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ASAS DE AÇO
Óscar Kilo Zulu Delta November.
Óscar Kilo Zulu Delta November.
Conseguem ouvir?
Sobrevoo a cem.
Diminuir a aceleração.
Oitenta...
Sessenta...
Altitude de decisão.
Temos de aterrar ou continuar, Emil!
Pista, um quilómetro.
Aceleração total!
Os heróis do combate aéreo sobre a Europa,
que nos deram uma posição respeitada entre as nações de todo o mundo,
voltam gloriosamente a Praga, a cidade de onde saíram como foragidos.
O que achas?
Ele vai ver isso assim que entrar. Vai adorar.
Liguei-lhes antes de sairmos.
Eles podiam estar aqui agora.
Vá lá, tu conheces a Karla.
O Liduška esperava, de certeza, mas a Karla?
Vamos acender.
Chegaram.
Olá, Liduš, onde estão todos?
Estão a chegar.
Karla, vamos, vamos. Meninas, para trás.
- Espera, eu entro primeiro. - Pega nas crianças.
Pavlík!
Só porque o teu pai vai regressar...
e eu vou deixar de ser o teu tutor, não quer dizer que deixe de poder...
dar-te um puxão de orelhas. Entra, rápido.
Onde se vai sentar o Emil?
No colo da Karla.
Vais reconhecê-lo?
- Sim. - Eu não.
Mas ele está em montes de fotos tuas em casa!
Até em fotos contigo quando eras bebé.
As pessoas são diferentes na vida real.
Olha!
Meninos, desçam!
Pavlík, agora não! Agora não.
Por favor, sigam-me.
Abram caminho, abram caminho!
Abram caminho!
Que amável.
Tinha começado a pensar que não vinhas.
Vai apresentar-nos?
Esta é minha irmã, Jarmila Kopecková, e esta é a Pavla Altholzerová.
Eu conheço-a, na verdade.
No campo de concentração de Svatoborice,
a Karla contou-me coisas lindas sobre como você e o seu marido...
... cuidaram dos filhos dela como se fossem vossos.
Senhoras, a Karla está aqui! Com as crianças!
Querem ir para a frente dar uma vista de olhos?
Lojzík! Lojzík!
Controla-te, Hanka.
Alto!
Rodar!
- Pavel, volta! - Pavel!
Mãe! Pavlík!
Devia ter-lhe dado nas orelhas em vez de apenas o mencionar.
Pavlík!
Estás à espera de alguém?
Do teu pai?
- Como se chama ele? - Malík.
Rapazes! O Malík Junior veio à procura do pai!
O teu pai ainda está a voar.
Mentira! Está morto! É por isso que não veio!
Hani!
Lojzík! Lojzík!
- Estás à procura de alguém? - Não, obrigada pela preocupação.
Tenta imaginar-me sem barba.
Olina, és tu?
Quando estava em Inglaterra, os alemães disseram que te tinhas divorciado de mim.
Porque achas que vim até aqui? Por ti, Saša, por ti!
Ele abandonou-nos.
Como és capaz de dizer isso?
Ele escreveu-nos, apesar de tudo.
Mas não nos avisou que não vinha.
Se calhar não pôde vir.
Ele sempre foi assim.
Vamos embora, meninos, vamos.
Petr, Lukáš, vamos.
- Boa noite. - Boa noite.
Josef, o que acha do Major Reicin?
Não tenho nada para dizer sobre ele,
Tenente-coronel.
Desculpe.
Lamento.
Tenho vários amigos judeus no sindicato.
Com estudos,
pessoas civilizadas e decentes.
Mas o Reicin não é assim.
Aí vem ele.
Abro-lhe a porta?
Claro.
Vamos aumentar-lhe a autoconfiança.
Porque não disseste à esposa do Capitão Malík...
... que ele não podia voar com os outros...
... porque estava a levar o Ministro Masaryk...
... e o Marechal General Janoušek para uma conferência?
Terias ganho a confiança dela.
Não sabia disso.
Eles não me contam...
nada.
O General Píka manda em tudo.
Foi ele quem tirou todos os pilotos dos Gulags.
Tens noção...
... de que o capitão Malík levou o Churchill
e o Presidente Beneš à assinatura do acordo com o camarada Stalin?
Lembra-te para quem estás a trabalhar.
Entendido.
Não vou devolver nada!
O pai disse para devolvermos os cartuchos.
O teu pai que denunciou os checos aos nazis! E também é ladrão!
O teu pai deixou bombardeou escolas e hospitais para matar crianças!
Isso não é verdade!
Deixa-o em paz!
Não te metas!
Larga-o! Vamos, Pavel.
Vou dar cabo de ti!
Pai!
Pavlík!
Pai?
Olá.
Pavlík, este é o Sr. Karel Šeba.
Ele e papá pilotavam juntos antes da guerra, sabias?
O que se passou? Andaste à porrada?
Fico feliz em ouvir isso.
O teu pai disse-me que tinhas asma.
Mas estou a ver que não é verdade, os asmáticos não andam à porrada.
Está tudo bem?
Deves ser a Lidka.
O teu pai descreveu-te com bastante precisão.
Ele tem uma pequena foto tua,
que guardou com ele durante toda a guerra.
- Liduška, com licença. - Vamos.
Tenho de ir.
O Emil deve voltar em três dias.
Em breve saberás algo, não te preocupes.
Estás com bom aspecto, Karla.
Senhora Šárka!
É sempre um prazer vê-la.
Alguma novidade na embaixada da Suíça?
Estou a acabar o meu trabalho por lá.
Quer trabalhar para mim no Ministério?
É melhor não, Ministro. Voar é mais a minha praia.
Compreendo.
Ele escapou-nos, Major.
Saiu de carro da embaixada da Suíça, acompanhado por uma mulher.
O Malík foi-se.
És um idiota, Pokorný.
Tu agora és suíço?
Porquê?
Conto-te em outra ocasião.
Pensei que talvez não me quisesses voltar a ver.
E não queria.
Descobri, não a partir de ti, claro, que a Karla estava à espera do Pavlík.
É por isso que voei com outras tripulações.
O que mudou para me quereres ver agora?
Voltaste da guerra.
A nossa encarregada ia deixar-nos e a chefe encomendou um buquê,
mas ela não o levou com ela. Deu-o à Karla.
Tenho aqui algo nesta encomenda para o Pavlík e para a Lidka.
Vamos terminar por aqui, Capitão.
Um motorista vai buscar-te a casa daqui a três horas,
vais fazer o voo de Bratislava, mas ainda vens a tempo para o jantar.
Senhora.
Obrigado.
Um oficial da Gestapo morava naquela casa com a família.
Os donos não voltaram de Osvetim.
Então vais ficar a morar lá, por enquanto.
Eu disse à Karla que podias chegar de noite.
Ela não tem nenhum amante.
Uma tal de Marta Schléglová está a ajudá-la com a mobília.
Estiveram juntas no campo de concentração de Svatoborice.
O pai é o advogado do Comintern, está actualmente em Moscovo.
Também devias saber que se diz por aí que ela gosta de mulheres.
Podes dormir o dia todo se estiveres cansado.
Bem, não propriamente o dia todo,
mas pelo menos até as crianças chegarem.
Onde estás, Karla?
O teu marido voltou da guerra e não te consegue encontrar.
Querias fazer sexo já?
Dorme um bocado.
Nem sei o que queria mais,
tu ou lombo assado.
Estás com bom aspecto.
A sério!
Estás com bom aspecto!
Lombo assado!
Ele quer lombo assado!
Lombo assado.
Vou levar um destes, não,
dois destes para Vondra do talho.
E vamos também colocar uns cupões de comida.
Não temos farinha, leite, ovos, fermento, ou outras coisas?!
Mas vamos encontrar uma solução.
Os soviéticos estão a pressionar o Svoboda para se livrar de nós,
e o Beneš assina tudo o que ele quer.
Não me digas que não fazias a menor ideia, Karel.
Pode ser iniciativa do Beneš, por o termos considerado um traidor.
Ele nunca nos perdoou por isso.
Eles estão a espiar-nos assim há quase uma semana.
Pelos visto, até o Reicin esteve lá.
O que fazias lá?
Estava a cumprir uma ordem,
Vou dar-te duas opções.
Capitão Borivoj Pokorný, dos Serviços Secretos do Exército.
Ou nos dizes tudo o que sabes...
... e enviamos-te para o Major Reicin sem lhe contarmos a verdade...
... ou, se não fizermos um acordo,
levamos a um conselho de guerra por espionagem.
Qual preferes?
Achas que vamos conseguir?
Se não conseguirmos, pode ser um sinal
de que outras coisas também vão correr mal?
Para com isso.
Estás tão grande...
... e bonita.
Pavlík!
O papá acordou!
Sou o Pavlík.
Aposto que és um grande maluco, não és?
Gostaste? Queres ver de perto?
É um autêntico relógio de piloto.
O lombo ainda não está pronto.
Precisa de cozinhar pelo menos três horas.
Esqueci-me completamente de que tenho que voar para Bratislava.
- Agora? - Parto em trinta minutos.
Mas volto a tempo para o jantar.
Vou levar um marechal em Bratislava,
e trazer um adido militar francês para Praga.
Pavlík, sabes o que é um adido? É um homem muito importante.
Obrigado, Liduška.
Temos arandos?
Temos tudo.
- Vamos chegar a tempo? - Claro, Capitão.
No outro dia, em Kbely, um coronel saltou de um avião em movimento.
Mas não era o piloto.
Olá.
- Olá, Liduš. - Olá, pessoal.
Isto é de tirar o chapéu!
Estou tão feliz por teres vindo.
Estaremos todos juntos pela primeira vez em seis anos.
Onde está o Emil?
Tem um voo para Bratislava, mas volta em breve.
Vai regressar num instante.
Rapazes!
- Puseram alguma coisa naquela bolsa? - Não.
Pronto, então saiam daqui, afastem-se! Rápido!
Podes buzinar durante algum tempo?
Obrigado.
Tu deves ser Marta.
Obrigado por apoiares a Karla em Svatoborice.
Espero que não uses isso contra mim.
- Saúde! - Saúde!
Come só dois,
para o papá ter o suficiente para comer com os ravioli de ovo.
Como sabes que eu gosto disso? Eras pequena.
Bem...
A mamã contou-me.
O que é isso?
Onde?
- Aqui... - Aqui?
É um emblema de Piloto da Checoslováquia,
este é francês e este é britânico.
E esta é uma Medalha de Valor Militar da Checoslováquia,
uma Cruz de Guerra da Checoslováquia, uma Cruz de Guerra francesa....
Uma medalha da Força Aérea Britânica, uma estrela britânica,
e uma Medalha de Mérito Militar da Checoslováquia.
E isto é uma mancha de molho.
O teu pai é simplesmente um herói, Pavlík.
O herói do molho.
Porque é que te dás tão mal com a Lidunka?
Talvez ela veja isso Svatoborice...
Que simplesmente já não sinto pelo Emil aquilo que sentia antes.
Por favor, para com isso.
Elas eram esposas dos amigos dele!
Fazes ideia de como me senti quando elas descreveram...
...os detalhes mórbidos daquilo que fizeram ao meu marido?
Não, não fazes, porque, graças ao Bedrich e uma certa cooperação
por parte da firma dele, não te faltou nada, pois não?
O que queres ouvir?
Que não nos faltou nada?
Que simplesmente levámos os teus dois filhos?
Eu sei...
Desculpa.
Boa noite.
Ministro, o General Svoboda armou confusão,
é claro que ele não deve ter reparado, mas é isto está um caos.
Ele assinou o pedido de desmobilização...
... do Capitão Emil Malík.
As pessoas estão sempre a pedir desmobilização.
E, como diz o camarada Ministro, se pedem, merecem.
O Exército não é lugar para pessoas assim.
Bem, o Capitão Malík...
...é dos nossos.
Precisamos de falar.
Agora não.
Tanto quando sei, tu não és nenhum herói.
Pensei em ti toda a noite.
Não consegui parar de pensar em ti.
Isso faz-me lembrar do medo que tínhamos de que o Pavlík morresse...
Ele estava com tanta febre...
E tu tinhas medo que os nazis...
... me executassem.
Voamos sobre eles...
... após a mobilização ser cancelada.
Primeiro precisamos discutir o facto de o nosso relacionamento...
... não ser o mesmo que era antes da guerra.
Para mim não é.
Bom dia.
Quando estava no campo de concentração,
as esposas dos teus colegas contaram-me como me traíste com elas.
Discutiram à minha frente
sobre qual delas obteve o teu melhor desempenho.
Porque te contaram isso?
Eu defendi a Marta.
Gostavam de intimidá-la por ela ser lésbica.
Acreditaste nelas?
Não existe nada entre mim e a Marta,
mas fiz o que ela me aconselhou e prometi a mim mesma...
que nós os dois não íamos voltar a dormir juntos.
É a maneira de te redimires das traições.
- O quê? - Ou melhor,
vamos fazer sexo, mas só uma vez de quinze em quinze dias,
de modo a impedir a separação e o divórcio.
A Lidka e o Pavlík não merecem isso.
Falei com um advogado e ele disse-me que pode ser assim.
Não digas nada agora,
pensa nisso.
Estás a dizer que dormirmos juntos uma vez de quinze em quinze dias
é o suficiente para não te divorciares de mim?
E se isso for o suficiente para eu me divorciar de ti, Karla?
Que disparate é esse?
É por causa das crianças, não é?
Nem sequer és capaz de lhes dar carinho.
Não consigo.
Não foi ideia tua.
Vamos esperar duas semanas e depois vemos.
Obrigado pelo café.
Vais a algum lado? O Emil está em casa?
- Eu contei-lhe. - O quê?
- Uma vez de quinze em quinze dias. - Eu não estava a falar a sério!
Agora não importa.
Esse disparate das duas semanas foi ideia tua?
Não.
Na verdade, devia expulsar-te.
Mas não sou bom com essas coisas.
Podes fazer-me um café?
O Pavlík vem almoçar.
Também é preciso lavar e passar a roupa.
Gostei dos chapéus que a Hana,
a primeira-dama, usa.
Mas queria a aba um pouco mais larga, para parecer mais magra.
Está bem...
A Šárka, a hospedeira que costumava voar com o Emil antes da guerra,
trouxe isso.
Ela e o Emil também?
E este, o que achas?
- Como estás? - Olá.
Olá.
Pavla, estás linda.
Como está a František?
Já lhe disseste que o Emil dormiu contigo um ano depois do casamento?
E com mais três para além de ti?
Tenho de ir.
- Adeus. - Adeus.
Isso ajudou?
Sim. Ajudou.
A Pavla acabou de me dizer que a Marta é lésbica.
Podes explicar-me o que se passa contigo?
Nada!
- Estás bem? - Não! Não estou nada bem!
Eu cuidei dos teus filhos durante três anos.
Tu não percebes que o teu comportamento também se reflecte neles.
A Lidka é infeliz e reservada,
e o Pavlík está a tornar-se num pirralho arrogante.
Não é um problema só teu!
Sei que Svatoborice deve ter sido horrível,
mas já perguntaste ao Emil sobre aquilo que ele passou?
Não.
Olá.
- Olá, rapazes. - Olá.
Attlee adora Stalin.
Senhores, fomos empurrados para Moscovo.
Quero lembrar-vos que, além dos cheques,
também podem obter a cidadania britânica em cinco anos.
- Por isso, decidam-se. - Ontem fui ter com um rabino.
Porque é que foste ter com um rabino, seu ariano?
Não tens moral para me perguntar isso.
Vá lá, Vita, mostra-nos a tua circuncisão.
Queres ver?
O que queria ele de ti?
Queria que me juntasse aos comunistas e relatasse o que estão a fazer.
Não preciso de cartão de membro.
Sou um herói de guerra, seu...
Desculpe, senhor.
Heróis tendem a beber demais e esquecer o heroísmo.
Franta...
Sr. Vondra deu-me carne para fazer azeitonas recheadas.
Azeitonas recheadas!
E o que é isso? Onde conseguiste isso?
Fomos ver um filme Andy Hardy,
e o projeccionista deitou isso no lixo.
Queríamos ver que tipo de filme era.
Nos Partidários usávamos filmes assim
para fazer cortinas de fumo, para os nazis não nos verem.
Ouve...
Se incendiares isso na rua,
vão chamar os bombeiros e depois vão chamar o teu pai,
para te ir buscar à prisão juvenil.
Cuidado, rapaz, muito cuidado!
Bom apetite.
Franta, bebes demais.
Tenho de beber.
Vão te ver podre de bêbado,
e vão contar isso ao Rudé Právo. Iam adorar fazer isso.
Não quero ser um funcionário qualquer.
Sou um piloto militar, quero voar.
Podes ser piloto civil.
Só se fosse num Spitfire.
Ele é russo.
Os alemães prenderam-no.
Sobreviveu a Buchenwald.
Ele disse-me que nunca mais vai voltar para a Rússia
porque acabaria na Sibéria, ou ainda pior.
Toca lindamente.
Já vi que o Emil não te mandou embora.
Temos de deitar fora este tapete dos alemães.
Ou dá-lo aos russos para usarem como encostos de cabeça para o carro.
Vou arrumar o quarto sozinha.
Meu querido Pavlík,
nesta família, és o meu único herdeiro e portador do meu nome,
por isso mandaram-me escrever este testamento para ti...
... caso algo me aconteça.
Tive de deixar a tua mãe por causa desta guerra horrenda,
tive de te deixar a ti e à Liduška.
Tu estavas muito doente.
Estou a torcer por ti, sei que vais ser forte,
honrado e orgulhoso do teu pai.
E se algo me acontecer,
confio em ti para cuidares da tua mãe e de tua irmã Liduška...
Está tudo bem?
Onde quer a tua mãe esteja, também eu estarei.
Nunca percas a cabeça, Pavlík,
e fica a saber que, aonde quer que vás, o teu pai está a guiar-te.
Um abraço e um beijo, Pavlík.
O teu pai.
Óscar, Quilo, Charlie, Ianque, Romeu.
Franta, estás a ouvir?
Pronto. Temos cinco por cinco.
Franta, vou sair da frequência.
Ligo dentro de quarenta minutos.
Está bem.
Naquela quinzena...
Como estás?
Então?
Sou todo ouvidos.
Pavel Malík, cerca de sete anos, chegou às 12h35.
No espaço de uma hora, dois miúdos da mesma idade vieram visitá-lo.
Saíram às 13h20.
A esposa do Capitão Malík, Karla Malíková,
apanhou um táxi às 15h e foi para um destino desconhecido.
Estou a ver.
Para onde estavas a olhar? Seu filho da mãe!
Para o carro!
Bem, até daqui a quinze dias.
Chama já o chefe do acampamento!
A Vita trouxe estes doces para nós.
Foi um holandês que as enviou. Voei com ele na força aérea,
no avião que viste hoje, Karla.
Fizeste um bom trabalho, pelos vistos.
- Pavlík, lavaste as mãos? - Sim.
Mostra.
- Porque cheiras tão mal? - Bem...
Foi ao cinema com os rapazes e depois...
Conta à tua mãe que cheiro é esse, herói.
Vá lá, Pavlík.
Boa noite.
Boa noite, Lidunka.
Come alguma coisa, Liduška.
Obrigada, mas não tenho fome.
Aquele russo...
Suicidou-se!
Podemos dizer que tiveste uma guerra espectacular...
... porque pudeste vir à Escócia para comer truta e salmão.
Há quem pense que eu devia ter ficado aqui,
e cuidado da minha família.
Mas será que isso era possível?
Se eu tivesse ficado aqui, os alemães ter-me-iam morto.
Tive que fazer uns trabalhos de construção...
... daqueles alemães, às vezes,
só para manter a empresa a funcionar.
Não foi fácil cuidar da Liduška e do Pavlík, pois não?
O que achas?
Nós vamos conseguir uma cavilha?
Eu prometi à Jarmila um banquete de peixe.
Claro que sim!
- Vou tentar noutro sítio. - Está bem.
Diz-me só o número da porta, eu encontro o caminho.
É meu dever mostrar o caminho, Capitão.
Achas mesmo que eu ia deixar que me recrutasses?
Para os serviços secretos?
Foi por isso que me mostraste ao ministério inteiro.
Para mostrar a todos que me tinhas recrutado!
Major, não me recrutou.
Eu tornei-me soldado porque fui obrigado.
E agora vou voltar para a vida civil.
A guerra acabou.
Não acabou, Capitão!
Para mim acabou.
Tens de decidir de que lado ficar.
Com licença.
Mais uma coisa.
Por favor deixa esta conversa entre nós.
É tua vez.
Só aceitei o trabalho em Ruzyne para evitar que as companhias aéreas...
...ficassem sob o comando de alguém da turma do Svoboda.
Para que pudéssemos ficar juntos, como estávamos na Inglaterra.
Ali o Honza Kerhart foi o único que entendeu isso.
Ele é piloto civil desde Janeiro.
Os outros rapazes não devem querer voar sob teu comando, Václav.
Eu também não.
Claro.
Isso é mesmo a sua cara!
Eu ofereço-te o cargo do piloto-chefe, e tu...
O que vais fazer, então?
Voos panorâmicos e acrobacias.
A sério? Isso parece algo de há vinte anos atrás, não achas?
Para com isso, Vašek.
Vais ter o aeroporto só para ti, não sejas convencido.
Mas que bom.
Obrigado.
Adeus.
Como sempre, ele vai ficar chateado se disser a alguém para pagar, não vai?
Fomos duas vezes juntos ao Canadá para ir buscar bombardeiros.
Uma vez, os Krauts atingiu o aquecimento.
Quase morremos congelados.
E o Venca disse que, se tivessem sido mais certeiros,
tínhamos recebido medalhas melhores.
O Konrád sempre quis ser líder de esquadrão, no mínimo,
senão tenente coronel.
Quase conseguiu.
Saúde.
Por acaso tens isqueiro?
Preciso de falar contigo com urgência.
Prometeste-nos uma coisa em Moscovo,
mas não cumpriste sua promessa.
Não prometi nada.
Quando fizeste desenhos nos mapas,
pensei que soubesses o que se estava a passar.
Ficaste nos nossos quartéis durante três semanas,
e bebemos um copo por duas vezes.
Para mim,
e não apenas para mim, isso quis dizer que...
... tinhas entendido tudo.
Que eras dos nossos.
Tínhamos um inimigo comum.
Quando desenhei a localização dos aeroportos europeus nos mapas,
estava ao serviço da Checoslováquia.
Eu não sou dos vossos.
Já te tinha dito isso em Londres.
Nessa altura eu só queria saber se eras mesmo dos nossos.
Agora sei que não tem outra escolha.
Eles bombardearam-nos em Kolbenka.
Talvez tenha sido ele a demolir o Emaús!
Não sejas parvo, Josef.
Tu bombardeaste o Emaús,
e Vinohrady também, agora vais pagar por isso.
Deixa de ser parvo e senta-te, Josef.
Estamos a dar-te uma hipótese de te salvares.
É a tua última hipótese.
Nós temos três regras.
Sê paciente.
Não te esqueças.
E não perdoes.
Estava a falar durante o sono.
Em russo.
Disseste "Pazhalsta" várias vezes,
como se estivesses implorando a alguém por algo.
O que disse eu ao certo?
Estavas a chorar, tinhas a cara cheia de lágrimas.
Deve ter sido imaginação tua.
O Karel Šeba contou-me que...
... quando os russos te capturaram na Polónia,
não te trataram muito bem.
Tive sorte em só me terem capturado.
Porque não me falas sobre isso?
Não me quero lembrar disso.
Mas eu quero saber como eles te trataram.
O frio era o pior.
Estou habituada a isso.
- Como estás? - Tudo bem?
Tudo bem, Liduška? E tu és o Pavlík, não és?
Trouxe uma coisa para os teus pais.
- Eles estão no quarto. - Pavlík!
- Adeus. - Adeus.
Aquela é a Šárka, que costumava voar contigo?
Sim.
- Vou abrir-lhe a porta. - Não, tu não.
Tens aqui cigarros e medicação para asma do Pavlík.
Šárka, costumavas voar com o meu marido antes da guerra, certo?
Sim...
Viena, Paris e Amesterdão.
Também estava com ele quando um dos motores falhou na Holanda
e tivemos de fazer uma aterragem de emergência num campo.
Seria difícil esconder...
... milhões de quilómetros em espaço aéreo checoslovaco.
Ouvi que dizer que recusaste a posição de piloto-chefe na CSA.
Sim.
É uma pena.
Eles gostavam de ti lá.
Não posso voar com o Konrád.
Ele é um carreirista.
O Šeba acha que devias aceitar.
Estou em apuros, Karel.
Mais do que imaginas, amigo.
Eles encontraram-me no Gulag e levaram-me para Moscovo.
Sabiam quantos quilómetros eu tinha e que era experiente.
Queriam que eu traçasse as posições
de todos os aeroportos europeus num mapa,
até os mais pequenos.
E assinaste uma declaração de confidencialidade.
Tive de fazer isso.
Foi uma ordem do Heliodor Píka.
Eu disse que estava em cirílico,
e que podia estar qualquer coisa lá escrita.
Como um prisioneiro de guerra,
fui apenas obrigado a assinar a minha libertação,
mas teve que ser...
Assinei um acordo de confidencialidade,
não de colaboração.
- A minha consciência está limpa. - Eu sei.
Todos assinaram um acordo de confidencialidade.
Era a ti que eles queriam.
Só tu é que transportaste o Churchill, o Beneš, o Montgomery,
o Eden e o Masaryk, e agora eles querem-te a ti.
Ninguém te está a julgar.
Mas o facto de te teres encontrado com o Rožejev em Londres,
e teres deixado que o pessoal dele te fotografasse
Isso sim, é mau.
E o pior é que os ingleses arranjaram essas fotos.
Têm registos teus.
Deram-me isto contra a vontade.
O Rožejev veio atrás de mim.
Eu não me queria encontrar com ele.
O que faço agora?
Felizmente, tu já foste co-piloto do rei,
então a tua cidadania não corre perigo.
Tirando o facto de o Rožejev ser uma pessoa perigosíssima.
E de lhe teres dito para ir dar uma volta no U Kalendu.
Como é que sabe disso?
O tipo a quem deste um soco contou-me.
Estamos de olho em ti há seis semanas.
Como estás?
Então, Emil? Que bom ver-te.
Estou feliz por ter vindo. Obrigado.
Václav, sabes que não gosto muito de ti,
mas não tenho outro sítio para voar.
Vou deixar uma coisa bem clara.
A partir de 1 de Janeiro, vai voar pela CSA.
Como piloto-chefe, claro!
Boas instalações.
Eu sei.
Olá.
Olá.
Já verificaste se está tudo desligado na cabine?
Não, ainda não.
Isso é para mim?
Sim.
É da Rainha Guilhermina dos Países Baixos.
Está bem.
Estão a pedir-me para pilotar na companhia aérea deles.
Acha que lá estaria fora do alcance do NKVD?
Sim.
Desde que leves a família toda.
Mas não penses muito isso.
Por agora só te estão a observar.
Vão acalmar-se quando descobrirem que assinaste pela CSA.
Ficará pronto na próxima semana. Adeus.
Tudo bem?
Bem, na verdade...
- Veio fazer um novo chapéu? - Não.
Preciso de falar contigo.
É sobre a Karla?
O NKVD está a obrigar-me a colaborar.
Sabes bem o que implica recusar.
- Contaste à Karla? - Não lhe posso contar.
Ela ia ficar assustada.
Preciso que me ajudes.
Pai, gostei deste.
É lindo.
Pronto, vamos levar este pinheiro pequeno.
Fique com o troco.
Feliz Natal e bom ano-novo.
Vamos, Karlík.
- Béda, vamos beber um hot toddy? - Sim, dois, por favor.
Boa noite.
Rapazes, cuidem de Petr, está bem?
Não queremos ir apanhar-vos ao rio Vltava.
- Vai morder-me? - Sim.
A Jarmila e eu decidimos ir para a Holanda contigo.
Hã?
Pelo menos não vais ficar sozinho.
Fico feliz com isso.
- Saúde. - Saúde.
Feliz Natal, e um ano-novo feliz.
Igualmente!
Não devias fazer isso, rapaz!
Assim vão pensar que queres roubar esse peixe.
Eu só queria ver aquela carpa de perto.
Os teus pais deixam-te estar aqui sozinho?
Estou aqui com meu tio e meu pai.
Sabes que mais?
Vamos pescar essa carpa juntos.
Para dares à tua mãe como presente.
Vamos lá!
Para a tua mãe.
Pai! Olha o que eu trouxe.
Pavlík!
Anda, rápido!
Feliz Natal!
Fica de olho nesse rapaz.
Então...
Tu sabes...
- Vamos! - Obrigado, senhor.
Vamos, rapazes.
Vamos rapazes, vá lá.
- De quem é a mota? - É minha.
Feliz Natal.
Mãe, isto é para ti.
Ai sim?
Posso?
- Também quero, por favor. - Isto é para ti, Karla.
Um presente para cada ano que não passei com vocês.
Pena não termos ficado separados por mais tempo,
assim tínhamos mais presentes!
- Obrigada. - Feliz Natal.
Obrigada.
Jarmila!
Deus do céu!
Lidunka, estás linda.
É a mesma pessoa que acabou de sair?
Obrigada, mãe.
Obrigada pelo livro.
Uma das freiras de São Tomás ofereceu-mo.
Ela disse que foi deixado por uma família,
mas não te preocupes, foi desinfectado.
Pensei que o Petrík o tinha...
- Boa noite a todos. - Boa noite.
- Feliz Natal e bom ano-novo. - Igualmente.
Feliz Natal para ti também, Marta.
Acho que há uma coisa debaixo da árvore para ti.
O Menino Jesus também tem algo para ti.
Uau, Pavlík, é um Vickers Wellington!
Não ias conseguir fazer isso com ele.
Uma vez pilotei um general inglês num.
Ele tinha um bigode deste tamanho.
Parecia uma vassoura.
Fomos até Malta,
e, quando estávamos a sobrevoar o mar,
um submarino atingiu-nos e o nosso avião incendiou-se.
Até o general teve de ajudar a combater o fogo,
e imagine só, queimou um bocado do bigode.
Atirámos aquilo que não conseguimos apagar para o mar,
e a tripulação do submarino pensou que nos tínhamos despenhado.
Entretanto, conseguimos escapar.
E o que aconteceu ao general?
Estava cheio de medo!
Pavlí, olha só, tenho aqui algumas bombas.
Capitão, faz um voo de teste.
Ainda há mais um presente. Para toda a família.
Mais um presente?
- Karla? - Abro?
É um convite da Rainha Guilhermina dos Países Baixos.
Eu costumava transportá-la durante a guerra.
Está a oferecer-me trabalho como piloto-chefe na KLM.
Pensei que te ias tornar piloto-chefe da CSA dentro de uma semana.
Sim, mas...
É uma oferta inigualável.
Pode nunca voltar a acontecer.
Pensei que ias ficar feliz.
Tu sabias!
Não sabia.
Porque não me contaste?
Não vou sair daqui!
Eu também não saio daqui!
Pavlík!
Pavlík!
Rapazes, vamos embora.
Eu vou contigo, pai.
Eu sei, Lidunka.
É sempre assim. Ela estraga tudo.
Não.
A culpa é minha.
- Não quero falar sobre isso, Emil. - Sou eu.
Ele estava só a fingir.
Não!
Aquele homem amou-te durante todo o casamento.
Foi por me amar assim tanto,
que te contou a ti e ao Bedrich primeiro?
Ele só nos pediu...
... para o ajudarmos a convencer-te.
E entretanto decidimos ir também.
Já pedimos os passaportes.
Boa viagem, então!
Vão vocês.
Eu fico aqui.
E as crianças também!
A minha casa é aqui!
Não me vou mudar para a Holanda por causa da carreira dele.
O que preciso de te dizer...
... para entenderes que vocês também estão em risco?
Também disseram isso em 1939!
Mas, se ele tivesse ficado aqui,
talvez nada lhe tivesse acontecido, como aconteceu ao Bedrich.
Podia ter ficado a carimbar cupões de comida
como os outros oficiais, ou algo assim.
Sei lá...
Mas ele tinha que lutar.
É o que os homens solteiros fazem.
Sabes sabe muito bem que, se ele não tivesse ido embora,
os alemães provavelmente o teriam matado.
Fui para o campo de concentração por causa dele,
e as crianças tiveram de ficar contigo.
E prenderam o Emil,
levaram-no para um Gulag no meio da Rússia,
e forçaram-no a assinar um acordo de confidencialidade.
E agora querem que trabalhe para eles!
Para o NKVD!
Para, por favor!
A guerra acabou.
Já não estamos em perigo.
Seja como for,
nossa família vai-se embora.
Eu quero que as nossas crianças cresçam em liberdade.
Não quero que ninguém os persiga.
Fazes sempre aquilo que queres.
Pensei que tivesses entendido,
mas, em vez de apoiares o teu pai, estás armado em parvo.
Não vou a lado algum.
Traz-me uma lanterna.
Por favor.
Boa noite.
Boa noite.
Vai dando notícias.
Liduška!
Obrigada pelo presente.
- Boa noite. - Marta!
Por favor, espera.
Vou já para casa.
Posso ajudar-te em alguma coisa?
Eu moro aqui.
Porque confias em mim se sabes que o meu pai
fundou o Partido Comunista da Checoslováquia,
e que ele e minha mãe estão em Moscovo?
Eu confio em ti.
Boa noite.
Boa noite.
Feliz Natal e bom ano-novo...
Marta.
Posso entrar?
Boa noite.
Boa noite. Feliz Natal e bom ano-novo!
Muita saúde!
Noite feliz
Noite feliz
Ó, Senhor
Deus de amor
Pobrezinho
nasceu em Belém
Eis na lapa, Jesus nosso bem
Dorme em paz, ó Jesus
Dorme em paz, ó Jesus
De acordo com o contrato, farei o voo inaugural de Praga,
Paris e Estrasburgo a 5 de Março.
E na noite de 7 de Março voaremos para Amesterdão.
Não me vou embora sem ti.
Vamos conseguir.
Já superámos coisas piores.
O pai mudou de ideias.
O pai não mudou de ideias.
Vamos todos.
Todos nós.
Mãe?
Pavlík.
- Obrigado. - De nada.
Olá, Marta.
Olá!
Ainda não tomaste o pequeno-almoço, queres juntar-te a nós?
Obrigado, Liduška. Adorava.
Preciso de falar contigo..
Lidunka.
Por favor, senta-te.
Queres chá?
Posso fumar?
Claro.
Aqui tens.
Antes de me terem enviado para os partidários, após a invasão,
fui com os meus pais a uma recepção no Kremlin.
Na recepção, havia um russo...
Rožejev.
Deu-me a impressão de ser um diplomata inglês,
mas o meu pai disse-me que, tirando o Stalin,
Moscovo inteira tinha medo dele.
O Rožejev visitou-me ontem à noite.
Pelo que me contou sobre tua família, percebi que está aqui por tua causa.
Quer que lhe dê informações sobre ti,
porque sou vulnerável à chantagem. Tu sabes porquê.
- Não venho mais aqui. - Não faças isso!
Ias denunciar-te ao fazer isso.
Para além disso,
és tu quem faz esta casa funcionar.
Marta, estás aqui?
Eu disse-te que não precisa de vir mais aqui.
Mas, já que está aqui, viste o meu kit de manicure?
Procura no quarto, na mesinha de cabeceira.
Reparei que pintaste as unhas quando estávamos a fritar a carpa,
a Jarmila achou graça a isso.
Ainda há outra coisa.
O pessoal de Rožejev está a vigiar-vos através da casa das traseiras.
Obrigado, Marta.
O Emil Malík foi para a Holanda antes da guerra.
E agora ele vai voar para a rainha da Holanda.
Não havia nada a fazer.
Os pilotos da RAF têm os seus próprios serviços secretos,
sob o comando de Karel Šeba.
Não posso acusá-los de nada oficialmente.
Por agora.
O Marechal Konev vai para Praga um pouco antes do planeado.
Não sei nada sobre isso.
Agora sabes.
És responsável pela chegada dele em segurança.
Vou anunciar uma vigília.
Ele vai para a Checoslováquia a 5 de Março.
Talvez daqui,
para Ruzyne.
Vou mandar meu pessoal para cá.
- Por favor, sargento! - Obrigado.
Um motorista vai trazê-lo até aqui assim que o meu avião partir.
- O que queres que te traga de Paris? - Traz-te a ti mesmo!
O resto podemos comprar na Holanda.
Amanhã vamos estar à tua espera no aeroporto.
- E quem me vai ajudar a fazer a mala? - Que pena. Liduška.
Adeus.
Comporta-te, Pavlík.
Pavlík!
Pavlík, espera!
Também vais fazer amigos lá, não te preocupes.
A mãe disse que o holandês não é uma língua,
mas sim um problema de garganta.
Pavlík, isto é um Junkers 52, até o Hitler voou num.
E agora o teu pai vai pilotá-lo até Paris.
Olá, Pavlik. Sou o Borek, vou voar com seu pai.
Pai, posso ver a cabine?
Sim.
Vem daí. Cuidado com a cabeça.
- Queres voar comigo? - Não, vou para Zurique.
Podias ser o meu anjo da guarda.
Daqui a dois dias vou para a Holanda,
com a família toda.
Só te queria contar uma coisa.
Sem despedidas.
Só quero que saibas...
... que foste a coisa mais bonita já me aconteceu.
Pai!
Então, Pavlík, já inspeccionaste tudo?
- Posso voar? - Sim!
Vou anunciar uma vigília amanhã.
O aeroporto será usado para a aterragem do Marechal Konev.
Haverá uma cerimónia inaugural do voo Praga-Paris-Estrasburgo,
amanhã, aqui neste mesmo sítio. Até o embaixador francês vem.
A cerimónia foi cancelada.
Como explico isso aos franceses?
As companhias aéreas acabaram de começar.
Eu ligo ao Ministro.
Por mim, até podes ligar para o depósito de bagagens da Estação Central.
O que quer que faças, não canceles esse voo.
Ruzyne ficará como reserva em caso de emergência.
- Manda-me isso por escrito. - Não cries problemas, Konrád.
Bom dia. Daqui é de Paris. Tem uma chamada do hotel.
Está uma senhora do outro lado a dizer qualquer coisa.
Quem fala?
Uma senhora, mas não a entendo.
Sr. Malik, é o Hotel De La Poste, de Paris...
Estou? Quem fala?
- Sou eu, pai. - E onde está a mãe?
Está a tomar banho.
Espera.
- Quero falar com ele! - Agora não, Pavlík.
Tive de ir tomar um banho, estava quase a adormecer.
Tenho uma coisa para te dizer, mas não sei como.
Fizeste alguma coisa?
- Está a falar? - Sim, estou!
- Deixa-nos falar! - Tens alguém ao teu lado?
Sim, uma telefonista.
Quer cortar a ligação!
- Então, o que me querias dizer? - Karla...
Eu queria dizer-te que...
Não sei como dizer esse tipo de coisas...
Pai aquele avião era incrível!
Tenho que terminar sua ligação, senhor, com licença.
Peço-vos que anunciem o encerramento total do aeroporto
para todas as partidas e chegadas, devido ao mau tempo.
A situação não é assim tão grave, não concordo com isso.
A gestão de voos também é possível por meios mecânicos.
Não te esqueças que anunciaram uma vigília.
O aeroporto servirá de reserva para a chegada do Marechal Konev.
Com este nevoeiro é improvável.
O Junkers Paris-Estrasburgo-Praga está a vir de Estrasburgo para cá.
Que disparate é esse?
Porque não nos avisaram sobre isso?
Avisámos por tubo pneumático, conforme o regulamento.
Não temos culpa que ninguém tenha lido.
Podias pelo menos descobrir se Berlim aceita?
Óscar Kilo Zulu Delta November. Conseguem ouvir?
Já estava difícil em Estrasburgo, e eles autorizaram a descolagem!
Óscar Kilo Zulu Delta November.
Sinalizador avistado.
Sobrevoo a cem.
Diminuir aceleração!
Óscar Kilo Zulu Delta November.
Estão a dar a volta pela terceira vez.
Conseguem ouvir?
E aquele marechal russo? Vai aterrar aqui ou em Kbely?
Óscar Kilo Zulu Delta November. Um, dois, três, quatro...
Temos um avião de passageiros no espaço aéreo do aeroporto.
Onde está o director Konrád?
Conseguem ouvir?
Tirou o dia de folga. A irmã convidou-o para uma matança do porco.
Estabeleci contacto!
Daqui é a torre de controle do aeroporto de Praga.
Vão guiar-nos pelo rádio no vinte e dois!
Aqui vamos nós.
Boa noite.
Boa noite.
Oitenta...
Sessenta...
Altitude de decisão.
Enlouqueceste?
Senta-te!
Temos de aterrar ou continuar, Emil!
Aceleração total!
Baixa-te!
Esta arma é do pai, ou ele tem que a devolver?
É dele!
Sou eu, tia, a Lidka.
Certo, vou contar-lhe.
Adeus.
A tia Jarmila diz que não vêm.
Disse que o pai não deve voar por causa deste nevoeiro.
Vou fazer ravioli de ovo para o caso de ele vir.
Kerhart, o único membro da tripulação que sobreviveu.
Um desastre horrível.
Vou assegura-me pessoalmente que os detalhes do acidente...
... serão devidamente investigados.
Só ouvi esta história quando estive nas minas de urânio.
Eu tinha...
... uma namorada chamada Jitka Balíková.
Nesta história, ela chama-se Lidka,
mas na verdade era a Jitka, minha esposa há 50 anos,
e o pai dela não se chamava Malík, mas sim Balík,
um dos melhores pilotos de sempre.
Estive preso no campo de concentração de Vitís com os amigos dele.
É assim que as coisas são:
Há coisas que só descobrimos passado alguns anos, na prisão.
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