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SERRA MORENA, C�RDOBA 1954
Venha aqui, Quero!
Marquito,
vamos nadar no rio.
Vamos, cabra!
Andem, todas!
Ontem a bruxa foi longe demais.
N�o est� doendo mais.
Pula! Est� gelada, mas est� boa.
Vamos, pula! Voc� n�o tocou na �gua durante o inverno.
Est� gelada!
N�o est� mais gelada.
Vamos.
Voc� acha que ela est� nos olhando?
Quem?
Mam�e.
Claro, ela v� tudo l� de cima.
Como voc� sabe que ela est� l� em cima?
O padre Antonio me falou.
Quem se comporta bem na Terra...
vai diretamente pro c�u.
Ent�o...
A bruxa est� complicada.
Oh, as cabras!
Quero, Quero!
Garoto, venha aqui!
Quero, venha aqui!
Benito!
Pra tr�s!
Fora daqui!
N�o fique longe de mim, Quero.
Solte-o!
V� embora!
Fora, fora!
Voc� est� bem?
E Lucero?
Vamos pra casa.
O que aconteceu?
Vindo pra c�...
os lobos atacaram as cabras...
e mataram cinco.
Cinco?
Dem�nio maldito!
E aonde voc�s deixaram elas?
O que vamos comer agora? O cachorro?
N�o pod�amos fazer nada.
N�o venham com hist�rias.
Eu tenho dois garotos in�teis que n�o podem sequer cuidar das cabras.
Ainda por cima, acordaram a menina.
Fora daqui!
N�o quero ver voc�s nunca mais!
Fora!
N�o me bata!
Papai est� chegando.
Aonde est�o as crian�as?
Deviam estar no inferno.
Os lobos mataram cinco cabras.
Caramba!
Se n�o pagarmos ao patr�o
vamos ter que ir embora daqui.
E aonde vamos nos enfiar...
se n�o temos aonde cair mortos?
Olha, Juan ...
arrume dinheiro de onde for, porque daqui eu n�o saio.
Eu n�o posso me endividar mais.
Voc� n�o v� que n�o temos nem o que comer?
E que porra quer que eu fa�a?
D� o do meio...
Ele � quase adulto.
Se nota que n�o s�o teus!
Garoto.
Prepare sua bolsa, que estamos indo.
Pra onde?
� casa do patr�o.
Pra que?
N�o pergunte tanto e se apresse.
Sim, mas Juanillo vem comigo.
Nem pensar. Ele fica.
Sem Juanillo, eu n�o vou.
Voc� vai agora, garoto.
Ent�o, prepare suas coisas. Vai.
Por favor, Juanillo, n�o deixe que eu v�.
Vem aqui.
Vamos garoto, vem aqui.
Desgra�ado!
Solte ele.
N�o! Eu n�o quero ir sem o Juanillo!
Deixa ele, diabo!
N�o me toque!
Vamos, que n�o tenho o dia todo.
Marquito!
Pai, me solte!
Quieto!
Me solta!
Quieto garoto!
Juanillo!
Venha aqui!
Marquito!
Juanillo, corra!
Pai! Pai!
Espera!
N�o para!
Marquito!
Corre, corre!
Marquito!
Entre.
Com sua permiss�o, Don Honesto.
O que voc� quer?
Estou trazendo o garoto que falei.
Como se chama, garoto?
Marquito.
Dizem que maneja bem as cabras.
Sei que maneja bem.
Ele cresceu com elas.
Ceferino.
Ceferino!
Diga, Don Honesto.
Amanh� de manh� leve ele pro velho.
Como ordenar, meu senhor.
Cuidado homem, vai arranhar minhas botas.
Perdoe-me.
Sem nada mais, Ceferino, e v� preparar meu cavalo.
� suas ordens, Don Honesto.
Ent�o...
o assunto das cabras foi encerrado, n�o, Don Honesto?
Desta vez, passa.
Mas da pr�xima voc� vai pra rua.
Est� claro?
Sim, senhor.
� que os lobos andam muito ativos ultimamente...
Pare de falar de lobos, focinho de porco...
j� fa�o muito em te deixar com a casa e o cavalo.
Que Deus lhe guarde por muitos anos.
E j� sabe: Estou aqui...
para lhe servir.
Pai.
Aonde voc� vai?
Pra casa.
E eu?
Vamos, vamos.
Doroteo!
Vamos nos aproximar um pouco.
Vamos.
Vamos.
Doroteo!
Mas, Doroteo, animal!
Que porra voc� fez?
Nada, Don Ceferino.
Venancia entrou em trabalho de parto, e...
eu tenho que tirar o nen�m.
E?
Nada... Estamos sem dinheiro.
N�o reclame tanto, tem gente pior do que voc�.
Uma coisa, don Ceferino:
Se n�o se incomodar, antes de ir...
Se me puder deixar umas migalhas de trigo...
N�o me fode, Doroteo.
Tudo o que tem que fazer, � fornicar um pouco menos...
e trabalhar um pouquinho mais.
Entendido?
Vamos.
Pizquilla, deixe.
Tomara que os lobos o comam, nesses montes perdidos.
Se mexa! O que espera?
Boa noite, Don Ceferino.
Boa noite, com Deus.
Por que por aqui t�o tarde, meu sargento?
Roubaram alguns porcos na propriedade de don Mart�n...
e dizem que foi o Balilla.
Ouviu alguma coisa?
N�o sei de nada, mas n�o se procupe, se ouvir alguma coisa
levo ao seu conhecimento.
Por acaso j� n�o sabe que estou decidido
a acabar com esse desgra�ado?
Al�m disso, que Don Martin ...
oferece uma boa recompensa.
Quanto?
Falam de 20.000 duros.
20.000 duros...
Vamos.
Boa noite, e que tenha um bom servi�o.
Com Deus.
Um desgra�ado, � o que esse Balilla �.
Ouviu falar dele?
Um bandoleiro.
O maior filho de puta que h� de Despe�aperros para abaixo.
Quando a guerra acabou, ele fugiu para a montanha
e desde ent�o vive de assaltar todos que pega.
Reze para n�o encontr�-lo.
Olhe, garoto.
O Vale do Sil�ncio.
Tem que ter culh�es pra viver aqui.
Vamos descer.
Vamos!
Boa tarde, Don Atanasio.
J� vi que a vida no campo lhe faz muito bem.
Continua com o mesmo humor de sempre, hein?
Te deixo um pouco de trigo para aguentar o ver�o.
Eu volto no outono pelas cabras.
E os outros sacos?
Se me disser aonde se esconde o Balilla s�o todos seus.
Com Deus.
Ah, e cuide desse garoto,
que eu trouxe ele pra te ajudar com as cabras.
Pendure no seu pesco�o.
Quantas cabras entrarem no curral...
tantas pedrinhas p�e na outra lata.
Entendeu?
Se te sobrarem pedras...
� porque te faltam cabras.
V� busc�-las.
Sim, senhor.
Vai pra dentro!
Senhor, est�o todas!
Senhor?
V�o embora!
Fora!
Quem est� a�?
Voc� dorme a�.
Cabra!
Vamos, mineiro!
Te peguei!
Vem aqui, mineiro.
Garoto!
Leve elas para o curral.
Ei cabra, voc�s n�o escapar�o!
Calma, Lunara.
Garoto, venha j� aqui!
Foi mordida por uma cobra?
N�o, quebrou a perna.
Traga dois gravetos,
um pouco de goma de cisto e um pouco de trovisco.
Calma, Lunara, calma.
Quando menos esperar, j� vai estar pulando.
Vamos, Lunara, Lunara,
Calma.
Segure ela a�.
O cisto � bom para a pancada.
Anda, leva ela pra caverna.
Vai e traga um pouco de alecrim.
Senhor, um lobo!
Aonde?
L� fora.
Est� comendo o coelho!
Ele apareceu, e roubou de mim.
Menos mal...
que tinha um coelho.
Sen�o, seria voc�.
Tem que ter muito cuidado...
com os lobos solit�rios.
V� por ali.
Agora.
Jogue.
Quieto a�.
Venha para c�.
Mas n�o perca de vista.
Agora j� sabe...
como fazer para conquist�-lo.
At� te atacar...
eles passam r�pido...
por aqui e por ali...
umas quatro vezes...
e ro�am em voc�...
para que entre em p�nico.
E quando come�a a correr...
pulam no teu pesco�o...
e acabou.
Eles nunca te fizeram nada?
Quando cheguei aqui...
eles mataram uma cabra ou outra.
Mas logo...
fui me entendo com eles, e agora...
eles me respeitam.
Como conseguiu?
Do mesmo jeito que fez hoje:
dando comida aos poucos.
Prenda bem.
E coloque no buraco.
Mais! A�.
� porque aqui...
os tordos pousam...
nos galhos.
O lobo solit�rio o est� provocando.
Era raro o dia...
que ela n�o me batia.
Ela nunca me quis.
E meu irm�o muito menos.
E o pai...
n�o soube se impor.
Aqui com voc�, estou mais feliz.
Quem est� a�?
N�o tem perigo.
� o Balilla.
Pablito, fique vigiando.
Bem, o de sempre:
algu�m roubava a fazenda de Don Samuel
e matava o vigia.
Todos os p�ssaros comem trigo, mas a culpa � sempre do pardal,
que tem culh�es.
Toda a puta vida lutando para que haja justi�a.
E afinal, pra que?
Pra acabar assim?
N�s viramos fugitivos.
Ficamos quatro dias sem dormir.
Ontem Doroteo nos disse...
que tem 50 Guardas Civis nos procurando.
Agora entendo esse filho da puta.
O que?
Ceferino.
Tinha que me deixar cinco sacos de trigo.
E sabe o que me disse?
Que me dava assim que eu dissesse
aonde voc� se escondia.
Filho da puta!
Que �dio ele tem por mim!
Desde que a Contrapartida matou seu irm�o...
ele meteu na cabe�a que fomos n�s.
Quando eu vinha pra c� com Don Ceferino...
nos encontramos com a Guarda Civil.
Estavam te procurando.
Diziam que tinha roubado uns porcos de Don Martin.
Cago pra isso!
Eles perguntaram a Don Ceferino...
se sabia aonde voc� estava.
E?
Falaram que dariam muito dinheiro...
a quem dissesse alguma coisa.
Devia lhe meter uma faca peito adentro.
Vamos.
Fique um pouco mais para descansar, Balilla.
A qualquer momento podem aparecer os da Civil.
Toma.
Mechote, leve isso.
V�o com cuidado.
Atanasio.
E voc�?
Eu o que?
Por que vive sozinho?
N�o tem fam�lia?
N�o muita.
Minha senhora e as crian�as...
foram mortos na guerra.
Eu estava na montanha com as cabras...
e de repente, houve um bombardeio.
Eu sabia que alguma coisa de ruim tinha acontecido
e voltei correndo para a aldeia.
Quando cheguei na minha casa eu queria morrer.
S� se salvou meu Tom�s,
o mais velho,
que havia sa�do para lutar na rua.
Eu perdi tudo.
Tudo o que mais amava.
Ent�o eu vim pra c�.
E aqui estou, com minha tristeza...
que guardo aqui dentro.
Meu Deus...
Est�o ca�ando eles!
Garoto,
v� para baixo com as cabras.
Eu vou ficar aqui, n�o me sinto...
muito bem.
Te trago um pouco de leite?
N�o, n�o. N�o me traga nada.
Estou um pouco enjoado.
Bom, at� a noite.
Lobinho!
Lobinho!
Lobinho!
Atanasio!
O que me aconteceu...
voc� n�o vai acreditar!
Est� muito quente.
�.
Pegue a erva para a febre e coloque para ferver.
Que ele fique bom logo...
que n�o quero sair daqui.
Fora, isso n�o � para voc�!
Lobinho!
Atanasio!
Atanasio!
Atanasio!
Senhor...
porque veio pra c�?
Sentia muito calor...
e aqui corre um pouco de ar fresco.
Ainda est� com dor?
Sim.
Garoto...
eu estou indo.
Pra onde, se n�o pode nem andar?
Morrer.
Pra onde quero ir h� muito tempo.
Ent�o me leve com voc�.
Pra que?
Pra ficar com minha m�e.
Escute:
Se ele sobreviveu...
e alguma vez...
encontrar com ele...
Com quem?
Com o Balilla.
N�o se assuste...
Que � meu filho.
Meu Tom�s.
Toma.
Isso te proteger�.
E n�o deixe que nunca...
o fogo se apague.
Vamos, mineiro.
Fora!
Fora!
Fora!
Atanasio!
Atanasio!
Aonde se meteu a porra do velho?
Caragorda, v� at� l� em cima e veja se v� algo.
Atanasio, caralho, n�o tenho o dia todo!
Deixou as cabras abandonada?
Quer brincar de esconde-esconde?
Ei, chefe!
Venha ver isso.
Droga!
Eu sabia que voc� tinha pouco tempo.
Vamos logo, n�o v� que n�o tem ningu�m aqui?
Porra! Pega as cabras.
Morreu sem dizer nada, hein?
- Venha aqui! - N�o!
Voc� vai dizer aonde se esconde o Balilla, n�o?
- Me solta! - Aonde ele se esconde?
- Eu n�o sei! - Estou te avisando!
O velho ajudava ele, n�o �?
N�o sei de nada!
Eu acabo com tua vida e voc� vai contar pra tua av�.
Me solta!
Me solta!
Me solta!
Porra, garoto!
Vamos ver quem come quem.
Estou aqui, pare de atirar.
Don Ceferino, vai escapar um.
Calma, ele est� ferido de morte.
Caragorda, olhe os cavalos.
Estou indo pra l�, chefe.
Vamos, Manuel.
Depressa.
Vamos.
Lobinho.
Lobinho?
Toma, coma um pouquinho.
Olha o que eu trouxe pra voc�.
Com isso, voc� vai ficar bem.
Voc� vai ver.
Calma, lobinho...
que n�o vai te acontecer nada.
Voc� vai se sentir em casa.
Voar!
Me feriram bem.
Pegue.
Sobraram tr�s balas.
Fique aqui.
Seguir�o meus rastros.
Procure cachorrinho, procure!
Ei! Ele est� ali! Vamos
Solte a faca.
Solte!
Aonde o Balilla se escondeu?
Fale ou te mato.
Aonde o Balilla se escondeu?
Aonde?
Balilla, filho da puta!
Logo voc� vai se reunir com ele.
Parece que a terra engoliu ele.
Mas como ele escapou, caralho?
N�o entendo.
Vou procurar por todos os lugares.
- Ramirez. - Sim, meu sargento.
Vamos procurar no Rio Fraile antes que escure�a.
�s suas ordens.
Voc� cuida desse selvagem.
N�o se preocupe, meu sargento...
antes do sol cair, ele estar� no quartel.
Caragorda, voc� vai com ele.
Manuel.
Voc� e eu vamos at� a cabana do Doroteo
porque o campo � vigiado e esse sabe mais do que disse.
Vamos.
Escute bem: amanh� quando o sol sair
pega tuas coisas e tua fam�lia e cai fora daqui.
Mas... porque?
Porque Don Honesto mandou.
Mas Don Ceferino, pelo amor de Deus...
eu vivi toda minha vida aqui.
Minha mulher e meus filhos est�o enterrados l� fora.
Como v�o fazer isso comigo?
S�o ordens de Don Honesto.
Tem uma maneira que voc� pode ajudar.
Me diga.
Que me diga de uma vez por todas aonde o Balilla se esconde.
Don Ceferino, eu disse mil vezes:
eu juro pelos meus mortos que est�o enterrados l� fora
que eu n�o sei aonde est� o Balilla.
Pode fazer as malas, desgra�ado.
Eu sei aonde voc�s podem encontr�-lo, Don Ceferino.
Pizquilla, v� pra dentro, isso n�o � da tua conta.
Aonde, Pizquilla?
Aonde, caralho?
Ele passa muitas noites na cabana do zarolho.
Aonde todos os seus amigos est�o enterrados.
Ele est� l�.
Filho da puta!
Chefe! Chefe!
Quer que lhe acompanhe?
E o que fazemos com o selvagem?
Como voc� sabe que �s vezes ele fica na casa do zarolho?
N�o sei...
Mas essa noite � lua cheia,
e a n�voa est� vindo, pai.
Alonso!
Eu cago nos teus mortos!
Meu sargento!
Aonde estar� Don Ceferino?
N�o se preocupe tanto com seu chefe, Caragorda,
que ele est� na cidade se enchendo de vinho.
Cala a boca!
SERRA MORENA 2010
45 anos depois de ser capturado pela Guarda Civil,
Marcos ainda tem certeza de ter aprendido pouco sobre os homens.
A sensa��o � de que nada tem tanta verdade
quanto aqueles anos vividos entre os lobos.
Legenda: .:MGross:.
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