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Contém nudez, sexo e imagens potencialmente ofensivas.
Se é sensível a imagens de corpo humano e intimidade,
não deve ver.
Era uma vez uma jovem donzela intrépida
de cabelo brilhante e grande coragem.
A sua beleza era conhecida em todos os cantos do reino
e corria-lhe nas veias um insaciável espírito de aventura.
Por isso, a jovem passava os dias no campo
a galope no seu nobre garanhão,
até que um belo forasteiro
apareceu de repente e perturbou a sua paz.
Quem sois?
Ousais perturbar a minha paz?
Não temais, só procuro água para a minha pileca
- e vingança. - Vingança?
- Quem… - Não me conheceis?
Chamo-me Diego de la Verga.
Fodeste com o meu pai.
Prepara-te para gemer.
A DONZELA SUBMISSA
Caraças!
- Mais. - Mais.
És tão boa!
Agora…
Os miúdos.
Para.
Amor…
- Gostaste? - Sim.
Tão bom.
Mariano.
- Precisamos de uma fritadeira. - O quê?
- Outra vez? - As vezes que forem precisas.
Como não tens de fritar os croquetes na frigideira que o banco nos deu…
Como assim, ratinha?
Fazes croquetes deliciosos.
Não exageres.
Sabes que estão em promoção no supermercado?
- Chega-te para lá. - O quê?
Chega-te para lá. Está muito calor.
A Rádio Valladolid deseja-vos bom dia.
São 8h40, 7h40 nas Canárias.
Hoje, 17 de março, é dia de São Patrício, patrono da boa sorte.
Este paso doble é dedicado a todos os Patrícios.
E, a ti, Nines Gallego, que estás quase a ter a tua querida fritadeira.
Bom trabalho!
Ansiamos por provar os teus sanjacobos.
Cuidado, não te queimes com esse café instantâneo.
Mais um dia maravilhoso.
O sol brilha, está uma temperatura maravilhosa de primavera…
Um momento.
Mas que raio?
Mãe, não gosto destes cereais.
É o que há.
Mãe!
Não me venhas com isso. Larga isso, é para meninas.
Teresa, não vens?
- Não sei. - Não te deixo ir à casa de banho.
- Já falámos sobre isso. - Estou aflita.
Vá lá. Por favor. Diz-me as datas.
- Morte em Veneza, 1953. - Não.
- Confunde-lo sempre com Férias em Roma. - Olha as horas!
Estou aflita, por favor!
- Não sei qual é a data. Chichi! - Vamos, diz a data.
Basta!
1975?
Muito bem, passa.
Bolas, que feitio!
Não, mas quase. 1973. Já agora, estás linda.
- Adeus. - Sim, muito linda.
- Mariano! - Sim?
Quando saíres do clube de vídeo, a fritadeira.
- Sim, sim. - A promoção acaba hoje.
Está bem. Andrés!
Adoro-te, ratinha. Adeus!
Teresa! Faltam dez minutos.
HOMENS GRANDES NO CAMPUS!
Meu Deus!
Nines? Queres mais alguma coisa?
Não, Paca. O salame chega.
Tome, bem servido.
Pedro.
Ótimo. Cumprimentos à esposa.
FRITADEIRA
Pelo sinal da Santa Cruz, livra-nos,
Deus, Nosso Senhor, dos nossos inimigos.
Em nome do Pai, do Filho…
Estou?
Sim, sou eu.
Espírito Santo, reclama o nosso coração…
O quê?
Olha o que te fizeram, Mariano.
Jesus, torna-me digno do Reino dos Céus.
Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo.
Manda-nos embora sem dizer nada?
Antes de saírem, lembro-vos que, por ocasião do Dia de São José,
as nossas paroquianas, Lupe e Gloria,
vos convidam a comer as suas deliciosas rosquillas.
Nada. Não disse nada. Será possível?
- Podes esperar? - E dedicar
uma última oração à saúde do nosso vizinho Mariano
que, como sabem, teve um acidente grave na terça-feira.
- Já está. - Que o Senhor dê
à família a força para suportar esta pesada cruz.
E, à sua bendita mulher,
a coragem necessária para aturar a indecência da sua filha.
Porca!
Repitam todos comigo.
- Porca! - Porca!
Mãe?
Obrigada.
- Meu Deus! - Sim.
Não me perguntas como estou?
Já sei como estás. Anda lá.
Tem o abdómen todo lixado.
Só podem fazer alguma coisa se melhorar.
- Só podemos esperar. - Tem calma.
Em menos de nada, vai estar a chatear-te.
E não estás sozinha. Ouviste? Está bem?
Sabes o que te fazia bem?
- Chorar um pouco. - Claro, chorar.
- Sim. - Como se tivesse tempo.
Lá estás tu.
- Tens dormido? - Como posso dormir?
Tenho tanto para me ralar.
Queres um calmantezinho?
- Tens? - Bem…
Claro. Olha.
Quando se acabarem, dizes-me, e eu dou-te mais.
Não quero que te falte nada.
O que me dizes do sobrinho?
É de Barcelona, veio ajudar no talho.
Dava-lhe bem.
- É um puto. - Pedia mortadela ao puto…
- Encarni, por amor de Deus! - O que é?
- Amiga, que desgosto. - Sim.
- Lamento imenso. - Claro, querida.
Não, não te dou um beijo, estou adoentada.
Como está?
- Não está muito bem. - Filha, que pena.
Atropelado como um cão.
Temos rezado muito por ele.
Sim, rezem. Ele bem precisa.
Cuida de ti. E come. Não faças nenhuma loucura.
- Dá-lhe uma rosquilla. - Dou?
Está bem. Não, tu, não.
- Não, a sério. Não posso… - Deixa. Ela não quer.
- Eu quero. - Desculpem, um momento.
Que pressa.
- Já sei. - Angelines, minha linda.
- Já sei. - Lamento imenso.
- O que se sabe? - Nada.
Sobreviveu às primeiras noites, é o mais importante.
- Pois. - Estamos à espera.
Sei que não é boa altura, mas tenho de falar contigo.
- Claro. Diz. - Sim?
Nines, preciso do dinheiro.
Do dinheiro. Sim, claro.
Qual dinheiro?
- Da renda, Angelines. - Do clube de vídeo?
Muito bem… Vamos lá ver.
Já há seis meses. Já disse imensas vezes ao Mariano.
Não queria, mas se não me pagarem, tenho de vos fechar a loja.
Espera. Quer dizer que o Mariano não te paga a renda há seis meses?
- Seis meses. - Como pode ser?
Isso digo eu.
Nines, não sou forreta. Tu sabes.
- Nunca fui assim. O dinheiro… - Sim.
Mas, caramba, também estou teso.
Claro. Não digas mais nada.
Não sei o que se passou.
O Mariano, com aquela cabeça… Não sei.
Não interessa. Não te preocupes. Levo-o amanhã ao café.
Obrigado, Nines. És uma grande mulher. Obrigado.
Se precisares de alguma coisa…
- Se tu ou os miúdos precisarem… - Sim.
- O que precisares. - Está bem.
E o Mariano também.
As melhoras dele.
- E… - Obrigada.
Obrigado, Nines.
FILMES - CLUBE DE VÍDEO - ALUGUER CLUBE DE VÍDEO DOROTHY
- O que é Cemitério Vivo? - Um grande filme.
A meio do filme, o Gage é atropelado por um camião,
enquanto o pai brinca com um papagaio.
Uma cena lendária do terror.
CLÁSSICOS
- Não o viste? Ponho-o? - Estou mesmo para ver filmes.
Anima-te, ele vai melhorar.
Pensei que as pessoas só ficavam em coma nos filmes.
- Que autocarro foi? - Não sei. Acho que foi o 17.
Que azar. Passa tão pouco…
A Bruxa Má disse algo?
Quem, a Nines? Não lhe chames isso, o marido foi atropelado.
Tu é que lhe chamas assim.
Não sei de nada. Não a quero chatear, com tudo o que tem em cima.
Porra!
- Olá. - Olá. O que deseja?
É a Nines, raios!
- Olá. - Olá, Nines. Então?
Como estás? Sou a Chon. Nunca…
Não. Já sei quem és.
- Apaga o cigarro. Não se fuma aqui. - Não? Está bem.
Como está o Mariano?
O Mariano está bem.
O melhor que se pode estar em coma. Esclarecido isso,
porque não têm pagado a renda?
- O quê? - Nunca devi nada a ninguém.
O Nazario veio envergonhar-me à saída da missa.
- És tu que tratas disso, não és? - É ele.
Cala-te, Agu.
O negócio não corre bem, minha senhora.
- Quem é ele? - Ninguém. É o Agu.
Vem cá porque não tem nada para fazer.
Vamos lá ver se eu percebo. Como é que não corre bem?
O que se passa? Uma fase má?
O Mariano não lhe disse para não a preocupar.
Desde que abriu o Videomaster, deixámos de ter clientes.
Não conseguimos levantar a cabeça.
- A minha amiga não recebe há meses. - Cala a boca. Não digas nada.
- Ela perguntou-me. - Também não te paga?
Virgem santíssima! A quem mais deve?
- O livro-razão. Já! - Claro. Vou buscar.
Céus!
Estava…
Agu, porque não lho vais buscar?
- Está no escritório. - Claro.
Vou buscar o livro-razão.
Volto já.
O livro-razão.
Onde estarias, Agu, se fosses um livro-razão?
Na prateleira?
Não.
Vamos ver.
Porra, outra vez, pá? Não podes fazer isso aqui.
Pagas 200 pesetas e vais bater uma em casa.
Aqui, é de graça.
Não é nada. Para além de porco, és preguiçoso. Baza, pá.
Baza daqui, raios! És o mais porco de Valladolid, pá!
Fique com Deus.
FILMES PARA ADULTOS
O que se passou aqui?
Nada. O coitado do miúdo estava aqui a…
De coitado não tem nada.
Punheteiros, aqui, não!
Não! E tarados ainda menos.
Se ele voltar, chama a polícia.
A polícia. Escute,
se não fossem os tarados, há muito que tínhamos fechado.
- Muito bem. O livro-razão. - Sim.
O salário da Chon… Um, dois e três.
- A renda do Nazario. - Muito bem. Veja.
Quase 100 000 aos fornecedores.
- Despesas, segurança social. - Sim.
- Amortização do imobilizado. - Quanto se deve?
Três milhões de pesetas!
- Três milhões! O que te deu? - Senhora, por favor. Tenha cuidado.
Vinte cópias de O Mentiroso Compulsivo!
As Pontes de Madison County. Cuidado com as Gémeas? Vinte!
Por favor, é a comida dos nossos filhos!
- Larguem-me! Dou cabo de ti, juro! - Por favor, minha senhora!
- Minha senhora! Basta! - Larguem-me!
É meu marido! Faço o que quiser! É meu marido!
- Isto é um hospital. - Desculpe. Está muito enervada.
É a mulher dele. Vou-me embora.
Nines! Já sei do Mariano. O que…
- Como pudeste? - Podes acalmar-te?
- Acalmar-me? A calma é para os ricos! - Então?
- Que se passou? - Que se passou?
- Deste-nos cabo da vida. Foste tu! - Como assim?
Gestor de merda. Jantaste na minha casa.
Quantas vezes, Damián, olhaste para mim e não me disseste nada?
O Mariano pediu-mo, Nines. Eu tentei ajudá-lo.
O clube de vídeo é um poço sem fundo. Há anos que não dá lucro.
Desculpem, estou com fome. Finjam que não estou cá.
O que se passa com todos vocês e o sexo? Por favor!
Estamos todos enervados.
- Porque não nos sentamos… - Não. O que faço?
- Peço um empréstimo. - Já foi recusado.
- Hipoteco a minha casa. - Ele já fez isso.
- A minha casa? - Sim.
- A minha… - Bolas, eu conheço-te.
És a minha vizinha do segundo, a que olha para mim.
Escuta, Nines. Já disse ao Mariano que isso dos filmes
é muito bonito, mas não dá dinheiro.
E ainda por cima com concorrência. É só…
O Videomaster.
Bolas! É mais do que evidente.
É o melhor.
Os americanos sabem como fazer dinheiro.
Nines, o que vais fazer?
Para começar, levo isto.
- A fritadeira? - Sim.
- Não, não me lixes. - Sim.
- Por favor. - Sim, a fritadeira. Deves-lhe isso.
- Miúda! - Estou a ir!
Olá, Encarni. Ainda bem que te apanho.
Podes ir buscar o meu filho à catequese?
Sim. Filha, é que…
Tive um dia…
Afinal, o Mariano…
Encarni?
Estou?
- Dá-me 25 pesetas. - Não posso, não tenho.
Esqueci-me da carteira.
Minha senhora, se não se importa, vou andando para o clube de vídeo.
Então…
Dá-me o livro-razão?
Obrigada.
- Miúda! - Sim?
Quem manda agora é a Bruxa Má.
Livra-te das luzes de Natal. Estamos em março, por amor de Deus!
Espetacular. E o robô é maravilhoso.
Ora, ora…
Nines Gallego, bem-vinda ao Videomaster.
Vens à procura de algum filme, ou só dar os parabéns à concorrência?
Não, estava…
- Vim só cuscar. - Claro.
Onde está o Mariano?
Está muito ocupado.
Não deve ser a trabalhar, pois não?
Andam por aí a dizer
que o Dorothy já teve melhores dias.
- São fases. - Fases.
O Mariano não tem olho. Eu disse-lhe.
"Adere a um franchise, como eu, Mariano", mas não.
É tão teimoso.
Mas estou a dar-te alguma novidade?
Não te prendo mais, porque pareces…
Cansada.
Irene, filha, anda cá.
Dás pipocas à Nines para ela provar?
Por conta da casa.
São gourmet.
Muito bem.
Olá, desculpe. Procuro algo quente para hoje à noite.
Quente? Temos o Vulcão.
Vulcão? Não, não… Vamos ver…
Mais quente.
Lamento, mas não temos filmes desses.
"Filmes desses", diz ela.
Como pude ser tão otária?
- Estamos num país de tarados! - É uma forma de ver a coisa.
Asunción, estávamos enganadas.
Não devemos expulsar os badalhocos. Temos de os acolher.
Pronto, passou-se.
Sabiam que os espanhóis são os mais badalhocos da Europa?
Não sou eu que digo. Disseram na televisão.
Os homens masturbam-se com tudo o que apanham!
Até com as miúdas do Telecupón.
Posso não me ter licenciado, mas, num país com 40 milhões de espanhóis,
metade são homens. São muitos badalhocos.
E, atenção, badalhocos com dinheiro!
Dez milhões de espanhóis
à procura de algo com que bater uma, semana após semana.
Nunca lhes basta.
É um país do pecado.
Juro que tentei impedi-lo.
Mas, se não os consegues vencer, junta-te a eles.
- Como assim? - O Mariano não conseguiu ver.
Temos de encher este sítio de gente.
Que se encha de muita gente. Temos de expandir o negócio
e dar-lhes o que mais ninguém lhes dá.
E nós temos algo que o Videomaster não tem.
Pois. Escrúpulos.
E isto.
A DONZELA SUBMISSA
Dina Almeida
Supervisão Criativa Pedro Renato Marques
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