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AS NOITES DE TEFÍA
De Espanha venho
Espanhola sou
No olhar carrego a luz do céu
No olhar a graça da Manola
Olá, como vai isso? Tanta beleza junta.
Sorri, querida, no Tindaya vendemos alegria.
- Olá, Boncho. - Vens muito tapadinha, não?
Estou a poupar-me para o palco.
Meninas, no Tindaya, adoramos mulheres generosas.
É o que diz o produtor.
Tu vais vencer, querida.
De Espanha venho Espanhola sou
- Boa sorte. - Obrigada.
Na minha cara serrana está escrito
Que em Espanha nasci E para lá vou
De Espanha venho Espanhola sou
Bravo! Bravo!
- Bravo! - Muito obrigado. A próxima!
Cabeção, arranja forma de fabricar umas unhas postiças.
Bem compridas.
De Espanha venho Espanhola sou
Cuidado com as piadolas até sabermos as intenções do Ministro do Turismo.
Diz-se que está disposto a soltar as amarras.
- Para atrair os gringos. - Que venham, a ver se nos toca algo.
- Desde que não sejam chatos. - Os gringos não vêm.
Praia, sol, sangria gelada... e baratinha, não?
- "Espanha é diferente". - Menos para os espanhóis.
Quando quiseres.
Sois diferente Diferente
De todos os outros Que sempre conheci
Sois diferente Diferente
E ao conhecer-te Apaixonei-me por ti
O teu olhar tem um tom distinto Do cinza das nuvens e do verde do mar
Os lábios beijam de forma distinta E estar a teu lado é como sonhar
Sois diferente Diferente
E ao conhecer-te Apaixonei-me por ti
O teu olhar tem um tom distinto Do cinza das nuvens e do verde do mar
Os lábios beijam de forma distinta E estar a teu lado é como sonhar
Sois diferente
Ouve, canta que nem um gato todo amassado.
- Muito obri... - Nem penses em interrompê-la.
Desculpa interromper, Airam.
Tudo isso que me contas é bastante divertido e terá a sua relevância.
Vejo que é algo que utilizavam para esquecer o terror da colónia,
mas é esse terror que devemos contar, por mais terrível que seja.
O que realmente aconteceu, a verdade.
E o que é mais real, o sonho ou o pesadelo?
Cara ao Sol Com a camisa nova
Que ontem bordaste de vermelho
A morte me encontrará Se me levar
E não te voltar a ver
Formarei com os meus camaradas
Que montam guarda Sob as estrelas
Presentes no nosso entusiasmo
Cabrão maldito! Filho da mãe!
Olha como este anormal já me tirou do sério!
Larilas do caraças!
- Viva Espanha! - Viva!
- Viva Franco! - Viva!
É da minha mãe.
Diz à tua mãe para não te enviar comida.
Ou a comem eles ou deixam-na a apodrecer.
Séries, continua com as audições, ainda não temos cantora.
Muito obrigado. A próxima, por favor.
- Esta tem qualquer coisa. - O que poderá ter? Duas costas?
- Quê? - Nada à frente e nada atrás.
Uma cantora, Boncho. Procuramos uma cantora.
- Sim, está bem. - Não sabes o que pretendes.
Que tenha boa voz, mas também algo mais. Sei lá, qualquer coisa.
Olha, a grunha.
- Horrível. - Já vi freiras mais dadas.
Cala-te.
Quando quiseres.
- Desculpem. - Vá, até logo. Próxima!
Podes calar-te? Respeito pelas artistas.
Se não canta, não canta.
Relaxa. Podes começar de novo.
A sério?
Confiada
Partilho contigo coisas Que antes eram simples
Responde-me um eco assombrado
Que já não fazem parte Da minha vida
Resisto a aceitar Que deixaste de gostar
De passear comigo de mãos dadas Rodeados de silêncios
Sonhos e pensamentos Como sempre fazíamos
Lado a lado
Recomponho o coração E sigo em frente
Forçando a razão Para não olhar para trás
E apesar da tristeza Escolho esta força
Para ser sombra e mulher Para ser a menina
A quem indicas Qual é o destino
Caramba!
- Ela desmaiou! - Cuidado ao levantá-la.
- Peço desculpa. - Tudo bem, calma.
Estás bem? Sentes-te melhor?
- Peço desculpa. - Toma. Come qualquer coisa.
Não, agora não, obrigada. Mais tarde.
- Vá, miúda. - Leva para comer depois.
- Tens uma voz espetacular. - Obrigada.
- Não vos roubo mais tempo. - Não, só o bolinho.
Gostavas de ser a cantora do Tindaya?
- Charlie... - Não decides isso sozinho.
- Sou o diretor artístico. - E eu sou o produtor.
Ouve, ela não canta mal, mas não sabemos o que esconde aquela saia.
Ouve, sobe-lhe um pouco o vestido.
- O corpinho não é mau. - Sim, podemos aproveitá-la bem.
- De cara, não. - Umas pestanas postiças
e os olhos ficam uns canhões. - Canhão já sou eu.
Sorri um pouco, querida, pareces paralisada.
Desculpem. Já me estava a sentir como uma égua no mercado.
- Não sou o que procuram. - Não.
Seriam 100 pesetas por noite.
- 100 pesetas? - Vai receber mais que eu?
- Não pode ser. - Como vai receber mais que nós?
Só dizes asneiras, Eusebio.
São números...
Deixei claro que sem a quantia certa, os presos não voltariam à pedreira.
Escute, Dom Anselmo.
Esta é a quantidade de pedra que se extraía da pedreira
quando podia pagar o que me pede e esta é a que se extrai atualmente.
- A que se deve esta diferença? - Há vários fatores que...
Andaluz, deixa comigo. Vejamos, há dois fatores importantes.
Os homens querem trabalhar menos e antes tínhamos 100 trabalhadores
e, agora, são menos de 50. - É o que eu digo, são números.
- Mas quem te deixou falar? - Então, meu?
- Mas tu estás na pedreira? - Deixa-me falar, caramba!
Está tudo aqui explícito. Por favor, homem!
Fuerteventura.
Se há menos presos, deviam trabalhar mais.
Vai pagar-me a quantia acordada.
Ficam com os prémios suspensos até se completar a minha parte.
Talvez deixem de ficar na sombra e motivem a produtividade dos presos.
É tudo.
- Dom Anselmo, dá-me um minuto? - Não. É tudo, Robles.
Não quero ver ninguém parado.
Vamos lá, toca a trabalhar!
- Vamos parar! - Vem aí o Dom Anselmo!
É preciso repetir dez vezes? Vamos!
A redenção da pena pelo trabalho não só permite reduzir as penas,
como também é uma ferramenta para corrigir espíritos corrompidos.
É meu dever perante Deus e Espanha devolver a escória que aqui recebo
plenamente reabilitada e não confundo compaixão com falta de firmeza.
Por isso, a partir de agora, cada um de vós deve entregar
uma certa quantidade de pedra no final de cada diária.
E, oiçam bem, até que o último o faça, nenhum de vocês,
mas mesmo nenhum, regressará à colónia.
- Vamos! Vamos lá! - Vamos!
Ouviram o Dom Anselmo?
Mais rápido, vá lá! Tenho de gritar mais alto?
Vá lá, vamos. Parece que estão cansados.
Vamos lá!
- Mais algum ritmo, caramba! - Depressa!
A este ritmo, nem chegamos a domingo.
Vá lá, vamos, parecem umas meninas!
- Que maravilha! - Que saltos tão confortáveis.
Vá, podes descer, vamos tirar-te as medidas.
- Obrigado, lindão. - Façam favor.
- Fica incrível. - Incrível.
Não sei se é preciso tirar-lhe as medidas.
Assim a olho, é larilas e meio.
Vamos lá.
Maricas, pedófilos, sodomitas... Temos tudo, menos dinheiro.
Escreva ao López Ibor para avançar com os eletrochoques
e nós damos a matéria-prima. - Certo,
mas o meu tio Mauricio ligou por outra coisa.
Espero que tenha dito que gostei muito do ensaio.
Como sabe, o meu tio, além de escritor,
é alta patente da Polícia. - Tenho pressa.
O meu tio disse que Dom Juan María Espinosa
vai visitar as penitenciárias para ver como vai o sistema prisional.
E nós estamos na lista.
Para o gabinete.
Somos os últimos da lista. Temos uns seis meses.
Há que dar uma volta a tudo. Fechem a porta.
- Para mim, é óbvio. - Só um momento.
Dom Anselmo, a base do sistema é a redenção das penas pelo trabalho
e nisso somos um centro exemplar.
Robles, a pedreira não é exemplo de nada. As contas não são boas.
Preciso que o diretor-geral fique com uma impressão imaculada da colónia.
Colónia conhecida como "agrícola" e aqui não se planta nada.
- Os presos levantam velas. - Que se desfazem no dia seguinte.
E o que digo ao diretor-geral quando ele perguntar o que é uma vela?
Que são construções de pedra para armazenar água da chuva para a rega?
- Tem razão. - Num sítio onde não chove?
E onde não há plantações? Caramba!
O que foi?
É que... podíamos plantar oliveiras.
- Oliveiras? - Tenho família em Jaén,
trabalham com azeitona, em olival puro.
Não terá um bosque em seis meses, mas dá para apresentar um pomar.
Quanto tempo levariam a chegar?
12 a 15 dias, se as pedir amanhã.
- Pode comprar. - E já agora, Dom Anselmo,
quem as pagará?
Verei isto como um investimento no meu futuro profissional.
Mas espero bem que funcione. Para o bem de todos.
Juro-te, o filho da mãe entrou aos gritos que nem um doido.
Maldito! Tem mais vontade de sair que nós mesmos.
É melhor plantar árvores do que picar pedra.
Vamos ver.
A pedreira só lhe servia para ver se ganhava uns trocos.
Mas agora também quer ir embora e isso muda tudo.
Claro que muda tudo. Isso é óbvio.
Vamos ter um antes e um depois disto.
- Robles, por favor... - O que me chamaste?
Para ti, Dom Rafael Robles, Diretor-geral de Informação,
Cultura Popular Espetáculos. - Dom Rafael,
se é questão de implementar os emolumentos que recebe
pela flexibilidade na hora de olhar para o Tindaya, diga-nos quanto quer.
O que estás a dizer, Arencibia? A tomada de posse do ministro é hoje
e não será por minha causa que renunciará.
Oiçam, a partir de hoje, vou inspecionar espetáculo à lupa.
Pianista! Silêncio, caraças! Prestem atenção.
- Não quero um só maricas em palco. - Então, ficará deserto.
E, muito menos, um maricas vestido de mulher. Nem para dizer piadas.
Nem na minha própria fantasia posso subir ao palco como me der na gana?
Se os personagens tiverem o que querem, a história perde interesse.
- É o conflito que prende as pessoas. - O quê?
Tem paciência. Pensaremos em algo para dar a volta à censura.
- Vai vestida de homem. - O que disseste?
Sei que preferes vestir-te de mulher, mas se o censor o proíbe
e queres continuar em palco... - A Sissi não se veste de mulher,
nem se disfarça de mulher, a Sissi é uma mulher.
Vá lá, Vespa.
É uma mulher. Dentro e fora do palco.
- Na ficção e na vida real. - Claro, como queiras, Vespa,
mas o censor vai fechar-nos o espetáculo. E o que nos importa?
- Por que estás aqui, Quillo? - Eu?
- Por uma injustiça. - Por seres ladrão.
E por seres chulo.
É bem diferente de ser preso por seres tu mesmo.
- Que se lixe a tua opinião! - Ouve, miúdo...
E tem cuidado contigo,
pois faço de ti a minha boneca de trapos.
Não olhes assim para mim, anormal.
Próxima ronda Próxima ronda
Presta bem atenção
A minha força mental
Assola a determinação
Próxima ronda
Eu decido o que é
Realidade e ilusão
A minha força mental
Assola a determinação
Próxima ronda Próxima ronda
Senhoras e senhores,
qual de entre a nossa distinta plateia,
se atreve a desafiar o poder do conde Fénix?
Quem?
- Quem? Há voluntários? - Eu.
- Bravo! - O senhor? Perfeito.
Aqui!
Menina, por favor, acomode os nossos convidados.
Há algum voluntário deste lado? O senhor?
Perfeito. Obrigado. E o senhor? Quer voluntariar-se?
Não? Deve ter medo que o conde Fénix controle a sua mente.
- O que disse? - Medo? Deve ter medo.
- Caraças! - Um forte aplauso
para este magnífico cavalheiro que nos acompanhará aqui.
O tanas! Nem do meu pai tenho medo!
Rende-te à minha voz
Rende-te ao sonho
Conta para trás E serei teu dono
Próxima ronda Próxima ronda
Três, dois, um. Dorme profundamente.
Três, dois, um. Obedece à minha voz.
Três, dois, um. Sono profundo.
Três, dois, um. Sono total.
Que sono tão pesado, não?
Agora, acordarão quando der a ordem,
mas este senhor, este também e aquele outro,
serão três pretendentes apaixonados
pela mais bela e altiva dama da Geórgia.
Uma linda menina de seu nome Escarlata.
Três, dois, um. Acordem!
- Escarlata. - Escarlata.
- Escarlata. - Onde estamos?
Sentem-se, meninos.
Teddy, Frank e Michael. Para mim, Michael Pickford.
- Também quero ir ao baile! - Escarlata, quero dançar contigo!
Prometeste que ias comigo ao baile!
Não, Nisa. Não podes ser tão antipática.
Tens de ganhar o público em cima do palco e fora dele.
Mais ainda, o censor. Usa o que tens, mesmo que seja pouca coisa.
Miúda, vivemos num país em que duas mamas valem mais que duas carroças.
Já acabaste? Vou mudar de roupa.
- Que bem, Vicky! - Olá, Boncho.
Estás lindíssima!
Deixa-me em paz! Esquece-o!
Três, dois, um. Sono total!
Sempre que eu disser "Tindaya",
tudo à tua volta te parecerá belo e digno de admiração.
Obrigado.
Agora, darei ordem para acordarem
e não se lembrarão de nada do que aqui se passou.
Três, dois, um.
Acordem.
Então, não vais hipnotizar-nos?
Vamos lá, rápido!
Vamos!
De que te estás a rir? De que te ris, larilas de um raio?
De que te estás a rir? Caramba!
Trabalho não é compatível com risadas, lindão.
Toca a trabalhar, loiraço. Vá lá, maricas.
Levanta-te, deixa-te de filmes. Vá lá, vamos.
- Vá, toca a trabalhar. - Vamos, maricas!
- Abres tu? Obrigada. - Eu vou lá.
Sai, idiota!
Desculpe, preciso que saia. Estou a maquilhar-me.
Calma, Nisa, há tempo para tudo. Sabes quem sou?
- Sim. - Quem?
- O censor. - Não.
Diretor-geral de Informação, Cultura Popular e Espetáculos.
Queres ver as minhas credenciais?
Calma, faz parte da indumentária.
Sou um fã incondicional da arte e, em concreto, de artistas como tu.
- És uma mulher lindíssima! - Nisa!
- Tenho de ir. - Vais quando eu disser.
Nisa! Sr. Robles, peço desculpa,
mas está a reter a artista. - Isto é algum desfile de monstros?
Não disseste que lhe tinhas lido as regras?
- Foi? - Saiam todos.
Sairá para dançar quando me despachar. Entendido?
Desculpe, Sr. Robles. A artista tem que se concentrar
e era melhor ficar sozinha. - O que me estás a dizer, larilas?
- Vespa, ele tem uma pistola! - Vou rebentar-te os miolos!
Tindaya.
Bem-vindos ao Tindaya
Bem-vindos ao Tindaya
Se eu soubesse fazer isto, este nunca sairia à luz do mundo.
Não o deixes assim muito tempo ou ainda canta "La Traviata".
- Nisa, para o palco, por favor.
Meu Deus!
Este é mais maricas por dentro do que julga.
E tu? Vais voltar a ler-me as regras?
Sai! E leva este daqui, que tenho de mudar de roupa.
- Sr. Robles, por favor. - Chama-me Rafa.
- Vamos. - Vamos, maricas! Mãos nos ombros.
Bem-vindos ao Tindaya
Saiam!
Já chega de risadas!
Eu estou no meio do palco.
Eu no meio do palco e a Nisa sem aparecer.
Quando, finalmente, posso submergir pelos bastidores,
encontro o censor, que após ouvir a palavra mágica...
Tindaya.
- Tindaya. - Cala-te.
Transformou-se numa fábrica de baba.
- Incrível! - És um génio.
- Quem te quer a ti assim? - A Sissi.
Até que, finalmente a Nisa surge em palco.
A sua beleza não é fácil, há que olhar para ela de verdade
para descobrir a profundidade da sua beleza.
E quanto mais olhas para ela, maior o desejo de continuar a olhar.
E maior insondável o mistério que carrega.
Senhoras e senhores, a direção do Tindaya
orgulha-se de vos apresentar esta noite
a voz do mistério.
Tu aí Olha para mim
Não quero passar por ti
Não quero passar-te por cima
Olha para mim
Tu aí Olha para mim
Quero absorver-me em mim mesma Para poder pensar
Sem ter de escutar O zumbido da tua voz
Olha para mim
Não farei o que estás a pensar
Não me poderás parar
Na tua presença fechada
Porque hoje Vou transbordar
Porque hoje Vou esmerar-me
Porque hoje Vou superar-me
E vou expressar-me
Porque hoje Vou exceder-me
Porque hoje Vou sair e satisfazer-me
Porque hoje Não vou ceder
Nem um só palmo de terreno
Olha para mim E se não conseguires ver
Serei território hostil
Olha para mim
Não farei o que estás a pensar
Quero enganar-me livremente
Olha para mim
Não quero os teus limites O teu espaço finito
Sozinha te atirarei Para o infinito
Olha para mim
Olha para mim
Olha para mim! Olha!
Olha para mim
Bravo! Nunca vi nada assim!
- Vamos, está levezinho. - Vá lá, já vos vi mais rápidos.
Força nisso, seus larilas! Vamos!
Cuidado, nunca pensei acabar assim o número.
Se é para haver conflito, que seja para todos.
- Não te metas na minha história. - A história também é minha.
O que estão a fazer? Tenho de acabar com o Tindaya?
- Querem que vos parta os dentes, é? - Cuidado! Cuidado!
- Cuidado! - Saiam todos daqui!
Aonde vão? Quietos, otários!
- Andy! - Não se aproximem!
- Tudo para trás! - Vamos, toca a trabalhar!
Aonde vão? Querem deitar-se sem comer?
- Desculpe, senhor, mas... - Não me irrites.
- Como estão os camaradas? - Sai! Toca a formar, caraças!
Vamos, raios! A andar!
O que estás a fazer?
Só voltámos agora por causa da bicha. Se não trabalha, não come.
- Dá cá isso. - Não.
Mas o que se passa aqui? Já viram como ficou a mesa?
O que se passa?
Se ainda têm forças, vão para a pedreira trabalhar
e podemos adiantar o trabalho. Que tal?
Come-se em silêncio!
Bicha.
- Divinal, não é? - É espetacular!
- Minha maricas. Como-te toda. - Mas o que estão a fazer?
- Era a brincar, pai. - A brincar?
Quando o fazem nas costas deles e lhes faltam ao respeito?
Da próxima vez que ouvir na minha fábrica uma palavra ofensiva
ou veja o mínimo gesto de gozo,
seja de quem for, sairá porta fora e nunca mais voltará a entrar aqui.
Leva-os, já lá vou ter.
Muito obrigado.
- Adorei. Já vou ter convosco. - Venham comigo.
Era o que me faltava, ser acusado de ser homofóbico,
quando passo o dia rodeado de maricas.
E são mesmo maricas, é assim que se intitulam.
Que se intitulem como querem, mas não voltes a usar essa palavra.
E tu não me levantes a voz à frente de todos.
- Não permitirei na minha fábrica... - Ouve uma coisa.
Não sou teu empregado. Sou acionista da empresa,
tal como a minha irmã e a minha mãe.
E eu sou o diretor.
Enquanto todos os acionistas concordarem.
- Pronto, já chega! - O quê? Estás a ameaçar-me?
Carlos.
- Terei de reportar acidente laboral. - Não.
Sabes a burocracia que é preciso? Não nos convém, muito menos agora.
- Uma queda devido ao calor? - É melhor.
- E os outros. - Diversas contusões.
Quem não puder trabalhar, liberto-o e a família que cuide dele.
- López, e as oliveiras? - Chegam amanhã.
Muito bem. Vá, toca a andar.
Vamos, rápido!
Vamos lá! Um pouquinho de alegria!
Vá lá, meus senhores!
Bambi, ajuda aqui.
Vamos lá.
- Parece pouco. - Mas depois de plantadas,
o deserto de Tefía ganhará nova cor.
- E sabe onde vai plantá-las? - Sim.
Vou precisar de um grupo de homens.
Arencibia, organiza um grupo de homens
que tenham trabalhado no campo. - Sim, Dom Anselmo.
- Toca a trabalhar. - Olha que beleza. Olha aqui.
Muito cuidado com os brotos.
- Já levei mais de um ao horto. - Isso conta?
Se perguntarem, dizem que andaram na vindima ou na apanha da fruta.
Não é preciso ter um curso superior para plantar oliveiras.
Olha só o nosso percurso. De picar pedra à agricultura.
Com esse penteado, podes concorrer a Miss Labranza 63.
Vai descansar, Pini.
Pede um desejo.
Pede um desejo.
Parabéns a você
Nesta data querida
Muitas felicidades
Claudita Muitos anos de vida
Obrigada.
Posso roubá-la por uns momentos para discutir um assunto da fábrica?
Bem, se ma devolveres, não há problema.
Apertas muito com ele, Airam. Dá-lhe mais confiança na fábrica
para sentir que tem voto na matéria. - Ele tem quase 30 anos!
Podes falar baixo?
Nem com a própria filha é capaz de se responsabilizar.
Devia ter ido buscá-la para vir ao aniversário do primo.
Não, não lhe cabia a ele ir buscá-la este fim de semana.
Sabes que a outra não facilita.
Eu falei com ela e ela disse que não havia problema. Isso mesmo.
Claro, tive de pagar os cinco meses que o Carlos lhe devia.
Cinco meses? Acreditas mais nela que no teu filho?
- Não paga a pensão. - Fala baixo!
Mas, Águeda...
O Carlos cobra todos os meses, mesmo que não o mereça,
mas esquece a miúda.
- Avô! Olha aqui, adoro! - Que lindo, querida!
Deixa lá, isto é sítio para falar sobre isso.
- Deixamos isso agora. - Espera.
Não era sobre o Carlos que queria falar contigo.
Então, era sobre o quê?
Airam, o que se passa?
Airam, o que aconteceu?
Ouve, por uma série de...
... coisas que não interessam agora para o caso,
faz este ano
50 anos desde Tefía. - Não.
- E pediram-me... - Não!
- Não tens o direito. - Águeda, por favor.
- Não. - Águeda.
Não pode ser! Nem em quadros viram sequer um arado.
Foi isto que arranjaste, Arencibia?
Comprometi-me pessoalmente com Dom Anselmo
em plantar o pomar de oliveiras e não vou tolerar idiotices.
- Entendido? - Sim, senhor.
O primeiro que me irritar, é corrido para a pedreira à paulada.
Vicente, vai andando. Vocês, venham comigo. Vamos!
Vamos lá! A andar!
Será aqui.
Mas o que quer este homem plantar aqui se isto é um deserto?
Temos de remexer bem a terra, deixá-la respirar.
A terra tem de respirar?
Ainda bem que disseste que isto não ia ser tão duro.
Mais duro será a Nisa não ir embora.
Não vou chatear-me com isso.
Charlie, há que procurar outra. Mas não uma amargurada,
uma com um bom par de melões. - E que só diga: "És um bonitão".
Antes isso que uma chata.
Acho que o Boncho prefere uma mulher forte, com caráter,
que queira ir para a faculdade, mesmo que não possa.
Ativista política, que lute pelos direitos da mulher.
Como posso eu querer semelhante coisa?
A Nisa é uma mulher real?
Nem por isso.
Mas para que uma fantasia funcione, tem de ser parte real e parte...
- Ouve, o que importa é que cante. - Isso.
- E eu digo-te que canta bem. - A ver se não me substituem.
Isso é que não, Charlie.
Ouve, depois do êxito que teve o Tindaya,
um empresário a sério, com tomates,
faria o que fosse preciso para que ficasse.
Pois, claro, vou já implorar-lhe para que não se vá embora.
- Não te lixa? - Eu percebo-te, Quillo.
Tiveste quatro casas de alterne, nada mais.
É normal que o Tindaya seja grande demais para ele.
Este chulo aguenta-se com o Tindaya e mais quatro como ele, seu tonto.
Sim, mas é deixar de andar a falar com mulheres que só nos vão enganar.
Com este, terás de fazer como com o narigudo.
- Cyrano de Bergerac? - Esse. Faz como o Cyrano.
- Está alguém? - Olá, Nisa. Sou eu, o Boncho.
- Vai-se embora. - Não deixes, caramba!
- Para aí! - Educadamente.
Por favor, Nisa. Só por um momento, por favor.
Obrigado. Obrigado, Nisa.
- Muitas vezes... - Muitas vezes, deixamo-nos levar
pelo hábito. - Deixamo-nos levar pelo hábito.
Que é um cruel professor.
- A sério? - Que é um cruel professor.
Que é um cruel professor. Professor cruel...
Que tolda a nossa capacidade.
Que tolda a nossa capacidade para reconhecer as injustiças...
Que devemos mudar.
- Isso está subentendido. - O quê?
Quero dizer...
Lamento ter-te levado a crer que o imenso talento da tua voz...
Lamento ter-te levado a crer que...
- Que o imenso talento da tua voz. - Que...
- Sim? - Que a tua voz...
Não era suficiente para preencher este palco.
Não era suficiente para preencher este palco.
Escuta, Nisa, o Tindaya...
- É um espaço artístico livre. - É um espaço artístico livre.
- E a partir do nosso palco... - E a partir do nosso palco...
- Lutamos pela liberdade. - Lutamos pela liberdade.
- Mas não haverá liberdade... - E não haverá liberdade...
- Se não formos iguais. - Maldita igualdade.
Diz, Boncho.
E não haverá liberdade se não formos iguais.
Embora tudo isto entre muito melhor com um pouco de sexo, querida.
Raios me partam!
Olha como está a ficar, Pino. Parece um jardim.
Rega-me o jardim, bicha Que me crescerá...
Têm muito que plantar.
Rega-me o jardim, bicha Que me crescerá a azeitona
- Não subimos grande coisa. - Caraças, Vespa.
Há uma grande diferença entre picar pedra e plantar oliveiras.
Pois há, o comprimento da corrente.
Ouve, lembrei-me de um filme que vi sobre uns presos ingleses
enfiados num campo de concentração japonês
e que foram obrigados a construir uma ponte.
O simples propósito de levantá-la tornava a reclusão mais suportável.
- E terminaram-na? - A ponte?
- Sim. - Não me lembro.
Ouve-me um segundo, Airam.
Não vou continuar. Não porei em risco tudo o que construí.
Por aqui ficamos. Sinto muito, adeus.
Airam, espera, por favor. Airam, por favor.
Airam. Aqui não, por favor.
Desculpa. Podemos falar num instante?
Sim.
O Diego está lá em cima à tua espera.
- Que Diego? - O marido da mãe.
- Como estás? - Bem, obrigado, e tu?
- Bem. Queres um café? - Não, obrigado.
Não quero roubar-te muito tempo.
Diz-me lá.
Ouve, a Águeda contou-me o que disseste no outro dia,
na festa de anos da menina. Ela não sabe que vim, vim por mim.
- Não podes fazer isto à Águeda. - Fazer o quê?
Passar a vergonha de se saber a tua história nesta altura.
- Vergonha? - Sim.
Imagina quando souber que esteve mais de 20 anos casada com um...
Airam, o que achas que vai acontecer quando os teus filhos souberem?
Por mais que se diga, não somos assim tão modernos.
Começarão as piadas, os boatos e as ofensas sobre ti,
sobre os teus filhos e sobre a minha mulher.
É melhor ires andando.
Ouve, muitos outros como tu
tiveram a coragem de viver sem enganar ninguém, pelo menos.
Agora, a única coragem que se pode esperar de ti
é que te tranques dentro do armário e atires a chave fora.
Se soubesse nadar, saltaria e só pararia ao chegar a África.
Também eu. A Casablanca.
Vá lá, caraças! Mais água! Estas oliveiras têm sede.
Têm sede, diz ele. Mas bebem mais que nós.
Aproxima-te das minhas plantinhas e arranco-te os olhos, passareco!
O que estás para aí a gritar, larilas?
Devíamos pôr aqui um espantalho.
Um espantalho? Alguma vez viste um espantalho num olival?
A oliveira aguenta todo. Andaste pouco no campo.
Menos terra para não afogares as raízes.
Tira essa pedra. Vamos.
Viram os olhinhos que fazia enquanto Cyrano?
- Não eram por essa cara bonita. - Mas quem te julgas, desgraçado?
Eram por causa do que dizia o Charlie.
Não vamos alongar isto muito. Coisinha rápida, caraças.
Como-a no camarim antes de sair para o palco e pronto.
Pode sair de voz bem aberta.
- Dá-lhe, Charlie. - Não.
Porque não? Fala, que eu enfio-a na cama.
Já disse que não, a Nisa não é assim.
Diria que a Nisa será como quiseres que ela seja.
Para a história funcionar, deve haver uma certa lógica nos personagens.
Haverá lógica melhor do que eu a comê-la?
Quem conta a história sou eu. Queres ouvi-la ou não?
Dá-lhe.
E tu a dar-lhe com isso.
Ouve, se queres assim tanto agradar ao censor, fornica-o tu.
E fá-lo-ia com gosto, mas não gosto de homens.
Eu também não gosto de quem diz uma coisa e faz outra.
A Sissi está no palco.
Raios me partam!
Nem imaginas como está.
"Welcome".
"Bienvenue".
"Willkommen".
"Benvenuti".
Bem-vindos a Espanha.
Fato de banho.
As noites no Tindaya!
Aqui, dizemos "olá".
Olá!
- Olá! - Olá!
- Olá! - Olá!
- Olá! - Olá!
Olá!
Olá!
Bem-vindos ao Tindaya!
Quietos, caraças!
Ninguém se mexe!
Eu não. Sou o produtor.
Continuem, vamos.
Todos quietos!
Silêncio!
Silêncio!
Aperta!
Tindaya.
Meu Deus.
Virgem transfronteiriça,
sois uma mulher lindíssima, maravilhosa.
Agora, já percebi.
Sr. Ministro de Informação e Turismo,
é uma alegria vê-lo por cá. Que magnífico bigode.
Quem é o hipnotizador?
Tem um talento incrível. Acorde-o, por favor.
Três, dois, um, acordar.
Silêncio!
Sr. Ministro, está tudo sob controlo.
O Tindaya não voltará a transgredir nenhuma regra.
Quero comprovar pessoalmente se o espetáculo do Tindaya
está à altura do que ouvi dizer. Depois, decidirei o que fazer.
Virei visitá-los uma destas noites.
Será uma honra atuar para sua excelência.
Como se fosse a última vez.
Não é esse o espírito com que...
... se deve subir ao palco?
Sempre.
Muito cuidado com tudo, Sr. López.
O futuro de todos nós está plantado neste deserto.
Não ligues ao teu tio.
Quem é o Manuel Flores?
Um amigo.
Pagas casas luxuosas a todos os amigos?
O que faço com o meu dinheiro é comigo.
- E como sabes...? - O que é Tefía?
Que interrogatório é este agora?
Falei com o teu amigo que quer fazer o documentário à porta da fábrica.
- Abriste essa porta, Airam. - Que porta?
- É pela chatice do outro dia? - Que chatice?
No outro dia...
Não vais contar? Não entendo nada.
- Não se passa nada. - Passa, sim, Airam.
O Diego parece querer ganhar pontos para se tornar o chefe de família.
- É melhor ir-me embora. - Não, não quero ganhar pontos.
Mas deves dar uma oportunidade aos teus filhos
para que saibam por ti e não por aí. - Que saibam de quê?
- Não te admito... - O que se passa aqui?
É uma decisão minha!
Quer sair do armário!
O vosso pai é homossexual.
Versão portuguesa para RTP: CRISTBET, Lda.
Tradução e Legendagem Daniel Lúcio
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