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Deixe eu ver se entendi.
Vamos filmar � noite porque seu voo � amanh� �s 3h?
Isso.
Quem te protege?
Ningu�m. Mencionei isso h� dois meses.
Deixei claro em meu contrato
que eu trabalharia � noite apenas em caso de emerg�ncia.
E este n�o � um deles. Desculpe, mas vou reclamar.
E...
N�o.
Isso seria mam�o com a��car.
Olha, Ren�...
Lembre-se, precisa usar um �lcool de qualidade.
Coloque as cascas de lim�o.
N�o esque�a de tirar a parte branca, sen�o fica amargo.
- Deixe descansar por dez dias. - Certo.
Ap�s dez dias, adicione a��car, misture com �gua, et voil�!
Prontinho. Feito com minhas pr�prias m�os.
Eu poderia fazer algumas cabe�as rolarem,
mas eles j� far�o isso.
"Eles" quem? Quais cabe�as v�o rolar?
Ouvi dizer que Ren� ser� demitido.
N�o � poss�vel.
Eles n�o o querem mais.
Por que n�o?
Lopez assistiu aos epis�dios que filmamos?
Ele est� assistindo agora.
- Est� preocupado? - N�o, Arianna.
Estaria preocupado se achasse que fossem me demitir.
Mas eu sei que querem me mandar embora.
Percebi pelos olhares, as liga��es, como falam comigo.
Eu sei que querem me tirar, e com raz�o.
O material que entregamos � uma merda.
Sim. Essa � a lei da selva, querida.
Quanto mais cedo voc� souber, mais voc� viver�.
Odeio isso.
Ren�, sinto muito, de verdade. Eu dei o meu melhor.
Eu sei.
Mas veja, Arianna...
Um homem sabe quando o fim est� pr�ximo.
Alguns v�o meditar � beira-mar.
Outros encontram consolo em suas fam�lias.
Eu fa�o limoncello.
ALESSANDRO o estagi�rio
CORINNA a estrela
ARIANNA a assistente de dire��o
ITALA a supervisora de roteiro
GLORIA a maquiadora
STANIS a celebridade
REN� o diretor
LOPEZ o representante da emissora
DUCCIO o diretor de fotografia
BIASCICA o eletricista-chefe
SERGIO o gerente de produ��o
LORENZO o escravo
Talvez eu volte �s telonas.
- S�rio? - Sim, cansei da televis�o.
Eles querem que eu fique, mas j� me decidi. Vou sair.
E tamb�m porque tenho aquele roteiro. Voc� se lembra?
La Fregnaccia.
Vou mandar produzir. Mas o roteiro � complicado.
- Acho que est� fazendo a coisa certa. - Voc� n�o entendeu, Duccio.
Quero que voc� largue tudo e embarque nesse projeto.
Preciso de voc� nessa aventura.
N�o vai dar, Ren�. Obrigado. � muita gentileza sua.
Prefiro roteiros tranquilos. Esses s�o produzidos, sabe?
Estou bem aqui.
Trabalho pouco e mal e sou bem pago. Para que inventar?
Arianna, querida, ou�a. Irei a Bangkok na pr�xima segunda.
Podemos filmar � noite? O fuso hor�rio seria o mesmo.
Stanis, por favor, n�o podemos mudar.
N�o caio nessa.
Assim que terminar, voc� pode ir.
Ana, hoje voc� tem v�rios close-ups, incluindo tr�s de bom humor,
dois preocupada e tr�s chocada.
Stanis, voc� tem dois telefonemas com sua m�e,
e deve aparentar estar chocado durante os dois.
Mas n�o podemos estar chocados o tempo todo...
Os roteiristas leem o que escrevem?
Ent�o, a cena termina com ele, chocado.
- Sim. - Ele chocado e transi��o para preto.
Vamos. Escreva.
- O que voc� fez? - Apertei F4. � autom�tico.
Deveria reconsiderar.
- Diego? Como vai? - Oi, Ren�.
J� viu o material?
Sim, assisti aos epis�dios que filmou.
Eu pude ver...
que enviou a parte pr�-montada, certo?
Devo dizer que, apesar de tudo...
Quis dizer que... Eu vi que... Estava muito bom.
Digo, apesar de tudo...
Percebo o esfor�o e a destreza...
Al�?
Eu sei que voc� tem talento. O problema � outro.
Vamos!
Gostaria de conversar sobre isso, sabe? Voc� concorda que � melhor...
Al�? Ren�, voc� concorda? Ren�?
Vamos!
Vai dar mais uma chance � televis�o?
Diego Lopez acabou de me chamar de g�nio.
N�o posso desistir dele. Isso partiria meu cora��o.
- La Fregnaccia pode esperar, n�o �? - Claro!
Vamos!
- Oi, Luciano. Como vai? - Bem. � Alessandro.
Ou�a, me fa�a um favor. No meu carro, debaixo do cap�,
h� um caixote de madeira. V� busc�-lo. Depressa.
O que h� com voc�? Est� estranho.
N�o, estou bem. Estou indo.
Vi voc� vagando por a�, todo mal-humorado. Estou certo?
Pode conversar comigo.
� que eu sinto que estou aprendendo
menos do que eu esperava. Me sinto um pouco...
longe do cora��o das coisas. Mas est� tudo bem, eu juro.
Hoje, voc� come�a de verdade. Continue me observando.
O que fa�o, e o que n�o fa�o. O que digo, e o que n�o digo.
Pegue o jeito. Tome notas.
� noite, falaremos disso e voc� vai pegar a ess�ncia, certo?
Certo.
Vamos. Traga o caixote.
Depressa!
Soube do Lopez?
Somos pessoas s�rias aqui.
Somos detalhistas. Nossos padr�es aqui s�o altos.
Lopez me disse: "Elogie a Arianna, diga a ela que � um g�nio!"
E ent�o? Quer um gole?
N�o. N�o, obrigada, s�rio. Temos muito a fazer.
Voc� n�o entende, Arianna.
N�o vou embora. Vou ficar aqui, no comando deste navio.
Vamos, beba.
Um presentinho para os meninos.
Merda.
Um close dela... preocupada.
- F5. - Chocada?
- F4. - Transi��o para preto?
- F7. - Desconcertada?
N�o tem esse?
- Ele n�o tem. - Chocada.
Esta � a caixa postal de Ren�. Deixe seu recado.
"Estamos filmando � noite para encerrar as cenas de Ana Canestri.
"Ela parte amanh� para Buenos Aires.
"Ren� est� euf�rico, oferecendo limoncello caseiro a todos,
"dando tapinha nas costas de todos.
"� muito estranho, pois dizem que est�o prestes a demiti-lo.
"Ele deve estar tentando conquistar a equipe. Talvez seja uma boa ideia."
Doce demais.
Est� ruim, mesmo.
- N�o me importo. - N�o.
Vamos. � caseiro, ent�o � mais legal, n�o �?
Digo, se voc� mesmo faz, fica melhor...
Entendo agora por que Ren� vive falando disso.
O importante � tirar a parte branca.
S� deixe a casca. Entendeu? Experimente.
- Como est�? - Est� bom.
- Nada amargo. - N�o �?
- De quem � esse telefone? - Do Ren�.
Ent�o vou levar para ele.
Preciso elogi�-lo.
- Obrigado. - Seu italiano � bom.
H� quanto tempo est� na It�lia?
- N�o. - Largue isso, Biascica.
Coloque a luz...
no meu rosto.
Preciso parecer mais jovem. Sem rugas.
Quem se livra das rugas? A... maquiadora.
N�o. Voc� consegue, mas precisa... Ele precisa ficar parado.
Voc� pode se mexer um pouco.
Sabe aqueles filmes americanos em que eles fazem...
- Sim. - Voc� j� assistiu?
Ou at� mesmo...
- Um close-up. Certo! - Pare.
- Estou parado. - Certo.
O que ele est� fazendo?
Ren�, todos aqui est�o b�bados.
- Prontos? C�mera! - Pronto. Vamos!
Desculpe, estava tocando.
Vaza.
� como atirar p�rolas aos porcos. Veja.
�timo. Estamos prontos. Estamos prontos!
A situa��o est� fora de controle.
Nossa, Arianna, logo voc�!
Est�o um pouco alegrinhos, mas n�o acho que...
N�o!
Tenho um grande problema com este close-up.
O que houve?
Deixe eu explicar. Preciso saber
o que minha m�e diz ao telefone.
Como vou saber? Mas pare�a chocado. Stanis, voc� nunca deu a m�nima.
Suas express�es chocadas at� agora foram incr�veis. O que houve agora?
- Sabe que fui adotado, n�o �? - Sim.
- Sabe que n�o � verdade? - Sim, eu sei.
Pode me dar uma bebida para deixarmos tudo para tr�s?
- Um pouco... Sim. - Um golinho.
"Ren� parece ter perdido o bom humor
"e parou de distribuir limoncello.
"Nenhuma cena foi filmada hoje.
"Digamos que Ren� n�o parece estar no comando deste navio."
Arianna, ou�a, temos que mandar Stanis para casa.
Ele est� totalmente b�bado. Arranjando confus�o.
H� uma cena em que ele e Ana se encaram...
Precisamos filmar essa.
Ent�o, vamos filmar essa.
Depois Stanis vai embora e nos concentramos em Ana Canestri.
C�mera!
Os Olhos de Meu Cora��o 2. 2275, primeira.
E a��o!
Eu quero voc�.
Corta! Desculpe, Stanis, esta � uma cena silenciosa.
S� precisam se encarar. Haver� m�sica de fundo.
N�o funcionaria. Uma cena silenciosa n�o funciona.
Preciso falar.
Essa cena n�o funciona assim, est� bem?
- Ana n�o me olha com amor. - Por favor...
E? Somos primos. Sou sua prima.
Nesta cena, compartilhamos um luto intenso.
- �? - �.
E? Pode me amar mesmo sendo minha prima.
N�o h� nada mais divino do que transar com sua prima.
Biascica, por favor. O que est� havendo?
N�o curti essa cena silenciosa.
N�o est� rolando. Estou tentando...
E se eu a agarrasse com for�a pelo bra�o?
N�o!
Da �ltima vez que sa� daqui, estava cheia de hematomas.
Se me tocar, vou process�-lo.
Stanis est� totalmente fora de controle.
Ou�a, e se eu olhasse nos olhos dela, lentamente me aproximasse dela
e dissesse algo como...
"Quero voc�, sua putinha." E depois...
Bom. Pode funcionar.
Certo, Stanis, se acha que precisa dizer
esta fala, pode dizer. Sem problemas.
Preciso escrever que h� uma fala improvisada?
N�o.
Vamos filmar uma cena longa, ele para de enrolar, diz a fala dele,
e depois n�s cortamos.
Est� bem.
Aten��o. Quando eu disser a��o, voc�s se encaram intensamente.
Aguardem meu sinal.
E depois pode dizer sua fala. Prontos? C�mera!
Os Olhos de Meu Cora��o 2. 2275, segunda.
Tomada!
Diga a fala quando eu der o sinal, Stanis.
A��o!
Eu quero voc�, sua putinha.
Corta! Muito bem!
Ficou �timo.
Mas...
Putinha...
Arianna, vamos filmar o close da Ana e depois vamos todos para casa.
Por que duas horas antes?
Alfredo...
� assim que vai ser hoje.
�s vezes os atores n�o est�o no clima.
Falo com a produ��o. Sem problemas.
Pronto, � o Lopez. Aposta quanto?
Agora ele vai dizer: "G�nio do s�culo!" Voc� sabe como �...
Diego? Al�?
Ele est� sem sinal e insiste em ligar.
Ele deveria ir dormir, ele pode!
Caixa postal de novo.
S� queria avisar que ainda estou na festa do De Laurentis.
� um t�dio.
As mulheres s�o terr�veis.
Olha, eu pensei em ir at� a�, dar uma passadinha,
porque se eu ficar aqui mais um minuto, vou me matar.
Eu n�o sei como fez isso, n�o sei como inventou.
- Adorei. - Voc� gostou.
- Adorei. Acabe com esse. - J� tenho o meu.
Pessoal, chega! Precisamos trabalhar.
Vamos filmar um close-up e encerrar.
- Vamos. Beba um gole. � bom. - N�o, mais tarde.
- � digestivo. - J� chega.
- � digestivo. - Est� perdendo. O que achou, Itala?
Que seja...
- Venham, vamos filmar agora. - Ela est� chateada.
- � bom, n�o �? A��o! Desculpe. - Vamos filmar?
Vai!
- Estou preocupado com o Conde. - Sim. Acho que sim, n�o �?
N�o se preocupe com isso. Olhe para frente e pense. Entendeu?
Venham. Vamos fazer isso. Podemos fazer isso e dar o fora daqui?
Por que Stanis ainda est� aqui? Ele j� terminou...
J� disse, mas ele n�o vai embora.
Est� me olhando feio. Fiz algo de errado?
N�o.
- N�o. - N�o, claro que n�o.
- Ent�o por que me olhou feio? - N�o olhei...
Ele n�o olhou... Ele disse que n�o olhou feio.
N�o, ele n�o est� te olhando feio.
- N�o. - Ele est� te olhando com aquela cara.
- A porra de cara que ele tem. - A porra de cara! Claro.
- Cara de julgamento. - Sim.
Porque ele nos despreza.
- Despreza! - Entendeu?
Obrigado, beleza. Entendi.
Vamos conversar disso l� fora.
- Conversar sobre o qu�? - Sobre eu estar com calor.
Vamos conversar l� fora.
- Ent�o, Stanis. - Ent�o...
Desculpe se o desrespeitei. N�o foi a inten��o.
Estou com calor. Vamos l� fora.
Stanis, tem um carro l� fora esperando por voc�.
Para lev�-lo para casa. V�.
- Tem um carro. - � um homem de sorte, meu amigo.
- Tem um carro. - Enfim, isso n�o acabou.
- Tem um carro. - Sim, um carro.
Tem um carro.
Tem um pouco mais deste limoncello?
Diga ao Ren� que � muito bom.
N�o, o limoncello acabou.
Lopez!
Agora vamos filmar os closes de Ana e depois vamos todos para casa.
Diana?
Quem � Diana?
Merda!
- Ren�! - Diego, meu amigo!
- Est�o filmando sem voc�? - N�o, eles...
A efici�ncia da minha equipe... S�o detalhistas. Imagina!
- Venha. - Bobagem.
� bobagem.
Diego, vai ach�-los um pouco aborrecidos, um pouco cansados.
Sabe como �, est� tarde e est�o cansados.
Mas...
Lopez!
Merda, o Lopez est� aqui!
- Cad� o Lopez? - Lopez!
Lopez!
- Oi, Lopez. - Sim. Oi.
Lopez! Ent�o, queria lhe dizer uma coisa.
Lembra daquela hist�ria ruim
das horas extras de abril? Para Libeccio?
Sim.
N�o quero mais aquele dinheiro. N�o faz mal. � s�rio.
Boas not�cias. Que al�vio.
Pessoal, venha aqui! Todos juntos.
- Preciso falar sobre o dolly. - Est� bem.
- Preparem o dolly. - Como queremos fazer?
- Usamos o trilho. - O trilho!
Ent�o, o dolly vai... Onde � que ele vai?
- Na Ana! - Ana tem falas.
Ana tem falas? � claro.
Claro que ela tem! Que tipo de dolly seria sem falas?
- Legal, cena emotiva! - Isso mesmo.
- Emotiva. Entendeu? - �timo. Bem coisa de televis�o.
Todos est�o prontos para o dolly e para a cena emotiva.
Perfeito. Ent�o, agora... Me d� licen�a por um segundo, Diego.
Sim.
- Vem c�. Escreva a cena emotiva da Ana. - Cena... o qu�?
Quatro falas de impacto, sobre qualquer coisa.
Na velocidade da luz, est� bem?
Ou expulso voc� do set.
Pode deixar, Ren�.
Itala, pode me dar a cena para eu ler?
Eu tamb�m estava procurando por ela, mas...
N�o sei, est� uma bagun�a aqui.
As pessoas colocam coisas, levam coisas...
N�o consigo achar.
N�o est� aqui. N�o acho.
Ou�a, quando a cena acabar, preciso de um minuto do seu tempo.
Ren�?
Sim. Preciso checar o que est� acontecendo.
� �pico, � quase medieval. Digo...
Geralmente eu trago o caf�. N�o � como se...
Pode ler?
Posso. � muito...
Eu... Preciso mesmo dizer essas coisas?
Sim. Confie em mim, ser� �timo. Vamos, d� a volta por ali.
Venham, vamos filmar! C�mera!
Ent�o, c�mera! N�o, eu j� disse isso.
Ou�am. No meu tr�s, prossigam com a cena emotiva.
Ent�o, um... dois... tr�s!
Quando povos irm�os n�o falam uns com os outros, quando sorrisos
s�o substitu�dos por armas amea�adoras apontadas uns aos outros,
ent�o aqueles que conhecemos como os melhores anjos da harmonia falham,
dando espa�o aos cavaleiros negros da destrui��o e do luto.
E corta!
Como foi?
Bonita cena. Bonita.
N�o me lembro dela, mas foi muito bonita.
E tamb�m vi os epis�dios. Muito bons. �timos.
Ent�o?
O que est� rolando aqui?
Me diga, o que est� rolando?
O que me incomoda de verdade
� que voc� tem o que � preciso para ser um grande diretor.
Sim, porque � um espertinho,
� manipulador, mas � simp�tico,
o que � crucial neste pa�s! E voc� sabe at� filmar!
Mas voc� n�o tem prote��o pol�tica.
E agora?
Um telefonema, apenas um telefonema...
O que precisaria para fazer um telefonema?
Eu tinha prote��o. Voc� se lembra, n�o �?
Mas quem?
Andrea Vetuschi?
Por favor, ele � um idiota!
N�o conseguiu ser eleito nem em Forl�!
Bem, voc� j� entendeu. Veja o que consegue fazer.
Agora, preciso ir.
Est� ficando tarde.
- Voc� vem comigo? - N�o.
"Posso aprender muito com o Ren�,
"porque se pode aprender muito at� com homens desesperados."
Legendas: Carolina Iodes
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