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Já acabou o namoro?
Muito bem.
Querias que eu voltasse aqui, aqui estou eu.
E agora?
Devias sentir alguma coisa?
Às vezes ajuda a voltar ao local onde se morreu e recriar o que aconteceu.
Achas que deve entrar?
É muito ridículo.
Foi.
Tenta focar-te em... em como te sentias.
Cansada. Física e psicologicamente.
Mas qualquer pessoa que conviva com a minha família por mais de cinco minutos
sente-se assim.
Como é que tu te tornaste... Como é que se define o que é que tu és?
Vidente?
Médium?
Sobretudo polícia.
O Polícia dos Mortos.
Só a título de jornal sensacionalista, não achas?
Como é que te meteste nisto?
Começou com o meu pai.
Oh, daddy issues. Adoro, sou especialista.
O meu pai também era polícia.
Eu tinha para aí uns seis anos, acho eu.
Estava com a minha mãe e perguntei-lhe porque é que ele estava a falar sozinho.
Na altura ele inventou uma coisa qualquer, eu não me lembro.
Mas alguns anos mais tarde eu tive contacto com o meu primeiro morto
e foi aí que ele me explicou como é que eu havia de lidar com isto.
Ou seja, é um negócio de família.
É mais uma herança.
Quando o meu pai morreu, eu decidi que também ia ser polícia.
Senti que alguém tinha que dar continuidade ao que ele fazia.
Alguma vez o viste?
Não.
Podemos voltar ao que interessa.
Durante a festa, consumiste alguma coisa?
Alcool, drogas?
Deve ter bebido.
E quanto ao secador?
Não faço ideia.
De todas as pessoas na tua família, quem é que tu achas que poderia ter motivos
para se ver livre de ti?
Oh, essa é fácil.
De todos eles, quem é que tu achas que era a minha maior competição?
Não é assim tão fácil.
Eu ainda não os conheço, mas... A tua
irmã?
Bingo.
Muito bem, inspetor.
Talvez não sejas um caso assim tão perdido.
Como é que era a sua relação com a sua irmã?
Relação com a minha irmã, como é que era?
Eu diria que era boa.
Ótima.
Oi, senhor inspetor.
O que aconteceu à Júlia foi uma tragédia.
E eu não quero minimizar isso, mas temos que seguir em frente, a vida continua.
Não posso deixar que as minhas emoções interfiram com o que é importante.
O que aconteceu à sua irmã não foi uma tragédia.
Foi um homicídio.
E porque é que acha que foram os novos? Porque só podem ter sido vocês.
Havia mais pessoas nesta quinta?
Aquela mulher, por exemplo, a atriz, ou os empregados, já os interrogou.
E além do mais, haviam mais pessoas para a festa de noivado. E vão ser todos
interrogados, não se preocupe.
Mas acaba de tocar num ponto interessante.
Quem é que fazia parte da lista de convidados?
Não faço ideia, a festa não era minha.
Quero fazer-me crer que não conhecia nenhuma das pessoas presentes.
Não foi isso que eu disse, pois não?
Claro que havia pessoas conhecidas.
Os salões dos familiares da Clara, parentes distantes da nossa parte.
Mas se quer a lista completa, tem que perguntar ao Afonso se a festa de
noivado era dele.
No vosso círculo familiar existiram conflitos recentes?
A minha irmã era uma mimada, ingrata, temperamental. Todos
tivemos problemas com ela.
Que exagero!
Acho que a palavra certa para nos definir seria... talvez distantes.
Sempre o fomos, mas nunca ao ponto de querer matar, obviamente.
Então nunca pensou, nem verbalizou a vontade de haver Marta.
Nem mesmo no meio das brigas que eu já percebi que tinham.
Todos temos pensamentos impróprios de vez em quando.
Não é, Inspector?
Uma coisa é pensar, outra coisa é agir.
E não, eu nunca desejei realmente a morte da minha irmã. Isso é um absurdo.
Perguntei-lhe se a minha morte lhe traz alguma vantagem.
Mesmo que...
Hipoteticamente isso lhe pudesse trazer algum tipo de benefício?
Menos competição?
Menos rivalidade?
Sinceramente, eu nunca considerei a Júlia uma rival.
Ruben!
O que é que foi?
Olha para mim.
O que é que tu fizeste? O que é que tu fizeste, pá? Você está a falar do quê,
meu? Tu mataste a Júlia.
Vai dormir que o teu mal é sono.
Tu ontem à noite desapareceste.
Foste para onde?
O que é que tu tens a ver com onde? Nós somos irmãos. Meio irmãos. Tu nunca
gostaste de mim, eu nunca gostei de ti. E ainda não gosto. Então queres o quê?
Quero que me digas a verdade.
Passa-me da perna. Isto não é uma das tuas novelas, Ruben.
Isto é a vida real.
Já te avisei para me sair da frente. Diz-me a verdade.
Mas qual verdade? Eu vi-te ontem à noite.
Eu vi-te.
O que é que tu viste?
Só não fui direitinho falar com o inspetor por respeito ao nosso pai.
Com respeito ao papá. E agora, queres o quê? Um beijinho? Quero que me digas a
verdade. Mas qual a verdade? Foste tu.
Eu ouvi-te ontem à noite a falar com a Mia, Ruben.
Tu olha bem para mim.
Deste puto, só tens a inveja de mim, meu.
E queres-me arruinar a vida para ficar com tudo o que é meu, meu.
Vais-me ouvir?
És um bastardo. Ninguém gosta de ti.
Ninguém.
Ninguém. Foste tu. Tu voltas a coger esta merda e o próximo a morrer és tu.
Estás a ouvir? Tu não foste!
Tampar uma loja. Não tens coisas para pintar, meu.
Palhaço.
Mas continuemos.
O que eu quero saber é onde é que a Madalena esteve desde que saiu da festa
até à hora em que lhe comunicaram que a sua irmã estava morta.
Estava no meu quarto, a dormir.
Conseguiu dormir durante a festa?
Os meus comprimidos são fortes.
Muito bem.
Diz então que esteve no seu quarto, sozinha, desde que horas?
Não faço ideia, inspetor.
E permaneceu sempre no seu quarto?
Sim. Fui para o meu quarto, deitei-me, estiquei-me e adormeci.
Mas quando eu ontem cheguei ao hotel ainda estava perfeitamente vestida e
maquilhada. Porquê dormiu assim?
Mas agora é crime?
Dormir vestida e maquilhada?
Mas eu estou a ser interrogada pelos meus hábitos ou pelo que aconteceu à
minha irmã? Eu não estou a perceber.
Eu estou apenas a tentar entender a cronologia dos factos.
Então é assim.
Eu estava na festa, senti-me cansada, subi, estiquei-me e adormeci.
Ficaram mais pessoas lá em baixo, claro. Quem?
O resto da família, por exemplo.
E algum deles tinha alguma coisa a ganhar com a morte da Júlia?
Não é altura para proteger ninguém, Madalena.
O caso é grave.
Eu não estou a proteger ninguém.
Eu estou a pensar.
É o que eu costumo fazer quando me fazem perguntas.
O inspetor também devia experimentar.
Está nervosa.
Bom dia, Sr. Ruben.
Mesmo na hora certa.
Tem alguma coisa para mim?
Não quero receber mais mensagens suas.
Eu não a quero ver.
Não a quero ouvir.
Acabou!
Entendido?
Bom dia.
Bom dia.
Obrigado.
Está tudo bem?
Ela pode ser bastante difícil, às vezes.
Posso ajudar com alguma coisa?
Não, está tudo bem. Por quê?
É preguiçoso o que eles estão fazendo com a sua família.
Preguiçoso.
E onde está sua querida namorada hoje?
Eu não sei.
Devo chorar.
Eu nem sequer a conhecia.
Eu já lhe expliquei. Eu não sou o
funcionário da Quinta.
Se tiver algum problema, tenho que falar com o proprietário, ok?
O que é que precisa?
E o que é que a leva a querer que eu consiga resolver isso?
Não se esqueça, Madalena.
Nós estamos aqui a resolver um crime.
Cada palavra que diz tem um peso.
Por isso, diga-me.
Alguém na sua família tinha alguma coisa a ganhar com a morte da Júlia?
Ninguém.
A única morte que favorecia alguém seria a do meu pai.
Acho que devia ir a falar com o Romeu. Com o Romeu?
Tive uma conversa interessante com ele ontem à noite.
Ah, é sim?
E ele contou-lhe que era obcecado pela minha irmã?
Toda a gente sabia disso.
Esse era o grande problema do Romeu.
É um fascínio pela Júlia desde que eram miúdos.
E ela nunca o levou a sério.
Seja como for, eu vi-os ontem a discutir, quando foi para o quarto.
Então diga lá onde é que deixou o comando.
Não encontrei nada.
Pois,
mas sem comando não o posso ajudar. Lamento.
Ah, não importa. Obrigada de qualquer forma.
Até logo.
Obrigada.
Que ela disse a verdade.
Sobre o Romeu gostar de mim?
Claro que é verdade.
E tu sabias disso?
As mulheres sabem sempre.
Mas ele parece inofensivo.
Não seria o primeiro homem inofensivo a matar alguém.
E isso poderia ajudar a explicar o facto de ele estar sentado na cena do crime
com uma fotografia tua.
Além disso, tu não te lembras nada do que aconteceu, portanto qualquer um
deles pode ser um assassino.
Bom, então se calhar está na hora de fazeres aquelas coisas.
Que coisas?
O que fazem os detetives nos filmes.
Vai, apanhar umas beatas de cigarros, ver umas pegadas, qualquer coisa.
Sempre foste assim?
Assim como?
Intensa.
Devo considerar isso um elogio?
Entre.
Obrigado por vir, Afonso.
Quanto mais esperança acabarmos com isto, melhor.
Eu acredito que é do interesse de todos resolvermos este caso, certo?
Ah, inspetor, eu acabei de perder a uma irmã.
Não me dê lições de moral.
Eu compreendo a sua dor, Afonso.
Sei que é... um momento delicado para todos vocês,
mas...
Vou precisar da sua ajuda para esclarecer alguns detalhes.
Muito bem.
É para isso que eu aqui estou.
Que detalhes é que precisa de esclarecer?
Comecemos pela festa.
O que é que tem?
A escolha do local é algo... peculiar, não acha?
Um pouco fora do vosso círculo habitual.
O nosso círculo é bastante alargado.
Além disso, qualquer hotel de cinco ou mais estrelas para mim está bem,
independentemente da localização.
A Wedding Planner disse-me que nunca teve acesso à lista de convidados, mas
eu vou precisar dela. Terá que falar com a minha noiva e não trate essas coisas.
Quer que eu acredite que não conhecia ninguém na sua festa de noivado?
Não te torço as minhas palavras.
Longe de mim.
Fale-me então da sua irmã.
O que é que quer saber?
Era o próximo.
Ah... Proximidade não é propriamente uma palavra que seja muito usada na minha
família.
Que tipo de relação tinham então?
Não sei.
Normal.
Ela era a minha irmã mais nova.
Do ponto de vista de interesses tenho mais coisas em comum com a minha irmã
Madalena, mas dava-me-nos bem.
Sem discussões.
Sabe que a minha irmã teve uma infância difícil.
Ela cresceu praticamente sem mãe.
E isso fez com que ela desenvolvesse uma necessidade constante de estar sempre a
tentar agradar ao nosso pai.
E isso era motivo de conflito?
Ter irmãos.
Filho único.
Privilegiado, portanto.
Quando se cresce com três irmãos...
Uma família liderada por um empresário brilhante como é o meu pai.
Provavelmente um dos empresários mais brilhantes que este país já viu.
Temos de fazer de tudo para que ele repare em nós.
Bom, mas estamos a desviar-nos do tema. Quero saber se tínhamos conflitos.
A Júlia era uma miúda extremamente inteligente.
Mila de gira, uma cabeça muita de gira, carismática.
Ela era o centro de qualquer festa. Sempre foi assim. Era rápida.
Não lhe escapava nada. Tinha sempre uma resposta na ponta da língua.
E conseguia ser absolutamente horrível quando estava para aí a virar.
Mas eu gostava dela.
Gostava mesmo dela.
Mas éramos irmãos.
E os irmãos discutem.
E ontem à noite?
Discutiram?
Além de não ter irmãos, imagino também seja solteiro.
A caso contrário, não me ia perguntar se eu discutia com a minha irmã durante a
minha festa de noivado.
Onde é que eu ia ter tempo?
Lamento desiludí-lo, mas não, não discutimos.
Estive demasiado ocupado a receber os meus convidados. Aliás, eu mal estive
com o jogo.
André.
Inspetor.
Tenho uma coisa para lhe contar.
Quem é esse gajo, meu? Estás a falar com quem?
Babicao. Estás a falar com quem, meu? Não estou a falar com ninguém, calma.
Andas a falar com outros gajos nas minhas costas?
Amor, não. Olha para mim, tu não me mintas, meu.
Tu não me mintas!
Ruben, eu não te estou a mentir, para.
Tu não queres entrar para esta família?
Queres perder tudo?
Tens o saldo que nós podemos ter juntos aqui?
Fazes ideia das gajas que não estão a te alugar, meu?
Ruben.
Por favor, calma. Eu não estou a fazer nada.
Ok?
Tu tens noção da pressão que eu sinto todos os dias?
De agradar a toda a gente?
A média, a família, os produtores, os atores, esta beijentinha toda.
Tens noção da pressão que é? Eu sou um ser humano também, meu.
Tenho sentimentos.
Olha para mim.
Olha para mim.
Tu não me queres ver feliz.
Diz a verdade, tu não me queres ver feliz.
Quero, claro que eu quero.
Vem para mim.
Eu juro-te, se tu me deixas, eu me mato-me.
Estás-me a ouvir? Eu me mato-me.
Promete-me que nunca me vais deixar, por favor.
Só quero ouvir. Promete-me que nunca me vais deixar.
Promete-me que nunca me vais deixar, meu. Promete-me que me deve ser.
Olha-me nos olhos, diz tudo.
Prometo que nunca te vou deixar. Eu prometo que nunca te vou deixar.
És a única pessoa com quem eu não preciso te representar.
Desde só contigo eu sou o próprio e sou genuíno.
Sabes disso, não sabes?
Eu preciso de ti.
Tens só no especial que isso é. Da sorte tu tens.
Beija-me.
Beija-me, por favor.
Beija-me!
Eu já não entendo mais esta pessoa, meu. É a pessoa de todos os
lados.
Eu prometo que vou mudar.
Eu por ti faço tudo.
Eu sei.
Estás-me a ouvir? Eu sou quem tu quiseres que eu seja.
Quem tu quiseres, faço tudo por ti.
Eu sei, baby.
Eu e tu para sempre, não é?
Para sempre. Para sempre.
Prometeste. Prometeste.
Para sempre.
Se precisas tanto.
Então... O Romeu interrompeu o interrogatório e acusou o Ruben.
Não tenho inveja dele.
Nós sabemos disso.
Qual é que é a tua teoria?
Que o Romeu matou a Júlia?
Está a tentar incriminar o irmão?
Como se ser a mão de alguém fosse sinal de proximidade, Afonso. Não, não, não.
Oh, Afonso.
Nada, é sério. Olha, estou muito cansado.
Dormi muito pouco.
Deixa lá a passiva ou a agressividade para outra altura.
Tenta lá ser objetiva.
Foi ele que matou a Júlia?
Então por que razão é que ele me contou sobre a chantagem?
Isso não faz sentido nenhum, entendes? Nenhum.
Repara, não é a minha que tens de convencer.
Eu sei que vocês são muito próximos. É o meu principal cliente. Ah é? É isso que
ele é? É isso que ele é, Afonso. É? É.
Deixa lá de seres cabra empresarial e... Comigo não.
É o teu melhor amigo.
Desde sempre.
É natural que isto te afete.
Aliás, de certeza que já percebeste o que é que pode acontecer.
E o que é que pode acontecer, Afonso? Diz lá.
Vou-te perder a agência. Não digas isso!
Olha,
não precisas te preocupar.
Assim que eu conseguir salvar a empresa da falência, vou-te pedir fundos ao pai
e abres outro negócio qualquer.
E se eu não quiser outro negócio?
E se eu quiser liderar a empresa contigo quando o pai sair?
O corpo da Júlia ainda nem sequer
arrefeceu. E tu já estás a tentar criar alianças.
Isto não é uma aliança, Afonso. Não?
É um aviso.
Esta história toda deixou-me com fome.
Eu também quero uma fatia do bolo.
Só isso.
Isso é uma ameaça.
Não.
Mas se tu ao pai me impedirem, se por algum motivo eu ficar de barriga vazia,
aí eu garanto-te que nenhum de vocês vai comer também.
Ruben.
Diga.
Foi bom o passeio?
Foi ótimo.
Porquê?
Não me diga que para além de estar aqui preso me vai pôr uma pulseira
eletrónica, não?
Olha, eu espero que tenha desfrutado do ar livre.
Mas agora vai ter que vir comigo.
Mas o que é que você quer de mim? Diga lá.
A sua prima foi morta, lembra-se?
Foi?
Não, eu já me tinha esquecido.
Você acha bem estar a fazer estes joguinhos e gozar com a tragédia da
minha família? Eu não estou a gozar.
Estou a falar muito a sério.
Com licença.
Ruben,
é preciso que venha comigo.
Sozinho.
Eu e a minha namorada não guardamos segredos um do outro, não é?
Sozinho.
Então, vamos?
Hum... Estou um bocadinho nervosa.
O meu namorado foi falar com o inspetor e eu estou à espera para ser interrogada
também.
Sim, eu entendo.
Olha, por que você não vem e bebe um bom copo de chá na minha casa?
Seu namorado está a perguntar, provavelmente vai demorar um pouco.
Não tem sentido você estar aqui sozinha.
Ah, meu maior hit.
Amado pelo público, odiado pelos críticos.
Sabe o que eu aprendi com esse filme?
Você não pode agradar todo mundo o tempo todo.
Sabe, é tão difícil ser uma atriz, da palavra ação para a palavra corte.
Você pode esquecer uma linha, se desfaz do seu caráter.
Mas hoje em dia, sua geração, meu Deus, você está sempre em frente.
Você está sempre a fazer a performance.
Você é todos os diretores em suas próprias vidas.
Deve ser totalmente exaustivo e completamente surpreendente.
E vocês estão todos procurando o impossível.
A perfeição.
Por favor, sinta-se.
Você parece bastante perdida, Jessica.
Por favor, tente não se preocupar.
Eu acredito firmemente que o inspector encontrará o morto em breve e você
poderá voltar à sua vida normal.
Eu nem devia ter vindo por aqui.
Isto começou mal desde o início.
Como assim?
Eve, acho que eu sei o que disse.
Eu estou cansada, não estou a dizer coisa com coisa, eu acho melhor ir-me
embora.
Jessica, você sabe uma das muitas coisas que eu aprendi na vida?
É que os detalhes importam.
Uma palavra, uma olhada, algo que alguém fez ou não fez.
Às vezes eles podem ser a peça-chave no puzzle.
Talvez essa seja a resposta para encontrar quem matou Julia.
Talvez seu namorado tenha mencionado algo a você sobre isso.
Ele parece ser o tipo de homem que notifica as coisas.
Não.
Ele ficou chocado com a notícia.
Estava com ele quando ele soube.
Não sei, Ivo.
Não sei, não conheço a família há tempo suficiente para saber.
Eu acho melhor ir-me embora.
Diga lá então.
O Ruben.
Para quem perdeu uma prima foi animado à noite.
Viemos aqui para me dizer isso?
Não.
Viemos aqui para eu lhe dizer que o seu irmão me contou que o Ruben tinha sido
chantageado pela Wedding Planner à noite passada.
Ah, foi?
O meu meio-irmão.
É um prostrado.
Que já nasceu com inveja de mim, da minha fama, do meu talento.
Está claramente a tentar incriminar-me.
Talvez esteja, mas ele foi muito claro. Disse-me que ela lhe pediu dinheiro.
Não se lembra?
Ouça, você sabe que eu sou famoso, não sabe? Aliás, vê as minhas novelas, não
vê?
Essa wedding planner também sabe que eu sou famoso.
Ela viu uma conversa privada entre mim e a minha namorada e decidiu começar a
tentar chantagear-me para fazer o dinheiro extra e ter os seus 15 minutos
de fama. Não sei, já me aconteceu antes, sabe?
E que conversa é que seria assim tão grave para ser digna de suborno?
Grave não, mas íntima e pessoal.
Eu pedia em casamento.
Ruben, Ruben, Ruben... Sabia que,
dado o seu perfil assim tão...
Superficial, oco, fútil.
Então o quê?
Específico.
Eu quase que podia acreditar naquilo que você me está a dizer, só que eu estou a
investigar um homicídio.
E já ando nisto há uns tempos.
E para lhe ser sincero, esta conversa cheira-me terrivelmente mal.
O Romeu disse-me que o Ruben parecia desesperado e que foi agressivo com a
senhora minha.
Por isso, diga-me lá.
Ela a chantageou porque o viu a matar a sua prima, Julia.
Foi isso?
Ouça, ao contrário do que as pessoas dizem, um bom ator não sabe
mentir.
E se tem assim tanta experiência, já deveria ter percebido que eu seria
incapaz de tocar na minha prima.
Eu amava a Julia, está a entender?
Os bons actores.
Ruben, onde é que esteve ontem entre as dez e as onze da noite?
O que é que você tem a ver com isso, diga lá?
Tudo.
Você precisa de um alibi.
Sabe do que é que eu preciso?
Que você me deixe em paz e saia daqui!
Não me responde, não vai para casa.
Ok.
Queres mesmo saber onde é que eu estive?
Estive no jardim com a minha namorada, ok?
Oh, que romântico, a ver as estrelas.
A fazer o quê?
Você já olhou bem para ela.
O que é que acha que eu estive a fazer, a meio da noite, com uma mulher daquele
calibre?
A brincar a escondidas.
Naquele calibre.
Que classe.
Ela pode confirmar isso?
Pergunte-lhe-a.
Sim.
Olá, olá. Então...
Então, eu peço desculpa, eu sei, tenho andado um bocadinho desaparecida, mas
também já estou cheia de saudades vossas.
Eu vim aqui para vos dizer que está a acontecer uma mega promoção no meu site.
Vocês podem comprar a minha skincare e tenho um segredo só para as minhas
seguidoras. Ao usarem o código JESSE26...
Eu não posso continuar a mentir mais.
A verdade é que eu preciso de ajuda.
Eu não sei como é que deixei as coisas chegarem a este ponto.
Mas eu tenho medo.
E eu preciso que alguém saiba que se me acontecer alguma coisa, eu culpado.
É o Rubens Salvatierra.
O que é isto?
Sim.
Mas primeiro quero que me explique porque é que tem tantas fotografias da
Júlia e da família.
E eu até agora considerei acima de qualquer suspeita por ser quem era, mas
talvez a minha paixão pelo cinema me tenha levado a cometer um erro.
Diga-me onde é que estava à hora da morte da Júlia.
Você está finalmente me dando o papel de direita que eu mereço.
Bravo.
É hora.
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