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Zulu
Deixa-te levar
Aceita o incrível
O limite do possível
Rebenta ao imaginar
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Levanta-te ou levanto-te eu, maricas.
AS NOITES DE TEFÍA
- Bom dia, a todos. - Bom dia.
Os camiões estão lá fora para descarregar.
Certo.
Estou? Sim, fala o próprio.
Não. Não, não vou responder.
Não me interessa o que pretende, já disse que não sei de nada.
E, infelizmente, o senhor Flores não pode responder às suas perguntas.
Não me incomode mais, por favor.
- Bom dia, pai. - Estes tipos das telecomunicações.
Olha, já tenho os tecidos para o fato da Drag Extermínio.
Dá uma vista de olhos.
- Deixa lá ver. - Estás lembrado sobre domingo?
- Não sou assim tão velho, querida. - Levas alguém?
A ver se o teu irmão me apanha para levarmos só um carro.
Estou a perguntar se levas uma acompanhante.
- Não percas a esperança, pai. - Vá lá, querida.
Vai buscar a mala.
O que tens?
Nada, não é nada. Porquê?
- Vamos, estou com pressa. - Não.
Hoje, não posso ir, tenho uma coisa para fazer.
Mas estou à tua espera há 10 minutos.
Devias ter a mesma pressa para chegar ao trabalho.
A ver se no domingo temos uma festa tranquila, por favor.
Charlie, espera, eu levo-te.
Eu vi-o.
Quase me caiu tudo.
Está bastante velho, mas os olhos...
... estão iguais.
Ia com uma rapariga que já vi pelo bairro
e os miúdos chamaram-no de avô.
Avô.
Só de olhar para ele...
Não fiques chateado comigo.
E se ficares um pouco chateado, sei como acabar com isso.
Vamos, anda!
- Quem são estes? - Presos.
Há um campo de concentração a 20 quilómetros daqui.
Presos políticos?
Presos políticos, bêbedos, vagabundos e homossexuais.
Cumpro todos os requisitos.
Se me puseram numa cela com aquele, era capaz de pensar nisso.
Ias limpar bem o pó a essa tua vida.
- O que disseste ao gringo, violeta? - Nada.
Dei-lhe as boas-vindas a Espanha como Deus manda.
Vamos.
Outra vez aqui, maricas? Que vício tens. Vá, toca a andar.
Senhores... Que Deus os acompanhe.
Vá, podem descer, meninas. Vá lá. Vamos.
Uma fila aqui.
Vá lá, despachem-se, caramba.
Alto!
- O que me trazes? - Larilas a granel.
Fala-me de forma a que te entenda.
- Maricas a granel. - Muito bem.
Caramba, outra vez por aqui, Rubito? Então, não te mexes?
Isto é mais contagioso que a gripe.
Leva-os à Direção e eu já lá vou ter.
Marchar!
Vamos, acompanhem-me.
Venham daí, donzelas.
Chamo-me Dom Anselmo Umpiérrez. Se estão aqui,
é porque fizeram coisas que ofendem a moral divina.
Espanha não precisa de delinquentes, vagabundos, proxenetas ou sodomitas.
Espera-vos trabalho duro, pois duro é o caminho da redenção.
De vocês depende que assine a vossa carta de liberdade ao fim de um ano
ou que prorrogue a vossa estadia nesta colónia até um máximo de três.
Os guardas e eu estamos confinados neste sítio
com o único propósito de ajudá-los a endireitar as vossas vidas.
Espero que saibam estar à altura do nosso sacrifício.
Para cima.
Vira-te. Agacha-te.
Abre.
Sem sinais de dilatação do esfíncter. É um alcoólico propenso à violência.
Só poderá beber água por aqui. Sempre que a merecer.
O Sr. Arencibia dir-lhe-á como é bom libertar-se da escravidão do álcool.
- Não é verdade? - Sim, Dom Anselmo.
As primeiras semanas foram duras, mas olhem para ele agora.
Um preso exemplar prestes a conseguir a carta de liberdade.
Obrigado, Dom Anselmo.
Vira-te. Agacha-te.
Sujeito epileptoide. Não apresenta maneirismos.
Abre.
Nem grandes sinais de dilatação do esfíncter.
Poderá ser um pedófilo ativo ou, dada a sua juventude,
simples curiosidade pela aberração sexual.
A curiosidade nunca é simples.
A aberração sodomita alastra-se entre os nossos jovens como uma praga.
Olha para mim.
Se está confuso, não se preocupe, que vamos acabar com as dúvidas.
Tipo leptosomático. Mente deformada pela perversão, dado ao delito.
- Apto para qualquer atividade. - Muito bem.
A dilatação do esfíncter, a juntar à ausência de pregas,
permite-nos classificá-lo como pedófilo passivo.
Depende do momento.
O que disseste? Mas que raios disseste tu?
Que depende do momento, senhor.
Levanta-te.
Levanta-te, nem te quero tocar. Vá, levanta-te, maricas.
Conhecemos bem o senhor Flores. Não temo enfrentar os meus fracassos,
sou mais de agarrá-los pelo pescoço e apertar bem até acabar com eles.
Os pedófilos reincidentes são ideais para a terapia com eletrochoques.
Muito bem. Então, insista com o seu tio para nos dar um,
pois o nosso orçamento não dá para mais.
Sou eu quem te vai fazer acordar para a vida, vais ver.
Vá, venham comigo. Acompanhem-me, vamos!
Vá lá, vamos.
Atenção!
Expliquem aos novos o que acontece se os vir por aí carinhosos, entendido?
Como vai isso? Então, querido, como estás?
- Seis meses, Vespa. - A ânsia.
- Saí daqui e fartei-me de fornicar! - Que maldito!
Nem sabem como a costa está cheia de turistas.
- Anda cá, maricas! - Que saudades!
Ouve, sei dizer "como-te o pau todo" em 24 idiomas.
- Que tal? - Então, andam aí muitos gringos?
Muitos.
Com uns biquínis, umas mamas, uns rabos...
Venham daí, meninas!
Quando saíres, vais dar em maluco!
Em, e quem é este? Quem é?
Macacos me mordam! É ele, vem cá, meu querido!
Cuidado!
Caraças, foi por pouco. Filho da mãe.
É o Charlie, caraças. O que contas?
- Seis meses, Vespa. - E o que queres que faça?
Deixaste-me a meio de "Os Miseráveis" e queria saber como terminava.
Deixa-me olhar para ti.
O meu menino estava tão lindo de cabelo comprido.
Como estão as coisas lá fora?
Informação rápida sobre a vida nacional.
E do estrangeiro também.
- Franco, o gordão... - Mais baixo.
Que susto me pregaste!
- A Paca sofreu um acidente de caça. - O quê?
A desgraçada ficou com a mão destruída.
A senhora quer que a troquem pelo braço incorrupto de Santa Teresa.
O que me dizem? Mas cheia de medo, claro.
Não vá o braço sair disparado ao fazer a saudação fascista.
Viva Espanha! Ai, caraças!
A Paca está empenhada em ser uma estrela internacional
e enrolar-se com o presidente americano.
Um bonitão loiro...
Como a cerveja
E a mulher também, a Jacqueline.
- Deslumbrante. - Que bom!
Oiçam, se a gorda conseguir trazê-lo a Espanha
como trouxe o anterior presidente americano,
de certeza que já está a pensar em pôr-lhe uns saltos enormes.
- Porquê? - Não vá a maldita anã
ficar à altura do míssil do presidente dos Estados Unidos.
O que fazes aí parado, Cabeça? Vem cá, eu apresento-te a malta.
Olha, este é o Charlie, mais conhecido por Séries.
Conta umas histórias de arrepiar durante a noite.
Este moreno é o Boncho.
Está-lhe no sangue passar o tempo todo a fazer-te olhinhos,
mas gosta mais de mulheres do que do maldito pau.
Por falar de malditos. Vem cá.
Eis o Ramón, o Mole, o Pirado.
É macho, mas está todo amassado. Mas quem te come todinho?
- Quem te come todinho? - A Vespa.
Sou eu mesmo, o cabeça de grupo.
filho de Juan Teso e María de Romero, a melhor do mundo inteiro,
Manuel Flores, Manolín, a Vespa.
Olé!
A Sissi, primeira-dama de Tefía.
É mais fina a limpar o pó que uma pele velha.
E a única, a inigualável, a maravilhosa... Pinito!
- Sou eu. - Devota da Virgem do Pinheiro.
E da trapezista, que somos as três da mesma aldeia.
Olé, que artista! Vejamos, meninos e meninas, este é...
Não sei como te chamas, maricas.
- Airam. - Airam?
- Airam. - É igual.
Com esses teus olhos de assustado, ficas o Bambi.
Bambi.
Até amanhã.
Desculpe abordá-lo desta forma. É o senhor Betancor?
Olá, sou o Miguel Ángel. Liguei-lhe esta manhã.
Só um minuto. Pretendo apenas reunir dados para um documentário. Não...
Oiça, não acha necessário que se saiba o que aconteceu em Tefía?
- Não sei do que fala. - Mais uma razão para insistir.
Há que dar a conhecer as histórias de centenas de homens
que foram presos, como o seu amigo,
pela Lei de Vagabundos e Bandidos, sem garantia judicial,
muitos apenas pela sua orientação sexual.
Sabe que o meu amigo não está em condições de responder a perguntas.
Por isso tento falar com familiares ou pessoas próximas
antes que a sua história se perca. - Aquele senhor não tem família.
Bem, parece que o tem a si.
Sr. Betancor, histórias por contar são como se não tivessem acontecido.
Eu certifico-me apenas de que não lhe falta nada.
- Por favor, oiça. - Se volta a incomodar-me
ou a tentar contactar o Sr. Flores, terei de denunciá-lo.
Vai ao teu ritmo, sem pressa.
Não corras. Mais devagar.
Devem ver-te sempre em movimento, mas faz o mínimo possível.
Toma.
Guarda.
Mas o que é isto?
Eusebio, mas o que é isto? Não me lixes!
Qualquer dia, o envelope vem vazio.
- Cada vez sacam menos pedras. - Quero mais, não me lixes!
Vem aí o chefe. Quero ver se tens tomates para lho explicar a ele.
Eu trato disso.
Bambi... come. o que não mata, engorda.
Estes querem confusão.
Toma. Mostra ao Bambi como comemos esta porcaria.
É matemática, Dom Anselmo.
Dinheiro proporcional à tonelada de pedra.
Não me lixes. Podia pô-los a levantar velas e logo depois a desfazê-las.
- Vêm para aqui porque me convém. - Mas se aumentar mais o preço...
Muito bem. Procure mais barato na aldeia para ver se encontra.
Mas podia dar-me autorização para apertar com eles.
Apertar mais ainda, certo?
Eles que ganhem aquilo que me tiram.
Cala-te, caramba! Queremos dormir, raios!
Dorme e cala-te, não me moas a cabeça.
- Para o caraças, tu e as tuas cenas. - Reza para não ir aí.
Séries.
Porque não terminas a história de ontem?
- Agora, não, Vespa. - Vá lá. Conta lá.
Estou morto, deixa-me estar.
Daqui a pouco estás por cima, sei bem.
Olha.
O público está à tua espera.
Conta lá, vá.
Vamos.
Miúdo, ouve. Ouve isto.
Ficaste na parte em que a mulher subia para cima dele lentamente.
- Leonardo, dás comigo em doida. - Imaginem que é como eu.
- Provocador. - E lindão.
Charlie, como é a namorada? Como é a mulher?
- Morena. - Sim.
Com olhos verdes, como duas azeitonas.
- E umas tetas enormes. - Cala-te lá.
Com tetas enormes, certo? Bem empinadinhas.
- Deixam-me contar? - Continua, Charlie.
Cisne redondo no rio, olho das catedrais,
aurora fingida nas folhas sou. Toma!
Não conseguirão escapar.
Já saímos. Cala-te!
Eles estão perto.
- Vou levar-te comigo. - Mas tem de ser à força.
E ele diz...
À força? Quem desceu primeiro as escadas?
Fui eu.
- E quem pôs rédeas novas ao cavalo? - Fui eu.
- E que mãos me calçaram as esporas? - Estas mãos, que são tuas!
Que, ao ver-te, quiseram quebrar os ramos azuis
e o sussurro das tuas veias.
Continua, Charlie, é agora que vão pinar.
- Boncho, é amor, caraças! - E faz-se por sinais? Têm de pinar.
- Cala-te! - Leonardo não queria perdê-la.
mas ao vê-la à sua frente, tão linda,
não conseguiu acalmar o desejo... - E fornicou-a.
Cala-te! E ela disse: "Desejo-te.
"Desejo-te. Afasta-te. Pois se pudesse matar-te,
te faria uma mortalha com franjas de violetas."
- E o que disse ele? - E ele disse...
Juro que não tenho culpa.
A culpa é da terra.
"Desse perfume que exalam os teus seios e os teus cabelos".
Mas que falta de lógica! Sem cama, nem fome.
Não há momento do dia em que não te deseje.
- Só estando morto nos separarão. - E eu morta.
Vamos, depressa! Já os vi mais rápidos! Vá lá!
Chega, Juani. Pareces novo aqui, caraças!
Não tens de usá-las agora. Carrega o peso nos ombros. Vamos.
Isso mesmo, vamos.
Não consigo. Não. Charlie, vou cair.
Não consigo.
O que imaginas com muita força ajuda na vida real.
Já transportaste esses bidons e chegaste à colónia,
por isso, não te imaginas caído. Imagina-te a chegar.
Calem-se de uma vez!
Por que estás aqui?
Queres saber se sou vagabundo ou maricas?
O meu problema também foi a imaginação.
Imaginei uma vida,
mas apareceu a maldita da guerra e lixou-me tudo.
Bem, para ser sincero, o álcool também não ajudou muito.
Levanta-te, Sissi. De pé.
Vamos lá, estás a parar a fila. Vá, levanta-te!
Vamos lá, vá! Parece que estão cansados!
- Gostei de vê-los. Adeus. - Igualmente, um bom dia.
- Bom dia, pai. - Olá, querida.
- Com quem estavas a falar? - Não sei o nome. Moram aqui perto.
Bem me pareciam familiares.
- E o senhor mais velho? - É o pai.
Veio morar com ela há pouco tempo.
Achava que a imaginação era o meu forte.
Nos desenhos, mas não nos negócios.
Claro, a fábrica pôs-se de pé sozinha.
Caraças, pai! Não se pode explicar nada, não quer entender.
Os socialistas acabam de chegar ao governo.
- E? - É bastante provável
que aprovem a lei do casamento igualitário,
e a festa do Orgulho crescerá exponencialmente, caramba!
No ano passado, tivemos pedidos relacionados com a festa do Orgulho
e tratámo-los a partir daqui, como os de muitas outras festas.
Ótimo, mas tendo uma delegação em Madrid,
competiríamos a outro nível, tanto aqui, como lá.
- Uma delegação que ias tu gerir? - Estou completamente preparado.
Mais uma coisa da qual discordamos.
Imaginas o teu irmão a gerir uma delegação em Madrid?
Não é isso, pai. Não é isso.
O Carlos não quer assumir as suas responsabilidades.
Todas as decisões que toma são a fugir.
Sei que isto é um negócio, Airam, mas não podemos evitar
que, além de sermos direção, também sejamos família.
Tenta, ainda que de vez em quando, calar o chefe e deixar falar o pai.
Querida...
- Amanhã, é a Festa da Rama. - E?
E eu vou sempre com a minha mãe.
A minha mãe...
Tens de me convidar para lá ir um ano.
Cara ao Sol Com a camisa nova
Que ontem bordaste de vermelho
A morte me encontrará Se me levar
E não te voltar a ver
Formarei com os meus camaradas
Que montam guarda Sob as estrelas
Presentes no nosso entusiasmo
Se disserem que caí
No posto certamente estarei
Chegarão bandeiras vitoriosas
Ao passo alegre da paz
Com cinco rosas presas virão
As setas dos meus ideais
Disse: "Caraças, Matías, o tanque não! Não o tanque!"
Querida.
Sissi.
- Que filho da mãe. - Olha para este.
Sissi, aonde vais?
- À Festa da Rama. - Não.
- A minha mãe está à minha espera. - Anda cá.
Trata do assunto, Arencibia!
Corre, maricas!
Aonde vais, maricas?
Se me obrigas a ir atrás de ti, vais ficar roxo, mas é de pancada.
- Maricas! - Larilas!
E está a rir-se.
Lindona!
- Olha, olha! - Lindona!
- Deixa-o estar, meu. - Vou pregar-lhe um susto.
- Eu vou, chefe. - Aonde vais, idiota?
- É para assustá-lo e ver se volta. - Dispara, chefe. Acerta no maricas.
O filho da mãe continua a rir-se.
Espera, espera.
Se lhe acertas, passarás um mês a tratar de papelada.
Vê lá se te sai um filho assim.
Vá, dispara!
Não sejas desmancha-prazeres!
Raios me partam!
Estou à espera da minha mãe.
Ai, minha querida.
Pronto, parecem de borracha.
Vamos, linda. Vá lá, vamos para casa.
Aonde vais, loirinho?
Se quer ir para a cama, sabe ir sozinho.
Vamos, não se passa nada.
Querida.
- Levanta-te. - Levanta-te, vamos para a cama.
- Pega numa almofada. - Eu ajudo.
Vamos sentá-lo ali.
- Os sapatos. - Quero ir embora.
Eu sei que queres ir para casa!
E vais a nadar, com o ramo na mão?
- Estás doida, é? Não sabes nadar! - Cala-te!
E digo-te mais, se queres fugir, tira os saltos altos,
porque senti vergonha alheia daquela tua fuga.
Não te rias! Não te rias!
Pregaste-me um susto, que até me subiram os tomates à boca.
Vou fazer-te o mesmo, para não teres de ir a Casablanca ser operado.
Não, não. Não chores, desidratas e isso é péssimo para a pele.
Ai, minha mãe...
Séries, conta-lhe uma história para ver se ela relaxa.
Sim, uma de amor louco com um bonitão.
Deixa-te disso, estou fartinho de bonitões.
Uma de música e desgraças.
- Sim, como o "El Último Cuplé". - Vocês gostam de melodramas.
Trata do "melo", porque drama já temos aqui de sobra.
Esta noite, vamos ao Tindaya.
Vais levar-nos à montanha, mano?
Não temos corpo para ir de excursão.
O Tindaya é o cabaré mais famoso da capital.
Ouviste, querida? Sim?
O Séries vai abrir um cabaré só para ti.
O Tindaya é o sítio onde todos querem ir,
onde todos os artistas desejam atuar.
Paredes de veludo, mulheres com espetaculares vestidos de noite,
minissaias de cortar a respiração.
Eles, com smoking ou elegantes trajes.
E, de repente, no palco...
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Deixem-se levar
Aceitem o incrível
O limite do possível
Rebenta ao imaginar
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
- Com muitas bailarinas? - E quem mais?
Continua, Charlie.
E, de repente, o público fica em silêncio,
porque sabe que está prestes a aparecer em palco
a verdadeira estrela do Tindaya.
Senhoras e senhores, é com prazer que a direção do Tindaya apresenta
a sua mais cintilante estrela, a incomparável Sissi,
a Princesa Guanche.
Para de rondar
O teu cálculo falhou
Não conseguirás apanhar
Aqueles que vivem o Tindaya
Deixa-te levar
Assume a sua natureza
Aqui, a verdade é beleza
E a beleza é verdade
Sou o que vês
De Mafasca o fulgor Não tem explicação
O mistério esfuma-se Quando se procura entender
Sou o que sou
Perdão não pedirei Por intensamente brilhar
Tal como não pede o mar Quando as suas ondas levanta
Perdão não pedirei
Sou o que sou
Sou espuma salgada Vento na tua cara
Pedra de lava e flores
Uma alma incandescente
Tudo o que vês sem entusiasmar Vem do teu olhar
Sou a luz de Mafasca Montanha sagrada
Pedra de lava e flores
Perdão não pedirei Sou o que sou
Esta é a minha casa Estou no Tindaya
Estou no Tindaya
Esta é a minha casa
Sou o que sou
Anda. Vamos dormir.
Vamos.
Como não vai ter bailarinas, Sissi?
Podem não sair no teu número, mas eu quero mulheres e muitas.
Charlie, esta noite, tens de fazer um número
com uma estrela que fique louca pelo empresário do cabaré.
- Não quero ver mais mulheres que eu. - Deixa os outros desfrutar, maricas.
- Um número pequeno de abertura. - Claro.
Por mim, pode mostrar as mamas um pouco e sair.
Vadias não. O Tindaya não pode ser uma casa de alterne.
De alternativa, que somos mais.
Eu quero números musicais, como "Um Americano em Paris".
Vejam! Já temos coreógrafo.
- Eu? A sério? - Claro.
Mano, di-lo tu: diretor artístico.
Coreógrafo oficial.
Vá lá, mexam-se!
- E tu, Bambi? - Eu?
- O que queres fazer no Tindaya? - Eu não sou de palcos.
A minha mãe tem um ateliê de costura.
Ai, dou em doida com a Bambi costureira.
- A Bambi desenhará o guarda-roupa. - Olé!
Vai pensando numa indumentária para o meu número, sim?
- De toureiro, mas ié-ié. - Ai, mãe do Céu!
Ninguém se ri. Será a minha indumentária.
Ouve, imagina o Miguel de Molina,
mas reencarnado em negro.
Ordinário, maricas e negro. Não lhe falta nada.
Vamos, vamos!
- Ai, que vontade de ir ao Tindaya! - Vá lá, vamos.
Vamos, rápido!
Toma, Bambi. Dá-me essa.
Vá, tu consegues.
- Eu ia ser advogado. - E acabou nas marionetas.
Porque conheci uma estudante de Medicina
que fazia teatro no grupo da universidade
e foi lá que encontrei a minha verdadeira vocação.
- Pelo teatro? - E pelas meninas.
- Eras ator? - Não, era diretor.
- Eu nunca fui ao teatro. - Não?
- Quando sairmos daqui, levo-te. - Ver uma peça tua?
As minhas peças não são para os dias de hoje.
E onde está a rapariga?
Betancor!
Vem cá, Dom Anselmo chamou-te.
Vai.
Tira a boina. Isso mesmo.
"Isto é um inferno.
"Fazem-nos trabalhar como escravos, ao ritmo da porrada e da humilhação.
"Passamos imensa fome. Mãe, por favor,
"fala com Dom Marcelino para que interceda por mim.
Morrerei por aqui."
Acha que a sua mãe merece isto?
Não deve ter pensado nela quando se entregava às aberrações sexuais.
Não é à sua mãe a quem deve implorar, mas a Deus Todo-Poderoso,
para que o perdoe e o guie, não acha?
- És capaz de responder? - Senhor Robles,
quero que o Sr. Betancor entenda que se espera dele
sem recorrer à violência. - Muito bem, Dom Anselmo.
Entende?
O que é que entende?
Que tenho...
Que devo...
Afrontar a disciplina como forma de redenção.
Acha que eu ou o Sr. Robles gostamos de estar aqui?
Claro que não. Ninguém quer viver neste deserto.
Mas aceitamos o sacrifício com o único objetivo de vos ajudar.
É a nossa obrigação.
A sua é procurar a redenção, com humildade
e disciplina. Entendido?
- Quero ouvi-lo dizer. - Entendido, Dom Anselmo.
Uma noite no buraco vai ajudá-lo a fazer um exame de consciência.
Muito bem, Dom Anselmo.
Vamos embora. Põe a boina. Vamos.
Bambi.
Bambi.
O que foi?
Vespa! Vespa, por favor, tira-me daqui!
Acaba com a choradeira!
Olha, não vim aqui para te ouvir chorar, está?
Vim dizer-te que o Séries não continuou
com aquilo do Tindaya.
A malta queria que ele continuasse,
mas eu disse-lhes que jamais permitiria
que continuasse sem a tua presença.
Bem, e o Boncho passou-se por completo.
O Séries tinha prometido
que ia sair uma estrela de mamas gigantes.
Que lindo, pois é! Sim, ri-te.
Ris-te assim de uma estrela. Que vergonha.
Sabes o esforço que ela tem de fazer para carregar aquelas mamas?
Ri-te lá das pedras da pedreira.
Vamos ao que importa. E a minha indumentária?
- O que me vais vestir? - Ainda não pensei nisso.
Então, pensa, pois amanhã é a minha apresentação no Tindaya.
Quero deixar tudo de boca aberta.
Salta-me de cima Sobre o fogo
É só um jogo Para deixar de lado o abismo
Vira-te, vira-te Vira-te para mim
Salta Salta
E te farei rir
E te farei dançar
E tu te rirás E tu dançarás
E tu saltarás
Olá. Um passarinho disse-me que te falta carinho.
Eu tenho de sobra.
Aonde vais?
E te farei rir
E te farei dançar
E te farei saltar
Não te movas
Que nem um morto
Que o abismo não vê
No brilho no teu olhar
Mesmo que não me vejas
Mesmo que não me vejas
Vira-te, vira-te
Vira-te para mim
Tu aí, vamos. Toca a sair.
- Desculpe. O que disse? - Sei quem és.
- Não tenho tempo. - Sei quem és.
Pai? Desculpe, precisa de ajuda?
- Sei quem és! - Deixa-me com essas loucuras!
- Vá para casa! - Bateste-me.
- Torturaste-me. - O senhor deve estar enganado.
- Susana, vamos para casa. - Pai, leva os meninos.
- Sei quem és! - Está a assustar as crianças.
- Vá, pira-te para casa! - Sei quem és!
Sei quem és.
Bom dia, pai.
Estou?
Fala Airam Betancor.
Sim, também estive preso em Tefía.
Sim. Podemos falar.
Sim.
Versão portuguesa para RTP: CRISTBET, Lda.
Tradução e Legendagem Daniel Lúcio
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