido.

Ok.

Alô? É, sou eu.

Olha, consegui.

O processo vai mudar de juiz.

Eu vou conseguir dar andamento ao esquema de livrar a cara de vocês.

Viu, era só uma questão de se mexer mais.

O seu filho é que vai ficar feliz, não vai passar por outra situação complicada

como a que viveu recentemente.

Aliás, ele já saiu do hospital?

Meu filho tá bem.

Mas podia ter morrido.

Olha, eu vou cumprir o combinado de entregar o resultado que eu prometi.

Mas deixa minha família em paz.

Eu vou cumprir o combinado, já falei.

Hoje mesmo.

Hoje mesmo isso se resolve.

Pedro.

Oi, Adriana.

Tudo bem? Bem.

Eu tô atrapalhando você?

Não, não. Eu tô só no meio de uma faxina. Entra, por favor. Mas não

repare. Não entra que você é de casa. Imagina. Tudo certo.

Eu vim porque eu tenho uma notícia boa pra dar pra vocês.

Eba, é?

É. Deixa eu desligar aqui o... Sobre a documentação da casa que vocês perderam

na enchente.

Eu consegui.

Finalmente.

Obrigada. De nada.

O que é isso?

Isso é tão importante pra mim e pra minha família.

A minha mãe vai ficar muito feliz.

Eu imagino, eu imagino.

Eu tô feliz também. Muito feliz.

Dona Elisa tá aí?

Não.

Não.

Tá sozinha?

Hum. Um café?

Você aceita? Eu aceito.

Vou passar pra ele. Cafézinho, só uma hora. É.

Posso ajudar?

Ah, sim.

Por favor.

Eu queria falar com o doutor Arthur Brandão.

Na casa dele me disseram que ele estaria aqui.

Sou amiga da Rosa, funcionária dele.

Ela que me disse. Ela me deu até o endereço. A senhora não precisa me

contar tudo isso. É só me dizer seu nome e eu vou ver se ele pode te atender.

Ah, falei muito, né?

Eu confesso que eu tô meio deslocada aqui dentro porque tudo tão assim, muito

chique.

A gente que é pobre vive se desculpando por entrar nos lugares que não são pra

gente, né?

Nem tô com uma roupa direito.

Eu aprendi que qualquer pessoa pode entrar em qualquer lugar. E eu não posso

julgar ninguém pela aparência. Me diz seu nome.

Pode dizer que é Elisa, mãe da Adriana.

Por isso, tá pela hora da morte no caso, rapaz. O que é isso? Tomate parece que é

ouro. Ah, eu tô com vontade daquele iogurte, sabe?

Iogurte, é claro. Tomei eu, é. Todo mundo.

Mas eu aqui.

Tem que dar graças a Deus que nós estamos com um teto. Dá uma olhada aí.

Tem água quente também. Tem abrigo, nem isso. Tem o básico, tem tudo isso.

Ih, rapaz, aquela mulher vindo pra cá.

O que tem ela? É minha chefa.

Tô lascado.

Oi, Eltoniel.

Elza, tudo bom?

Elza, esse é o meu neto.

Eu vim atrás de você pra perguntar por que você deixou a barraca no meio da

noite.

Eu te dei um emprego na confiança e você largou tudo lá. Deixou o Enéas sozinho.

Eu preciso de uma explicação.

Então... Pega o

café que já ferveu aqui.

Desculpa.

Eu não pensei que ia encontrar você aqui hoje. Sei que você tá trabalhando.

Esse horário que você trabalha, não é? É, deveria estar, mas é que aconteceram

umas... Eu acho que eu não queria falar disso, desculpa, que já estou meio

processando. Perguntei para perguntar.

O que?

O machucado, você... Deixa eu só pegar a caixa.

Você machucou?

Se você não quiser falar também, não tem problema. Não, não, não, quero falar,

sim. Foi um acidente de carro, cara.

Sério?

Meu Deus. Foi feio.

Foi grave? Foi grave.

Foi muito grave.

É? Foi.

Capotou. O carro? Esquentou aí, né? É.

Capotou o carro.

Fiquei de cabeça pra baixo, sangrando. Meu Deus.

Podia ter morrido. Podia não estar aqui agora.

Já pensou?

Não, é sério. Eu podia ter morrido mesmo. Foi sério mesmo. Não, Deus me

livre. Não briga com isso. Deus me livre.

A vida é... A vida é frágil.

É, ele fala isso. Muito frágil.

Eu não sei. As coisas acontecem assim. Muito num piscar de olhos.

Socorro.

Você toma puro? Eu tomo puro.

Mas são momentos assim, né, que fazem a vida valer a pena pra gente.

O que que esses momentos tem de especial?

Tem...

Tomar um café no meio da tarde, assim.

Quando a gente menos espera.

Tá

bom?

Por favor, dona Elisa. A senhora quer sentar? Não, não. Não precisa, não. Eu

não pretendo me demorar.

Eu vim porque eu queria saber quais são as reais intenções do senhor.

Com esse seu pedido de casamento pra minha filha.

A gente é humilde, mas nossa família é muito honesta.

Eu sei.

A sua filha recusou o meu pedido e ainda pediu demissão.

Eu acho que a Adriana tem medo que eu esteja apaixonado.

Não que ela não seja uma mulher bonita, mas eu a vejo como amiga.

Ela sabe disso.

Olha, eu entendo que o senhor tá chateado com a sua família, mas eu temo

pela minha.

Dona Elisa, eu não tô chateado com a minha família, eu tô enojado.

Ninguém se salva. É um bando de abutres.

Eu descobri, da pior forma possível, que eles estão numa espécie de contagem

regressiva pra minha morte, pra aquele momento que eles imaginam que seja o de

botar as mãos na minha fortuna. Deus do céu.

E eu quero impedir de todas as formas possíveis que isso aconteça. Eu só vou

ficar em paz quando eu souber que ninguém vai herdar nada do que é meu.

Mas por que minha filha?

Porque aí eu ficaria duplamente satisfeito.

Eu tiraria o dinheiro de quem não merece.

E garantiria o futuro da Adriana.

E de vocês.

Isso é muito dinheiro, doutor.

É. É muito mais do que vocês poderiam imaginar.

Dona Elisa, eu sei que é muito dinheiro envolvido nessa situação, mas não

precisa passar mal. Não é por isso que eu tenho tido essas tonturas mesmo.

Agora não.

Dona Elisa!

Edivaldo!

Edivaldo! O que foi, doutor Arthur?

O que aconteceu?

Chama o médico!

Chama o médico! O que aconteceu, doutor?

O que aconteceu, doutor?

Olha, eu já liguei para o médico, disse que era urgente pedir para ele vir

correndo aqui para a joalheria. Mas o que aconteceu aqui, Edvaldo? A dona

Elisa chegou tão bem.

Eu não sei, ela começou a se sentir mal e de repente desmaiou. Eu devo ligar

para a Adriana, a doutora Torra. Não, não, não, melhor não. Vamos esperar para

saber o que o médico vai dizer.

Olha, ele já respondeu, está vindo.

Aí eu estava entrando no túnel.

Aí tinha um cara com pressa atrás de mim, colando no meu carro. Eu falei,

passa, filho.

Dei passagem para ele.

Aí quando eu dei a passagem, o cara ao invés de passar, me deu um corte assim,

deu uma fechada.

Aí eu perdi o controle do carro para tentar sair. Quando eu vi, já estava

capotando o piso.

Foi feio o negócio.

Aí eu perdi a memória nesse momento também.

Mas o socorro chegou rápido.

Mas você não ficou inconsciente, né? Não, eu fiquei um pouco inconsciente.

Minha ex-namorada também.

Mas eles chegaram rápido e podia ser pior, né? Podia ter sido muito pior.

Graças a Deus. Graças a Deus.

Está todo mundo bem.

E a ex-namorada?

É.

A gente terminou.

Foi chato, hein? Foi. Foi chato.

Difícil, porque vocês estão esperando um filho, né?

Ah, não sei nem como te dizer isso, dá até vergonha, não.

Não tem filho.

Como? Ela me enganou, mentiu pra mim. Não tinha, nunca teve filho.

A relação não tava das melhores, assim, a gente tava meio, entendeu?

Nossa. Aí eu não sei se ela pensou que eu ia terminar com ela, ela, a mãe dela,

combinaram de fingir pra mim que tava grave.

Coisa de... Eu não tô acreditando nisso. É, eu tô falando, você tá rindo?

Eu sinto muito.

É muito absurdo.

Não é pra terminar com a pessoa dela? Quer dizer, eu acho. Eu nunca menti pra

ela.

Tá louco.

E como você tá?

Eu tô... Eu tô bem.

Mas ao mesmo tempo, eu queria ser pai.

Eu sempre sonhei em ser pai. Foi aí que ela me...

E ficou uma coisa assim, não sei dizer, ficou como se eu tivesse perdido um

filho, entendeu? Porque eu já tava contando que eu ia ter um neném meu.

Então ficou um vazio, assim, sabe?

Um luto mesmo.

Doideira, né?

Não, eu entendo você.

É, estranho.

Você sentir falta de um negócio que você nunca teve. É.

O luto é assim mesmo.

Eu perdi meu marido, né?

Você sabe.

Não deu tempo de viver esse luto.

Até porque acho que luto nem tem a ver com tempo, sabe?

Tem dia que eu tô bem, que eu tô com a minha vida e tal.

Tô forte. Tem dia que... Nossa, tem dia que fica muito

ruim. Fica muito triste, muito pesado esse vazio aí que você falou.

Eu sei, eu sinto ele.

O Carlos foi o maior amor.

Tá difícil sem ele.

Tô perdida. Parece que a minha vida não tem muito sentido.

Você vai ficar bem.

Tenho certeza disso.

Tem muita vida pela frente.

Tem que seguir, tem que trabalhar, tem que dar uma vida melhor pra minha

família também.

Cuidar das coisas aqui, cuidar deles.

O objetivo agora é esse, é trabalhar, trabalhar mesmo.

Fica à vontade, tá? Vou arrumar aqui as coisas.

Eu tinha mesmo que falar... Você não tá falando coisa com coisa.

Não. Eu quero uma explicação sincera.

Ué, eu tô sendo sincero. É que... Eu tive uma emergência na família. Foi

isso. É, Elza, né? É que meu avô é um pouco cabeça quente. Ele podia ter

resolvido isso depois. Maurício, não se mete.

Eu te dei um emprego na base da confiança e na primeira oportunidade, o

que você faz?

Você deu um pedido no seu posto, bem na hora do seu turno.

Eu fiquei muito decepcionada.

E com razão, claro.

Mas eu só te peço isso, não me dispense.

Me deixa provar pra você que eu dou conta do trabalho.

Te garanto que eu dou. E te juro, eu não saio mais da banca assim, mas não saio

mesmo. Isso eu tô garantindo pra você, é uma promessa minha.

Tá bom.

Eu vou te dar outra chance.

Assim como eu sempre fiz na vida.

Mas eu preciso que você chegue hoje mais cedo pra compensar o tempo que você

passou fora na noite anterior.

Você pode escrever aí. Eu vou chegar antes, vou compensar essas horas. Fique

tranquila, tá bom? Tô te prometendo.

Tá bom.

Bom. Espero lá, tá?

Certo.

Uh, seu Antônio.

O que é isso, rapaz?

Tá ficando maluco? Você e essa mulher já tiveram uma coisa no passado, né? Não te

mete, hein?

Vê se você se manca.

Chegando aqui, meu amor ficou lá fora, eu tenho que...

Doutor Pedro, tudo bem?

Melhor agora.

Tudo ótimo, bom ver o senhor de novo. Eu digo mesmo, bom mesmo ver ele aqui, tudo

bom. Mas não vou poder ficar conversando com vocês, me desculpe, eu tenho que ir

embora. Vou chegar mais cedo hoje no serviço, porque não teve jeito.

Eu tenho que repor um tempo aí que eu fiquei fora do posto.

Tive que resolver uns problemas aí de família. Que problema que está tendo?

Não, nada, não, dessas vezes é coisa da cabeça do meu pô, né pô? Ele falou que

está tendo um problema. Não.

Porque se eu puder ajudar em alguma coisa, eu ajudo. O senhor está tendo

algum problema?

Você é ótimo, mas é que o meu avô, ele... Está tudo bem.

Né, avô?

Mesmo? Não, está bem.

Desculpe, é que é tanta coisa boa que você já fez para a gente que eu estou

aproveitando para agradecer. Quero agradecer sempre a sua gentileza. Muito

obrigado mesmo. Para mim é um prazer, Sr. Toniel. O senhor sabe disso.

Eu tenho que ir também.

E eu tô atrasado, de verdade.

É,

passou rápido. A gente nem vê passar.

Obrigado pelo café.

Faz um café bom, ela. Depois conta pra ele da surpresa.

Dentro desse envelope aí tem uma surpresa. É mesmo? O que que é, gente?

Tô indo.

Tchau, tchau.

Mas volta, hein?

Volta, viu?

Eu volto.

Eu espero que seu coração fique bem.

Meu coração?

É. Eu espero que o seu fique bem também. Vai ficar.

Tô indo.

Tchau.

Opa. Tchau.

Abre pra mim, né? Claro, senão você não pode. Não é pra eu voltar?

Vou voltar, né?

Tchau. Oi, irmão. E aí? Tudo bem, irmão? Maurício, Maurício, vem pra cá.

Pega essas coisas aqui e leva tudo lá pra tua filha.

Se eu te falar uma coisa...

Se você pensasse em casar de novo, eu fazia muito gosto que fosse com esse

rapaz aí.

Gostei dele.

Eu não vou casar com ninguém não, vô. Que isso, eu acabei de ficar viúva, pelo

amor de Deus.

Tá certo, melhor assim, né?

Bom, deixa eu me trocar, vem. Tem que chegar lá mais cedo hoje.

Olha, eu sinceramente não entendo por que você vai recusar o pedido de

casamento, doutor Arthur.

Hã? É só um arranjo, não é?

Maurício, pensa que a gente vai poder viver tão melhor.

Ela estava muito pálida.

Agora está com uma carinha melhor.

Toma, doutor Maurício, toma uma aguinha.

Obrigada. Sim, mas acho melhor levá-la ao hospital. É importante fazermos

alguns exames.

Exame? A senhora mesma me disse que vinha sentindo essas tonturas. Tem que

investigar o que tá acontecendo.

Mas eu não tenho dinheiro, como é que eu vou fazer exame? Os gastos são por minha

conta, não se preocupe com isso.

A senhora acha que eu devo avisar a Adriana?

Não, não, não, por favor.

Não, a gente vai chegar no hospital, vão ver que é uma bobagem, mandar pra casa.

Não precisa deixá-la nervosa, não é preocupada. Claro, tá certo.

Divaldo. Sim, doutor. Pega o carro que nós vamos levar a dona Elisa para o

hospital. Tá certo. Doutor, vai também.

A sua saúde agora é minha responsabilidade.

Ô Adriana, Adriana, eu tô falando sério, presta atenção. Qual que é o problema de

você aceitar o pedido? Me fala.

Pensa que é o seguinte, ele pode fazer muito por você, ele pode fazer muito

pela gente. Mas as coisas não são tão simples assim, Maurício.

O casamento tem que ser mais do que um arranjo financeiro. Mas não é só um

acordo, não é só no papel, acordo entre amigos.

Não sei, não sei.

Pensa que é o seguinte, você vai poder abrir uma clínica de fisioterapia pra

você. O vovô vai poder parar de trabalhar.

Entendeu? Até eu, por exemplo. Eu vou poder estudar numa escola que vai me

deixar mais bem preparado pra uma universidade.

Você tá esquecendo do preço pra tudo isso, Maurício. Como assim?

Pra começar, eu ia comprar uma briga eterna com meu avô, né? Que já tá como

tá, você tá vendo?

Depois, tem a família do doutor Arthur, que eu sei lá, sabe-se Deus o que essa

gente é capaz de fazer por dinheiro.

Eu falei com a nossa mãe, ela falou que por ela tudo bem, que ela não se opõe ao

casamento, aí deixou a decisão pra mim.

Mas essa decisão é sua.

Eu sei.

Mas é que eu quero ver vocês todos.

Agora com meu avô não daria pra conversar.

Porque ele já falou por ele, casamento, de jeito nenhum.

De jeito nenhum.

O que eu faço?

Cadê minha filhotinha?

Minha pituxinha? Lá, lá, lá, lá, lá, lá. Olha só o que a mamãe trouxe pra você.

Aquele croissant ou chocolate que você adora. Vamos abrir a boquinha. Abre a

boquinha. Eu não quero. A filha abre. Olha.

Olha o violãozinho.

Não quero. Quero ficar sozinha.

Oh, meu amorzinho.

Meu amor.

Essa crise vai passar, filhotinho. Você só precisa dar tempo ao tempo, filho.

Vai passar. Claro que não vai passar.

O Pedro tá com ódio de mim com essa história de gravidez.

É. Ele tá chateado agora, sim.

Agora.

Mas daqui a alguns dias isso pode mudar.

O Pedro sempre vai ser pai.

E ele ainda pode ser, meu amor.

Basta você reconquistar o Pedro.

Reconquistar? Uhum.

Mãe, você não entendeu que o que você fez é muito errado.

Você não entendeu a gravidade da situação.

Você não podia ter inventado essa história.

Se o meu relacionamento acabou, ele acabou por sua culpa.

Olha, filha, de novo essa história?

Não, nem vem. Não vem com isso, não. Nem vem. Você é tão responsável por essa

mentira quanto eu.

Eu inventei a gravidez, sim. Mas você levou adiante porque quis que chatisse.

Desculpa. Desculpa, meu amor.

Desculpa, minha filhotinha. Eu não queria falar assim com você. Me

desculpa, tá?

É que... É que eu tô muito nervosa.

Essa... A nossa situação financeira não é boa.

E... E o seu casamento com o Pedro é uma garantia pro seu futuro.

Pro nosso futuro.

E por mais que ele seja agora só um...

um advogado em início de carreira e às vezes muito idealista para o meu gosto,

ele também é herdeiro do Ademir.

E aquele ali sabe fazer dinheiro.

Eu vou descansar.

Olha só, cada um mais lindo do que o outro.

Nossa, olha esse daqui, mãe.

Olha esse daqui.

Esse aqui é o carro.

Esse aqui é maravilhoso, não? Vem cá.

Vem cá, vem olhar mais o perna aqui, esse carro.

Olha isso.

Esse paralel digital era exatamente o que eu queria.

É.

É lindo mesmo.

É lindo. Mais esportivo, né? Mais robusto. Não, já vimos todos os

opcionais, né?

É inacreditável.

Top de linha, né, meu filho?

Certamente mais caro também.

É, mais caro, né? Porque é top de linha.

Bom, se você achar melhor, eu posso pegar o modelo anterior.

Não é tão completo.

É só mais em conta.

Você que sabe.

Você vai pegar o que vai te fazer feliz, meu filho.

Vamos aproveitar que o Uli ganhou esse dinheiro que nem tava esperando. Sério?

Aham.

Pô, mãe, eu não sei como te garantir. Se tiver problema, a gente não compra, tá?

Você merece.

Posso ajudar vocês?

Pode sim.

Vamos fechar negócio.

Esse aqui é meu carro novo.

Eu tinha parado.

Mas é mais forte que eu.

Eu estava indo bem, mas essa semana eu me afundei.

E quando você afunda, se junta a pilar contra mim, na esperança de botar a

mão na fortuna que eu conquistei com um trabalho.

Um trabalho.

E sem desvios pelo caminho.

Os exames ainda são inconclusivos.

Mas os sintomas apontam para alguma coisa?

Dona Elisa diz que sente um cansaço enorme, dores no corpo, e eu percebi uma

certa rigidez muscular nos braços e nas pernas.

Arthur, pode ser muita coisa.

A gente vai continuar investigando.

Por favor, sem economia, tá? Eu... Eu arco com os custos. Um

minuto.

Bom, então eu prefiro a opção... Sobremesa, eu prefiro um docinho do que

uma fruta, se puder, né? Aqui uma aguinha.

Meu Deus, daqui deve estar saindo caro demais esse hospital.

Relaxa, dona Elisa. Doutor Arthur não disse que tá arcando com tudo?

Mas é que parece um hotel, sabe? É muito chique, muito chique. Vai se

acostumando, vai se acostumando.

Gente,

eu já posso ir pra casa?

A senhora vai ter que fazer mais alguns exames.

Mais exames? Por que tem alguma coisa grave comigo?

Os exames que a senhora fez descartam algumas possibilidades, mas a gente

ainda não tem um diagnóstico absolutamente confiável, entende?

Mas fica calma. Nós estamos cercando por todos os lados.

Mas isso vai demorar?

A senhora vai ter que passar a noite aqui.

Ai, meu Deus, passar a noite?

Então vou ter que avisar a minha família. Eu tinha pensado só contar que

eu estive aqui depois que chegasse em casa, mas não vai dar pra esperar,

então... Obrigada, doutora. Muito obrigada.

Foi ao hospital, mãe?

Eu tive uma fraqueza. Foi, Adriana.

E depois eu desmaiei.

Eu vou pegar uma aguinha gelada.

Ela tá bem, Adriana. Tô bem, só engasguei.

Mas desmaiou como, mãe? Desmaiou no meio da rua?

Não foi na rua, foi lá na joalheria do doutor Arthur.

Foi ele que me trouxe pra cá, ele que me socorreu, viu?

A joalheria do doutor Arthur? Que história é essa, mãe?

Ó só, a gente conversa chegando aí, tá? Eu vou aí pra cuidar da senhora.

Beleza, mãe? Tchau.

A mamãe tá no hospital? Passou mal, mas já foi atendida. Agora ela disse que vai

ter que dormir lá, que tem que fazer uns exames.

Então eu vou me trocar, tá? Pra acompanhar ela. Eu vou com você. Não

precisa, não. Acho que é melhor você ficar aqui. Vai chamar alguém pra você

não ficar sem companhia, porque o vovô só chega com o dia amanhecendo. Tá, eu

vou chamar a Helenícia Daphne, então, tá?

Tá bom.

Desculpa, moça.

Perdão. Quatro, três aqui da minha mãe, da Elisa.

Oi, mãe.

Oi, Adriana. Ai, que bom que eu cheguei aqui logo.

Mãe do céu, que susto.

Vem cá, eles explicaram o porquê do desmaio?

Calma, calma, eu já tô bem melhor, tô bem melhor. Já fiz um monte de exame. E

o que os exames deram, mãe?

Deram que eu vou ter que fazer novos exames.

Ai, meu Deus do céu, gente.

Ai, que isso, eu vou... Doutora Arthur, tudo bom?

Mais uma vez, obrigada. Não, não, não.

Não tem nada que agradecer. A sorte é que eu estava por perto e pude ajudar.

O lanche chegou e ela está comendo tudo.

Uma delícia. Isso é muito bom. É como a Dona Elisa mesma disse, saco vazio. Não

para em pé. Não para mesmo, está certo. O lanche está certo. A comida daqui é

maravilhosa. Sabe que o hospital de rico é melhor que restaurante.

É verdade, é verdade.

Obrigada. Vai, vai, vai. Adriana, será que a gente...

Pode conversar um pouco?

Claro.

Aqui. Acho que eu quero continuar. Agora vamos para a fruta. Não, fruta. Agora

está na hora da fruta. Pode botar a fruta aqui dentro.

Eu não sei direito...

Ainda, né? O que minha mãe foi falar lá com o senhor na joalheria, mas eu queria

já de antemão te pedir desculpas, porque às vezes ela dá uma viajada, fala umas

coisas meio nada a ver, sabe? Então, assim, realmente desculpa mesmo, perdão.

Dona Elisa só foi fazer o papel da mãe zelosa de uma forma mais carinhosa que o

seu avô. Ah, imagina, né? Certamente.

Sempre preocupada com você, não disse nada, nada de ruim, nada.

Ela só queria entender mais os motivos da proposta que eu te fiz. Mas o que

importa agora é a saúde da sua mãe.

O senhor falou que queria falar só isso comigo.

Eu queria muito saber o que o médico te disse.

Se o que a minha mãe tem é grave.

É, parece que não é muito simples.

Ai, meu Deus do céu.

Hoje é meu dia de sorte.

Todo mundo vermelho.

Vou ter que tentar de novo.

Essa rodada me derrubou.

Eu não amo ela.

Não, não ama mesmo. Olha só, você não ama.

Desculpa dizer pra você, isso não é amor.

Quando a gente ama uma pessoa, a gente não faz a pessoa de idiota.

Não, não, de jeito nenhum.

Obrigado, você vai se cortar.

Muito obrigado.

Dona?

Brigitte. Nicolau, sabe o que mais me impressionou?

Fala, mãe, que eu tô curiosa. O que houve? O que ele falou?

Que eu preferia ser um de nós.

Ele disse que depois da mulher e do filho dele, você foi a pessoa mais

bacana que ele conheceu.

Lá vem o sol Para derreter as

nuvens negras Para iluminar o fim do túnel E a luz do céu

Para inspirar os seus desejos, para fazer você encher o peito e

cantar.

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