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“Deus diz ao homem: ‘Eu te curo, portanto te firo;
amo-te, portanto te castigo.’”
Pássaros Perdidos, de Rabindranath Tagore
Baseado na peça “Fun”, de James Bosley
Legendas por @cultfilmfansub
Acesse as páginas no X: @cultfilmoteca - @cultfilmfansub
Alô?
Ah, sim, oi. Isso.
Você é a pessoa que vem fazer a matéria sobre duas das minhas garotas?
Aham. Bom, só queria avisar que acho essa história toda uma porcaria.
Não, é cedo demais. Quer dizer, faz só dois dias que elas foram condenadas.
Elas nem sabem direito o que fizeram ainda.
Eu sou a pessoa que as avalia
e decide que tipo de reabilitação elas precisam.
Não tenho muita influência junto ao Conselho,
mas só queria que soubesse que eu...
Você trabalha para a revista Tomorrow.
Acho que vocês são um bando de urubus.
Questões sociais importantes? Ah, faça-me o favor!
Vocês publicam horóscopo de celebridades.
Tá bom, tá bom, tá bom. A gente se vê quando você chegar.
Babaca.
O que acha desta cor?
É linda. É.
- É, é linda mesmo. Eu roubei. - Sério?
Aham. Eu e uma amiga íamos a um shopping
e roubávamos um monte de maquiagem.
Ficamos meio famosas por lá durante um tempo.
É?
Eu não uso muita maquiagem.
É, você nem precisa mesmo.
Também não acho que você precise.
Preciso, sim.
Então, você acha mesmo que seus pais não estão preocupados com você?
Está brincando? Meus pais preocupados comigo?
- Acho que isso é bom. - É, acho que sim.
Isto é muito legal.
Muito legal mesmo. Não acredito que foi você quem escreveu.
Quer dizer, eu nunca escrevo nada, a não ser lição de casa ou coisa assim.
Eu não faço lição de casa.
Ah...
Só que eu não entendo tudo.
Tudo bem.
Algumas coisas são verdade e outras são inventadas, não é?
É.
Eu não consigo distinguir quais são quais.
Eu só escrevo aí quando tenho coisas a dizer
que ninguém entenderia.
É, mas se você não deixa ninguém ler, então...
Você está lendo.
Gostei das fotos.
São muito maneiras.
Você é superfã do Axl Rose, não é?
É. Cara, ele é um dos meus santos.
Quem é este cara?
É o meu pai.
- Aquele que...? - É.
Por que você guarda a foto dele aqui?
Ele continua sendo meu pai.
Ele só fez o que algo dentro dele o levou a fazer.
Que radical.
É.
Tem certeza de que sua mãe não vai subir aqui?
Ah, ela nunca sobe.
Toma, veste isto. Pronto. Deve servir.
Estou bem. Posso dormir com a minha roupa.
Não, troca de roupa.
- Não tenha vergonha. - Não tenho.
Depois de hoje, é você quem vai ter vergonha de mim.
Isso faz todo sentido.
Meu Deus!
Vou arrancar meus peitos fora.
Ah, que dia...
Foi incrível, foi sensacional.
Foi radical, cara.
- Foi inacreditável. - Sai desse canto.
- O que eu vou fazer, te atacar? - Não sei o que você vai fazer.
Vou para a cama.
- Dá para se apressar? - Tá bom.
A manga ficou presa.
Eu também estou meio presa.
- Vem. - Tá bom.
Para! Eu posso começar!
Bem baixinho, hein?
Meu Deus, foi fantástico!
- Foi demais. - Foi radical!
Nunca vou esquecer isso enquanto eu viver.
Encontraram as duas abraçadas, de pijama.
Estavam tão fofas. A polícia detestou ter que acordá-las.
As palavras fazem tudo parecer tão inocente.
“Abraçadas”. “Pijama”. “Fofas”.
- Da revista Tomorrow. - Certo.
Obrigado.
Deve ser o John.
Falei com a senhora ao telefone.
Desculpe pela nossa conversa. Os ânimos ficaram um pouco exaltados.
Não, os ânimos não se exaltaram. Eu é que me exaltei.
E, se está esperando um pedido de desculpas...
Não estou esperando um pedido de desculpas.
Só queria garantir que não vou atrapalhar o seu trabalho.
Já está atrapalhando.
DIVISÃO FEMININA ADMISSÕES E LIBERAÇÕES
- Arrumamos uma sala para você. - Ótimo.
Não tem nada de ótimo. Espere até ver.
- Quer um? - Sim.
Não, eu parei.
Ah, parou? Inteligente da sua parte. Quando foi isso?
Ontem.
Oi!
Certo, meninas, virem a cabeça.
- Esta serve. - Não, esta não serve,
porque é o meu escritório.
Escuta, John, eu não tenho muita influência junto ao Conselho daqui,
mas preciso dizer que essa ideia de você vir aqui,
escrever uma matéria sobre essas garotas e transformar...
Olha, eu respeito o seu trabalho. Só queria dizer...
Já ouvi o seu discurso. Mas eu tenho duzentos casos.
Preciso avaliar essas meninas em duas semanas.
- Essa tem de ser a minha prioridade. - Claro.
Vou encontrar a Bonnie hoje para o chá.
É assim que chamamos. Vou conhecê-la pela primeira vez.
Você vai conhecer a Hillary no corredor. Arrumei uma sala para você
no banheiro masculino, bem ao lado do compactador de lixo.
Estou brincando. É a sala B-21.
Saia por aquela porta e vire à direita.
Sou da revista Tomorrow. Vim para uma entrevista.
Sala B-21.
Saia.
Fique bem aí.
Vamos.
Ah, oi. Eu sou o John, da revista Tomorrow.
Prazer em conhecê-la. Ouvi falar muito de você.
Fico muito contente por termos conseguido este tempo juntos.
Sei que a revista fez um esforço enorme para que
isso fosse possível. Foi meio complicado.
Enfim, vou gravar toda a nossa conversa.
Espero que não se importe. É uma das “ferramentas” do ofício.
Então, por onde começamos?
Estão tratando você bem?
Certo, mocinha. Calma! Calma! Calma!
Oi.
- Eu sei quem você é. - É mesmo?
É.
Acho que não preciso me apresentar, preciso?
- Eu preciso me apresentar? - Por que não?
Olá, pessoal! Eu sou a Bonnie!
Eu sei quem você é.
- Só isso? Só isso? - É.
- Você já sabe o que eu fiz, não sabe? - Sei.
- E então? - Então, quer se sentar, Bonnie?
- Eu preciso? - Não.
Ótimo.
Então, cadê o chá? Não estou vendo chá nenhum.
Você está vendo? Eu não. Acho que fiquei cega.
Sabe, chamam isso de “hora do chá”. Nem sei por quê.
Só quer dizer que a gente se reúne para conversar.
É, ninguém presta muita atenção no chá.
Ainda bem.
- Você gosta de chá? - Odeio chá.
- Eu também odeio. - Ótimo.
Então, a hora do chá, para nós, significa
que vamos nos conhecer um pouco melhor
e talvez eu consiga descobrir uma maneira de te ajudar.
Ah, que maravilha!
Tem algum assunto em especial sobre o qual gostaria de conversar?
Ah, não.
Sei lá. Hum...
Posso falar do meu namorado?
As respostas estão na palma das suas mãos?
Toda vez que faço uma pergunta, você olha para elas.
Se existe uma resposta aí, eu gostaria muito de saber qual é.
Vamos, Hillary.
Minha família vai achar que enlouqueci
quando ouvir esta fita comigo fazendo perguntas para mim mesmo.
Tenho uma filha da sua idade, a Susan. Quer ver uma foto?
- Ela é uma tábua. - O quê?
Ela não tem peito.
Ah, é. Bom, ela só tem 13 anos.
Estamos esperando que eles apareçam a qualquer dia.
- Como disse que era o nome dela? - Susan.
Susan.
Você fez errado.
Que graça tem rasgar uma coisa que já está rasgada?
Você devia ter começado com a foto inteira,
de uma garotinha inteira que ainda não tem peito.
Então, a última vez que eu o vi para conversar mesmo,
peguei ele dando uns amassos com uma “japa”.
Judia?
Não.
Ah...
Enfim, eles estavam se pegando no muro do lado do correio
e eu fiquei tão puta.
E ele simplesmente... Eu... Eu...
Na próxima vez que eu a vi, arrastei ela pela rua pelos cabelos, cara.
E o Joey me viu, né?
O Joey mandou uma tipo:
“Você não devia ter feito isso com ela,
porque ela é tão tímida e sensível e o caralho a quatro.”
Mas, tipo, e eu? Eu também sou sensível, não sou?
E ele ficou muito bravo e me jogou contra a parede.
- Achei que ele ia me bater. - Ele te batia, é?
Não. Bom, sim, ele me bateu uma vez, mas eu mereci.
Mas enfim, teve essa vez
que ele disse que ele e a paquerinha dele iam namorar sério.
Eu simplesmente passei mal.
Senti que ia vomitar e empurrei ele.
Não porque eu queria que ele fosse embora de verdade,
mas só porque eu não queria vomitar em cima dele.
E eu não sou de chorar, mas quase chorei naquela vez.
Cheguei bem perto. E eu queria gritar atrás dele e dizer:
“Ei, volta aqui!” Mas não fiz,
porque achei que era criancice, que não devia, sabe?
Aí não fiz. Mas não falo com ele desde então.
Mas enfim...
É, a gente vai voltar. A gente tem que voltar.
Foi só... foi perfeito demais.
Perfeito como?
Você sabe...
- sexo. - Ah, tiveram relações sexuais.
Não, não, a gente nunca transou de verdade.
Mas, cara, a gente fodia muito.
A gente curtia.
Bom, eu deitava no chão, né?
No quarto dele, e ele subia na cama
e começava a fazer umas flexões, tipo:
tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu!
E os peitos dele ficavam gigantescos.
Os músculos dos braços dele ficavam gigantescos.
As veias saltavam
e ele ia cada vez mais rápido, tipo:
tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu!
Ele ficava todo pilhado e fazia tipo umas duzentas.
Aí ele subia em cima de mim no chão e a gente fazia “tchu, tchu, tchu”.
E ele fodia daquele jeito, tipo:
tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu, tchu!
E a gente gozava. A gente ficava berrando e rindo e gritando,
e era fantástico.
Algo tão perfeito assim não pode simplesmente acabar.
Então, quer ligar para ele?
- Agora? - Claro.
- Não. - Vamos. Por que não?
Sei lá.
Liga para outra pessoa, então.
- É, tipo quem? - Quem você quiser.
Eu não tenho o número dele. Para com isso.
Liga para a lista telefônica.
- Quer que eu disque para você? - Para, eu ligo.
Muito obrigada. Consigo fazer sozinha.
- Vai ligar para o seu namorado? - Não vou te contar.
Dá para ver como você está com raiva.
Esta é a sua chance de dizer ao mundo o que realmente sente.
Desabafe.
É para isso que eu estou aqui.
Tem pelo menos dez milhões de pessoas lá fora
que querem ouvir a sua história, e querem ouvir você mesma contá-la.
Qual é, Hillary.
Alô. É da lista telefônica?
Sim. Pode me passar o número do Axl Rose, por favor?
Acho que ele mora em algum lugar em...
Você disse “quem eu quisesse”.
- Muito engraçado. - Não é justo. Ele teria falado comigo.
Ele teria. Nós, famosos, somos unidos, cara.
Tenho certeza.
É. Mesmo que nunca tivéssemos nos falado antes,
ele viria até aqui na moto dele, me colocaria na garupa
e me tiraria daqui, cara.
Bonnie, sossegue.
Bonnie, sente-se, por favor.
Bonnie, senta essa bunda na cadeira de uma vez!
- Senta. - Não, não quero.
- Dá para se acalmar, por favor? - Eu estou supercalma.
Chama isso de calma? Ficar correndo pelo meu escritório feito uma maluca?
- Isso foi alguma brincadeira? - Nem pensar.
Ah, é mesmo. Você deve ser adulta demais para brincar.
Quantos anos você tem? 14?
Quase 15.
Ah, 15. Mocinha crescida.
Você prefere esperar até fazerem o filme para a TV?
O que acha disso?
Odeio televisão.
Espero que você não odeie revistas.
Que revistas você lê? Você lê, não lê?
Leio.
O que um cara tem para escrever sobre a gente, hein?
Homens são tão idiotas.
Eles acham que sabem tudo, mas não sabem porcaria nenhuma.
Babacas. Sempre tentando me convencer a dar uma volta.
São todos uns canalhas!
- Esqueceu que eu também sou homem? - Por quê? Você não pode.
Hillary, só estou tentando conversar com você,
te conhecer um pouco melhor.
Como você poderia me conhecer?
Você nunca vai conhecer as coisas que eu conheço. Ninguém consegue.
Não dá para abrir uma revista e aprender tudo sobre a Hillary.
E a Bonnie? Você deixou que ela te conhecesse?
- Foi diferente. - Como?
Eu não deixei que ela me conhecesse.
A gente simplesmente se conheceu de imediato.
Quando vão deixar eu vê-la?
Estão mantendo vocês separadas?
Posso conversar com uma pessoa para deixarem você visitá-la.
Talvez permitam, se eu disser que você está colaborando.
- Colaborando com você? - Isso mesmo.
Você acha que deixariam?
Vou fazer tudo o que puder.
O que você tem a perder?
- E a Bonnie? - Também vou conversar com ela.
- Quando vão deixar eu vê-la? - Vou cuidar disso.
- Ainda tenho direito a um telefonema? - Claro.
O quê, você vai ficar sentada aí me olhando ou...?
Alguém precisa acompanhar.
Alô. O Joey está?
Posso falar com o Joey, por favor?
Joey? Oi. Sabe quem é?
Não, é a Bonnie. Como você está?
É, você ficou sabendo?
Nunca imaginou que eu fosse ficar famosa, né?
É, qualquer dia eu te conto tudo, mas...
O quê? Não, eu só estava, sabe, pensando em você. Então...
Não, são coisas boas, coisas boas.
É.
Ah, e feliz aniversário, aliás.
Eu sei que foi na semana passada. Eu só...
Espero que tenha sido bom mesmo assim.
Ah, sério? Tá bom. Bem, sabe, eu só...
só queria dar um oi e...
Sim, tá bom.
Tá, tchau.
Ele teve que ir para o treino de futebol.
Ele joga em um monte de times, vive na correria.
Deve ser incrível ter uma amizade tão próxima quanto a de vocês duas.
Você disse há pouco que houve uma conexão imediata
desde o momento em que se conheceram.
- Me conte como foi. - Não posso.
Pode, sim. Achei que tínhamos um acordo.
- Uma porta se abrindo. - Como?
Estou explicando para você.
Quando nos conhecemos, foi como uma porta se abrindo.
Antes eu estava sozinha, e aí a Bonnie entrou.
E eu soube que ficaríamos juntas para sempre,
mas mais ninguém poderia entrar com a gente.
Uma porta se abrindo.
Gostei disso.
Eu a conheci quando estava voltando da consulta com a minha conselheira.
A Bonnie estava no ponto de ônibus.
Ela disse que tínhamos acabado de perder o ônibus
e perguntou se eu queria pegar uma carona com ela.
O que você está fazendo por aqui?
Voltando da consulta com a minha conselheira.
Ah, é? E por quê?
- Por um monte de coisas. - Legal.
Eu estou fugindo de casa.
- Conhece a Dickless? - Não.
É uma banda muito legal. Conheço algumas das garotas da banda.
- Você gosta das Lunachicks? - Gosto.
- A Becky é demais. - É.
E a Squid? A Squid é ainda melhor.
Acho que ela corta para os dois lados. Você sabia?
E daí?
É, tanto faz. De olhos fechados, podia ser o seu namorado, né?
Para onde você está indo?
Para a praia, visitar meu namorado.
Ele conseguiu um emprego muito legal num trem fantasma de um parque de lá.
Fui visitá-lo uma vez
e a gente ficou se pegando lá dentro depois que o brinquedo fechou.
A gente transou lá.
É, foi uma loucura.
E, sabe, o carrinho ficava dando voltas e mais voltas,
e a gente estava de olhos fechados.
Mas teve uma hora em que apareceu a cabeça de um morto
e ela... ela tipo... ela veio tipo...
voando na minha direção. Achei que ia morrer.
Levei o maior susto. Meus olhos se arregalaram.
Meu coração disparou: bum, bum, bum, bum, bum!
E...
e enfim, tinha umas bruxas e uns Dráculas gargalhando, tipo...
Por toda parte. Eu ficava girando sem parar.
E tinha um monstro com uma língua verde enorme
e sangue escorrendo dos olhos, assim...
E nós dois gozamos. Depois ficamos deitados ali.
Sabe como é depois, é muito bom.
Então continuamos ali, dando voltas e mais voltas,
ouvindo aquelas risadas.
Mas depois, andando pelo calçadão,
eu fiquei meio triste. Fiquei de mau humor, briguei com ele,
saí e fiquei olhando para a lua. Era uma lua vermelha enorme
pairando sobre o oceano.
Era linda, mas sabe como é. Depois de uma coisa tão boa,
qualquer outra parece uma decepção.
Eu adorava ficar lá dentro. Era como se
pudesse passar a vida inteira naquele lugar.
Era maravilhoso, sabe?
Eu simplesmente...
amo aquele lugar.
Eu sei. É como quando você tem um dia incrível
e chega em casa, aí sua mãe grita com você
porque descobriu que você matou aula,
e seu pai olha para você como se fosse uma vagabunda.
A vida é uma merda assim mesmo.
Seu pai te olha como se fosse uma vagabunda?
Sim.
Vou começar a andar.
Ei, espera aí.
Eu vou com você. Espera um pouco.
- Você quer? Quer que eu vá? - Não, obrigada.
- Quer um cigarro? - Não, acho que não.
- Por que não? - Cigarro é uma droga.
Isso! Mandou bem! Faz de novo! Faz de novo!
- Tá bom, tá bom. Pronta? - Sim.
- Ah, merda! - Puxa vida!
Me dá, me dá.
Vai!
Puxa vida! Aqui, me dá.
Você consegue. Vamos, faz acontecer.
Merda...
- Ah, merda! - Isso aí!
Meu Deus!
Meu Deus, ele encostou!
Você já viu o filme Frankenstein?
Acho que sim. Por quê?
Bom, tem uma cena
em que o Frankenstein vê uma garotinha sentada perto de um lago,
jogando flores na água.
- Sim? - E aí, hum...
Aí ele vai e senta ao lado dela.
Ela não fica com medo nem nada,
porque é burra demais para saber que deveria ficar.
Enfim, ela dá algumas flores para ele,
e os dois começam a jogar flores na água.
Estão se divertindo muito, sabe?
Mas aí as flores dele acabam e ele fica muito irritado.
Aí ele pega a garotinha e joga ela na água.
Só que ela não boia, ela se afoga.
É mesmo?
Se eu tivesse te jogado, você acha que teria boiado?
Acho que não.
Mas teria sido divertido pular, não acha?
É, talvez durante uns dois segundos, até bater no chão.
Não, nós duas teríamos pulado.
Ia ser só “splat”.
- Vamos sair daqui. - Merda, meu cabelo ficou preso na...
- Vamos embora. - Tá bom.
Ei!
Ei, Bonnie!
- Bonnie! - Hillary?
- Bonnie! - Hillary!
Bonnie, sem conversa na fila.
Bonnie!
Bonnie!
Hillary, é você aí em cima?
Seu pai já fez alguma coisa com você?
Ele me batia.
Mais alguma coisa?
Você quer dizer, tipo, coisas sexuais?
É.
Por quê? O seu fazia?
Sim, ele foi preso por causa disso.
Mas o que mais me irritou
foi que, quando ele voltou, me mandaram para um lar adotivo.
Mas ele já foi embora. Está em Nevada ou em algum lugar assim.
Só que minha avó ainda age como se a culpa fosse minha.
É, a vida é uma merda assim mesmo.
É a mesma coisa se for o seu irmão?
Irmão?
É, ele me machucou uma vez.
Ah, meu pai nunca me machucou.
Só me estuprou.
Isso não machucou?
Sim, eu nem me lembro direito. Eu era muito pequena.
Acho que da primeira vez
eu tinha...
Você já tinha peito quando seu irmão...?
Eram bem pequenos. Eu tinha 13 anos.
Eu tinha 10, mas eu... os meus já eram bem grandes.
Eu os escondia usando blusões largos e tal, até no verão.
Aí minha mãe percebeu e me obrigou a usar sutiã.
Foi quando meu pai começou a implicar comigo.
Ele costumava
apertá-los e dizer para eu não deixar nenhum menino tocar neles.
Depois, quando minha mãe saía para trabalhar, ele entrava no meu quarto e...
Às vezes, o rosto dele estava todo áspero,
ou ele estava fedido ou...
Acho que ele pensava: “para que se limpar só por minha causa”, sabe?
Nunca falei disso. Quer dizer, falei no tribunal,
mas nunca com alguém da minha idade.
É, eu também nunca.
Ainda era virgem quando seu irmão fez aquilo com você?
Não.
Quer que eu conte como foi?
- Quero. - Tá.
Bom, meus pais tinham ido beber na casa de uns amigos,
e eu estava sozinha no meu quarto, em casa, vendo TV.
Aí o Jerry entrou, enrolou um baseado
e a gente ficou sentado no chão assistindo.
Sabe, TV, fumando e tudo mais.
Ele me contava sobre as garotas com quem transava na escola.
É, éramos bem próximos.
Enfim, na época, ele estava saindo com uma menina chamada Peggy.
Aí eu sentei no colo dele e comecei:
“Ai, Peggy! Ai, Peggy!” Fazendo aqueles barulhinhos de beijo.
“Peggy! Ai, Peggy!”, sabe? Assim.
- Você estava pedindo. - É.
Aí ele, tipo,
começou a me beijar de verdade,
me deitou no chão, enfiou lá dentro e depois acabou.
Ele só se levantou, fez de conta que tinha algum lugar para ir
e foi embora.
Eu só... sabe, só parei de assistir TV.
Foi estranho. Parecia que nunca tinha acontecido.
Sei.
Nunca contei para ninguém porque não queria me meter em encrenca.
Mas sabe como é: se não conta para ninguém,
te culpam;
e, se conta, ninguém acredita.
Ninguém acredita, é.
Ficamos um tempo sem nos falar, mas
hoje somos bons amigos de novo.
Às vezes, ele até me chama de “Peggy” para provocar.
Vai, Peggy! Ai, Peggy!
- Ai, Peggy! - Tá legal.
Ai, Peggy! Peggy!
Vamos.
Você já teve um relacionamento lésbico?
- Quer dizer, com uma mulher? - Você sabe o que eu quero dizer.
Isso seria ótimo para quando fizerem o filme de TV sobre nós, né?
- O quê? - Um sexo safado e intenso,
para dar uma apimentada em meio a tanta violência.
Que filme?
Aquele escritor disse que iam fazer um filme sobre a gente.
Acha que a Drew Barrymore seria boa para me interpretar?
Não sei.
Você acha? É assim que você se vê? Como a Drew Barrymore?
Esquece. Eu nem gosto dela, na verdade. Ela é uma frouxa.
- Você gosta de meninas mais duronas? - Gosto de meninas que não sejam frouxas.
E quanto aos meninos?
“Meninos”?
- Rapazes. E quanto aos rapazes? - Eles são uns canalhas.
O Axl Rose?
É, ele é um canalha, mas
ele sabe que é. Ele não é fingido, e isso é legal.
- Ele te excita? - Ai, cara...
Você é tão idiota.
“Ele me atrai?” Que pergunta mais estúpida!
Por que fica tentando puxar assunto de sexo?
Por que você está evitando o assunto?
- Por que não me pergunta algo importante? - Tipo o quê?
Tipo qual é a minha música favorita ou se eu acredito em Deus.
Faça-me o favor!
Não, não, já sei.
- Por que não deixa eu fazer as perguntas? - Acho que não.
- Eu não gosto das suas perguntas. - É por isso que eu as faço.
Ah, mas daria uma cena ótima no filme.
Hillary segurando o lápis todo mastigado,
pensando em todas as perguntas que revelariam todos os seus segredos.
Aí mostra a sua cara feia, emburrada
porque as minhas perguntas são melhores que as suas.
Não estamos avançando muito, estamos?
- Eu acho que estamos avançando bastante. - É?
Mas acho que você não fica satisfeita a menos que a gente fale de sexo, né?
Você deve estar bem desesperada se é assim que sente prazer:
ouvindo meninas falarem das suas vidas sexuais.
Você não me acha atraente?
Já viu o cu de um gato?
É disso que você me lembra.
Já joguei esse joguinho, Hillary. Você nem é boa, é só desagradável.
Então, estamos avançando.
Acabou de descobrir que eu sou desagradável e agora pode ir para casa
se sentindo melhor consigo mesma.
- Posso? - Pode, pode se sentir superior.
Como se eu fosse um daqueles macacos que se masturbam no zoológico.
Você já viu as mães puxando os filhos para longe daquelas jaulas?
Sabe por que isso acontece? É porque elas chegaram tarde.
Elas têm vergonha de ver o quanto são parecidas com os macacos,
e têm medo de que os filhos descubram.
Pois é, eu descobri. Pelo menos eu sei o que eu sou.
- O que você é? - Eu sou um animal no zoológico,
- mas eu escapei. - Escapou?
Sim, daquela jaula em que tentam te colocar
para te fazer uma garotinha quieta e frouxa, até crescer e virar uma
- vadia normal e idiota igual a você. - Querida, você tem 15 anos.
Acho que você não tem a menor ideia do que é ser normal.
É para isso que você está aqui, não é?
Para me ensinar a ser normal,
para me dizer o quanto você é normal e feliz.
E aí?
Estou pensando.
Não,
você só está com medo
de que até uma pessoa como eu
não esteja tão mal quanto uma pessoa como você.
Acho que tenho uma cena para o seu filme.
Que tal esta? É o momento em que a conselheira normal, mas feia,
conta a sua história para a jovem detenta sabichona.
Tudo bem, está pronta para essa?
Sobre como os pais dela se revezavam para bater nela
e causavam dores de cabeça tão fortes que ela ia parar no hospital.
E depois, ela aparece com um menino... um rapaz
e eles fogem juntos, só que ele bate nela quase tanto quanto os pais,
e a obriga a fazer sexo por dinheiro e blá-blá-blá,
chato, chato, chato... Ela acaba num lugar como este.
E agora ela acha que é muito rebelde.
E ela é. Ela se mete em brigas e corta as pessoas,
e aí, de repente, cai a ficha dela. Ela percebe
que talvez ser rebelde, apanhar
e aguentar toda a merda que se tem de aguentar num lugar destes
simplesmente não tem mais graça.
Então, não sendo uma completa idiota,
ela decide que pode mudar.
No começo, ela tem que fazer as pessoas confiarem nela
e a levarem a sério,
mas ela descobre que mudar não é tão difícil afinal.
Então, agora talvez ela não tenha tudo,
mas está bem melhor do que antes.
E aqui voltamos ao presente,
no qual a jovem detenta sabichona tenta insultar a conselheira
chamando-a de normal.
Agora, se quiser uma cena engraçada no filme, acho isso hilário.
Quer dizer, você não acha engraçado?
Tentar me insultar me chamando de normal?
Eu acho engraçado.
Isso é verdade?
Sabe, nesses filmes de TV, é tão difícil dizer o que é verdade e o que não é.
Uma coisa é verdade: ela tem dores de cabeça terríveis.
Puxa, eu podia ter pego uma água para você.
Já convivo com isso há muito tempo.
Posso massagear o seu pescoço.
- Não, já vai passar. - Não, eu sou muito boa nisso.
Acho melhor não.
Você não confia em mim?
Eu deveria?
Bom, sempre tem uma cena no filme na qual
a conselheira se aproxima da garota para mostrar que confia nela.
Sabe, elas começam a se comunicar de verdade e tal.
E elas mostram que confiam uma na outra,
têm aquele grande momento de superação, choram e tudo mais.
Não chore. Se você quer massagear meu pescoço, massageie.
Faça mais forte.
Aprendi com o meu pai.
Nós dois tínhamos dor de cabeça.
Revezávamos massageando o pescoço um do outro.
E a sua mãe? Ela também participava das massagens em família?
Não.
- Ninjas. - Você já viu algum?
Não, cara. São ninjas. Não dá para vê-los, eles são invisíveis.
Como você descobriu isso?
Tem coisas que acontecem que não dá para explicar.
O que você acha? Que acontecem do nada, hein?
Eles são jovens, estão por toda parte,
são invisíveis e vivem escondidos. Estão naquela luz ali em cima,
estão na cerca, estão nos tijolos neste exato momento.
Estão em todo lugar para onde você olha. Você não consegue vê-los,
mas eles estão se juntando, cara.
Vai rolar uma festa gigantesca.
Vão todos se juntar.
Se liga, cara. Lá naquelas colinas,
de repente...
ninjas!
Os ninjas mágicos, invisíveis e assustadores
como um milhão de gatos pretos!
Ninjas!
Eles são totalmente silenciosos, mas correm por toda parte!
Você não consegue vê-los, mas sabe que estão lá!
Eles dominam os guardas e “tchu, tchu, tchu”!
Os guardas já eram!
E, durante a noite, as meninas
fazem uma festa secreta em volta de uma fogueira.
Todas conversam sobre como vão conquistar as meninas mais legais
para fazer parte do maravilhoso exército ninja.
Cansei dos ninjas. Vamos falar de outra coisa.
- Se importa se eu fizer algumas perguntas? - O quê?
- Você chegou a se casar? - Sim.
- O que seu marido faz? - Não sei. Não o vejo há anos.
- E você tem filhos? - Dois.
- Eles são legais? - Também não os conheço.
Tá bom, desculpa pelo que eu disse antes.
Vamos esquecer isso, Hillary.
- Você tem namorado agora? - Não, tenho um gato.
Por que você não quer que eu veja a Bonnie?
Eu quero que você comece a viver a sua própria vida.
- Mas ela é a minha vida. - Isso é coisa da sua cabeça.
- Você vai fazer novos amigos. - Não vou, não.
Você só quer que eu vire uma vadia normal e idiota igual a você.
- Para com essa merda, Hillary. - Uma vez puta, sempre puta.
- Sente-se, por favor. - Você não pode me obrigar a fazer nada!
- Hillary, sente-se! - Eu posso te matar agora mesmo, porra!
Vá em frente.
Vá em frente.
Muito bem, a hora do chá acabou.
Acho que avançamos no fim das contas, não foi?
Adivinhem quantos anos eu tinha quando comecei a falar?
- Quantos? - Um mês de idade.
É, minha mãe estava me contando uma história de ninar.
Eu estava de fralda e ela estava me trocando.
Quando chegou ao final da história, eu disse: “Fim.”
Meu pai saiu correndo do quarto. Eles ficaram todos tão empolgados.
Nunca tinham visto nada parecido.
Sabe quantos anos eu tinha quando comecei a ler?
Seis meses.
- No que você está pensando? - Em como eu sou incrível.
É exatamente nisso que eu estava pensando!
A gente acabou de fazer a melhor coisa do mundo inteiro
e eu me sinto fantástica pra caralho!
Antes, eu vivia me sentindo culpada por causa do meu pai.
Agora me sinto incrível, como se pudesse fazer qualquer coisa!
Você pode fazer qualquer coisa, Bonnie. Nós podemos fazer qualquer coisa.
Podemos fazer qualquer coisa!
Isso! Sinto como se tivesse acabado de ganhar um campeonato.
- De vôlei. - É, de vôlei,
igual naquele comercial da Pepsi.
Sabe, naquele em que todo mundo mergulha na areia
em câmera lenta, depois levanta e se abraça?
Todos eles têm pais incríveis. Sabe, são ricos.
Podem ir à praia quando quiserem.
Que se fodam.
Eu gosto de você, Hillary. Gosto do seu jeito de pensar.
Gosta mesmo?
O que será que a filha dela vai dizer
quando entrar em casa e encontrar a mãe morta no chão?
Vai dizer: “Porra, mãe! Sabia que seus netos
vão ficar tão felizes que você morreu?
Vão aprontar até no seu funeral!”
Não, não, não. Ela vai entrar, né?
Ela entra, vê a mãe morta e diz:
“Bingo, pessoal! Que se foda agora!
Agora não preciso mais levar esses seus peitos murchos para o bingo!”
- Você é muito engraçada. - Sou?
- Sim, você é. - É, estou me sentindo engraçada.
Estou me sentindo ótima.
Sabe, não é tão ruim assim.
- O quê? - Sabe como dizem que,
quando você mata alguém,
fica tomado pela culpa,
não consegue dormir nem comer
e é assombrado pelo resto da sua vida?
Não dá pra acreditar em nada disso. Isso é besteira da Bíblia.
Sabe há quanto tempo inventaram isso? Uns 20 mil anos atrás.
- Tudo mudou. - É.
A polícia está lá agora,
procurando pistas, quebrando a cabeça com o caso.
Não vão encontrar nenhuma pista que leve até nós.
E nunca vão pensar que fomos nós. Somos só crianças.
É, e ainda por cima somos meninas brancas.
Vão culpar algum drogado. Não, um doente mental.
O hospital estadual fica bem perto.
- Você acha que a gente é louca? - Como?
Hillary, você acha que a gente é louca ou normal?
Com certeza não somos normais, porque ser normal é um saco.
Mas também não somos loucas.
Loucura é deixar todas aquelas pessoas normais pisarem em você
e ainda te convencerem de que elas estão certas.
Isso é que é loucura.
Quer fazer de novo?
- Você quer? - Quero. E você?
- Quero. Demorou. - Ótimo.
Ótimo. Tá bom, com quem você quer fazer?
- Sei lá, a gente decide na hora. - Tá bom, a gente decide...
Não, não, não, meu Deus!
Tem uma garota que anda dando em cima do meu namorado.
Ah, eu tenho que...
- Não, de jeito nenhum. - Por quê?
Você não pode fazer isso com alguém que já conhece.
Não pode dar um motivo. É a primeira coisa que a polícia procura.
É, você tem razão.
E é melhor tirar esse vestido.
Ah, não, eu queria guardar uma lembrança com o sangue dela.
Não, esquece isso!
Acho que ainda tem um pouco no meu cabelo.
Tem?
Não, está tudo bem.
Acho que conseguimos limpar tudo no posto de gasolina.
O posto de gasolina, meu Deus! Será que nos viram sujas de sangue?
Está tudo bem. Está tudo bem, não se preocupe.
Vai dar tudo certo.
Vai dar tudo certo.
- Onde fica o banheiro? - No final do corredor.
- Eu vou com você. - Não precisa.
- Então, pelo menos se cubra. - Tá bom.
Achou que ia escapar, né?
- Escuta aqui. - Tá bom.
A gente se divertiu muito hoje. E vai se divertir muito mais,
porque diversão é a única coisa em que eu acredito.
- Tá bom. Tá legal. - Tá legal?
Gostei disso.
- Nada supera a diversão. - Com certeza, é a prioridade.
Diversão em primeiro lugar, beleza?
Isso!
Puberdade:
a inocência da infância colidindo violentamente com o mundo cruel lá fora.
Descobrir o sexo e o que o amor tem a ver com isso,
principalmente quando você cresce sem um bom exemplo em casa ou
merda do tipo.
Bonnie, você nunca se cansa?
Vai com calma. Eles vão acabar te colocando na solitária.
É lindo.
Não é, não.
Quer dizer, “lindo” não é a palavra certa.
Mas é “poderoso”, muito poderoso.
- Você acha? - Com certeza, você tem talento.
Leia.
- Em voz alta? - Sim.
- Para quê? - Para ouvir com a sua própria voz.
- Não sei... - O quê, está com vergonha?
- Não. - Então, leia.
“Eu grito na minha cama, e meus gritos entram no armário”
“para se esconder.”
“Os barulhos dele se enroscam aos nossos pés”
“e ficam ali, junto com meus bichos de pelúcia e a colcha.”
“Quando ele termina e vai embora,”
“meus gritos saem do armário.”
“Eles entram debaixo das cobertas,”
“se encolhem nos meus braços e sussurram.”
“Tarde da noite,”
“com a TV ainda ligada no quarto deles,”
“meus gritos continuam falando no meu ouvido.”
“Eu o escuto quando ele sobe nela,”
“para fazer barulho com a mulher que me fez.”
Obrigado.
Hillary, o que acharia de usar alguns trechos e poemas deste diário
em uma coluna ao lado da matéria?
- Na revista Tomorrow? - É.
- Fala sério. - Seria ótimo.
Uma seção inteira sobre o que você pensa, o que sente...
Não!
Você não pode simplesmente publicar isso
como se fosse informação ou qualquer porra assim.
Como se sentiria se sua filha
escrevesse um monte de coisas secretas sobre você
e depois você abrisse uma revista e visse tudo aquilo ali, hein?
Como diabos você se sentiria?
Tenho uma confissão a fazer.
Eu não tenho filha.
E a menina da foto?
Eu achei aquela foto.
É um truque antigo.
Foi antes de eu te conhecer. Agora que te conheço melhor,
sinto que podemos ser sinceros um com o outro.
Uau...
Até que foi legal. Você me enganou direitinho.
- E sobre a Bonnie? Também é mentira? - Não, estou resolvendo isso.
Aceitam uma xícara de chá?
Um copo de leite morno?
Hillary?
Hillary!
Hillary!
Ei!
Bonnie?
Bonnie!
Hillary!
Hillary!
Bonnie!
Hillary!
Calem a boca!
- Hillary! - Bonnie!
- Hillary! - Bonnie!
Calem a porra da boca!
Bonnie!
- Eu já te disse. - Me diga de novo.
A Hillary e eu matamos aquela senhora só por diversão.
Assim está bom? Quer que eu fale mais alto ou o quê?
Está tentando me dizer que mataram uma senhora
que nunca tinham visto antes só por diversão?
- Sim! - Eu não acredito nisso.
Não posso fazer mais nada.
Pode, sim. E vai continuar até contar a verdade.
- O quê? - Por quê?
Eu já falei umas cinquenta vezes!
Você me contou mentiras, mentiras que a Hillary colocou na sua cabeça.
Nada supera a diversão!
Diversão em primeiro lugar!
Diversão! Diversão! Diversão!
Tá bom, tá bom, tá bom. E o amor?
O que tem o amor?
Você acha que o amor é tão importante quanto a diversão?
Acho que são praticamente a mesma coisa.
Se uma coisa não é divertida, você não faz.
Se é divertida, você ama.
E, se você ama alguma coisa, então ela deve ser divertida.
Não necessariamente. Às vezes, o amor machuca.
- Você ama o Joey, né? - E daí?
E você se machucou, não foi?
Sim, mas mesmo quando eu estava sofrendo, era divertido.
Estava sentindo coisas que nunca tinha sentido antes.
Então, essa é a sua definição de diversão:
sentir coisas que nunca sentiu antes.
Tudo o que sei é que não faço nada além do que sou obrigada,
se não for divertido, tá?
Diversão, apesar do que a Hillary te diz, não é tudo.
- Ah, é? Então, por que boliche? - O quê?
Por que boliche? Por que alguém faria uma coisa tão idiota quanto jogar boliche
se não fosse divertido, hein?
Por quê? Pergunte a qualquer um, ninguém sabe responder.
O mesmo vale para videogames, Disneylândia, televisão,
esportes, qualquer coisa.
Tudo gira em torno da diversão. Esse é o sentido da vida.
- E o trabalho? - Para ganhar dinheiro e poder se divertir.
Algumas pessoas ganham dinheiro
para sustentar a si mesmas e suas famílias.
Sustentar uma família não é divertido. Ninguém devia ser obrigado a fazer isso.
Foi por isso que sua mãe foi embora?
Acho que sim.
- Você acha que ela fez a coisa certa? - Para ela, sim.
Existem responsabilidades das quais não podemos fugir.
- Tipo quais? - Tipo cuidar dos próprios filhos.
Sempre tem alguém que cuida das crianças. Se não forem os pais,
é o governo ou outra pessoa.
- As crianças também precisam de amor. - Dá para receber amor dos seus amigos.
Tá bom, me fale dos seus amigos.
- Eu tenho amigos. - E todos eles te amam?
- A Hillary me ama. - É, a Hillary, uma grande amiga.
Aposto que você também não tem um monte de amigos.
É, verdade. Ninguém me ama.
Sou só uma velha rabugenta e infeliz.
Mas, por favor, não fique com pena de mim.
Ah, por favor, não se preocupe com isso.
Já passou pela sua cabeça que talvez a Hillary esteja errada?
Que foram as ideias malucas dela
que fizeram vocês acabarem presas neste buraco, para início de conversa?
“Presas neste buraco, para início de conversa.”
“Presas neste buraco, para início de conversa.”
- Você não gosta de rir? - Claro.
- Você não adora rir? - Sim, eu adoro rir.
Pare. Pare de fazer isso, Bonnie.
Bonnie, dá para sair de cima de mim? Pare!
Ah, que pena. Veja, nosso tempo acabou.
Que pena.
Está liberada para ir.
Ah, oi.
Pode me dar a chave do banheiro?
Claro.
Obrigada.
Tem bastante sangue.
Tudo bem.
Está tudo bem, mas você precisa...
precisa abaixar a cabeça.
Não sei o que fazer. Tenho que tirar isso.
Tenho que tirar do seu rosto, tenho que tirar do seu cabelo.
Tá bom? Então, abaixe a cabeça.
Abaixe a cabeça.
Como se meu cabelo já não fosse vermelho o bastante.
Toma a sua chave!
O que aconteceu com você?
Joguei o carro ribanceira abaixo e fui parar num arbusto.
- Sofreu um acidente? - Não, eu só odeio arbustos.
- Devia ser um arbusto enorme. - Nem era.
- E o que aconteceu com o seu carro? - Foi sacrificado por razões humanitárias.
- Achei que tivesse parado. - E parei.
Ah, está fumando para fazer um favor a alguém?
Sua chefe Martha ligou. Ela fala igual uma colegial adolescente.
“Cadê a porra do texto?”, ela quer saber.
Ei, John, não sou sua secretária.
Desculpe.
Então, você também conseguiu pôr as mãos no diário da Hillary, né?
- Bem impressionante, não é? - Bem feio, se quer saber a minha opinião.
- E os poemas dela? - Eu não leio poesia.
É algo feio, e isso me incomoda.
- Você acha que ela é gay? - Acho que ela tem 15 anos.
- Não dá para ser gay aos 15? - Por quê?
- Você acha que é relevante? - Relevante para quê? Para você?
Para a sua matéria? Para os canalhas que leem essa porcaria?
Relevante para ela, relevante para o cenário completo.
Por que não pergunta para ela mesma?
Ela disse que você pediu para ela te fazer uma massagem.
Ela disse isso?
Não sei, isso me parece meio... Isso é permitido?
Eu não tenho que dar explicações para você, John.
Se quiser me denunciar, eu mesma te dou o telefone.
Aliás, sabe de uma coisa? Eu faço a ligação para você. Eu disco o número.
Olha, eu não vou denunciar ninguém.
Só quero saber o que aconteceu.
Você é incrível. Está aqui há quanto tempo? Um dia?
Você é um estranho aqui! Não sabe de absolutamente nada!
Eu sei que elas não precisam sofrer mais abusos.
Eu estou abusando delas?
E você não, imagino.
O Sr. Jornalista das Celebridades querendo transformá-las
em celebridades com a revista de merda dele.
Olha, a Hillary deu a entender
que aconteceu alguma coisa entre vocês duas.
Eu me importo com elas. Acabei criando um carinho por elas.
Criou carinho por elas? Você não tem jeito mesmo.
Talvez elas estejam te excitando um pouco, John.
- Vejo isso acontecer o tempo todo. - Ah, dá um tempo, porra!
Elas estão te seduzindo.
Talvez você goste disso.
Talvez queira descer ao nível delas e se afundar na lama com elas.
Ela está jogando com você, e ela é boa nisso.
É, eu sei.
Ela sabe como te tirar do eixo, né?
Ela está tentando te trazer para o lado dela, John.
Ela quer ver a Bonnie.
- Isso está fora de cogitação. - Mas poderia ser interessante.
Interessante? “Interessante” é bom para você,
mas as coisas têm o hábito de ficar interessantes até demais por aqui.
- Não, obrigada. - Elas estão apaixonadas uma pela outra.
Não é permitido que elas fiquem apaixonadas uma pela outra.
Seria uma pena se nunca mais se vissem.
São só crianças.
Foi isso que a Sra. Farmer pensou. E veja o que aconteceu com ela.
“Às vezes, quando fecho os olhos,”
“encontro um espaço branco e silencioso dentro da minha cabeça.”
“Tudo é limpo e perfeito.”
“Nada é sujo, pegajoso ou feio.”
“Às vezes, quando fecho os olhos,”
“encontro um espaço cor-de-rosa e silencioso dentro do meu coração,”
“onde a versão perfeita de mim mesma fica sentada...”
É a Bonnie!
Afaste-se!
- Hillary! Hillary! - Bonnie! Bonnie!
- Para! - Afaste-se!
- Bonnie! - Afaste-se!
Para! Não, para com isso!
- Para! - Me solta!
Bonnie!
- Ande! - Sua vadia! Por que você fez isso?
Anda, comece a andar!
- Vire-se e comece a andar! - Por quê?
Por aqui.
Não, sua...
Não!
- Quando? - Estou resolvendo isso.
Imagino.
Conversei com ela. Ela está pensando no caso.
Vadia. Ela não suporta que eu e a Bonnie sejamos tão próximas.
Acho que ela tem inveja.
É, ela também tem os próprios problemas.
Enquanto isso, acho que a matéria está ficando muito boa.
Estou pouco me importando com a sua matéria.
Por quê?
Quer arremessar umas bolas?
Odeio esportes.
Você poderia estar ajudando muitas outras garotas.
Já pensou nisso?
Não faz diferença o que acontece com a gente.
Pessoas que maltratam os filhos não vão parar.
Alguma coisa as leva a agir assim. Todo mundo sabe que é errado,
mas fazem mesmo assim.
E eu não sou infeliz.
Sabe, até aqui dentro, às vezes eu dou tanta risada que
não consigo parar.
Não significa que você seja feliz.
Existem muitos tipos de riso.
É, eu gosto daquele riso que vem no oceano,
quando uma onda gigante vem despencando em cima de você
e você acha que vai te esmagar, mas
ela quebra, desaba,
te derruba na areia e
depois você levanta rindo. Esse é o tipo de risada
que faz você sentir que está viva.
Sabe, é tipo os homens das cavernas.
Aposto que ninguém precisava lembrá-los de que estavam vivos.
Todo dia eles matavam para comer, ou morriam de fome
ou de frio.
Mas, juro por Deus,
tenho certeza de que riam muito melhor do que a maioria das pessoas hoje em dia.
Você ri bastante, mas não sorri.
- Não? - Comigo, não.
Aposto que tem um sorriso bonito.
Não tenho, não.
Mas a Bonnie... meu Deus...
Às vezes, aquela menina parecia um sorriso ambulante.
Aposto que vocês duas riam muito juntas.
É.
Vocês riam, compartilhavam segredos.
Ela falou do namorado dela?
- Joey. - Joey, isso.
- Ela era bem maluca, cara. - Maluca, né?
- Em todos os sentidos. - Sexualmente?
Em todos os sentidos.
Olha, não fica aí tentando me fazer abrir o bico
sobre a vida sexual dela.
Tudo o que ela me contou eu jurei por Deus
que nunca contaria para ninguém.
É uma pena, porque ela tinha umas histórias incríveis.
É tudo mentira.
Está no perfil psicológico dela.
Ela era virgem, nunca tinha feito sexo na vida.
- Nunca? - Isso mesmo.
- E o irmão dela? - O irmão dela?
Ela disse que transou com o irmão?
Ela nem tem irmão.
Cara, isso é papo furado.
É só mais um dos seus joguinhos de merda.
Você chegou a ver o irmão dela? Ele apareceu no tribunal?
Alguém sequer mencionou o irmão dela? Quer dizer, é incrível.
Você aí compartilhando seus segredos mais profundos
e ela inventando os dela o tempo todo.
Ela só queria ser parecida comigo de qualquer jeito que pudesse.
- Mas ela é muito boa nisso, não é? - É.
Todas aquelas aventuras sexuais,
fazer parte de um exército ninja secreto e clandestino...
E depois, com a polícia, ela contou toda a verdade, tintim por tintim.
Ela contou sobre a Sra. Farmer
antes mesmo que eles tivessem a chance de perguntar.
- Tudo, sem nenhuma mentira. - E daí?
Você não se importa que ela tenha mentido para você?
Não.
- Não se importa que ela tenha confessado? - Não.
Não se sente traída?
- Meu Deus, você não entende mesmo, né? - O quê?
Que nós nunca poderíamos trair uma à outra, nem nada do tipo.
Se ela mentiu para mim, foi só porque queria ser minha amiga.
Nada que ela fizesse poderia me deixar com raiva dela.
Nada!
Se ela quisesse me matar, eu acho que até deixaria.
Por quê? Porque vocês estavam apaixonadas?
Era mais do que isso.
A gente só se conheceu por um dia,
mas viveu mais naquele dia do que muita gente vive a vida inteira.
E ninguém pode tirar isso de nós!
Vocês tiveram uma relação intensa. Chegou a ser física?
Parecia física. Meu corpo estava todo eletrizado.
Naquela noite, depois daquele dia incrível, você foi para a cama com a Bonnie.
- O que aconteceu depois? - Nós fomos dormir.
Só isso?
Foi o sono mais gostoso da minha vida.
- Ah, você não quer falar sobre isso. - Eu não quero falar disso!
Não quero falar disso com um tarado como você!
Sinto muito que você se sinta assim.
Como se você se importasse com o que eu sinto de verdade.
O que você sente é tudo o que importa.
O que você sente é o motivo de eu estar aqui.
Você e eu temos uma coisa em comum:
a responsabilidade de contar a sua história.
Essa é você, uma jovem brilhante e inteligente que fez algo tão terrível
que a maioria das pessoas jamais conseguiria imaginar.
É nossa responsabilidade tentar fazer com que elas imaginem,
fazê-las sentir o que você sentiu no dia em que matou a Sra. Farmer.
Se pudermos fazê-las entender, então talvez...
Eu não ligo!
Caso contrário, vão dizer que foi apenas mais um assassinato sem sentido.
E nunca vão ouvir o que você tem a dizer.
Por isso, precisamos falar sobre...
- Eu não consigo explicar! - O que aconteceu
desde o momento em que você acordou, até matar a Sra. Farmer
e depois ir para a cama com a Bonnie?
Tá bom.
Você quer saber o que eu senti quando matei a Sra. Farmer?
Sim.
Quer mesmo saber como eu me senti na cama com a Bonnie?
Vou te dizer como estou me sentindo agora.
Eu estou puta pra caralho,
porque não me deixam ver a Bonnie,
e você disse que ia convencê-la a deixar.
MENTIROSA?
Bonnie.
- Hillary. - Silêncio.
Hillary!
Hillary!
Hillary!
Não ensinam nada na escola.
Nada que eu precise saber, pelo menos.
Eu já ia largar tudo mesmo, então não fez muita diferença.
Mas minha mãe ficou uma fera. Ela é uma daquelas idiotas
que sofreram lavagem cerebral e acham que,
se você não for ao baile de formatura, não se formar e toda essa besteira,
provavelmente não vai para o Céu.
Como se isso fosse a única coisa que importasse, sabe?
Era isso que eu gostava tanto na Hillary,
porque percebi na hora que
ela era uma pessoa que sabia o que era importante de verdade.
Era como se
ela pudesse me ensinar coisas que mais ninguém conseguia.
Ela meio que me mostrou que eu não era burra e que
eu basicamente só precisava de alguém como ela para
me mostrar as coisas.
Então, quando a gente estava andando por aí,
conversando e tudo mais,
parecia que a gente ia ficando empolgada, tipo...
como se estivéssemos ficando chapadas juntas
só com a companhia uma da outra.
Nunca senti isso com mais ninguém.
Teve alguma droga envolvida?
Não, não, não teve droga nenhuma, não.
A Hillary é a minha droga.
- Sabe de uma coisa? - O quê?
- Eu já morei por aqui. - Sério?
É, o tribunal me mandou para um lar adotivo...
- Aham? - E tentaram me obrigar a continuar na escola,
- aí eu fugi duas vezes. - Boa.
Aquele cara era um babaca!
A mulher dele vivia gritando comigo, me chamando de provocadora,
quando era ele quem não parava de me encarar.
Cara, se eu visse ela hoje,
- eu a xingava na cara agora mesmo. - É mesmo?
É, de verdade.
Qual é a casa deles?
- O quê, você quer ir lá? - Você não quer xingar ela na cara?
- Não quer fazer isso? - Quero. Você me ajuda?
Sim.
Ai, caramba, é por aqui. Acho que é por ali.
Beleza, vamos.
- Ei, ei, espera aí! - O quê?
Acho que é essa. Parecia igual, mas...
Só tem um jeito de descobrir. Vamos.
Aqui.
Espera, e se o marido estiver em casa?
A gente improvisa, inventa alguma coisa para dizer.
Acho que ela cai nessa.
- Olá? - Ei!
Não estão em casa. Quem mora na casa ao lado?
- Não faço ideia. - Vai ver eles estão lá.
Espera um pouco!
Vai ver morreram. Vamos atravessar a rua.
Olá!
Vai ver estão todos mortos, todo mundo morreu.
Merda!
Ah, oi. Desculpa incomodar, moça, mas estamos perdidas.
Será que eu poderia usar o seu telefone?
Nós somos irmãs e tenho certeza de que o nosso pai
deve estar muito, muito preocupado.
Sua vaca!
Oi, minha irmã está passando muito mal e...
Podemos usar o seu banheiro? Porque...
A sua cara parece uma camisinha!
É, tá legal.
Oi, senhor. O senhor se importaria...
De se abaixar para a gente enfiar nossos sapatos no seu cu?
Mas que porra...?
- Vai, gata! Isso aí! - Isso!
Isso aí!
É isso aí, gata!
Saiam da minha frente!
Você viu aquele cachorro? Ele quase mordeu a minha cara.
Meu Deus! Meu Deus!
Acho que eu não me divertia tanto assim
fazia uma eternidade.
Eu só queria que a gente pudesse continuar fazendo isso para sempre.
- Queria continuar fazendo isso para sempre. - Talvez a gente possa.
- Talvez a gente possa fugir juntas. - Sim, sim, sim! Vamos fazer isso.
- Você quer mesmo? - Sim, com certeza.
- E o seu namorado? - Não tô nem aí. Eu largo ele.
Sério? Demorou, cara! Então, a gente precisa arranjar uma grana.
Beleza.
Um desses moradores vai deixar a gente entrar na casa.
E quando estivermos lá dentro, a gente faz o que der na telha.
Mas a gente tem que agir com muita calma.
Temos que parecer meninas boazinhas que só precisam de ajuda.
Eu quero entrar numa dessas casas e tocar o terror, sabe?
- Só quero entrar numa delas... - Eu também.
Isso é radical! É coisa de ninja!
Está pronta?
Nunca estive tão pronta para nada na minha vida.
- Vamos dar o fora daqui. - Beleza.
Te peguei!
- Ai, Peggy! - Ai, Peggy!
- Vamos cair fora. - Tá bom.
As ninjas estão chegando! As ninjas estão chegando!
- Medos? - Sim.
- Quer dizer, se eu tenho algum? - Sim.
- É claro que tenho. - Eu não.
Quando você diz isso, Hillary, significa que tem medo de tudo,
da própria vida.
- E quem precisa dela? - De quê?
Da própria vida.
Então, você acha que nós somos?
- Você acha? - Não, eu quero que você responda.
Por quê?
Para de responder às minhas perguntas com outra pergunta!
Só me diz: você acha que eu sou louca?
O médico no julgamento disse que você era?
Não. Por que eles não podiam me dizer isso?
Não me disseram nada. Só ficavam me fazendo umas perguntas
e me tratavam como se eu nem estivesse lá.
- Será que eles acham que eu não ligo? - Não sei.
É porque eu não chorei.
Foi isso.
Isso sempre pega eles.
Todos achavam que eu era estranha, e depois, no julgamento,
acharam que eu era normal.
Acho que você estava muito zangada, muito infeliz.
Não.
Quando a matamos, eu estava feliz.
Nunca fui tão feliz em toda a minha vida.
E essa é a verdade, otário.
Antes,
toda vez que eu me metia em confusão,
diziam que era porque eu era perturbada por causa da minha infância.
Agora minha mãe recebe cartas de estranhos
me chamando de monstro.
Quer dizer, não sei, talvez seja verdade.
Naquele dia, foi como se nós fôssemos lobisomens.
Sabe, nos filmes, quando um cara é mordido por um lobisomem...
Eu fui mordida.
Aconteceu há muito tempo, mas...
Meu pai também era um lobisomem.
- Qual foi a sensação? - Foi boa!
Antes, durante ou depois?
Antes, durante e depois!
Boa como?
Foi emocionante, foi radical!
Era como se uma coisa importante estivesse finalmente acontecendo, sabe?
- Uma coisa importante? - É, como se eu e a Hillary
estivéssemos fazendo uma coisa importante juntas, finalmente.
- Uma coisa que pudessem compartilhar? - Isso!
Era isso.
Eu sabia que você ia entender. Sabia que ia entender.
Já te disseram que vão transferir a Hillary?
A Hillary?
- Não. - Já está decidido.
- Não podem. - O que houve com a menina que dizia
não ter medo de nada?
- Ela precisa de mim. - Para quê?
Não sei, eu sou a única amiga dela.
Não sei como te explicar isso.
Se você quer ser amiga dela, deixe-a em paz, Hillary.
- Quando? - Amanhã.
Por que não querem que a gente fique juntas?
Não sei,
talvez tenham achado melhor vocês ficarem separadas.
Por que eu tenho que ficar aqui sozinha?
Nós a matamos juntas, deveríamos ficar aqui juntas.
Eles não acham que eu fiz aquilo sozinha, acham?
Não sei.
Eu preciso vê-la! Eu preciso vê-la!
Preciso vê-la antes que ela vá embora!
Ei, Bonnie!
- Bonnie! - Código amarelo! Código amarelo!
Hillary!
Hillary!
Hillary!
- Você está é com inveja! - Isso mesmo, estou com inveja.
- Eu preciso vê-la! - Isso está fora de cogitação.
Eu preciso vê-la! Eu preciso vê-la!
- Hillary, isso está fora de cogitação. - Eu preciso vê-la!
- Hillary! - É a Bonnie.
Afaste-se dessa porta!
Hillary, afaste-se daí!
Eu te odeio.
Hillary! Hillary!
- Bonnie! - Hillary!
- Bonnie! - Hillary!
Hillary! Hillary!
- Você está bem? - Estou.
Tem certeza?
Nós entramos, entramos na casa dela.
De repente, estávamos lá dentro.
E nós duas sabíamos o que aquilo significava.
Sem amarelar.
Oi, minha irmã está passando muito mal.
Será que eu poderia usar o seu telefone para fazer uma ligação?
- Claro, podem entrar. - Obrigada.
Normalmente, eu não deixo estranhos entrarem na minha casa.
Mas olhei para vocês e pensei:
“E se fosse a minha neta? E se ela batesse na porta de alguém
passando mal?”
- Está doendo muito? - Sim, eu...
Foi como se tivéssemos pulado dentro de um buraco enorme.
- Aceitam uma xícara de chá? - Não, obrigada.
- Um copo de leite morno? - E matá-la
era a única maneira de sair dali.
Está doendo muito?
Sim, dói bastante.
Talvez seja melhor chamar uma ambulância.
Não, não, acho melhor ligar para o meu pai.
Tenho certeza de que ele está preocupado com a gente.
Quer usar o telefone?
- Quero. - Para ligar para ele?
- O telefone fica na sala. - Tá bom.
Escute, querida, sente-se aqui
e descanse um pouco.
Ah, espero que você melhore logo.
Venha, querida. Por aqui, meu bem.
Por aqui, meu bem.
Isso, por aqui.
Estes são os meus netos.
Meninos bonitos, não são?
Você deveria dizer: “Sim, são lindos.”
Ah, o que eu estou fazendo?
Sua irmã sentada ali sentindo dor
e eu aqui falando pelos cotovelos.
Por aqui.
É aqui.
Obrigada.
Esta é Roberta, minha filha.
Ela deve me ligar para avisar se vai me levar ao bingo.
Meu marido, Bob Senior.
Faleceu há dois anos.
Pode ligar.
Querida, você não está com uma aparência boa.
Tem certeza de que não quer um chá?
É o que eu tomo quando não estou me sentindo muito bem.
Eu estava conversando com a sua irmã.
Disse a ela que minha filha ia me levar ao bingo.
É...
Socorro! Socorro! Socorro!
Socorro! Socorro! Socorro! Socorro!
Eu vou morrer?
Vai.
Vai!
Socorro! Socorro!
Socorro! Socorro!
Temos que sair daqui.
Levanta! Levanta!
É a filha dela.
Bingo!
Bingo!
Me solta!
Para, vamos.
Hillary!
Falei com um velho amigo meu. Ele é editor de uma revista de poesia.
Ele quer ler os seus textos.
Vamos conseguir publicá-los.
Este é o meu número.
- Cigarro? - Eu adoraria.
Não, acabou o meu. Eu estava te pedindo.
Foi mal.
Vou para Idaho na semana que vem.
Um menino denunciou o Departamento de Polícia de Gold Springs,
inclusive o próprio pai, que por acaso é o delegado.
Conseguiu tudo o que precisava aqui?
Tudo?
Não, a gente nunca consegue tudo.
- Então, o que você vai fazer? - Ligar os pontos.
- E se os pontos não se ligarem? - Preencher as lacunas.
Queria que o meu trabalho fosse tão simples assim.
Eu também.
Parecia que a minha vida inteira eu só ficava
esperando, esperando e esperando.
E depois que a matamos, foi como se...
foi como se, finalmente, eu não estivesse mais esperando.
Sabe de uma coisa?
Eu sinto pena daquela senhora
e da filha dela. Deve ter sido terrível para ela encontrar a mãe
morta daquele jeito.
Só porque
eu gostei não significa que eu não soubesse que era errado.
Mas eu fiz assim mesmo.
Eu gostei.
Não, você adorou.
Tem orgulho disso.
É, eu tenho.
Ela ficou em coma por doze dias.
Ela vai ficar bem?
Achei que você já soubesse.
Ela morreu há algumas horas.
Hillary, você está aí?
Sinto muito.
Tem algum comentário?
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