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Zulu
Em nossas relações com outras pessoas,
nós principalmente discutimos e avaliamos
seu caráter e comportamento.
Por isso é que eu me afastei
de quase todas as chamadas relações.
Isso tornou minha velhice bastante solitária.
Minha vida foi cheia de trabalho árduo, e eu sou grato por isso.
Começou como labuta pelo pão de cada dia
e terminou num amor pela ciência.
Tenho um filho, também médico, que vive em Lund.
Ele é casado há muitos anos. Não têm filhos.
Minha velha mãe ainda está viva e continua muito ativa, apesar da idade.
Minha esposa Karin está morta há muitos anos.
O jantar está servido, Professor Borg.
Obrigado.
Tenho sorte em ter uma boa governanta.
Talvez eu deva acrescentar que sou um velho pedante,
o que às vezes tem sido bastante penoso
para mim mesmo e para os que me rodeiam.
Meu nome é Isak Borg,
e tenho 78 anos.
Amanhã receberei um título honorário na Catedral de Lund.
MORANGOS SILVESTRES
Nas primeiras horas de 1º de junho,
tive um sonho estranho e muito desagradável.
Sonhei que, durante minha caminhada matinal,
eu me perdia por ruas vazias
com casas em ruínas.
O senhor está doente?
Dona Agda, por favor, prepare um café da manhã. Vou de carro.
Por favor, Professor! Volte para a cama e eu trago café às 9h,
e sairemos às 10h como planejado.
Ah, bem, vou sem tomar café da manhã.
E quem vai fazer sua mala com o fraque?
- Eu mesmo faço. - E eu, o que faço?
A senhora pode vir de carro ou voar. Faça como preferir.
Eu esperava ansiosamente ver o senhor receber seu título honorário.
E tínhamos organizado tudo tão bem,
e agora o senhor vai de carro.
A cerimônia só é às 17h.
Se eu sair agora, tenho 14 horas antes da cerimônia.
O senhor vai estragar tudo!
E seu filho, que espera o senhor no aeroporto de Malmö?
A senhora pode inventar uma explicação.
Se o senhor for de carro, eu não vou de jeito nenhum.
Agora escute, Dona Agda!
Vá de carro, e vai estragar o maior dia da minha vida.
Não somos casados, Dona Agda.
Eu agradeço a Deus por isso todas as noites.
Uso meu bom senso há 74 anos, e ele não vai me falhar agora.
Essa é sua última palavra?
Sim.
Mas vou dizer muita coisa para mim mesma sobre velhos egoístas e rabugentos
que nunca pensam naqueles que os serviram fielmente por 40 anos.
Inacreditável que eu tenha aguentado...
suas ordens por tanto tempo.
É só dizer, e eu saio amanhã.
Vou de carro de qualquer jeito, e a senhora pode fazer o que bem entender.
Acontece que sou adulto e não preciso receber ordens da senhora.
Ninguém faz mala como a senhora, Dona Agda.
É mesmo?
Velho rabugento.
Devo cozinhar uns ovos para o senhor?
Sim, por favor, se a senhora for tão extremamente gentil.
A faculdade deveria ter me dado o título de idiota honorário.
Vou acalmar a moça velha com um presente.
Detesto pessoas rancorosas.
Eu não faria mal a uma mosca, quanto mais à Dona Agda.
Torrada?
Não, não se incomode por minha causa.
Por que está brava?
Não quer uma xícara?
Bom dia, Tio Isak.
Ora, ora, por que minha nora está de pé a esta hora?
Quem consegue dormir quando o senhor e a Tia Agda fazem tanto barulho?
Não houve barulho nenhum.
Não, nenhum mesmo.
Vai de carro para Lund?
Sim.
Posso ir com o senhor?
Você vai para casa?
Sim, quero ir para casa.
Para casa, para o Evald?
O senhor não precisa perguntar por quê.
Eu pegaria o trem se pudesse pagar.
Claro que pode ir comigo.
Estarei pronta em dez minutos.
Meu Deus!
Por favor, não fume. Não suporto fumaça de cigarro.
Eu esqueci.
Deveria haver uma lei proibindo mulheres de fumar.
Que tempo lindo.
Sim, mas abafado.
- Acho que vamos ter uma tempestade. - Eu também acho.
Não, prefiro um charuto a qualquer hora.
Isso é estimulante e relaxante. Esse é um vício de homem.
E que vícios pode ter uma mulher?
Chorar, dar à luz e falar mal das vizinhas.
Quantos anos o senhor tem, na verdade, Tio Isak?
Por que pergunta?
Sem razão. Por quê?
Sei por que você perguntou.
Ah, bem.
Não finja. Você não gosta de mim. Nunca gostou.
Só o conheço como sogro.
Por que está indo para casa?
Por impulso. Só isso.
Acontece que Evald é meu filho.
Realmente é.
Evald e eu somos muito parecidos. Temos nossos princípios.
Não precisa me dizer isso.
Agora, esse empréstimo, por exemplo.
Eu sei exatamente o que vai dizer.
Ele deveria ter pago quando se tornou professor associado.
É uma questão de honra para ele pagar 5.000 por ano,
e assim por diante.
Uma promessa é uma promessa.
Para nós, isso significa que nunca podemos ser livres juntos,
e que seu filho se mata de trabalhar.
Você tem sua própria renda.
Especialmente considerando o fato de que o senhor é
podre de rico e não precisa do dinheiro.
Uma promessa é uma promessa. E sei que Evald respeita isso.
Talvez. Mas ele também odeia o senhor.
O que você tem contra mim?
Devo ser franca?
Sim, estou pedindo.
O senhor é um velho egoísta, Tio Isak.
É totalmente implacável e nunca escuta ninguém além de si mesmo.
Mas esconde tudo isso atrás das suas maneiras antiquadas e do seu charme.
Sob sua aparência benevolente, o senhor é duro como aço.
Mas não consegue enganar quem já o viu de perto.
Lembra quando eu fui vê-lo há um mês?
Tive a ideia estúpida de que o senhor poderia nos ajudar, a mim e ao Evald.
Então pedi para ficar com o senhor por uma ou duas semanas.
Lembra o que respondeu?
Eu disse que ficaria encantado.
Talvez tenha esquecido, mas o senhor disse:
"Não tente me envolver nas suas brigas conjugais.
Não me importo nem um pouco.
Você e o Evald que se virem."
Eu disse isso?
- Não só isso. - Ah, não.
Essas foram exatamente suas palavras:
"Não tenho respeito por sofrimento mental,
então não venha se lamentar para mim.
Se precisa de terapia, é melhor ver um psicanalista.
Ou por que não um pastor? Está na moda agora."
Eu disse isso?
Seus julgamentos são muito categóricos, Tio Isak.
Eu odiaria depender do senhor.
Eu tenho gostado de ter você por perto de casa.
Como um gato.
Um gato ou um ser humano.
Você é uma jovem mulher excelente, e sinto muito que não goste de mim.
- Não é que eu não goste do senhor. - Sério?
- Sinto pena do senhor. - Pena?
Gostaria de contar sobre um sonho que tive esta manhã.
Não tenho muito interesse em sonhos.
Não. Não, claro que não.
Aonde está indo agora?
Quero te mostrar uma coisa.
Vivemos aqui todo verão durante os primeiros 20 anos da minha vida.
Éramos dez irmãos. Talvez você já soubesse disso.
Alguém mora aqui agora?
Não, não neste verão.
Vou nadar, se não se importar. Temos bastante tempo.
Sim, claro, vá em frente.
O lugar onde crescem os morangos silvestres!
Talvez eu tenha ficado um pouco sentimental.
Talvez eu tenha ficado um pouco cansado
e me sentido um pouco triste.
Não é impossível que eu tenha começado a pensar nisso e naquilo,
associado a lugares onde brinquei quando criança.
Não sei como aconteceu,
mas a realidade clara do dia
se dissolveu nas imagens ainda mais claras da memória
que apareceram diante dos meus olhos
com a força de um verdadeiro fluxo de acontecimentos.
Sara.
Sara,
é seu primo Isak.
Bem, eu fiquei bem velho, claro, então não tenho a mesma aparência.
Mas você, você não mudou nada.
Bom dia, prima querida. O que está fazendo?
Colhendo morangos, bobo. Não está vendo?
E quem será agraciado com essas deliciosas frutinhas
colhidas de manhã bem cedo por uma jovem tão bela?
Bobagem. Você sabe muito bem que hoje é o dia de nome do Tio Aron.
Esqueci de fazer um presente.
Então ele vai receber uma cesta de morangos silvestres em vez disso.
Vou te ajudar.
Veja, Sigbritt e Charlotta fizeram uma tapeçaria e Angelica assou um bolo,
e Anna pintou um quadro muito bom,
e Kristina e Birgitta escreveram uma música que vão cantar para ele.
Esse é o melhor. O Tio Aron é surdo como uma porta.
Ele vai ficar muito feliz, e você é boba.
E você tem uma nuca bem bonitinha.
Você sabe que não deveria fazer isso.
- Quem diz? - Eu digo.
Além disso, você é um jovem insuportável e incomum
que acha que é realmente alguma coisa.
Sou seu primo, e você está apaixonada por mim.
Por você!
Venha e seja beijado nos lábios.
Se não se comportar, vou contar ao Isak que você está sempre tentando me beijar.
O pequeno Isak! Eu poderia dar uma surra nele com um braço só.
Você sabe muito bem que Isak e eu estamos secretamente noivos.
Tão secretamente que todo mundo sabe.
A culpa não é minha se as gêmeas deixaram escapar o segredo.
Quando é o casamento? Quando é o casamento?
Não sei qual dos quatro irmãos é o menos convencido,
mas acho que é o Isak.
Isak é o mais simpático, de qualquer forma.
E você é o mais horrível, o mais nojento,
o mais bobo, o mais estúpido-- não encontro palavras para te descrever!
Admita que tem um fraco por mim.
E você cheira a charuto.
É um cheiro bem másculo.
E as gêmeas, que sabem de quase tudo,
dizem que você andou aprontando com aquela garota Berglund.
Ela não é uma moça de bem, dizem as gêmeas. E eu concordo.
Como você fica bonita quando cora.
Você precisa me beijar. Não aguento mais.
Agora que penso nisso, estou loucamente apaixonada por você.
- Você está só dizendo isso. - Não.
E as gêmeas dizem
que você é doido por garotas.
Isso é verdade?
Ah, olha o que você fez!
E o que o Isak vai dizer, que realmente me ama?
Estou tão triste! Você me machucou tanto!
Você fez de mim uma mulher má.
Pelo menos, quase.
Não quero mais te ver, pelo menos não antes do almoço.
Preciso ir logo. Me ajude a pegar os morangos.
Ah, e agora fiquei com uma mancha no avental!
Onde está o Isak?
Foi pescar com o Papai, e eles não conseguem ouvir o gongo.
De qualquer forma, o Papai disse para não esperarmos com o almoço.
Em nome de Jesus nos sentamos à mesa.
Abençoa, Senhor, esta comida que comemos. Amém.
Benjamin, vá lavar as mãos agora mesmo.
Com quantos anos você vai aprender a ter higiene?
Eu já lavei.
Sigbritt, passe o mingau para a Angelica.
Suas unhas estão imundas.
Hagbart, passe o pão.
Não pegue tanta manteiga assim.
Charlotta, o sal está empelotado. Você deixou umedecer.
Quantas vezes já falei para não deixar exposto?
É tinta debaixo das minhas unhas.
Quem colheu os morangos silvestres para mim?
- Fui eu. - O quê?
Fale mais alto, querida. O Tio Aron não consegue ouvir.
Fui eu!
Imagine só, você se lembrou do meu dia de nome.
Que gentileza sua.
O Tio não poderia tomar uma bebida para comemorar?
Nunca quando o Papai não está em casa.
O Tio já tomou três doses.
Nós o vimos quando fomos nos banhar às 8h.
Então vocês também colheram frutas. Obrigado.
Gêmeas, falem só quando forem chamadas.
E já que não arrumaram suas camas, podem secar a prataria.
Vocês vão fazer o que a Tia diz.
Benjamin, não morda as unhas.
Anna, o que está fazendo? Lembre-se que você não é mais uma menininha.
Quero dar meu desenho ao Tio.
Por favor, Tia, não podemos dar nossos presentes agora?
- Onde está seu presente? - Debaixo da mesa.
Não, depois de comermos.
Uma obra de arte bem avançada: Fritjof e Ingeborg.
Não dá para saber qual é o Fritjof!
O que Sara e Sigfrid estavam fazendo no canteiro de morangos silvestres?
Nós vimos vocês! Nós vimos vocês!
As gêmeas deveriam levar focinheira.
As gêmeas ficam quietas ou saem da mesa.
Nada de liberdade de expressão, hein?
Calem a boca, moleques.
Sara está corando! Sara está corando!
Sigfrid também está corando! Sigfrid e Sara! Sigfrid e Sara!
Quietos, todo mundo!
Mas Sara!
Elas estão mentindo! Elas estão mentindo!
Isak é tão fino e bom,
tão moral e sensível.
Ele quer que a gente leia poesia
e fale sobre a próxima vida
e toque piano a quatro mãos.
E ele só quer beijar no escuro,
e fala sobre pecado.
Ele está num nível tão terrivelmente alto,
e eu me sinto tão sem valor.
E eu não valho nada-- não há como negar.
Mas às vezes me parece que sou bem mais velha que o Isak,
se é que você entende o que quero dizer.
E aí eu acho que ele é uma criança, embora tenhamos a mesma idade.
E o Sigfrid é tão ousado e emocionante, e eu quero ir para casa.
Não quero ficar aqui o verão todo
e ser motivo de zombaria para as gêmeas e todos vocês.
Eu não quero!
Vou falar com o Sigfrid.
Se ele não se comportar,
vou garantir que ele seja obrigado a estudar durante as férias de verão.
O Papai vai resolver isso num piscar de olhos.
Ele também acha que o Sigfrid é um bom-para-nada e precisa trabalhar.
Pobre Isak, que é tão bom para mim.
Como tudo é injusto.
Tudo vai ficar bem, você vai ver.
Escuta, agora estão cantando para o Tio Aron.
Que bobagem escrever uma música para um velho surdo.
Típico das gêmeas.
Flores balançam, gramas se curvam
Ao redor de nossa linda casa
Nosso Tio Aron celebramos
E com nossa canção
Sua testa enfeitamos
Quatro vivas para o Tio Aron.
Viva, viva, viva, viva!
Vou correndo encontrar o Isak e o Tio.
Faça isso.
Fui tomado por sentimentos de vazio e tristeza,
mas logo fui despertado dos meus devaneios
pela voz de uma jovem me perguntando repetidamente algo.
Essa casa é sua?
Não, não é.
Você tem sorte de estar falando a verdade.
É meu pai que é dono do promontório inteiro, incluindo a casa.
Eu morei aqui uma vez. Há duzentos anos.
Ah, é?
- Esse carro no portão é seu? - Sim, é meu carro.
Parece antigo.
Sim, é antigo, como seu dono.
Então você também tem autoironia. Isso é fantástico.
Aonde você vai? Quero dizer, em que direção?
Bem, eu vou para Lund.
Mas isso me convém perfeitamente. Veja, estou a caminho da Itália.
Estou honrado.
Meu nome é Sara. Nome bobo, não é?
Meu nome é Isak. Também é bobo.
Eles não eram casados?
Não, infelizmente. Esses eram Abraão e Sara.
Então vamos embora.
Tenho outra moça comigo. Aqui vem ela.
- Marianne, esta é a Sara. - Olá.
Vamos ter companhia até Lund.
A Sara vai para a Itália, mas prometeu andar um pouco conosco.
Irônico de novo, mas combina com você.
Vamos embora.
Ei, pessoal, consegui uma carona quase até a Itália.
Este é o Anders e este é o Viktor e este é o Pai Isak.
Aquela peça que vocês estão babando é a Marianne.
Que ônibus grande.
Sim, tem lugar para todos nós.
Coloque sua bagagem no porta-malas, se não se importar.
Devo dizer, Isak, que o Anders e eu estamos namorando sério.
Somos loucos um pelo outro.
O Viktor é o mais careta. O papai insistiu.
O Viktor também está apaixonado por mim.
É uma jogada brilhante do papai.
Talvez eu tenha que seduzir o Viktor para me livrar dele.
É bom eu te contar que sou virgem. É por isso que sou tão atrevida.
E eu fumo cachimbo.
O Viktor diz que faz bem para a saúde. Ele é louco por qualquer coisa saudável.
Uma vez eu estive apaixonado por uma mulher chamada Sara.
Não! Ela era como eu, era?
Ela era, na verdade.
O que aconteceu com ela?
Ela se casou com meu irmão Sigfrid e teve seis filhos.
Ela tem 75 anos agora e é uma bela senhora idosa.
Não consigo pensar em nada pior do que envelhecer.
Ai, meu Deus, agora eu falei besteira.
Vocês estão bem?
Não tenho desculpa. A culpa é toda nossa.
Minha esposa estava dirigindo. Vocês estão bem?
Os assassinos devem se apresentar! Meu nome é Alman.
Esta é minha esposa Berit. Dá para ver que ela foi atriz.
Essa é a complicação de que estávamos falando quando--
Venha aqui, Berit, e peça desculpas.
Sinto muito. A culpa foi toda minha.
Eu ia bater no meu marido quando aquela curva apareceu.
Deus castiga algumas pessoas na hora, não é, seu católico?
Vamos endireitar seu carro.
- Ah, não se incomodem conosco. Por favor. - Cala a boca, Sten.
Algumas pessoas são altruístas, embora você não pense assim.
Minha esposa está um pouco nervosa. Tivemos um choque.
Só olha ele medindo sua força com os jovens,
forçando seus músculos flácidos para se exibir na frente daquela garota bonitinha.
Querido, você pode ter um derrame.
Minha esposa gosta de me ridicularizar.
Eu deixo. É psicoterapia.
Nunca sei se minha esposa está realmente chorando ou só fingindo.
Que eu seja amaldiçoado se não é de verdade.
Isso acontece quando você tem um vislumbre da morte.
Não dá para calar a boca?
Minha esposa sabe mesmo viver um papel.
Por dois anos, ela me fez pensar que tinha câncer
e nos atormentou com todo tipo de sintoma possível,
mesmo os médicos não encontrando nada de errado com ela.
No fim, acreditamos mais nela do que nos médicos!
É natural que esteja chateado,
mas por que não deixa sua esposa em paz por um tempo?
Uma mulher tem direito às suas lágrimas, não é?
Não atrapalhe as lágrimas de uma mulher.
Você é bonita, mas a velha Berit já passou do auge.
Então você pode se dar ao luxo de defendê-la.
Eu simpatizo com ela. Por vários motivos.
Muito sarcástica!
No entanto, você não parece nem um pouco histérica.
Mas a pequena Berit é.
Você sabe o que isso significa para mim?
Presumo que você seja católico.
Exatamente. É assim que eu aguento.
Nós nos ridicularizamos mutuamente.
Ela tem sua histeria. Eu tenho meu catolicismo.
Então, veja, precisamos um do outro.
É só egoísmo que não nos matamos ainda.
Aí veio.
É isso que se chama síncope, não é?
Muito engraçado.
Se eu tivesse um cronômetro, poderia ter cronometrado a explosão.
Cala a boca! Cala a boca!
Isso pode ser muito direto,
mas, pelo bem das crianças, poderiam sair, por favor.
Perdoem-nos, se puderem.
Foi com sentimentos mistos que vi essa região de novo.
Foi aqui que tive meu primeiro consultório,
e minha velha mãe mora aqui perto.
Olá, Doutor.
Então o senhor está por aqui de novo, Doutor?
Devo encher o tanque? Me passe a chave do capô.
Eva! Vem aqui um instante!
É o Dr. Borg em pessoa.
Mamãe e Papai e toda a região ainda falam sobre ele.
O melhor médico do mundo.
Vamos chamar o bebê com o nome dele.
Isak Akerman-- não é um nome ruim para um primeiro-ministro.
E se for menina?
Só temos meninos.
E como está seu pai ultimamente?
Ah, o Papai está ficando meio decrépito.
Mas a Mamãe está animada como um grilo.
E o senhor vai ver sua mãe, Doutor?
Ela é incrível. Deve ter pelo menos 95 anos.
- Noventa e seis. - Imagine só.
Quanto eu devo?
- Isso é por conta da Eva e minha! - De jeito nenhum!
Não nos insulte, Doutor. Nós também sabemos fazer as coisas direito!
Por que vocês pagariam minha gasolina?
Há coisas que não podem ser retribuídas--
nem mesmo com gasolina.
Não esquecemos.
Pergunte a qualquer um por aqui.
Todos se lembram da sua bondade.
Talvez eu devesse ter ficado aqui.
O que quer dizer?
O senhor disse que deveria ter ficado.
Eu disse?
Bem, obrigado de qualquer forma.
Me avisem quando o novo filho chegar, e eu serei o padrinho.
Vocês sabem onde me encontrar.
Durante o almoço, eu estava de bom humor
e contei aos jovens sobre meus anos como médico distrital.
Minhas histórias fizeram muito sucesso,
e não acho que riram apenas por cortesia.
Tomei vinho no almoço, e depois vinho do Porto com o café.
Ah, quando a criação mostra tanta beleza,
quão radiante deve ser sua fonte!
Ele vai ser pastor, e o Viktor médico.
Recitar poesia é contra nosso acordo
de não discutir sobre Deus nem ciência nesta viagem.
Foi lindo!
Como alguém pode hoje em dia estudar para ser pastor!
Seu racionalismo é seco como poeira.
Eu digo que o homem moderno--
Eu digo que--
acredita apenas em si mesmo
e em sua morte biológica.
O homem moderno é fruto da sua imaginação.
O homem encara a morte com horror.
Religião para o povo. Ópio para o membro dolorido.
Que doces são os dois!
Sempre concordo com quem falei por último.
Você acreditava no Papai Noel-- agora em Deus.
Você nunca teve nenhuma imaginação!
O que o senhor diz, Professor?
O que quer que eu dissesse seria recebido com ironia tolerante,
então não vou dizer nada.
Tenho certeza que eles vão ficar decepcionados.
Não, Sara. Muito, muito felizes.
"Onde está o amigo que busco
ao raiar do dia?
Quando cai a noite, quando--"
"Quando cai a noite, ainda não O encontrei."
"Meu coração ardente me mostra Seus vestígios--"
O senhor é religioso, Professor?
"Vejo Seus vestígios
onde quer que floresçam as flores.
Seu amor se mistura com todo ar."
"Sua voz chama no vento de verão."
Nada mal para um poema de amor.
Fiquei todo solene de novo sem motivo nenhum.
Bem, vou visitar minha mãe. Volto logo.
- Posso ir junto? - Claro.
Aí vem o trovão.
Acabei de te mandar um telegrama
pelo seu grande dia.
E agora você está aqui.
Todos temos nossos momentos de brilho, querida Mãe.
Essa ali é sua esposa?
Não quero falar com ela.
Ela nos fez mal demais.
Não, Mãe querida.
Esta é a esposa do Evald, Marianne.
Bem, deixa ela vir me cumprimentar.
Bom dia, Senhora Borg.
E por que anda por aí desse jeito?
Estive em Estocolmo, de visita.
Por que não está com o Evald e a criança?
O Evald e eu não temos filhos.
Essa juventude de hoje! Eu tive dez filhos.
Pode me alcançar aquela caixa grande ali.
Minha mãe morou nesta casa.
Lembra de vir vê-la, Isak?
Muito bem.
Aqui estão alguns dos seus brinquedos.
Tenho tentado lembrar de quem era cada coisa.
Dez filhos, e todos mortos exceto o Isak.
Vinte netos.
O Evald é o único que vem me ver.
Não me entenda mal-- não estou reclamando.
Quinze bisnetos que nunca vi.
Mando presentes para todos os aniversários deles.
Recebo cartas de agradecimento, mas ninguém se dá ao trabalho de me visitar
a menos que queiram pedir dinheiro emprestado.
Ah, eu sei que sou cansativa.
Não pense assim, Mãe.
E tenho mais um defeito.
Eu não morro.
A herança não está sendo dividida
do jeito que esses jovens espertos planejaram.
Esta era a boneca da Sigbritt.
Ela ganhou quando fez oito anos.
Eu mesma fiz o vestido.
Mas ela nunca gostou muito dela
então passou para a Charlotta.
Ela cuidou bem dela-- me lembro claramente.
Sabe quem é esse?
O Sigfrid tinha três anos e você tinha cinco.
E eu mesma.
Que aparência assustadora a gente tinha naquela época.
Posso ficar com ela?
Claro que sim. É só lixo.
E aqui está um livro de colorir.
Não sei de quem era.
Todos colocaram seus nomes nele.
A Kristina rabiscou:
"Amo o Papai mais do que qualquer coisa no mundo inteiro."
E a Birgitta escreveu: "Vou me casar com o Papai."
Não é engraçado? Eu ri quando vi.
Você não acha frio aqui?
Não, não especialmente.
Eu tenho sentido frio a vida toda.
Principalmente na barriga. Não sei por quê.
A senhora tem pressão baixa.
Vamos tomar um chá, e podemos sentar e conversar.
Não, obrigado, Mãe. Não vamos incomodá-la mais.
O filho mais velho da Sigbritt vai fazer 50 anos em breve.
Pensei em dar a ele o relógio de ouro do Papai.
Não tem ponteiros. Isso importa?
Me lembro de quando o filho da Sigbritt era recém-nascido.
Ele costumava deitar no caramanchão de lilases na casa de verão.
Agora ele vai fazer 50 anos.
E a priminha Sara costumava carregá-lo e cantar para ele.
Ela se casou com o Sigfrid, aquele imprestável.
Bem, vocês precisam ir agora, ou vão se atrasar para a cerimônia.
Estou muito feliz que vocês vieram, e espero vê-los de novo.
Dê lembranças ao Evald. Adeus.
Onde estão o Anders e o Viktor?
Começaram a discutir sobre Deus, e depois perderam a paciência.
E o Anders tentou torcer o braço do Viktor,
e o Viktor disse que aquele era um argumento péssimo para a existência de Deus.
Eu disse que eles poderiam falar sobre mim, em vez disso.
Aí me disseram para calar a boca porque eu não entendia o debate,
então fui embora.
Eles subiram o morro para resolver porque cada um insistia...
que o outro tinha ferido seus sentimentos mais profundos.
- Onde eles estão agora? - Lá em cima.
Eu resolvo isso.
De qual você gosta mais?
De qual você gosta mais?
Não sei. O Anders vai ser pastor--
Ele é um amor.
Mas ser esposa de pastor--
O Viktor também é legal. De um jeito diferente.
- O Viktor vai longe, claro. - O que quer dizer?
Um médico ganha mais dinheiro. E pastores estão fora de moda.
Embora ele tenha pernas bonitas e um pescoço adorável.
Mas como alguém pode acreditar em Deus?
E então? Deus existe?
Cochilei, mas fui assombrado por sonhos vívidos
e humilhantes.
Havia algo avassalador nessas imagens do sonho
que se cravavam implacavelmente na minha mente.
Você já se olhou no espelho, Isak?
Então vou te mostrar como você é.
Você é um velho preocupado que vai morrer em breve,
mas eu tenho toda a minha vida pela frente.
Isso te magoou, afinal.
Não, não magoou.
Sim, magoou porque você não consegue suportar a verdade.
A verdade é que eu fui considerado demais.
E assim me tornei sem querer cruel.
Eu entendo.
Não, você não entende. Não falamos a mesma língua.
Olhe no espelho de novo.
Não, não desvie o olhar.
Eu vejo.
Me escute.
Vou me casar com seu irmão Sigfrid.
O amor é quase um jogo para nós.
Olhe seu rosto agora. Tente sorrir!
Aí está! Agora você está sorrindo.
Mas dói tanto.
Como professor emérito, você deveria saber por que dói.
Mas você não sabe.
Você sabe tanto, e não sabe nada.
Preciso ir.
Prometi ficar de olho no bebê da Sigbritt.
Coitadinho.
Fica quieto, bebê. Dorme.
Não tenha medo do vento
nem dos pássaros
nem das ondas do mar.
Estou aqui com você, te segurando firme.
Não tenha medo, pequenino.
Logo vai amanhecer de novo.
Ninguém vai te machucar.
Estou com você. Estou te segurando.
Por favor, entre, Professor Borg.
Trouxe seu caderno de exame?
Por favor, identifique a amostra bacteriana sob o microscópio.
Deve haver algo errado.
Não é com o microscópio.
Não consigo ver nada.
Por favor, leia este texto.
O que isso significa?
Não sei.
Sério?
Sou médico, não linguista.
O que está vendo no quadro-negro é o primeiro dever de um médico.
Não sabe o que é isso?
Deixe-me pensar.
Tome seu tempo.
O primeiro dever de um médico--
O dever de um médico--
Esqueci.
O primeiro dever de um médico é pedir perdão.
Claro! Agora eu me lembro!
Você foi acusado de culpa.
Vou anotar que você não entendeu a acusação.
É sério?
Infelizmente, Professor.
Tenho um coração fraco.
Sou um velho.
Devem ser tolerantes comigo. É só justo.
Não há nada sobre seu coração nos meus papéis.
Quer interromper o exame?
Não, pelo amor de Deus, não!
Por favor, diagnostique a paciente.
A paciente está morta.
O que está escrevendo no meu caderno?
- Meu veredito. - E qual é?
Que você é incompetente.
Você também é acusado de algumas ofensas menores, mas ainda sérias.
Insensibilidade, egoísmo, crueldade.
Sua esposa fez a acusação.
Você vai ser confrontado com ela.
Mas minha esposa está morta há anos!
Acha que estou brincando?
Por favor, venha comigo.
Você não tem escolha.
Muitos esquecem uma mulher que morreu há 30 anos.
Alguns guardam uma lembrança doce e desbotada,
mas você pode recordar esta cena a qualquer momento.
Terça-feira, 1º de maio de 1917.
Você estava exatamente neste lugar.
e ouviu e viu o que aquele homem e aquela mulher disseram e fizeram.
Agora vou para casa contar ao Isak. Sei exatamente o que ele vai dizer.
"Minha pobre menina, sinto muito por você."
Como se ele fosse Deus.
Então eu vou chorar e dizer: "Você realmente sente pena de mim?"
Ele vai dizer: "Sim, muita pena."
Então vou chorar ainda mais e pedir que me perdoe.
Ele vai dizer:
"Você não precisa implorar meu perdão. Não há nada a perdoar."
Mas ele não quer dizer nenhuma palavra do que fala
porque ele é frio como gelo.
E de repente ele fica muito terno,
e eu grito com ele que é louco
e que sua hipocrisia me enoja.
Então ele diz que vai me arranjar um calmante
e que ele entende tudo muito bem.
E eu digo a ele que a culpa é dele eu ser como sou.
E ele parece triste e diz que é culpa dele.
Mas ele não se importa de verdade com nada
porque ele é tão frio.
Onde ela está?
Foi embora. Todos foram embora.
Removidos por uma operação, Professor.
Uma obra-prima cirúrgica. Sem dor.
Nada que sangre ou trema.
Que silêncio.
Uma realização perfeita à sua maneira, Professor.
E a punição?
Não sei. A de sempre, suponho.
A de sempre?
Solidão.
Solidão?
Precisamente.
Não há misericórdia?
Não me pergunte. Não sei.
O que é isso?
As crianças queriam esticar as pernas.
Mas ainda está chovendo.
Contei a elas sobre hoje e elas querem te homenagear.
Dormiu bem?
Sim, mas ultimamente tive os sonhos mais estranhos,
como se eu devesse me dizer algo que não escuto quando estou acordado.
O que é isso?
Que estou morto. Embora esteja vivo.
Você e o Evald são muito parecidos.
Já disse isso.
Ele disse a mesma coisa.
Sobre mim?
Não. Sobre ele mesmo.
Mas ele só tem 38 anos.
Posso te contar sobre isso?
Sim, eu ficaria grato.
Alguns meses atrás eu queria falar com o Evald,
então ele me levou até o mar.
Estava chovendo naquele dia também. Ele sentou onde você está sentado agora.
Bem, você me encurralou. O que quer dizer?
Algo desagradável, claro.
Queria não precisar.
Você encontrou outra pessoa.
Não seja infantil.
Você me diz em tom fúnebre que precisa falar comigo,
e depois acha difícil começar.
Vamos lá, pelo amor de Deus! Não me deixe em suspense!
Quase quero rir agora.
O que você acha que vou te contar?
Que matei alguém, ou roubei os fundos da faculdade?
Vou ter um bebê.
Tem certeza?
O médico me disse ontem.
Então esse era o segredo.
Posso também te dizer que pretendo ter esta criança.
- Você já decidiu? - Sim, decidi.
Você sabe que eu não quero um filho.
Você vai ter que escolher entre mim e a criança.
- Pobre Evald. - Não me venha com "pobre Evald"!
É absurdo trazer crianças para este mundo
e achar que elas vão estar melhor do que nós.
- Isso é só uma desculpa. - Chame do que quiser.
Eu fui uma criança indesejada num casamento infernal.
Ele nem tem certeza se sou seu filho?
Isso não é desculpa para se comportar assim.
Preciso estar no hospital às 15h.
Não tenho nem tempo nem vontade de discutir isso mais.
Você é um covarde.
Sim.
Esta vida me enoja.
Não vou ser forçado a assumir
uma responsabilidade que vai me fazer viver um dia a mais do que eu quero.
E você sabe que eu quero dizer o que digo.
Sei que isso está errado.
Não existe certo nem errado.
Agimos de acordo com nossas necessidades.
E quais são elas?
A sua é um desejo infernal de viver e criar vida.
E a sua?
A minha é estar morto. Completamente morto.
Se quiser fumar um cigarro, não me importo.
Por que me contou tudo isso?
Eu vi você com sua mãe, e fiquei em pânico.
Não entendo.
Pensei: aquela é a mãe dele.
Uma mulher velha, fria como gelo,
mais imponente que a morte.
E este é o filho dela,
e há anos-luz entre eles.
Ele mesmo diz que é um cadáver vivo.
E o Evald está se tornando igualmente solitário, frio e morto.
E pensei no bebê dentro de mim.
Em toda a linha, não há nada além de frio e morte
e solidão.
Isso tem que acabar em algum lugar.
Mas você vai voltar para o Evald!
Para dizer que não posso concordar com as condições dele.
Eu quero esta criança. Ninguém pode tirá-la de mim.
Nem mesmo o homem que mais amo.
Posso te ajudar?
Ninguém pode me ajudar.
Somos velhos demais. As coisas já foram longe demais.
O que aconteceu depois da sua conversa?
Nada. Eu o deixei no dia seguinte.
Ele não entrou em contato com você?
- Não quero que a gente fique-- - Fique o quê?
Como aqueles dois no carro hoje.
Eu estava pensando exatamente neles.
Me lembrou o meu próprio casamento.
Mas nós nos amamos.
Que ele viva por muito tempo Que ele viva por muito tempo
Que ele viva até cem anos de idade
Soubemos que está celebrando uma grande ocasião hoje.
Com essas flores simples queremos dizer
que estamos muito impressionados que o senhor é médico há 50 anos.
Sabemos que deve ser um velho muito sábio
que sabe tudo sobre a vida
e aprendeu todas as instruções de cor.
Obrigado.
Agora temos que continuar. Está ficando tarde.
Então você veio mesmo. Evald e eu já tínhamos perdido as esperanças.
Um passeio de carro é relaxante, não é?
Você vai precisar colocar o fraque agora mesmo.
Boa tarde, Marianne. Já disse ao Evald que você vinha.
Obrigada. Isso foi muita gentileza sua.
Então a senhora veio afinal, Dona Agda.
Considerei isso meu dever. Mas meu prazer já foi estragado.
Bem-vindo, Pai.
Como vê, trouxe a Marianne comigo.
- Olá, Marianne. - Posso levar minhas coisas para cima?
O quarto de hóspedes de sempre, Pai?
Deixe eu levar sua mala. Está bem pesada.
- Teve uma boa viagem? - Sim, foi agradável.
Quem são aqueles jovens?
Não sei. São simpáticos, e estão indo para a Itália.
- Parecem simpáticos. - Sim, são muito simpáticos.
São quatro e quinze.
Comprei cadarços novos para você.
Vou embora amanhã, então não se preocupe.
- Vai para um hotel? - Não, por quê?
Não podemos dividir o quarto por mais uma noite? A menos que se importe.
- Me ajuda a desfazer as malas? - É bom te ver.
E inesperado.
Igualmente.
Vamos ao banquete depois?
Sim, vou ligar para o Stenberg e dizer que vou levar uma dama comigo.
Apresse-se, Professor!
Durante a cerimônia,
meus pensamentos vagaram para os acontecimentos do dia,
e foi então que decidi
escrever o que havia acontecido.
Nesta confusão de acontecimentos,
pareceu-me discernir uma lógica extraordinária.
Gostou da cerimônia?
Sim, obrigado.
Está cansada, Dona Agda?
Não vou negar.
Tome um dos meus comprimidos para dormir.
Dona Agda, sinto muito por hoje de manhã.
O senhor está doente, Professor?
Não. Por quê?
Não gosto de como isso soa.
É tão raro assim eu dizer que sinto muito?
Quer a jarra na mesa?
Obrigada mesmo assim, Professor. Boa noite.
Dona Agda,
já que nos conhecemos
há tantos anos,
não acha que poderíamos nos chamar de Agda e Isak?
Não, não acho.
Por que não?
Já escovou os dentes, Professor?
Sem intimidades para mim, obrigada.
Está bem entre nós como está.
Mas já estamos velhos.
Fale por si mesmo. Uma mulher zela por sua reputação.
O que as pessoas pensariam se de repente começássemos a dizer Agda e Isak?
Fariam piada de nós.
A senhora está sempre certa?
Quase sempre.
Na nossa idade, devemos saber como se comportar.
Boa noite, Professor. Vou deixar a porta entreaberta.
O senhor sabe onde estou se precisar de alguma coisa.
Pai Isak! O senhor esteve esplêndido no cortejo.
Ficamos terrivelmente orgulhosos de te conhecer.
Uma senhora vai nos levar até Hamburgo.
- O Anders está louco por ela. - Ah, calado.
Só queríamos nos despedir.
Adeus. E obrigado pela sua companhia.
É você que eu realmente amo, sabe.
Hoje, amanhã, sempre.
Vou lembrar.
Vamos.
Temos que ir agora.
Me manda notícias.
- Acho que o Tio está dormindo. - Evald!
Sim, Pai?
Já voltaram?
A Marianne quebrou o salto de um sapato.
Então vão ao baile?
Suponho que sim.
- Como está, Pai? - Excelente.
- O coração está bem? - Excelente.
Durma bem.
Sente-se um instante.
Alguma coisa especial?
Como está sendo entre você e a Marianne?
Perdoe minha pergunta.
Não sei.
Não é da minha conta, mas--
Mas não seria--
Eu pedi para ela ficar comigo.
Não deveria-- quero dizer--
- Não consigo viver sem ela. - Quer dizer sozinho?
Não consigo viver sem ela. É isso que quero dizer.
Ah, entendo.
Vai ser como ela quiser.
E ela--
Ela diz que vai pensar sobre isso.
Sobre aquela dívida sua--
Não se preocupe, você vai receber seu dinheiro.
Não é isso que eu quis dizer.
Como está, Tio Isak?
Bem. Muito bem.
Perdi um salto. Esses sapatos servem?
São muito bonitos.
Obrigada por vir comigo.
Gosto de você, Marianne.
Também gosto do senhor, Tio Isak.
Se eu estivesse preocupado ou triste durante o dia,
muitas vezes me acalma recordar memórias de infância.
Fiz isso também nesta noite.
Isak, não sobraram morangos silvestres.
A Tia quer que você vá procurar seu pai.
Vamos velejar e encontrar vocês do outro lado da ilha.
Não consigo encontrar nem o Papai nem a Mama.
Venha, vou te ajudar.
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