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Olá, Edward.
Freddy.
- Que bom ver-te. - A ti também.
Estás com bom ar.
- Já lá vai muito tempo. - Sim.
Ouvi dizer que querias um pouco de espaço?
Sim, sem dúvida. Um bom bocado de espaço.
Sim.
Então… Disseste ao telefone que tinhas novidades.
Vou casar-me, Freddy.
Céus!
Parabéns.
- Obrigado. - Boa notícia.
- Sim. - Quem é a sortuda?
A Bella, é italiana.
Italiana?
Não é chique?
Não, por acaso, é condessa.
Edward…
- Eu… - Que bom para ti.
Graças a Deus!
Ouve, a razão por que estou aqui é…
Bem, eu queria
convidar-te para meu padrinho.
Valha-me Deus!
Isso é importante, não é? Padrinho.
Fui padrinho uma vez. Na universidade.
Do Tim Montgomery.
Adoraria. Isto é, seria uma honra.
Ótimo.
Eu só…
Acho não estar pronto.
Desculpa, amigo.
Pois. Bem…
Eu entendo, claro.
- Onde é o casamento? - No lago Maior.
Que lindo. E a lua de mel?
Uns lagos a norte.
A Bella insiste em levar-nos de hidroavião.
Uma condessa italiana piloto.
Parece tudo perfeito.
E ouve, não te preocupes connosco.
Iremos reconciliar-nos.
Só vai demorar algum tempo.
Eddie, és um pouco teólogo, não és?
Conheces a história de Esaú e Jacob?
Sim, conheço.
Acho que temos muito em comum com esses dois irmãos.
Sou como Esaú,
o irmão mais velho, sábio, nobre e ingénuo que trabalhava nos campos.
Trabalhava continuamente, dia após dia.
Enquanto tu és como o irmão mais novo, subtil e astuto, Jacob,
que usou subterfúgios para enganar o irmão mais velho, Esaú,
a entregar-lhe a herança
em troca de um mero prato de lentilhas, uma tigela de sopa.
Queres mesmo ter esta conversa?
E, se te lembras,
Jacob disfarçou-se de Esaú
para enganar o pai a entregar o seu direito de primogenitura.
Não enganei ninguém, Freddy.
O pai mudou o testamento por tua causa, lembras-te?
Quando alguém vai bêbado ao volante, assumes o volante seja como for.
Olha,
vou deixar-te pensar no que quer que seja que precisas de pensar
e depois, com o tempo…
… eu e a Bella vimos visitar-te após a lua de mel.
Gostaria muito disso.
E lembra-te disto…
… Esaú perdoou Jacob no final, Edward,
mas só depois de lutar com o Anjo do Senhor.
Ainda bem que uma reconciliação está em cima da mesa.
Sem dúvida.
Sem dúvida.
Estarei aqui à tua espera.
Quando queiras.
Eu tentei.
Tentei, mas não consegui fazê-lo ver.
"Mas tu, Senhor, não te afastes de mim,
ó minha força.
Vem socorrer-me depressa,
livra-me da espada.
E, do poder do cão, a minha vida.
Salva-me da boca do leão…
… e dos chifres dos bois selvagens…
… porque me ouviste."
EPISÓDIO SEIS OS SINOS DE SAN DOMENICO
Querido, olha para isto.
Meu Deus!
Pelos vistos, o Winston Churchill trazia a secretária para aqui.
Para sessões de ioga.
Era um dos locais favoritos do Mussolini.
Dizem que ele ensaiava nu os discursos na varanda.
História, vencedores e vencidos.
Olá, Geoffrey.
Deixo-vos instalarem-se.
Aonde vais?
Tenho um quarto na pousada em frente.
Não podia ter ficado aqui?
Querida, não stresses. Sabes que o Geoffrey gosta do seu espaço.
Certo, vou andando.
Não ficas, pelo menos, para um Bellini para festejar?
Adoraria, mas acho que devo ir cumprimentar a família.
O DIA ANTES DO CASAMENTO
Buongiorno, Contessa.
Fecha os olhos! Não espreites. Dá azar, por favor.
- Não estou a olhar. - Espera. Não espreites.
- Estou à espera. - Espera. Pronto.
- Tens a certeza? - Sim.
Olá.
Trouxeste os sapatos de dança?
Não vim dançar. Vim casar contigo.
Isso é amanhã. Hoje, dançamos, lembras-te?
- Espreitaste? - Não.
Sim, sei o que achas destas superstições.
O noivo não poder ver o vestido antes…
Mas estas regras existem por uma razão. Não quero que nos aconteça nada de mal.
- Não podemos dormir juntos esta noite? - Exatamente.
- Certo. E esta tarde? - Diria que podes olhar, mas não tocar.
Eu sei.
O Marco espera-te lá em baixo com a Angelica.
Ele pode esperar mais um bocadinho.
O AMOR ESTÁ NO AR
Bom dia, Marco. Angelica.
Obrigado pelo uísque.
É da tua destilaria?
É um pequeno sinal do meu apreço.
A forma como persegues o teu interesse refinado
ao mesmo tempo que lavas o teu dinheiro é uma grande habilidade.
Obrigado, Marco.
Tenho algo para ti. Uma prenda de casamento.
Uma das cartas náuticas originais de Cristóvão Colombo.
Fantástico, Marco. Obrigado.
Vês? Ainda não havia América.
Nem sequer sabiam para onde navegavam.
Mas navegavam na mesma.
Isto é o que se chama ter coglioni.
- Como é que vocês dizem coglioni? - Tomates. Dizemos tomates.
Tomates. É mais bonito em italiano.
Como quase tudo.
- Coglioni. - Coglioni.
Coglioni.
Vamos aos negócios.
E os teus aristocratas europeus?
Conhecerás a maioria amanhã, no casamento.
Os duques e duquesas da Saxónia,
Segóvia e Pedraza virão ao copo-d'água.
Lichtenstein e Países Baixos virão após o jantar.
O nosso novo consórcio deve representar mais de um quarto da Europa continental.
E todos aceitaram os termos, certo?
Com entusiasmo. Apesar de mil anos de cruzamentos e lutas internas,
os aristocratas europeus partilham a necessidade de preservar a propriedade.
Isto é extremamente satisfatório.
Claro que há alguns pormenores a acertar,
mas os princípios estão definidos.
Tu supervisionas a produção e nós tratamos da distribuição.
E os lucros são divididos a meio.
Após os meus contactos processarem o dinheiro.
Temos contactos pré-existentes em Hong Kong. São sempre fiáveis.
Mas estamos sempre ansiosos por explorar novas oportunidades, não?
Angelica?
Deixo-vos a acertar os pormenores, mas tem calma com ele, Angelica.
O rapaz casa-se amanhã.
Ahmed, investiga-me algo.
Angelica Marino. Uma verificação total de antecedentes.
E como se escreve isso, senhor?
Como o país, não a lã.
É a conselheira do Marco.
Quero saber de interesses que possa ter no Extremo Oriente.
E, quando dizemos Extremo Oriente,
quão extremo estamos a falar?
Hong Kong.
Quer que dê prioridade a isto?
- É prioritário, Ahmed. - Sim, senhor.
Pareces pensativo, Edwina.
Só percebemos o verdadeiro valor de algo
quando quase o perdemos.
Achei que estava acabado, Risinho.
E agora tudo parece tão…
… perto.
A propriedade, o negócio, tudo parece
estar ao alcance.
E um herdeiro a caminho em breve.
Bem, antes, não estava preparado, mas agora acho que estou.
Mas há algo que te impede, não há?
Não é tudo… dever com a Bella, pois não?
Céus! Não. Porque dizes isso?
Gostas dela, não gostas?
Ela é extraordinária.
É linda, engraçada e inteligente.
Vem aí um "mas" da Risinho.
Não.
Nada disso.
Embora sejam muito diferentes.
Pareces ter sempre tudo sob controlo, enquanto ela é…
Emotiva.
De uma forma incrivelmente encantadora.
Talvez seja mesmo disso que preciso.
Sim. Exatamente.
Embora sempre tenha achado que pudesses acabar com…
Bem, com outra pessoa.
Se estás a falar da Susie,
sempre foi só profissional.
Já nem isso é.
- A sério? - Sim, a sério.
Esse capítulo em particular
está totalmente encerrado.
Certo.
Seja como for, viemos para uma festa.
FIM DE TARDE ANTES DO CASAMENTO
Olá!
- Ciao! - Está tão bonita!
Marco…
Por favor.
- Os primos Luca, Julia e Matteo. - Prazer.
- Mais primos. - Olá, primos.
- E mais ali. - Olá.
- Olá. - Ciao.
Cum caraças, Bella!
Mamma mia!
Pareces uma visão.
Senhoras e senhores, a vossa atenção, por favor.
Palmas para a noiva que está lindíssima!
Força!
Céus! Meu tesouro, pareces um anjo.
Posso apresentar-te o meu amado Edoardo?
Pensaste um bocadinho em mim?
Olá, amigo. Tancredi.
Prazer.
- Muitos parabéns, Sr. Duque. - Obrigado.
Olá!
És um sortudo.
Obrigado.
E acho que sou dos poucos
que sabe exatamente, e quando digo exatamente…
Exatamente a tua sorte.
Se é que me entendes.
Não sei se entendo.
Não, só quero dizer que ela é linda.
- Ela é popular. - Certo.
Sim. Muito popular.
É muito simpático da tua parte. Não usaria esse adjetivo específico.
Quando dizes popular, que queres dizer?
Quero dizer popular. Popular é popular, mano, não é?
Deixa-me ajudar-te. Como te chamas?
- Tancredi. - Desculpa, não percebi.
Tancredi, mas, se quiseres, podes chamar-me Tano.
Tanto faz.
Achas que ela é adorada e querida por um grande grupo de pessoas,
ou há outra definição que queiras partilhar?
Não, desculpa. O teu inglês é demasiado bom para o meu italiano.
Só quero dizer que ela tem muitos amigos.
Amigas e amigos, muitos.
- Muitos. Percebes? - Sim. Obrigado.
- Acho que já percebo. - Boa.
Quero muito conhecer-te melhor.
Será incrível, pá.
Se quiseres, podemos fazer algo juntos. Conto-te alguns segredos. Diverte-te.
E contares-me os segredos agora?
Que estás a beber?
Para mim.
Um copo de champanhe.
Está tudo bem?
Quem é ele?
Perseguiu-me durante anos e nunca aceitou as minhas rejeições.
É só um miúdo.
Não fiques com ciúmes.
Vamos conhecer a tia Simonetta? Tem 103 anos.
Sim.
Torino, Turim!
É bonito este rapaz?
- Buona sera. - Edoardo, finalmente.
A Bella disse-me que não és praticante, Eddie,
o que, para o casamento…
Mas estamos ansiosos na mesma por te receber na nossa igreja amanhã.
Obrigado. A Bella diz que o senhor é uma pessoa maravilhosa
e aberta a conversas filosóficas, digamos assim.
Cuidado. O Eddie estudou teologia.
Se o enfrentar, é como enfrentar o Diabo.
- Adoro esta música. Anda, por favor! - Já vou.
Vá lá, é divertida!
Há quanto tempo trabalhas com a Angelica?
Eu… Desde antes de nasceres, Edoardo.
Não gostas dela?
Não, gosto dela. Eu…
Só senti uma certa relutância quando discutimos a nossa proposta.
A Angelica é uma conselheira.
Tenho plena confiança nela.
Só há um possível verme della mela.
Como é que vocês dizem verme della mela?
Mosca na sopa.
A Susie Glass.
Eu e a Susie sempre tivemos uma boa relação de trabalho.
Estou confiante de que resolvo isso.
Oferecendo-lhe a ela e ao pai uma fatia dos teus lucros.
És generoso, mas tens a certeza de que ela não verá
uma ameaça na tua jogada?
Por isso mesmo é que a convidei para o casamento.
Nos negócios, só há uma coisa pior do que a concorrência.
É a guerra.
- Susan. - Capitão.
Isto está muito bonito.
Obrigado por teres vindo. É muito importante.
É um prazer estar aqui.
Se não estivesse no tráfico de droga, estaria no ramo dos casamentos.
Ao contrário da fachada do meu pai,
ele criou-nos com dramas românticos de época.
Não me surpreende.
O meu amor é o amor.
Podemos falar em privado?
O Freddy não vem?
O Freddy ainda não estava pronto.
- O Nanny é o padrinho. - Boa escolha.
Nervos de última hora?
Nenhum.
Quando soubeste? Que ela era a tal.
Quando estava a arrastar-me de uma cova rasa,
tive uma epifania.
Ironicamente, graças a ti.
As minhas desculpas. E não tens de quê.
Sabia que gostavas dela.
Mas o casamento não é só um contrato emocional.
É uma decisão de negócios.
Está bem.
Por falar nisso, como vai a diversificação sul-americana?
Muito bem, obrigada por perguntares.
Margens maiores, clientes mais carentes. Como não gostar?
Sem o Joe?
O Joe foi-se.
Pobre Joe.
Tentava, mas estava fora do seu alcance.
Lamento ouvir isso.
Sei que é a véspera do teu casamento,
mas seria impertinente fazer-te uma pergunta?
Força.
Que é isto?
Sê mais específica, Susan.
Isto. Tudo. Esta pequena reunião.
As famílias Horniman-Moretti felizes.
Quando o meu pai disse estares fora, era fora.
Não só de Inglaterra, mas fora mesmo.
Não fora do tipo: "Talvez forme um grupo dissidente com um mafioso."
Espero que não estejas a violar
a cláusula de não concorrência do teu contrato.
Devias refrear o teu cinismo, Susan.
O meu objetivo é bem maior.
Tem cuidado, Eddie.
Tem cuidado com os teus "tem cuidado".
Estás a perder a noção do teu lugar e da ocasião.
Se não te importas, vou voltar para os convidados.
Não, tens razão. Estou a perder a noção.
Ela tem muita sorte, Eddie.
De certeza que serão muito felizes.
Obrigado.
Venho em paz.
Não, peço-te. Estou com as minhas amigas.
Desculpa. Disse umas tretas ao teu noivo há bocado…
Está bem.
Pronto, um abraço. Vá lá!
Estás tão bonita.
Obrigada.
Pronto, vai.
Larga-me! Para!
Que porra estás a fazer?
Que porra fiz eu?
Estás maluco?
Não tens de te meter, Giuseppe.
Peço desculpa a todos.
Pronto. Fiz isso e agora?
Desculpa. Parabéns outra vez por…
Tudo. És lindíssima
e também uma grande puta.
Que porra fazes, idiota?
Vou destruir-te!
Cabrão! Anda!
Já chega!
DJ, a música. Isto é uma festa.
Calma. Vai-te embora, volta para o hotel.
Eu disse que fui pugilista.
Estás bem?
Estou.
Que aconteceu?
Nada. Ele estava bêbedo. Já está no hotel. Está tudo bem.
Quem?
Ele, mas o Tancredi é um idiota. Foi um mal-entendido. Não se passou nada.
Não se passou nada.
Acredita, não faz mal.
- Estou bem. - Sim.
- Foi tão parvo. - Parvo.
Não foi nada.
- Prometo. Amo-te. - Amo-te.
Vou buscar uma bebida. Volto já, está bem?
Está bem.
- Estou a dizer-te. - O que me fizeste.
Ciao. Posso entrar?
Eddie, entra.
Acho que começámos com o pé esquerdo.
E se vamos seguir em frente
no espírito positivo que esta ocasião merece,
acho que devias pedir desculpa.
Publicamente.
Sim, claro.
Não há problema. Desculpa.
Sei que me empolguei.
Sangue italiano, Eddie.
Muito deste uísque, porra!
Não sei mesmo porquê,
mas, às vezes, expresso-me de uma forma
que não é adequada.
Por isso,
peço desculpa.
Ótimo.
Bem…
Estamos conversados.
No entanto…
… infelizmente, não peço desculpa por chamar puta à Bella.
E sabes porquê?
Porque ela é uma puta.
É uma grande puta.
A cona dela é deste tamanho.
Dá para enfiar a cara lá dentro.
Porque é mais rodada do que uma bicicleta. Toda a gente a fode.
E, às vezes, até ao mesmo tempo.
E eu sei disso.
Bem, eu tentei.
Tancredi?
Merda!
Foda-se!
DIA DO CASAMENTO
- Edoardo. - Bom dia, Marco.
Bom dia.
Por favor, senta-te.
É um grande dia. É importante tomar um bom pequeno-almoço.
- Desculpa ter começado. - Claro.
Empregado.
Certo.
Queria que soubesses que tratei das coisas ontem à noite.
- Que coisas? - O jovem que insultou a Bella.
Mandei uns amigos ao hotel dele para tratarem dele.
Ele teve um acidente.
A sério? Que infelicidade.
Dadas as circunstâncias, achei melhor evitar problemas,
por isso, tratei da situação
para limitar qualquer distúrbio.
E porque é que isso é relevante para mim?
É o teu casamento.
Ninguém quer más notícias no dia do casamento.
O homem em questão fez as malas e foi-se.
Para onde foi, ninguém sabe e ninguém quer saber.
Não há drama, Eddie.
Foi-se. Desapareceu.
Bem, obrigado, Marco,
por garantires que este dia decorre sem quaisquer complicações.
Considera-o a minha segunda prenda.
A terceira é uma prenda para a Bella.
Um Ferrari.
É um Spider 330 de 1968.
Ela está tão feliz por isso.
És muito generoso, Marco. Temos sorte em ter-te.
A Bella é como uma filha para mim.
E agora,
és como um filho.
Dá-me a mão.
És como um lobo
em pele de cordeiro.
Ninguém falta ao respeito à Bella.
Eu abençoo-te.
O Marco é generoso.
- É rápido, não é? - Sim.
Tens um carro e eu um mapa.
Tranquilo. Seis horas e o mapa também será meu.
É verdade.
- Algo velho, este colar. - Sim.
Era da minha avó. Algo novo, tenho o teu anel.
As cuecas têm flores azuis e a Angelica emprestou-me um gancho.
Certo.
Não gostas dela, pois não?
Não, eu…
Só a acho um pouco difícil de ler.
Ela esconde os sentimentos.
Cura um coração partido. O marido fugiu com outra.
- Ninguém sabe, mas fala comigo. - Para onde fugiu?
Importa para onde ele fugiu?
Hong Kong, por acaso?
Céus, Eddie! Porque perguntas se já sabes a resposta?
Porque viemos?
Trouxe-te aqui por uma razão.
Quero que te confesses antes de nos casarmos.
- Sabes que não sou católico, certo? - Sei.
Falei com o padre Bosco. Vai abrir uma exceção.
Não sei se é a melhor das ideias.
Significaria muito.
Por favor.
Se insistes…
- Sê rápido. Está muito calor. - Certo, serei rápido.
- Bom dia, filho. - Bom dia, padre.
Quero só garantir-te que tudo o que me disseres hoje
está sob o sigilo sagrado da confissão.
Certo.
Porque achas que a Isabella te pediu para falares comigo?
Deve achar que quero desabafar sobre certos assuntos.
- Assuntos? - Sim.
Porque matei um homem.
Percebo.
Quando foi isso?
Ontem à noite.
- De facto, é um grande pecado. - Claro.
Mas vieste pedir perdão?
Antes de chegarmos à parte do perdão, padre,
já que estou aqui, há mais umas coisas que gostaria de dizer.
- Por favor, continua. - Obrigado.
Também houve o cavalheiro no bairro social…
… mas foi em legítima defesa.
O Henry Collins foi a sangue-frio.
Mas ele mereceu, sem dúvida. De todos,
o contabilista é o que me deixa mais em conflito.
Mas, mesmo assim, não havia outra opção, sabe?
Quanto aos afegãos…
Foi uma situação de combate e eu cumpria ordens.
E é chocante os danos que um Javelin 148 pode fazer a um Toyota Hilux.
Sinto uma falta de remorsos na tua voz?
Não, padre, não.
Tirar uma vida humana envolve sempre remorsos.
Daí esta conversa.
A questão com que me debato
é como contabilizar esse remorso.
Mas entendes que o assassinato é um pecado?
E o sexto mandamento declara: "Não assassinarás."
Acho que o original hebraico diz: "Não matarás."
Pareces conhecer bem as escrituras, Eddie.
O suficiente para saber que há uma contradição a essa declaração.
Eclesiastes: "Tempo de semear,
tempo de colher, tempo de curar e tempo de matar."
Não. É importante não tentares distorcer a Palavra de Deus
para justificar os teus atos. Tens de pedir perdão a Deus.
Para desfazer ambiguidades, quando usa a palavra "Deus",
de que aspeto de Deus estamos a falar,
da estrutura externa ou da essência interna?
Podemos esclarecer a delimitação para avançarmos eficientemente?
Não sei se percebo a pergunta.
Uma aponta para fora e outra aponta para dentro.
Ou somos responsáveis pelos atos
ou delegamos a responsabilidade desses atos
num agente de salvação conveniente.
Quem seria esse agente?
Pode ser qualquer coisa, na verdade.
Cocaína, prostitutas, dinheiro, heroína,
Jesus, Maomé,
ou, infelizmente, Deus.
Deus é o ser supremo.
Mas essa não é a questão, padre.
Só a localização do ser supremo é que está em questão.
Comparas a heroína a Deus?
Morreram mais pessoas por causa do álibi externo de Deus
do que pelas sensações estimulantes da heroína.
Como conciliamos esta contradição
se quisermos ser exatos na responsabilidade, padre?
Vou deixá-lo pensar nisso e talvez possamos falar depois.
Eddie…
Obrigada, Eddie.
Suponho que saibas que tenho um passado duvidoso.
Sei. E não preciso de saber onde enterraste os corpos.
Não te quero mudar. A única coisa de que quero mais és tu.
- Vamos vestir-nos? - Vamos.
Encantador.
Não sei quanto ao chapéu.
O chapéu, os acessórios, o conjunto não podia ser mais perfeito.
- Obrigada. - Pedi-te um Bloody Mary.
Perfeito.
Agora que a ressaca está controlada e já decidiste o que vestir no casamento…
Ainda não estou certa do chapéu.
Apesar do chapéu,
queria falar contigo do que descobri ontem à noite.
Eu e o Tarquin fomos passear pelos jardins.
Qual é o código? Quase me esqueci do código!
Decidi procurar uma forma de lhe aquecer o biberão. Mas…
… em vez de encontrar uma cozinha e um fogão quente, eu…
… entrei no que só se pode descrever
como uma grande atividade criminosa.
Não foi a única coisa que vi.
Também vi polícias a apontarem as matrículas
de convidados da festa.
Porque fariam isso?
Sei que a Bella e o Marco têm negócios com o Eddie.
Mas em que negócios estão metidos?
De certeza que queres que te conte?
Sim. Claro… Não.
O Eddie é duque, valha-me Deus!
É de uma das famílias mais antigas da Grã-Bretanha. O que se passa?
Não faças perguntas para as quais não queres saber a resposta.
- Porque não me disseste? - Não podia. És o estribeiro do rei.
Isto é muito sério, querida?
Ele leva-o muito a sério.
Como sustentaria a casa e os empregados?
Desculpa, mas posso demorar um pouco a habituar-me a isto.
A família da minha mulher é de bandidos, não aristocratas.
Querido, não há motivo para pânico. Somos aristocratas na mesma.
A rosa do teu avô.
Pedi ao Geoff que as trouxesse das estufas.
Estiveram na água.
Vou plantá-las em canteiros enormes à volta da casa da viúva.
Não tens de te mudar.
Tenho sim.
É a ordem natural das coisas.
Dou lugar à nova senhora de Halstead.
O meu Eddie.
Estou tão feliz por ti.
Uma parceria com alguém que podes amar e em quem podes confiar.
É tudo o que precisamos nesta vida, não é?
Obrigado, mãe.
Está um homem lá fora para si. Diria ser um dos rapazes do Moretti.
- Certo. Não demoro. - Sim.
Espera, Geoff, eu…
Posso?
Devo dizer que estás
com um ar nobre. - Obrigado, Vossa Senhoria.
Se me permite,
esse vestido é maravilhoso.
Muito elegante.
Obrigada, Geoff.
Que foi?
A signora Angelica tem de falar consigo.
Caso-me em duas horas. Estou ocupado.
Não vai demorar, mas é urgente.
- Certo. Vamos despachar isto. - Sim.
Vim ver o Marco Moretti.
Bella…
Adoro o vestido.
Obrigada.
Posso ajudar em algo?
Só vim falar com o Marco.
Não achei que virias. O Eddie disse que sim, mas não tinha a certeza.
- Não perderia isto por nada. - Ainda bem.
É importante para mim que continuemos amigas.
Porque não seríamos amigas?
Não sei. Sempre senti que havia algo entre vocês os dois.
Um certo brivido.
Não, percebeste mal.
Só trabalhámos juntos, nada mais.
Foi por isso que vieste,
para saber o que andam a tramar?
Só queria conversar.
Esclarecer tudo.
E o que quer que tenha havido entre ti e o Eduardo
foi só imaginação minha?
Correto.
Não achas que ele se vai casar comigo por causa do meu padrinho?
Claro que não.
Não se casaria contigo se não te amasse profundamente.
Genuinamente.
Apaixonadamente.
E, a propósito,
o amor fica-te bem.
Obrigada.
- Signora. - Sei ser um dia atarefado.
Seremos breves.
Houve uma pequena complicação com o Tancredi.
Resolve-se facilmente, mas precisa da sua atenção. Por favor.
Não me pode só dizer?
É mais fácil se lhe mostrar.
Uma imagem vale mais do que mil palavras.
Enzo!
Tivemos de lhe partir as pernas para caber, então, está apertado.
Passei a vida a limpar a porcaria do Marco
e, agora, tenho de limpar a sua também.
Fico muito grato, signora.
Adoro que esteja grato
e adoro os seus belos modos ingleses,
mas não chega.
Quero que diga ao Marco que esteve a pensar no negócio
e decidiu que o dinheiro tem de passar por Hong Kong, não por Londres.
Mas, se não o fizer, vai haver um pequeno problema.
Do tipo que não se afunda no fundo do lago, presumo.
Do tipo que flutua, o que pode ser um pouco embaraçoso.
Flutuador embaraçoso.
Sr. Moretti?
Sim?
A Mna. Susie Glass.
Susie.
Não sou siciliano e a Bella não é minha filha,
mas é impossível recusar um pedido
num dia tão auspicioso como este.
Vou ser sucinta e direta.
Sei que planeia algo com o Eddie. Não me importo.
Ele é livre e eu nunca me atreveria
a dizer-lhe com quem deve negociar.
Tenho curiosidade em saber como isso afetará a nossa relação.
O Eddie queria falar consigo. Presumo que o tenha feito.
Deu-me a notícia ontem à noite.
Só estou no processo de avaliar as consequências.
Hoje, vou receber o Eddie na família, como dizem, la famiglia.
Sei que já não trabalha para os Glass,
mas espero que este casamento possa, um dia, levar
a uma reaproximação entre ele e vocês.
Essa é, sem dúvida, a intenção dele.
Já que o vai receber na família,
estaria disposto a ser avalista?
Tenho todo o gosto em garantir-lhe
que nunca participaria num ataque a si e ao seu pai.
Mas o Eddie toma as suas próprias decisões.
Está prestes a casar numa organização que existe há muito tempo
e com todo o potencial que vem com isso.
Por isso, embora possa garantir que não há problema entre nós,
não posso dar a garantia que me pede.
Ouça.
Os sinos de San Domenico estão a tocar por si, Eddie.
Este deve ser o dia mais feliz da sua vida. Não o estrague.
Sabia não gostar de como a operação estava a ser montada.
Quer que o dinheiro passe por Hong Kong,
mas a razão para isso é que,
apesar de dizer que o seu marido a deixou,
ele nunca o fez.
Ele é o acionista maioritário de uma empresa fictícia que criaram
para desviar dinheiro dos negócios do Marco lá.
Nenhum de nós ganha se ele descobrir o que se passa,
mas eis o que acho que pode acontecer.
O baú deve ir parar ao fundo do lago,
com o Tancredi e o seu segredo.
Vou casar-me e, quando voltar da lua de mel,
o dinheiro que ganharmos na nossa parceria
passará por Londres
e nunca mais falaremos desta conversa.
Pode divertir-se no casamento e, quem sabe?
Talvez apanhe o ramo.
Bom dia.
Geoff!
- Que foi? - Preciso dele para uma coisa.
- Sentas-te aqui um instante? - Tenho de distribuir isto.
Podes simplesmente sentar-te?
Susan. Rapazes.
Capitão, podemos falar um segundo?
Tenho pouco tempo. Vem comigo.
Desculpa a brevidade.
Preocupa-me que estejas prestes a casar com uma nova base de poder
que te levará a tentações que nunca encontraste.
Ambos sabemos que és ambicioso, Eddie,
mas não sabemos onde acaba essa ambição.
Céus, Susan!
Isto não parece teu.
A tua mensagem e o teu timing são toscos.
Fui extremamente claro ontem à noite.
Há mais alguma coisa?
Sim.
Tens potencial para ser um monstro.
Dá-me a mão, Susan.
Se estás preocupada que eu vá atrás de ti…
… não estejas.
Agora, se me dás licença,
estou algo ocupado.
Geoffrey.
Nanny.
- Bom dia, padre. - Buongiorno, Eddie.
Tenho pensado muito sobre a nossa discussão e…
Estou muito perturbado.
Pois. Não é bem o momento nem o lugar para isso.
Queria dizer-te que…
… vou rezar por ti.
É muito simpático da sua parte.
Mas, agora, acho que devemos manter o foco.
Não acha?
Sei que este casamento é bom para a tua carreira.
Vá lá.
Não sou estúpida.
Não me importo.
Eu amo-te.
Por isso, não importa.
Mas preciso de saber.
Isto é real para ti ou não?
Bella…
… amo-te.
Total e completamente.
E quando formos velhinhos,
vou lembrar-te que me fizeste esta pergunta
e vais sentir-te muito marota.
O DIA APÓS O CASAMENTO
É uma jogada, pai.
Ele diz que não é de confronto.
Ele nem sabe a extensão das suas ambições.
De certeza que o teu radar não está turvo
por teres visto o duque a casar-se?
Tenho a certeza. O meu radar não falha.
Ele pode estar a ir de lua de mel,
mas, para ti, ele é um míssil Exocet.
Deixa que eu me preocupe com isso.
Ouve, a situação aqui está a mudar de hora a hora.
Porque não apanhas o próximo voo?
E ponho-te a par quando voltares.
- Está bem. Adoro-te. - Boa viagem.
Adoro-te.
Desculpe. Era a minha filha.
A representá-lo no casamento do duque, claro.
Infelizmente, o Sr. Johnston não pôde comparecer,
o que é uma pena, porque ele adora um bom casamento.
E também adora uma boa pila.
Vamos prosseguir, Sr. Glass?
De avião, estaremos na Suíça em 15 minutos.
Para abastecer e carregar a bagagem, passa meia hora.
Vamos de carro.
As malas não cabem no Ferrari. Viste a mala.
Enviam-nas depois.
Tenho uma ideia muito melhor. Queres ouvir?
- Sim. - Está bem.
Tu levas o carro.
Eu levo o avião.
Fazemos uma corrida.
- Combinado. - Conduz com cuidado.
Se te magoares, mato-te. Se estragares o carro, mato a tua família.
- Vejo-te lá daqui a 40 minutos. - Cala-te e beija-me.
- Ciao, Bella. - Ciao.
Não!
Ciao, Bella!
Adeus.
Ciao!
Legendas: Ana Sofia Pinto
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