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Durante mais de 15 anos, Aureliano Babilonia,
sob o jugo tirano de Fernanda del Carpio…
… esteve confinado ao laboratório de Melquíades,
que só deixava para comer.
Memorizou as lendas fantásticas do livro sem encadernação.
Um aplauso para Fernanda del Carpio.
Memorizou a síntese dos estudos de Hermann, o Coxo,
as chaves da pedra filosofal,
as Centúrias de Nostradamus e a sua investigação sobre a peste.
Chegou à adolescência sem saber nada sobre o seu tempo,
mas com os conhecimentos básicos de um homem medieval.
Essa palavra, "dharma",
também está no Ramcharitmanas, que está em hindi.
Parecia que falava sozinho.
Na realidade,
falava com Melquíades.
É verdade, meu caro Aureliano.
Diz-me, rapaz.
Em que língua está escrito?
Em sânscrito, Melquíades.
Tens tempo para aprender.
Mas não muito.
Depois, podes decifrar o manuscrito
e finalmente saber a tua origem.
Na viela,
onde, nos tempos da companhia de bananas,
previam o futuro,
há um catalão sábio.
Ele tem uma livraria.
- A Viela do Futuro. - Há lá um Sanskrit Primer.
Está entre Jerusalém Libertada e os poemas de Milton,
à direita…
… na segunda prateleira das estantes.
Segunda prateleira.
Melquíades.
Melquíades.
Vou limpar a ferida.
Não se preocupe.
Calma.
São as rosas das coroas.
Às vezes, esqueço-me de tirar os espinhos.
A minha bisavó,
Renata…
… era uma rainha.
E agora,
graças a ti…
… serei a rainha de Madagáscar.
E os nossos filhos…
Vamos ter dois.
Ela será a rainha da Bélgica.
E ele…
… será o rei
de toda a Igreja.
Fernanda, vou pegar-lhe ao colo. Não se assuste.
AURELIANO E FERNANDA
Aureliano Babilonia,
que tinha entrado no quarto da Fernanda muito poucas vezes na vida,
teve um ataque de ousadia inesperado
e conseguiu voltar a ver a Amaranta Úrsula.
Querida mãe,
escrevo-te com grande felicidade.
Vou prolongar os meus estudos na Bélgica.
Embora esteja muito empolgada,
custa-me saber que, mais uma vez, a minha estadia se prolongará
e Macondo…
Quem pensa que é?
Sabe que não pode entrar no meu quarto.
Saia!
Bastardo.
Nunca devia ter nascido.
Não faltava comida na casa.
Todas as quartas, chegava um cesto de mantimentos.
Fernanda nunca soube que eram enviados por Petra Cotes,
achava que a caridade contínua
era uma forma de humilhar quem a tinha humilhado.
Aureliano tratava das tarefas da cozinha.
Mesmo nestas circunstâncias,
não partilharam a solidão.
Dei tudo a este desgraçado e agora ele rouba-me.
Devia ter fechado a porta na cara da freira.
O pior erro da minha vida.
Pior do que ter casado com um saloio.
Um catalão sábio.
Aureliano não tinha os elementos para decifrar os manuscritos.
Decidiu falar com Fernanda
para que o deixasse procurar o livro de que Melquíades falara.
Iludiu-se com a ideia de que a permissão não seria negada
que cortou o cabelo,
fez a barba emaranhada
e vestiu umas calças apertadas que herdara de sabe-se lá quem.
Não é possível que este idiota não perceba
que o garfo da salada não se usa com a faca.
E não se serve vinho tinto com frango.
Minha senhora.
Desculpe.
- Não a quis assustar. - Eu…
Não sou uma espiã conservadora.
Por favor.
Calma.
Não tive nada que ver com a sua tentativa de assassinato, coronel. Nada!
- Calma. - Afaste-se!
Calma, Fernanda.
- Disse para se afastar! - Largue a faca.
- É uma ordem! - Fernanda, sou eu.
Onde arranjou esse uniforme?
O que quer?
Queria a sua permissão para ir à aldeia comprar livros.
Só por cima do meu cadáver
é que Macondo saberá da existência do bastardo dos Buendía.
Não direi a ninguém quem sou.
Juro.
Que insolência.
Depois de tudo o que dei a este ingrato.
Filho amado,
conto os dias para o teu regresso.
Tenho a casa pronta para te receber com as maiores honras.
Estarás aqui em breve
e voltaremos a ser uma família feliz.
Podes partilhar comigo as riquezas do nosso reino.
JOSÉ ARCADIO BUENDÍA
Extasiada com os seus gestos monárquicos,
tinha transformado o seu traje real numa máquina de recordação.
Sentiu-se tão velha, tão cansada,
tão longe das melhores horas da sua vida.
Até ansiava pelas piores horas de que se lembrava.
A necessidade de se sentir triste
estava a tornar-se num vício à medida que os anos a devastavam.
Aureliano deu a si mesmo a permissão que Fernanda lhe negara
e saiu de casa pela primeira vez.
Aliás, durante todos aqueles anos, poderia ter fugido mil vezes,
mas o cativeiro prolongado e a incerteza do mundo
tinham secado as sementes de rebeldia no seu coração.
Viela do Futuro, sábio catalão.
Ao lado dos poemas de Milton.
Caminhou sem parar os 11 quarteirões que separavam a casa da viela.
Nada do que viu lhe interessou,
talvez por não ter memórias com que comparar.
- O ciclo vicioso de Édipo é falso. - Tens razão!
É verdade.
Vejam.
Este tipo está bêbedo. Confundiu a livraria com O Menino de Ouro.
Porque está assim vestido?
Hoje é o último dia de Carnaval. É tradição enterrar um coronel.
É verdade.
Ouçam-me, pessoal.
O mundo vai ficar fodido de vez
no dia em que os homens viajarem em primeira classe
e a literatura no vagão.
Não, mas ouçam-me.
Eu digo-vos, o ciclo vicioso de Édipo é falso.
Ele sabia o que fazia quando dormia com a mãe.
É verdade.
Mas não há ato humano,
do mais sublime ao mais abjeto, que não tenha um segmento de poesia.
Pronto…
E o Rabelais?
Era um idiota!
Não há só 480 formas de tocar no rabo de alguém!
Deves estar louco.
O último a ler isto deve ter sido Isaac, o Cego.
Pensa no que estás a fazer.
Toma. Leva-os.
O que é isso?
Pergunta ao fantasma dele no que pensou quando…
Isso é passado. Vamos beber! Que se lixe, Rabelais!
Vamos beber!
- Aonde vai? - Assustado?
Procuro a casa dos Buendía.
Não o magoamos, coronel.
- Não, os livros, não. - Tem medo?
- Calma. O que tem aí? - Tem mais alguma coisa, coronel?
Bolas, está nervoso!
Por favor, parem! São meus! Não!
Parem, por favor.
Por favor.
Por favor. Não tenho nada, juro.
Não tenho nada.
- Não tem nada, coronel? - Mau coronel.
- Diz que não tem nada? - Mentiroso!
É ouro?
Devolvam-mo.
Nem pensar. Vamos ao bordel ver se o aceitam.
- Vamos. - Por favor.
Isto é por mentir!
Vamos, despachem-se!
Filho da mãe!
Dorme bem, querido.
Estás seguro aqui.
Obrigado por me acolher, senhor.
Agradece à minha neta.
Foi ela que te encontrou na rua.
Dormiste 18 horas, rapaz. Deves estar com fome.
Vou para casa.
Tome.
Obrigado.
O peixe que o coronel Aureliano Buendía fazia.
"Abraço-te de longe, a tua filha Amaranta Úrsula."
- Ficarias chocada aqui. - "Ficarias chocada aqui.
Os europeus não são como o povo de Macondo.
Entendo que esta decisão te possa causar preocupação,
mas estou bem."
Porque não recebo cartas do antropófago?
- Sinto falta de Macondo… - "Sinto falta de Macondo."
… mas Bruxelas enche-me de vida.
Diz ao antropófago que me lembro com saudade de caçarmos escorpiões.
Conta-me o que se passa em casa, em Macondo, com o Aureliano.
Nunca sei nada dele.
Durante os longos invernos da Bélgica,
é impossível não me lembrar daqueles anos de chuvas intermináveis,
enquanto corríamos entre poças e pântanos.
Sinto a vossa falta mais que nunca.
"A tua filha, Amaranta."
Era impossível pensar num homem mais parecido com a mãe.
Trá-las.
AURELIANO E JOSÉ ARCADIO
Aureliano tinha vaporizado mercúrio
para conservar o corpo segundo a fórmula de Melquíades.
Quatro meses depois,
quando José Arcadio chegou,
encontrou-a intacta.
Concede-lhe o descanso eterno, Senhor.
E que a luz perpétua brilhe sobre ela.
Quando morreu?
Há uns meses.
A minha mãe falou de ti.
Deixa-me a sós com ela.
Ámen.
Bastardo, vem.
Levanto-me às 5h15
e quero o pequeno-almoço na mesa às 6 horas, depois das orações.
Bastardo.
Gosto deles quentes e cozidos.
Não sei o que é este sumo nojento. Quero sumo de laranja acabado de espremer.
Se gosta dos ovos quentes, faça-os você.
Não havia laranjas, logo, habitue-se a goiaba. É só o que há.
Bastardo de merda. A mãe disse-me que eras incorrigível.
Incorrigível é você. Nem consegue limpar o próprio cu.
Também falo alemão, inglês e francês. E latim melhor do que você.
Não sei o que disse quando enterrou a sua mãe.
Não foi a missa fúnebre.
Onde está o ouro escondido?
- Que ouro? - Onde?
- A minha mãe falou dele! - O quê?
"Em breve, seremos uma família feliz.
Vais partilhar a riqueza comigo." Onde está?
A sua mãe estava louca. Não está aqui.
Supostamente, a mãe Úrsula tinha um tesouro, mas ninguém o encontrou.
Só restam os peixes de ouro.
- Onde? - Na oficina.
Durante anos, José Arcadio entreteve a mãe
com a mentira sobre as suas atividades pontifícias.
Abandonou o seminário assim que chegou a Roma
e continuou a alimentar a lenda da teologia e do direito canónico
para não pôr em perigo a sua fabulosa herança
de que falavam as cartas delirantes da mãe.
À noite, durante a infância,
José Arcadio suava de medo
sob os olhares gélidos dos santos mexeriqueiros.
Era uma tortura inútil,
porque, naquela altura, ele tinha medo de tudo à sua volta.
As mulheres da casa que davam à luz filhos com caudas de porco,
os galos de combate que causavam mortes de homens
e remorsos de consciência,
os empreendimentos incertos que só levavam à loucura,
e tudo,
tudo o que Deus criara
com infinita bondade e que o diabo havia pervertido.
Olhe.
Como vamos sobreviver? Só temos doces e álcool.
Para que precisamos de comida?
O sangue do Senhor sacia a nossa fome e sede.
Tem de ir comprar comida a sério.
A minha mãe disse-me que não te deixava sair.
Para que Macondo não soubesse da existência do bastardo dos Buendía.
Mas agora sou o rei desta casa e dou-te permissão para saíres.
Meu filho!
Vá, vai buscar mais comida e vinho.
Não, não vou sair. Vá você.
Bem,
se não queres sair,
convido-te a ajudar-me a destruir todas estas relíquias.
Vá, bebe.
Bebe.
Não me vais dizer que gostas de ver estes degenerados todos
a julgar os outros com os seus olhares sinistros.
Vamos, bastardo! Este! Vamos!
Isso. Para o chão! Para o chão, bastardo!
Um… dois, três!
Temos de queimar tudo, bastardo!
Muitas vezes, no alucinante agosto romano,
ele abria os olhos a meio do sono
e tinha visto Amaranta a emergir de uma piscina de mármore
com a mão enfaixada,
idealizada pela ansiedade do exílio.
Chamava-se Amaranta.
Amava-a mais do que à minha mãe.
Ela passava horas a contar os meus sinais.
Dava nome a cada um.
Amaranta Úrsula. Amo-a mais do que à minha vida.
Ela vem ter comigo nos meus sonhos. Todas as noites.
Estamos a ficar sem vinho, bastardo. Isto é muito grave. Muito grave.
Ainda temos isto.
Mas tens de vir à aldeia comigo buscar mais vinho. Vamos.
Aureliano ficou surpreendido
por José Arcadio ser tão diferente da imagem que tinha dele.
Aquela paz entre duas almas solitárias do mesmo sangue
estava longe de ser amizade…
Pronto.
… mas permitiu-lhes suportar melhor a solidão insondável
que tanto os separava como os unia.
Ninguém se lembra de nós, bastardo. Vamos.
- Olha. Senhora! - Muita gente.
Senhora. Muito prazer.
Somos o José Arcadio e o Aureliano Buendía.
Lembra-se de nós?
Ela não se lembra. A bênção. Pai, Filho, Espírito Santo.
Ninguém se lembra dos Buendía, bastardo. Lembram-se? Senhores.
Macondo foi fundada por José Arcadio Buendía,
que teve dois filhos,
Aureliano, um militar exemplar,
e José Arcadio, um aventureiro dos mares.
Saúde!
Porque ninguém se lembra deles.
Lembra-se deles? Senhores!
Senhoras! José Arcadio, Sua Santidade, fala-vos.
E quero apresentar-vos nada mais, nada menos,
que Aureliano, o filho do pecado.
Do paraíso à miséria!
Aureliano Segundo, o meu pai, tinha um irmão gémeo,
José Arcadio Segundo. Trouxeram o comboio, lembram-se?
Ninguém se lembra de nós, bastardo.
Ninguém se lembra de nós.
O Menino de Ouro.
Vamos.
O MENINO DE OURO
HOMENS
O Menino de Ouro era um bordel onde o ar tinha um peso ingénuo,
como se o tivessem acabado de inventar.
As belas mulatas que esperavam sem esperança entre pétalas ensanguentadas
conheciam o negócio do amor que o homem esquecera no paraíso terreno.
Eu conheço-vos.
Tu és o José Arcadio.
E tu tens cara de um Aureliano.
O mesmo olhar.
O mesmo.
Naquela estufa de ilusões,
Pilar Ternera era a esplêndida e taciturna idosa
que vigiava a entrada.
Finalmente reconheceram-nos. Saúde!
E sei porque estão aqui.
Ambos estão apaixonados.
E precisam de esquecer.
Nigromanta!
Nigromanta, minha filha, vem cá!
Ajuda-me com estes rapazes. Trata deles.
Claro.
Com licença. Obrigado.
Obrigado.
Vai.
- Acabaste o livro? - O quê?
- Pensei que tinhas ido embora. - José Arcadio.
Gabriel García.
Aureliano.
Se ele te conhece, é porque já saíste de casa, seu bastardo mentiroso.
Só uma vez. Foi a pior experiência da vida.
E que outros segredos tens?
- Não tenho mais segredos, Sua Santidade. - Eu conheço-te.
Quando te apanhei, parecias um cão repreendido.
Saúde!
Ao cão repreendido.
Saúde!
Ao prazer de te voltar a ver.
Cuidado. Não a pises.
As baratas são o inseto alado mais antigo da face da Terra.
Sim. Elas eram…
Nem nessa tarde, nem na seguinte, Aureliano voltou para casa.
Vê? Assim!
Entretanto, José Arcadio levou os rapazes para se divertirem em casa,
onde fizeram festas que duravam até ao amanhecer.
Mas, senhores, não nos esqueçamos. Cervantes era um idiota!
E Shakespeare era um sacana!
- Viva a literatura! - Viva!
Bem-vindos ao esplêndido Cinema Macondo. Bem, o que resta dele.
O cinema é uma arte subsidiária do teatro.
- Subsidiária. - Do teatro.
Aureliano continuou a encontrar-se com os quatro oradores todas as tardes.
Gabriel,
Álvaro, Germán e Alfonso.
Os primeiros e últimos amigos que teria na vida.
José Arcadio transformou a casa num paraíso decadente.
Mesmo a altas horas da noite, ouviam-se risos, cantorias e danças,
nadando como pássaros que voam num céu dourado de bolhas perfumadas.
A casa era como uma escola sem disciplina.
Embora Aureliano se sentisse ligado aos quatro amigos pelo mesmo afeto,
era mais próximo de Gabriel que dos outros.
Dizem que o coronel Aureliano Buendía desenhava um círculo de giz
que ninguém podia atravessar.
O laço nasceu quando falou casualmente do coronel Aureliano Buendía.
Gabriel não duvidou da realidade do coronel.
Fora um irmão de armas
e amigo inseparável do seu bisavô,
o coronel Gerineldo Márquez.
Então, lembra-se?
Três mil homens foram atirados ao mar.
Claro, filho.
José Arcadio!
Aqui!
Bastardo!
Havia um tesouro, bastardo.
O único sítio onde não pensei procurar foi debaixo da cama da mãe Úrsula.
E os meus rapazes encontraram-no lá.
Aqueles rapazes são perigosos.
Não, bastardo.
Graças a eles, somos ricos.
E podemos remodelar a casa ao gosto de ambos.
Vamos poder viver como reis. Anda. Vou oferecer-te um banquete.
Bebe champanhe.
Saúde!
Saúde ao tesouro da família Buendía!
- Toma. - Agora não, estou cansado.
Mas que raio?
- O que raio foi isto? - Sei lá.
Vamos.
Na esgotante insónia,
voltou a medir a profundidade das suas desgraças…
… enquanto percorria a casa escura
onde os mortos vagueavam desde o anoitecer.
O que estão a fazer?
Rua, maricas! Rua!
Rua, maricas! Rua!
Saiam daqui! Rua!
Voltaremos!
Enraivecido, não tanto pelos danos,
mas pelo nojo e pena que sentia de si mesmo,
expulsou os rapazes,
como não teria feito nem a coiotes.
Os rapazes?
Expulsei-os. Estava farto deles.
Vou à praça buscar comida.
Vai à farmácia buscar sais para a asma.
Vou tomar banho.
Olha.
Compra rum.
Continuou assim,
perdido, a contemplar a amargura dos seus prazeres errados.
José Arcadio.
José Arcadio?
Os quatro rapazes entraram pelas telhas.
Foi tão rápido, metódico e brutal
que pareceu um ataque militar.
Só então Aureliano percebeu o quanto tinha começado a amá-lo.
Boa tarde, antropófago.
Tens estado a ressonar.
Como são as festas aqui agora?
Quem destruir a casa fica com o rum todo?
O gato comeu-te a língua?
Há quanto tempo.
Vai tomar banho. Cheiras a saguim.
Vai.
Vou fazer o almoço.
AURELIANO E AMARANTA ÚRSULA
Vinho ou sumo?
Sumo, obrigado.
Falas?
Pensei que não tinhas língua.
Como era o meu irmão?
A minha mãe dizia maravilhas dele, mas nunca o conheci.
Bem, ele era…
Era um homem triste.
Vivia no passado…
… mas era um bom homem, generoso.
Em algumas coisas, lembrava-me o Aureliano, o teu pai.
- Pensei que eras feliz na Bélgica. - Era.
Mas acordava todas as manhãs a sonhar que estava aqui.
Vais ficar aqui?
Querida!
Está pronto.
Este é o Antropófago. É como um irmão. O meu marido.
Diz que vai abrir uma empresa de correio aéreo.
Imaginas aviões em Macondo?
Gastón. Prazer.
Querida, o que fazes? Não faz sentido. Não podes matar todas as formigas.
Impossível não é francês. Vais desenhar outro besouro?
Sabes o que vou fazer?
Sabes o que vou fazer?
Não vou desenhar outro besouro!
Apesar de ter pelo menos 15 anos a mais do que ela,
os seus prazeres juvenis,
a sua determinação vigilante de a fazer feliz
e as suas virtudes como bom amante compensavam a diferença.
Arranquem as ervas daninhas todas, ali também.
Têm de ganhar o sumo de corozo. Não gostamos de preguiçosos.
- Os caroços devem ser… - Dama gentil.
Dás-me a honra de me acompanhar
até à bela aldeia de Macondo?
Era inconcebível que uma mulher com aquele espírito
voltasse para uma aldeia morta.
É bonita, não é?
Deprimida pela sujidade e o calor.
Esta é a rua dos turcos. Falei-te dela.
Havia tapetes voadores por todo o lado.
Sim, eu lembro-me.
E ali é a loja de gelo do Aureliano Triste.
Aquela ali?
Dizia a Gastón que Macondo era a aldeia mais brilhante e pacífica do mundo
e que tinha uma casa enorme, perfumada com orégãos,
onde queria envelhecer com um marido leal
e dois filhos selvagens chamados Rodrigo e Gonzalo,
e em caso nenhum Aureliano e José Arcadio,
e uma filha chamada Virginia, e em caso nenhum Remedios.
Aureliano ainda era virgem quando Amaranta Úrsula voltou a Macondo.
Nigromanta levou-o para a cama dela
e o seu corpo de prostituta feroz, endurecida e sem coração,
preparou-se para o servir como se fosse um menino assustado.
Encontrou-se rapidamente com um homem cujo tremendo poder
exigiu das suas entranhas um movimento de reajuste sísmico.
Achei que tinhas morrido. Não sais há dias.
- O céu não ia cair? - Toma.
O barulho incomoda-te? Mando os trabalhadores embora.
Outros barulhos são mais irritantes.
Amaranta, estou a estudar.
O que queres?
Porque nunca me respondeste?
Escrevi-te, mas a minha mãe disse que não querias saber de mim, então parei.
Odeias-me. Abandonei-te e deixei-te com ela, é isso?
Não te odeio.
Então porque não falas comigo?
- Porque estou a estudar. - O que tanto estudas? Deixa ver.
Sobre o que é este livro enorme?
Não sei. Estou a tentar perceber.
Porquê? Não há mais livros para ler?
Já os li todos.
Leste todos os livros do mundo?
Os que valem a pena.
A Amaranta Úrsula ia ao quarto de vez em quando.
Ficava lá uns minutos…
… enquanto o marido guardava o céu,
à espera do avião que queria trazer para Macondo.
Nessa altura, Gastón já tinha dissecado todos os insetos da região.
Sai! Vai buscar o teu aviãozinho de merda.
Já é mau o suficiente ter formigas a invadir esta casa.
É só por uma temporada!
Não vai acontecer nada a esta aldeia ou a esta casa de merda…
O que disseste?
Casa de merda. Disseste "casa de merda"? Casa de merda! Sim! Disseste isso!
Amaranta, para!
Por favor.
Explica-me porque és tão apegada a Macondo. Não consigo entender.
E nunca vais entender.
Amaranta.
Querida.
Querida.
Acalma-te.
Morreu na sua cadeira de baloiço,
numa noite de festa, a vigiar a entrada do seu paraíso.
Minha mãe!
Minha mãe!
A minha mãe foi embora para nunca mais voltar!
Minha mãe!
Minha mãe!
Santa Maria, Mãe de Deus
Rogai por nós, pecadores
Agora e na hora da nossa morte. Amém
Jesus…
Ave Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…
Era o fim.
No túmulo de Pilar Ternera,
entre salmos e contas de prostitutas,
os escombros do passado decompuseram-se.
O que andas a fazer?
A ler o mesmo livro até o decifrar.
Já não há nada para ninguém aqui.
Vou para Paris.
A Mercedes está lá.
Está bem.
Quando chegares lá,
vai à livraria Honoré Champion, no Quartier Latin,
e envia-me Le Roman de Renart e A Canção de Rolando.
Rum, por favor.
- Para mim, chega ao fim. - Para ti, chega ao fim.
Ouçam todos.
O Menino de Ouro fechou.
A festa acabou.
Até à próxima, amigo.
Adeus, Aureliano Buendía.
Adeus, Gabriel García.
Ter amigos é uma chatice.
O que aconteceu?
Nada. Cortei-me.
És demasiado malicioso para seres um bom morcego.
Onde estiveste?
Toda a gente está a deixar Macondo.
Nem toda a gente, Antropófago.
Está bom.
Não me voltes a abandonar, Amaranta.
- Aureliano, para. - Não me deixes.
Sonho todas as noites que me dizes "Gaston" ao ouvido.
Idiota.
Vou para a Bélgica no primeiro barco.
Querida.
Ouve isto.
"É com vergonha que confirmamos que o avião foi enviado para Tanganica.
Onde foi entregue à comunidade de Macondo." Blá-blá-blá.
"Mas estamos a organizar a sua viagem para Macondo, na América Latina."
Porque estás a rir?
Incrível!
Eram 16h30 quando a Amaranta Úrsula saiu do banho.
O que fazes?
Espero que vás para a Bélgica.
Sai.
A aldeia tinha chegado a tal nível de inatividade
que só restavam manequins decapitados nas montras sombrias.
Pare!
Pare!
O que é isto?
Incrível!
Corre, Antropófago!
Naquela Macondo, esquecida até pelos pássaros,
onde o pó e o calor se tornaram tão tenazes que era difícil respirar,
confinados pela solidão e amor numa casa onde era impossível dormir
devido ao barulho das formigas vermelhas,
Aureliano e Amaranta Úrsula eram os únicos felizes.
E os mais felizes da Terra.
Naquele paraíso de desastres,
perderam o sentido da realidade
e entregaram-se à adoração dos seus corpos.
Bom dia, Antropófago.
Acordaste.
Vamos ter um bebé.
O quê?
Quando? Como?
O que achavas que ia acontecer?
O que se passa?
"Não deixem os Buendía casarem entre si. Os filhos terão rabos de porco."
Foi o que a mãe Úrsula disse.
Mas não somos irmãos.
A minha mãe chamava-te "bastardo".
Disse que me encontrou a flutuar num cesto.
Este bebé não pode nascer.
Soldados!
Preparar!
Apontar!
Fogo!
Fogo!
Oito, oito, oito!
Buendía, vamos ver se finalmente esse galo
faz o favor à tua mulher.
Filhos da puta!
Podem ficar com o minuto que falta!
A igreja está fechada.
Não venho rezar.
Está bem.
Deus abandonou esta aldeia.
Preciso de ver os registos de batismo.
Os ratos comeram-nos todos.
Por favor, tenho de saber quem são os meus pais. É urgente.
Como te chamas, filho?
Aureliano Buendía.
Não deixes que te consuma.
Havia uma rua com esse nome há anos.
Naquela altura,
as pessoas davam aos filhos o nome das ruas.
Então, também não acredita.
No quê?
Que o coronel Aureliano Buendía lutou em 32 guerras civis e as perdeu todas.
Que o exército encurralou e matou três mil trabalhadores
e levou os corpos num comboio de 200 vagões até ao mar para os despejar.
Filho…
Para mim, bastava ter a certeza de que nós existimos neste momento.
Aureliano e Amaranta Úrsula aceitaram a história do cesto,
não porque acreditassem,
mas porque acalmou os seus medos.
Quem diria que acabaríamos como antropófagos?
Isso.
É um belo antropófago.
Vamos chamá-lo Rodrigo.
Não, vamos chamá-lo Aureliano e ele vai vencer 32 guerras.
Está bem.
Vai chamar-se Aureliano.
Descansa.
Não te preocupes.
Não te preocupes.
- Cortamo-la quando for mais velho. - Se aprender a falar.
Amaranta, o que se passa?
Calma.
Pessoas como eu não foram feitas para morrer contra a sua vontade.
Espera aqui, bebé.
Vamos. Isso mesmo.
Amaranta.
Naquele instante prodigioso,
as chaves definitivas de Melquíades foram-lhe reveladas.
Viu a epígrafe dos pergaminhos perfeitamente ordenada
no tempo e no espaço dos homens.
O primeiro da estirpe está amarrado a uma árvore…
… e o último…
… está a ser comido por formigas.
Aureliano nunca tinha estado tão lúcido
como quando se esqueceu dos mortos
e da dor dos mortos.
Melquíades não tinha posto os eventos pela ordem do tempo convencional,
mas concentrou um século de episódios
de forma a que todos coexistissem num instante.
Leu sem qualquer dificuldade,
como se tivessem estado escritos em espanhol.
Encontrou a sua própria conceção
entre os escorpiões e as borboletas amarelas…
… e descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã,
mas sua tia.
Então, o vento quente sussurrou,
cheio de vozes do passado,
de suspiros de desenganos anteriores à nostalgia mais tenaz.
Aureliano começou a decifrar o instante em que vivia…
… profetizando-se a si mesmo.
Antes do último verso,
já tinha percebido que não sairia da sala,
pois estava previsto que a cidade dos espelhos,
ou das miragens,
seria varrida pelo vento…
… e exilada da memória dos homens
no instante em que acabasse de decifrar os pergaminhos,
e tudo o que neles estava escrito
era irrepetível desde sempre e para sempre…
… porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão
não tinham uma segunda oportunidade na Terra.
CEM ANOS DE SOLIDÃO
Legendas: Rita Mendes do Carmo
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