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Isto é tudo horrível. Por favor, vamos embora.
Você deve ser da polícia, não é?
A minha família não vai ficar aqui nem mais um segundo.
Nós queremos sair daqui de imediato e que nos devolvam o corpo da minha filha
para lhe podermos dar um funeral digno.
Claro que sim.
Logo terminam os interrogatórios.
Interrogatórios? Mas quais interrogatórios?
Os que forem necessários para descobrir quem é o assassino da sua irmã.
Entre.
Inspector, tenho comigo a única pessoa que estava hospedada na quinta para além
da família. A Miss Eve Blake.
Ela percebe português.
Boa noite, Inspector.
Boa noite.
Não é como se estava a dizer, eu vou ter que interrogar todos os presentes. Você
sabe com quem é que está a lidar?
Você sabe quem é que nós somos?
É que se não sabe vai ter que se informar.
Nenhum membro desta família irá tolerar este tipo de tratamento, muito menos à
frente de pessoas estranhas.
E a que tipo de tratamento é que se refere? Olha, eu acho que o tipo de
tratamento que o meu irmão se está a referir é o facto de não estar a tratar
a todos como criminosos. Eu garanto-vos que estou empenhado em resolver este
caso com maior rapidez.
Aliás, até vou começar imediatamente os interrogatórios.
Miss Blake, por favor.
E nós ficamos à espera, é isso?
Ficamos à espera?
Sabe, quando eu era jovem, a primeira coisa que homens bonitos como você me
diziam era o nome deles.
Jones.
Oliver Jones.
É muito 007, não é?
Bond. James Bond. Oh, eu gosto!
Obrigada. Sim, é bom, não é?
A senhora conhecia a Julia?
Com tanto sítio para fazer bruxaria, tinha mesmo que escolher este.
Estão a chegar.
Eu espero que se lembre daquilo que combinámos.
É uma família rica e tudo o que
sei é que querem o máximo de sigilo e privacidade.
Compreendeu?
Tenho de ir.
Cumpra a sua parte.
Obrigada, amor.
Ai, que alívio.
É muito melhor do que as fotografias.
É isso? É para a Zia. Depois do que o pai te disse, deu-se o que precisa. Não
é a merda. Ouve tu, para quem se vai casar estás com um feitiozinho.
E estás muito bem disposta para quem é completamente ultrapassada pela irmã
mais nova em tudo.
Claro.
Tinha esperança de mudar de ar se alivia-se o ambiente.
Essa palavra não faz parte do léxico desta família.
Que palavra?
Esperança.
Então, estamos à espera do quê? O que é que tu achas?
Ah, é verdade, realeza.
Olha, chegou.
Vai dar-lhe cinco minutinhos de atenção e acha-se a estrela da companhia. Olha
para isto.
Sejam muito bem-vindos à Quinta da Penalva. É um prazer receber-vos aqui em
Sintra. Por favor.
Eu vivi aqui por 10 anos e ninguém passa por aqui sem saber tudo sobre eles. O
que você
acha deles?
Oh,
eu gosto muito de você, Sr. Jones.
Você sabe o segredo de um bom filme?
Vou fazer o que ele disse e ficar calados. Eu não quero isto na imprensa.
Vamos esperar dar esse luxo.
Eu acho que estamos todos cientes da gravidade da situação.
Certo?
Mesmo quem não faz parte da família?
Vou ligar novamente ao nosso advogado. Vamos processar este ar e acabou.
Não podemos ir mesmo embora.
Não, querido. É fora de questão.
Não nos podemos arriscar a ser presos por desobediências.
Desobediência? Sim, desobediência. A imprensa não nos ia largar.
Isso seria catastrófico para a empresa.
Ok.
A Júlia acabou de ser assassinada e vocês preocupam-se com tudo, menos com
ela.
Não tenho vergonha.
O que é que sabe sobre estas pessoas?
Mais do que gostaria.
Então como é que pode dizer que são intrigantes?
Uma família rica renta um todo para uma partida de engajamento.
Nenhum jornalista está lá.
E um deles é morto. Meu Deus, ele praticamente escreve sozinho. E aí vem a
pergunta verdadeira, não é, inspector?
Eles não parecem exatamente como as famílias mais felizes, não é?
Agora, se eu estivesse diretando este filme, você sabe o que eu faria?
Eu não falaria com eles hoje de noite.
Eu iria manter a cena.
Sempre apreciei pessoas perspicazes.
Foi um prazer conversar consigo, Miss Black.
Agora eu vou me retirar dos meus quartos.
Mas eu espero a sua próxima visita.
Boa noite, Sr. Jones.
Boa noite.
Será que foi ela?
Preciso descobrir quem é que me matou.
Tenho aqui a lista dos nomes das pessoas que estavam na quinta conforme pediu.
Porquê que o nome da Missive Blake não consta desta lista?
Desculpe. A Missive não era convidada da festa.
O dono desta quinta permitiu-me organizar aqui eventos exclusivos com
uma condição.
A Missive que reside na propriedade tem de permanecer.
Explique lá isso melhor.
Ela era famosa, sabe?
O dono tem uma amizade de longa data com ela e gosta da ideia de ter uma grande
dama do cinema inglês a morar aqui.
Acha que lhe dá um certo charme.
E a verdade é que as pessoas costumam gostar quando descobrem quem ela é.
Não foi o caso do Salvaterra.
Por que é que nesta lista só estão os nomes da família e dos funcionários?
Havia mais convidados, certo?
Estamos a falar de uma festa de alta sociedade.
O dinheiro comprou um certo sigilo, uma certa privacidade.
É perfeitamente normal eu não ter tido acesso aos nomes todos.
Sim, mas entre eles pode estar um assassino.
Desculpe, Inspector, não consigo mesmo ajudar.
É melhor perguntar aos noivos.
E estes funcionários trabalhavam consigo há quanto tempo?
Estão todos comigo há pelo menos quatro anos.
Ah, e é importante frisar, a família pediu logo desde o início o menor número
de funcionários possível.
Estávamos a trabalhar com uma equipa reduzida.
Isso é normal numa festa de noivade deste nível.
Foram as ordens que eu recebi. Não questionei.
Eu já percebi que infelizmente questiona pouca coisa.
Sim.
Tá, não os deixes sair.
Não sabe quem eu sou?
Não conhece a minha família?
Liga lá quem tem de ligar e dispara-se lá com a caixa de equipa.
O que é que se passa?
Já se foi embora?
Sabia que o Ruben era rapaz para aguentar uma festa até de madrugada? O
que é que se passa?
Uma festa?
A minha prima acabou de morrer.
A única festa que estou a ver aqui é esta palhaçada toda.
Este espaço tem más energias, está a entender?
Eu quero sair daqui!
É supersticioso.
Tens as minhas crenças, porquê?
Mas eu sei.
Eu vi uma vez uma entrevista sua, acho que tinha ganho um prémio, em que dizia
que antes de começar uma nova novela ia sempre a Fátima, não é?
Gosta de novelas?
Mais do que gostaria de admitir.
Amigo, faça-me mais de favor, por favor.
Nós estamos cansados.
A minha namorada está traumatizada com esta porcaria toda. Eu tenho compromisso
importante, está a entender? Eu quero seguir para casa.
Eu compreendo, é uma pena.
Onde é que isto está?
Olha.
Campeão.
Prazer, me disseram fácil. Obrigado. Eu dizia que era uma pena porque
infelizmente não soube poder ir embora.
Mas não vou poder ir embora porque... Explique-me lá.
Porque a morte da sua prima está a ser investigada como um possível homicídio.
E?
Eu vou manter-vos aqui durante 48 horas para interrogatório. 48 horas?
Você sabe quem é o meu tio, não sabe?
Já ouviu falar dele, não já?
Ele vai adorar ouvir isto.
Bora.
Cala-te, deixa-me pensar, tá?
Obrigado Pedro, podes voltar para o carro.
Se mais alguém tentar sair, liga-me.
Onde é que tu foste?
E o que é que tu fizeste? Tu não bates bem na cabeça, pois não?
O que é que foi?
Vocês sabem o que é que ele e o namorado tentaram fazer?
Tentaram sair embora sem nós.
E tu estás a falar do quê?
Não foi nada disso que se passou, primeiro que tudo. Nós ouvimos tudo, pá!
Epá... Tio, posso lhe dar uma palavrinha? Deixa o meu pai sossegado.
Queres falar, falas. Mas falas à frente de toda a gente, que é para todos
ouvirmos. Deixa-me falar.
Posso?
Tio, eu fui lá abaixo falar com esta inspetora.
que está à força toda à procura de um culpado para fechar a porcaria do caso.
E disse que não podíamos sair daqui durante 48 horas. Isto não é legal,
certo? Ficar aqui preso por 48 horas?
Com licença.
Eu peço desculpa por interromper a vossa conversa.
Está a interromper desde que chegou.
Nós estamos a passar por um momento de grande sofrimento.
E em vez de nos deixar saudar a morte da minha filha em paz, mantém-nos aqui como
prisioneiros.
Os senhores superiores vão saber o que é que está a passar aqui.
Certamente terá tempo para falar com eles com toda a calma.
Mas por agora eu tenho-vos a dizer que todos vocês são suspeitos da morte da
senhora Júlia.
Mas o que é que se passa?
Percebeu que a nossa família tem dinheiro e quer ganhar o seu. É isso?
Está a sugerir subornar-me.
Não, não, não.
Ninguém está a sugerir coisíssima nenhuma.
A minha irmã está nervosa. Foi uma noite longa.
Foi uma noite muito longa. Por favor, não. Vamos ter calma.
Faça o seu trabalho.
Descubra quem matou a Júlia.
E deixe a minha família em paz.
Durante 48 horas tenho uma autorização para vos manter aqui perante o
auditório.
Pode ver a ordem.
Preferem ficar no conforto da Quinta ou vamos para a Esquadra? Vamos ter calma.
Vamos ter calma.
Estamos todos muito cansados, estamos a faltar objetividade.
A
Mirna
Varnava morreu.
Será que consegue ter isso em consideração?
Muito bem.
Por respeito à vossa perda, eu vou começar por interrogar os funcionários
da festa.
E amanhã às oito da manhã falarei com todos vocês.
Vão aí para os quartos.
Contrataram-me a semana passada.
Eu aceitei, porque era um evento super exclusivo.
O casamento do herdeiro mais velho do chão da terra.
Pediram-me num sítio privado, com classe, mas discreto e sem imprensa.
Eu garanti-lhes o máximo sigilo e sugeri-lhes aqui a quinta da Penalva.
Expliquei-lhes a situação da Missive e, embora não lhes agradasse, acabaram por
aceitar.
Costuma ser contratada assim tão em cima da hora.
Pensava que estas coisas se planeavam como meses de antecedência.
Temos todo o tipo de casos.
Mas desde que se tenha dinheiro, conseguimos fazer tudo.
Como deve imaginar, era o caso.
Em relação às pressas, sequer que lhe diga, eu acho que o velho de Salvaterra
ficou tão aliviado de ir desencalhar o filho, que quis garantir que ele não
mudava de ideias.
Isso é o que eu acho.
Muito bem, continue.
Sabe, eu já perdi a conta ao número de pessoas que vi oficializarem aqui os
seus noivados.
E são noites de muita emoção, muitos nervos, muito entusiasmo.
Mas com esta família as coisas eram diferentes.
Diferentes como?
Desde o início senti uma certa frieza entre eles.
E aqui temos o nosso salão nobre, pronto para vos receber.
Uau!
As vossas malas vão ser levadas para os quartos e, entretanto, vamos servir-vos
umas bebidas.
Fiquem à vontade.
Primo, segura aqui.
Vai arrumar o meu quarto.
Podemos falar bem?
Ouviu o que eu lhes...
Claro. Bem.
Leva o doutor aos seus aposentos, por favor.
E o que é que lhe pareceu a família?
Desinteressantes.
Como assim?
É quando soube que era o noivado.
Fiquei curiosa, fui pesquisar a família.
Tudo gente com muito dinheiro, mas de muito pouco interesse.
Os mais conhecidos ainda são o Ruben e a Jessie.
Os até esses, convenhamos, são famosos de segunda linha.
Um ator de novelas e uma influencer à tira-colo.
Jessie...
Ela está muito cansada.
Tem sido uma noite muito longa.
Como é que és?
O que é que se passa?
Estás bem aqui comigo?
Preciso descansar, vamos lá.
E agora ficamos aqui.
À espera.
Não tem urgência em descobrir quem é o culpado da sua morte?
Consigo ouvir.
E dela também.
Desculpem.
Isto para mim é tão normal que eu às vezes esqueço-me como pode ser estranho
para vocês.
Para nós quem?
Para os mortos?
É isso que me está a dizer que fala com as pessoas que já morreram?
Exatamente.
Trabalha na Brigada de Homicídios.
Isso mesmo.
Estive a ignorar-me este tempo todo.
Eu não podia correr o risco de me ver sem falar consigo.
E porque é que está a falar agora?
Porque existem demasiadas mentiras na sua família.
E eu sinto que se eu vou conseguir resolver este caso com a sua ajuda.
Muito bem.
Como é que isto funciona?
Não existem propriamente regras.
Se está a contar que eu lhe facilito a vida, lamento imenso dizer-lhe desde que
me mataram que me faltam fragmentos de memória. É uma coisa impressionante. Eu
não percebo.
Tanto da hora do crime como do passado recente. É como se eu estivesse a ler um
livro onde desapareceram metade das páginas.
Júlia, eu já fiz isto muitas vezes.
Acredito. Eu não consigo ajudá-lo. Desculpe, mas não consigo.
Vai ser muito mais rápido.
O que é que me diz?
Se vamos trabalhar em conjunto, tratando por tu... Por onde é que começámos?
O que é que você quer fazer?
O
que
eu vou fazer agora?
O que é que se passa?
O que é que se passa como?
Me destes uma mensagem.
Qual é a mensagem?
Culpado.
É pá, Roberto, quantas vezes é que eu já te disse para não mexeres no meu telhão
à valvinhas?
É sério?
Porquê? Se fosse do meu telhão à valvinhas... Acho que não.
Tenho mais que dizer.
Afonso.
Dás-me dois minutos, por favor, da tua vida.
Dois minutos.
Com a tua irmã e com o teu primo.
Ou tens a agenda muito cheia.
A Júlia morreu.
A Júlia morreu.
Podes relaxar um bocadinho?
Ou é só trabalho nessa cabeça?
Ou tens de pedir autorização ao contabilista para estar connosco?
Podemos fazer um brinde à Júlia? Ou não?
Não achas que ela merecia?
Não devias beber, Alonso. Olha quem fala.
Podes deixar alguém em paz, por favor?
Isto é entre mim e o meu irmão que está calado. Ele é adulto e vacinado. Para de
controlar as pessoas.
Queres?
A Julinha.
A Julinha que até morta não se consegue infernizar a vida.
Pá, não falo assim, Nady.
É verdade?
Podemos... Fazer a porcaria do brinde.
À Júlia.
À Júlia.
À Júlia.
Eu não sinto nada.
Como assim?
Eu não sinto nada.
Nem dor.
Nem pena.
Nada.
Eu acho que fiquei mais triste quando os primos estávamos na falência do que
quando a Julia morreu.
O que é que isso diz sobre mim?
Bom, primeiro, não percebesse ficar triste porque nunca deixaria a empresa
falir.
E segundo,
Tu não podes dizer isso à frente de ninguém, Maddy.
Se o inspetor te ouvisse, ia achar que eras culpada.
Alguma vez eu furei mal à Júlia?
Alguma vez.
Pelo menos ao ponto de a matar.
Vocês dois, acham uma coisa com muita atenção, por favor.
Diga lá.
O que está a acontecer é uma coisa muito séria.
Nós estamos numa posição muito frágil como empresa, como família.
Somos um mal fácil.
Um mal a bater.
Como o Ruben disse, o que as polícias querem é fechar os casos e pronto.
Mas podemos falar sobre isto amanhã, por favor?
Pode ser?
É que se não usarmos a cabeça, o Ruben pode não ver amanhã.
E hoje? E agora?
Aqui não interessa.
Podemos estar presentes.
A Júlia morreu, ponto final.
Provavelmente até foi um acidente.
Sabemos lá.
Também ninguém nos diz nada.
Não havia um policial a dizer a Flávia uma banheira e sumo secador?
Não percebi.
Tu viste como ela estava na festa, toda bêbada?
Não viste?
Então, se calhar foi para o quarto, fez uso da banheira e... Foi para dentro da
banheira e foi secar o cabelo dentro de água? Oh, Ruben, pensa um bocadinho, faz
algum sentido?
Pelo amor de Deus, rapaz, sério.
Crima ou acidente, que nem imperem-se de descobrir isto.
E garanto-vos que eles vão descobrir.
E aí vão picar em qualquer coisa, não importa qualquer coisa que nós tenhamos
feito, não importa, é coisa mais pequenina, é coisa mais inocente e...
O que vocês estão a esconder?
Conta-lhe.
Conta-lhe.
Diz-lhe, conta-lhe o que me contaste.
O que aconteceu, Roman?
Aconteceu nada, ele estava a beber.
Conta-lhe o que me contaste.
Roman.
Aconteceu uma coisa aqui e alguém... Independentemente do que tinha
acontecido.
Nós somos família.
Nós vamos ajudar-te.
Quem vai ajudar sou eu, quem vai tratar as coisas sou eu. Estamos todos num
mesmo barco. Temos o mesmo barco, mas a água já não chega ao pescoço, Afonso.
Tipo Danilo.
Tu não queres saber o que é que ele fez?
Não quero, não preciso.
Não precisa.
Ele é o nosso primo, eu gosto dele como um irmão.
O preciso é que tu me garantas que o que quer que ele tenha feito não se vai
tornar público.
E não prejudica a empresa.
Vocês homens são um bicho estranho, não são tão previsíveis.
Tu nem queres saber o que é que ele fez, não interessa. Não interessa o que é que
ele fez e já o desculpaste.
E se tivesse sido ele a matar a Juliana?
E já queres saber ou não?
Epá, o Medi, cala-te.
Já não dizes nada com nada.
Ele conhece-me. Cresceu comigo.
Eu que conheço-te? Sou eu que ligo. A tua merda não é ele. Não pareces. Então
estás calado.
Posso confiar em ti?
Eu resolvo isto.
Está resolvido.
Só não me piores as coisas, ok?
Isso é racional.
Usa a cabeça.
Ah, estás a pedir o impossível, não achas, avô?
Deus!
Idiotas! Vão-me deitar. Tem a minha, hein?
A Júlia sempre foi muito imprevisível.
A pessoa mais irónica que eu já conheci na minha vida.
Mas nós éramos amigos.
Eu não sei se o inspetor sabe, mas eu não tenho mesmo sangue deles.
O meu pai casou com a irmã do pai da Júlia.
E depois tiveram o Ruben.
E eu... Nunca me encaixei...
Só com a Júlia.
Não deixei de Afonso.
Afonso.
Afonso.
Sim, sim, sim, está bem.
A Produtora não respondeu, eu não gostei porque queria do e-mail. A Produtora não
respondeu. Tens de fazer pressão. Olha, tu achas boa ideia, assumiste uma razão
agora. O que é que se tem a ver?
O que é que se tem a ver aqui?
Tu não me queres ver feliz? O que é que se passa?
Eu juro que não sei o que é que as pessoas veem nele.
É teu irmão?
Sim.
Rico, famoso.
Bonito. Queres mais? Tenho uma lista.
Dispenso. Obrigado.
A Júlia tem... A Júlia tinha um talento especial para tirar as pessoas do
sério.
Mas nunca a mataria por causa disso, inspetor. Não.
Então porque é que se arriscou a entrar no quarto dela para ficar a
olhar?
para esta fotografia.
A sua situação não está fácil, Romeu.
Estamos a falar de homicídio.
E vou-lhe ser sincero, neste momento tudo me leva a desconfiar de si.
Romeu, o que é que foi lá fazer?
Estava deitado na minha cama.
Comecei a sufocar.
A sufocar com a ideia de que nunca mais ia a ver.
Eu só queria vê-la outra vez.
Sabe, inspetor, fui eu que lhe tirei essa foto.
Tecnicamente ela é minha.
Que eu saiba não é nenhum crime recuperar alguma coisa que é nossa, pois
não? Não. Mas invadir um local de homicídio é, como já lhe disse.
Por isso eu vou fazer-lhe uma pergunta muito simples e direta.
Se é verdade aquilo que diz, e se gostava assim tanto da sua prima...
Diga-me, o que é que aconteceu à Júlia?
Como é que pude morrer num sítio destes?
Há sítios piores, acredita.
Sempre é melhor que num bordel de beira de estrada, é um facto.
Fala-me da tua família.
É a minha família?
A nossa vida parece perfeita, mas é uma fachada.
Todos nós temos segredos.
Mas eu acho que já percebeste isso.
E os teus?
Quais são?
Acho que foi ali de cima.
Oh, meu Deus, estou muito desculpada. Estou assistindo um filme.
Acho que o volume é um pouco alto.
E que filme é que estava a ver? Oh, Psycho, por The Master Hitchcock.
Oh, estou muito desculpada.
Estou tão acostumada a viver sozinha. Espero que não me distraia de ninguém.
É uma escolha peculiar para uma noite com a Mother.
Oh, desculpe.
Se ainda estou assustada com filmes de horror na minha idade, então estou em
problemas sérios.
Então está tudo bem, eu vou até a xaleca, senhora.
O que é que estás a fazer acordada?
A Madalena chamou o Afonso.
Estou a conversar há horas.
Eu não consigo dormir sem ele.
Tenho medo de fechar os olhos e...
Ver o corpo da Julia ao ser transportado para a ambulância.
Lembras-te da reação da Julia quando o Afonso me apresentou à família?
Ela não me suportava e eu não suportava ela, mas... Saber que ela morreu deixa
-me...
Consciente da tua mortalidade?
Exato.
Vou para cima.
O Afonso já está no quarto.
Devias ir deitar-te que amanhã vai ser um dia complicado.
Clara. Achas que algum deles seria capaz de a matar?
O que deve fazer o Pluminio?
Muito bem.
Então, diga-me, Miss Blake, quão bem é que
conheceu a Julia?
Bem, tanto quanto você pode conhecer alguém sem querer ser completamente
conhecido.
Ela era como você e eu, Inspector.
Um estranho.
Uma carta perdida em uma caixa.
Que cartas são essas?
Lenormand, tarô francês.
Diz-me tudo o que preciso saber.
Devemos ler o seu futuro, Inspector?
Eu prefiro viver no presente.
Ah, homem prático, gosto disso.
Como é que conheceu a Julia?
O dia em que todos chegaram, eu acho.
Ah, o coração.
Um símbolo do passado.
Isso mostra que havia uma grande emoção na história de Julia.
Ela estava procurando atenção, amor, adoração.
Ela o encontrou por um tempo, mas não por muito tempo.
Não, as cartas só fizeram.
O que é que falaram então?
Vida, famílias, o peso de ter que carregar um nome poderoso.
Julia era fascinante.
Ela não era como outras garotas ricas, ela era... Clever.
Ela sabia como jogar o jogo.
Que jogo?
O jogo que todas as pessoas ricas e poderosas jogam.
Por favor, não fiquem assustados se vocês não sabem do que estou falando.
Eu só tive uma olhada nesse estilo de vida privilegiado quando me tornei uma
atriz famosa.
Ah, o coelho.
Não estou surpresa que este cartão esteja no presente de Julia.
Este cartão simboliza mentiras e deceito.
Ele mostra tudo para o que é.
Julia foi enganada em algo que ela não podia controlar.
O que quer dizer com... A Júlia estava envolvida em algo
maior do que imaginava?
Ela disse-lhe que tinha medo de alguma coisa? É isso que me está a querer
dizer? Sim, eu acredito que ela estava muito assustada, Inspektor.
Como eu disse, ela estava assustada com algo, mas eu não sei o que foi.
Ah, olha isso.
A caverna.
Isso simboliza todas as mentiras e decepções que estão acontecendo.
A verdade vai aparecer, Inspektor.
Se é certo ou errado.
E não há como escapar dela.
O que é que foram estas mensagens todas?
O que é que quer de mim?
Só quero falar consigo, pode ser?
Só quero que me dê uma oportunidade de me explicar.
Posso falar?
Ouça, eu estou cansada. Eu não quero ouvir as suas explicações.
Ou me paga, ou então amanhã eu vou à polícia e conto à imprensa tudo o que
sei.
Farte-me, não és como você tenta ouvir.
Largue-me, está-me a magoar. Você não sabe com o que é que se está a meter.
Largue-me já!
Nem você sabe.
O meu preço acabou de aumentar.
ou amanhã me pago ao dobro ou eu conto ao inspector tudo o que vi.
E não me volte a tocar!
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