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ANO ZERO A MORTE SILENCIOSA DO CAMBOJA
�s sete e meia da manh� do dia 17 de Abril de 1975
a guerra no Camboja terminou.
Foi uma guerra �nica
pois nenhum pa�s j� experimentou
um bombardeamento t�o concentrado.
Sobre talvez a terra mais suave e graciosa de toda a �sia
o Presidente Nixon e o Sr. Kissinger
despejaram cem mil toneladas de bombas,
o equivalente a cinco
bombas nucleares de Hiroshima.
O bombardeamento foi uma decis�o pessoal, ilegal e secreta.
Eles bombardearam o Camboja, um pa�s neutro,
de volta � idade da pedra.
E eu digo Idade da Pedra em sentido literal.
Pouco depois do amanhecer do dia 17 de Abril
os bombardeamentos pararam
e houve sil�ncio.
Ent�o da selva chegaram os vitoriosos Khmer Vermelho
cujo poder cresceu fora de qualquer propor��o.
Eles entraram na capital Phnom Penh
uma cidade que a maioria deles nunca vira.
Eles marcharam em fila indiana pelas
longas avenidas ainda com tr�fego.
Eles se vestiam de preto e eram na maioria adolescentes
e as pessoas saudaram-nos
nervosamente, ingenuamente.
Afinal,
o bombardeamento e a luta
tinham terminado finalmente.
O horror come�ou quase imediatamente.
Phnom Penh, uma cidade de dois milh�es e meio de pessoas
foi violentamente esvaziada numa quest�o de horas.
Doentes e feridos sendo arrastados das camas de hospital,
crian�as � beira da morte sendo
transportadas em sacos de pl�stico,
os idosos e aleijados sendo despejados na beira da estrada,
e todos eles marcharam sob a mira de armas para o campo e para
uma sociedade totalmente nova
como nunca vimos.
Os novos governantes do Camboja chamaram ao ano de 1975
o Ano Zero,
o nascimento duma era onde n�o haveria fam�lias
nenhum sentimento, nenhuma express�o de amor ou carinho,
sem medicamentos, sem hospitais, sem escolas, sem livros,
sem aprendizagem sem feriados, sem m�sica
sem can��es, sem correios, sem dinheiro
apenas Trabalho e Morte.
Camboja, onde fica o Camboja talvez alguns perguntem.
Ao contr�rio de seu vizinho Vietn�, o Camboja
foi praticamente selado por quatro anos,
est� sofrendo invisivelmente.
Num mundo saturado de not�cias, n�o
tem havido not�cias do que foi feito
a mais de sete milh�es de pessoas
das quais, pelo menos dois milh�es
est�o desaparecidas, tudo indica assassinadas.
� cerca de um ter�o de toda a popula��o
de Birmingham, Manchester e Londres
exterminados.
Para mim vir aqui � como
trope�ar em algo que eu nunca poderia imaginar
e o que se segue � o primeiro relato completo em v�deo
feito por ocidentais
das cinzas de uma terra suave,
e eu tenho que dizer que h� cenas que
podem perturbar alguns de voc�s.
Isto � Phnom Penh
outrora uma cidade moderna e movimentada
maior que Amsterdam ou Bruxelas.
Por quatro anos esteve silenciosa,
abandonada
como se, na esteira duma guerra nuclear
que apenas deixou os edif�cios.
E assim � como eu a lembro,
a capital de uma terra de abund�ncia
com mercados por toda a parte,
uma terra que produzia
tr�s colheitas anuais
e uma variedade de frutas como n�o havia na �sia.
Os chineses, na busca dum superlativo
costumavam dizer
"t�o rico como o Camboja".
Acima de tudo um homem refletia essa imagem,
Norodom Sihanouk
autodenominado "Deus-Rei"
amante de jazz, produtor de cinema,
conspirador e demagogo.
Sihanouk preservou a independ�ncia do Camboja
com extremo afinco.
Em 1970
ele foi derrubado no caos que se
seguiu ao bombardeamento americano.
Na primavera de 1969, avi�es B52 americanos come�aram
o bombardeamento secreto do neutro Camboja.
Estes documentos militares ultrassecretos obtidos
sob a prote��o do Ato de Liberdade de Informa��o
eram parte de um encobrimento que foi o in�cio do Watergate.
Os pilotos foram obrigados a jurar n�o
dizer nem mesmo aos seus superiores,
e os seus registros foram falsificados.
O objetivo oficial do bombardeio era
acabar com a base vietcongue no Camboja,
Uma base que apenas existia na
imagina��o dos generais americanos.
O objetivo do Presidente Nixon era mostrar
aos comunistas vietnamitas apenas o quanto duro
ele poderia ser.
Uma pol�tica que ele certa vez descreveu como
a teoria de guerra do "Homem Louco".
Os cambojanos que morreram foram chamados
de "danos colaterais" e as suas aldeias queimadas foram chamadas
de "fogo amigo".
O Pent�gono descrevia o povo cambojano como d�cil e passivo,
em quem n�o se podia confiar para atuar de forma
positiva para o benef�cio das pol�ticas americanas.
Em 1970
os Estados Unidos invadiram o Camboja.
Um membro da equipe do Dr. Kissinger
descreveu como a invas�o foi lan�ada:
Nixon estava assistindo ao seu filme favorito "Platoon",
cuja guerra heroica parecia fortalecer sua tenacidade.
Kissinger tinha comentado sobre as bebedeiras de Nixon.
Pouco antes da invas�o
Nixon, que estava b�bado
falou com Kissinger ao telefone
e comentou "se isso n�o funcionar
ser� teu traseiro, Henry!"
Kissinger uma vez descreveu Nixon
como impr�prio para ser presidente.
Ele tamb�m o chamou de "Cabe�a Dura".
Entre os dois come�ou a destrui��o desse
povo d�cil e passivo
milhares de quil�metros de dist�ncia, aqui no Camboja.
Claro que Nixon foi mais tarde julgado,
n�o pelas mortes no Camboja
mas por um assunto dom�stico chamado "Watergate".
Kissinger recebeu o Pr�mio Nobel da Paz...
Do inferno de bombas surgiu Pol Pot,
um antigo monge budista,
e o Khmer Vermelho cuja revolu��o nunca
tinha desfrutado de apoio popular at�
a teoria do "Homem Louco" de Nixon.
O bombardeamento perturbou o delicado
equil�brio entre mon�rquicos, republicanos
e comunistas
e desencadeou uma guerra que causou ao
menos um milh�o de mortos e feridos
e rasgou o tecido social do Camboja.
Quando vim ao Camboja em 1967
Phnom Penh era a cidade mais bonita no sudeste da �sia.
Talvez seja f�cil demais para um estrangeiro
romantizar tal lugar,
mas o voo entre o Rio Mekong e o neur�tico Saigon
reafirmou a cren�a de que se os ex�rcitos estrangeiros
deixassem em paz este povo
eles construiriam
a sua pr�pria civiliza��o
e alcan�ariam a sua pr�pria prosperidade.
Certamente que havia feudalismo e corrup��o,
mas n�o havia guerra,
n�o havia massacres, n�o havia napalm,
e a fam�lia cambojana era uma fortaleza sem igual.
E agora, agora esta cidade deliciosa
� um destro�o dessa vis�o,
gangues de catadores, na sua maioria crian�as
refugiadas em casas vazias, escrit�rios,
escolas, cinemas, parques, museus.
Em quase todo o lado n�o h� eletricidade
nem creches(?).
O abastecimento de �gua polu�do pelos corpos de incont�veis
homens, mulheres e crian�as assassinados e torturados.
E a selva reclamou as suas casas...
Isto era a biblioteca nacional.
Quase como um s�mbolo, o Khmer
Vermelho converteu-o em um chiqueiro
e queimou as suas caixas e arquivos.
A partir do Ano Zero
todo o conhecimento passado era ilegal.
E aqui est� uma das mais grotescas ironias.
O Khmer Vermelho
baniu todas as formas de dinheiro
e, no entanto, eles imprimiram
milh�es destas novas notas de banco
e pouco antes dos vietnamitas se
dirigirem para a cidade no ano passado
o Khmer Vermelho explodiu o Banco Nacional
e as chuvas da mon��o
espalharam todo esse dinheiro
atrav�s da cidade,
e hoje uma cidade que n�o tem nada
est� literalmente cheia de dinheiro,
todo ele sem valor.
- O senhor � o representante da Unicef, voc� j� viu a situa��o
aqui no Camboja. Quantas pessoas est�o amea�adas
pela fome e desnutri��o?
- O Governo requisitou ajuda
para duas milh�es
e duzentos e cinquenta mil pessoas.
- Que est�o amea�adas pela fome? - Sim.
- Esta � a dimens�o do problema.
- Deixe-me dizer-lhe algo:
- No dia 18 de julho eu fui a Kampong Speu
e visitei o Hospital.
- Uma das pobres barracas onde havia praticamente nada
j� havia 54 crian�as morrendo.
- Uma delas estava sentada
no corredor da sala
com pernas inchadas porque estava
faminta, ela n�o tinha for�as
para olhar para mim nem para ningu�m,
ela estava apenas esperando a morte.
- Dez dias mais tarde quatro destas crian�as
estavam mortas.
- E eu sempre recordei isso pensando "eu n�o fiz
nada por estas crian�as porque n�o t�nhamos nada."
No in�cio de Julho o governo cambojano
fez um pedido de 100 mil toneladas
de arroz e suprimentos m�dicos �
Cruz Vermelha Internacional
e � Unicef. Aqui na cidade Kampong Speu
estas pobres colheres de arroz s�o tudo o
que essas pessoas v�o ter durante um m�s.
E esta comida vem de outro pa�s empobrecido, o Vietn�.
At� meados de outubro a Cruz Vermelha Internacional
e a Unicef tinham enviado 200 toneladas de ajuda
que, efetivamente, n�o s�o nada.
Esta � a hemorragia humana do Camboja,
as pessoas na estrada, famintas, doentes,
deslocadas,
eles enchem as estradas tentando encontrar
seu caminho de casa nas aldeias,
muitas das quais foram destru�das pelo Khmer Vermelho.
Cada fam�lia que conheci
tinha perdido pelo menos seis membros,
assassinados ou mortos pela fome.
O Khmer Vermelho elaborou uma constitui��o
para o novo Camboja "democr�tico",
o artigo 20 da Constitui��o
dizia que qualquer cambojano
tinha o direito de culto de acordo com qualquer religi�o
e que os cambojanos tinham o direito de n�o adorar
de acordo com qualquer religi�o.
Mas qualquer religi�o que fosse
errada e prejudicial para o Camboja
era absolutamente proibida.
Isso � o que dizia o Mao, cujos
ensinamentos o Khmer Vermelho seguiu at�
aos extremos mais b�rbaros e que
poderia ser considerado uma contradi��o.
A maioria dos cambojanos s�o budistas
e o budismo inspira os gentis os passivos
e venera a harmonia com outros seres humanos e as suas terras
e n�o o dom�nio sobre eles.
O Khmer Vermelho preparou-se para acabar com esta tradi��o
quase da noite para o dia.
Eles assassinaram monges e todos aqueles encontrados orando,
eles saquearam as igrejas e claro,
lan�aram o mesmo veneno contra todas
as outras religi�es.
Onde me encontro
existia uma magn�fica catedral cat�lica romana do s�culo 19,
e isto � o que resta...
Parece que Pol Pot se imaginou como
um herdeiro do Imp�rio de Angkor Wat
cujos reis governavam destes templos, no d�cimo s�culo.
Na ideologia do Khmer Vermelho
o comunismo era raramente mencionado.
Em vez disso foi o partido Angkar, ou Organiza��o,
que exigia a escravid�o em uma sociedade
agr�ria sem cidades ou m�quinas.
Os chineses apoiaram Pol Pot e a sua
ilus�o de ser outro Mao Tse Tung pois viram
o Camboja como uma tigela de arroz, uma futura col�nia,
como j� aparece em alguns mapas chineses.
Neste raro filme do Khmer Vermelho
vemos as pessoas como escravos,
at� mesmo a palavra dormir foi banida.
A partir do Ano Zero apenas descansar
era permitido.
As pessoas viviam em barracas sem paredes,
fam�lias foram divididas,
maridos e esposas poderiam
encontrar-se apenas uma vez por m�s.
"Um rapaz sorriu para mim enquanto trabalh�vamos"
disse-me uma mo�a
"e foi morto!"
- Durante a esta��o das chuvas e durante
a esta��o seca todos os dias t�nhamos de nos levantar
�s 3 da manh�
e trabalhar at� �s 11 da noite.
- Que tipo de comida lhes davam?
- Apenas uma tigela de arroz
e �s vezes arroz.
- O que aconteceu com sua fam�lia durante os quatro anos?
- A minha irm�
e seu marido e seus filhos foram mortos.
- Os meus dois irm�os
meu irm�o mais velho e seus cunhados foram mortos.
E foi aqui que alguns morreram,
uma escola foi transformada em um Auschwitz asi�tico.
Como os nazis, o Khmer Vermelho fotografava suas v�timas
quando eram trazidas para o acampamento
e quando estavam sendo torturadas
e enforcadas, afogadas,
desmembradas e eletrocutadas.
S� neste campo 12 mil pessoas morreram dessa forma.
- Entre 1975 e 1976
todos os dias matavam entre 10 e 50 homens
e de 1977 at� 1978
matavam entre 100 e 150 homens por dia.
- O que eles lhe fizeram aqui?
- Bateram-me na cabe�a 50 vezes com
um peda�o de pau deste tamanho.
- Que outras coisas lhe fizeram?
- Prendiam a minha m�o na divis�o
e levantavam as minhas unhas para ser muito doloroso...
- Eu me esqueci de tudo,
n�o sei o meu nome, eu n�o sei meu nome
- Qual � meu nome? Quem � minha esposa?
Pessoas eram mutiladas em camas de ferro, o
seu sangue e cabelo ainda est�o no ch�o:
antigos funcion�rios p�blicos, soldados, professores,
estudantes, atores, t�cnicos.
Esta � a foto de uma v�tima encontrada quando
os vietnamitas descobriram o acampamento.
Uma Gestapo denominada S21 torturava e
assassinava todos os designados como sub-pessoas,
virtualmente qualquer pessoa que vivesse numa cidade
que tivesse habilita��es modernas,
que conhecesse estrangeiros.
Por exemplo, apenas um advogado foi encontrado vivo.
- Eles tamb�m matavam mulheres e crian�as?
- Primeiro matavam as crian�as, depois
as esposas e depois os maridos.
Estas s�o tropas do Khmer Vermelho capturadas.
Todos eles tiveram parte em assassinatos em massa.
- Porque matavam aquelas pessoas?
- Ele disse que o regime de Pol Pot
ordenou a matan�a dessas pessoas.
- Pode perguntar-lhe quantas pessoas mataram?
- Para este grupo 250.
- Ele matou 250? - Sim.
- E o outro homem?
- Ele matou 250.
- Quantos eram no grupo?
- 8 pessoas em cada grupo.
- Ent�o, 8 pessoas mataram 250 pessoas
e 8 pessoas mataram 2500.
- 50 mataram 2000.
- Poderia perguntar a este homem
o que ele pensava enquanto matava todas aquelas pessoas
que estava matando outros seres humanos e compatriotas?
- Ele disse que se n�o matasse aquelas
pessoas, o Alto Comando o mataria.
- Estes milhares de pessoas eram simplesmente
camponeses, mulheres e crian�as?
- A maioria
das pessoas que mataram eram de todos os estratos,
da classe m�dia, as mulheres e crian�as,
iam de alguns anos at� 50.
- Ele tem filhos?
- Ele tem um filho.
- O seu filho est� vivo?
- Sim, est� vivo.
- A minha esposa,
o meu filho, a minha filha, todos desapareceram.
- Foram assassinados? - Sim.
- Quantas crian�as mataram?
- 5 crian�as.
- Como eles morreram?
- Eles n�o lhes deram nada para comer.
Morreram de fome...
- N�o lhe deram nada, nada de arroz, nada...
- Voc� � um dos oito
que sobreviveu, voc� estava aqui no dia
da liberta��o.
- O que voc� sentiu naquele dia?
- Quais foram os seus pensamentos
nesse dia de liberta��o?
- O momento da liberta��o
para mim pessoalmente
fiquei muito grato,
porque eu n�o sabia quando eles tirariam
minha vida, se naquela noite ou no dia seguinte.
Dos 12 mil que morreram neste campo de exterm�nio,
estas oito pessoas foram encontradas vivas.
Um homem � escultor, outro pintor,
eles sobreviveram porque foram for�ados a trabalhar
fazendo pinturas e esculturas de Pol Pot.
"Nunca esquecerei o dia 17 de abril 1975"
disse o Senhor Precht Saren, um professor.
"Eu estava na minha sala de aula
quando o Khmer Vermelho entrou
e nos disse a todos para marcharmos
para o campo.
As crian�as choravam.
Eu lhes perguntei se elas poderiam primeiro ir
para suas casas para junto de suas fam�lias.
Eles disseram que n�o.
A maioria das crian�as morreu de exaust�o
ou fome.
Eu nunca mais vi a minha pr�pria fam�lia novamente."
Antes do Ano Zero
haviam 990 mil crian�as nas escolas prim�rias
no Camboja.
Destas, 670 mil est�o desaparecidas.
Aqui est�o 558 pessoas
e este � o Hospital Central de Phnom Penh.
A maioria delas s�o crian�as e beb�s.
Est�o morrendo porque n�o t�m
praticamente nada de valor para comer,
nada de �gua fresca, nada de vitaminas,
nenhum leite, nenhum medicamento,
nada de antibi�ticos
e nem mesmo ataduras suficientes.
Os gritos de agonia de um menino podiam ser ouvidos na rua.
Levantando e caindo em agonia. Est� faminto.
Esta manh� fui abordado por um homem da
Cruz Vermelha Internacional. Ele disse
que estava desesperado.
Ele me perguntou se eu tinha algum
contato em um governo qualquer
que pudesse enviar um Hercules C130 para ajuda humanit�ria.
Ele disse que "apenas um desses avi�es de
carga que transportam grandes quantidade
de medicamentos e comida, salvaria milhares de vidas."
"Mas porqu�?" perguntei. "N�o poderia
a Cruz Vermelha Internacional
organizar ela pr�pria um desses avi�es?"
Ele respondeu: "Porque os meus diretores
em Genebra ainda est�o considerando o
enquadramento geral de um plano de ajuda para o Camboja."
Ele continuou dizendo:
"Olhe, este � o Sudeste Asi�tico,
h� pol�tica envolvida, voc� sabe"
O que ele quis dizer foi que a Organiza��o
das Na��es Unidas, incluindo a Gr�-Bretanha,
ainda reconhece o derrotado regime
assassino do Khmer Vermelho.
E � dif�cil conseguir ajuda oficial
para pessoas cujo novo governo
ainda n�o existe diplomaticamente.
Por outras palavras, tr�s milh�es de pessoas
est�o come�ando a morrer de fome no Camboja
e a Cruz Vermelha Internacional e as
ag�ncias humanit�rias e os governos
est�o fazendo praticamente nada
porque os novos l�deres deste pa�s
ainda t�m de ser reconhecidos e aprovados.
� claro que se voc� est� em Genebra
ou Nova lorque ou em Londres
voc� n�o ouve os gritos do menino que mencionei.
Este � Kanh Sok, tem 10 anos,
os seus pais est�o mortos,
foi encontrado faminto numa lixeira.
No dia em que o filmamos
ele precisava desesperadamente de penicilina
e leite, e n�o havia dos quais n�o havia nada no hospital.
Voltamos no dia seguinte para v�-lo
e ele estava morto.
Durante o tempo da nossa filmagem
haviam apenas dois m�dicos ocidentais que
haviam chegado ao Camboja para ajudar.
- M�dicos neste hospital
que parece estar cercado
de todos os problemas imagin�veis...
- Por onde come�amos?
- O grande problema hoje aqui
no Camboja � a m� nutri��o
entre toda a popula��o especialmente entre as crian�as.
- Qu�o s�rio �?
- Afeta a maioria das crian�as?
- Sim, a maioria.
- Esta menina parece estar em um estado terr�vel...
- Temos duas crian�as
com m� nutri��o avan�ada, um abd�men inchado
e membros muito finos.
- Que idade tem?
- Um ano.
- � um problema terr�vel
porque esta popula��o foi submetida
durante 4 anos a um regime
de m� nutri��o e trabalho muito duro
e os resultados est�o � vista.
- As condi��es psicol�gicas eram terr�veis,
as fam�lias eram sistematicamente separadas,
n�o tinham qualquer possibilidade
de ter cuidados de sa�de.
- O que tem este menino?
- M�-nutri��o e doen�as de pele
no corpo todo. - Que idade tem?
- Tem 12 anos.
- Este menino �, literalmente, pele e osso.
- O que voc� pode fazer para salv�-lo?
- Consegue salv�-lo?
- Sim, � poss�vel. Mas
provavelmente este menino
tem outras doen�as e � necess�rio fazer exames
de laborat�rio e raio X
para identificar todas as doen�as.
Mas todos os equipamentos modernos deste
hospital foram destru�dos pelo Khmer Vermelho
que proibiu todas as formas de medicina moderna
e destruiu 30 hospitais e cl�nicas.
Havia 550 m�dicos no Camboja, 48 sobreviveram.
- N�o h� cambojanos que n�o estejam doentes,
todos tem alguma doen�a.
- � uma verdadeira emerg�ncia.
- � uma verdadeira emerg�ncia conseguir comida e medicamentos
para alimentar e tratar toda esta
popula��o doente.
- Crian�as e adultos est�o morrendo
de doen�as inadmiss�veis
nos dias de hoje.
- Aqui existem milh�es de
pessoas que est�o na mesma situa��o
dos refugiados.
- Voc� est� dizendo que por causa da atitude do Ocidente
em rela��o a esses "refugiados", que
eles n�o est�o permitindo que a ajuda chegue ao Camboja?
- Sim, � o mesmo que
existe um corte nas expedi��es de leite para o Vietn�.
- Existe falta de assist�ncia para os cambojanos
da mesma maneira. � claro!
- A Comunidade Econ�mica Europeia suprimiu
recentemente
assist�ncia alimentar ao Vietn�, e eu penso que
� a mesma coisa.
- Uma situa��o inimagin�vel � que os Vietnamitas,
que est�o numa situa��o muito dif�cil
a n�vel alimentar e m�dico,
eles pr�prios d�o alguns medicamentos
e alimentos aos seus vizinhos.
Este � um comboio alimentar do Vietn�,
a �nica linha garantida de salva��o para o Camboja.
Embora o Vietn� enfrente a fome devido a trinta anos de guerra,
enviou mais de 25 mil toneladas de alimentos para o Camboja.
Os vietnamitas conseguiram fazer isso
pedindo a cada fam�lia das prov�ncias do sudoeste
para doar 3 quilos de arroz. Em contraste
os governos ocidentais enviaram apenas uma ajuda insignificante.
As principais ag�ncias,
a Cruz Vermelha Internacional e a UNICEF,
fizeram exig�ncias para a sua proposta de caridade
tais como o direito de fornecer para o que eles chamam
"o outro lado". Observadores ocidentais que
atravessaram a fronteira com o Camboja
viram o que isso significa na realidade.
Significa alimentar n�o civis, n�o mulheres e crian�as,
mas o que resta do ex�rcito genocida de Pol Pot.
Por este privil�gio as ag�ncias t�m retido ajuda a 90%
das pessoas no Camboja.
Fornecer ao Khmer Vermelho est� em linha
com o apoio diplom�tico a Pol Pot.
No m�s passado, a Assembleia Geral da ONU
foi testemunha do extraordin�rio
espet�culo das democracias ocidentais,
incluindo a Brit�nica e a Americana
votando para continuar o
reconhecimento de um regime morto
que eles pr�prios reconhecem como
o mais genocida desde Hitler.
A raz�o � esta:
O Ocidente n�o deseja perturbar o seu mais
novo aliado e parceiro comercial: A China.
A China � tamb�m o principal apoio de Pol Pot.
Uma organiza��o brit�nica, Oxfam,
n�o condicionou sua ajuda a nenhuma diretriz pol�tica
e o seu sucesso em alimentar alguns dos famintos
envergonha todos aqueles governos que
falam sobre o equil�brio do poder global
e todas essas ag�ncias humanit�rias
que se recusam a agir sem esta caravana de condi��es.
Em 15 de Outubro o Diretor Geral
da Oxfam Brian Walker disse em Londres
"Tivemos apenas que completar uma coopera��o
honrosa entre o Governo do Camboja
e os Vietnamitas.
Quando sa� do Camboja", disse Walker,
"a entrada total da ajuda ocidental ao longo
de nove meses subiu para 200 toneladas de comida.
Eu n�o vejo como algu�m pode se orgulhar dessa situa��o."
- O que � Antraz e o que ela faz?
� uma doen�a infeciosa provocada por um bacilo.
- E como se trata? - Com penicilina.
- Existe penicilina neste Hospital?
- N�o, existe alguma, mas n�o o suficiente.
- Se as pessoas n�o tiverem penicilina,
quanto tempo demora at� morrerem?
- Duas semanas ou um m�s.
- Isso diz muito sobre os problemas deste pa�s.
- Uma simples doen�a evit�vel
que precisa apenas de penicilina.
- Esta � uma doen�a que
geralmente nunca se v� na Europa,
que normalmente apenas se v� em animais.
- Esta crian�a, o que tem?
- Ela sofre de
Antraz na face devido
a malnutri��o
de primeiro grau. - Porque tem a face inchada?
- Por causa do Antraz.
- Por isso ela tem dificuldade em comer?
- Sim.
- O que lhe acontecer�?
- Sem tratamento morrer� na
pr�xima semana.
Os poucos medicamentos que chegaram ao
Hospital apenas prolongam a agonia.
Todas as manh�s o m�dico vietnamita deve decidir
quem vai viver um pouco mais
e quem vai morrer.
A popula��o est� traumatizada,
existe um aborto por cada tr�s gravidezes normais
e pelo menos 50% das mulheres
perderam seu ciclo menstrual completamente.
Estas pessoas t�midas nunca costumam mendigar
mas tal � a sua agonia
que esta jovem nos implorou por medicamentos
antes de morrer.
Estas crian�as est�o no final do processo
iniciado por pol�ticos mesquinhos
que tomaram as suas decis�es a uma
grande dist�ncia dos resultados da sua selvageria.
O seu estilo pode ser diferente de Pol Pot,
mas o efeito � o mesmo.
"As bombas caiam como chuva"
escreveu uma crian�a em 1973,
um ano em que a quantidade de bombas lan�adas sobre o Camboja
ultrapassou metade da quantidade lan�ada sobre
o Jap�o em toda a Segunda Guerra Mundial.
O pre�o de cada vida Cambojana foi ali�s
de 100 d�lares de compensa��o.
William Shawcross, o autor brit�nico,
entrevistou o pr�ncipe Sihanouk no ano passado.
"Dois homens" disse Sihanouk
"s�o os respons�veis pela atual trag�dia no Camboja:
O senhor Nixon e ou doutor Kissinger.
Ao expandirem a guerra at� ao meu
pa�s, mataram muitos americanos
e muitas outras pessoas.
E criaram o Khmer Vermelho.
As pessoas da cidade de Kon Lon Sau nas margens do Rio Mekong
regrediram quase at� � Idade da Pedra.
Antes da teoria de guerra do "Homem Louco"
e antes de Pol Pot,
este era um lugar de fazendeiros pr�speros,
artes�os, engenheiros e professores.
Todos os antigos edif�cios de tijolo e pedra foram destru�dos
e as pessoas agora vivem em barracas cobertas de palha.
Restam poucos homens adultos para
trabalhar nos campos e a ra��o de arroz �
de 250 gramas por pessoa por m�s.
Uma jovem descreveu como 16 membros de sua fam�lia
foram executados num dia.
"Eles foram declarados improdutivos" disse ela
"eles foram mortos com paus e as gargantas cortadas
um por um.
O meu beb� foi deixado no calor para morrer.
A minha cunhada foi morta porque alguem
disse que ela era bonita demais."
Os vietnamitas foram condenados por
expulsar os assassinos do Khmer Vermelho.
Foram os tanzanianos condenados por expulsar
o hediondo Idia Min? Claro que n�o.
Deve ser explicado
porque os vietnamitas vieram para o Camboja.
Depois de 1975
o Vietn� estava sob constante ataque do Khmer Vermelho.
O massacre das aldeias vietnamitas fronteiri�as
foi apoiado por 10 mil chineses
e a sacra trindade de Pol Pot,
China e Estados Unidos diziam que o
Vietn� era um agente da R�ssia.
Algu�m que conhe�a os vietnamitas
ferozmente nacionalistas que se aguentaram
praticamente sozinhos contra invasores durante 30 anos
sabe que isso � ridiculamente falso.
Mas as amea�as chinesas e a presente nega��o de ajuda
est�o empurrando tanto o Vietn� como o Camboja
para os bra�os da Uni�o Sovi�tica.
Tanto os cambojanos como os vietnamitas
est�o lutando por sua sobreviv�ncia
como nunca.
Quando o Khmer Vermelho recuou ante os Vietnamitas
eles explodiram muitos diques e barragens tradicionais
e para somar ao apocalipse
as chuvas t�m sido implac�veis este ano.
Visto do ar a paisagem infinita do sudeste
asi�tico, uma manta de retalhos de campos,
mal se distingue, nada se move,
como se a grande humanidade da
�sia tivesse parado na fronteira.
Phnom Penh � como um sonho,
nada parece ecoar os dias de paz.
Voc� acordava no Hotel Royal, ligava o r�dio
e provavelmente ouviria a voz estridente do pr�ncipe Sihanouk
lendo um artigo sobre os excessos financeiros da
fam�lia real. Os domingos eram alegres,
especialmente o desfile pela Avenida Moneybong
os parass�is, as meninas com (?),
as vestes cor de a�afr�o, as barracas de sorvete,
os estrangeiros, as fam�lias bem alimentadas,
o cuidado com as crian�as.
Estes s�o os primeiros brinquedos que estas crian�as
viram. Neste orfanato
com 400 crian�as
h� apenas 22 crian�as entre um e cinco anos.
Durante os anos do Khmer Vermelho poucas gravidezes
chegaram ao fim e poucos beb�s sobreviveram.
Estas crian�as foram encontradas na floresta
alimentando-se de erva e plantas venenosas.
Elas n�o s�o apenas orf�s,
elas perderam a sua identidade.
Finalmente normalidade
a primeira escola em Phnom Penh a reabrir.
Como os meninos com os brinquedos
estas crian�as s�o as sortudas,
tem papel e l�pis.
Em qualquer outro lugar n�o h� nenhuma dessas coisas.
"Eu lembro-me" disse a crian�a
"Tenho 12 anos de idade."
Perguntei-lhe "Qual � o teu nome?"
Respondeu "Eu esqueci."
Eu disse "Esqueceu?" - Sim
"Onde est�o os teus pais?"
"Esqueci."
"Penso que est�o mortos."
- Muitas pessoas morreram
mas h� pessoas vivas
lutando por sua sobreviv�ncia, devemos ajud�-las.
- Quanto tempo temos para salvar
estas duas milh�es de pessoas?
- O pedido foi feito para os pr�ximos seis meses.
- Ent�o temos seis meses? - Sim.
Se os horrores mostrados neste
document�rio tivessem algum prop�sito,
n�o seria apenas para provocar emo��es
mas acabar com o sil�ncio e a indiferen�a
planejada por governos e ag�ncias humanit�rias
e colocar o Camboja novamente no mapa humano.
Quando o ex�rcito vietnamita expulsou o Khmer Vermelho
eles resgataram este pa�s, n�o importa a raz�o,
da escravid�o e da poss�vel extin��o.
Os governos ocidentais podem n�o querer reconhecer esse fato,
mas nada � mais �bvio para o povo cambojano.
No dia da liberta��o
a minha int�rprete, uma jovem menina,
estava marcada para ser morta.
O governo brit�nico soube o tempo todo o que
Pol Pot e os seus fan�ticos estavam fazendo a estas pessoas.
O governo do Sr. Callaghan apresentou
um relat�rio � Comiss�o das Na��es Unidas
sobre direitos humanos
com informa��es t�o chocantes quanto qualquer
coisa que voc� tenha visto esta noite.
E, no entanto, as pessoas aqui est�o sendo autorizadas
a morrer por falta das coisas mais simples
alimentos, medicamentos, transporte,
porque os governos, incluindo o nosso,
abandonaram, isolaram e puniram os vietnamitas.
Em outras palavras, salvar o Camboja
significaria cooperar com o Vietn�.
Tanto os cambojanos como vietnamitas
dos mais altos n�veis disseram-me
que qualquer plano de socorro pode vir sem condi��es.
Na altura da nossa filmagem
tr�s avi�es haviam chegado
em nove meses.
A Am�rica e a Europa det�m a maioria
do excedente mundial de alimentos.
N�s usamos para alimentar animais. Na Gr�-Bretanha
somos tratados com penicilina por uma quest�o de direito.
Todos n�s que fizemos este filme nunca
vimos nada como o atual Camboja.
Os gritos das crian�as seguiam-nos por toda a parte.
Temos seis meses para salvar uma
na��o majoritariamente de crian�as.
� imposs�vel?
TRADU��O E LEGENDAGEM:
www.NOVACOMUNIDADE.org O MODELO COOPERATIVO
FAMILIAR www.MDDVTM.org/educacao
Revis�o e sincronia: Marcelo Sena (ElChuck)
Desde que este filme foi feito mais
ajuda alcan�ou o Camboja do Vietn�,
dos pa�ses do Leste Europeu, da Austr�lia, da Oxfam Brit�nica
e algumas outras institui��es de caridade ocidentais.
A situa��o alimentar melhorou ligeiramente
mas por todo o Camboja fome
e doen�as e traumas
s�o generalizados.
H� tr�s meses, o governo cambojano pediu
100.000 toneladas de alimentos de emerg�ncia.
At� ontem o total da ajuda ocidental enviada
atrav�s da UNICEF e da Cruz Vermelha
totalizava as 1.300 toneladas de alimento.
Efetivamente isso � quase nada
e esta situa��o � prov�vel que continue
enquanto os governos ocidentais
reconhe�am e deem conforto internacional
a Pol Pot, o Hitler asi�tico.
Podemos assumir que a maioria das
pessoas que vimos neste filme est�o agora mortas.
TRADU��O E LEGENDAGEM:
www.NOVACOMUNIDADE.org O MODELO COOPERATIVO
FAMILIAR www.MDDVTM.org/educacao
MOVIMENTO DEMOCRACIA DIRETA EDUCATIVA
Revis�o e sincronia: Marcelo Sena (ElChuck)
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