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Original subtitles

Eu não sei por que decidi escrever este diário.

Não sei mesmo.

Às vezes penso que eu escrevo porque sou romântica, como qualquer jovem.

Às vezes penso que faço isso pelas inúmeras influências literárias que

recebi.

Afinal, eu sou uma professora de literatura, mesmo que seja da escola

secundária.

Mas eu acho que estou escrevendo este diário por amor.

Amor à vida.

Amor às pequenas coisas.

Amor à natureza.

Amor ao ser amado.

Amor à descoberta do ato de amar.

Eu tinha conhecido Roberto há uns seis meses e estava profundamente apaixonada

por ele.

Por incrível que pareça, foi ele quem me ensinou a amar.

Nunca amara ninguém antes dele.

Nunca tinha conseguido me ligar a alguém.

Roberto surgiu tão de repente e ocupou toda a minha vida.

O que foi?

O que é que você tem?

Nada.

Você nunca foi assim?

Está preocupada com alguma coisa?

Não. Eu já disse que não foi nada.

Silvia, você está mentindo.

Eu sinto.

Aconteceu alguma coisa?

É a minha menstruação.

O que é?

Está atrasada?

Você ainda não fez o exame?

Eu já pensei nisso, mas... É uma coisa normal, de vez em quando ela atrasa.

Eu não tive coragem de contar para o Roberto o resultado do exame.

Porque eu achava que poderia estragar os feriados que nós tínhamos planejado com

tanto carinho.

Era a primeira vez que viajávamos juntos.

Íamos para a montanha.

E eu ia rever Marta, que foi minha melhor amiga.

Roberto ainda não a conhecia, porque há algum tempo que ela tinha decidido

abandonar a cidade para viver uma vida diferente.

Marta foi com Bebel, uma amiga comum, construir uma alternativa de vida como

as duas disseram.

Fora de tudo e de todos.

Rever essas amigas era para mim um presente.

E também um apoio ao problema que me atormentava.

Marta, antes de abandonar São Paulo, viveu um problema semelhante ao que eu

estava enfrentando naquele momento.

Ver ou não ter um filho da pessoa que você está amando.

Quando você está se sentindo absolutamente insegura e imatura diante

de qualquer coisa.

Mas quem é seguro e maduro?

Meu Deus, que bom.

Que bom, você está linda.

Você está maravilhosa. Bom te ver. Esse é o Roberto.

Como é que é?

Tudo bem.

Tudo bom.

Bebel. Oi, Bebel. Oi.

Eu não vejo ninguém desde que eu estou com o Roberto.

Vocês estão morando juntos?

Não. Meu pai me colocaria à frente ou pelo tom de fuzilamento se eu fizesse

isso. Eu não sou como você, Marta.

Marta, mais livre.

A mais criativa.

Corajosa.

Marta, líder do grupo.

O grupo acabou.

É.

Acabou quando você foi viver com o Dinho.

Eu tenho pensado tanto nele.

Eu pensei que você já tivesse esquecido ele.

Você e a Bebel já estão morando aqui há muito tempo.

Você sabe que até hoje eu me lembro da expressão dele quando eu voltei do

aborto.

Ele ficou tão magoado.

Eu precisava falar com você sobre isso. Sobre isso o quê?

Sobre o Jim ou sobre o aborto?

São tantas coisas que eu nem sei por onde começar, mãe.

Você tem uma bela casa, hein?

É, mas não faz a minha cabeça, não.

A gente está transando ela. A herança não se discute.

Herança? Que ótimo.

Vocês não estão com fome? Vem descer do bebel.

Olha, eu comi e bebi tanto ontem à noite que eu estou enjoado. Não estou podendo

nem ver comida.

O Roberto faz engenharia. E ontem teve uma festa na escola dele, não é, amor?

É, uma escola só de homens, né? Uma coisa bem de macho.

Ah, de macho, né?

Mas não são só os homens que são machistas, não.

As mulheres também são.

Eu já fui.

Houve uma época que eu estava com a cabeça muito ruim.

Ansiosa. Tinha ódio das pessoas.

Queria brincar com qualquer um que quisesse transar comigo.

Eu queria até que todos os homens explodissem de tanta dor no saco.

Dor no saco?

É.

Dor no saco.

E hoje em dia, você ainda quer dar dor no saco dos caras?

Não.

Hoje eu estou diferente.

Eu acho que acabou aquela ansiedade e solidão.

Eu descobri a minha paz no interior.

Martha, eu não estou conseguindo dormir.

Entra. Eu também estou meio sem sono.

O que você está vendo?

Essas fotos.

Eu falei tanto sobre o Dinho hoje com a Silvia que me deu uma saudade.

Onde será que ele está, hein?

Eu não estou gostando dessas coisas.

Que coisas?

A Silvia visitando a gente.

Você pensando no teu passado.

Eu não vim para cá para apagar o meu passado, Bebel.

Eu gosto muito de você, mas a Silvia é minha amiga.

E eu quero que se respeite isso.

Não queria casar com ela, ok?

E eu?

Não sou sua amiga?

Claro que sim.

Você é muito boba.

Você falou tanto da Martha.

Sabe que não achei ela nada especial.

Mas ela é especial.

Não é qualquer pessoa que segura a barra que ela aguentou, não.

É. Uma pessoa tranquila.

Não.

Não tanto assim.

Quando ela namorava o Jim, e foram três anos de namoro, era muita loucura, muita

droga, muita bebida.

Aí eles decidiram viver juntos.

E logo depois ela ficou grávida.

E daí?

E daí que o Jim queria muito esse filho, essa criança.

Mas a Marta não.

Então ela decidiu fazer um aborto contra a vontade dele.

E os dois se separaram.

Marta, Marta.

E nós?

Eu admiro muito a Marta.

Na escola, ela sempre foi a melhor aluna.

Tinha os namorados mais bonitos.

E era difícil arranjar namorado.

E eu não sou bonito?

Claro.

Você é lindo.

E a sua menstruação?

E se ela não vier?

Teremos que dar um jeito.

Que jeito?

Teremos que... ...fazer um aborto.

Alô, alô, alô, alô, alô, alô.

Tem ninguém aí, não?

Claro que não tem ninguém aí.

Claro que tem.

A gente não estava esperando por vocês.

Bibel, e a Marta?

Como é que ela está?

Deve estar levantando. Dinho, essa é a música que te falei.

Dinho! O que você está fazendo aqui?

Eu vim te ver.

Vem cá.

E passar os feriados com você.

Oi, Marta. O Dinho fala muito de você.

É, a gente fala muito de você.

Essa aí é a Carminha.

Muito prazer.

Tudo bem?

O que foi?

Eu acho que ouvi a voz do Dinho.

Quem?

Dinho, o cara que viveu com a Marta.

Muito cedo para ouvir música.

Bom, música não tem hora.

Na minha casa tem.

Eu ainda não fui apresentada a você. Eu também não.

Ela é Carminha, a amiga do Dinho.

Muito prazer.

Bom, já que recebemos mais visitas, vou até a cidade comprar mais alguma coisa.

Não precisa ser agora, né, Bebel? Vamos aproveitar esse dia que está lindo.

Vamos subir a montanha?

A Silvia me falou que tem uma cachoeira. Gênio, dá até pra um mergulho. Vamos

nessa?

Realmente, acho uma grande ideia.

Por que você não vem, Bebel? Deixa isso pra depois.

Vocês vão.

Eu vou até a cidade.

Ah, vamos, Bebel.

Ô, Marta, eu acho bom você ir. Você não tá afim?

Onde é que você arranjou essa coisinha, hein?

Tá com ciúmes?

Ciúmes? Não, eu não.

Eu não sinto nada por você.

Nada.

Que barato!

Mas isso é genial.

Vamos cair na água, Flávio?

Tomar um banho nessa água gelada é uma boa, hein? Vamos lá?

Não, não. Muito frio, Flávio. Ah, eu vou.

Eu sei.

Eu sei.

O que é isso?

Eu não sei.

Vamos.

Vem cá.

Será?

Estéreo.

Besta!

Por que você não está com eles?

Há um saco lá em cima.

Saco? É, um saco.

A Marta está entrando numa com o Roberto.

A Marta?

É, a Marta.

A Marta.

Minha mãe, essa é a parada do meu pai.

Meu padrasto até que é um cara legal.

Mas um dia ele tentou me violentar.

E me violentou mesmo.

Aí saí de casa, fui morar com uma amiga.

E os pais dela não foram com minha cara.

Imagina, não gostaram de mim.

Até que um dia meu padrasto foi me buscar no colégio. Isso me dá um mau

humor.

Eu morri de vergonha quando eu vi ele ali na porta do colégio.

Aí ele me fez prometer que eu não contasse nada pra minha mãe se ele não

me tocasse mais.

Mas aí eu tava grávida.

Grávida.

Aí tive que abortar. Foi meu segundo aborto.

Caí na mão de um carniceiro. Nem ia compensar. Então não vamos falar disso,

tá?

Você já fez a corte?

Não.

Não tem coragem de fazer?

Não quero falar disso, não.

Há um tempo atrás eu pensei em ter um filho.

Você nunca quis ter um filho?

Não, menina.

Filho nunca.

Eu acho que o Dinho foi a pessoa que eu mais amei na minha vida.

Foi, não é mais?

Não.

O que ele faz na vida?

Ele já fez tanta coisa, nada deu certo.

Ele já foi modelo, já foi fotógrafo.

Teve uma época que ele era disc jockey.

Depois ele resolveu ser diretor de cinema e saiu por aí de super oito.

Mas nada deu certo, não. Ele nunca se achou. Vocês ficaram juntos muito tempo?

Três anos.

A Silvia me falou que vocês brigaram.

Logo depois que você ficou grave.

Não foi bem isso.

A relação já estava meio deteriorada, já estava ruim. E assim, eu não queria ter

um filho. E ele queria.

Eu descobri que eu tinha muito mimado, muito possessivo. Acho até que por causa

da família dele.

Família rica, né?

E eu entrei num barato de achar meu caminho.

Descobri, sabia quem eu era.

Eu preciso falar com você. Eu não tenho nada para falar com você. Mas eu tenho.

Eu sonhei com o meu filho.

Esse é um assunto encerrado, Dinho.

Dinho!

Que bom que você está aqui.

Ô, Marcos.

Eu queria te explicar... Eu não quero explicação nenhuma. Eu estou de saco

cheio de vocês.

Por quê? O que é que eu te fiz?

Mulher estéril.

Você pega essa estradinha aqui e vai em frente toda a vida.

Esses dois podiam ir embora e não voltar nunca mais.

Eu sinto um clima de tragédia neles.

Qual é? Ficou dramática agora?

Dramática por quem? Fica falando em tragédia? Roberto, eu quero falar com

você. Fala depois. Agora!

Escuta aqui, Silvio. Eu estou cansado. Estou a fim de tomar um banho. Eu vi.

Vi o quê?

Silvinha, desculpe.

Eu não queria te magoar.

Eu sei.

E aquela garota, hein?

A história dela me tocou muito.

Você já imaginou o padrasto dela? Eu não quero falar sobre a história dela.

Eu quero falar sobre a gente.

O que é que tem a gente?

É que eu já estou com você há tanto tempo que parece uma vida inteira.

Não somente esses seis meses que nós estamos juntos.

Eu tenho medo de te perder, Roberto.

Que isso, sua bobinha.

Eu estou aqui.

O que foi, Sylvia?

Não sei, Roberto.

Desculpe.

Sylvia!

Já vou!

Eu vou ajudar a Bebel e a Martha na cozinha. Volto já.

Sylvia, o que está acontecendo?

Depois conversamos.

Até depois.

Eu gosto de ter gente para me ouvir.

Quanto mais gente tem para me ouvir, melhor.

Quanto maior a atenção, maior a mentira. Então conta, mãe.

Não vou contar, não.

Mas hoje eu contei uma assim daquelas cabeludas que até me arrepiou.

Qual é essa, então?

Imagina, meu pai me violentando.

E eu sou amarrada nele.

Mas a mentira não parou ainda.

Joguei a culpa toda nele. Culpa? É, dos abortos que eu fiz. Você fez aborto? Ah,

quer dizer que você é virgem?

Ela é, eu não.

Comecei a transar com 12 anos. É nada, comecei a transar com 9.

Eu acho que ter um filho não é o fim do mundo.

É.

Mas eu sei a barra que é.

O problema tem que ser encarado friamente.

Ou tenho filho, ou tira.

Isso eu estou farta de saber, Betel.

Mas se você já sabe, por que não conta para o Roberto?

Eu ainda não tive coragem.

É simples.

Se quiser, eu conto.

Isso é problema dela, Bebel. E ela é que tem que resolver.

Problema dela?

Mas se ela está contando para a gente, é porque ela quer que a gente conte para

ele. Não.

Não é assim, não.

Foi só um desabafo. Eu contei porque vocês são minhas amigas.

E o Roberto?

Por acaso ele não é o pai da criança?

Bebel, para de ser agressiva, meu Deus. O que é isso?

Agressiva? Eu, Marta?

E você o que é? A fada que você é fora da menina ingênua?

Meu sonho é ser bailarina.

Mas eu tenho muito... Também que não tem.

Você continua com essa mania de sal de fruta, Silvia?

Eu acho que é a única coisa que eu não vou abandonar na minha vida.

A Marta já abandonou essas manias.

É?

Oi. Oi.

Boa noite.

Olá.

Bom, se vocês quiserem comer alguma coisa, pode pegar.

Eu acho que dá para todo mundo.

Está tudo bem com você?

Tem alguma coisa estranha nesses dois?

Depois sou eu que sou dramática, né?

Gente do saco, Caminha! Me deixa!

Tchau.

Carminha? O que você tem, menina?

O que ela tem?

Carminha!

Carminha!

Carminha! O que eu ouço, menina?

Carminha! O que tem em você?

Carminha! Solta essa língua, Carminha!

Carminha!

Carminha!

Fala, menina. Fala, solta.

Carminha.

Carminha, abre essa boca.

Carminha, responde.

Abre a boca.

Carminha, abre a boca.

Carminha.

Solta essa língua, Carminha.

Como é que você está?

Foi só ela que tomou.

Uma dose grande.

Fui eu que apliquei.

Eu não trouxe a Carminha para te sacanear.

Eu estou com ela, mas é assim.

É como uma doença que a gente sabe que tem e não consegue se curar.

Eu queria te ver.

Falar com você.

Você não podia ter sumido assim da minha vida.

Não.

O que houve?

Marta, a Carminha está mal. Precisa de um médico.

Espera aí.

Você deu droga a ela? Dei não.

Eu apliquei.

E daí?

Seu filho da... Que isso, Roberto?

O que é isso?

Você perdeu a cabeça?

O que houve?

Você está louco?

Carminha chegou com vida ao hospital.

Felizmente foi possível salvá-la, ainda que precisasse de uns dias de repouso e

de observação.

Ela ficou no hospital da cidadezinha próxima e todos nós evitávamos falar

dela.

Bebel, que ia regularmente à cidadezinha vender os seus produtos caseiros, doces

e artesanato, é quem trazia notícias dela.

Mas mesmo Bebel evitava falar do assunto e nós também não queríamos ouvir.

O que aconteceu nos perturbou muito e as suas marcas foram tão fortes que o

desânimo nos atingiu.

O prazer dos feriados e da convivência comum desapareceu.

A temperatura exterior e interior caiu.

Caiu muito.

Vai trabalhar?

Você esqueceu que é nos feriados que eu ganho mais, né?

Você volta logo?

O que é que você está querendo, Marta?

Nada, nada.

Perguntei por perguntar.

Ô, Marta, tem uma coisa aqui, ó, engasgada na minha garganta que eu não

consigo engolir.

Quando nós juntamos pra cá?

Você me prometeu que a gente iria morar sozinhas. E que eu saiba, a gente

continua morando, Bebel.

Eles só vieram pra cá passar os feriados.

Mas eu só espero que eles não resolvam passar todos os feriados aqui.

Bebel, o negócio é o seguinte, eu adoro você. Agora eu nunca prometi me isolar

do mundo, tá?

O que foi?

Bebel brigou com você?

Não sei.

Ela está meio grilada.

Mas não se preocupe com isso.

Cuide do seu projeto.

O que é isso? Não tem pressa.

Conta para mim.

A Bebel é uma pessoa muito legal, mas ela é muito possessiva.

Essa casa é dela.

Isso aqui é herança dela, não é minha.

É a gente que está criando problema?

Ela acha que sim.

A Bebel sonhou com a solidão daqui.

Que eu também gosto.

Só que eu sinto de uma maneira diferente da dela.

Mas ela é uma pessoa muito legal.

Uma boa amiga.

E ela me deu muita força no lance do aborto.

Nessa época, estava tudo muito confuso.

A minha família estava criando problema.

Eu não conseguia trabalho.

Eu estava insatisfeita comigo mesma. Eu estava precisando saber o que eu queria

da minha vida.

E de repente eu vim para cá com a Bebel. Foi a solução.

Se a gente está atrapalhando, a gente pode resolver isso agora.

De jeito nenhum, pelo amor de Deus. Eu estou adorando vocês aqui.

Eu estou feliz em rever a Silvia. Em ter com quem trocar informação.

Eu preciso disso, Roberto.

Me faz bem?

Esse tipo de vida da Bebel não é o meu.

Dá pra se me entender?

Claro que dá.

E depois eu adorei te conhecer.

Eu também.

Eu vi eles chegando.

Eu percebi que queriam me botar.

Eu vi.

Estava no rosto de cada um.

O ódio que eles tinham é pelo que eu represento.

Não é por mim propriamente, mas é pela minha condição social.

E quando foi isso?

Uma semana.

Fiquei jogado aí.

Jogando sangue.

Todo ensanguentado.

A Ruth tinha ido até a cidade.

Quando eu cheguei, eu nem acreditei no que vi.

Ah, não conta isso.

E por que não, Claudio?

Ele estava sentado numa cadeira, todo enfaixado, com uns pedaços de um lençol.

Parecia uma múmia.

E prenderam os caras?

Não. A polícia está procurando.

Mas pensando bem, eu não faço questão que eles sejam presos, não.

Eles devem ser pedreiros, serventes, biscateiros, que trabalham na redondeza.

Depois de uma grande bebedeira, eles tiveram...

Um ataque de loucura, lucidez, quem sabe?

Quando descobriram que não tinham nenhum privilégio.

O destino era ódio.

Queriam me matar.

Destruir. Que vise pela frente.

Mas eles são perigosos, não são?

Parece que de repente eles tiveram uma consciência política.

Você não está teorizando demais, não?

Não. Não estou, não.

Veja bem.

Estou andando, estou com vida.

Isso é que importa.

Foi um acidente.

Um simples acidente.

Para que ódio?

Vingança.

Para quê?

Não vai resolver nada?

O importante é que eu estou vivo.

Vivo.

que eu não achava nada de especial em você.

Era mentira, né?

Não.

Você está perturbado? Eu gostei muito de você.

Por causa dessas facadas.

Mas às vezes uma parada por uns tempos pode até ser uma boa, né?

Não, não é meu caso, não.

Eu, quando estou criando, eu sinto que estou vivendo.

Venha. Venha conhecer a casa.

Quando eu não estou escrevendo...

Eu sinto que eu estou morrendo.

Mas então você está morrendo agora?

Um pouco.

Você não está legal?

Estou. Estou só um pouco apreensiva.

Por quê? A Silvia. Ela é minha amiga.

Eu falo com ela.

Fala o quê?

Olha para mim.

Você é tão bonita.

A vontade de viver do Claudio é muito grande.

Por isso ele se recuperou tão rápido do assalto.

Ele sabia que tinha que se recuperar rápido.

Por quê?

Porque ele luta.

Ele luta contra o tempo.

Contra o tempo?

É.

O Cláudio vê a morte se aproximar a cada dia que passa.

Mas nós todos vemos a morte se aproximar a cada dia que passa.

Você não... não tem vontade de trabalhar em alguma coisa?

Lá.

Sem negócio de medicina, engenharia, advocacia.

Nada disso para mim tem interesse.

Eu acho que eu nem tenho um ideal.

Mas não sou só eu, não.

A minha geração inteira não tem ideais.

Você já sacou que a minha geração não tem ídolos nem ideais? Os ideais a gente

inventa.

A gente cria as ilusões.

Veja você um jovem, por exemplo.

Basta um amor, criar um filho, já é uma perspectiva.

Mas e você?

Você tem perspectiva? Claro.

O livro que eu estou escrevendo.

Prazer das pequenas coisas.

Tudo que eu já vivi, eu viveria de novo.

Não.

Você não entendeu.

Ele está com os dias contados.

Ele está com câncer.

Você ama muito ele, não?

Amo.

Já estão juntos há muito tempo?

Nem tanto.

Há um ano e meio.

Quando eu o conheci, ele já estava doente.

Eu me apaixonei por ele.

Por dentro da vida.

Da vida que ele tem dentro dele.

Eu acreditei numa grande transformação no mundo.

De certa forma, houve essa transformação.

A sua geração é uma espécie de continuação da minha geração.

Lutamos contra a mesma injustiça social.

Eu sofri, fui exilado, mas hoje

estou aqui.

Mas para que tudo isso?

Talvez para dizer como poeta, confesso que vivi.

Ou melhor ainda, confesso que quero viver.

Você me acha um cara legal?

Claro.

Então fique comigo.

Roberto, eu já te disse, não vamos misturar as coisas.

Eu sinto muita ternura por você.

Eu sou péssimo em matemática.

É? Mas eu sou bom em física.

Não fica assim.

Eu não quis te machucar, Roberto.

Eu sei.

Eu quero ser honesta com você.

Eu ainda estou me descobrindo, Roberto. Agora, uma coisa eu já sei.

Eu amo o Jim.

Tchau.

Tchau.

Estou com uma emoção estranha hoje.

Uma vontade de ser criança.

Saudades do meu pai, da minha mãe.

Vontade de ser filha. Sabe como é?

Vontade de ser filho.

Nós somos todos filhos.

Não é não?

Como é que você está?

Cadê o Dinho?

Ele saiu. Foi por aí.

Estou com medo dessa menina aprontar alguma.

Eu vou atrás dela.

Eu te entendo.

Eu te entendo muito.

Às vezes a gente faz besteira.

Mas é bom fazer besteira também. Faz parte da vida.

Eu sei.

Às vezes precisa viver numa boa.

Sem mesquinharia.

O que o seu pai faz?

Fala pra mim.

O que o seu pai faz?

Cada época ele é uma coisa.

Já foi ministro.

Ministro?

É, ministro.

Agora ele é senador.

Quer dizer, ele é político.

E seu pai?

O que é que ele é?

Meu pai?

Meu pai eu não digo.

Ei.

Fala aí.

Por que você está insistindo tanto em saber o que meu pai faz?

Eu já falei, agora é sua vez.

Mas o meu é segredo.

Mas eu não vou contar nada para ninguém, prometo.

Jura?

É militar.

Nós dois juntos vamos governar o Brasil. Com certeza.

Governar o Brasil. Com certeza.

Vem cá, filha da puta. Não coge não. Para, deixa eu falar com você. Para,

Roberto. Me escuta. Para com isso.

O problema estava colocado.

Um filho teu, Roberto.

Um filho.

Reconheço o amor que você tem por mim, o seu bem querer, mas... E Carminha?

Onde estava esse furacão de carência e desafeto que girava em torno de nós?

Nós andamos muito por aí.

Um guarda disse que viu uma menina passando por um dos abrigos.

É, talvez ele esteja em algum abrigo.

Talvez ela esteja morta. Não, Jim.

Não.

Ela está fazendo um jogo.

A minha amiga está perdida por aí.

Ela se acha.

Ela se acha.

E as angústias da gente?

Elas são crônicas, não são?

Angústias crônicas de... O que é isso?

Se a gente quer ajudar, a gente acaba com elas.

Tô com uma sensação besta, que eu dei uma grande vacilada, que eu não podia

ter dado.

Grande vacilada que eu não podia ter dado.

Nós não vamos procurar a Carninha, não?

Ou a gente sai pra procurar agora à noite, que eu acho meio difícil.

Ou a gente faz a cabeça e espera até amanhã cedo.

E não adianta ficar nessa.

Eu conheci um homem que ele está sabendo que vai morrer. Ele tem uma doença

incurável. Ele vai morrer.

Mas ele ama a vida.

Vê se você entende o que eu estou falando. Ele ama a vida.

Cuidado aí.

Por que as coisas são assim?

Com muito esforço venci a hemorragia interna e o início do aborto provocado

pelo acúmulo de emoções.

Foram necessários alguns meses de repouso nos quais refleti sobre tudo o

que aconteceu naqueles dias tão intensos e que foram, para mim, a descoberta da

vida.

Aprendi que todos nós temos medo de verdades e das relações humanas que nos

cercam.

Temos medo de nós mesmos e por isso nos é tão difícil conviver e amar o próximo.

Sei que as pessoas não são nem boas e nem más e que querem ser amadas.

Quero criar o meu filho e dar-lhe muito amor, pois só vejo amor à minha volta.

Jim se reencontrou com Marta.

Marta se reencontrou com ela mesma e teve coragem de assumir o amor que negou

no passado.

Bebel está tranquila em sua solidão, pois nela encontrou a paz.

E eu estou curtindo o amor de Roberto, que está concluindo seu curso de

engenharia e vem regularmente me ver ao fim de semana.

Claro que continuarão a existir conflitos, mas estamos lentamente

perdendo a insegurança que tanto nos atingia.

e cada vez mais querendo participar desse processo tão complicado que é a

vida.

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