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Vamos lá.
Vamos lá. Vamos lá.
Boa noite.
Tudo bem? Tudo bem.
Gravou, pai?
É.
Espera aí.
O bar está ao maior movimento.
Os pedidos estão atrasados. O bigode não se vira. Não está cheio da merda. Não
está bom.
Falta tudo rápido. Eu não quero saber de papo. Tá muita gente no bar.
Veja você, Zaca. A bebida tá fazendo nosso amigo aqui ficar cada vez mais
idiota.
Não me mete nessa.
Tô chegando agora. Não tô nem aí, hein? Tudo bem. Eu é que sou idiota.
Tudo bem.
Você vai fazer um vernissagem no mictório dessa tabela infecta. Pra essa
merda que você chama de arte.
Mas no fundo, só pra se promover, eu é que sou idiota.
Valeu. Muito obrigado.
assistirão ao maior festa show já acontecido nesse país.
Bolada produzida e inventada pelo grande artista brasileiro, Valfrido Salvador.
Ou seja, eu mesmo.
O Salvador daqui!
Galocha trazendo a felicidade e a solução para os problemas das mulheres.
Ah, é um dispositivo simples, em cartolina esterilizada, facilmente
descartável e higiênico. Eis aqui a solução das militeiras da madrugada.
O moderno, o avançado condutor de urina descartável.
E com a ajuda desse simples objeto, as mulheres vão conseguir igualdade de
condições com os homens no lugar onde eles menos esperam. Ah, tá bom, Galocha.
No Mictod.
entregar aquela carta. Ah, eu não sei, companheiro. Depois a gente conversa que
eu tô por fora, entendeu? A gente bate um papo. Tá legal.
Tchau.
E o filme que você falou que ia pintar?
Ela tentou.
Mas é um dia de filmagem só.
Grana curta.
Agora o pior, você não sabe.
Vou comer um porno.
Mentira. Verdade. Vou ter que fazer uma cena de sexo explícito.
Sabe qual é o nome do filme? A Viúva do Estado Masoquista.
Gente, eu tô tão nervoso.
Sabe quem é a atriz?
Quem?
Primeira dama da Pono Chanchada está rindo.
Agora que você abandonou os amigos e entrou para a TV, agora me joga nos
braços de Áurea Celeste. Vá, merda, vai, Tuca.
Um beijo. Tchau. Te vejo mais tarde.
Olha aqui.
Absurdo!
Absurdo! Não pergunto mais essas palavras.
Não, você... De uma mulher no mitório tentando mijar. Um negócio esquisito.
uma vaga pra um escritor idiota naquele teu Pasquim? Não.
O último idiota que eles contrataram fui eu.
Por quê? O que aconteceu?
Botaram você na rua, é? Ah, claro.
Quer dizer, nem a televisão aguenta aquelas cascatas que você fica
escrevendo o dia inteiro pra entorpecer a cabeça das pessoas.
Quer jantar? Não, não quero jantar, não. Não quero jantar, não. Tô esperando ele
acabar esse discurso dele babaca pra dizer pra ele que eu não fui demitido,
não.
O que eu não aguento, seu cabelinho, é... escrever como um louco o dia todo e
depois o executivo morde. Diz pra mim que não tá bom. Diz pra mim que não está
bom. Eu não escrevo pra mim.
Eu escrevo pro executivo.
Às vezes me dá vontade de voltar e me chamar Shirley Almada. Pelo menos eu
tinha mais independência naquela época.
Shirley Almada?
Isso é ruim até de pseudônimo, meu Zeca. Tá na cara que é um nome inventado.
Desculpa. Eu até gostava daquelas historinhas de sacanagem que você
escreveu. Eu também, era o mais criativo.
Criativo no cacete, né, cara?
Tudo igual as outras porcarias do gênero. Vamos fazer uma troca? Eu fico
com a tua obra e tu fica com a minha mulher.
Não existe nada no mundo pior do que a minha mulher.
Não quero essa troca, não. Fazer negócio com a tua mulher é fazer negócio com um
chapéu. Ou leva na cabeça ou sai embrulhado.
E depois eu tenho uma estrela de televisão aqui, ó.
Aqui, ó, Zeca, vamos pra casa dormir. Eu gravo mais de manhã cedo. Não, não foi
embora, não. Olha aí, ó, Precúcio.
Precúcio, vem cá, vem cá. Vai, leva.
Leva tudo. Traz um outro rodado. O que nós vamos beber? Nós não. Eu, eu vou
beber. Você vai me servir.
E é isso, xará. Tá perdendo a elegância?
É. Que lindo. Cuida das tuas energias.
Cuida dos teus campos energéticos.
Se não, vai virar uma molécula morta, meu irmão.
Choco pra todo mundo?
Aproveita o balo do choco e traz um pouco de pipoca embrulhada, garotone.
Pra que essa pipoca embrulhada, cabelinho?
É que eu chego em casa tarde e a cotinha tá dormindo.
Tem que entrar no maior silêncio, senão já viu o esporro, né?
Mas assim que eu tô botando o pé na porta, o galo do vizinho começa a
cantar. Depois que eu passei a levar pipoca embrulhada pro galo, enquanto que
ele tá comendo, eu estou entrando em casa.
Leve você também pipoca embrulhada pra casa.
Ah, não. Há um mês que eu tô plantada aqui nessa sala e não consigo falar com
o baby.
Olha aqui, hoje eu vou reclamar. Eu não aguento mais fazer figuração. Olha, eu
sinto muito, mas eu não posso fazer nada por você. É, como sempre.
Olha, eu vou deixar essa nova gravação. O quê, cara? Eu vou falar com você?
Eu tenho que dar aquele toque lá no Duval. Vamos lá.
Aí, gente, tem personagem.
Muitas cartas? Vai, vai.
Eita, meu amor.
Você está maravilhoso.
Eu li teu texto, Zeca, e é emocionante. Eu chorei, rapaz. Juro que eu chorei.
Mas é uma comédia, Benzinho.
Ah, eu sei.
Mas o que me incomoda é a tua garra. É gostoso, mas é emocionante. Você é um
grande dramaturgo, Zeca. Estou torcendo por você.
Grande texto, Zeca.
Grande texto.
Obrigado.
Oi, tudo bem?
É bastante.
E aí?
Vocês estão esperando o homem há muito tempo? Eu estou aqui há 40 minutos.
Pois é.
Se o homem não resolver nada sobre o texto que eu escrevi, estou fudido.
Olha, Zeca, eu vou te dizer uma coisa.
Se o homem não quiser renovar o meu contrato, eu estou me lixando.
Eu não preciso de televisão para viver.
Nem eu. Eu sempre me mantive muito bem com os meus livros, minhas peças de
teatro. Eu?
Com mulher e filho? Não sei não, viu?
Tomás, como vai?
Que porra é uma, né, rapaz?
Cadê o Bebê? Tá aí?
O Bebê não vai poder receber vocês hoje não. Não, não, a hora. A gente tá aqui
parado esperando. Mas ele teve que tomar um avião pra Brasília nesse momento.
Brasília? Brasília? Eles estão sempre plantados aqui.
E o meu texto, como é que fica?
Não fica.
Ele tá achando muito fraco. Você tem que reescrever pra amanhã. Pra amanhã? Mas é
assim demais, é muito.
Calma, Zeca, vai devagar.
Devagar o cacete, pô. Já escrevi esse texto quatro vezes, eu não sei o que o
Bebê quer. Eu não sei o que o Bebê quer.
Você vai fumar aqui, é? Eu vou. Vou.
Quando o gato sai, os ratos caem na vendaia, não é isso?
Manera, Zeca, manera. Manera é o cacete que manera.
É preciso que o Baby me diga o que ele quer que eu escreva. É preciso que ele
diga isso, isso, isso e aquilo.
Adivinhar não é a minha.
Vocês são pagos, é pra ter ideias, é pra inventar. Mal pagos. Mal pagos.
Porque a gente é obrigado a inventar, escrever, desenvolver.
Trabalhar de um dia pro outro. Aí eu trabalho 24 horas por dia pra vocês, né,
Xará? Calma a cabeça, Zeca, calma.
Olha aqui, eu amo você, você sabe disso. Mas é verdade, teu texto não tá tão bom
assim. Você acabou de dizer pra mim que meu texto era bom, porra? É bom rever um
pouco, melhorar.
Até você, né, Judas?
Até você. Tem que reescrever, claro.
Se você disser o que você quer, eu reescrevo. Mas aqui ninguém sabe querer,
nem o Baby.
Fica você de garoto de recado, Tomás. Você é um gravador.
O Baby diz alguma coisa no teu ouvido, você registra no teu computadorzinho.
E despeche no meu ouvidinho de pinico.
Dar outro recado, é?
Pois eu tenho um recado para dar para você.
O Baby leu o seu texto e disse, isto aqui é uma merda.
O quê?
Merda é você.
Merda é você, Tomás. Merda é o Baby.
Você é um idiota, um capacildo.
Aliás, é por causa de gente como você e muita gente que tem aqui dentro que o ar
é irrespirável.
Eu estou com um saco cheio de vocês. Estou com um saco cheio. Estou poluído
de vocês.
Pois é, cara.
Por que você está contra mim?
Eu estou aqui apenas cumprindo ordens. Você sabe disso.
Sinto muito.
Sente muito?
O quê?
Estou cumprindo ordens?
Estou cumprindo ordens? Isso foi dito em Nuremberg, meu filho. Isso foi dito em
Nuremberg. Sabe de uma coisa, ô Tomás?
No fundo eu tenho pena dele. No fundo eu tenho pena do Tomás.
Está aí vivendo em pânico. Pânico de perder o emprego na televisão. Mas pra
mim chega.
Eu estou fora dessa, malandro. Eu estou fora dessa.
Tô fora dessa. Eu quero morrer com um pouco de juventude. Tá aqui, ó. Não
quero mais essa merda, não. Vamos sair.
Capachudos. Capachudos.
Não quero mais saber essa televisão, não.
Você é uma medíocre.
Sua mãe é uma medíocre.
Essa família é um aglomerado de medíocres dominados como fantoches.
E o que é pior, todos metidos a insubstituíveis.
Mas, Berenice, você não pode entregar aquela carta.
Vai revelar tudo?
Vai ser um horror para todo mundo.
Inclusive para você.
Não tem importância.
Eu já não tenho mais nada a perder.
Vou entregar a carta.
Ok.
Ótimo, ótimo.
Ana, vem cá.
Ótimo. Olha aí, vamos preparar o ensaio da terceira cena, hein?
Eu já falei que eu não quero esse vaso aqui.
Ah, meu Deus. Você quer tirar esse vaso aqui pra mim, por favor?
Tá ótimo, obrigado, hein?
Porra! Eu já falei, você tá cansada de saber que não pode comer comida de cena?
Você não escolheu a minha continuidade assim?
Põe o salgadinho lá, ninguém vai notar.
Desculpa, deixa eu tirar o luzinho só.
Nós não temos tempo nem de almoçar hoje, tô até com dor de cabeça.
Meu Deus, pode. Meu Deus, televisão. Meu Deus, pode.
Capacildos. Capacildos. São capacildos. Eu não aguento mais. Eu não aguento
mais. Eu só larguei essa televisão. Esse pode.
Liberdade ainda que tardia.
Liberdade. Eu não aguento mais.
Meu marido, não está vendo? Teve uma crise.
Todos nós temos as nossas crises.
Você vai ficar aqui.
Quando chegar em casa, você dá um trato nele. Só que agora você vai ficar aqui
no cenário que eu tenho que gravar essa cena.
Tem que ser profissional, Ana. Profissional. Senão não dá, entendeu?
Olha aqui, ó. Vamos ensaiar uma vez e gravar.
Gente estranha no estúdio. Não mais, hein?
Você é um burro. Se eu sou burro, você é idiota. Se eu sou idiota, você é
estúpido. Se eu sou estúpido, você é cococinho.
A altura do Himalaia é 8.500 metros.
Chega de briga. Vai sentar lá. Pronto.
Pense bem, Berenice.
Se você mostrar essa carta, papai se suicida.
Eu tenho certeza que papai se suicida.
E Márcio?
Márcio e Rodolfo vão descobrir que são irmãos.
Não haverá mais casamento.
Você não pode fazer isso, Berenice.
E mamãe?
E Agatha, que está com câncer no hospital?
Pense em todo mundo. Pense em quem você quiser.
Mas não entregue esta carta, pelo amor de Deus, Berenice.
Sempre me pedem para pensar nos outros.
A minha vida inteira passei pensando nos outros.
Agora em mim, em mim nunca ninguém pensou.
Agora é tarde.
Já me decidi.
Vou entregar esta carta, nem que seja a última coisa que faço na minha vida.
Pô, mamãe, não precisava entregar esta carta.
Ih, boboca, isso não é verdade, não.
Isso é ficção.
Sabe o que é ficção, não?
Claro.
Ficção... Mas também ficção científica.
Guerra nas estrelas.
Alô, Pedro.
Zeca, tudo bem?
Pedro, é o seguinte.
Eu acho que vou voltar a escrever com o pseudônimo de Shirley Almada.
Não está achando dinheiro, dona Ana Morena?
Aliás, não precisa pagar, não. Me dá um autógrafo seu, que a minha filha é muito
sua fã, dona Ana Morena. Ah, que nada. Eu vou achar o dinheiro.
Aliás, pessoas melhores, eu vou lhe cobrar sim, dona Berenice. Porque a
senhora é uma peste de gente.
Vai entregar aquela carta e esculhambar com a vida de todo mundo na novela. E
minha mulher vai ficar de mau humor e encher meu saco.
Pague na boca, dona Berenice.
Impressionante. Pensei que ela fosse mais jovem.
Por
favor,
senhora, não é... Não.
A senhora não é a... Não, não vou entregar carta nenhuma porque eu não sou
dos correios e telégrafos.
Essa não, mas que carta?
Um ar de paus para fazer um for.
Desculpe, mas é que eu conheço a senhora de algum lugar.
A senhora não me é estranha.
Como é mesmo o seu nome?
Fico a essa daqui mesmo.
Eu sou a dama do elevador.
Pronto.
Eu já comprei as faixas para você. Cadê seu pai? Onde é que aquele maluco se
meteu?
Cadê o Zeca? Quer me responder?
Yuri, cadê seu pai? Já chegou em casa? Me responde, Yuri.
Não dá nada que eu estou ocupada.
Por favor.
Oh, mamãe dá fogo.
Chegou o limite máximo da punhação, Ana.
Daí em diante, dá o câncer. Sim, mas eu também cheguei ao meu limite máximo.
Mas eu me controlo, aguento. Você sabe quando?
Eu não consigo imaginar, Ana. Porque eu me lembro que eu tenho um fato.
Um acordo com você, com os nossos filhos, com a vida.
Eu também. Como você pode ver, eu estou aqui. Eu não fugi.
Ah, é?
Aliás, o que você está fazendo sentado na latina com essa máquina de escrever
no colo e esse conhaco horrível na mão?
Trabalhando. Sou um operário da dramaturgia. No banheiro? Então tá.
Pelo amor de Deus, Ana, não me reprime.
Deixa eu ser louco, Ana. Deixa eu ser louco, por favor.
Mas é você que está me reprimindo.
No ano passado, você caiu em crise.
Lembra? Resolveu montar a tua peça de teatro. Eu topei.
Botamos nela todas as nossas economias.
Estriou. E foi um dos mais lindos fracassos do teatro brasileiro.
Isso.
Foi um fracasso maravilhoso. Todo mundo que viu a peça adorou. Mexeu com a
cabeça de todo mundo. Mas que todo mundo?
Aquelas cinco pessoas que foram ao teatro?
Muito bem, mas quem é que vai pagar as dívidas da peça? Sim, nós ainda temos
mais de um milhão para pagar. Eu não sei se você se lembra.
A propósito, o que é que você está escrevendo trancado no banheiro? Eu
posso saber?
Um romance.
Um romance com o pseudônimo de Shirley Almada.
Eu falei com o Pedro, ele vai te dar 100 mil exemplares.
Shirley Almada, Shirley Almada. Vai escrever romance pornográfico que vem
com essa história de operário da dramaturgia para cima de mim. Esses
romances são mais modernos, arrojados e criativos.
do que essas novelas soporíferas que você faz na televisão. Esses romances,
pelo menos, têm sangue, têm vida. Tem o meu sangue, a minha vida, porque eu vou
continuar me matando 24 horas por dia dentro de um estúdio enquanto você larga
seu emprego na televisão e escreve na latrina. Você rompeu teu compromisso
comigo com tudo, coisa de criança.
Esses romances dão dinheiro, quebraram nosso galho durante muito tempo, Ana.
Mas que dinheiro, Zeca, que dinheiro, aquela mixaria.
Os tempos mudaram, meu amor, os tempos mudaram.
Não, não. Não acho, não.
Televisão dá pra jogar umas ideias e discutir com milhões de pessoas.
Televisão não é pra aprofundar, é pra massificar. Tudo bem, eu já sei. Não,
seja sincero. Você não acha a televisão digna de um artista do seu valor?
Não. Televisão é uma profissão como outra qualquer.
Todo mundo trabalhando lá dentro. Todo mundo morrendo de ódio, mas todo mundo
trabalhando lá dentro. Todo mundo tentando dar uma mudadinha aqui, outra
mudadinha ali. Tudo cocô, tudo idiota, tudo suicida. Claro, claro. Você é
daqueles que sabem que dois mais dois são quatro. Mas você não aguenta, não é?
É. E se eu quiser que dois e dois sejam cinco? Fica aí.
Fica aí.
Eles falaram em fome.
Acho que a barra vai pesar de novo.
Temos que executar o plano Alpha 1.
Abastecimento de emergência.
Ah, Zeca.
Zeca.
Você está sempre sonhando com alguma coisa que não vai acontecer.
É como se você estivesse esperando eternamente a estreia de uma peça. Essa
é a nossa diferença.
Para mim, a peça já estreou. E nós já estamos em cartaz há muitos anos.
Então não é uma peça boa, Ana.
É uma peça chata.
Só tenho medo de não estar presente na noite da tua estreia, Zeca.
Os bichos da floresta é que estão certos.
O negócio é fazer a comida para os dias tenebrosos.
Ana, não vamos discutir isso de cabeça quente.
Não há esperança de tomar um skin. Não aguento mais aquele bar todo dia.
Aquelas mesmas pessoas discutindo aquelas mesmas coisas há 15 anos.
Um skin só?
Não. Hoje não vou a porcaria de bar nenhum. Não aguento. Não tenho sábio.
Preposto. Casal, quando senta sozinho, ou tá começando ou tá brigando, hein?
Vê lá, hein, gente.
O de sempre, dona Ana.
É, é gelo, preposto. Sem gelo eu não sou ninguém.
Pra mim, traz a bebida mais forte que você tiver.
Boa noite.
Pelo menos você podia ficar com outra cara, né?
Esse teu ar de menino culpado não te cai nada bem.
Você me esculhamba numa hora que eu tô precisando de apoio.
Numa hora que eu tô dando uma puta virada na minha vida. Você me arrase que
é o quê, gato?
Oi, como é que é? Tudo bem, né?
Tudo que a gente está tão gasto.
Deca, meu garoto.
Será que vocês se incomodam se a gente invadir a privacidade do casal?
E se eu me incomodar, meu caro Ivan Guerra?
Bom, é exaustão, né, Zeca? Porque já estava em tempo de se aprender a viver
no coletivo, né?
Ah, mas isso ele não vai aprender nunca, Ivan. No mundo dele só existe ele.
Vai dormir, bochecha.
Entende que bebe, bebe, tode, tode, tode.
Você mesmo, canalha, cabelinho, canalha. Você me jurou de pé e junto que ia
jantar com as crianças hoje.
Você não quer que eu venha para o bar às sete horas da manhã, quer? Eu não quero
que você venha para o bar a hora nenhuma.
Porque tua casa não é aqui. Nem a tua mulher e a dona Esperança. E não foi com
o bêbado que eu me casei. E eu não sabia que eu tinha casado com uma virágua
insuportável. Uma megera. Eu fui enganado. Você era uma chata.
Chata? Mas sou eu que cuido dos teus porros. Que te lavo quando você se
vomita todo. Que cuido da tua casa, da tua roupa. Da comida que você gosta. Do
feijão que você gosta.
Eu descobri. Eu me casei com a empregada. Ah, empregada não.
Escrava. Porque empregada tem salada.
Eu não suporto mais você. Quem vai tampão de ouvido?
Então a barbada que o oitavo paga. Tu lembra aquele cavalo?
Prepúcio. A última barbada que você me deu. Um tal de lança perfume.
Não chegou nem no starting gate.
O sapato do cavalo teve cólicas renais.
Isso eu aguento.
Dá licença.
Oi. Ô Zeca.
Ô gatinho.
Oi, Ana.
E aí?
Continua assorturando o Brasil por causa daquela famigerada carta?
Fala, paixão.
E aí, Nina?
Aquele teu revolucionário, projeto teatral lá com os índios.
Vai sair, Salivão. Vai sair mesmo.
Agora eu tô precisando de uma pessoa pra adaptar a lenda do Estupiripás pro
teatro. O autor que eu queria não pode, sabe?
Tô chique.
Só trabalho pra televisão, ganho dó.
Trabalhava até hoje de tarde, mandei tudo pra puta que pariu. Não brinca! Não
tô brincando, nunca fui tão sério na minha vida.
Claro, tão sério nunca.
Porra, Zeca, até que enfim, já tava na hora.
Até a televisão tava te matando. Tava, tava, tava... Oi?
Tava matando sua criatividade, seu talento. Tava ficando bundão, Zeca.
Salário garantido no fim do mês.
Tava ficando acomodado, amigo.
Toca aqui. Foi a coisa mais digna que você já fez na vida. Eu acho,
sinceramente. Cansei da incompetência, da mediocridade. Encheu o meu saco.
Ana Moreno.
A mulher mais linda e odiada do país.
Nem tão linda, nem tão odiada.
Não tá lembrando de mim?
A gente estudou junto na faculdade de sociologia.
O pessoal me chamava de Camelo, cada barba. E aí, Camelo, tudo bem? Muita
sede? Tu sabia, Camelo, que Copacabana e Ipanema vão ser targados pela merda?
Você fez sociologia também?
Não tá lembrando? Só porque ficou famosa?
Eu era amigo do Cebola, a gente vivia junto.
Cebola?
O Cebola!
Que ele vivia contigo nas passeadas Porra, camelo e cebola, hein?
Que dupla Cebola Cebola
Já esqueceu, claro Porra, virou estrela de televisão Quem me
dera, ô camelo E eu não sou mais camelo Meu nome é Peçanha André José Peçanha E
caguei pra você, pra tua novela, pra tua televisão.
Não preciso de nada disso.
Tô rico, minha filha, ó. Tenho muito dinheiro, ó, muito.
Escuta, tu me desconta um cheque pra daqui a 90 dias?
Tromedário. Enquanto vocês ficavam fazendo política, pensando em política,
eu trabalhava, trabalhava.
Olha a linha dele, parece um cartão.
Mas eu acho que você está certíssimo, Zeca. Tem que abrir mesmo. Se abrir para
o mundo.
Ser dono do seu nariz. Se você não tem nada a ver com o papo e sabe disso,
então é melhor não ficar dando palpite inútil, Nina.
Nós devemos brindar.
A irresponsabilidade. Ao novo. Ao desconhecido.
Ao índio brasileiro. A nós todos.
Oprimidos e fodidos.
Aos insensíveis.
Pior que os insensíveis.
São os arrogantes. A merda inevitável que brotará da terra e do mar.
Olha, se faz bem pro teu ego ser admirado só porque teve um ataque
histérico na emissora, ótimo pra você.
Azar o seu. Agora, eu não vou compactuar com isso. Aliás, com você, pactos nunca
mais. Parece samba canção. Com você, pactos nunca mais.
Pode parecer o que você quiser, mas a realidade é que a gente tem uma dívida e
combinamos que vamos segurar a barra até o fim do ano e pagar.
Ai, coisa caresta essa necessidade de segurança.
Como se a vida fosse segura, hein?
Ilusão, negra.
Ilusão?
Vocês acham que é fácil pra mim passar dez horas por dia dentro de um estúdio
gravando sem as mínimas condições de trabalho?
Tendo que decorar páginas e páginas de besteira?
Rir, chorar, sendo a mulher...
queira te odiando. Vocês acham que eu curto? Que eu tenho prazer com isso?
Então sai, ué, masoquista.
Isso vai dar merda.
Ó, se você quer saber, já deu, viu?
Deu merda e deu mesmo.
Cansei desse papo. Esse papo é velho.
Já conheço os passos dessa estrada.
senão é desculpa pra fraqueza.
Senta aí, Ana. Pode até esfaquear se quiser, mas sem escândalo, por favor.
Isso quer dizer que eu não posso falar alto, não?
E eu que sou a repressora?
Olha, Zeca, eu vou embora. Eu vou embora pra minha casa. Pra minha casa!
Parando e desmitando, eu tenho um quartinho joia pra alugar. Tá bem, Zeca?
Ivan? Ivan?
Você tem cachorro em casa?
Que cachorro, Zeca?
Eu tô falando sério, Ivan.
Tem um cachorro no pé da tua cama.
Não me deixa dormir, Zeca.
Você me achou com cara de ter cachorro, Zeca?
Eu não estou de sacanagem, não. Tem um cachorro no pé da tua cama, hein?
Eu preciso parar de beber.
Eu também, juro.
O que a gente vai fazer agora?
Que cor é o seu?
O meu é manto negro e tem uma língua enorme pro lado de fora. O meu também.
Manto negro e uma língua enorme e vermelha pro lado de fora.
Ah, é possível duas pessoas terem o mesmo delírio entre eles. Mas claro que
é, claro.
Eu juro que não bebo nunca mais.
Sumiu, sacana.
Já estava ficando preocupado.
É o mesmo cachorro?
Será que é uma invasão de cães? Eu tenho que mijar. A minha bexiga não vai
aguentar mais.
Alguém tem que fazer alguma coisa. Vai você primeiro.
Parou, irmão.
Dois, três, e já.
Dá
uma
salsicha pra ele, né?
Se ele comer, ele existe.
Delírio tremende, não come salsicha, não, né?
ouviu falar?
Separação. Que mês eu tive a minha novela? Ah, Babita, para de achar que
tudo que acontece na sua vida é igual... Por quê? Você não acha mais do papai?
Ah, acho que não acho, mas... Sei, Babita, eu tô confusa, ele também tá
confuso, entendeu?
Ah, não sei, Babita, não sei.
Eu só sei que eu não aguento mais viver com seu pai, entendeu?
Acabou com a tribo sem avisar pra tribo. A tribo não acabou, não, Yuri.
A tribo mudou, entendeu?
Mudou. Agora tudo vai ser muito diferente.
Por favor, vamos fazer o seguinte? Mamãe tá atrasada, eu tenho que gravar só.
Agora eu vou tomar um banho e depois a gente conversa melhor.
Tá?
Mudança? Tem.
Você.
Ó, coloquei suas coisas nas malas. Se faltar alguma coisa, você me avisa
depois. Ana, eu vim aqui pra conversar. Não tenho mais nada pra conversar com
você, Zeca. Ô, Yuri, quer falar pro seu pai que é verdade?
Pai, ela mandou dizer que o castigo foi demitido da tribo.
É, vai vê-la já.
Você é meu caminho.
Meu vinho, meu vício, desde o início
estava você.
Meu bálsamo digno, meu
signo, meu
bálsamo digno.
Promoção, sim, é o que conta.
E é o seguinte, eu preciso tirar a arte dos museus, das paredes, das salas
fechadas, criar espaços novos, entendeu?
Resgatar a magia da festa popular.
Eu acho a ideia boa.
A forma é que eu acho meio duvidosa.
E aí, Aninha?
Essa tua pirimba não é bem comigo, não, né?
Agora, dona Cotinha, se o remédio falhar, o laboratório fabricante lhe
paga uma indenização, dona Cotinha. É, é.
As estatísticas mostram que nove entre dez alcoólatras param de beber, dona
Cotinha. Basta a senhora misturar um remedinho desse todo dia na comida do
cabelinho, dona Cotinha. O senhor quer fazer o favor de sumir daqui?
Tá legal, dona Cotinha, tá legal. Mas eu tentei, hein? Tentei.
Ela disse que não sai.
Enquanto você não aparecer. Nem que ela tenha que dormir aqui.
Caguei. Então vou dar um pólo no mitório.
Fica comigo, bochecha.
Para falar a verdade, já faz tempo que estou pensando em vender esse bar.
Estou cansada, Cotinha. Cansada.
Desde que o Sebieta morreu, são dez anos que eu venho sozinha com meu trabalho,
aguentando esse bar.
Os meninos...
Não querem nada.
Acham que bar é coisa de careca.
A gente não pode acreditar nem em filho nem em marido.
A verdade é essa.
Boa noite.
Tu é divina e graciosa, estátua majestuosa.
Ah, quer dizer que os ratos abandonam o mitório, não é?
Não dá, cabelo, não dá.
Está legal, está legal. Mas esse cheiro de pinho bosta está...
O escarro, meu meu!
Aqui? Não, senhor. A menina ainda não chegou, não.
Você que é esperto, me diz uma coisa.
Ele ir um tremendo dá só com bicho ou pode dar com índio também?
Hein? Hein?
Olha, Cotinha, pode ser que ele mude.
Eu conheço casos de pessoas que mudaram.
De nada, dona Esperança.
Talvez agora a senhora venha dentro do bar e ele fique mais tempo em casa.
Mas eu já me resolvi.
Eu vou tomar uma atitude radical.
Só eu sei quanto é que vai me custar.
Mas agora quem vai bancar louca sou eu.
Mas calma, Cotinha. Que isso?
Você tem filhos. Tô na esperança. A senhora pode escrever o que eu vou lhe
dizer. A próxima vez que eu encontrar o cabelo nesse bar, eu vou tirar a roupa
inteira. Eu vou ficar nua em pelo.
Eu vou fazer um striptease na frente dos amigos dele. Ele vai ficar com tanta
vergonha que ele nunca mais vai ter coragem de botar os pés aqui.
Oi, tudo bem, amor?
. .
.
. . .
o índio Donato, amigo meu, viu? Tudo resolvido com a FUNAI. Eles autorizaram
o espetáculo. A data eles confirmam na semana que vem.
O Zeca, você está ouvindo o que eu estou falando?
É, claro, claro.
Oi. Oi.
Tudo bem?
Estou na batalha, e você?
É.
Hoje é dia de compras, né?
É. Eu estou enrolado.
Me diz uma coisa, o que lava a louça? É detergente ou sabão em pedra?
O detergente não está aberto, mas está bom, está bem lindo.
Vem cá, eu vou me entregar, meu amor.
A situação era difícil, cortava a luz por falta de pagamento.
Recessão de papel higiênico, tampa de privada quebrada.
Está louco, hein?
É.
E você?
Já achei abatido um diamante no Esperança? O que houve?
Nada, tudo na mesma, né, Zé?
Cansaço só. A gravação ontem foi pesada.
E as crianças? O Yuri fez as provas? Tá fazendo. Não estudou nada pra variar.
Por quê? Tá preocupado? Não, tava só querendo dar uma mãozinha em português.
Aliás, você precisou comprar um jeans pra ele, hein?
Ele ainda tá reclamando que as costas dele estão surreadas. É mesmo? Pode ser
grave, mas como é que você nunca pensou nisso antes?
Olha aqui, Zé, que eu tô atrasada, tá legal?
Tenho gravação daqui a pouco, tenho que deixar essas compras em casa, despachar
o Yuri pro colégio, gravar, interromper a gravação, pegar a babita no colégio,
deixar em casa, voltar pra gravar, ainda nem o texto.
Não dá pra ficar ouvindo a sua pregação pedagógica, tá legal? Tem que fazer o
que tem que fazer. Tem mais, tô precisando da chave da casa. Tá com ela
aí? Você não me devolveu.
o que eu sou se afoga meu fumo minha yoga
você é minha droga
paixão e carnaval
meu bem meu bem
meu mal
A que horas a Nina vem aqui?
Não sei, ela deve estar chegando.
Você está olhando para mim com essa cara?
Eu sei que você vai ficar puto da vida comigo, mas eu não posso ficar calado.
Esse projeto da Nina de fazer espetáculo teatral em tribo de índio...
Pelo amor de Deus, Zeca.
Zeca, ele é uma porra louca. Você não é mais adolescente pra embarcar em canoa
furada, não.
Em vez de ficar me dando conselho, ô titia, por que que não me ajuda a fazer
essa comida, hein?
Em primeiro lugar, titia, é a mãe.
Ô Zeca, eu tô sentindo que você não tá afim de conversar esse negócio, mas...
Eu tenho que te falar, né, Zeca? Eu sou teu amigo, que diabo.
Larga essa história de espetáculo pra índio, rapaz.
Fica aqui e escreve esse romance da Sheila e Almada, que isso é muito mais
negócio pra você.
Por quê, Ivan?
Por quê?
Por quê?
Porque no fundo você tá fugindo, né?
E daí se você ficar aqui e reconquistar sua mulher, que é o que você devia
fazer, você vai se meter no mato pra quê? Pra curtir sua fossa com dignidade?
É isso?
Você tem razão.
Mas esse negócio de reconquistar a Ana... Está difícil, Ivan, está difícil.
Ela me mandou embora.
Deve ser a Nina.
Porra! Como vai o senhor?
Ivan, tem visita.
O senhor desculpe essa bagunça. Nós estamos sem luz. Nós estamos fazendo uma
sopa lá dentro.
Quer um cafezinho?
Uma cachaçinha, por acaso?
Bom,
os superpais da tribo do Donato, eles têm uma lenda.
Que conta como os colonizadores chegaram aqui e invadiram as terras deles, né? É
uma história lindíssima. Toda contada do ponto de vista dos Tupiripás.
Uma coisa super poética. Que o Zeca tá teatralizando pra gente encenar. Ah,
Nina. Isso já foi feito antes e não deu certo, Nina. Você não se lembra daquele
grupo de teatro experimental francês? Tô sabendo, Ivan.
Não tem nada a ver com a nossa ideia.
Os franceses fizeram um espetáculo tradicional num teatro da Zona Sul.
Com todo mundo sentadinho na cadeira, fumando no intervalo. Não tem nada a ver
com o nosso. Outra coisa.
Ah, é bárbara, né?
Eu só quero saber onde é que eu entro nessa história.
A minha ideia é iluminar um espaço da selva com achotes.
Sacou? Pensar num sistema de som que possa funcionar no meio do mato. Porque
a música que eu tô bolando, companheiro... Ah, com música.
Claro que tem música. A música que eu quero é tipo Wagner, entendeu?
Vila Lobos. Uma coisa super eloquente.
Olha os olhinhos dela como brilham.
Eu sou o colonizador.
Mas, claro, eu sou um ator.
O que cria, interpreta, representa uma ação
dramática baseando-se em textos ou outros estímulos previamente concebidos
por um autor, não é? Ou estimulados a partir de improvisações individuais.
Improvisações coletivas.
Ator não para de representar, né?
Pode utilizar-se também de recursos técnicos para manipulação de... Molecos,
títeres, conselhos. Pode interpretar sobre a imagem de... Outrem.
Deve ensaiar aliando a sua sensibilidade à dor... Que...
Olha só,
tem R de Milo.
Roberta, retornei do além para te resgatar, minha rainha. Você dá um nó
aqui na linha.
pensar nisso, Tuca. Me avisaram pra não mudar uma palavra daquele texto. Vai me
dar maior alteração.
Me dá uma colher de chá. Fala o que tá escrito lá, falou?
Muito bem, minha gente.
Então vamos de primeira, hein? O Tuca vem de lá de trás, pula a janela, vai
até a cama, pega o chicote aquele maior ali, dá o texto, Roberta, etc, etc, etc.
Vai até a Áurea, dá-lhe uma chicotada, vocês começam a trepar e eu corto,
falou? Silêncio no set, atenção!
Eu fico aqui e dou um sinal pra você soltar a janela. Vamos abaixar o braço,
tá legal?
Olha aí, malandro, não esquece do fundamental, hein?
Prepara aí a maior ereção da tua vida, hein? Quer um tempo pra se concentrar?
Não, não. Tudo bem, tudo bem. Pode rodar. Tudo bem, vamos lá, hein?
Roberta, retornei do além para te resgatar rapidamente, minha rainha.
Roberta... Som!
Câmera!
Ação!
Roberta! Retornei do além com a minha rainha.
Troquei. De novo, cara!
Porra! Acerta!
Acerta! Tem que três!
Porra! Vou te resgatar rapidamente, minha rainha.
Roberta, retornei do além para te resgatar. Só mais dessa vez, tá?
Não fica aqui o dia todo de otário amarrado nessa cama, não.
Da próxima vez vai se arrumar um que levante.
Que papelão, hein?
Cidade, oi!
Rodon, é isso aí. Você tá ligado na cidade a mais cruel.
E atenção, garotada, garotão, brutinhos de todo o Brasil. Pra vocês, a cores e
ao vivo.
De madrugada, com a mão no voo.
Tem que ser agora.
Não, mas eu sei cantar.
Olha os homens.
Ih, aquele cara é cana.
Azar o dedo. Quero ver se tem cadeia pra prender essa praia toda.
Aí, finalmente, você encontra o grô.
Como é que é, gente? Posso chegar?
Claro. Chegue-se a nós, ouvinte David dos quadros.
Garçom, o master verde só tem choro.
Deixa de ser babaca, Alfredo.
Se o coração que é feito de artérias e veias pode falhar, por que o pênis que
também é feito de artérias e veias não pode?
Olha aí, turma, o pênis do Tuca teve um infarto.
Você diz pra ela, tá tudo muito bom, tá tudo muito bem.
Pedro, olha ali a multa da novela, aquela que vai entregar carta.
Sabe que você faz tão bem o papel de má, que parece que assim minha vida é real.
É, obrigada.
Você me dá um autógrafo? Quer dizer, pro meu filho?
Se ela tiver papel e caneta.
Como? Você não tem papel e caneta pra dar autógrafo?
Não. E a senhora, a senhora não tem uma xícara de açúcar pra dançar meu
limãozinho que tá meio amargo?
Como é que é, profeta?
Oi, Tuca.
Salve.
Não, não.
Onde mesmo o Anja Moreno me besou?
Oi.
Você não soube me amar Você não soube me amar
Você não soube me amar
Por quê?
Tem que me preparar pra jantar com vocês à noite?
Eu odeio você.
Primeiro destruiu o papai. Agora quer destruir toda a nossa família?
Você é uma víbora da pior espécie, Berenice.
Berenice ri cínicamente.
A música sobe aumentando. do clima de tensão.
Vai, mãe.
É você.
Tá nervoso, Antônio Henrique?
Você ainda tem coragem de perguntar? Antônio Henrique sente o sangue subir a
cabeça, caminha lentamente até Berenice e cuspe na cara.
Se me cuspe na cara, vai ficar três meses sem mesada. Não se atreva nem a
pensar na possibilidade, Yuri. Ah, mãe, você acha que eu... Te conheço, meu
anjo. Desde o tempo que você morava...
Você é um artista.
De repente, eles escutam passos do outro lado da porta.
Sou eu, né?
Meu Deus, como é que é?
Idiota, você sempre chega na hora errada.
Idiota, você sempre chega na hora errada.
Idiota, idiota, você sempre chega na hora errada.
Idiota, idiota, idiota, você sempre chega na hora errada.
Que é isso, eu não sou bem-vindo?
Não, não.
Entra. Oi.
Oi.
Estava ensaiando, tenho gravação amanhã e meus filhos estavam me ajudando a
passar o texto. Esse é um pedaço do... Estou tão desarrumada, não estou
esperando ninguém.
É que eu fiquei com vontade de te ver, então eu vim.
Sabe, para mim, qualquer hora é hora.
Quer dizer, quando vale a pena.
Mas eu trouxe esse vinhozinho branco que é pra gente poder tomar, então. Mas ele
tá meio quente, seria bom botar pra gelar. Eu, eu, eu ponho. Eu queria te
apresentar meus filhos, Yuri, Babita. Esse aqui é o Arnaldo, amigo da mamãe.
Eu vou... Mas o Yuri... Se me chamar
de Yuri Gagarin, xingo tua mãe e tua avó.
Falei? Falou.
Eu vou...
Tem outros truques. Vem com o titio. Gosta de mágica? Gosta. Já vi que gosta.
Vem cá, vem cá, ó.
Ó, lencinho.
Lencinho do titio, ó.
Lencinho aqui, lencinho aqui. O tio põe o lencinho aqui dentro. Põe. Lencinho
com um dedinho, dois dedinhos, três dedinhos, quatro dedinhos.
Enfiando o lencinho. Vai botando bem. E ó.
Tudo bem?
É, tudo bem.
Eu fui muito precipitado?
Não. Mas eu sou precipitado mesmo.
Aliás, é uma coisa que eu tenho até um certo orgulho disso.
Eu sou assim, eu vou à luta.
É, quando me toca o coração.
Um sujeito objetivo, né?
Totalmente.
Eu gosto de você.
Estou interessado.
Não estou gostando do papo desse careta. Não vou se meditar em nem que me
torturem, nem mortam. Você acha que ela vai me casar com um panaca desses?
Agora, se você quiser, eu vou-me embora numa boa.
Inconveniente é a última coisa que eu desejo ser pra você. Não, Renato, não
quero que você vá embora.
Pelo contrário.
É que...
Foi uma surpresa, né? Eu não esperava.
Mas até que faz bem pro meu ego, pro meu amor próprio.
Você tá separada há muito tempo?
Você quer saber?
Você é o primeiro homem que vem à minha casa.
Então... É abstinência ou autopunição? Não.
Nada disso aqui.
É até sair.
Dei uma transada.
Fim de noite, aquelas coisas.
Mas nada que me importasse muito, não. Porque minha cabeça está tão em outras
coisas. É, mas a cabeça não está separada do corpo.
É. Claro.
Isso tá me cheirando a sexo.
Sexo? Vai dizer que não sabe o que é sexo?
Vamos lá pra dentro?
Vamos lá pra dentro?
É, mas só depois.
Um beijo.
é sexo. É aquele negócio de espermatozol óvulo. Não é espermatozol, sua burra.
É espermatozoide. Eu não quero ser irmão, não.
Isso não tem grilo, ela toma pílula. Pílula de quê?
De não fazer irmão, você faz cada pergunta.
Quem é?
Yuri, meu amor, você sabe onde fica a cozinha, não sabe?
Mãezinha, eu tô com uma dor de barriga. O que é que eu faço?
Faz cocô, meu amor.
Nós já conversamos sobre isso, sobre a possibilidade disso um dia vir a
acontecer. É normal, é normal.
Eu sou uma mulher separada, separada. Eu não tenho a mínima vocação pra solidão.
Agora, se vocês quiserem conversar sobre esse assunto, discutir o assunto, ótimo.
Eu vou adorar, mas amanhã. E não adianta nem tentar, porque vocês não vão
conseguir me tiranizar.
Fui clara?
Tudo sob controle?
Aparentemente.
Parabéns, Salvador.
Você está chiquíssimo de branco.
Eu diria mesmo que eu sou uma extensão dos meus quadros.
E a tua
motivação para esse trabalho, hein?
A minha ideia era tentar lembrar para as pessoas que existe um marco zero.
Ou seja, o começo, o vazio, o nada, é o que eu chamaria da revolução do zero.
Compreende?
Explicando melhor, seria o momento de onde tudo acontece.
Aliás, eu acho que isso é uma obsessão para qualquer artista. O Rolfo deu um
cara de pau mesmo em inventar essa festa.
Por que, Zeca? Pelo amor de Deus, Nina.
Você não está levando isso a sério, né?
Ele inventou essa festa só pra morrer de rir depois.
Não sei não, Zeca. Você acha que no fundo o Valfredo quer dizer alguma coisa
por tudo isso?
Não. Até você.
Vamos sair daqui que eu não tô muito tempo.
Escuta aqui, ô, seu Salvador.
Por que não?
O senhor pra mim não é salvador daqui, nem salvador dali, nem salvador de parte
alguma. O senhor é um engordo, uma fraude. E eu lamento ter que ouvir
tantas neiras dessa gente que apreciam essa coisa que o senhor chama de arte.
Isso é um insulto à sensibilidade humana. É um deboche. E foi muito boa a
ideia de expor isso no banheiro, porque realmente, com perdão das senhoras
presentes, é uma merda. É uma merda.
Não, não, não. O senhor quem é?
Sou crítico de ar. Do planeta de ar.
Gosta? Eu adoro.
Por quê?
Por quê?
Porque é uma discussão sobre o vazio, sobre o limbo.
Numa região onde não existe dor nem alegria.
Apenas a contemplação.
E a integração do sentimento zen com um todo.
É ao mesmo tempo primitivo e atômico.
Nascimento e morte.
Momento intermediário.
Susto e perplexidade.
A senhora não quer reparar a minha obra corpo ausente? Dá uma chegadinha aqui,
entendeu? Opa, um minutinho só, tá?
Como é que vai?
Tudo bem?
Que porra é essa, cabelinho?
Foi o único jeito que eu arrumei pra ver a tua festa.
Tua tia tá de ovo torto.
Tive que subornar a empregada.
Fiquei noivo do porteiro.
Arrumei essa roupa com a vó do feijão.
Hoje, hoje, hoje. Sujou, sujou pra mim.
Três dias que ele não vem em casa. Eu não tenho mais marido.
Não há chance. Eu jurei, eu vou cumprir.
Ai, que...
É pelos dez anos de ressaca que eu vim curando.
Não organiza a cibermessagem. O meu rap nem inventou a mulher e rouba o show,
porra.
Você é uma experiência nova pra mim.
Também, tantos anos casada com uma pessoa só.
E o Zé, não é que ele seja propriamente um cara ciumento. Eu não gosto desta
coisa de ciúme.
Eu acho que o amor entre duas pessoas adultas só pode ser um encontro entre
duas liberdades.
Deus me livre que você deixe de transar com alguém como eu.
Estou apaixonado por você.
O teu prazer é meu prazer.
Eu acho que deve ser assim, você não acha?
Claro, claro.
Bom, antes do que este chope, eu vou fazer um cupim e
volto já.
Nenhum. Mas eu não posso ficar quieto vendo você fazer tanta besteira.
Como besteira? Que história é essa?
Ana, esse cara não é um homem pra você.
Ele tem mais de mil mulheres, Ana.
Ele não se liga em ninguém. Eu acho que é uma fria.
É? E você é quem é agora, irmã Paula?
Você nunca foi disso, Zeca.
Ana, esse cara leu meia dúzia de livros e se acha a própria evolução sexual.
Ele não tá namorando você, tá namorando uma tese.
Obrigada pelo conselho, mas não estou interessada na tua opinião.
Talvez você esteja interessada em saber que ele já é casado.
E a mulher dele se chama Lúcia.
Por que ele iria me esconder? O Arnaldo jamais faria uma coisa dessa
comigo.
Quando eu tô apaixonado por você, dá mais uma chance a gente. Não chega perto
de mim não, Zeca. Tem mais. Vê se me esquece, tá?
Eu mudei muito. Você não me conhece mais.
Não sabe o que eu sinto, o que eu penso. Muito menos o que eu espero de uma
relação com um homem.
Eu não estou interessada em saber se você tá apaixonado por mim ou não.
Você estraga tudo. Você é um desastre, Zeca.
Oi. Quer ir embora?
Que bobagem.
o cara de intelectual fingindo que tem vida interior intensa, não é, ô babaca?
Poupa meu saco, passarinho, poupa meu saco.
Já sei.
Fazendo o cara de intelectual independente, fingindo que tem peito de
saltar fora do sistema, não é, ô babaca?
Senão eu passo de um chefe de família, burguês e oportunista.
Passarinho, eu me separei da minha mulher, vê se me esquece.
Já sei.
Vai dormir, passarinho.
Fazendo caras de diretor liberado e homem vivido, pronto para novas
experiências sexuais raixanas, né, ô babaca?
Passarinho, você é meu amigo há 20 anos. Me deixe em paz com a minha birita,
passarinho. É sério.
Fazendo caras de diretor que tem problemas existenciais, que vai botar na
sua próxima peça de teatro, né, ô babaca? Você é meu amigo, mas continua
sendo um bundão.
Passarinho.
Poupe-me da sua amizade, tá, passarinho? Poupe-me da sua amizade.
Eu sei.
Fazendo caras de intelectual da geração perdida.
Fingindo que é agressivo e vingador. Não é o Hemingway de merda.
Porra, não há guarda-chuva contra você, hein, passarinho?
Não há guarda-chuva contra você.
Já sei.
do João Cabral de Melo Neto para fingir que é um intelectual sensível e bem
informado. Não é, ô babaca?
Puta que pariu.
Só tem uma saída, passarinho. E foi você que pediu. Nós vamos sair da porrada.
Já sei.
Mas eu não quero um intelectual que toma decisões doces e que esquiana em vitais,
ô babaca.
Mas nós não vamos sair da porrada aqui não, passarinho.
Porque aqui tem gente e eles vão abartar a briga.
Meu Deus.
Nós vamos brigar num lugar deserto, parceirinho. Nós vamos sair na porrada
até um dos dois cair morto. Vamos lá.
Já sei.
Fazendo caras de cowboy valente contido que de repente explode o joelho de
merda. Vem.
Você é um fascista de merda. Cadê a tua agressividade agora?
Cadê a tua agressividade agora?
Olha, eu não vou te arrebentar sem sangue frio, não. Dá uma porrada na
minha cara. Dá uma porrada na minha cara pra me fazer um sangue subir a cabeça.
Dá, dá. Você é um merda. É um merda que você é. Você é um merda. Todos nós somos
uns merdas. É isso que nós somos, uns merdas.
em babaquete.
É só pra evitar o vexame.
Todo mundo viu a gente sair pra brigar.
Agora vamos voltar com cara de quem brigou.
Né?
E aí,
Zeca? Você desistiu de escrever aquele romance pornográfico?
Desisti.
Tem a TV alemã, agora tem uma fundação holandesa que também está interessada.
Porra, você quer o quê?
Eu termino morto e aposentado na televisão? Não quero.
Não quero. Quero fazer uma coisa nova, Cartes.
Ah, espera aí, espera aí. Ninguém falou em televisão coisa nenhuma.
Eu falei em escrever o romance como Shirley Almada, que era o que você ia
fazer.
Ah, esquece. Esquece. Vamos tomar um choro para clarear as ideias, tá?
Não posso.
Vou jantar com as crianças pela última vez antes da viagem.
O que houve?
O Ricardo dizendo que o novo produtor da peça quer que a Letícia Bueno faça o
papel que eu ia fazer.
Mas não estava tudo certo? Você não tinha assinado o contrato?
Não, que contrato? Como sempre eu acredito nas pessoas, no final eu danço.
O que houve? O Ricardo falou alguma coisa?
Que o novo produtor disse que precisava de uma estrela para garantir o retorno
do investimento.
Que eu sou muito boa atriz, muito conhecida, mas que sem uma grande
estrela ele tinha medo de pôr o dinheiro.
E desespera essa história de que eu tenho que ser uma grande estrela de
televisão pra poder fazer um bom papel numa peça ou num filme. E por que não
ser uma grande estrela, hein?
Eu posso ser seu empresário.
Mas não.
Não, eu tô falando sério.
Eu acho uma babaquice esse negócio de estrela, sabia?
Eu não estou pensando na volta.
Vai ganhar muita grana, pai?
Para de pensar em grana o tempo todo, menino. E a tua mãe que anda enfiando
isso na tua cabeça, é?
Eu não vou por causa de dinheiro.
É um trabalho novo que me interessa.
Vou a lugares que eu nunca vi.
Trabalhando com gente que eu gosto. Come.
Você não pediu a comida?
É isso.
Esqueceu a mamãe, né?
E quem te disse que eu ainda estou apaixonado pela tua mãe?
pra esquecer tua mãe.
Olha aí, olha aí, quem vai levar, estou vendendo carteirinha falsificada pra
menor frequentar boteco. Você tá bem? Você tá bem? Sim, mano, é galocha.
Tudo bem, tudo bem.
Revistinha pornográfica pilulante concepcional, quem é que está afim?
Pai, todo mundo que vem aqui é maluco? É sim, aqui, por exemplo, tem um maluco
que coloca...
O nome do primeiro cara que foi lá em cima, lá em cima, olhar a terra de
longe. E sabe o que ele descobriu?
Que a terra é assim. E daí?
Isso é razão pra alguém se chamar Yuri?
É.
Entende não, entende não. Deixa eu tocar.
Como os filhos não estão em casa, fico muito preocupada.
Vocês não têm chave?
Tenho.
Mas é melhor atender.
O Arnaldo está aí?
Quem quer falar com ele?
Diz a ele que é a Lúcia.
Oi, Arnaldo.
Desculpa, eu tentei resolver, mas não deu.
Beto não está bem. Crise de asma. Como eu estou sozinha, sem carro, eu vou
precisar de você.
Esse é o padre Aquiles, da prelazia de São Mateus, que vai nos acompanhar até a
aldeia dos Tupiripais.
O senhor tem alguma coisa a dizer a respeito da nossa proposta de trabalho,
padre? Não sei ainda.
É no mínimo curiosa.
O importante é não usar o índio como objeto de uma sofisticação cultural.
Os índios Tupiripais é que devem ser beneficiados pelo trabalho de vocês.
Quanto mais vocês divulgarem o drama dos Tupiripás, melhor pra eles.
É preciso que cada brasileiro conheça a tragédia das populações indígenas.
Padre Aquiles, conta pra gente como é que é a lenda dos Tupiripás.
Bem, um dia Camorã, chefe da tribo,
encontrou um homem branco ferido e o salvou.
Passou o tempo.
Um dia o homem branco retornou com o navio e chamou o camurã.
Levou o camurã e como recompensa o escravizou.
A tribo esperou a volta do chefe.
Os índios que foram buscá-lo também não voltaram.
E uma grande tristeza cobriu toda a tribo.
Era o segundo dia da lua minguante.
E o canto do Jacuruaru tomou conta da floresta.
Bando de babacas.
Então eles não sabem que a luta dos índios faz parte de uma luta maior pela
mudança do regime.
Enquanto não mudar o regime, a situação dos índios vai ficar exatamente a mesma.
Enquanto os filhos vão morrendo, né? Tu já gosta de um discurso, né, Ivan?
Cala a boca, Ivan. Você não consegue nem mudar a cueca, quanto mais... Pobre!
Se sigam falando de pobre.
Eu tenho a solução pra acabar com a pobreza. É?
Pega o maracanã, enche de água e joga todo pobre lá dentro. Acaba a pobreza.
Eu vou me matar, sabe? O nível aqui tá muito baixo.
Fim de casamento, fim de peça, fim de novela, fim de casa, fim de tudo.
Ótimo, ótimo. Bendita crise a sua.
É, tá na hora de mudar.
Começa agora.
Eu vou sair dessa, eu vou sair dessa.
Arriba!
Boa noite.
Boa noite.
Boa noite. Boa noite.
Boa noite. Boa noite.
Boa noite.
Boa noite.
Você incomoda nunca.
Não, Ana.
Você não foi harmonizar as diferenças.
Vê o cabelo com a cotinha.
Eles estão felizes.
Conseguiram harmonizar as diferenças. Olá.
Posso sentar? Está me atrapalhando?
Claro que não.
Ele é o maior marido do mundo.
Tudo bem, tudo bem. Não precisa me puxar o saco.
O que houve?
É que eu fui convidada para fazer uma campanha publicitária para o Brasil
inteiro.
Televisão, jornal, revista, tudo durante seis meses.
Mas é que eu tenho que aparecer nua. E ele não queria deixar.
Aqui no bar.
Ainda vá lá.
Mas pro Brasil inteiro.
Ainda mais fazendo publicidade de papel higiênico. Pá! Ué, o que que tem?
Vai ficar tão bonito.
Eu nua com papel higiênico se desprendendo do meu corpo com o vento e
o locutor falando.
Magenta. Uma brisa percorrendo o seu corpo.
Aí, Patinha!
Tudo bem? Oi.
Ana, você tinha uma marcada com ele? Não, não se preocupe, pode deixar.
Ana Moreno, só podia ser você entrar aqui desse jeito.
Trouxe aquela famosa carta?
Não, nada assim tão dramático.
Apenas uma visitinha.
A gente quase nunca se vê.
Não vai me oferecer nada?
Uma vodka bem geladinha.
Olha, baby, eu vou abrir o jogo com você.
Eu sou uma boa atriz. Você sabe disso.
O público sabe disso.
O meu papel na novela rendeu muito mais do que vocês esperavam.
Então agora, eu acho que chegou a hora...
Tá,
Tavares.
Uma merda, Tavares.
Uma merda, rapaz.
Merda a gente não salva. A gente dá descarga, a latrina bate.
Bota o cenário fora, rapaz. Faz outro programa.
Não quero nem saber.
Mas tem mais, hein?
Demite esse menino aí, rapaz, e toda a equipe dele.
É um solano em equipe toda.
Despedidos, porra.
Desculpe, Ana.
Pois é, baby.
Eu estava dizendo que eu acho que chegou a hora de definir a minha situação aqui
dentro, entendeu? Eu acho que eu não estou sendo bem aproveitada. Eu não sou
uma atriz para ver secundários.
Eu sei que vocês ainda não decidiram o papel principal feminino da novela 18.
Eu sei que vocês estão entre dois nomes, o meu e o de uma outra.
Eu quero esse papel, entendeu? Eu não sei se a outra quer tanto quanto eu, mas
eu quero esse papel.
Eu acho que chegou a hora de vocês investirem em mim, entendeu?
Vocês não estão precisando de uma estrela?
Pois então, quem sabe eu sou essa estrela.
Ana, você não sabe que eu odeio cigarro.
Mas não vai pedir a uma estrela que é paga seu cigarro, né?
Tá bom, por hoje você pode.
Pois é, baby.
Então eu acho que vocês deviam investir em mim. Vocês não estão percebendo, mas
eu sou a estrela que vocês procuram. Eu sou uma puta atriz, entendeu, baby? Uma
puta atriz.
um cinzeiro aqui pra Dona Ana.
É, um cinzeiro.
Porra!
Escuta, Ana, você já me conquistou com o seu charme.
Ana, nós somos amigos há dez anos.
Diz uma coisa, é impressão minha ou você veio aqui dar pra mim pra conseguir um
papel na novela das oito?
Eu sei que você não é disso.
Você é uma atriz que não precisa... Não, isso é de impressão minha, né?
Eu sei que é de impressão minha.
Eu não admito, inclusive.
Não, tá bom. Então foi impressão minha.
Sim, comigo não. Me diz uma coisa. O Zeca, como é que vai, hein? O Zeca. Diz
ele que ele tem toda a razão.
Nós todos somos loucos mesmo.
Não, não chama do Ciseiro, não, Pena.
Escuta, diz a ele que ele volte quando quiser. O lugar dele é aqui, tá?
Juízo, hein, menina? Ele já tá completamente enganado. Juízo, menina.
Glória, glória.
Desesperação dos bêbados e dos que enveredaram pelo caminho do mal.
Obrigada. Deus te pague.
Aleluia. Cuide-se de consultar um agente de viagem.
Sei, depois eu te ligo, tá bom? Tem um rapaz aqui querendo falar comigo, tá?
Tchau, um beijo.
Diga lá, Ivan.
Não diga a senhora, Dona Esperança. Eu tô ouvindo uma conversa aí de que a
senhora vendeu o bar.
Fechei o negócio hoje de manhã. Como?
Quem comprou? Uns empresários riquíssimos.
Parece que eles querem comprar também essas duas casas aí do lado.
Querem construir um grande shopping center aqui no quarteirão. O quê?
A senhora ficou maluca, dona Esperança. Só pode ser.
Não, o que é isso? Não, eu vou falar com o Albino. Deixe comigo.
Ele vai conseguir do governador a anulação dessa venda. O que é que há?
Bar também é cultura.
Companheiro, o Bar Esperança é a catedral da boemia carioca.
Não pode ser vendido como se fosse uma mercadoria qualquer.
Obrigada.
A gente tem que fazer um cordão de isolamento aí. Uma pirâmide humana. Eu
sei lá, eu sei lá. Mas alguma coisa a gente tem que fazer. Não pode deixar de
ver. Em vez de ficar conspirando, a gente deve planejar uma super festa de
último dia.
Tá aí. Tá aí, seu cabelo. Só sabe da última.
Dona Esperança vendeu o barco. Não é possível. Mas logo agora.
Meu comercial foi todo bolado em cima da Esperança. Se ele acaba, não tem
comercial. Essas coisas acontecem.
A gente tinha que fazer alguma coisa.
Fazer o quê?
Fazer nada, babado.
Ana tem razão, tem que dar uma festa e pronto. Essa discussão é infantil,
idiota e reacionária. Ah, não enche.
Com licença, com licença.
Oi, Ana. Oi, pessoal.
Ei, o que é, profeta? Parece que veio um fantasma.
Ana, eu tenho uma notícia chata pra te dar.
Chegou um telex agora mesmo lá no jornal dizendo que...
Parece que houve uma confusão com o pessoal do espetáculo lá na aldeia dos
índios.
Confusão como? Que espécie de confusão?
Chegou um Telex agora e ninguém me avisou de nada.
Olha, eu liguei pra tua casa há horas e achei que você devia estar aqui.
Ana, teve um incêndio na aldeia dos índios. E até agora nós não temos
notícia de nenhum deles.
Incêndio? Mas eu não tô entendendo. Fala direito, profeta!
Calma, calma.
Olha, o pessoal do Telex vai ligar pra cá assim que tiver novas notícias, tá?
Eu acho que estou me sentindo mal.
Não, não, não.
Gente, eu quero saber direito.
Chega aqui.
Gente, calma, calma.
Nada,
Ana, nada.
Até agora ninguém conseguiu localizar o grupo.
Mas uma semana é muito tempo, Ivan.
Sim, Ana, mas também o que vai se fazer, não é? O exército Brancalione da cultura
brasileira. Deixa de ser... Escroto, Ivan, deixa de ser escroto. Você sabe
que deu certo.
A imprensa não fala de outra coisa.
Os homens mandaram abrir inquérito.
O estupido e paz viraram discussão nacional.
Claro que deu certo.
Maria, você acha que o Zeca... Claro que não, Ana.
Então por que ninguém encontra ele? Já se passaram 15 dias.
Ana, se acalma, pelo amor de Deus.
Maria, eu estou tão culpada, tão culpada.
Eu fui tão injusta com o Zeca.
No fundo, eu acho que ele é melhor...
No fim da história, Berenice entrega ou não a carta?
Não posso dizer.
Todo mundo deve te perguntar isso, não é? Todo mundo, mas todo mundo mesmo.
A população inteira do planeta.
Então vamos mudar de assunto.
Eu queria saber a sua opinião como atriz sobre o espetáculo desse teu grupo de
amigos.
Eu acho legal, eu acho legal. É sempre bom... quando um artista consegue aliar
o seu trabalho a uma causa maior.
Infelizmente, nem sempre isso é possível, porque é preciso uma
disponibilidade que está cada vez mais difícil.
Nesse sentido, eu acho que eles tiveram muito sucesso, porque, afinal, o drama
dos índios do Piripás está nas manchetes dos principais jornais do país, não é?
O que foi, meu bem? Diz aí pra gente.
aí, minha gente.
Depois de muita tensão e muito susto, o negócio é ir comemorar na grande festa
que vai haver hoje à noite no Bar Esperança.
Tradicional Bar Carioca, que amanhã fecha as suas portas. Bom dia e até
amanhã.
Que loucura fechar esse bar, gente.
Isso aqui é patrimônio sentimental da cidade.
Onde é que a gente pode se encontrar agora?
Olha, eu me recurso a frequentar bar e shopping center.
Tudo menos shopping center, com amor.
Você que gosta de política radical, por que não organiza uma barricada para
defender o esperanto?
Faz de tonel de lixo que eu der uma barricada.
do Bar Esperança é um atentado às liberdades democráticas e contra a mais
pura tradição do povo brasileiro.
A gente vai fazer um leilão aqui. A gente vai leiloar, por exemplo, a
gravata do preto.
Atenção, atenção, rapaziada. Vamos começar o grande leilão do último dia do
Bar Esperança. Olha aí, olha aí, olha aí. Não seja pontura e arrisca uma boa
oferta.
meu caminho,
meu
vinho, meu vício,
desde o início,
estava você,
meu bálsamo benigno,
Meu signo, meu curo,
porto seguro, onde eu
voltei.
Meu mar e minha mãe,
meu medo, meu
champanhe.
No espaço
sideral
Onde o
que eu sou se apaga
Você é minha droga.
E
carnaval.
Meu bem.
Meu bem.
Meu amor.
Última foto do último dia do Bar Esperança. A última ceia.
Tem um dedo duro no pedaço.
Tudo bem?
Estou feliz por você ter voltado.
Uma festa, como sempre.
Já estão chamando seu namorado de pai?
Não tenho mais namorado.
E a Nina?
Ela está por lá.
Acreditou na ideia dela.
Nós votamos, ela ficou.
Você acha que eu posso dar uma coisa dessa sem ficar de coração partido?
Para com isso.
Está sentimental demais.
E daí que vão fechar o Esperanças?
Ótimo.
Deixa fechado.
Esse bar já deu o que tinha que dar, entendeu?
É uma outra coisa, uma coisa nova.
Mas foi bárbara a viagem, sabia?
Sim.
O encontro com os índios é que foi um grande espetáculo, sabe? O que eles
apresentaram pra gente, a natureza, o calor, uma coisa tão forte.
O problema é que a gente tem que viver com os índios, acompanhar a vida deles.
Ué, por que você tá me olhando desse jeito?
Já sei.
Você não acredita em nada que eu digo?
Não, eu não acredito em tudo. Assina embaixo.
Eu queria.
Não, fala você.
Eu andei fazendo tanta besteira, você nem imagina.
Falando nisso, já entregou aquela carta, Berenice?
Peguei!
Peguei, graças a Deus, peguei. Foi um alívio.
E agora?
E agora, Marcelo?
E você?
Também não sei.
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