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Bun.
Bun, olha para mim.
- O que foi? Ele está acordado? - Não.
Olha para mim.
O que foi?
Sinto-o diferente.
Sim.
- Sim. - Sim.
Como se agora fosse maior do que nós.
É cósmico.
Bun.
Sinto-o divino.
Adoro.
Adoro ter um filho.
E, Bun...
Amo-te, Bunny.
Pai.
O que vamos fazer agora?
Vamos pôr-nos a caminho
e abanar a árvore das patacas, isso sim.
Anda, Júnior.
Por fim, e não me interrompas se já ouviste isto antes.
Tudo bem, Bun?
Tudo bem, Ray?
- O que é verde e cheira a bacon? - E a cabeça?
O dedo do Cocas.
Sim. Está bem. Até logo.
Como estás, amigo?
Em altas. Sempre.
- Então, o que fazes aqui? - O que achas?
Estou pronto para abalar. Só preciso da lista.
Ouve, Bun.
Quando perdi a minha Hilda, demorou um bocado.
- Estou bem. - Porque não tiras uns dias?
Não há tempo.
Tenho de seguir, aquecer.
- Para quê? - Falta uma semana para o grande evento.
O quê, a expo?
Outros virão, Bun.
Não.
Não virão nada.
É um evento anual, Bun. Há todos os anos.
Credo! O que aconteceu ontem à noite?
Envergonhaste a Eternity Enterprises.
Também mijei nas calças.
Tudo bem, Bun?
Tudo bem, Poodle.
Vou ao Bedford beber um copito.
Eu também vou.
Temos de nos fazer à estrada.
Hoje não há escola?
Ele está a sacudir a árvore das patacas. A preparar o grande evento.
- Não é, pai? - É.
Agora, Geoffrey, por gentileza, dá-me o raio da lista.
Certo, Bunny.
- Tu é que mandas. - Não, Geoffrey, tu é que mandas.
Eu sou só o único tipo nesta empresa de segunda
que sabe vender alguma coisa.
Ele tem razão.
BASEADO NUM ROMANCE DE NICK CAVE
A MORTE DE BUNNY MUNRO
PARTE DOIS VENDEDOR
Uma prenda para ti.
Ela vive em Newhaven.
Verás que é uma cliente muito recetiva.
Achas que perdi o jeito, Poo?
Não, claro que não. Claro que não, meu.
Pensei que podia ajudar no luto.
Se alguma vez precisar das tuas dicas, peço-te.
Então, bem podes dar-me um tiro.
Adoro-te.
- Também te adoro. - Agora, desanda.
E agora?
Vamos aliviar o fardo de algumas mamas.
O quê?
Vamos vender umas coisas.
Pai, o que significa sacudir a árvore das patacas?
É assim.
Se te aproximares de um carvalho, um daqueles grandes e maciços,
com raízes bem fundas na terra,
aproximas-te dele e sacode-lo, o que acontece?
Não sei.
Não acontece nada, pois não?
Podias passar o dia a sacudi-lo.
Apenas irias ficar cansado dos braços, certo?
Certo?
Sim. Claro.
Mas, se te abeirares de uma árvore magrela, seca,
pequena e de tronco mirrado
e algumas folhas presas por arames,
e puseres as mãos à volta dela e a abanares a valer,
como se diz na gíria,
as folhas vão saltar fora, não vão?
O carvalho é o cabrão do rico e a árvore magrela
é o pobretanas. Estás a acompanhar?
Parece mais fácil do que é, meu puto.
- Queres saber porquê? - Está bem, pai.
Porque todos têm as unhas na arvorezinha
e a abanam à séria.
O governo, o senhorio, a lotaria
que eles não têm como ganhar, todas as tretas inúteis
que veem na TV, as slot machines, os corretores de apostas, todo o cabrão
e o seu cão cegueta de três patas e com varíola
está a abanar a arvorezinha.
Por isso, tens de te destacar.
Tens de ter algo que eles achem que precisam acima de tudo o resto.
E isso é o quê?
Esperança.
O sonho.
Tens de lhes vender o sonho.
Qual é o sonho?
Eu.
Certo.
Tu não.
Tu és o copiloto.
Tomas conta do mapa.
Garantes que vamos na direção certa.
- Uma tarefa crucial. És capaz? - Sim.
- O que faço agora? - Esperas no carro.
Está bem.
- Tudo bem? - Desande.
É aquela altura da noite, rapazes.
Está a olhar para mim?
Vejamos o que temos aqui.
Amanda, para si, tenho o óleo marroquino de rosas,
o creme renovador com efeito de lifting, mais o bálsamo ocular
e uma garrafa de uísque e uma boa noite de sono.
- Pois, sim. Com os meus filhos? - Percebe?
Zoe. Estou muito desiludido consigo.
Ele está desiludido, Zoe.
Encomendou o óleo de banho gerânio-laranja e o bálsamo ocular.
Mas, e custa-me dizê-lo,
não encomendou o creme com efeito de lifting.
Sua grande malvada.
Estou em apuros, Sr. Munro?
Óleos 100% vegetais, fragrância natural. O paraíso em estado líquido.
- É o Barry White engarrafado. - Grande garrafa, não?
Amanda.
Intriga-me que uma mulher tão bonita
ache justificável negar ao seu corpo aquilo por que este anseia.
Estou muito desiludido consigo.
- Compra o raio do creme. - Muito bem.
Fico com ele.
Maravilhoso. Agora...
Georgia.
Para si, tenho o óleo de banho, a máscara capilar,
o creme noturno de colágeno e...
Algo mais?
Qualquer coisa?
Eu sei.
Uma boa trancada.
Então...
Senhoras, estou em choque.
E, na verdade, aterrado. Sou um profissional.
Por outra, como se diz,
cliente satisfeita, cliente leal.
Não a podemos deixar insatisfeita.
Pois não?
Não.
Mãe.
Vai ver televisão. Vai.
Vamos lá. Anda.
Vá lá.
É sua?
Sim.
Um encanto.
- Tem filhos, Sr. Munro? - Tenho, sim.
Um rapaz.
De que idade?
Sete.
Talvez dez.
Senhoras, receio que o meu tempo se tenha esgotado.
- Não vá já embora. - Ainda é cedo.
Um agradável dia de compras em Birmingham
acabou em desordem ao surgir o homem conhecido como Assassino dos Chifres.
Testemunhas aterradas avistaram sangue fresco
na forquilha que ele empunha.
Moradores de Birmingham...
São horas de desandar desta cidade.
Está transfigurada.
Azedou.
Eu também?
Sim. Porque não?
Está bem.
Ótimo.
- Para onde vamos? - Para onde queres ir?
A mãe sempre disse que, um dia, gostava de viver no campo. Numa quinta.
Acho que também gostaria.
- Certinho. Uma quinta, seja. - Sim?
Fixe. Podemos ter animais?
Sem animais, era uma quinta da treta, não era?
Sim. Uma treta, pois.
- Podemos ter galinhas? - Claro que sim.
- E vacas? - Bandos delas.
- Manadas. - Isso também.
E um touro de grandes cornos.
E um crocodilo.
- Mas... - Que se lixe.
Dois grandes crocodilos.
Mas não se têm crocodilos em quintas.
Na nossa quinta, sim, amigo.
Está bem?
- Está bem. - Certo. Vamos lá, copiloto.
Sim. Lindo menino.
Muito bem. Ele só está a experimentar, seu palonço!
Segura-o.
Bingo! Certo. Vá lá, copiloto.
Vais poder brilhar.
Para onde vamos?
Charlotte Parnovar, Shoreham.
- Já lá estiveste? - Não.
Mas sei que nos vamos divertir.
Vamos?
Sim.
Shoreham...
Shoreham, fica ali.
O que tens tu?
Já te disse. São os meus olhos.
Preciso de pomada.
A mãe costumava comprá-la na farmácia, mas...
Muito bem. Fazemos assim.
Eu deixo-te na farmácia e, enquanto vou tratar
da adorada Charlotte Parnovar, tu compras a pomada. Certo?
Sozinho?
Sim. Não me demoro.
- Sim? - Sim.
As miúdas dos subúrbios são todas iguais.
Prisioneiras nas suas casas imaculadas.
Ligam a pedir amostras grátis de um creme,
bálsamo, o que seja.
Sabes o que querem mesmo, aquilo por que rezam em segredo?
O quê?
Um homem a sério que irrompa por lá
e lhes vire a vida do avesso durante meia hora.
E esse és tu, pai?
Tal e qual, Bunny, meu filho.
Há uma farmácia ali ao fundo da rua.
Vai lá comprar a tua pomada, sim?
Eu não demoro.
Vai lá comprar a tua pomada
e depois volta e espera por mim nestes degraus.
Está bem?
Não fales com estranhos.
Cum caraças!
Frida Kahlo.
É linda, não é?
Está bem?
Sim.
Hoje não estou nos meus dias.
Mas voltemos ao que importa, sim?
Este creme refirmante é belíssimo para os pés, Sra...
- Posso chamar-lhe Charlotte? - Claro.
Pode chamar-me Bunny.
Bunny?
Está a brincar, certo?
Falo muito a sério.
E sabe o que dizem dos coelhos.
- O que dizem? - Bem, sabe, que eles...
Não sei o que dizem.
Este número resulta mesmo com as senhoras, Bunny?
Sim.
Acabou de me piscar o olho?
Talvez.
- É inacreditável. - É o que me dizem.
- Ao aplicá-lo, irá sentir-se... - De onde saiu a rastejar, Bunny?
De um poço de alcatrão?
...como a princesa que sempre quis ser...
Você é um dodó.
Devia ter algo ao pescoço a dizer "Extinto".
Não sei o que pensa que se passa aqui, mas...
Tento fazer o meu trabalho. Ganhar a vida.
- Sustentar o meu filho. - O seu filho?
- Tem um filho? - Sim.
Onde está ele?
Está à minha espera.
Rapaz sortudo.
Lamento, Sr. Munro.
Fui longe demais.
Creio que o magoei.
Não, não magoou.
Está tudo bem.
Só preciso de usar a sua casa de banho.
- O quê? - Sim.
Passei o dia em viagem.
Estou tão apertado que até me apago.
Mas que classe.
É ao fundo do corredor.
Cabra de merda.
Sim, continua. Toma lá.
Mulher estúpida. Continua.
Toma lá no tapete.
E nas tuas revistas dum raio.
Continua.
Que mijada.
Onde tens a pasta de dentes?
Sua marota.
Posso ajudar?
Sim, por favor.
Preciso de pomada para os olhos.
Clor...
- Clor... - Cloranfenicol?
Sim.
São 3,98, por favor.
Posso ficar aqui um bocadinho?
Está bem.
Estás bem?
Acho que sim.
A minha mãe é que me costuma pôr.
Certo. E onde está a tua mãe?
Ela morreu.
Lamento.
Não faz mal.
Ela deve ter querido morrer.
Por isso não é tão triste.
Então,
quem toma conta de ti?
O meu pai.
Estamos em viagem.
A sacudir a árvore das patacas. Significa vender.
E onde está ele agora, o teu pai?
Não sei.
Preciso de pomada para os olhos.
Quer comprar alguma destas merdas ou não?
Deteto uma certa hostilidade.
Sim, pois, nós dodós por vezes ficamos assim.
O que vai fazer quanto a isso?
Vou pedir-lhe que desande da minha casa.
Estou a ir.
Mas, para que saiba, mijei-lhe a casa de banho toda.
- O quê? - Paredes,
- tapete, as suas revistas femininas... - Fez o quê?
A sua maldita escova de dentes.
Mas o que está a...
Desande!
E pode pegar nisto e enfiá-lo pelo rabo acima.
Foda-se!
Quase me esqueci da tua cara.
Querido, acho que devias ir viver com a avó.
Sim?
Ela não me quer.
Ela não quer ajudar o teu pai.
Se tu lhe pedires...
Mas eu e o pai vamos arranjar uma quinta.
Pois.
Com crocodilos.
Acho que talvez o teu pai não seja muito bom
a tomar conta de alguém que não ele.
E nem nisso ele é muito bom.
Júnior.
Mas não se enforcou das cortinas, pois não?
Estás bem?
Uma pergunta.
Quem é o pai mais fixe do mundo?
É incrível.
Espera até irmos para o quarto. Vais adorar.
Vou mostrar-te a coisa mais estranha do mundo.
- O quê? - Estou a falar de maluquice total.
O quê?
Não, a sério, é algo fora do normal.
O quê?
Os sabonetes mais pequenos que alguma vez viste.
- Posso ajudar? - Decerto que sim.
Quero o seu melhor quarto.
Onde arranjaste isso?
Onde arranjei...
Meu puto,
sabes que estás a falar com o primeiro, destacado
vendedor número um de toda a Brighton, certo?
Sim.
- Claro. - Vendia uma bicicleta a uma barracuda.
O nosso quarto Elizabeth, senhor.
Elizabeth.
Até vendia duas bicicletas a uma barracuda.
Vendia toda uma frota de bicicletas, digo-te já.
- Olá, bwana. - Vá lá, sacana careca.
Dá-me boas notícias.
...tivemos uma queixa.
Uma mulher telefonou a dizer que lhe falta dinheiro.
Claro que lhe disse que nós, na Eternity Enterprises,
não temos o hábito de empregar ladrões.
Ela ameaça chamar a polícia, Bun.
E o cuidador do teu pai telefonou.
Tinhas razão quanto aos sabonetes, pai.
São tão pequeninos!
Podes ensinar-me?
A ser um vendedor como tu.
Não sou um bom copiloto.
E não gosto de ficar sozinho.
Sim.
Está bem.
A sério?
Vou ensinar-te tudo o que sei.
O que estás a fazer?
A sacudir a árvore das patacas.
Dá-me o raio do dinheiro!
Vá, deita-te.
Olha para mim, Bunny.
Olha para mim.
Era só o que tinhas de fazer, Bun.
Parar de olhar para todo o lado.
Tínhamos tudo.
Eu queria.
E porque não o fizeste, palerma?
Não sei.
Sabes, sim.
Não é tarde para uma demonstração de produtos?
Nunca...
...é tarde para experienciar as maravilhas deste...
...hipoalergénico...
...rejuvenescedor...
O teu amigo disse-te onde eu morava?
E que disse ele de mim?
Que eras uma cliente muito recetiva.
Ai sim?
Muito prestável, disse ele.
Generosa, até.
Fala-me mais do creme.
Bem, Pamela,
esta esplêndida...
...hidratante...
...antienvelhecimento...
...loção...
Estás bem?
Foi um dia difícil.
Gostas de rata, Bunny?
Adoro.
Em que medida?
Acima de todas as coisas.
Mais do que à própria vida.
Adoras a minha rata?
Sim.
Adoro.
Adoro-a para lá da razão.
Adoro-a para além do tempo.
Anda comê-la.
Como te chamas?
Penny Charade.
E tu?
Bunny.
Bunny?
Bunny Munro.
Tenho um pressentimento a teu respeito.
Acho que as coisas vão piorar bastante.
Eu sei.
Legendas (português): Deluxe Media Tradução de: Rolando Melo
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