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A M�SICA, A N�O SER QUE ASSINALADA DE OUTRA FORMA,
� EXECUTADA POR MILES DAVIS.
AS PALAVRAS DE MILES S�O SUAS, NA VOZ DE CARL LUMBLY.
Comigo, a m�sica sempre foi como uma maldi��o.
Sempre me senti impulsionado a tocar.
� a primeira coisa na minha vida.
Vou dormir a pensar nisso e acordo a pensar nisso.
Est� sempre presente.
Vem antes de tudo.
Viver � uma aventura e um desafio.
N�o se trata de ficar parado e estar seguro.
Mas sempre fui como sou, sempre fui assim a vida inteira.
Se algu�m quer continuar a criar, tem de se concentrar na mudan�a.
Nasci em Alton, no Illinois,
uma pequena cidade fluvial na margem do Mississ�pi.
O meu pai mudou a fam�lia para East St. Louis.
East St. Louis e St. Louis eram cidades rurais,
cheias de gente do campo,
especialmente de brancos da zona.
Mesmo rurais
e racistas at� ao �mago.
O Miles cresceu numa situa��o abastada.
O pai dele era dentista.
Tamb�m tinha uma quinta e criava gado...
HABITANTE DE EAST ST. LOUIS
...e porcos e tudo isso.
Faziam parte da elite na cidade.
ESCRITOR
Era o segundo tipo mais rico no Illinois. Um homem negro.
Mas o per�odo em que ele cresceu...
ESCRITORA
...ainda era a Am�rica de Jim Crow.
Portanto, a sua riqueza, a riqueza do pai,
n�o podia proteg�-lo da segrega��o e do racismo,
num lugar como East St. Louis.
Quando fiz 13 anos, o meu pai comprou-me um trompete novo.
A minha m�e queria dar-me um violino, mas o meu pai imp�s-se.
Causou uma grande discuss�o entre eles.
Eles estavam em conflito desde que era pequenino.
Ele ouvia a m�e e o pai a falar e a discutir...
AMIGA DE INF�NCIA
...e acho que isso lhe entrou na cabe�a desde muito jovem.
O Miles absorveu isso. Ele absorveu tudo isso.
A raiva, esse tipo de atitude em rela��o �s mulheres.
Lembro-me de a minha m�e pegar em coisas e atir�-las ao meu pai.
Ficou t�o zangado que a esmurrou.
Fez com que ela perdesse alguns dentes.
Teve de afet�-la de alguma forma, embora eu n�o saiba realmente como.
O Miles era considerado um g�nio,
mas tamb�m era considerado...
...estranho, creio.
LICEU LINCOLN, EAST ST. LOUIS
O Miles ia para a floresta,
ouvia os animais, ou ouvia os p�ssaros,
e tocava o que estava a ouvir.
Sempre teve a sua pr�pria maneira de fazer as coisas.
O Miles come�ou muito cedo
como membro na sec��o de trompetes, nos Blue Devils de Eddie Randle.
O Miles era jovem e baixo.
ESCRITOR
Ele mal enchia o fato que usava nos espet�culos.
Enquanto os outros tipos na banda de Eddie Randle tinham empregos...
HISTORIADOR
...Miles Davis, um adolescente, torna-se rapidamente no diretor musical
desta banda de dan�a popular.
BILLY ECKSTINE E A SUA ORQUESTRA
O momento crucial para o Miles
foi quando, no ver�o depois do liceu,
� convidado a acompanhar a banda do Billy Eckstine.
O Charlie Parker e o Dizzy Gillespie estavam na banda.
Quer dizer, ele tinha o laborat�rio,
o futuro do jazz moderno, ali mesmo, naquela grande banda.
A melhor sensa��o que j� tive na vida,
com a roupa vestida,
foi quando conheci o Diz e o Bird.
Eu tinha 18 anos.
Decidi ali mesmo que eu tinha de estar em Nova Iorque, na 52nd Street,
onde as coisas aconteciam.
Walter Cronkite a transmitir.
Os anos de guerra trazem sempre novas tend�ncias e gostos,
e o gosto mais estranho do momento � o entusiasmo gerado
pelo barulho musical chamado jazz.
Esta m�sica estranha foi acusada de tudo,
incluindo o mau tempo e a atual decad�ncia da moralidade.
A 52nd Street era uma Meca dos bares de jazz.
M�SICO
Havia bares de jazz em ambos os lados da rua.
Nunca ouvira nada igual ao que se tocava na 52nd Street.
�amos at� l� e ouv�amos, assombrados.
Aquela merda era t�o boa que metia medo.
M�SICO
Cada bar tinha uma coluna c� fora para ouvir o que acontecia l� dentro.
Mas pod�amos ficar c� fora...
ESCRITOR
...e ouvir a m�sica, at� um porteiro...
Os bares tinham porteiros que nos afugentavam.
O Miles matriculou-se na Juilliard porque queria aprender m�sica
e porque a m�e queria que ele fosse um m�sico de forma��o e tudo isso.
Ele levava Juilliard a s�rio, estava realmente empenhado
e valorizou o que a Juilliard podia oferecer.
Muitos dos tipos mais velhos pensavam que, se estud�ssemos,
tocar�amos como se f�ssemos brancos.
Se aprend�ssemos a partir da teoria, perder�amos o sentimento na execu��o.
Eu ia � biblioteca
e requisitava partituras de todos os grandes compositores.
Queria ver o que se passava em toda a m�sica.
Por�m, ele sabia que havia outra tend�ncia.
E n�o acontecia na Juilliard.
Ent�o, ele ia para a Julliard durante o dia
e, � noite, ia para a 52nd Street.
Passei a primeira semana em Nova Iorque � procura do Bird e do Dizzy.
Gastei o meu dinheiro todo e n�o os encontrei.
E, uma noite, ouvi uma voz atr�s de mim a dizer:
"Miles, ouvi dizer que andavas � minha procura."
Virei-me, e l� estava o Bird.
Os m�sicos de bebop eram grandes g�nios.
Podemos comparar o bebop ao Projeto Manhattan.
ESCRITOR
E foi desenvolvido por grandes f�sicos do som,
soprando ao extremo para levar a m�sica at� onde podiam.
O Miles entrou numa esp�cie de epicentro de pesquisa e desenvolvimento musical.
O bebop era uma m�sica negra.
Era uma m�sica criada por m�sicos negros
que queriam distanciar-se totalmente da can��o ambulante.
Nada de sorrisos, nem gargalhadas, nem mostrar os dentes, nem dan�ar.
Nada de entretenimento.
Queriam ser artistas, tal como Stravinsky.
M�SICO
Tal como o Stravinsky, que era um artista puro.
O Miles viu aquelas personagens muito bem vestidas.
A dignidade que vinha com isso, a nobreza que vinha com isso,
e a altivez.
Pouco depois de Miles come�ar os estudos em Juilliard,
a Irene chegou, a namorada do liceu,
com o filho deles e outro beb� a caminho.
De repente, ali estava ela, a bater � porra da minha porta.
A minha m�e disse-lhe para vir.
Parece quase imposs�vel o que ele tentou fazer, com aquela idade.
Havia a situa��o dom�stica, com as crian�as.
Havia o tipo de tempo necess�rio para qualquer aluno s�rio na Juilliard,
mas tamb�m havia o tempo e empenho que esta m�sica exige,
e, a dada altura, algo tinha de ceder.
A m�sica era tudo. Era tudo.
Era sexual, sensual, tudo.
Poder.
Tudo. Humor.
E depois, ele n�o podia partilhar isso.
E algu�m teve de ficar em segundo lugar.
Um dia, a professora disse que o blues tinha origem
nos sofrimentos oprimidos dos escravos, na escravatura...
M�SICO
...do choro, dos lamentos e de tudo isso,
que aquilo se tornou o blues do povo acorrentado.
O Miles estava no fundo da sala e levantou a m�o enquanto ela falava.
Ela disse: "Sim?"
Ele disse:
"Voc� � uma mentirosa de um raio."
E saiu da sala.
O Miles, num espa�o de meses, convivia com Bird,
gravava com Bird.
Ele realmente entra em cena, imediatamente.
Todas as noites, subia ao palco com Bird.
O Bird tocava a base e deixava-o no palco sozinho.
Disse que vomitava todas as noites
porque estava t�o stressado e humilhado.
Aqueles tipos conseguiam deix�-lo exausto,
mas ele resolveu outra coisa.
Ele criou um estilo que refletia verdadeiramente quem ele era.
Um tom l�mpido, lirismo...
Era ele.
MUSIC�LOGA
Era ele, de forma org�nica e singular.
O Miles conheceu o Gil Evans, e havia um n�vel de respeito m�tuo
e de dedica��o m�tua � m�sica,
que duraria uma vida inteira.
Eu gostava do modo como o Gil compunha,
e ele gostava do modo como eu tocava. Ouv�amos o som da mesma forma.
No final dos anos 40, trabalharam juntos num projeto.
Chamava-se Birth Of The Cool.
Um noneto que criaria
uma esp�cie de fus�o de ideias cl�ssicas modernas com o jazz.
E agora, senhoras e senhores,
trazemos-lhe algo novo na m�sica moderna.
"Impress�es em M�sica Moderna", com o grande Miles Davis
e a sua nova e maravilhosa organiza��o.
Acho que a inten��o era criar uma m�sica para ouvir,
uma m�sica de concerto,
que, muito deliberadamente, n�o tivesse o dinamismo
nem o estilo da 52nd Street.
Mas tratava-se principalmente de criar novas cores,
para ampliar a paleta do jazz.
E acho que ele tinha no��o de que, para fazer progredir a m�sica,
temos de lev�-la a um lugar aonde nunca foi.
O cora��o da civiliza��o europeia bate com for�a outra vez.
Paris est� livre.
� o fim de quatro anos de dom�nio Nazi em Paris.
Voltou a ser a "Cidade da Luzes".
Foi um momento muito privilegiado na vida da Fran�a.
ATRIZ
Muito.
Porque havia uma euforia,
a euforia do p�s-guerra.
Houve duas bombas. A bomba at�mica e a Liberta��o.
Depois da guerra, a Fran�a estava diferente, a Europa tamb�m.
ESCRITOR
E precisavam de um som novo para aquela era.
Foi o jazz.
Est�o a ouvir o Quinteto de Tadd Dameron e Miles Davis.
Eis Miles Davis.
Foi a minha primeira viagem fora do pa�s.
Adorava estar em Paris e adorava a forma como me tratavam.
Ele disse que at� a comida sabia melhor em Fran�a.
Que at� o cheiro no ar era mais belo em Paris.
Aquele momento foi muito estimulante para ele.
A m�sica havia sido a minha vida.
Sempre me concentrei muito na m�sica.
Nunca tivera tempo para nenhum tipo de romance.
At� conhecer a Juliette Gr�co.
No primeiro concerto em que vi o Miles, vi-o de perfil.
Ele era extraordin�rio, muito bonito.
Esteticamente bonito. Ele era lindo.
O meu ingl�s ainda � mau,
mas, naquela altura, era mesmo muito mau.
E...
Mas conseguimos entender-nos.
Foi um milagre.
Aquilo a que se chama um milagre de amor.
A Juliette e eu costum�vamos andar juntos na margem do Sena,
de m�os dadas e a trocar beijos,
a olharmo-nos nos olhos e a beijarmo-nos mais.
Eu gostava muito da Irene,
mas nunca me sentira assim na minha vida.
Ela introduziu-o num c�rculo de outros artistas,
de intelectuais e fil�sofos,
das maiores mentes daquela �poca.
O jazz era visto como o auge da arte, na altura,
dentro dos c�rculos intelectuais e criativos franceses.
Conheceu Pablo Picasso, Jean-Paul Sartre...
Foi tratado como igual por alguns dos gigantes mais criativos do momento.
Paris, para Miles, foi uma esp�cie de abertura
de possibilidades e de potencial.
A sensa��o de que algu�m podia ser completamente aut�ntico,
al�m dos limites da ra�a,
que isso n�o era um entrave.
Ali�s, podia ser um fator ben�fico para a capacidade de ascens�o.
Paris foi onde percebi que nem todos os brancos eram iguais,
que alguns eram preconceituosos e outros n�o.
S� tinham passado duas semanas,
mas eu vivia numa ilus�o de possibilidade.
Talvez tivesse acontecido um milagre.
Sartre perguntou ao Miles: "Porque n�o te casas com a Gr�co?"
O Miles disse: "Porque estou apaixonado por ela. Amo-a."
Estava t�o deprimido ao voltar para este pa�s, no avi�o,
que n�o consegui dizer nada durante toda a viagem.
N�o sabia que aquilo me afetaria daquela maneira.
Todos os artistas afro-americanos que passaram tempo no estrangeiro
falam da profunda desilus�o de regressar aos Estados Unidos.
Viam o seu pa�s como o conheciam,
mas sob uma luz ainda mais crua,
porque experienciaram algo diferente.
Foi dif�cil para mim voltar �s tretas
que os brancos faziam um negro passar, neste pa�s.
Perdi o meu sentido de disciplina,
perdi o controlo sobre a minha vida e comecei a andar � deriva.
Antes que me desse conta, tinha o v�cio da hero�na,
que significava arranjar e injetar hero�na constantemente, todo o dia e toda a noite.
Eu s� vivia para isso.
A carreira dele estava fora de controlo.
N�o havia expectativas de que Miles fosse sobreviver,
quanto mais voltar a ser um m�sico de sucesso.
Eu tinha um bar... creio que era em Hartford.
Contratei o Symphony Sid All-Stars.
E o Symphony Sid disse: "N�o d�s dinheiro nenhum ao Miles."
O Miles veio ter comigo na primeira noite e disse: "George, d�-me cinco d�lares."
PROMOTOR DE JAZZ
E eu: "Miles, v� l�, meu."
"George, d�-me dois d�lares."
E eu: "V� l�, Miles."
"George, d�-me 50 c�ntimos."
"Sabes, meu..."
"George, d�-me um c�ntimo."
Foi a minha primeira reuni�o com o Miles.
Est�vamos a tocar num bar em Nova Iorque,
e o pai dele veio de East St. Louis.
Ele apareceu no bar,
tirou-o do palco e deixou o trompete dele e tudo.
Disse: "Anda. Vens para casa comigo."
Senti-me como um rapazinho a ir com o pai.
Nunca me sentira assim
e, provavelmente, nunca mais voltei a sentir-me assim.
No caminho para casa, disse-lhe que ia largar a droga
e que s� precisava de descansar um pouco.
Antes que me desse conta, estava a injetar-me outra vez,
a pedir dinheiro ao meu pai para sustentar o v�cio.
Consegu�amos v�-lo a mover-se atrav�s da noite.
Depar�vamo-nos com ele algures. Nem sab�amos que era o Miles.
Ele chegava a trazer roupa que parecia...
HABITANTE DE EAST ST. LOUIS
...que lhe dava aspeto de sem-abrigo.
Quer�amos que ele fosse o Super-Homem.
E, simplesmente...
...n�o funciona assim.
Odiava v�-lo a decair daquela maneira.
Mas eu...
...n�o quero falar nisso.
Fui para a quinta do meu pai, em Millstadt.
Eu estava doente.
Se algu�m me tivesse garantido que morreria em dois segundos,
eu teria aceitado.
Aquilo durou sete ou oito dias.
N�o conseguia comer.
Ent�o, um dia, aquilo passou, de repente.
Passou.
Senti-me melhor.
Bom, puro.
Um jovem branco criara uma nova editora de jazz chamada Prestige
e pediu-me que fizesse um disco para ele.
Calculei que, a partir dali, s� podia melhorar.
No fundo j� eu estava.
N�s, os cidad�os negros, decidimos n�o andar de autocarro...
Concurso Miss Am�rica.
Emmett Till foi levado...
O novo e incr�vel Chevrolet.
Todas as misturas de bolo Betty Crocker...
Esta tarde, a Disneyl�ndia, o reino mais fabuloso do mundo...
Eu estava num bar em Nova Iorque, e o Miles estava nas traseiras do bar.
E o Miles apanhou-me � sa�da do bar
e disse: "V�o ter um festival de jazz em Newport?
Eu disse: "Sim, Miles."
Ele disse: "N�o podem ter um festival sem mim."
Eu disse: "Queres participar no festival?"
E ele: "N�o podem ter um festival sem mim."
Eu disse: "Est� bem. Vou ligar ao teu agente."
Newport era como uma audi��o.
Na plateia, a ouvir, havia executivos da Columbia Records.
A Columbia Records era a Tiffany das editoras, na altura.
Ele sabia o que significava.
Sabia o que significava para ele.
Se tivesse essa oportunidade, como tinha em Newport,
ele ia agarr�-la, com unhas e dentes.
O Miles p�s a camp�nula do trompete mesmo em cima do microfone
e mudou o mundo do jazz, ali mesmo,
e mudou a carreira dele, ali mesmo.
Porque a beleza dessa can��o e a beleza do trompete do Miles
fizeram do bebop uma m�sica que podia ser aceite por todos.
Agora podiam p�r a m�sica do Miles enquanto faziam amor.
Tocar uma balada requer muita coragem.
� f�cil escondermo-nos a tocar notas em todas as dire��es.
"Sei fazer isto."
M�SICO
� do tipo... Est� bem.
A maioria dos homens tem medo de ser vulner�vel.
� o que as mulheres mais gostam num homem.
Acho que o Miles, por um lado, aparece assim...
...mas depois, come�a a tocar, e as pessoas...
Ele desarma-nos, simplesmente.
O som do Miles � singular desde a primeira nota.
H� uma sensa��o...
...de prazer, de beleza.
H� algo muito rom�ntico.
Mas � rom�ntico sem ser sentimental.
Ele est� a mostrar-nos o seu �ntimo,
t�o diretamente, para o cora��o, para...
...para os nossos �rg�os vitais.
Queria sentir-me como o som da m�sica do Miles.
O Miles tinha uma forma de tocar...
...que soava como uma pedra...
M�SICO
...a saltitar pelo lago.
Ele simplesmente tocava nas ondas.
�s vezes, deixa uma nota de fora.
E j� vi pessoas assim...
M�SICO
...� espera dessa nota.
O som dele era t�o puro
e elegante
e saboroso.
Musicalmente saboroso.
O Miles podia tocar uma nota...
Eu vi... apenas uma nota,
e alguns grandes apostadores que vinham ao bar
ouviam essa nota e diziam:
"Para mim, j� valeu a pena. J� valeu o meu dinheiro."
E preparavam-se para sair.
O Miles fazia... E eles: "� isso mesmo, meu."
Em fevereiro ou mar�o de 1956,
tive de remover um tumor benigno da laringe.
J� me incomodava h� algum tempo.
Nem sequer devia falar durante dez dias.
Passou uma semana, e ele estava muito bem.
AMIGO
Na segunda semana...
...n�o conseguia ficar calado.
Eram todos um bando de cabr�es.
E foi a�.
Ficou com a voz �spera.
E nunca sarou.
Na altura, ningu�m sabia que o Miles tinha sido operado...
AMIGA
...e que a voz tinha sofrido com isso. Subiu ao palco
e come�ou a anunciar naquela voz grave o que ia tocar naquela noite.
Acho que disse duas ou tr�s frases,
e o p�blico, muitos deles, come�aram a rir-se dele.
E o Miles virou-se,
olhou para o p�blico, tinha um olhar muito estranho,
e saiu.
Eu conseguia comunicar com a banda s� com um certo olhar.
� isso que fa�o quando estou de costas para o p�blico.
N�o me posso ralar com conversas e tretas enquanto estou a tocar,
porque a m�sica fala com eles quando corre tudo bem.
George Avakian, o produtor de jazz da Columbia Records,
queria dar-me um contrato exclusivo.
Disse-lhe que queria assinar com a Columbia
por causa de tudo o que me ofereceu.
George Avakian disse:
"Eis uma lista de exig�ncias que gostaria que cumprisses.
Tens de andar s�brio.
Tens de ter uma banda consistente."
E a �ltima exig�ncia era livrar-se do contrato com a Prestige.
Vou tocar e depois, digo o que �.
Ele tinha um quinteto novo, com John Coltrane como saxofonista tenor,
e levou esse quinteto para os est�dios de Rudy Van Gelder,
e tocou melodia atr�s de melodia...
HISTORIADOR
...e gravou m�sica suficiente, em poucos dias,
para se livrar da obriga��o para com a Prestige.
Basicamente, deu liberdade aos m�sicos e disse: "Tomem.
Toquem o que s�o, sejam aut�nticos.
Vou simplesmente deixar a m�sica viver,
deix�-la respirar e desenvolver-se, � medida que a sentimos."
Miles achava que estava s� a cumprir a sua obriga��o o mais depressa poss�vel,
mas, na verdade, s�o joias de m�sica jazz espont�nea.
Duas sess�es de maratona, tr�s horas ou mais de m�sica gravada.
Um dos grandes feitos na hist�ria do jazz.
Quando conheci o Miles Davis,
estava a atuar com a Companhia Katherine Dunham.
Funcionou como apresenta��o a v�rias pessoas que conheci na altura,
neste mundo do espet�culo.
Eu estava em Paris, em Berlim, em todo o lado.
Diziam-me que tinha as melhores pernas no ramo.
O Hugh O'Brian queria namorar comigo,
o Rory Calhoun queria levar-me a Las Vegas.
Santo Deus...
DAN�ARINA
Estou a tentar lembrar-me de todos os cavalheiros...
Enquanto dan�arina, eu era espetacular em palco,
e acho que s� queriam saber mais sobre mim.
Eu n�o sabia muito sobre jazz.
Quem eu conhecia era o Johnny Mathis.
Eu estava a atuar no Ciro's,
e o Miles viu a atua��o
e ficou imediatamente encantado.
Mas os outros tamb�m ficaram.
Era s� mais uma s�rie de cavalheiros... que queriam estar com a Frances.
O Sammy Davis Jr. pediu-me para participar
numa pe�a nova que estava a fazer, chamada Mr. Wonderful.
A caminho do ensaio, um dia,
o Miles vinha a descer a rua,
olh�mos um para o outro, ele olhou para mim e disse:
"Agora que te encontrei, nunca te largarei."
E o que aconteceu foi que fui viver com ele.
A Frances Taylor era realmente uma musa, uma inspira��o.
Ela foi a pessoa mais inspiradora a quem ele se juntou.
Aquela com quem esteve mais tempo.
Ela foi algu�m que lhe deu estabilidade e amor,
numa altura em que ele produziu
algumas das suas obras mais inovadoras e populares.
Ele teve de ir para Paris
e deixou-me a m�sica.
Apaixonei-me pelo som dele.
Tocou-me.
E eu ouvia-o constantemente.
E foi essa a minha apresenta��o � m�sica dele.
Em 1956, quando o Miles chegou � Europa,
era suposto fazermos um ensaio.
PIANO
Ele nunca tocara com uma sec��o r�tmica europeia.
E ele n�o disse "ol�".
N�o sorria de todo.
E, sem dizer uma palavra, come�ou a tocar.
Segui-o imediatamente, porque conhec�amos a m�sica dele.
�ramos f�s da m�sica dele.
Pergunto-me sempre,
se tiv�ssemos dito: "Desculpe, o que est� a tocar?
N�o conhecemos isto."
Acho que ele n�o teria gostado, mas toc�mos.
E ele disse: "Boa!", e depois...
Foi s� isso.
Est�vamos ligados.
Amo-te.
Nunca te deixarei, Julien.
Amo-te.
Sem a tua voz, estaria perdido numa terra de sil�ncio.
Isso n�o � corajoso.
O Miles estava em Paris quando Louis Malle terminou o seu filme,
Fim de Semana no Ascensor.
O que raio vem a ser isto?
O Malle era muito jovem
e estava mesmo no in�cio da carreira.
Dinheiro?
Ele tamb�m queria fazer um cinema diferente
e mudar a forma de fazer filmes,
como ter pessoas reais num ambiente real.
E abordou o Miles com a ideia:
"Estarias disposto a criar uma banda sonora de jazz?"
Antes disso, um m�sico, para um filme,
vinha, chamava umas 30 pessoas.
Violino, percuss�o, metais, etc.
E: "Tr�s e quatro. Est�o prontos? Tr�s, quatro."
Os compositores sabiam exatamente a dura��o de cada sequ�ncia.
Dois minutos e quarenta segundos, etc.
Mas n�o com o Miles.
O Miles n�o escrevia m�sica.
Ele tocou a m�sica inteira
diretamente para a proje��o do filme.
Apenas a improvisar e a criar o som,
como rea��o �s imagens do filme.
Ver as imagens no momento em que toc�vamos
era muito importante, porque ele � a Jeanne Moreau.
A m�sica � dele, mas o sofrimento � da Jeanne Moreau.
Rapidamente percebemos que se tratava
de algo fant�stico, o que faz�amos.
A banda sonora tornou o filme famoso.
Muitas pessoas ouviam o disco primeiro
e queriam ver o filme em segundo.
Durante a grava��o de Fim de Semana no Ascensor,
Miles experienciou uma nova forma de abordar a improvisa��o.
Foi algo que ele desenvolveria nos anos seguintes.
Portanto, algo come�ou no est�dio de grava��o
de Fim de Semana no Ascensor.
Recome�a, por favor.
Vamos l�.
� o 0-62-291.
- N�mero dois, primeira toma. - Espera a�.
Devo ter chegado primeiro, porque tive de montar a bateria.
Levei a bateria, instalei-a e esperei at� que todos chegassem.
Ele apareceu s� com uns apontamentos que tinha.
Nem sequer tinha partituras.
A �nica coisa que ele me dizia era:
"S� tens de seguir o ritmo.
Segue o ritmo."
N�o escrevi a m�sica para o Kind of Blue,
mas levei esbo�os,
porque queria muita espontaneidade na execu��o.
Eu sabia que, se tivermos �timos m�sicos,
eles v�o lidar com a situa��o,
e tocar para al�m do que l� est�
e acima do que pensam ser poss�vel.
A primeira parte de "So What"...
Depois, o Paul entra no baixo, a dizer:
Foi a primeira coisa que ouvi do Miles.
Peguei no disco da cole��o do meu pai e pu-lo a tocar.
A primeira coisa que nos chama a aten��o � o Paul Chambers a tocar o baixo.
Nem podemos questionar os textos sagrados, mas tem de ser.
M�SICO
Porque � que a B�blia � a B�blia? � a B�blia.
Porque � que o Kind of Blue � o que �? � o Kind of Blue.
Simplesmente � o que � e mudou o som do jazz.
Nos c�mbalos no in�cio de "So What",
pensei que tinha exagerado.
Parecia-me mais alto do que devia ter sido.
E parece perdurar para sempre,
mas leva-nos para o centro da melodia.
� como se entr�ssemos na autoestrada, e o resto da melodia descolasse.
Em Kind of Blue, o que ele lhes pediu
foi que pensassem mais profundamente sobre que tipo de som podiam criar.
Ele disse: "Tenho algumas ideias.
Vamos a isso."
E isso � algo que o Miles far� para o resto da vida.
Kind of Blue n�o revela a paix�o dele t�o facilmente,
mas, ao mesmo tempo, quando os m�sicos se abrem,
mostram-nos o qu�o criativos e engenhosos podem ser,
e qu�o agitadores.
Kind of Blue significava realmente uma forma diferente de pensar na m�sica,
e uma forma diferente de tocar e abordar a m�sica.
E, para o Coltrane, era a porta de que precisava
para encontrar a sua identidade.
Poucas pessoas ouviram o potencial do jovem John Coltrane,
mas Miles convidou-o e deu-lhe espa�o
para se tornar o artista que, mais tarde, vir�amos a adorar e venerar.
H� quem n�o goste de jazz, mas goste desse �lbum.
A cada d�cada ou algo assim, h� pessoas novas a falar do Kind of Blue.
"Foi isso que me levou a ouvir jazz."
Podemos ouvi-lo centenas de vezes. Tem sempre algo novo a dizer.
E isso, para mim, � a defini��o de uma obra-prima.
Acho que o Miles n�o sabia que aquele seria um �lbum
que venderia mais c�pias do que qualquer outro,
na hist�ria do jazz, entendem?
Se o Miles soubesse que seria assim,
teria pedido o edif�cio
e teria pedido dois Ferraris l� fora imediatamente.
Ele teria sido extravagante.
Se pensasse que isso ia acontecer,
ter-se-ia vendido bem.
Kind of Blue teve sucesso imediatamente.
Estava a tornar-se numa estrela popular da corrente dominante.
O neg�cio da Columbia colocou a m�sica dele
na Am�rica convencional, como nunca antes.
Ele elevou-se para o mundo dos maestros da m�sica.
Tudo o que sempre quis foi comunicar o que sentia atrav�s da m�sica.
Escolher a Columbia significava mais dinheiro,
mas qual � o problema de ser pago pelo que fazemos e ser bem pago?
Era a era do negro,
quando ele quis mostrar o seu orgulho daquilo que era.
O Miles era a prova inequ�voca
e ele apresentava-se o mais elegante poss�vel.
O Miles Davis era a personifica��o da sofistica��o.
Aquele her�i mitol�gico.
Tornou-se o nosso super-homem negro.
Quando sa�a um novo �lbum do Miles,
and�vamos por a� com o disco.
M�SICO
Gostar do Miles
era, por si s�, uma defini��o de estar na moda.
O Miles Davis usava roupas elegantes, conduzia carros velozes,
e todas as mulheres e tudo.
N�o quer�amos apenas tocar com ele. N�s quer�amos ser o Miles Davis.
Eu dizia: "Miles, o que fazes com os teus filhos,
quando queres lev�-los contigo?"
Ele dizia: "Digo-lhes que apanhem um t�xi."
O Miles torna-se representativo de um tipo de eleg�ncia,
um tipo de sofistica��o,
um tipo de masculinidade.
De um tipo de negro que n�o admite tretas.
Ser sofisticado, moderno, revoltado, elegante e muito aprumado...
Eu era tudo isso e mais,
mas andava a tocar como o raio e tinha um �timo grupo.
Portanto, n�o obtive reconhecimento s� por ter uma imagem rebelde.
As pessoas come�aram a falar da m�stica do Miles Davis.
Acho que a escurid�o da pele do Miles Davis,
em vez de ver isso como um passivo,
ele viu isso como um ativo.
Era muito diferente de tudo
o que se projetava na televis�o ou nos filmes da altura.
O Miles transformou isso em algo sofisticado, algo desej�vel.
Andava muito elegante sempre que aparecia em p�blico,
e a Frances tamb�m.
Um cabr�o muito negro como eu,
com aquela mulher incrivelmente linda.
Meu... era qualquer coisa.
As pessoas paravam e olhavam boquiabertas.
O Miles comprava-me roupa, porque eu tenho...
Toda a gente sabe que tenho umas belas pernas.
Ele era chique, eu era chique.
E depois, � claro, a entrar e sair de um Ferrari...
�ramos um casal sensual, n�o h� d�vida.
O Miles e a Frances, a arrasar.
SOBRINHO
Em mi�do, quando os via juntos,
pensava: "Ena!", entendem?
Eles vestiam-se a rigor,
muito elegantes...
...e apaixonados.
Pareciam um pr�ncipe e uma princesa.
Eu tinha um amigo que era escritor, o George Frazier.
E ele pegou numa palavra
que aplicou ao Miles.
Tinha a ver com os matadores espanh�is, os toureiros.
Muitos tipos podiam matar os touros,
e alguns eram lutadores muito empolgantes.
Mas outros andavam na pra�a, ficavam l� e seguravam a capa,
e o touro carregava,
e o p�blico sustinha a respira��o.
Aquele lutador tinha duende.
E o Miles tinha duende.
O Miles era o tipo de pessoa... Tinha coisas de que gostava.
Se gostava de ti, gostava. Se n�o gostava de ti, n�o gostava.
Era simplesmente esse tipo de pessoa.
Se estiv�ssemos nas boas gra�as dele,
era onde est�vamos.
E, se lhe desagrad�ssemos, ficar�amos a�, provavelmente.
Entendem?
Eu era frio para a maioria das pessoas.
Era assim que me protegia,
ao n�o deixar ningu�m entrar nos meus sentimentos e emo��es.
E, durante muito tempo, funcionou para mim.
Eu fui ao...
M�SICO
...Village Vanguard, onde o Miles estava a atuar,
e disse: "Sr. Davis, chamo-me Archie Shepp e...
Ser� que me deixa acompanh�-lo?"
E ele disse: "Archie quem?"
E eu... disse: "Archie Shepp".
Ele disse: "V�-se foder.
N�o me pode acompanhar."
O Miles n�o se ralava.
O Miles n�o tinha de agradar a ningu�m para al�m do Miles.
O Miles n�o estava interessado.
Percebem? Ele n�o se interessava pelas pessoas.
Porque ele era o Miles Davis.
Tinha muitas peculiaridades na sua personalidade.
Era revoltado, antissocial...
Mas, muitas vezes, essas inseguran�as e esses dem�nios
s�o aquilo que baseiam a arte,
para que a arte se torne numa forma de cura.
Deu-lhe a oportunidade de mostrar uma vulnerabilidade
e de mostrar um lado dele que, no mundo real, n�o podia mostrar.
Est�vamos a trabalhar no Birdland.
Toc�mos um set, e o Miles subiu c� cima para fumar.
Estava ali, em frente do Birdland, todo molhado,
porque era uma noite quente e h�mida de agosto.
Acabara de acompanhar uma rapariga branca e bonita, chamada Judy, at� ao t�xi.
Um pol�cia branco veio ter comigo e disse-me para me p�r a andar.
E o Miles disse "Porqu�? Estou a fumar.
Estou a trabalhar l� em baixo e a fumar um cigarro."
E ele estava ao lado do cartaz com o nome dele.
ESCRITOR
"M,I,L,E,S. Miles.
"Sou eu. Quem � voc�?
O Kind of Blue acabara de sair.
Ele estava na boca do mundo, e o nome dele aparecia no topo do cartaz.
Estava no auge da sua popularidade.
O tipo disse: "N�o quero saber. N�o podes estar a�."
E o Miles disse: "N�o saio daqui."
Fitei o rosto dele com muita dureza
e n�o me mexi.
O Miles, nessa altura, estava em t�o boa forma
que era dif�cil conseguir deitar-lhe a m�o.
Do nada, um pol�cia branco veio a correr e...
...bateu-me na cabe�a.
N�o estava � espera.
Recebi um telefonema
a dizer que eu devia ir � esquadra.
E vi a cara dele.
Era pavoroso.
Desfiz-me em l�grimas.
Eu esperaria esse tipo de treta em East St. Louis,
mas n�o aqui, em Nova Iorque,
que devia ser a cidade mais moderna e elegante do mundo.
Foi racial. Tudo aquilo foi racial.
A cidade inteira era racista, o mundo inteiro, acho eu.
Ent�o...
O que poderia ser?
N�o vejo outro motivo para al�m desse.
� um lembrete de que nenhum n�vel de realiza��o,
nenhum n�vel de conquista,
nenhum n�vel de sucesso financeiro, nem sequer de reconhecimento,
nos protege, realmente,
das hostilidades raciais dos Estados Unidos.
Raios... � do tipo,
n�o h� forma de sair desta coisa.
Esse incidente mudou-me para sempre.
Tornou-me muito mais amargo e c�nico do que poderia ter sido.
Ele costumava recordar. Est�vamos a falar, e ele dizia:
"Aqueles pol�cias do caralho."
Certo? Do nada. Era completamente aleat�rio.
Ele lembrava-se daquele homem.
Essas coisas n�o desaparecem.
L� porque, de repente, tens algum sucesso.
As coisas que nos acontecem quando somos jovens
ficam connosco para o resto da vida.
Miles Ahead foi a primeira colabora��o entre Miles Davis e Gil Evans,
depois de Miles assinar com a Columbia Records.
Foi uma das raz�es pelas quais o Miles foi para a Columbia Records.
Porque a Columbia tinha o or�amento e os recursos
para possibilitar um projeto assim.
O Gil e eu �ramos algo especial juntos, musicalmente.
Adorava trabalhar com o Gil porque ele era t�o meticuloso e criativo,
e confiava totalmente nos seus arranjos musicais.
Trabalh�vamos ao piano constantemente.
Eu dizia: "E que tal assim? E assim?"
Estava delirante por fazer a interpreta��o dele dos temas,
e encaixava t�o naturalmente.
Quando Miles Ahead � lan�ado,
aparece uma modelo jovem e branca no conv�s de um veleiro,
como a capa inicial.
Creio que era suposto evocar a vida da alta sociedade, a vida boa,
e permitia a comercializa��o do �lbum
para um p�blico mais vasto, que era branco.
O Miles foi ter com o George Avakian e disse:
"O que faz aquela cabra branca na capa do meu �lbum?"
Ele apercebeu-se do seu poder
como artista que gerava uma enorme quantidade de rendimentos
para a sua editora,
que ele tinha poder de decis�o nessas escolhas.
E a edi��o seguinte da mesma m�sica
saiu com outro t�tulo, com outra capa,
e o pr�prio Miles Davis aparece na capa.
Miles Ahead foi a primeira de tr�s colabora��es maravilhosas
com Gil Evans e uma orquestra de 19 pe�as.
Dois anos depois de Miles Ahead, veio Porgy e Bess.
E depois, dois anos depois disso...
Passei algum tempo em Barcelona.
Depois de terminarmos os espet�culos,
costum�vamos assistir a espet�culos de flamenco,
e eu fiquei encantada com isso.
Eu disse ao Miles:
"Quero que vejas o que vejo...
ESPOSA
...e sintas o que sinto com o flamenco." N�o queria ir, mas acabou por ceder.
E fomos ver m�sica e dan�a do flamenco.
Quando sa�mos do teatro,
n�s...
...fomos diretos � loja de discos Colony,
e ele comprou todos os �lbuns de flamenco que p�de.
Foi a coisa mais dif�cil que fiz no Sketches of Spain,
tocar com o trompete as partes que deviam ser cantadas,
especialmente quando era improvisado.
A minha voz tinha de ser simultaneamente alegre e triste nesse tema,
e isso tamb�m foi muito dif�cil.
Se fizermos uma can��o dessas tr�s ou quatro vezes,
perdemos a sensa��o de querermos chegar l�.
Pareceu resultar bem.
Todos adoraram esse disco.
Era uma vez uma princesa...
A princesa eras tu?
E ela apaixonou-se.
Foi dif�cil fazer isso?
Foi muito f�cil.
Qualquer um podia ver que o pr�ncipe era encantador.
O �nico para mim.
O Miles sempre adorou uma melodia forte.
Ele achava que essas melodias lhe permitiam falar,
dizendo: "Aqui est� algo que vos � familiar.
Vou mostrar-vos como pode ser realmente belo."
Ele podia pegar em algo como "Someday My Prince Will Come",
de um filme de Walt Disney,
e encher isso com um sentimento e profundidade incr�veis.
Dizia: "Estou a toc�-la para a minha esposa, a Frances."
E consegu�amos sentir o amor e carinho na execu��o dele.
Someday My Prince Will Come
foi a primeira capa de �lbum na qual apareci para o Miles.
Ele estava fora da cidade,
e lembro-me de ir � sess�o fotogr�fica e...
Ele ligava a cada dois minutos para saber o que tinha vestido,
qual era o meu aspeto.
Ele queria ter a certeza de que eu estava perfeita.
E, claro, eu pensava que estava.
Pus o sinal na minha bochecha porque achei que tinha estilo.
Foi no Someday My Prince Will Come que comecei a exigir
que a Columbia figurasse mulheres negras nas capas dos meus �lbuns.
Era o meu �lbum,
e eu era o pr�ncipe da Frances.
Por isso, pude p�r a Frances na capa.
Ele estava a defender a beleza das mulheres negras
e a dizer: "Esta beleza � a beleza que estou a projetar,
atrav�s desta m�sica, deste trompete."
Foi uma declara��o importante.
E tamb�m deve ter sido porque achava que a esposa era jeitosa.
Todos queriam entrar no West Side Story.
Jerome Robbins, Steve Sondheim, entendem?
Era o tal.
Havia, pelo menos, 300 raparigas a fazer audi��es.
Subi ao palco, fiquei parada, estalei os dedos e cantei:
Fiz um scat da Ella Fitzgerald, e o Jerome Robbins...
Passaram-se todos.
Eu tinha entrado.
Nessa altura, eu bebia mais do que bebera no passado
e consumia muita coca�na.
Essa combina��o pode tornar-nos muito irrit�veis.
A Frances foi a �nica mulher de quem alguma vez tive ci�mes.
E por ser ciumento e consumir drogas e �lcool,
ela olhava para mim como se eu fosse doido,
o que era mesmo, na altura.
Eu julgava-me mentalmente s�o e no topo do mundo.
Era ciumento, quando se tratava de mim.
Ele n�o aguentava que eu estivesse com aquelas pessoas
e que recebesse
toda aquela aten��o.
E foi quando ele veio ao teatro buscar-me no Ferrari dele
e disse: "Quero-te fora do West Side Story.
Uma mulher deve estar com o seu homem."
Fiquei petrificada.
Mas estava apaixonada por ele
e fiz o que ele disse.
Desisti do espet�culo.
Mandou chamar os filhos,
a Cheryl Ann, o Gregory e o pequeno Miles.
O que acabei a fazer foi atuar na cozinha.
Vim para Nova Iorque, e a Frances matriculou-nos nas escolas...
FILHA
...e come��mos a ir � escola, voltar para casa, fazer os TPC.
Foi uma grande mudan�a para ela.
Eu n�o sabia cozinhar. Andei em turn�s. Quero dizer, n�o.
Ele disse-me:
"Olha, ouve,
v� o que estou a fazer e repete."
Ent�o, aprendi a cozinhar.
Ela cozinhava c� em baixo
e, de vez em quando, ia l� para cima e desaparecia.
E, mais tarde, ela disse-me: "Lembras-te de quando desaparecia
e ia l� para cima?" Eu disse: "Sim."
"Ia l� para cima olhar para as minhas sapatilhas de bal�."
Ela sempre pareceu guardar...
...certos sentimentos sobre...
...o que podia ter feito.
A minha anca foi operada em abril de 1965,
e substitu�ram a cabe�a femoral com um osso da minha canela,
mas n�o resultou.
Tiveram de repetir nesse agosto.
Sofria muitas dores, constantemente.
Estava a come�ar a beber mais do que bebera no passado
e tomava analg�sicos.
E comecei a consumir mais coca�na.
Acho que por causa da depress�o.
Era uma combina��o de ci�mes,
coca�na,
Percodan,
u�sque e leite. Foi essa a combina��o,
que descobri mais tarde.
E...
...essa combina��o faz-nos explodir,
o que acontecia com ele.
Estava com o Miles no Birdland, uma noite...
...e o Quincy Jones estava l�.
Quando cheg�mos a casa,
simplesmente comentei com o Miles que o Quincy Jones era bem-parecido.
E antes que me apercebesse...
Foi t�o r�pido.
Eu vi estrelas. Estava deitada no ch�o.
Foi a coisa mais inacredit�vel que me acontecera,
porque nunca me tinham batido.
Foi a primeira vez...
...e n�o seria a �ltima,
infelizmente.
Na altura, n�o sabia que estava perto de o deixar,
mas...
...foi ent�o que aconteceu.
Posso dizer isto agora.
A Frances foi a melhor esposa que tive.
Percebi como a tratava mal e que tinha acabado.
Sei isso agora e gostava de o ter sabido na altura.
Estava sempre a falar dela.
Mesmo depois de tudo acabado,
quatro ou cinco anos depois, ele dizia:
"V�s o fato daquela rapariga?
Comprei um fato assim � Frances."
Depois de o deixar,
ouvi o Miles dizer que fez asneira da grossa.
Ele tamb�m disse:
"Quem ficar com ela
� um cabr�o cheio de sorte."
Consta-me que ele disse isso.
Ele tinha raz�o.
Nos �ltimos anos em que o Trane esteve com o meu grupo,
come�ou a tocar sozinho.
Quando isso acontece, a magia de uma banda desaparece,
e as pessoas que adoravam tocar juntas deixam de se importar.
E � a� que uma banda se desfaz.
Estaria a mentir se dissesse que n�o me deixou triste,
porque adorava tocar com aquela banda
e acho que foi a melhor banda pequena de sempre.
Ou, pelo menos, a melhor que ouvira at� ent�o.
Sempre procurei coisas novas para tocar,
novos desafios para as minhas ideias musicais.
Agora, estava na hora de algo diferente.
Estava a trabalhar num s�tio chamado Half Note.
O Miles tinha chegado a meio do set...
BAIXO
...com uma capa e chap�u pretos, com um ar misterioso,
e disse: "Procuro um baixista.
Est�s interessado?"
Na altura, a �nica coisa mais desejada do que o Miles Davis era uma panqueca.
O meu telefone tocou.
Ouvi uma guitarra.
Algu�m tocava uma guitarra.
Ent�o, uma voz disse:
"A guitarra � do caralho, n�o �?"
"Vem a minha casa amanh�, �s 13h30."
Clique.
Nunca disse o nome dele.
Nunca me deu a morada, o n�mero de telefone, nada.
Mas o Miles ligou-me.
E mandou-me um bilhete de primeira classe
e mandou-me ao alfaiate dele para fazer um smoking.
E voei para a Calif�rnia.
Miles, o que vais tocar hoje?
Outra pessoa que diga. O Miles tem laringite.
Blues de algum tipo. Mais uma vez, o Quinteto de Miles Davis.
O grande quinteto do Miles dos anos 60
criou uma forma de improvisar que era totalmente nova,
que permitiu que um n�vel incr�vel de democracia
entrasse na m�sica.
E qualquer um podia levar a m�sica aonde quisesse.
Ele rodeava-se consistentemente
de vozes jovens, emergentes e desconhecidas.
Ele permitia-lhes desenvolver a sua identidade musical naquela banda.
E ele continuou a regenerar-se, vezes sem conta, para o resto da carreira.
Quando entrei para a banda do Miles, tinha 23 anos.
Tony Williams, o baterista, tinha 17 anos.
�ramos mi�dos. Apenas mi�dos.
A criatividade e a genialidade, em qualquer express�o art�stica,
n�o t�m nada a ver com a idade.
Ou se tem ou n�o se tem,
e ser velho n�o te vai ajudar a obt�-las.
Todas as noites, era como ir para um laborat�rio.
O Miles era o qu�mico chefe.
O nosso trabalho era misturar aqueles componentes,
aquelas mudan�as, aquele ritmo,
em algo que explodisse em seguran�a, todas as noites, com um pouco de perigo.
Acontecia todas as noites.
O Miles queria que viv�ssemos no palco, � frente das pessoas,
criando � frente das pessoas.
Por outras palavras, n�o nos apoiarmos no que sab�amos.
Ele procurava aquilo n�o sabemos.
Gostei dessa ideia. Detesto ensaiar.
As boas ideias s�o eliminadas.
Quero cometer erros no ato e resolv�-los l�.
O Miles chegou a dizer-nos:
"Pago-vos para ensaiar na atua��o, em frente ao p�blico."
Eu disse: "O p�blico n�o vai gostar disso."
Ele disse: "Eu trato do p�blico.
Voc�s s� t�m de tocar."
Teo, n�o consigo tocar esta cena.
Consegues, sim.
- Est�s quase l�. - Herbie, podemos fazer assim?
- Vamos dividir. - Sim, � uma boa ideia.
Seis.
Espera l�, Teo. Nem sei o que tocar nessa parte.
- N�o toques essa primeira batida. - Toca isso.
Quando ele faz uma toma
na qual todos os m�sicos de metais tocam a melodia corretamente,
sem qualquer erro significativo,
essa toma vai para o disco.
Eu costumava andar com um caderno,
que usara quando estava no ex�rcito.
Estava a anotar coisas, e ele disse: "Tens m�sica?
"Sim. Tenho algumas coisas neste caderno."
Ele abriu o caderno e disse: "Vamos tentar isto."
- Como se chama isto? - "Pegadas."
"Pegadas"?
E depois, sem ensaio,
lemos a m�sica, revimo-la um pouco e grav�mo-la.
E, da vez seguinte que fomos ao est�dio,
ele disse: "Vamos gravar na pr�xima quarta. Traz o caderno."
Em 1969, historicamente, um homem tinha andado na Lua...
BATERIA
...e os Estados Unidos ainda travavam a sangrenta Guerra do Vietname.
Acho que o Miles pressentiu a import�ncia da gera��o mais nova,
porque olhava sempre para o futuro.
O ano de 1969
foi o ano em que o rock e o funk vendiam como p�ezinhos quentes.
As pessoas enchiam est�dios para ouvir e ver estrelas em pessoa,
e o jazz parecia ter passado de moda.
Toc�mos para muitos bares meio vazios em 1969.
Isso mostrou-me uma coisa.
A m�sica de Jimi Hendrix, Sly Stone e James Brown
fez com que o Miles percebesse que se podia dar um concerto
e alcan�ar muita gente.
Podia-se ganhar mais dinheiro a dar um concerto de 45 minutos
do que se fazia numa semana, num bar, tr�s sets por noite.
Ele arranjou a banda el�trica
porque tinha estado com Sly and The Family Stone.
O Sly disse-lhe quanto dinheiro fazia. E o Miles disse: "O qu�?"
Ent�o, depois disso, o Miles alterou as coisas dele.
Comecei a perceber que a maioria dos m�sicos de rock
n�o sabia nada sobre m�sica.
Achei que, se eles conseguiam,
alcan�ar tanta gente e vender tantos discos,
sem saber realmente o que estavam a fazer,
ent�o, eu tamb�m conseguia,
mas melhor.
O Miles pediu para me ver...
PRESIDENTE, COLUMBIA RECORDS
...e foi uma reuni�o muito tensa.
Disse que aqueles cabr�es dos mi�dos brancos e cabeludos
andavam a roubar a m�sica dele, os riffs dele.
Estava furioso e pediu para ser libertado da editora.
Eu disse: "Posso marcar uns encontros
para tocares com artistas musicais de outra gera��o,
para tocares outro tipo de m�sica.
Tenho a certeza de que, se tocares nesses encontros, algo vai acontecer."
Por volta dessa altura,
conheci uma jovem e bela cantora e compositora chamada Betty Mabry.
Estava cheia de coisas novas e surpresas, e ajudou-me a encontrar a dire��o certa.
A Betty Davis era uma irm� muito intensa e din�mica,
que fazia parte do panorama do rock de Nova Iorque e Calif�rnia.
Ela mudou totalmente a no��o dele do que se passava na m�sica.
A Betty foi uma grande influ�ncia na minha vida pessoal e musical.
Tamb�m me ajudou a mudar a forma como me vestia.
Fui a casa dele, ele tinha um monte de fatos esquisitos
e coisas penduradas no arm�rio, sapatos e chap�us esquisitos e tudo isso.
Disse: "O que se passa, meu?"
Ent�o, ele mudou. Passou de uma coisa para outra.
Eu queria mudar de rumo.
Tive de mudar de rumo para continuar a acreditar e amar o que estava a tocar.
O meu interesse era um baixista eletr�nico.
Dava-me o que queria ouvir em vez do contrabaixo.
Ligou-me e disse: "Quero falar contigo." E eu: "Est� bem."
Ele disse: "S� tens de toc�-lo como tocas o contrabaixo."
E eu: "N�o � a mesma coisa.
As notas s�o diferentes. O som � diferente.
O impacto � diferente. A localiza��o das notas...
A �nica coisa igual � que s�o as mesmas notas.
Ou�o isto desde os 18 anos. Porque havia de desistir dele?
Para te acompanhar? N�o vou fazer isso."
Ele disse: "Est� bem."
Ent�o, pus o chap�u e fiz-me � estrada.
O grupo acabou quando o Ron decidiu sair de vez
por n�o querer tocar o baixo el�trico.
Na altura, comecei a pensar noutras formas de abordar a m�sica.
Fui ao est�dio em agosto de 1969.
O Miles tinha dito: "Aparece nos est�dios da Columbia �s 10h."
Cheguei �s 9h30. A empregada da limpeza deixou-me entrar.
Levei uns esbo�os musicais que ningu�m tinha visto,
tal como fiz no Kind of Blue.
Disse aos m�sicos que podiam fazer o que quisessem,
tocar o que quer que ouvissem.
E foi isso que fizeram.
Havia quatro percussionistas a tocar ao mesmo tempo,
dois baixistas a tocar ao mesmo tempo,
dois ou tr�s teclistas a tocar ao mesmo tempo, uma guitarra.
Foi uma enorme e bela improvisa��o.
S� me pediu para trazer um c�mbalo e uma tarola.
E revimos a primeira parte do Bitches Brew.
E depois...
Ouve-se o trompete do Miles
a ressaltar contra...
...os edif�cios, � noite, �s tr�s da manh�.
E parece que Nova Iorque � um grande desfiladeiro de edif�cios.
� uma coisa ominosa, entendem?
� como se algo se preparasse para acontecer.
Mexia-se como uma ameba que simplesmente passasse
e fazia assim. E depois, algo destacava-se.
Mas era como uma coisa inteira que se mexia assim...
...juntos.
Eu tinha a esta��o de jazz ligada, e o tipo disse:
"Meu Deus. Chegou o novo Miles."
MEMORANDO DA CBS:
O MILES LIGOU E DISSE QUE QUER QUE O �LBUM SE CHAME:
"BITCHES BREW"
Aguardo instru��es.
E depois, disse o nome.
Eu disse: "Podemos dizer isso no ar?"
Ele disse: "Esque�am a m�sica. T�m de ver esta capa."
O Bitches Brew vendeu mais depressa do que qualquer outro �lbum que j� fizera.
E vendeu mais c�pias do que qualquer outro �lbum de jazz na Hist�ria.
Depois de fazer o Bitches Brew, come�ou no Fillmore East e tudo isso.
Est�vamos no camarim, e o Miles recebeu o cheque.
Ele estava a olhar para ele, e ouvimo-lo dizer:
"Sinto-me como um ladr�o."
Era um restaurante indiano na 125th Street.
Estivemos l�, a comer e a falar durante duas horas.
Levant�mo-nos e, quando �amos a sair,
ele disse: "Ent�o, o que achas?"
E eu: "Primeiro que tudo, o que acho de qu�?"
Estava a tentar... o meu c�rebro estava na conversa.
Ele disse: "O que achas da m�sica?"
E fiz assim... porque estavam a tocar m�sica indiana.
E o Miles disse: "� para l� que vamos com o novo �lbum, On the Corner."
Disse: "Vou misturar tablas e um sitar, um sitar el�trico, com funk."
No �lbum On the Corner, n�o h� ambiguidade.
Vamos com tudo.
Ficou mais intenso, simplesmente.
Quatro, um, dois. � isso que o funk �.
Estavam lan�ados. Estavam a fazer o Big Bang,
a subir a fasquia todas as noites.
Muito feroz e...
...perigoso,
em termos do uso da percuss�o e da distor��o.
Uma m�sica da selva c�smica.
Foi a� que nos prendemos ao Miles
como o nosso sacerdote vudu da m�sica.
Isto � m�sica acid.
As pessoas que fumam erva e v�o para l� mocadas,
de repente, ficam s�brias.
E as pessoas que est�o s�brias ficam mocadas.
Ele mudou tudo, s� pela forma como tocava.
O p�blico do Miles estava a mudar porque a m�sica dele estava a mudar,
absorvendo o que acontecia no momento.
O que acontecia no momento. N�o dez anos antes. Agora.
Nunca percebi o que era t�o apelativo para tanta gente.
Eu tentava perceber o que ele ouvia naquilo. N�o percebia.
Al�m disso, n�o soava bem.
As pessoas que dizem isso, sempre olhei para elas do tipo:
"�s mesmo ignorante.
E dizes isso porque tens inveja,
ou porque nunca poder�s ser, ter ou sequer compreender
algo que est� para al�m da tua mente limitada e distorcida."
"Caramba, Carlos, isso � um pouco duro." Mas est� correto.
Quando se ouve aquela s�rie de discos...
Ele fez uma sucess�o r�pida de 1969 a 1975.
Ouvimos o modelo para o hip-hop, para o house,
para o drum and bass, para a eletr�nica.
O Miles estava a fazer tudo isso, no in�cio dos anos 70.
Estava a criar m�sica nova e a agitar o contexto.
AMIGA
Quando estava com ele, ele era saud�vel.
Tinha uma alimenta��o saud�vel, mantinha o corpo limpo.
Treinava no gin�sio todos os dias, praticamente, boxe.
E essas coisas eram muito importantes, na altura,
e isso era muito bom.
Eu sabia que o Miles estava a voltar �s drogas,
apesar de n�o as consumir ao p� de mim,
porque estava a ficar muito paranoico.
Ele era violento, era abusivo.
Eu disse: "Sabes, n�o vou viver assim."
Em outubro de 1972, adormeci ao volante
e choquei com o meu Lamborghini contra uma barreira.
Fiquei de cama durante tr�s meses e, quando fui para a casa,
tive de andar de muletas durante algum tempo,
o que fodeu ainda mais a minha anca m�.
Esse foi provavelmente o momento mais crucial da sua vida.
A dor abjeta que ele sofria, do despertar at� ao sono...
AGENTE
...obrigou-o, e digo "obrigou-o",
a usar medicamentos,
coca�na, �lcool,
cigarros, tudo para aliviar a dor.
Come�ou a aceitar cada vez menos trabalhos e turn�s.
Por fim, deixou de haver banda. N�o havia banda do Miles Davis.
Estava espiritualmente cansado de todas as tretas por que passara
durante tantos longos anos.
Sentia-me artisticamente esgotado.
N�o tinha mais nada para dizer, musicalmente.
Sabia que precisava de descanso, por isso, fiz um.
Fiz uma pausa daquilo que mais amo na vida, a minha m�sica.
E quanto mais me afastava,
mais me afundava noutro mundo sombrio.
O pr�dio de apartamentos dele
era a gruta dele,
e ele isolou-se l�.
E havia dias, semanas, em que ele n�o sa�a.
Quando tinha 15 ou 16 anos,
passava temporadas em Nova Iorque, durante esse per�odo sombrio.
Lembro-me de estar sempre escuro em casa.
S� me lembro...
...de cigarros, garrafas de cerveja e coca�na.
Lembro-me de o visitar algumas vezes.
Foi uma �poca sombria para ele.
Ele era... eu n�o...
FILHO
Tinha algum medo dele.
Ele estava l� sozinho, a lidar com a dor e sem tocar.
Sei que, para ele, n�o tocar era...
Era como deixar de ter �gua.
S� queria que parasse.
Queria que a escurid�o parasse.
Parecia uma pessoa que n�o conhecia.
E queria que ele voltasse a ser...
...o meu tio, o meu super-her�i.
Lembro-me de ir ao Harlem,
e costumava haver uma mulher no carro connosco.
Ela ia sentada ao meu lado,
e o Miles conduzia at� l� e dizia: "Espera."
E ele sa�a do edif�cio em que estava,
muito drogado.
Aparecia com manchas de coca�na na cara,
e eu queria dizer alguma coisa, mas tinha demasiado medo.
Ele tocava-me com o cotovelo
e dizia: "Fodeste-a."
E eu dizia "N�o a fodi."
E ele dizia: "N�o sa�mos daqui at� me dizeres que a fodeste."
Ele desligava o carro.
E eu: "Pronto. Fodia-a no cap�. Podemos ir?"
E ele dizia: "E eu que pensava que �ramos amigos."
Isto era uma noite com o Miles.
O Miles apareceria nessa altura. N�s...
Ele precisava de dinheiro, e n�s emprest�vamos-lho,
o qual desaparecia, de qualquer forma.
Fosse como fosse, um dia sa�mos de l�, e eu disse � Marie...
"Acho que � o fim.
� imposs�vel ele recuperar disto."
E eu disse: "Mas nunca se sabe."
Por volta dessa altura,
a Cicely Tyson come�ou a vir ter comigo de novo.
Aparecia l� em casa durante tudo isto,
mas agora, aparecia mais vezes.
Ele estava em p�ssimo estado de sa�de naqueles anos.
Muita gente pensava que ele estava em t�o mau estado
que nunca mais tocaria m�sica.
At� ele pensou que talvez nunca mais tocasse.
A Cicely inspirou-o a ver, mais uma vez,
que ele tinha algo a oferecer.
Que a sua criatividade, a sua voz criativa...
...n�o atingira o seu pico criativo.
Ajudou a expulsar toda aquela gente da minha casa.
Ela protegeu-me e come�ou a ver
se eu comia bem e n�o bebia tanto.
Ajudou-me a largar a coca�na.
Dava-me comida saud�vel, muitas verduras
e muitos sumos.
Ele andava a correr na praia
e a tentar ser vegetariano,
o que foi incr�vel, porque n�o conseguiu.
O Miles dizia: "Vem buscar-me a minha casa.
Leva-me a um s�tio onde tenham carne.
Deixa-me sentir os cheiros
e depois, d�-me uma sandes de salsicha."
O Miles precisou daqueles anos para reunir as for�as
para largar as drogas,
para voltar a tocar, para lidar com o p�blico,
para lidar com as turn�s e com os cr�ticos,
para viver.
Desde 1975 at� ao in�cio de 1980, n�o peguei no meu trompete.
Durante mais de quatro anos, n�o peguei nele... uma �nica vez.
No fim, foram quase seis anos.
Ele trazia cassetes ao meu escrit�rio
de uma banda com outro som, uma banda eletr�nica.
Eu disse: "Pago-te 70 mil d�lares para fazer dois concertos
no Avery Fisher Hall."
Olhou-me como se eu fosse louco. Ningu�m fazia isso.
E passei um cheque de 35 mil d�lares
e dei-lho.
Sustive a respira��o.
Comprei um cup� desportivo Ferrari 308 GtSi amarelo
e novinho em folha, com teto de abrir.
Estava pronto para voltar � m�sica.
Ele comprou o carro s� para aparecer naquele concerto.
E sim, meu, eu comprei uma camisa nova.
Ele comprou um Ferrari.
O Miles estava de volta.
E tinha um som completamente novo, com aqueles m�sicos jovens.
Esteve ausente durante sete anos e, de repente, voltou.
GUITARRA
Ele podia ter parado completamente e dito: "J� fiz que chegue."
E todos diriam: "Sem d�vida que fizeste." Mas ele quis continuar.
N�o foi simplesmente o regresso de um artista.
Foi o regresso de um ser humano.
Nunca vi ningu�m fazer isso como ele.
Ainda gosta de tocar em festivais de jazz na Europa?
Sim. Adoro tocar na Europa, em festivais de jazz.
E Molde? Chegou atrasado.
Estive doente esta manh�.
A come�ar pela primeira turn�...
ASSISTENTE PESSOAL
...est�vamos numa cidade ou pa�s diferente, todos os dias.
Digamos que um espet�culo come�a �s 20h,
e voltamos ao hotel � meia-noite.
Depois disso, ele queria pintar.
Pegava no instrumento de escrita que trazia e come�ava a desenhar.
Quando est�vamos em digress�o, ele desenhava no avi�o, no carro.
Desenhava na sala de espera, � espera do avi�o.
Cheg�mos ao concerto. Estava a desenhar no camarim.
Flu�a literalmente do bra�o dele para a m�o e para o papel.
Quando faz uma linha errada,
sente o mesmo do que na m�sica?
A nota ao lado daquela que achas que est� incorreta
corrige a nota da frente.
Era de manh� cedo, e eu ia correr.
PINTORA
Estava � espera junto ao elevador, o elevador abriu, e l� estava ele.
O meu cora��o disparou. Parecia...
...um filme, quando conhecemos o vampiro,
sabemos que vamos morrer e n�o nos importamos.
Olhei para tr�s, e ele disse: "Corre depressa.
Quando voltar, vou apanhar-te."
E foi assim. Come��mos a pintar juntos.
Havia muito interesse em tudo o que ele fazia,
vindo de todo o lado.
Miles, o que o levou a pintar?
Ele nunca foi t�o requisitado.
Quem s�o voc�s?
Quase parecia que ele se esquecera de quem tinha sido.
� como um recome�o para mim.
Aparecia em talk shows.
Ol�, boa noite. Este � o Miles Davis.
No hor�rio nobre da TV.
- Miles Davis. - Miles Davis.
Miles Davis!
Aceitava entrevistas em todas as cidades onde tocava.
Estava uma pessoa totalmente diferente.
E at� atuava com o Prince.
Ele adorava o Prince. Estavam destinados a trabalhar juntos.
Recebi uma chamada do Tommy LiPuma,
que era vice-presidente dos representantes da Warner.
Disse: "O Miles Davis acabou de deixar a Columbia e vem para a Warner."
Eu disse "A s�rio? Parab�ns." E ele disse: "Tens alguma m�sica?"
Assim que desliguei, a linha do baixo para a "Tutu"
veio-me � cabe�a.
Quando componho um tema para algu�m, se o vejo a...
...a curtir o tema, penso: "Isto � certo para ele."
Olhei para o outro lado do est�dio e para o Miles.
Ele come�ou a tocar coisas no piano para mim.
Olhando para tr�s, percebo que aquele tipo nunca gravara assim antes,
com auscultadores, a seguir uma faixa, com caixas de ritmos e tudo isso.
E ele gostou daquilo. N�o entrou a medo naquilo.
Dominou aquilo.
Sim!
No �mago,
continuava a ser aquele jovem que viera para Nova Iorque
para tocar a m�sica em voga. Queria manter esse sentimento.
O Miles nunca falava dos seus discos antigos.
N�o os guardava em casa. N�o os tinha.
Nem um sequer, e ele n�o os queria l�.
S� queria o material em que estava a trabalhar.
Quando entrei na banda, o Miles parecia porreiro.
Estava alerta e ainda dominava as coisas,
mas, pouco depois, come�ou a parecer menos bem.
E se virem um concerto que fizemos no Saturday Night Live,
ver�o do que estou a falar.
Ele move-se, simplesmente, e o som dele � muito fr�gil.
Estava atormentado, porque n�o apanhava o tom.
N�o apanhava o tom.
�s vezes, mancava pelo palco, mas...
...ainda era o Miles.
Esta noite ser� a primeira vez que Miles Davis e Quincy Jones
estar�o no mesmo palco, a tocar juntos.
Andava a tentar h� 15 anos.
Estava sempre a pic�-lo.
Estava sempre a pic�-lo. E ele disse: "Est� bem, meu cabr�o."
Se nunca tocou outra nota, n�o tem de faz�-lo,
porque liderou o caminho para a vanguarda, nos �ltimos 50 anos.
V�-lo aos 65 anos,
a tentar recriar a sua vers�o de 25 anos,
foi incr�vel, meu.
Meu amor, meu irm�o
e um dos meus �dolos e m�sicos favoritos... Miles Davis!
Sim, eu adorava-o.
E faz a minha alma sorrir.
Havia uma can��o chamada "The Pan Piper"...
TROMPETE
...e sabia que era uma pe�a dif�cil
e n�o tinha a certeza de que ele conseguiria toc�-la.
Ele nunca diria isso.
Quando chegou a altura de o fazermos, lembro-me que intervim.
Lembro-me de ele dizer: "Se eu voltasse �s coisas do passado, eu morria."
Sentei-me em frente da TV e pensei: "Ele est� doente.
Ele est� doente."
Ele disse: "Quando Deus te castiga, n�o � que tu...
� t�o triste.
"N�o � que n�o consigas o que queres.
Consegues tudo o que queres,
e o tempo acaba-se."
Miles Davis!
Quincy Jones!
O Miles foi para o hospital
no fim de semana do Dia do Trabalhador, em 1991.
Est�vamos a falar e a ouvir m�sica,
eu olhei para ele, e ele parecia estranho... ainda.
Depois, olhei para cima, e um m�dico veio � porta,
ele foi at� l�, e foi s� um segundo.
E eu tinha a cabe�a dele no meu colo,
e o m�dico come�ou a fazer reanima��o.
Depois, sinalizou qualquer coisa, e outro m�dico entrou.
E depois, um monte de m�dicos e enfermeiras.
E eu ainda estava sentada na cama, e ele estava apagado.
Estava a respirar, eu sabia que n�o morrera.
Ele n�o sabia... Foi pavoroso.
Estavam a tratar dele,
a fazer reanima��o e a injet�-lo,
e depois, enfiaram-nos aos dois assim no elevador, no corredor.
E nem repararam que eu estava na cama,
quando a cabe�a dele ainda estava ao meu lado.
E est�vamos cercados por pessoas,
est�vamos no elevador e...
...disseram: "Ele teve uma hemorragia cerebral."
Deborah, a minha ex-mulher, ligou-me e disse:
"� melhor segurares-te a alguma coisa."
Eu disse: "O que foi?"
Ela disse:
"O Miles Davis acaba de falecer."
E pareceu-me...
...que algu�m me batera...
...com um martelo pneum�tico na cabe�a.
Acho que o Miles foi, sem d�vida, a pessoa mais singular que conheci.
Fazia as coisas de forma totalmente diferente dos outros.
Olhava e via as coisas de forma diferente.
Tens de ser fiel a ti mesmo. Acho que muito disso era a filosofia dele.
Como � que algu�m consegue criar uma m�sica t�o bela
e tamb�m ter aquele outro lado?
�s vezes, eu n�o aguentava.
Outras vezes, era simplesmente perfeito.
N�o me arrependo, n�o me esque�o,
mas ainda amo.
Tenho saudades dele.
Tenho saudades. Sonho muito com ele.
Ele...
Que grande presen�a.
Claro que o adorava.
Era como um irm�o...
...que fazia coisas est�pidas e que n�s aceit�vamos.
Ele era real.
Muito real.
N�o haver� muitos Miles outra vez.
J� chega. Acabei.
Legendas: Joana Lima Martins
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