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Original subtitles

Legendado por Cabine de Projeção

Adaptação: Lzito

O que você está fazendo?

Desliga a música, por favor?

Não tá incomodando ninguém.

Está incomodando todo mundo.

Desliga isso.

Obrigada.

Aqui está o cronograma.

Eu não esqueci.

Ainda estou esperando sua redação.

Me entregue antes de chegarmos.

Já fiz, te entrego amanhã.

Amanhã não.

Preciso corrigir.

Se já fez, me entregue antes de chegarmos.

Você tem até a nossa chegada.

Toni, se esforce, por favor.

Rebecca?

- O quê? - Olha.

Amiga, não dá.

Não vamos nem poder fumar.

Ela vai encher muito o saco.

Quanto você pagaria numa camisa do Maradona?

Minha filha não para de pedir.

Não sei.

Original ou falsa?

Acho que falsa.

20 euros?

É.

Ficou louco? Explica isso.

Você não para de interromper.

- Tudo bem? - Tudo, e você?

É o nome do meu avô.

Eram aristocratas. Muito respeitados.

Ele está falando da família?

Ele não para.

- Tá, não conto. Dane-se. - Brincadeira, fala.

- Tinham uma mansão incrível. - Praticamente um castelo.

Tinha duas torres enormes e listras vermelhas e brancas.

Uma sacada gigante. Fazia sol sempre.

- Não sei por quê, mas fazia. - Entendi.

A casa era incrível.

O jardim era uma selva.

- Tinha um portão... - Eram ricos?

Riquíssimos. É o que estou dizendo.

Tinha tantas árvores, tipo plátanos...

- Palmeiras? - É.

- Como você sabe? - Pinheiros...

Eu vi fotos.

Ah, sim, fotos.

Mostra a sua avó para ele.

- Ah, cara... - Vai, mostra aí.

Ela é uma gata.

É bochechuda, nunca perdeu uma refeição!

Qual é, cara.

Não vou mostrar nada, estou te contando.

Minha avó era muito pobre, do subúrbio de Nápoles.

- Sei. - Trabalhava para os Montorsi

nessa mansão incrível.

Primeiro dia de trabalho. Ela chega.

Ela abre a porta e vê o meu avô.

- Amor à primeira vista. - Nossa.

Amor à primeira vista, cara.

Inseparáveis. Apaixonadíssimos.

Um ano depois,

um ano feliz, la dolce vita e tudo mais,

ela engravidou.

Aí um dia, normal, no outono,

ela acorda de manhã

e vai fazer compras para a mansão.

Ela vai até o centro da cidade.

Ela ouve um barulho metálico, que nunca tinha ouvido antes.

- O que era? - Ela não sabia.

Não fazia ideia, parecia um estrondo.

Aí ela ouve outro barulho,

mais alto, um estrondo grave que não parava.

- O que era? - Ficou mais alto.

Ela não sabia.

Ela olha em volta e vê os postes tremerem.

- Percebeu que era um terremoto. - Um terremoto?

Não é possível. Que pesado.

Podia ter ido para a casa dos pais, mas não.

- Queria salvar meu avô. - Mentira.

Ela o amava.

- Tão romântico. - Ela era muito leal.

- Ela o amava. - Saiu correndo até a mansão.

Correu por quase uma hora,

mas as ruas sumiram.

E ia se perdendo, sem saber onde estava.

Depois de uma hora, ela acha.

A mansão está...

em ruínas.

Não sobrou nada.

As torres desabaram,

as árvores caíram, a piscina encheu de pedras.

Ela começa a procurar meu avô.

Procura por três dias. Não desiste.

- Três dias. - Corajosa.

Três dias, imagina.

- Que determinação. - Três dias ali.

No terceiro dia, ela entende.

Nunca mais o veria. Meu avô tinha morrido.

Quer dizer que o bebê nunca...

- Nunca conheceria o pai. - Pois é.

O bebê era minha mãe. Ela não conheceu o pai.

Cara.

Que pesado.

- Horrível. - Totalmente.

É foda.

Era o meu avô.

Ele sabia que a irmã estava na mansão,

então correu para salvá-la.

A mansão os esmagou. Foi assim que ele morreu.

Você está exagerando.

Um pouco.

Que loucura. Conta a verdade.

O resto é verdade.

- É sério? - O resto é verdade!

Acharam o corpo do meu avô alguns dias depois.

Os Montorsi deram um dinheiro para a minha avó,

para ela ir à França ficar com os primos.

Ela foi para o subúrbio de Paris.

Até que é legal lá.

E ela ficou arruinada.

Com o coração despedaçado.

Perdeu o amor da vida dela.

Aí ela teve a minha mãe.

Pois é...

Então sua mãe tem família lá?

A relação com a sua mãe não é complicada?

Ela não sabe.

Ela não tem certeza.

Você já esteve na Itália antes?

Nunca.

Falou o tempo todo que era praticamente italiano,

mas nunca nem pisou lá.

- Pois é, nunca. - Calma, cara.

- Relaxa. - Por que se irritou?

- A Mercier passou aqui? - Passou.

- Conseguiu se livrar? - Do quê?

Do trabalho.

Eu fiz. Já entreguei.

Fiz na pressa.

Minha avó nunca amou outro homem. Era o meu avô ou ninguém.

Que forte.

Você não entenderia.

- O quê? - Quero dizer...

- Você fica com garotas no trem. - Vai se foder.

O que rolou?

Foi legal.

Você pegou?

Peguei.

De primeira?

Não...

Não de primeira.

Conta mais, cara.

Eu a beijei.

Aí passei a mão em tudo.

Depois transamos.

Eu estava durão.

Você gozou?

Gozei.

Me passa a água.

Vai rolar de novo?

Acho que não.

Não temos muito o que conversar.

Ela ia me irritar.

Justo.

Cinzas começaram a cair sobre nós, embora levemente no início.

Olhei para trás

e vi uma densa nuvem de fumaça nos perseguindo,

espalhando-se pela terra como uma torrente.

Só se ouviam os gemidos das mulheres,

o choro das crianças,

os gritos dos homens.

Eu poderia me orgulhar de que, em meio a tal perigo,

nenhuma queixa ou palavra de fraqueza me escapou.

Pois me sustentava aquele sombrio e consolador pensamento

de que o mundo inteiro perecia comigo.

Suzanne.

12, 13, 14...

15, 16, 17, 18, 19.

- Olá. - Olá.

Acordou cedo!

Sem sono?

Vem, vem cá.

Bom garoto!

O que você tá fazendo aqui?

Tantas opções na Itália.

Caramba.

O Idri é bonitinho.

Maurizio, Idri...

O Mario dá pro gasto.

O Donato serviria se você estivesse bêbado.

Ele é bonitinho.

- Não gostou dele? - Prefiro o gato dele.

O Maurizio é ajeitado.

Tem um cachorro fofo.

Ou gato ou cachorro.

O Maurizio pode me ensinar sobre a cultura italiana.

Buongiorno, Maurizio.

Come stai?

- Va bene. - Tutto bene.

Questo.

Maurizio, vamos lá.

Trabalhem em duplas. Etienne, você fica com a Safia.

Mariam com a Sarah.

Toni com a Suzanne.

- Ah não. - Quem é?

A ruiva.

Que ruiva?

A de bolsa gigante.

- A culta? - É.

- Azar o seu. - Merda.

Vou furar os meus sapatos.

Ela não está nem aí!

Que chão é esse?

Não sou responsável pelo chão. Escuta, Younès.

- Olhe por onde anda. - Vamos.

Preciso de água. Minha garganta tá igual o Saara.

Vamos, meninas. Estamos quase lá!

Não aguento mais.

A viagem começa agora.

Olhem esse céu!

Professora Paquin, falta muito?

Vocês estão muito devagar.

Estão atrasando o grupo todo.

Vocês sabem a diferença entre um vulcão e uma montanha?

Uma montanha é uma montanha. Todo mundo sabe.

Um vulcão é como uma montanha, só que com crosta e lava.

- Uma crosta? - E pode explodir.

Entendi. Obrigada pelo resumo.

Alguém lembra como se formam os vulcões?

Toni, e você?

- Não sei. - Placas tectônicas.

Não sabe? Pense.

Placas tectônicas.

Obrigada pela ajuda, James.

É quando duas placas se encontram.

Isso cria uma sobreposição,

o que forma o vulcão.

Certo?

Isso é conhecido como... Suzanne?

- Subducção. - Subducção, exato.

Pode explicar melhor, Suzanne?

- A tectônica... - Escutem a Suzanne, meninos.

- Ela não cala a boca. - Anda.

Suzanne, fale mais alto.

Quando uma placa entra sob a outra,

vai para o manto e derrete,

e o material derretido

sobe por uma falha na crosta terrestre,

formando os vulcões.

As placas também podem criar

- terremotos perigosos. - Preste atenção.

Sim, é verdade.

A Campânia, região onde estamos,

é uma zona de alta atividade sísmica.

Há terremotos constantes aqui.

Na história de Nápoles, houve terremotos

extremamente violentos.

O mais marcante da história recente

ocorreu em 1980, e foi muito trágico.

Grande parte da cidade,

e até vilas ao redor foram destruídas.

Então,

os materiais do manto da Terra se fundem

e produzem o chamado...

- Magma! - Magma.

O magma produz gás,

que vai se acumulando.

A pressão sobe cada vez mais,

até que, de repente, bum!

Racha o domo do vulcão.

Lança uma coluna de fumaça,

cinzas e pedra-pomes.

É a chamada erupção pliniana.

- Por que pliniana? - Por causa de Plínio.

- Plínio, o Jovem. - Muito bem.

Plínio era um escritor.

Ele assistiu à erupção,

tudo em tempo real, de Miseno.

O que Plínio vê?

Uma nuvem enorme.

Ela cresce subindo pelo céu.

Em formato de cogumelo.

Mas como não existiam bombas atômicas na época,

com o que ele a compara?

Um pinheiro? Como vimos na aula?

Um pinheiro! Muito bem, Constance.

Um pinheiro no céu.

- Obrigada. - Muito bem.

Então, nós sabemos

que no primeiro dia,

24 de outubro de 79 d.C.,

começou caindo pedra-pomes sobre Pompeia.

As pedras caíam como chuva,

as pedras caem sem parar

por horas.

Elas se acumulam nas ruas

e sobre as casas,

chegando a pelo menos 2,8 metros.

Como as pessoas reagem?

Chamatka, como elas reagem?

Ficam dentro de casa.

Algumas, sim. Tentam fugir ou ficar em casa.

Por que isso é uma má ideia?

Ficaram presas. As pedras bloquearam as portas.

Exato. Conforme se acumulam,

as pessoas acabam presas

nas próprias casas.

Isso se as casas não desabarem com o peso das pedras.

A nuvem vulcânica encobre o sol.

Fica um breu total.

Plínio escreve em sua carta:

“Era de dia,

mas, ao nosso redor,

reinava uma escuridão mais profunda que a noite.”

Então, ao amanhecer,

eles não ouvem nada.

Eles pensam: “Pronto, acabou.

O castigo divino passou.”

E o que eles fazem?

Aos poucos, começam a sair de casa.

Só que...

acontece o pior.

O fluxo piroclástico.

Parece nome de filme.

É, daria um bom título de filme.

O que é fluxo piroclástico?

É como uma avalanche quente.

Isso mesmo. Boa resposta.

É difícil de descrever, é tão...

É um fenômeno de escala inimaginável.

Tentem imaginar.

Imaginem uma nuvem enorme. Gigantesca.

Cheia de cinzas,

detritos vulcânicos, rochas,

fragmentos,

gases.

Tudo queimando. E digo queimando mesmo,

falo de 250 a 300 graus.

Isso não é calor, é o inferno.

Essa nuvem ardente

desce o Vesúvio,

a mais de 600 km/h, quase na velocidade de um avião.

Não sei se conseguem imaginar.

Ela se espalha ao entrar em contato com o ar.

É gigantesca. E, ao mesmo tempo, magnífica.

É como uma gravura em movimento,

com todos os tons de cinza imagináveis.

Ela se move, é leve,

se espalha e remoinha.

Ela desce o Vesúvio,

destruindo tudo pelo caminho.

Fogo! Como se diz isso em francês?

- Fogo? Lava? - Queima.

Não, fala sério.

- Se fosse lava, estaríamos mortos. - Cinza?

Pompeia, cabum.

Nós, cabum. O Vesúvio tem que dormir.

- Dormir. - Claro.

Veio aqui pra ver o “cabum”?

Traduz isso, tá?

Veio aqui pra ver o “cabum”?

Você vai morrer.

Se fizer “cabum”.

Não dá pra perguntar quem é?

Pra quê?

- Pergunta logo. - Que saco, tô nem aí.

Só quero que você pergunte!

Pergunta aí. Você fala italiano.

Quem me ensinou?

- Seus pais. - Não me ensinaram nada.

Não terminei.

- Com licença. - Pois não.

Que festa é essa?

É um aniversário de casamento.

De qual família?

Acho que da família Santoro. Não tenho certeza.

É um aniversário de casamento,

não da sua família, é da família Santoro.

É que ele é napolitano.

Ah, ele é napolitano?

Não dá para notar pela cara dele?

Ela acha que você não parece napolitano.

De onde?

- Pergunto da sua família? - Boa, vai lá.

Você conhece a família Montorsi?

Não conheço, rapazes.

Tem muita gente aqui. Saiam perguntando.

Obrigado.

Ela não sabe. Disse pra você perguntar por aí.

- Não é sua família. - Então ela tá em dúvida.

É, não pareceu ter certeza.

- Vai, pergunta. - Não vou perguntar.

Estão comemorando, não quero atrapalhar.

Você tá com medo.

- Cara, é respeito. - Tá amarelando.

- Vai lá ver. - Pergunta pra eles.

Não quero incomodar.

- Calma, Salim. Deixa ele. - Tá de boa, deixa pra lá.

- O clima aqui tá meio estranho. - Como assim?

Sei lá, cara. É esquisito.

Por que comemorariam aniversário de casamento?

Isso não tem graça.

Não fala da minha família. Não tem graça.

- Não tô brincando. - Para de me encher.

Ninguém aqui te conhece.

Que pesado.

Como você aguenta? As meninas de Literatura são um saco.

Como elas transam? Não transam.

- Qual é. - Elas só fazem isso em casa.

- Fala sério. - Que exagero.

Tá com vergonha de quê?

- Sou tímido. - Ele deu em cima da Angela.

Mentira!

- Não foi nada. - Cara!

Ele fez mais que isso.

- Achei que ela não ficasse. - Foi insano.

Foi doideira, nem te conto.

Para, eu não sou assim.

- Para. - Relaxa.

- Tá empolgado. - Chega.

- Tá com ciúmes? - Tô nem aí, tô com a Chamatka.

- Você não tá com ninguém. - Deixa ela em paz.

Não é só você. A gente não tem ninguém!

Os cantores são bons até.

Tudo bem, francesinho? Não tá perdido, né?

O que faz em Torre Del Greco?

O que você faz em Torre Del Greco?

Eu estudo Ciências na faculdade.

Eu estudo Ciências na faculdade.

E você faz o quê?

Trabalho em obras.

Legal.

Não. Tá quente demais.

Tá muito quente.

Você conhece a família Montorsi?

Não.

Quem são?

Pessoas que você conhecia...

Meu sobrenome é Sagristano.

Sagristano?

Maurizio Sagristano.

Você cresceu aqui?

Sim, sou daqui.

Que bom.

Sim e não.

Isso! Ali!

- Eu sabia. - Não é justo.

Vocês estão em dois.

Calma, deixa comigo.

Vai! Manda ver.

É com você, mano.

Tomei duas canetas. Que humilhação.

Vai.

Que loucura.

Toni!

Sete passes.

Vai lá, Maradona.

Bom demais.

Você é linda. Como se diz “linda”?

Você também.

Tem um aqui.

- Aqui é legal. - Com certeza.

- O quê? - Falei que aqui é legal.

Olha! Olha só isso.

Não é bonito.

Digo, objetivamente. Não é.

Mas é maneiro.

No conjunto, funciona.

Exatamente.

- Quem pediu Nutella? - Eu.

Esse é de avelã.

O que vai fazer ano que vem?

Cursinho de Literatura.

Onde?

- Me inscrevi no Lakanal. Vamos ver. - Nossa, você é bom.

Vai se especializar em quê?

Acho que...

em Literatura Russa, mas não sei ainda.

E você?

Curso de pintor decorador.

- Como seu pai. - Exato.

- Boa escolha. - É, eu gosto.

E você?

Sei lá.

Por que falar disso? Estamos de folga, tomando sorvete.

- Não vamos falar do ano que vem. - É da escola.

- Tanto faz. - Temos lição de casa.

- Você fez? - Fiz.

Em pleno dia lindo na Itália,

e vocês falando de faculdade.

Você fez amigas mais cedo.

Eram fofas demais.

Vieram falar comigo quando eu me maquiava,

ficaram testando tudo.

Adorei.

- Disseram que sou linda. - E estão certas!

No futebol, elas me olhavam estranho.

- Sério? - Sim.

Sei lá. Foi...

- Ficaram encarando? - Sim, rolou um clima estranho.

Paranoia sua.

Não é!

É só uma teoria.

Acho que não. Até a Chamatka ficou cercada.

Elas foram super fofas com ela!

- As garotas foram fofas! - Você não veria isso em Paris.

Acho que era só algo novo para elas.

Acho que vocês viajam quando falam essas coisas.

Tipo, a França também é racista.

Não dá para ficar nessa de...

“Olharam torto pra mim, são todos racistas.”

- Tem racista em todo lugar. - Você acha que gostam de viado aqui?

Isso não tem nada a ver. Você não sabe de nada.

É, não sei.

Você está tirando conclusões.

- Você não sabe. - Eles gostam de viado?

Não sei! Por isso não digo nada.

- Não falei nada. - E pretos? Gostam?

Não presuma que não gostam de pretos.

Eu não disse que eram racistas.

Deu a entender.

O pessoal foi tão legal,

você só tá julgando. Não sabe de nada.

Eu não disse isso.

Você sabe o que eu quis dizer.

Não dá nem pra opinar.

Você fala de achismo, mas foi o que ele sentiu.

Sei lá, é...

No jogo de futebol, foi bem legal.

Aqui é ótimo, é lindo. Todo mundo é legal e feliz.

As pessoas são felizes. É diferente.

Toni, Toni!

É a sua avó!

- Não enche, sabe que ela morreu. - Nonna!

Para com isso.

Babaca.

Olha só...

Cuidado!

Vai, continua correndo.

Vamos!

Droga!

Cai fora.

Vai embora.

Vai.

Vem pra água, Toni.

Toni!

Essa é pra você.

Essa doeu de verdade.

O barco quebrou.

Olha o respeito. O quê?

Você que é ruim.

Vai lá dar uma olhada.

- Tá quebrado? - James!

Já tava assim.

- Mentiroso. - Mentira, foi você, mano.

Mano, fudeu.

Assume logo.

- Mas não fui eu! - Não foi nada demais.

Tá muito feio?

Tem um amassadinho.

Um amassadinho?

Obrigada, Toni e James,

por nos honrarem com a presença.

Seus colegas vão atualizar vocês.

Contam o que eu disse, tá?

- Não ouvi. - Sim.

- Sim, professora. - Obrigada.

Nosso foco será... Anotem isso.

Todos têm papel e caneta?

O que é um vestígio

e como transcrevê-lo? Angela.

A ideia é

dar vida

a algo morto há dois mil anos.

É opcional ou não?

Como assim “opcional”?

Nada é opcional. Todos vão apresentar.

Esta viagem não é opcional.

Certo.

Nossa, que empolgação. Mariam, tudo bem?

Tudo bem.

Vamos, tá na hora.

Oi.

O que quer fazer?

- Sobre o quê? - O trabalho.

Não posso, tô ocupado agora.

Pra variar.

Qual é.

Me deixa em paz.

Vou passar mal.

Vou passar mal! Não tô me sentindo bem.

Espera, como assim...

Peraí.

Isso não tem graça.

Olha só.

Ela parece tão triste.

O que quero hoje, ou o que quero que façam,

é que realmente se permitam

vivenciar

esta obra, absorvê-la de verdade.

O importante não é achar a resposta certa

no livreto, ou uma definição qualquer.

Quero que vocês realmente se deixem

levar pelas suas emoções

ao olhar para estes rostos, corpos,

seus movimentos, para as cores. As cores!

A intensidade, a profundidade.

Deixem o olhar vagar,

e apenas digam o que veem.

Só isso.

Comecem pelo que estão vendo.

Professora?

- Salim? - Não entendi.

Não entendi. Estou confuso.

Confuso? Ótimo.

Mulheres peladas, uma bandeja.

Alguém lendo... Uma criança lendo.

- Não entendi o significado. - Não importa.

Só se entregue a ela.

Como dizia Paul Claudel, não se trata de entender

no sentido literal. Não há respostas certas.

Acho muito forte, mesmo sem olhar para o afresco,

só de olhar para cima, as formas lembram um sonho.

Dá para sentir o tempo, é tangível.

- É super colorido... - Meu Deus.

- É verdade. - O que foi?

Que comentários são esses?

Por que o "Meu Deus"? O que houve, Toni?

- Por que "Toni"? - James?

Eu quis dizer: "Meu Deus, que lindo!"

Sim, é muito lindo.

Suzanne.

- Parece uma preparação... - Perdão?

É uma celebração,

- um ritual. - Exato.

O que parece que estão fazendo?

Não acho que seja uma celebração,

há um clima de tensão

na cena, principalmente nas expressões.

Não acho que seja uma celebração. É uma catástrofe.

Interessante, Angela. O que a faz dizer isso?

O que foi? Você mencionou os rostos, as expressões.

Há algo perturbador ali,

e, ao mesmo tempo, há trajes, joias,

e instrumentos musicais.

Vocês reconhecem algum dos personagens?

De quem é o cortejo?

- Dionísio. - Exato.

Quem é Dionísio?

- Por que são tão feios? - O deus do vinho.

- O deus... - Do teatro.

- Dos excessos. - Do teatro.

- Da harmonia universal. - O deus do teatro.

Sim, do teatro.

Há uma máscara. Dá para ver aqui.

Há uma sensação de embriaguez, um sentimento místico, excitação.

Por isso ele está nessa posição,

e dá para ver que está completamente... embriagado.

- Juliette? - Acho que as mulheres têm medo.

Sim, exatamente.

- Têm medo, mas não sabemos o motivo. - O que faz você dizer isso?

Pelas expressões, pelos movimentos.

Exato. Olhem o rosto das mulheres.

Olhem para a mão desta mulher.

É como se estivesse afastando algo, como se recuasse.

E o rosto dela? O que veem na expressão?

James? O que você vê na expressão dela?

Vejo medo misturado com...

Você é incapaz de nos dar...

Eu ia falar, ele me distraiu. Fez piada sobre o Jean-Eude,

- o que é chato. - Chega disso.

Tente focar por dois minutos.

Dá para ver o medo. Acho que é uma cerimônia,

um rito de passagem.

- Exato! Rito de passagem. - É.

É bem verdade.

Dionísio está associado aos cultos dionisíacos

e mistérios dionisíacos.

Na época, era uma das religiões secretas,

por isso não temos muita informação sobre ela.

Há uma mistura de algo

completamente estranho com algo familiar.

Como a história é aberta a interpretações,

podemos nos identificar com ela.

Mesmo que tenha 2 mil anos...

- É verdade! - Cale a boca, Jean-Eude.

A feminilidade também é como um papel.

Temos acesso ao mundo interior desta mulher,

à sua autocrítica.

Há algo na expressão dela

- que parece pensativa, reflexiva. - Queria que ele calasse a boca.

Está demorando demais.

- Safia! - Sai logo com a professora.

Dá para ver que essa mulher tem pensamentos e sentimentos.

- Há algo ali. - Elas são passivas.

Machista!

- Tão machista. - Não, é interessante.

Não pode dizer isso e se esconder na história da arte.

- Em 2025? - Qual é!

Toni.

Chega. Pare de atrapalhar a cada oportunidade.

Eu só estava participando...

Não estava. Isso não é participar, entendeu?

Não é assim que se participa.

Que rituais vocês conhecem?

Rituais satânicos.

Pensei em casamento forçado, porque elas parecem irritadas.

Interessante, Younès. Por quê?

Não sei... As mulheres parecem

meio tristes e ansiosas.

Sim, há uma sensação de ansiedade. Do que elas têm medo?

Do que têm medo? Alguma ideia?

Uma pista.

Há uma citação de Propércio nas Elegias que diz:

"Nocte una quivis vel Deus esse potest."

Poesia latina em ritmo ternário.

Quem pode traduzir isso? Algum latinista? Etienne?

"Nocte" é noite, "Deus" é deus.

Muito bem. "Nocte" é noite,

- Deus é deus. - Que orgulho.

- Você sabia disso? - Jean-Eude?

Há essa ideia de almas vivas, elas estão vivas.

"Nocte una quivis, Deus", é deus.

"Potest" expressa potencial.

O que se pode virar.

Talvez seja...

"Numa única noite, o homem pode virar Deus"?

Fantástico. Muito bem.

Uma única noite transforma qualquer homem em Deus.

Ainda há esperança! Não acabou!

Há esperança!

- Filho da puta. - O quê?

O que você disse?

- O quê? - Bacanais e emissários...

- Filho da puta! - Uma série de provas...

Toni!

Você ouviu o que ele disse?

- Não quero saber. - Ele me chamou de filho da puta!

Não me importo.

- Tenho que aguentar? - Fique quieto.

- James, segura seu cachorro. - Que porra é essa?

Segura essa!

- Para de rir. - Cala a boca.

- Por que está tão vermelho? Calma. - Já chega. Pare.

Respire.

Chega. Acalmem-se.

Amaury, estou ouvindo.

É bem erótico.

Sim, por que diz isso?

Principalmente as paredes, o vermelho

está associado a sangue, amor,

- e paixão. - Sim, há uma intensidade,

uma agitação ligada à...

Sexualidade.

Isso mesmo! Exato.

Talvez seja isso que...

os excita.

Depende.

Na época, a sexualidade, claro,

não seguia as categorias de hoje.

Não havia homossexualidade nem heterossexualidade.

O status social

determinava as relações.

Não era menos opressivo,

só seguia regras diferentes.

As jovens, naquela época,

podiam se casar aos 13 anos.

- Cara... - Com...

Sim, com certeza.

A iniciação das mulheres

era muito restrita,

enquanto os jovens homens tinham uma introdução ampla

ao prazer sexual,

com cortesãs,

prostitutas, escravas, etc.

Que nojo.

Verdade, mas hoje em dia temos nossa própria visão.

Ainda assim, na época,

talvez seja por isso o medo dela.

Talvez temessem o desconhecido.

- Devia ser horrível. - Dá para ver,

há um perigo real ali.

Esta jovem passa por uma série de etapas

que a levam à noite de núpcias.

Talvez não por escolha dela.

Professora, isso é coerção.

- Como chamaríamos hoje? - É estupro.

Coerção.

Sim, é coerção mesmo, como você disse, Rebecca.

Podemos interpretar assim hoje.

Quem se lembra

o que é fascinum?

Algo ligado à abundância.

- Com a abundância. - E à fertilidade.

O pênis.

O pênis é símbolo de quê na Antiguidade?

- Você só pensa nisso. - Sou latinista, cara.

Angela, você já viu um de perto, né?

- O quê?! - Silêncio!

- O que ele disse? - Vai se foder!

- Não fala isso, seu filho da... - Filho do quê?

- Não fala isso. - Chega!

Parem com isso agora. Toni, nem mais uma palavra.

- Sempre sobra pra mim. - Por que será?

- Mas... - Já chega.

Acabou.

É uma das maiores obras da Antiguidade

Vocês são incapazes...

Me chamaram de filho da puta e você não fez nada.

Não quero saber!

Você é burro. É o que você é.

- O que você disse? - Pera aí.

Vocês são incapazes de absorver.

- Vocês têm um privilégio incrível. - Vou falar com o diretor.

Me chamou de burro.

O que você quer de mim?

Chega. Não quero ouvir.

- Fica quieto. - Beleza.

Corta o pênis deles fora...

Pronto. Muito bem.

- Calma, Suzanne. - Cala a porra da boca!

- O que é isso? - Para!

Suzanne, chega. O que está acontecendo?

Onde diabos vocês pensam que estão?

A próxima pessoa que falar vai ficar sem tempo livre. Entendido?

Fui clara?

É o único jeito de ser ouvida.

Tenho que falar como com criancinhas.

Sim...

É desmoralizante.

Os professores trabalham o dia todo e ainda trabalham mais em casa.

E ganham mal pra caramba. Estão sendo ferrados.

Fazem isso porque amam.

Podem não ganhar muito, mas não fazem isso por dinheiro.

Como vários outros trabalhos.

Acho que deviam ganhar mais.

Mas a lógica de mercado está em tudo.

Vivemos no capitalismo, gostando ou não.

Para ganhar mais, deviam trabalhar mais.

Sua mãe trabalha até tarde, ela não podia ser mais organizada?

O quê? Tá zoando? Minha mãe é organizada.

Sério, quem nunca teve um professor preguiçoso?

Que não fazia nada.

No segundo ano, a professora Chelden, de história.

Ela fazia greve toda semana.

Não preparava as aulas. Esse tipo de professor

deixa o nível escolar tão baixo na França.

Um exemplo vale para todo mundo?

Não, mas as estatísticas mostram

que a França,

em comparação com a Europa, estamos mal academicamente.

Tanto no fundamental quanto no médio.

Não é uma questão de opinião.

A culpa de sermos ruins é dos professores?

Não importa o que eu fale, nada serve.

Quando você erra, não quer admitir...

- Isso é muito simplista. - Pode ser.

Mas por que o nível é baixo?

Talvez porque falte verba ou falte professor.

- Não, mas... - É só uma pergunta.

Um bom professor não tem o devido reconhecimento

ou recompensa em relação ao ruim.

- Aquele que faz o mínimo. - Vai dar estrelinha para eles?

- Dinheiro. É sempre a resposta. - E menos aos ruins?

- Sim, se eles não se prepararem. - E a professora Mercier?

Professores podem ser sensíveis a essas decisões.

Lógico.

São políticas, é algo político.

Não tem nada a ver com ser sensível.

Eles fazem greve por você.

Para o ensino ter recursos. Para você estudar em boas condições.

Você os critica porque fazem greve?

Isso é podre, e você está mentindo. Para de dizer que você fica sem aula.

Não tem tanta greve assim. Fazer greve é bem raro.

Você sabe disso.

- Ele é sensível. - Tem merda na cabeça.

- Não adianta, ele só fala bosta. - Você é sensível demais.

Você é idealista, mas não funciona assim.

Sempre fazem greve.

Perdem a moral com os trabalhadores e o governo.

Por isso os filhos de políticos vão para escolas privadas.

- Você não é filho de político. - Não sou mesmo.

Hoje em dia, aluno faz o que bem entende

porque os professores não têm autoridade,

- nem a direção. - Você quer a polícia lá dentro?

Policiais em todo lugar.

Não quero professor perdendo tempo com disciplina.

Quero que eles deem aula e só.

Aluno problemático tinha que ir direto para o ensino técnico.

- Falta mão de obra na França. - O problema não é esse.

Quem quer fazer o ensino geral não consegue vaga.

- O quê? - Não consegue.

Por que não?

Se for da classe trabalhadora,

mesmo com notas boas, melhores que as suas,

te empurram para o ensino técnico.

Ninguém fala isso pro Amaury.

Como se tivessem dito isso pro James.

Eu não nego meu privilégio. Essa é a diferença entre nós.

Não, é que eu tenho coragem de falar do que acontece.

A escola deve preparar para o trabalho.

Não é só economia...

Esse sistema igualitário baseado em mérito é péssimo.

- Igualitário? - Que triste, coitados de vocês.

Como assim?

Meritocracia não existe.

Meus pais se matam de trabalhar

para eu vir aqui e ter que ouvir um babaca como você.

Eles se sacrificam.

Sacrifício não tem a ver com mérito. Meritocracia não é real.

Ninguém começou do nada e venceu na vida?

Não! Você já deve ter lido Bourdieu.

Existem três tipos de capital, e quem tem sucesso

geralmente tem pelo menos um.

No Vale do Silício inteiro, ninguém começou numa garagem?

Tenho uma pergunta.

Se cada um fica no seu quadrado,

por que um filhinho de papai como você está aqui?

Porque sou republicano. Sério.

Que babaca.

Tem três fios de cabelo no saco e já acha que é homem.

Proferssa Mercier, o que a senhora acha?

Só estou ouvindo.

E sobre o uniforme escolar?

Não sou contra.

- Alguém surpreso? - A mão de ferro...

- O que você disse? - "A mão de ferro."

Isso te assusta tanto?

Ordem e estabilidade?

Tô nem aí.

Tô pouco me fudendo pra uniforme.

Mas os franceses...

estão de saco cheio.

Querem voltar aos valores normais.

Como era antes.

Ordem, segurança, essas coisas.

Talvez em alguns anos,

surja um partido mais decidido

que se atreva a colocar ordem nas coisas.

Botar ordem onde precisa.

- Vocês não vão rir na hora. - Quem?

- Ninguém em particular. - Fala aí.

- O Reagrupamento Nacional? - Se for preciso.

- Olha só. - Ele vai colocar 50 centavos.

- Devagar. - Cuidado.

- Jean-Eudes, põe cinzas. - Não, aí já é loucura.

Vou colocar borda de pizza.

Salim, vai fundo.

15 euros se você beber.

- 15? - Eu também dou um pouco.

Ele se empolgou!

Quatro euros.

- Vamos colocar mais coisas. - É.

- 150! - Não vou nem encostar.

Vou colocar.

A casca não!

Olha o que o cozinheiro me deu.

Isso vai ser forte.

- Vai colocar tudo? - Vou.

Conta o dinheiro.

- Eram 15 euros? - Sim.

Vou pôr mais 50.

50? Vai pôr 50?

Quanto tá agora?

- Acho que tá em 80, gente! - 80?

- Só o Salim pra fazer isso. - Tô fora.

Quem quer dinheiro? Quem tem coragem?

- Ele pôs 50. - Ele quer provar algo.

- Alguém tem que beber. - Eu bebo.

Eu bebo por 80 euros.

- De jeito nenhum. - 80 euros, cara!

Pelo menos 200. Isso é muito nojento.

Eu bebo! É tudo comestível.

Eu disse que bebo!

Me dá a tigela.

- Toma. - Você é louco.

- Você é um nojento. - 80 euros é dinheiro.

Só preciso beber isso. Não é veneno.

Dinheiro é dinheiro.

Não se faz desfeita pra dinheiro.

Tem pizza, cinzas, azeitonas...

- Para de falar com ele! - Quatro licores!

- Delícia! - Não bota pilha.

- Vira! - Vai, Toni!

O cheiro... Não dá.

Ele não vai beber.

80 euros!

- Cara. - Deixa ele beber.

Para de mexer nisso.

- Nojento. - Você vai passar mal.

Corajoso.

- Vai logo. - Beba! Beba!

Vai!

Nossa, ele tá bebendo muito!

Ele é corajoso mesmo.

Você é muito nojento, Toni.

Vai passar a noite vomitando.

Mandou bem.

Sem vergonha e com coragem.

- Me dá um cigarro. - Tranquilo.

O riquinho alimentando o pobre...

Por 1.500, eu topo.

- Dá o dinheiro pra ele. - Isso.

Ele mereceu.

80 euros.

- Tem umas moedas. - Toma as moedas.

Ela não me deixa em paz, é bizarro.

Não sei por que você tá assim, eu tô ansiosa.

Imagina estar em Paris,

saindo da Sorbonne,

comendo um croissant num café

com amigos.

E fazendo compras.

Que foi, Angela? Aconteceu algo?

Não, tô bem.

Ah, sei lá, cara.

Mandei mensagem ontem e ele não respondeu.

A gente passou o dia junto. Não entendo.

- É joguinho, sabe. - Que joguinho?

Se ele não responde,

não se arrisca e paga de descolado. Só isso.

É um jogo de poder. Ignora ele.

Sei, tá.

Vocês vivem num mundo de ilusão.

- Porra! - A porta.

Suzanne, posso pegar isso?

Pode.

Bora beber.

Tô nessa.

Suzanne, anima?

Não, valeu.

Ah, deixa de frescura. Somos todas amigas.

O que foi?

Relaxa.

- Toma. - Valeu.

O que você tá lendo?

Um Corpo na Biblioteca.

É sobre o quê?

Acharam corpos de jovens em bibliotecas.

Não é possível, ele me deixou no vácuo.

Ele me deixou no vácuo!

Nossa, que bizarro.

Qual foi a sua última mensagem?

Não ri.

Não vou rir.

Eu disse: "Você tá curtindo a Itália? Quer dar um rolê?"

"Você tá curtindo a Itália?" Foi o melhor que você conseguiu?

Ué, tá ótimo. Tá sim!

Que sem graça.

Não tá muito bom.

É só pra puxar papo. Sei lá.

Com ele foi diferente.

Quer um cara que nem responde?

Pra falar a verdade, achei que...

ia rolar algo mais. Sei lá.

A mãe dele é jornalista no Le Monde.

- Ele te falou da mãe dele? - Menina...

Sim, só falava disso.

- Que esquisito. - Eu sempre falo do meu pai.

Complexo de Édipo mandou lembranças.

O que ele fez pra te deixar tão obcecada?

Ei?

O que aconteceu?

Nada. Nada demais.

No trem pra Itália?

Mentira.

Nossa, que paredes horrorosas.

Horrorosas mesmo.

- Você me assustou. - Desculpa.

Tá um fedor de cigarro. Vocês tão abusando.

Tira os sapatos.

Tudo bem?

Tô bem, e você?

Achei que estivesse mal.

Continua, amiga.

A gente tava falando do James.

Ainda?

Ele fica se fazendo de misterioso e intelectual...

Ele ficou com a Rose numa festa semana passada.

- Não. - Ela pagou um boquete pra ele.

Para de mentir.

- É verdade. - Que merda de vida.

Tudo bem, quem se importa?

Semana passada? Quando?

Sexta à noite.

Que piranha. Puta que pariu.

Detesto isso.

Não é possível.

Talvez eu não devesse ter falado.

Ele é que é o galinha da história.

Semana passada.

A gente ficou há dois dias. Semana passada. Sério?

Sim.

Na porra da semana passada.

Nem sei o que dizer.

Que merda.

Me sinto tão suja.

Relaxa, todo mundo faz coisas sujas.

Eu até gosto de coisas sujas.

Acontece muito comigo, eu faço as coisas

e nem tô no controle.

Não é a cabeça, é o corpo. Sinto umas vontades estranhas.

Não sou a única.

O que você acha?

O James é um babaca.

Um bosta.

Um perdedor completo. Não sei o que você vê nele.

Ele tem tudo sem fazer esforço.

Não tenho paciência.

O que você vê nele?

Imagina você transar com um cara e ele não te responder depois.

Só você sabe o que estava procurando no trem.

O que você faria no meu lugar?

Isso não aconteceria comigo.

Por que não?

Ah, não se faz de tonta. Você sabe o porquê.

Não sei.

Por que você diz isso?

Olha pra mim.

- Suzanne, que ridículo. - Para.

Tudo bem.

Tô acostumada.

Sério, você é...

Tudo bem, eu gosto.

Deve ser confortante.

Saber que você não é a mais feia.

Algumas têm que ser "incomíveis" para outras serem comíveis.

Isso é coisa da sua cabeça.

Não, não é.

O James deu sorte.

Ele só está se aproveitando disso.

- Quer água? - Não, obrigado.

Certeza?

Você é tão bonito.

Não quer dormir?

Vai dormir.

TERREMOTO DE 1980: BAIRROS DE NÁPOLES DEVASTADOS

A NUVEM DE FUMAÇA ENCHEU MINHA CABEÇA

E O BARULHO NÃO PARAVA.

FOI TÃO RÁPIDO...

"A nuvem de fumaça enche minha cabeça

e o barulho não para.

Tudo acontece tão rápido.

Há gás e cinzas.

De repente, surge a luz.

Tudo está tremendo.

Pessoas gritam e choram.

Buscando desesperadamente o que sobrou.

Não sobrou nada.

Ninguém me contou.

É daqui que eu vim.

Deste país.

Desta história.

Eu poderia ter feito qualquer coisa,

ter sido como eles.

Não vou esconder nada.

Vou te contar o que eu vi.

É lindo aqui. Há luz.

A verdade é reconfortante.

Nada aqui foi feito para mim.

Você não me contou nada.

Não conheço ninguém.

Esta igreja...

Tem outra igreja embaixo dela.

Quando o Vesúvio erupcionou,

ela foi soterrada.

Se você descer a rua,

vai encontrar outra cidade.

Dá para descer...

e você verá a antiga cidade.

O trânsito é assim todo santo dia.

É uma cidade linda, mas é caótica.

Você acha que a gente chega a tempo? Porque...

Eu poderia adiar o nosso compromisso.

Não, acho que vai dar certo.

Olha só para isso.

O trânsito.

Tudo fossilizado.

Tudo congelado no tempo.

Mas é lindo.

Lindo, sim, mas...

É uma bagunça.

Há quanto tempo?

Há quanto tempo viajo pela Itália?

Há quanto tempo você é professora?

Cerca de 20 anos.

20 anos?

20 anos não é pouca coisa.

Você não fica entediada?

Fazer a mesma coisa por 20 anos.

Não, não fico entediada.

Só estou exausta. Estou completamente exausta.

Isso não é muito melhor...

Não.

Não é.

O que acontece com seus filhos quando viaja com a escola?

Não tenho filhos.

Isso facilita as coisas.

Você quer ter filhos?

Não sei.

Você está sozinha?

Sim.

Tudo bem, gosto de ficar sozinha.

Pelo menos na maior parte do tempo.

Sozinha no ônibus hoje, quero dizer.

No ônibus!

Não, estou com minha colega.

Não a viu subir?

Não.

Ela está lá atrás.

Vai dar tudo certo.

O que é isso?

Meu trabalho.

Que trabalho?

Sobre Pompeia.

O que é isso?

O trabalho.

Não é uma boa hora.

Eu fiz, então estou entregando.

Mas não está pronto. É um rascunho.

- Não é. - É sim.

- Não é um rascunho. - Está ilegível.

“Uma nuvem de fumaça enche minha cabeça.

O barulho não para.”

É lírico?

Você sabe quanto tempo eu levo para corrigir?

Você é exaustivo.

Sinceramente, já chega.

Você que se vire sozinho. Cansei.

Eu te dou prazo extra. Eu confio em você.

Você não tá nem aí.

Chega, para já mim deu.

Para mim também.

Em 1867, a equipe do arqueólogo Fiorelli

descobriu cavidades em Pompeia.

Ele teve a ideia de preenchê-las com gesso.

Fiorelli fez uma espécie de molde dos homens e das mulheres

no momento exato da erupção. Eles são chamados de moldes.

Este que veem aqui foi chamado por muito tempo de "Mulher Grávida.

Imagino que saibam o motivo.

Estudos recentes mostraram que não era nada disso.

Foram apenas a posição dela e a gravidade

que fizeram a barriga sobressair.

Todos os moldes...

foram alvo de inúmeras interpretações e fantasias.

Amantes abraçados,

uma mãe e seu filho, e assim por diante.

Mas o que temos diante de nós

é um vestígio único da condição humana.

Olhem bem.

Olhem.

A posição dela.

A linguagem corporal desta mulher que espera pela morte.

Ela a encara neste momento.

Ela deve ter ouvido o estrondo ao seu redor.

Esta mulher, esperando a morte,

esconde os olhos como uma criança.

A expressividade

do corpo dela, do rosto,

a emoção que sentimos ao olhar para ela.

Podemos imaginar a morte dela.

O terremoto, as pedras-pomes.

E, no entanto, o corpo segue intacto.

É como se a vida simplesmente tivesse partido.

Alô.

- Oi, mãe. - Alô.

Tudo bem?

- Alô? - Está me ouvindo?

Estou com tempo, aí te liguei.

Que bom.

Fez algo hoje? Viu alguém?

Na verdade, não.

A Sylvie passou aqui de manhã.

Vou ao mercado daqui a pouco.

Não sei que horas passa o ônibus.

Isso me dá ansiedade.

Os horários estão na porta quando você entra.

No armário à esquerda.

Eu sei.

É loucura estar aqui.

É tão bonito.

É.

Mas não quero esperar demais no ponto de ônibus.

Da última vez fiquei doente, lembra?

Sei lá, põe um casaco.

Sabe o 128?

Alguns param em Dampierre, outros em Robinson.

Pega o que para em Robinson.

Aí é que tá.

E se parar em Dampierre?

Não vai, vai parar em Robinson.

Só estou dizendo que pode parar em Dampierre.

Como assim? Deixa de bobagem.

- Está escrito no ônibus. - Eles fazem de propósito.

O que é isso?

De onde veio isso?

O que você fez?

O James ficou menstruado!

Vai se foder!

Tá por toda parte. Não pisa aí.

Acha engraçado?

Calma.

Seu senso de humor é uma merda.

- Relaxa. - Não, relaxa você.

Não começa. Já chega.

James, fica aqui.

- Sai. - Eu não fiz nada.

Por que você sempre... Eu não fiz nada!

Por favor, Toni. Não é a hora.

Afastem-se, todos.

- Inacreditável. - O motorista está esperando.

O jantar é às 19h no convento.

Temos que ir, não podemos atrasar.

Você e machucou? Isso não está certo.

Levante-se. Devagar.

Sente-se, Mariam.

Vá com eles, eu limpo.

James, ajude a Sra. Mercier.

O resto vai embora. Me sigam.

Tirem os sapatos.

Se os seus sapatos estiverem sujos, tirem.

- Não vou tirar! - Não está em discussão.

Tira logo ou vai sujar tudo de vermelho.

Pareço um mendigo.

O quê?

É ele, ele não para.

Ele tá enchendo o saco.

Vai.

Ficou triste pela jaqueta?

É que eu gostava dela.

Mas foi estranho o que aconteceu.

É, bem estranho.

Vamos por aqui, é mais bonito.

Não vou te oferecer cigarro, você fuma demais.

Você já me viu fumando?

Nunca fumo no trabalho.

E está trabalhando agora?

Não estou fumando.

Quer um pouco?

Quero. Obrigada.

- É lindo. - É, incrível.

Vá para o seu quarto, por favor.

Me deixa em paz.

ARISTOCRACIA MONTORSI

- Tudo bem, James? - Tudo.

Bom dia, Suzanne. Muito bem.

- Lindo trabalho. - Obrigada.

Fiquei impressionada. Parabéns. Fantástico.

- Younès. - Olá, professora.

- Olá. - Como vai?

- Bem, e você? - Não acredito!

- Perdeu o meu? - Não, não se preocupe. Aqui.

- Aqui está. - Obrigada.

Rose.

Obrigada.

Olá.

Pauline.

Nessa a gente se ferrou.

Hugo.

Salim.

E James.

Muito bem. Há alguns erros,

não esqueça de revisar. Muito bem.

Ótimo.

- Parabéns, Mariam. - Obrigada.

Você dá pra todo mundo.

Como assim?

Cala a boca.

- Para de tomar esses remédios. - Cala essa boca.

- Não termina igual à sua mãe. - Vai se foder.

Cai fora.

Oi.

O que está fazendo?

Não vou fazer o trabalho com você.

Não sei o que fazer.

Não tem mais ninguém pra conversar?

Onde conseguiu isso?

Alguém me emprestou.

Pra quê?

Nada.

Posso ir junto?

Se quiser.

Estamos quase chegando.

Quanto falta?

Quanto falta?

Chegamos! Tem que estacionar.

Me disseram que meu avô morreu num terremoto.

Que a casa desabou em cima dele.

Não deveria estar aqui.

Não entendo, foi por isso que minha avó foi embora.

Ele a engravidou antes de morrer.

Não tinha nada aqui, ela foi para a França.

Ela era faxineira.

Ele era o patrão dela?

Sim.

Ela teve a minha mãe e morreu alguns anos depois.

Eu dizia a mim mesmo que ela amava tanto o meu avô...

Não, Toni...

Você tá sendo romântico demais.

Patrões não têm casos de amor com as suas empregadas.

Geralmente é mais parecido com estupro.

Como ela se chamava?

Angelica.

Está tudo sujo.

Merda.

- A gente deixou aqui, né? - Foi.

- Não estou com as chaves. - Para com isso.

Deixei a chave na ignição.

Eu tô tão feliz!

- École du Louvre? - Sim.

Passei no Henri-IV, olha! Tô tão feliz!

Mandou bem, Jean-Eudes. Estou feliz por você.

Eu estava com tanto medo.

Já olhou o seu?

Safia?

Tô na lista de espera.

Em tudo?

Isso vai mudar. Você vai conseguir uma vaga logo.

Eu sei, mas...

Tô lá no fim da lista. Acho que não passo.

E você?

- Passei em Direito. - Que ótimo!

- É, bem legal. - E você?

Vou cursar Arquitetura.

Demais! Que ótimo, parabéns.

Suzanne, vai olhar!

Que demais!

E você, Younès?

Não passei em nenhuma das três faculdades que tentei.

Por que só tentou três?

Eram as que eu queria. Eu tenho a segunda melhor nota!

Sim, mas em Montrouge.

É bom, mas o algoritmo leva isso em consideração.

Talvez você devesse ter tentado mais opções.

Merda...

Não vou estudar ano que vem.

Não, Younès.

Não se estresse à toa.

Já conversamos sobre isso.

Você vai passar em alguma.

Tenha paciência, tá?

E você, Mariam? Não falou nada.

Eu passei.

- Tô super feliz. - Fico feliz por você.

Tudo bem?

E aí?

Passei no Lakanal.

Massa.

Liguei pra minha mãe, ela ficou super feliz.

Ela estudou lá também.

Que bom.

Pois é.

Eu não quero a vida dela.

O que foi?

Sei lá.

É sempre a mesma coisa entre nós.

Não entendo o que quer dizer.

Fala comigo.

Você não ama ninguém.

Para.

Chega.

Tudo bem, Scout?

Não consigo fazer mais nada.

Vai falar com a Mercier.

- Passou no que queria? - Passei.

- Onde? - Em Artes, na Estienne.

Que ótimo pra você.

Tenho que ir.

Você não quer ficar?

É nossa última noite aqui.

Nunca é a melhor.

Sei lá.

Quero dançar.

Vai dançar, então.

Vai lá. Valeu por vir comigo.

De nada.

Toni?

Aonde você vai?

Estou cansado, vou deitar.

Está tudo bem?

Sim, só cansado.

Já viu o resultado das faculdades?

Vejo amanhã.

Tem certeza?

Tenho.

Boa noite.

Boa noite.

Toni, onde você está?

Me diz onde você está.

Cadê a moto?

Vou buscar.

Preciso dela.

Qual é a senha dele?

170408.

Obrigada.

Vão dormir, vocês dois.

Vão dormir, está tarde.

Ele é alto, tem uns 1,70 m.

Loiro, de olhos castanhos.

Sabe o que ele está vestindo?

Um casaco branco,

calça branca e sapatos brancos.

Como ele se chama?

Toni Lorme.

O que você é dele?

Sou a professora de Latim dele, Marianne Mercier.

Quem é o responsável por ele?

Eu sou.

Vou transferir a senhora para o setor responsável.

Obrigada.

No mínimo duas horas.

Não sei que horas chego em casa.

Acho que vamos atrasar algumas horas.

Até encontrá-lo.

- Acho que eu... - Sim, pode ir.

Atenção, pessoal, por favor.

Juntem-se aqui, todos.

Suzanne, Amaury, aproximem-se. Rebecca.

Cheguem mais perto, por favor.

Mais perto, por favor.

Vem, Rose.

O corpo do Toni foi encontrado numa praia.

Ele morreu.

Terei que ficar em Nápoles mais um pouco.

Vocês vão voltar com a professora Paquin.

Eu...

Não sei nem o que dizer...

Nós vamos entrar em contato com os seus pais.

Depois, vamos tentar entender o que aconteceu.

Agora, quero que fiquem juntos. Tudo bem?

Fiquem juntos.

Entrem no ônibus. Vai ficar tudo bem.

Vão.

Vai ficar tudo bem.

Vamos, entrem no ônibus.

Vamos, entrem no ônibus.

Depois da viagem, a investigação demorou bastante.

As circunstâncias da morte do Toni continuaram nebulosas.

Muitos tentaram dar sentido ao que aconteceu.

Falavam de tudo sobre ele,

que vivia drogado,

que era mentiroso,

instável.

A Mercier ficou afastada até o fim do ano.

Toda a turma passou por apoio psicológico.

Depois, fizemos as provas finais.

A Mercier voltou em setembro.

Ela fala dele em todas as aulas.

Não sei bem o que ela diz.

Coisas bonitas,

eu presumo.

Eu fui para o cursinho.

Tudo parecia maior em Paris.

Tudo era possível.

O James nunca superou a morte do Toni.

Ele nunca voltou para a escola.

Não foi para o cursinho.

Desapareceu num sopro.

Ninguém tinha enxergado como era puro o seu amor pelo Toni.

O Toni estava errado.

Nem tudo é sujo.

PARA TODOS AQUELES QUE NÃO SÃO DAQUI

Legendado por Cabine de Projeção

Adaptação: Lzito

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