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MÃOS À OBRA
Varre bem aqui.
Vou ligar para eles.
Em poucas palavras,
deixei de fotografar para me tornar escritor.
Continuar sendo escritor era outra coisa.
Tudo certo. Vou ficar com ela.
- Tome. - Obrigado.
Está com os documentos?
- Tome. As cartas dos leitores. - Obrigado.
Paul, seus livros são um sucesso de crítica.
Tem bons artigos a respeito,
mas sejamos honestos: as vendas são decepcionantes.
Nos empenhamos muito no último, mas não decolou.
Quantos foram vendidos?
Menos de 5.000.
Essa quantia não é tão ruim.
Alguns se contentam,
mas é seu terceiro livro.
Certo, mas e o meu texto?
- É autobiográfico demais. - É?
Se quer minha opinião, ruptura amorosa não é uma boa ideia.
Nem o título: História de um Fim.
Mas é uma história de amor.
A perda de um ideal.
Você lê os jornais?
A cada 10 minutos é o apocalipse.
As pessoas precisam de energia, esperança.
Você pode fazer melhor.
Pensa nisso.
Está bem, mas...
Mas o quê?
Vai levar tempo.
Não estou apressada.
Os tempos não estão fáceis.
Estou meio quebrado.
Eu já lhe dei um adiantamento.
Não posso fazer mais.
Será seu quarto livro, Paul.
Estou esperando um grande romance.
- E esse não é? - Não.
Terminei minhas caixas.
Um entregador virá amanhã. Pode abrir a porta para ele?
Paul!
Paul, está ouvindo?
O quê?
Eu estava dizendo
que um entregador vem amanhã deixar um pacote. Abre para ele?
Sim.
É uma besteira sair deste apartamento.
Para que preciso de três quartos?
- Bom, já vou indo. - Quando é que vou ver as crianças?
Montreal não é do outro lado do mundo.
Viu o preço das passagens?
Você dá um jeito.
Como você é dura.
Não. Sou realista.
Falei com a Christine.
Ela concorda em te emprestar o estúdio dela.
Está avançando no novo livro?
Estou trabalhando nele.
E se não for publicado?
Não sei. Ainda não é o caso.
Foi uma loucura ter deixado a fotografia assim,
só para escrever.
Para mim, teria sido loucura continuar.
Por que parou? Você ganhava bem sua vida.
Se tivesse lido meu primeiro livro, saberia.
Como estão teus filhos?
Eles irem morar longe não te incomoda?
Eles são grandes. Estão felizes em irem com a mãe.
Por que os impediria?
Um pai escritor vai pagar os estudos deles?
O que você espera? Um Prêmio Goncourt?
Um pai escritor.
Eu preferia ter um pai escritor, em vez do meu,
esse homem frustrado, trancado oito horas por dia,
preso à mesa dele, ou deitado no sofá da sala.
Silencioso, resignado.
Posso levar seu prato?
Não. Vou comer um pouco de salada.
Na presença de um membro dessa família,
me sinto uma criança que nunca cresceu,
a criança que amam, mas não confiam totalmente,
que ainda precisa ouvir que é para arrumar o quarto.
Agora é minha vida que querem que eu arrume.
Tudo bem? Com minhas costas não posso te ajudar.
Pode deixar. Estou terminando.
Obrigado, papai.
Paul, vem aqui um minuto.
Toma meu anel. Vende e fica com o dinheiro.
Não, ele era do seu pai. Obrigado.
Como fotógrafo, eu ganhava uns 3.000 euros por mês.
E alguns anos, 8.000.
Desde que parei, só recebo 250 por mês de royalties.
Uns 200 ou 300 euros por mês não é uma miséria,
mas começamos a ter uma visão clara do que é.
Foi ao gastar todas as economias, sem esperanças de renová-las,
que percebi que ficava pobre.
- Não recebe auxílio desemprego? - Não.
Você fala inglês?
Não muito.
Tem diplomas?
Só do ensino médio.
E tem 42 anos.
Eu aceito qualquer emprego.
Mas preciso de tempo para escrever.
Quer um trabalho que lhe deixe tempo livre?
Como o quê?
Não sei.
Guarda noturno
num hotel ou estacionamento.
Não vai mais achar isso.
BEM-VINDO AO JOBBING
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Atenção, com 15 jobbers por cliente a competição é grande.
Precisa ser dinâmico e motivado.
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Essa é a chave do sucesso.
Oi, meu nome é Paul. Tenho 42 anos.
Oi, eu sou o Paul.
Sou cuidadoso, eficiente, pontual.
Não hesite em entrar em contacto. Obrigado.
Se colocar uma foto, vai aumentar sua chance.
Parabéns, você é um jobber!
Que ótimo.
Depois de ler meu primeiro livro, um crítico me falou:
"Você vai longe."
Fui até o sexto andar de um prédio em obras, em Pigalle.
A ideia da plataforma é simples.
Um cliente pede um serviço
que o Jobbing oferece imediatamente aos trabalhadores.
E o leilão começa.
Basta um euro de diferença na tarifa para perder um trabalho.
O mais barato ganha a oferta,
que é miserável, claro, já que a concorrência é sem limite.
Tudo bem, meu velho?
Sim.
Não enche muito o saco. É pesado!
Diferentes de empregos, esses bicos
me deixam tempo livre para escrever.
Foi assim que trabalhos mal pagos, para os quais não estava preparado,
mudaram minha vida.
CORTAR A GRAMA, AJEITAR O JARDIM, TRABALHO LIMPO APRECIADO
- Paul? - Sim.
Você não tem cortador de grama?
Não.
Você tem um jardim, imaginei que tivesse um.
Se tivesse, eu mesma cortaria.
Será que seus vizinhos têm um?
Não. São todos uns babacas.
Encontrei isto.
Acha que vai dar para fazer?
Vou dar um jeito.
Isso vai levar um tempão.
Achei isto também.
Só quero um aspecto decente, para receber a caução de volta.
Vou fazer o melhor que posso.
Certo.
Então?
Perfeito!
- Combinamos 18 euros, não foi? - Sim.
Obrigado.
"Paul é gentil, mas totalmente perdido.
Três horas para cortar 25m² de grama.
É uma loucura!"
Casa em Noisy-le-Sec.
Trajeto e grama, cinco horas.
Total: 18 euros.
Cliente com sapatos esquisitos.
Blusa toda abotoada errada.
Acabei com as costas.
Ter as ferramentas certas.
- Bom dia. - É para uma encomenda.
Primeiro, bom dia!
Que barulho é esse?
É o cara da obra.
Tudo bem?
Tudo.
Ao entrar na casa dos clientes, olho para o pé deles.
- Olá. - Olá.
Se estão de meias, eu tiro meus sapatos.
Entre.
- Está segurando? - Estou.
Fico contente com o que me pagam.
O pior cliente não é o que paga pouco,
mas os que ficam comigo, verificando meu trabalho.
Esses são estressantes.
- O que está fazendo? - É para recuperar a poeira.
Você vai furar?
Eu preciso, para colocar o espelho.
Eu alugo este local.
É só encher os buracos depois.
E onde vai colocar a TV de tela plana?
Venha comigo.
Com licença.
- Alô? - Paul, sou eu.
Você se esqueceu do coquetel dos romancistas iniciantes?
Léa Huttin disse que você nunca atende.
- Quando é? - Em 18 de dezembro.
Você tem que ir, é um patrono. Contamos com você.
Certo. Vou estar lá.
O que está fazendo?
Trabalhando.
Escrevendo?
É.
Vou desligar. Não quero atrapalhar.
Estou ansiosa para ler. Bom trabalho.
Que droga é essa? Está falando sério?
As pizzas!
Obrigada.
Tem o número do pedido?
Alguém sabe o número do pedido?
É 79.
E as cervejas?
Eu tinha falado!
- Eu paguei por elas. - Não!
Vou fazer um ponche, tudo bem.
Você é amigo da Sarah?
Não. Sou o Paul.
- Paul? - Vim para o armário.
Paul! Sim! Entre!
Me desculpe, não tenho trocado para a gorjeta.
Pode me dar pelo aplicativo.
Pelo aplicativo?
Como damos gorjeta pelo aplicativo?
Vou lhe mostrar. Veja...
Não tinha outro saquinho de parafusos?
Não faço ideia. Eu abri, não entendi nada e fechei.
Você faz isso há muito tempo?
Não muito.
Você não tem cara de quem faz isso.
Você parece mais...
um médico.
Ou um professor.
Deve ser por causa dos óculos.
Então, o que você faz?
Sou uma espécie de reparador.
Eu sou diretora de uma empresa de design.
Eu também. Na mesma empresa.
- Vocês gostam? - Mais ou menos.
Fazemos embalagens para produtos alimentícios.
Em vez de luminárias ela faz pratinhos de presunto.
Não estou me queixando.
Eu ganho bem a vida.
Vamos à festa da Léa?
Vamos, por que não?
- Você também vem? - Não.
Com licença.
Esse armário é ridículo.
Não sei por que eu comprei.
Outro dia estava vendo as notícias e comprei um remador.
Por que insiste nessas merdas de bicos?
Poderia ganhar a vida normalmente.
Normalmente como?
Fazendo coisas menos cansativas e ganhando mais.
- O quê, por exemplo? - Qualquer coisa.
Você é um artista. Não quer se comprometer.
Quer ficar puro.
Até fingindo ser pobre.
Não estou fingindo.
Você não é um verdadeiro pobre.
"O contrário de algo não é seu oposto,
mas a mesma coisa com o adjetivo 'verdadeiro'".
Aldous Huxley.
- Não entendi nada. - Para de nos confundir.
O que é um "pobre de verdade"?
Os mendigos na Índia.
Os miseráveis em Madagascar.
Na Cidade do México também.
Lamento, mas eu viajei, eu vi.
Há 11 milhões de pobres na França.
Você diz que eles não são pobres de verdade,
pois viu os de verdade quando viajou de férias?
Para.
Ela está falando de você.
É. Só estou falando que você tem escolha.
Vejo que te perturba eu não querer o que te parece normal,
mas eu faço o que posso.
Estou tentando encontrar sentido no que faço.
E você me julga.
- Não! - Sim!
Ela diz que eu sou falso, que tenho escolha.
Só para mostrar que minhas escolhas são erradas.
Então, que bom se você faz as certas. Eu não a julgo.
Chega, Paul. Não reverta a situação.
É inacreditável.
Você escolheu trabalhar feito escravo.
Talvez seja o preço da minha liberdade.
E hoje em dia, alguns escravos são bem pagos, sabe.
Posso ser uma escrava mal paga, mas tenho uma família,
um emprego de verdade, e assumo as responsabilidades.
Vou embora.
Tchau, papai.
Tem livros que rendem dinheiro.
Por que não escreve um best-seller?
É uma besteira sair deste apartamento.
Eu gosto da vista.
Ele tem uma vista linda.
É uma besteira sair deste apartamento.
Não.
Está mentindo. Não disse o motivo certo.
"Não disse...
o motivo certo."
O motivo é que você está sofrendo.
Você não é um verdadeiro pobre.
Por que não escreve um best-seller?
NOVO TRABALHO: TIRAR UM MEZANINO.
ELISE E JULES CONTRATARAM VOCÊ POR 20
Pode me ajudar a descer esse futon? É muito pesado.
Meu namorado foi operado. Não pode pegar peso.
Ainda estou com grampos.
Tem a máquina de lavar também.
Mas não é grande. Ela é de cinco quilos.
Que idiota comprar um sofá antes de se livrar disso!
Acho que vou precisar de ajuda. Fique ali atrás.
Estou indo.
Aqui?
Espera. Aqui.
Espera.
- Está tudo bem? - Sim.
O futon, o futon.
Que porra de mezanino!
Porra!
Atenção. Vou soltar.
Me dá um segundo.
Não aguento mais.
É difícil demais.
Me desculpe.
Não, deixe que eu faço.
- É mesmo? - Sim.
Me desculpe.
Que dificuldade!
- Tudo bem? - Tudo.
Me desculpe.
Dói quando eu respiro.
Como fez isso?
Não sei. Um movimento errado.
Segura aqui.
Suba na balança.
Pode se vestir.
Vou prescrever uma radiografia, mas acho que é só uma distensão.
- Mas vamos ver se tem fratura. - Que azar.
Tome dois comprimidos de ferro por dia.
E coma mais carne vermelha.
Pode passar aspirina também?
Não vai custar nada. É coberto pelo SUS.
Mas fique de repouso por um mês.
Preciso trabalhar um pouco.
Tem poucos anúncios no momento.
A plataforma estará limitando para os jobbers terem que pagar?
Mas acabei passando ao plano pago para aumentar meu potencial.
A competição é dura
e eu preciso diminuir meu preço
a um nível indigno.
É ouro branco.
Não estou vendo o selo.
É suíço.
Certo. Vamos dar uma olhada.
Vou esfregar, mas não vai estragar.
Lamento, não é de ouro, é só folheado.
Não é a mesma coisa.
Se a marca de ácido some,
não tem ouro, e ela sumiu.
Não tem ouro nenhum?
Quase nenhum, e...
o folheado é muito fino.
Então, o que fazemos?
Não sei.
Eu fico com ele.
Por quanto?
Pela pedra...
Trinta euros?
Se seu pai não precisa, tome...
- Obrigado, Christine. - Cuidado, agora ele é de coleção.
Se tornar pobre não consiste em viver simplesmente.
Pelo contrário, a pobreza complica consideravelmente a vida.
Do papel higiênico, que uso uma folha de cada vez,
à temperatura do estúdio, que tento manter no mínimo.
Tem sempre algo a sacrificar ao se viver com pouco.
Boa volta.
Boa noite.
- Boa noite. - Obrigado por ter esperado.
Vai para a Gare du Nord?
É.
Paul?
Não está me reconhecendo?
Claro que sim.
Pierre.
O que está fazendo aqui?
Estou trabalhando.
- Não faz mais fotos? - Não.
Eu parei.
É mesmo?
Agora é motorista?
Entre outras coisas.
Eu trabalho em Paris, mas agora moro em Londres.
Eu sei.
Tenho um filho.
Eu sei também.
Facebook.
- Tchau, Paul. - Tchau.
- Me dá teu número. - Vai perder seu trem!
Então anda logo e me dá teu número.
É 0639982408.
Eu te ligo.
Quero saber de tudo!
Adorei seu livro.
Ele é lindo.
Paul Marquet ainda não chegou?
- O quê? - O Paul Marquet ainda não chegou?
Alice?
PARE DE FUMAR!
- Preso? - Não, a senha não funciona.
Pode segurar isto? Espere.
O Natal acabou de passar.
Estou jogando fora as árvores de Natal das pessoas.
E corto a madeira para minha lareira.
Châteauneuf-du-Pape.
Não é bom, é delicioso.
Montlabert 2020.
Um Côte du Rhône?
Quem foi o rato que trouxe esta porcaria?
Estou aqui, mas não muito.
Não é por meu filho, nem por minha filha.
Quando vem nos visitar?
Está meio complicado no momento.
Dei uma olhada nas passagens.
Vou achar uma solução.
Precisa de ajuda?
Sim, adoraria.
É a Revista do Pônei, ali em cima.
Não vendemos mais. Ninguém quer.
HISTÓRIA DE UM FIM
Entre meus trabalhos de escritor e faz-tudo,
não tenho mais estatuto social preciso.
Estou para a miséria, como 17h no inverno está para a escuridão:
já está escuro, mas ainda não é noite.
Vou ser franca com você.
O texto não está à altura.
Eu mandei para o comitê de leitura.
Para ver se tinha perdido alguma coisa.
Ninguém se entusiasmou.
Você escreve bem.
Tem sensibilidade, talento,
mas isso não basta.
- Está dizendo que eu devia parar? - Não.
Só estou dizendo que não vamos publicar "História de um Fim".
Alô?
Alô, papai?
Não acordei você?
Não, tudo bem. Estou acordado.
Está bêbado?
Não. Está me ouvindo ou não?
Não muito bem. Está barulhento.
Estou num bar com amigos, festejando.
Por que está ligando? Está tudo bem?
Está tudo ótimo! Está ouvindo?
- É nossa música! - É.
O que está festejando?
Meu estágio. Fui aceito na Morgan Stanley!
É demais. Uma empresa incrível.
Estou feliz que tenha ligado para me contar isso.
Você é meu pai. É normal.
Meus amigos estão com inveja!
- Está orgulhoso de mim, papai? - É claro.
Pode me dizer isso, por favor?
Estou orgulhoso de você, filho.
Vou lhe mandar dinheiro assim que receber.
Guarde seu dinheiro, está tudo bem.
Um beijo. Eu te amo. Divirta-se.
Eu te amo, papai.
- Um beijo. - Um beijo.
Você podia ter me pedido permissão. Ele está imundo.
Sinto muito.
Desde que o pegou, não posso mais usar.
Olhe, Paul.
Não é uma boa ideia ficar na casa da Christine.
Isso me constrange.
E não o ajuda.
Você não é mais criança.
Por que escolheu viver assim?
- O que está fazendo? - Tentando escrever.
Escrever o quê?
Para quê?
Você já foi publicado, apareceu na TV, no rádio.
E depois?
Isso não levou a nada.
Não adianta teimar nisso.
E a Christine quer o estúdio para o neto dela.
Por que não disse logo?
Porque estou com medo.
Não quero que acabe na rua, como um mendigo.
Entre!
- Olá. - Olá.
A porta. O cachorro...
Me desculpe.
Quer que eu tire o sapato?
Não precisa. É lá na varanda.
É por aqui.
São os buxos.
Ali tem sacos de terra.
Tem que misturar tudo para poder replantar.
Não fique aí ou vai se sujar.
Pode colocar ali.
Quer que eu tire as raízes também?
Claro.
- Vou fechar por causa do cachorro. - Minhas ferramentas...
Vou fechar.
Porra!
Porra!
- Já acabou? - Já.
- Vou levar os sacos para baixo. - Eu agradeço.
Você tem uma vista linda.
E lá atrás? Você fez lá atrás?
A varanda dá a volta.
Dê a volta e eu lhe mostro.
Eu disse 16 jardineiras no anúncio.
Lamento muito.
Esses buxos me deprimem.
Você veio para ganhar dinheiro, não?
Eu pago o dobro.
Oi!
Oi, papai! Tudo bem?
Tudo, e você?
Veja. Esperamos você para cantar. 18 anos!
Não é, minha linda?
Vamos lá!
Um, dois, três!
Parabéns, minha querida.
Obrigada.
Que corte de cabelo é esse?
Era mais simples. Para tudo.
Hora dos presentes!
Tome, querida.
Obrigada. O que é?
Que lindo! Obrigada, mamãe.
- Mostre ao seu pai. - Era o que eu queria.
Linda cor.
É o tênis "Gazelle".
Isto é para você.
É o meu. Você vai rir.
Os presentes dele são sempre uma surpresa.
- É uma camiseta? - Mas não qualquer uma.
Me mostra.
Não é possível!
Mostre-me.
Obrigada.
- Mostra a ele. - Vou usar todo dia.
Linda.
Vou buscar os...
Tome. Tem isso também.
- Esse é o seu? - É.
Você se arrumou para meu aniversário?
Foi. Gostou?
Espera. Vou abrir.
Obrigada. É linda.
Tirei no Lago de Blanchette quando você tinha sete anos.
Lembra-se?
Não muito.
Estávamos falando sobre o que você mais gostava.
Você disse: "Nuvens."
Então tirei sua foto com nuvens refletidas no lago.
Ela é linda.
Você pode emoldurar.
Não posso ficar aqui falando,
pois vou encontrar minhas amigas. Já vou.
- Certo. Um beijo. - Desligo?
- Ou quer falar com a mamãe? - Sim, passa para ela.
- Mamãe? - Sim?
Deixei bolo para você. Coma primeiro.
- Eu também já vou. - Um beijo, meu querido.
Sim? Pode falar.
Ela está zangada comigo?
Não!
De jeito nenhum. Só preocupada.
Por quê?
Seu estilo de vida não é fácil para uma garota da idade dela.
Na idade dela é preciso...
coisas sólidas e sua precariedade...
não a deixa tranquila.
Posso te fazer uma pergunta?
- Faça. - Ela leu meus livros?
Para ser franca, acho que não.
Nenhum de nós os leu.
Temos medo de ler coisas.
Não entendo. Que coisas?
Você sabe...
Coisas sobre nós.
Coisas que se passam em sua cabeça.
Francamente, é incômodo.
Prometa uma coisa: pare de nos mencionar em seus livros.
Por quê?
É nossa vida.
É a minha também.
Nós temos o direito de não querer...
ter nossa vida privada exibida.
Você pode entender isso.
Pode inventar histórias, usar sua imaginação.
Quando o avião está atrasado, você recebe por esperar?
Não, é uma tarifa fixa.
Mas como quiser.
Sente-se na frente, o banco de trás está bloqueado.
Alemeda do Presidente Wilson, 12
em Fontainebleau?
Pode colocar uma música?
Eu só tenho rádio.
Então liga o rádio.
Ele não disse nada.
É, eu sei.
Mas é assim.
Não, mas...
Ele estava tão...
frio.
Tão distante, sabe?
Gelado.
Como se nada nunca tivesse acontecido.
Nenhuma vida.
Nenhuma relação.
Nenhum filho.
Nada.
Mas não tem problema.
Você devia ter entrado à direita.
Vou dar a volta.
É logo depois da camionete branca.
Vou ajudar a subir sua mala.
É muito gentil.
Quer carregar seu telefone um pouco?
Sim, por que não?
Faz tempo que não faço amor.
Estou meio intimidado.
Eu também.
Eu me esqueci como era.
Sua barriga está roncando.
Estou com fome.
Sinto muito.
Não tenho nada a oferecer. Acabei de voltar.
Vai passar.
Diga que me achou atraente.
Olá.
Olá.
Lamento pelo atraso.
Está bom.
É vegetariano. Não como mais carne.
Ainda está dirigindo táxi?
É por minha conta.
Lamento. É para o trabalho.
Para fazer o quê?
Esse é para esvaziar um porão.
Esvaziar um porão.
Quanto você cobra?
- Quanto você pagaria? - Para esvaziar meu porão?
Uns 100 euros.
Você é generoso.
Não vão aceitar. Vou propor 20.
Só 20? Não, não é o bastante.
Tem muita competição.
Eu consegui o trabalho.
Como você foi parar fazendo esses trabalhos?
Quero dizer, você é inteligente.
Tem mil maneiras de ganhar dinheiro.
Você poderia dar aulas ou consultoria.
Isso paga bem.
Perdoe-me.
Sou como todo mundo.
Sou preso ao sistema: bom emprego, salário alto, bela casa.
Hiperconsumo.
Mas você está desacelerando.
Isso é bom.
Me desculpe.
O que está acontecendo?
Você não atende o telefone!
Está fedendo aqui dentro. Tem que arejar!
O que você fez?
É um cervo.
Eu cortei um cervo.
Você é totalmente louco!
Não aguento mais essa idiotice!
Lamento, senhor.
O disco rígido não está funcionando.
Não dá para fazer nada.
Tinha coisas pessoais?
Sim, meu trabalho.
Qual é seu trabalho?
Um livro.
Eu perdi tudo.
Tudo o que amo. Não tenho mais nada.
Mais nada.
Acho que você deveria ir para sua casa,
dormir um pouco. Vai se sentir melhor.
Não tenho mais casa.
Meu pai está certo, vou acabar como um mendigo.
Do que está falando?
Nada, sinto muito. Estou cansado.
Quer descansar?
Venha comigo.
- Rémi, fica de olho na caixa. - Claro.
Aqui está.
É aqui que eu tiro uma soneca.
Deite-se.
Pronto.
MULHER CURVADA COM ROSTO NO JOELHO. TÁXI, PIERRE.
GARAGEM LIMPA, HOMEM AUSTERO, MAS SIMPÁTICO. MÁQUINA DE ESCREVER.
CERVEJA GRÁTIS, VOLTEI A PÉ NA CHUVA. SENHORA IDOSA, CORTINAS, CHÁ BOM.
SE QUISER ESCREVER AQUI TEM CADERNOS E CANETA.
PODE FICAR O TEMPO QUE QUISER.
E você, do seu lado, está trabalhando bem, espero?
Tudo bem, tio?
Tudo bem, senhor?
Sim, sim.
Não é você. Estou falando com um cliente.
Estou no bar.
Estou trabalhando duro.
- Oi, posso ajudar? - Oi, Agathe.
Lamento, não o reconheci. Achei que era o entregador.
Posso deixar isto para Alice?
Sim, eu entrego a ela.
- Conto com você. - Claro.
- Obrigado. - De nada.
- Tchau. - Tchau.
Cara Alice,
aqui está um novo texto.
Ele fala do meu umbigo.
E de você, dos meus filhos,
do meu pai,
e de muita gente que conheci nos últimos meses.
Acho que também fala da nossa época.
Você vai ver.
- Esse blazer. - Ele é lindo.
- Olá. O Paul Marquet deixou isso. - Obrigada.
- Também trabalha para particulares? - Sim.
Pois tenho um janelão de vidro e procuro alguém.
- Viu a Agathe? - Está no xerox.
- Digite isto, imprima e releia para mim. - Ok.
- Você fala inglês? - As pizzas!
Não muito. Algum diploma?
Só do ensino médio.
- Qual é sua profissão? - Sou escritor.
Mais nada.
Não é um mezanino da Tok Stok.
Um Côte du Rhône?
Sua profissão é faz-tudo?
Você não tem cara de quem faz isso.
Não estou vendo o selo.
O cachorro, a porta...
Tem que varrer aqui.
Isso é uma obra!
Deve passar um pouco de meia-noite e preciso urinar.
Pego a menor rua,
a que nenhuma placa me incentiva a pegar.
Eu paro no acostamento
e saio para ver o estrago.
Nada sério, mas fico contrariado, mesmo assim.
Ouço um som de raspagem na estrada atrás de mim.
A uns dez metros de lá,
tem uma forma se mexendo no chão.
Um cervo.
O cervo em que bati está no chão,
não morto, mas com as patas ou as costas quebradas.
Não posso partir sem ajudar.
Polícia Nacional.
Sim, olá, senhora. Eu bati num cervo.
Está no chão. O que eu faço?
- Você está ferido? - Estou bem.
Estou ligando pelo cervo.
Essa linha é de emergência para ajudar humanos.
Me sinto mal por ter estragado
o único vestígio de beleza nesse lugar devastado.
De pé, eu olho para o animal por um momento.
Não tenho faca ou ferramenta letal
para acabar com o sofrimento do animal.
Decido estrangulá-lo.
O sofrimento,
essa beleza condenada,
essa tragédia,
também é muita carne.
A profissão de escritor é como manter um fogo que quer ser extinto.
Terminar um texto não significa ser publicado.
Ser publicado não significa ser lido.
Ser lido não significa ser amado.
Ser amado não significa sucesso.
Sucesso não promete fortuna.
Ainda assim, escritores são imunes à desmotivação.
Muitos, como estou fazendo agora,
gastam as últimas forças escrevendo.
Eu li. Podemos nos ver?
Sim.
Você pode almoçar?
Posso.
Às 12h, no Café du Gymnase.
- Quer alguma coisa? - Um café, por favor.
Certo.
É um bom texto.
Vamos publicar.
É seu próximo livro.
Mas não vou mentir, tenho um problema.
O quê?
Ouça,
você já recebeu um adiantamento pelo outro livro.
Este fala da sua situação precária como escritor.
É bom. É muito bom mesmo.
Mas não posso te pagar mais.
Você entende?
Contanto que eu possa escrever.
UMA MESA VERMELHA, LIVROS
UM QUARTO VERDE.
PARA O FRANCK
- Tome. - Obrigado, estou emocionado.
- Olá. - Olá.
Para Inayat.
- Como se escreve? - I-N-A-Y-A-T.
- Muito obrigada. - Obrigado.
UM AMIGO ME RECOMENDOU VOCÊ. PODE PASSAR HOJE?
- Olá. - Me desculpe.
Para Marie.
- Na página de guarda, por favor. - Ok.
Gosto do que você escreve. Li todos os seus livros.
É gentil. Obrigado.
Muito obrigado.
- Tome, Marie. - Boa sorte.
DAQUI A DUAS HORAS?
- Olá. - Olá.
É para minha mãe. Sabrina.
Obrigado.
MEU ENDEREÇO É RUA DOS ARTISTAS, 23.
PERFEITO.
Com licença. Para...
Alexandre.
- Obrigado. - Obrigado.
Para Marguerite, por favor.
Com licença, eu já volto.
Está tudo bem?
- Um segundo. - Claro.
Oi, tudo bem?
- Bem. E você, papai? - Estou bem.
Muito bem.
Então?
Quais são as novidades?
Estou ligando...
porque eu o li.
O quê?
Eu li seu livro.
Não sei como dizer.
Ele me fez chorar.
Merda!
Sinto muito, não escrevi para dar pena.
Não, não foi isso.
Foi o texto que me emocionou.
- É mesmo? - É!
Gosto quando você corta a grama com uma tesoura
e quando o policial para você por causa do cinto.
É hilário.
Falei para meus amigos que...
você é escritor.
Agora eu entendo. Vou dar seu livro a eles.
Estou orgulhoso de você, papai.
- Papai, está me ouvindo? - Estou.
Por que não diz nada?
Não sei o que dizer.
Isso me deixa tão feliz.
Quando eu tiver férias, vou para Paris.
E vou ficar no seu estúdio.
Eu saí do estúdio. Estou numa quitinete.
- Uma quitinete? - É, numa quitinete.
Então vou ficar na sua quitinete.
Fiquei tão feliz ao ler, papai.
Foi muito importante para mim.
Um beijo, papai.
Um beijo para você também, filho.
Com minha cortesia, meu zelo de iniciante,
eu certamente peguei a vaga de um trabalhador menos flexível,
menos sorridente,
atormentado com preocupações que não tenho,
ou tive há tão pouco tempo
que não me afetaram profundamente.
Sou como tantos outros,
afogados na flexibilidade desse sistema,
e, paradoxalmente, pela ilusão de liberdade que ele oferece.
É uma armadilha bem pensada,
uma mistura sábia de liberdade e de sua privação.
A disponibilidade condiciona à possibilidade de vivê-la.
Eu durmo feliz quando minha média é alta,
e ansioso quando ela cai.
Você precisa ter cinco estrelas para trabalhar mais.
"Paul é legal, mas não fala muito. Uma estrela."
O cliente usa a tática da cenoura e do chicote.
Sua nota pode cair numa noite, sem motivo,
com consequências duráveis na renda.
Plataformas não usam autoridade ou força para manter a tropa.
O algoritmo organiza o trabalho para elas.
- E um pacote de papel, - Qual?
O mais barato.
Empregadores não têm mais medo dos empregados.
É uma máquina admirável de destruição
e de recuperação do lixo.
Pronto. Não foi difícil.
- Ótimo. Você disse 25, não foi? - Foi.
Uma amiga está se mudando amanhã de manhã.
Posso dar seu número a ela?
Sim, claro. Mas não trabalho de manhã.
De manhã eu escrevo.
A MEU PAI
TRADUTORA: CRISTIANA BRINDEIRO
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