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Esta hist�ria inspira-se em factos ver�dicos
ocorridos na regi�o de La Guajira (no Norte da Col�mbia)
entre as d�cadas de 1960 e de 1980.
A fam�lia...
a av�...
a m�e...
o tio...
o sobrinho, o neto...
... est�o representados nos dedos da m�o,
para que os way�u n�o esque�am a sua origem.
Havendo fam�lia...
H� respeito.
Havendo respeito...
H� honra.
Havendo honra...
H� palavra.
Havendo palavra...
H� paz.
Olha para mim, Zaida.
Completaste o teu ano de clausura com honra e com dignidade.
Quando sa�res daqui, ser�s uma mulher. Tem aten��o aos sinais.
Usa-os para proteger a tua fam�lia.
Olha para mim.
O tronco da fam�lia...
A av�...
A m�e...
O sobrinho...
O tio...
Eu sou o pastor O pastor que canta jayeechis
Cantei para me despedir dos mortos E recordar as guerras do passado
Para invocar os ventos E contar hist�rias de amor
A minha mem�ria come�a a falhar E com ela desaparecer�o
Todos os cantos e hist�rias Que tenho narrado
Antes que as minhas pegadas Desapare�am
Quero com o meu canto recordar
A hist�ria do amor Da desola��o, da riqueza e da dor
Daquela grande fam�lia Que se auto-destruiu
� primeiro a hist�ria de Rapayet Que veio de uma estirpe guerreira
Ele perdeu todos os seus em pequeno E cresceu entre estrangeiros
Neste lugar em que a fam�lia � tudo
N�o chores, n�o tenhas medo.
Eu ficarei a teu lado.
Vamos.
Pensei que n�o vinhas, Tio.
O que trouxeste?
Um colar tuma.
Mostra-te, filha.
Ofere�o-te o meu trabalho.
Fa�amos um grande banquete, agora que a minha sobrinha Zaida se tornou mulher!
Tamb�m quero dan�ar a Yonna contigo.
Quem � ele?
Rapayet, o sobrinho do Peregrino.
Uliana?
Abuchaibe Uliana.
�s a minha mulher.
Rapayet, devias ter trazido uma cabra.
Os colares n�o s�o adequados.
Se te aceitarem, ter�s de trabalhar muito.
Tenho novos clientes para ti.
O dote vai ser caro.
Eu arranjo-o, Tio.
S� honesto com a m�e dela.
N�o escondes a situa��o em que est�s.
� a ela que tens de convencer.
Ter�s de a convencer de que por�s a tua fam�lia acima de tudo.
At� acima dos teus neg�cios com os alijuna, sobrinho.
As tuas ac��es ter�o de se alinhar com as tuas palavras.
Ela estava descal�a, tinha um cobertor.
Ela viu-te? Viste a cara dela?
N�o me lembro, mas ela falou comigo em espanhol.
A tua av� quer mostrar-nos o caminho.
� um caminho sem sa�da, direitinho para o mar.
Est� calmo agora, mas pode tornar-se turbulento.
Algu�m precisa da nossa ajuda, mas tamb�m nos pode trazer dor.
J� n�o quero sonhar.
Os sonhos provam a exist�ncia da alma.
N�o tenhas medo.
A morte vem e vai. Temos de estar atentos.
Sempre soubeste falar com o sonho.
Fizeste bem em p�r fim � reclus�o.
Temos de ouvir o que a tua av� nos diz.
Esperemos que a morte n�o volte a aparecer.
Se quiseres ter uma fam�lia, ter�s de seguir as nossas tradi��es.
Eu sei.
Os colares s�o artigos pessoais,
s�o usados como protec��o e s�o oferecidos em ocasi�es diferentes.
Devias ter trazido uma cabra.
Amigos.
Comeram e dormiram bem?
Como sempre. � uma celebra��o digna da fam�lia Pushaina.
Da �ltima vez que vim, tinham metade dos animais.
Tivemos muita chuva.
O meu rancho foi aben�oado pelo Juy�.
Tamb�m souberam fazer os vossos neg�cios com os alijuna.
A �rsula � conhecida pelas suas artes negociais em toda a prov�ncia.
Hoje, vim como mensageiro do meu sobrinho, Rapayet Abuchaibe Uliana.
Ele � o filho do meu falecido primo, o Chay Uliana.
O Rapayet quer casar com a Zaida.
� um pretendente que devem considerar.
Peregrino, �s um dos mais respeitados mensageiros que existe.
N�s ouvir-te-emos,
mas a minha irm� �rsula � uma das mais conceituadas way�u em Wajira.
A filha dela merece uma fam�lia melhor do que a do Rapayet.
A fam�lia dele teve em tempos muito prest�gio.
A maioria deles morreu numa disputa, mas esse conflito foi resolvido com honra.
O Rapayet n�o s� forjou um caminho para si mesmo sem ajuda,
como estabeleceu uma rela��o com os alijuna,
que lhe abriu o mundo.
E um grande empres�rio e o seu respeito pelas tradi��es e um exemplo a seguir.
Ele far� crescer o prest�gio da tua fam�lia.
Falas espanhol, Rapayet?
Sim, mas prefiro falar wayuunaiki.
Para o dote, pedimos 30 cabras,
20 vacas,
cinco colares,
dois deles feitos com tuma, as pedras de montanha,
e duas mulas decorativas.
� o dote, se queres casar com a Zaida.
Sabes porque sou respeitada?
Porque sabe lidar com os alijuna. E consegue falar com os sonhos.
N�o.
Porque sou capaz de tudo pela minha fam�lia e o meu cl�.
Este � o talism� da nossa fam�lia.
Eu guardo-o.
De pragas e de gente que tenta enganar-nos.
Mesmo que consigas o dote, os esp�ritos v�o alertar-me contra ti.
P�SSAROS DE VER�O
CANTO I ERVA BRAVIA
- Esperas h� muito tempo? - Algum.
�s sobrinho do Peregrino?
Pois bem... Trouxeste a mercadoria toda?
Um, dois, tr�s...
Queres que te leve a algum lado?
Est� alia minha boleia.
Cumprimentos ao teu tio.
Ser�o entregues.
Ent�o, compadre?
Conta, Moncho.
Assim perdemos os clientes!
As mulheres, meu amigo.
A coisa mais bela.
Levamos um bom avan�o, Moncho.
Amanh� temos de ir buscar o caf�.
Ol�, C�sar.
Como vai isso, Rafa?
Tudo bem.
Aqueles gringos ali s�o do Corpo da Paz.
Dizem que v�m pregar contra o Comunismo,
mas aquilo que eles procuram � marijuana.
Tens para lhes vender?
N�o.
Moncho, n�o tenho mais dinheiro.
Tem calma.
Pago eu, hoje ganh�mos algum dinheiro.
Ol�, C�sar.
Dois volumes de tabaco, por favor.
- Vinte pesos. - Assim?
Arranjaste a outra coisa?
N�o.
C�sar.
Quando � que os gringos partem?
N�o sei.
Podemos arranjar-lhes a marijuana que eles procuram, Moncho.
Achas?
E onde a tens escondida?
A� debaixo dessa camisa?
Apresenta-me, C�sar.
Ol�, Peter.
Acho que encontrei aquilo que procuram.
"Diz N�o ao Comunismo"
O Bill vai ficar contente.
Obrigado.
- At� breve. - Certo, Peter.
Lembrem-se, rejeitem o Comunismo.
Qual Comunismo, qual qu�, Peter!
Viva o Capitalismo!
Enlouqueceste?
Onde vamos arranjar 50 quilos?
A duzentos pesos por libra.
N�o pod�amos ter negociado por menos.
Como vamos pagar?
Vamos reinvestir o dinheiro do caf�.
Viva o Capitalismo, compadre.
- Sempre em frente? - Sim.
S� tenho isso.
Ele quer mais dinheiro.
Diz-lhe que lhe pagamos quando voltarmos.
Pagamos-te quando voltarmos.
Diz-lho na l�ngua dele!
Achas que falamos a mesma l�ngua?
Isto vale mais do que a tua viagem de burro.
Acalma-te!
Quem �s tu?
Gabriel!
Tem calma, primo...
Sou o Rapayet.
Rapayet?
Primo Rapayet!
H� quanto tempo!
Entrem.
Pensei que a Sierra n�o fosse um s�tio digno dum way�u.
Este � o meu amigo Mois�s.
Trouxemos-te uma cabra.
Porque continuas a falar �ndio? N�o estamos no deserto.
M�rida.
Oferece-lhes de beber.
Quanto custa um quilo de caf�?
Vinte e quatro?
Dou-te 50 pela erva.
� um bom neg�cio, primo.
Ser� bom para as duas fam�lias.
D�-me 60.
N�o negoceio com os alijuna.
Est�s a negociar comigo, primo.
Ajuda-me a conseguir o dote.
Mas, An�bal, quanto �leo vais fazer?
Os teus primos s�o simp�ticos.
Victoria.
Rapayet.
O meu contributo, para o dote.
Obrigado, primo.
At� depois, s�cio.
N�o pensei que eles a arranjassem.
Sim, senhor.
Aqui estamos.
Trazemos-vos alegria.
A s�rio?
T�m o dinheiro?
Claro.
Querem ver?
T�m de conhecer o Bill.
Vou buscar o dinheiro.
Olha para eles, Rafa.
Isto � um neg�cio fant�stico.
A erva � a felicidade do mundo.
A felicidade deles.
Tudo bem?
Chamo-me Bill.
N�s trabalhamos em exporta��es.
Estou muito interessado neste vosso produto.
Podemos falar sobre isso? Posso sentar-me?
Claro.
O que est�s a fazer, Rapayet?
Trouxe o dote.
Trouxeste os colares?
Onde arranjaste isto tudo?
Tenho neg�cios com gringos.
Estar com os alijuna fez-te esquecer as nossas tradi��es.
Tens de mandar recado antes de vir entregar o dote.
Vai chamar o Peregrino.
Ou desencadear�s a f�ria dos esp�ritos.
Way�u, partilham agora uma rede O vosso caminho � alegre e simples
A �rsula aceitou-te na sua fam�lia Agora est�s com os Pushainas
Tens de dar provas do teu valor
Aprender�s que n�o � dif�cil Ter uma fam�lia
Ou faz�-la crescer
Aprender�s que o que custa � mant�-la unida
Que se passa?
A mulher do meu irm�o gosta de m�sica vallenato?
Como se chama o meu afilhado?
Miguel Dionisio Pushaina Abuchaibe.
Para n�o dizer que n�o respeito as suas tradi��es,
trouxe-lhe um presente.
O que �?
J� somos grandes para cabras, Rafa.
� tua, compadre!
Essa carrinha custa mais do que um carregamento!
� por isso que temos de crescer!
� para isso que serve o dinheiro.
Para ser gasto.
CANTO II AS SEPULTURAS
Leonidas.
N�o podes beber �lcool, tens de te preparar.
Agora que o teu Tio Ministro morreu, � teu direito ser chefe da fam�lia.
Comporta-te.
Se for um rapaz, pod�amos chamar-lhe Peregrino, como tu.
N�s, Peregrinos, somos impacientes.
Esta fam�lia precisa de um nome forte, digno de um herdeiro.
Peregrino � um nome bonito.
Mas vai ser uma rapariga e ela deve ter um nome pr�spero e luminoso.
Avizinha-se uma praga.
Andas demasiado supersticiosa, M�e.
Estes alijuna n�o respeitam nada.
Procurei-te por toda a parte! Onde te meteste?!
Desliga a m�sica, Moncho.
Isto n�o � uma festa.
A s�rio?
Se n�o � uma festa, ent�o n�o quero perder uma que seja!
Desliga a m�sica.
Calma, compadre.
Falei com o Bill.
- Ele disse que precisa de mil quilos... - Porque falaste com ele?
Precisamos de mil quilos para a semana.
Com aquilo que eles plantaram,
s� podemos recolher 600 quilos.
Precisamos de mais.
O An�bal vem a�, Moncho.
Compramos a outra pessoa.
O An�bal e fam�lia. Sempre fizemos neg�cios com ele.
Entregamos os 600 quilos e pronto.
E o intermedi�rio sou eu, est� claro?
Ol�, primo.
Santa Marta Gold pura.
Das sementes americanas?
Ent�o, Moncho?
Tudo bem, Ram�rez?
Est�s cada vez mais gordo.
E tu, cada vez mais feio.
E o Rafa...
Sempre t�o simp�tico...
A s�rio, Moncho.
Vai buscar o dinheiro.
Que se passa?
Os 600 quilos cabem em duas avionetas.
Vinte e tr�s quilos de cinco.
Para que s�o tr�s avionetas?
O Bill disse que n�o havia problema.
Est�s a negociar com outras pessoas?
Est� cheia de erva!
Calma!
Diz ao Bill que s� negoceia connosco.
E fico com as avionetas at� ele nos compensar.
O tanas!
O que fizeste?
Eles tra�ram-nos!
E para isso que serve a palavra.
Manda um mensageiro aos Estados Unidos.
Se o matares, eu mato-te.
N�o queres ficar com o dinheiro e com a erva?
N�o respeitas nada, Moncho.
Diz ao Bill que � connosco que se negoceia.
N�s, way�u, n�o podemos tocar em homens assassinados.
Vais ter de os enterrar tu.
O que fazemos �s avionetas?
N�o se pode negociar com os alijuna.
E os gringos? O que s�o?
Ou conheces algum way�u que nos compre a erva?
O Mois�s est� descontrolado.
Cometeu um erro.
Est� a manchar o nosso nome.
Desobedeceu-te � frente dos teus homens.
N�o voltar� a acontecer.
Pergunta-te: a quem deves lealdade?
Aos alijuna ou � tua fam�lia?
A minha palavra e a minha honra s�o para com a minha gente.
Ele tem raz�o. Quem escolhes?
Eu j� disse.
Repete.
A minha fam�lia.
Ent�o livra-te do Mois�s.
Como conseguir�s continuar a fazer neg�cios depois disto?
Como vais acalmar os gringos?
Ter�s de os compensar.
N�o ponhas a fam�lia em risco.
Estiveste demasiado tempo com os alijuna.
Um verdadeiro way�u n�o hesitaria, Rapayet.
O alijuna derramou sangue, Rapayet.
Tem de pagar com sangue.
Rafa!
Anda ouvir a m�sica que eles nos fizeram, compadre!
Rafa!
Que bom teres vindo, compadre.
� assim que gastas o dinheiro?
Que se passa?
Temos o dinheiro, a erva...
� o melhor neg�cio, Rafa.
Venham!
Vamos festejar.
Levantem-se!
Que se passa?
N�o queres comemorar?
Acabou-se.
O qu�?
Derramaste sangue em territ�rio way�u.
O sangue dos estrangeiros tem de ser compensado.
Calem a boca!
A fam�lia Pushaina
aconselhou o Rapayet
a matar-te.
Mas isso n�o vai acontecer
porque o Rapayet gosta de ti.
Mas tens de deixar o neg�cio.
Saiam todos!
Saiam!
Esta merda acabou!
N�o me podes fazer isto, Rafa.
Por cada transac��o receber�s uma comiss�o para subornar a pol�cia.
Mas se fizeres neg�cios nas costas do Rapayet,
ele ter� de seguir o conselho do cl� dele.
N�o me podes fazer isto, Rafa.
N�o serias nada sem mim!
N�o somos amigos?
N�o somos irm�os, Rafa?
Rafa!
Sai da�, Leonidas.
Conduzes depressa demais.
Vamos embora.
Aonde v�o?
Vamos fazer uma entrega.
Posso ir?
Tem cuidado, Rapayet.
Olha...
O p�ssaro iishcoo tem aparecido por a�.
Est� a pedir compensa��o.
Nada.
Passou tempo demais. Passa-se qualquer coisa.
Leonidas.
Leonidas!
Vamos embora?
N�o, volta para tr�s.
Nunca me deixas fazer nada!
Est�s aqui porque me obrigaram a trazer-te. Faz o que te digo!
N�o saias!
Vai chamar o An�bal.
Diz-lhe que traga as mulheres. Eu espero aqui.
Vou sozinho.
Veste-te.
N�o tens de me entregar, Rafa.
Tenho a tua parte. Guardei-a para ti.
Podemos continuar, eu e tu.
Como dantes.
O que vais fazer?
Vais matar-me?
N�o me podes matar, compadre.
Eu mato-te como fazem os way�u,
cara a cara.
Estivemos sempre juntos, Rafa.
�s meu irm�o.
Eu sabia que n�o eras capaz.
N�o entres!
O sangue dele est� sobre ti.
O yoluja est� contigo.
A culpa � tua, M�e.
A tua filha acabou de nascer. N�o te aproximes!
Trouxeste contigo o fantasma de um morto!
N�o lhe podes tocar!
Indira.
Como est� a Zaida?
Est� bem.
Quero entrar.
Tu tocaste-lhe.
Se n�o te limpares, isso passa para ela.
Vou tomar banho.
N�o.
O An�bal tem de ver o sangue.
An�bal.
Vim falar contigo.
N�o quero nada com o Rapayet.
N�o � sobre o Rapayet.
Venho da parte da �rsula Pushaina. N�o queres receber o recado dela?
Ao longo dos �ltimos dois anos,
a riqueza das duas fam�lias cresceu como nunca.
A prosperidade s� pode florescer quando h� paz.
O Mois�s matou o meu irm�o. O Rapayet n�o o deteve a tempo.
Tens raz�o, An�bal.
Mas ele agora reparou-o. A paz est� garantida.
N�o quero voltar a negociar com o Rapayet.
Quando falas com o Rapayet, falas com o cl� dos Pushaina.
Qual � a tua resposta?
Quero 200 pesos por quilo.
Muito bem, An�bal.
CANTO III PROSPERIDADE
Filho!
Foste fabuloso!
Montaste como um verdadeiro way�u.
Fui quase o �ltimo a chegar.
N�o interessa.
Nenhum deles montava com a tua idade.
Quero aprender a pilotar um avi�o, n�o a montar um cavalo.
Leonidas, d�-me a arma.
N�o me aborre�as.
D�-me a arma, filho.
D�-me a arma.
O sacrif�cio foi feito, mas h� tristeza.
O Gabriel anuncia o seu segundo enterro.
Os mortos v�m � nossa casa. O Miguel corre perigo.
O Rapayet e o Leonidas estavam l�.
Viste-os?
N�o.
Pede a protec��o do talism�.
N�o est�s sozinho, Rapayet.
Viste um yoluja?
Ol�, sobrinho.
Ol�, Tio.
O An�bal convidou-nos para o segundo enterro do irm�o.
A Zaida viu o Gabriel num sonho.
Talvez estivesse tamb�m a anunciar-se, como fez � fam�lia dele.
Temos de ir, Rapayet.
O An�bal n�o � apenas da fam�lia, tamb�m � nosso s�cio.
N�o dev�amos ir.
Se n�o formos...
... ele considerar� isso uma ofensa � fam�lia.
� isso que quer?
A Zaida tamb�m viu o Miguel. Estava coberto.
H� demasiada morte por a�.
Obrigado pelo convite, primo.
O que trazem a�?
A fam�lia Pushaina quer festejar a sua amizade com a tua fam�lia.
� uma oferenda para o vel�rio, dez vacas e trinta cabras.
Obrigado.
Todas as armas t�m licen�a.
Um pouco excessivo, n�o achas?
Obrigado por teres vindo, �rsula.
Juntem-se a mim!
Vamos embora daqui, Rapayet.
Agora � a hora do regresso Dos mortos
� altura de compreender O que aconteceu
Porque partiram E que mensagem querem transmitir-nos
� altura de ouvirmos
Aquilo que nos querem ensinar
Com a sua morte absurda
Causada por uma cega ambi��o
Agora que te vamos exumar
E te vamos levar
Para a tua morada De descanso final
Fa�amos sil�ncio Ou�amos e compreendemos
Porque tiveste de pedir assim
N�o sejamos cegos
N�o sejamos surdos
N�o deixemos que ouro algum Brilhe mais do que o nosso esp�rito
N�o deixemos que alguma voz ou tiro Falem mais alto do que a nossa voz
Que raio est�s a fazer? Vem comigo!
Os enterros s�o t�o aborrecidos!
Porque vieste ent�o?
Porque me obrigaram.
Vejam o que eu sei fazer.
Por ti,
como um lim�o com casca e tudo.
Vem comigo para Aruba. Dou-te aquilo que quiseres.
Sigifredo, leva este b�bedo daqui.
Dancemos.
Vem dan�ar comigo.
- Parte! - N�o lhe toques!
Ningu�m lhe pode tocar!
Sr. Leonidas.
Vamos, senhor. Est� b�bedo.
Vai buscar o dinheiro � carrinha.
- N�o, Leonidas. - Traz a merda do dinheiro da carrinha!
Este homem quer ser advogado.
Vejam como eu sou generoso!
Pago-lhe o curso e a viagem,
mas s� se ele comer aquela merda de c�o.
N�o, senhor.
N�o, senhor.
Orgulhoso demais para um m�sero guarda-costas.
P�e ali.
� todo teu.
D� para pagar putas e tudo o que quiseres.
O senhor � que manda, patr�o.
Ol�.
Venho da parte do Sr. An�bal.
Os recados devem chegar por mensageiro.
O mensageiro agora sou eu.
N�o converso com os alijuna.
O que quer o An�bal?
N�o � assim que fazemos as coisas.
O Sr. An�bal quer ser compensado.
Com duas carrinhas,
dez mulas...
... e duas espingardas. - N�o compensamos coisa nenhuma
enquanto n�o nos mandar um mensageiro!
Que mais?
E duas semanas do Sr. Leonidas...
... para trabalhar nos campos dele.
Repete isso e mato-te!
Pousa a arma.
Deixa o Leonidas mat�-lo!
O An�bal sabe que isso � inaceit�vel para um way�u.
Cale-se!
Cale-se!
Leonidas, vai.
Enviando o alijuna, o An�bal quer humilhar-te.
N�o podes aceitar nada.
J� ofendemos a fam�lia dele muitas vezes.
Se n�o concordares, haver� guerra, Rapayet.
N�o podemos deixar que isso aconte�a.
Precisam de algum tempo?
Um pouco de trabalho n�o o mata.
O Leonidas cumprir� a sua parte da compensa��o.
Que se passa?
Voltaste a v�-lo?
Ele j� desaparece. Fecha os olhos.
Bem-vindo, Sr. Leonidas.
Aqui tem a sua compensa��o.
Ofendeste a minha filha.
Pede desculpa e poder�s voltar para casa.
Pede desculpa!
Ent�o vai trabalhar.
Este saco � como os way�u.
Redondo, como o �tero de uma m�e.
A corda � o cord�o umbilical.
Indira.
� tarde.
N�o acab�mos.
Podem acabar amanh�.
� importante.
Podes acabar amanh�.
Ficarei aqui at� adormeceres.
O que estavas a sonhar?
Nada. Senti-me como se estivesse a cair.
Que mais?
Nada.
J� n�o falas com o sonho.
Matei-te porque n�o tinhas respeito pela palavra.
E agora, ningu�m respeita ningu�m, compadre.
N�o posso voltar a perder a minha fam�lia.
N�o posso perd�-la por causa de outra guerra.
O que te disse o yoluja?
Nada.
Est� simplesmente ali.
Vai buscar o Leonidas.
Isto n�o acaba aqui.
Foi o sonho que lhe disse?
N�o.
Os esp�ritos est�o ofendidos.
O sonho n�o falou comigo desde que fomos ao An�bal.
Perdemos a alma.
J� nada nos protege.
Rapayet.
Vai buscar o meu filho. Nunca devias ter aceitado mand�-lo l�.
CANTO IV A GUERRA
Agora aquele.
Estarei em seguran�a, se estiver rodeado por homens.
Esses colares de merda s�o in�teis!
N�o o deixem sair.
Se algu�m aparecer, diz que a tua filha est� em reclus�o.
An�bal.
Numa disputa, n�o � comum a parte ofendida enviar um mensageiro.
Mas eu trago-te um recado.
O Rapayet quer evitar a guerra a todo o custo. Quer compensar-te.
A ac��o do Leonidas � imperdo�vel.
Ele � uma semente podre que n�o representa a fam�lia.
N�o h� nada a conversar.
Ele desonrou a minha filha.
Ele � um Pushaina.
H� muita coisa em jogo.
A tua rela��o com o Rapayet e a fam�lia dele est� muito para l� desta disputa.
N�o devias ter vindo c�, Peregrino.
Vivemos uma �poca violenta e muito incerta, An�bal.
N�o podes recusar a proposta do Rapayet sem sequer a ouvir.
O que � que ele prop�e?
Tudo.
As carrinhas, os avi�es, as pistas de aterragem, tudo.
At� mesmo os contactos americanos.
N�o.
An�bal.
N�o podes matar um mensageiro.
Se matares o mensageiro, estar�s a ofender as mais sagradas leis dos way�u.
N�o s� entrar�s em guerra com o cl� Pushaina,
como com o cl� Uliana, o teu pr�prio cl�.
Ainda desejas a paz?
Vamos, Rapayet.
Sabes o que acontece �s fam�lias quando h� guerra.
Vamos.
Para onde?
Para onde n�o nos encontrem. N�o interessa.
O Mois�s h�-de seguir-me para onde quer que eu v�.
N�o interessa, Rapayet.
O Miguel corre perigo, eu vi-o no sonho.
N�o regresses enquanto n�o os encontrares.
� gente do An�bal?
N�o.
S�o os mensageiros e os anci�os dos cl�s.
O An�bal Abuchaibe, do cl� Uliana, cometeu um acto irrepar�vel...
... e matou um mensageiro.
Tornou-se uma amea�a ao nosso cl� e a paz na regi�o.
Temos o dever de o impedir de espalhar o caos.
Desde que ele come�ou a vender erva,
o Peregrino sentiu-se como o p�ssaro Utta,
cujos colares s�o t�o pesados por serem t�o ricos.
Deixou de ser um mensageiro e morreu como um alijuna.
Era um way�u extraordin�rio e n�o dev�amos mencionar o seu nome.
N�o esque�amos que nunca ningu�m tinha morto um mensageiro.
O Peregrino permitiu que a fam�lia da �rsula profanasse as nossas tradi��es.
O nosso mensageiro morreu a tentar impedir esta guerra.
Temos de deter o An�bal antes que esta guerra se espalhe pela Wajira.
Podemos consegui-lo, se nos unirmos.
Onde est� o Rapayet?
Fugiu.
A �rsula e o Rapayet usaram o cemit�rio sagrado
para esconder dinheiro e armas.
O An�bal, a �rsula e o Rapayet macularam o nome do nosso cl�.
N�o se portam como os way�u.
Portam-se como os alijuna.
N�s, way�u, n�o somos aquilo em que eles se transformaram.
N�o levarei a minha fam�lia a dar a vida por uma disputa com os alijuna.
A minha fam�lia tamb�m n�o tomar� parte nesta vingan�a.
Este territ�rio foi sempre nosso.
Sempre o protegemos com honra e coragem
quando foi necess�rio.
Os nossos antepassados defenderam-no de piratas,
de ingleses, de espanh�is...
E dos governos que nos tentaram expropriar e dizer-nos como viver.
Este territ�rio n�o � dos alijuna, � dos nossos antepassados.
N�o permitiremos que estes traficantes de erva o encham de viol�ncia.
Castiguemos o An�bal e a sua fam�lia!
Isto tem de acabar!
A viol�ncia contra os mensageiros nunca se viu!
Tem de ser castigada.
Mas antes de castigarmos o An�bal, a fam�lia da �rsula tem de nos compensar.
T�m de nos ceder o seu cemit�rio e exumar os mortos deles.
A �rsula tem de devolver o talism� que protege a fam�lia dela e os colares.
Devolve-o.
A fam�lia Arpushana concorda com o castigo,
se a �rsula devolver o talism� e os colares.
A fam�lia Juusay� enviar� homens para ajudar a castigar o An�bal.
A fam�lia Epieyuu junta-se ao castigo pelas fam�lias Pushaina e Abuchaibe.
Goyo, Goyo, Goyo.
Escuto.
Limpem tudo. Vamos a�.
Atendam, atendam! Escuto.
Atende, Goyo. Estamos a caminho.
Escuto.
Vai para dentro!
Vim buscar-te e aos meus netos.
N�o.
O teu lugar � comigo, filha.
N�o podes viver como way�u, se estiveres longe da fam�lia.
De que nos serve ser way�u, se morrermos?
Vem comigo e poupo o Rapayet!
N�o os leve. Por favor. N�o fa�a isso.
Se apareceres para os ver, mato-te.
Quantos mataram eles?
N�o queira saber.
E as sementeiras?
Don An�bal...
Foi um milagre aqueles �ndios n�o nos terem morto.
Estou farto. Vou voltar para Medell�n.
N�o h� nada a fazer aqui.
Traz-me homens de Medell�n.
Podes ficar com o que sobra da colheita.
Eles queimaram tudo.
N�o resta nada.
Tenho 1300 quilos. S� eu sei onde est�o.
Podes ficar com a casa, os carros, o dinheiro escondido, tudo.
Est� disposto a prescindir de tudo s� para se vingar?
Quando consegues traz�-los?
H� dinheiro na bolsa.
Vai procurar o Leonidas.
Vai.
Vai e nunca voltes!
Vai!
Vai!
CANTO V LIMBO
Tio!
Tio Leonidas!
E ent�o?
N�o nos resta nada neste mundo, An�bal.
Mas respeita os mortos.
Devolve-me o meu neto.
Devolvo-o sob duas condi��es.
Entregue-me os seus neg�cios.
A erva que tem, os avi�es,
as pistas de aterragem... - Vim falar contigo, n�o com ele.
� com ele que tens de falar agora.
Organize uma �ltima entrega com o seu contacto.
Qual � a outra coisa?
Traz-me o Rapayet.
E o Leonidas.
O Leonidas est� morto.
- Ent�o diz-me onde est� o Rapayet. - Tamb�m quero o Leonidas.
Cale a boca!
Far� o que eu disser.
Contente-se com o Rapayet.
Eu entrego-te o Rapayet.
Podes matar-me.
Poupa a Indira.
A senhora nem merece uma bala.
Onde est� o Leonidas?
N�o pararei enquanto n�o o matar.
J� estamos todos mortos.
Leva-as.
E ent�o, quando vi esta menina way�u Que n�o sabia pastorar
Que perdera o conhecimento Dos antepassados
E s� lhe restava vaguear Pelo deserto no escuro
Foi assim que soube esta hist�ria
A hist�ria duma erva bravia Que veio como salvadora
Mas destruiu como gafanhotos
A erva assumiu outras formas E foi tomada pela gan�ncia
Assim despertou Um formid�vel monstro wanul�
E a sua sombra Escureceu o mundo inteiro
Se tiv�ssemos ouvido os sonhos Se tiv�ssemos ouvido os mortos
V�m a� ventos fortes
Que apagar�o As nossas pegadas na terra
� por isso que canto hoje
Para que os way�u e os alijuna N�o esque�am
Aquilo que os ventos de Ver�o apagam
E os p�ssaros possam cantar Esta hist�ria
Para que ela fique para sempre No lugar dos sonhos e da mem�ria
Realiza��o
Produ��o
Argumento
Fotografia Direc��o de Arte
Montagem M�sica
Tradu��o (do ingl�s) SARA DAVID LOPES
Ripadas por: RicardoB/2019
FIM
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