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Hoje, caros senhores, o jantar será especial.
Realmente muito especial.
Por isso, peço que mantenham as bocas abertas, os ouvidos atentos
e os cintos desafivelados.
Os primeiros pratos foram preparados com os ingredientes mais simples.
Sementes, folhas, grãos, frutas, verduras e raízes.
Alimentos básicos,
dados de graça pela natureza aos preguiçosos,
aos covardes,
aos seres menos ambiciosos da cadeia alimentar:
os herbívoros.
Mas nós sabemos o que acontece com os preguiçosos, covardes
e pouco ambiciosos.
São devorados pelos mais fortes e agressivos:
os carnívoros.
Por isso, nunca confio minha vida a um vegano.
Mas essa história não termina aqui.
A cadeia alimentar tem muitos níveis.
E acima dos carnívoros
estão os mais adaptados,
os que se ajustam à adversidade
e devoram o que for preciso para sobreviver...
Os onívoros.
Como podem ver, a natureza não é pacífica.
Mas também não é uma carnificina desenfreada.
Pois entre os onívoros,
há os que se sobressaem pela inteligência,
pela astúcia, pela estratégia:
os homens.
E, acima dos homens,
estamos “nós”.
Correto!
Porque nós sabemos que a vida é uma guerra
e nos preparamos para enfrentá-la.
Temos coragem, ambição e obstinação.
Mas, o mais importante: nós nunca traímos nossas regras,
nossas tradições,
nossa família.
E por que não traímos?
Porque, acima de “nós”, está o ponto mais alto,
o ”Everest” da cadeia alimentar:
eu.
E acima de mim,
caríssimos senhores,
só Deus.
God!
E, hoje, Deus não janta.
Hoje Deus vai passar fome.
Champanhe para todos!
Saúde, Dom Caroglio!
Madonna Santa! Olha esse lugar.
Olha essa gente.
Como são feios, desdentados...
Olha esse sujeito. Deve ter lepra, não é possível.
Que miseráveis, só de olhar me dá terçol.
E a fedentina?
Puta merda, isso aqui é mundo cão de verdade.
O subsolo da cadeia alimentar.
Esses bastardos vão tentar me devorar, como vermes na carne podre.
Pobres coitados, não têm chance.
Ninguém vai me servir numa travessa suja com uma maçã na boca.
Merda para mim!
Roberto?
Roberto?
Anda, Roberto. Tá tarde.
Vou sentir saudades desse teatro.
-Voltamos em três meses. -Sei não, Rafa.
Parece que não vão renovar pra próxima temporada.
E em três meses tudo pode acontecer, as pessoas podem se matar.
-Que exagero! -Você não conhece minha mãe.
É só um tempo.
Você está indo passar só um tempo na casa dela.
Exatamente. Um tempo na casa da minha mãe, com 50 anos.
Sem emprego nem dinheiro, após levar um pé na bunda.
Você já passou por isso.
O quê? Um tempo na minha mãe?
Não. Pé na bunda.
É seu terceiro ou quarto divórcio?
Quinto.
Está vendo?
Nada de novo no reino da Dinamarca.
A frase do Shakespeare não é essa.
E não sou o Príncipe Hamlet.
Eu sou um merda. É isso que sou.
Tive várias oportunidades de fazer merda na vida
e não desperdicei nenhuma.
Você pode não ser o Hamlet, mas é dramático como ele.
Ânimo, homem!
Sou um ator de teatro no auge da própria decadência.
Sabia que na minha idade Da Vinci já tinha pintado a Mona Lisa?
Da Vinci?
-Leonardo da Vinci? -Tem que se inspirar nos gênios.
Mas escolhe um mais fácil.
Quem?
Maradona.
Como estava Maradona aos 50 anos? Nada bem, né?
Aos 50 anos, Maradona era técnico da Argentina na Copa da África de 2010.
Tem razão. Melhor ficar com Leonardo da Vinci.
Até porque a Mona Lisa é muito mais expressiva que você.
Sabe do que vou sentir falta do Dom Caroglio?
Não te matar todas as noites.
Muito engraçado.
Lembra quando você apertou tanto que eu desmaiei em cena?
Claro. Foi a melhor atuação da tua vida.
Merecia um Oscar.
Vai à merda.
Eu quase morri, seu desgraçado.
Eu sei. Fui genial.
Não.
Você é um psicopata.
É o que você é.
Um psicopata, Roberto.
Agora pega suas coisas e vamos embora. Está tarde.
Tchau, moçada.
Até a próxima temporada.
Ou não.
Lembranças pra tua mãe…
Um ator de teatro no auge...
Vamos.
Roberto? Não me diga que resolveu voltar pra cozinha.
Achei que estava em Hollywood.
Me dá um abraço.
Cozinha, Peppe?
Nem morto. E Hollywood é pouco para meu talento.
Mas, me conte...
Como andam as coisas por aqui?
Dona Leonor está um pouco mais calma?
Parece que não conhece tua mãe. Se ela parar de falar é porque está morta.
-Peppe? -Sim?
Peppe. Cadê as berinjelas?
Não dá para fazer ‘caponata’ sem berinjela.
Pra já, dona Leonor.
Betinho, meu bem!
Deixa eu ver você. Como você está feio!
Igualzinho teu pai.
Estranho seria se não me parecesse com ele.
Nem me fale.
Quando você nasceu, morri de medo de você vir parecido com o Franz.
Aquele alemão bonito que morava perto da gente.
Mãe!
Estou brincando.
Seu pai foi o único amor da minha vida.
Depois que ele se foi, não tive mais ninguém.
Na verdade, teve um cara.
Um marinheiro.
Mas foi só pra tirar a teia de aranha, senão a periquita cicatriza, né?
Mãe!
Não disse nada de mais.
Você sabe que já fui hippie.
Mas me conta, por que chegou uma semana antes?
-Te expulsaram de Roma? -Não.
Preferi antecipar a viagem. Vir logo.
Estou num momento difícil.
O teatro, a separação.
O problema, mãe, é que estou sem um centavo.
Pode me emprestar alguma coisa, até as coisas melhorarem?
Dinheiro não tenho.
Mas sabe como são as coisas por aqui. Uma mão lava a outra.
Vamos, Betinho...
Tem gente que nasce pra ganhar dinheiro.
Outros, pra fazer teatro.
Estou muito feliz que esteja aqui.
Dois “penne alla norma”, mesa quatro.
-Entrada pra quatro, mesa dois. -Entrada pra quatro, caprichado.
Restaurante cheio!
Cheio de gente com fome.
Prestem atenção, temos que estar à altura da situação.
Betinho, bateu bem a massa pra ficar leve e compacta?
Bati, mãe. Não se preocupe.
O prato do dia está bombando, dona Leonor.
Como sempre, Peppe.
Preciso voltar para o salão.
Tem um casal na mesa 13 que vem quase todo dia.
Acho que gostam mais da minha conversa que da comida.
Pagam bem, que mal tem?
-E não esqueçam... -Nada de explodir a cozinha, hein?
Obrigado, mãe, como se a gente não soubesse.
Roberto, vem cá. Quero te mostrar uma coisa.
Olha quem está aí.
-Bonita. Quem é? -Valentina Galante. A filha do chefão.
Valentina Galante…
Como ficou bonita!
Muito, mas é barra-pesada.
Dizem que tem uma pedra dentro do peito.
-Bobagem. Casada? -Não.
-Prestou atenção no que falei? -Sim. Que não é casada.
Não, que é barra-pesada.
Claro. Mas eu também sou.
Roberto, olha lá onde você vai se meter.
É exatamente nisso que estou pensando, meu amigo.
Au revoir.
Roberto!
Tem acarajé. Acabamos de fritar.
-Tenho cara de quem gosta de fritura? -Pierre!
Pierre, faço questão de atender pessoalmente mademoiselle Galante.
-Pierre? -É, vai ver se estou na cozinha, vai.
Perdão. Enfim sós.
Que voulez-vous, mademoiselle?
O que posso fazer pela senhorita?
Falo francês perfeitamente, monsieur.
Muito bem.
O que não entendo é o que faz um chef francês num restaurante brasileiro.
Simples: porque é muito chique.
Pelo menos é o que pensam os brasileiros.
Por favor.
Merci.
Engraçado. O senhor não me é estranho.
Mas não me lembro de tê-lo encontrado neste restaurante.
Todo mundo me diz isso. Devo ser um tipo bem banal.
Provavelmente.
Se me permite,
gostaria de te oferecer-lhe um prato especial.
Fora do cardápio.
Fora do cardápio?
Sim. Um prato très différent.
Audacioso.
Épicé.
-Picante? -Sim.
Interessante.
Fechado. Me surpreenda, chef.
Com todo prazer, mademoiselle.
Oh-là-là!
Espaguete com ouriço e tucupi da Amazônia.
Minha obra-prima.
-Tacupi? -Não.
Tu-cu-pi. Sabe o que é mandioca?
-Uma raiz? -Isso.
O tucupi é feito com o suco dessa raiz.
Não a da comum, mas a da brava, a venenosa.
Tem que fermentar por cinco dias
e depois cozinhar por horas para perder o veneno.
Senão, é mortal.
-Comida envenenada? -É. Coisas da floresta.
Mas pode comer essa, juro. Não está envenenada.
Pode provar pra mim, chef?
Pardon?
Prove.
Me diz se está do jeito que o senhor imaginou.
Magnífico!
Olha. Você me convenceu.
Espere, por favor.
Antes de comer, queria que você provasse isso.
Serve pra aguçar o paladar.
O que é?
Flor de jambu.
Um ingrediente mágico. Da Amazônia.
Parece que já vivi isso antes.
Como um “déjà-vu”.
Talvez não.
Confie.
Valentina, vem.
Aqui.
O que é?
Uma flor que a gente come.
Comida mágica que vem da floresta.
Experimente.
Roberto?
Santa Rosália. Olha essa mulher.
Olha como como ficou bonita. Tão formosa, tão fêmea.
Que joia para os meus dedos.
Com uma mulher assim, quem me segura?
Já me vejo no cume mais alto.
E teve boatos de que eu estava na pior.
Se isso é estar na pior, porra!
O que é estar bem, né?
Fica aí embaixo, chef.
Tem um cigarro?
O que foi?
O que foi?
Preciso ir.
Já?
Desculpe.
Problemas de família.
É grave?
Posso saber o que é?
Não.
Posso te ligar mais tarde?
Paolo Rossi. Três a dois.
Três a dois.
Da próxima, vamos tentar sofrer menos.
Você jogou bem, mas o Pietro... A culpa é sempre do Pietro.
É como eu digo: o Pietro sempre faz merda...
A polícia acaba de encontrar em um contêiner
vindo do México carregado de comida uma imensa quantidade de cocaína.
Aumenta, Paolo.
Segundo os agentes, esta é uma das maiores apreensões de cocaína dos últimos anos.
A polícia recebeu a denúncia já há dois dias,
mas preferiu aguardar na esperança
de que os traficantes viessem buscar a mercadoria,
o que, no entanto, não aconteceu.
Ainda não se sabe para quem era esse carregamento
ou se existe ligação com os mafiosos da região.
Mais depressa.
Obrigado. Voltamos à programação normal.
Escutei tudo no rádio. Como isso foi acontecer?
Se eu soubesse, não tinha chamado vocês aqui.
Eu mesmo tinha resolvido.
-Tá bom por hoje, Mário. Pode ir. -Claro. Com licença.
Onde você estava?
-Almoçando no restaurante brasileiro. -Claro.
A gente com um problema grave, e ela vai ao restaurante.
-Os remédios estão prontos. -Sim.
Obrigada, Mário.
Por nada. Boa noite.
Pai, charuto?
Não basta o câncer na garganta?
Um câncer, dois, três... Que diferença faz?
Só vou morrer uma vez.
Além disso, pra que viver se não puder fazer o que gosto?
Essa merda me tirou o prazer de comer e beber,
não sinto mais o gosto de nada.
Só sobrou isso.
Enfim,
vamos ao que interessa.
Os policiais foram direto no contêiner onde estava a mercadoria.
Alguém deu a dica.
Os mexicanos, pai.
Eles embarcaram a droga, sabiam onde estava.
Nunca gostei daqueles filhos da puta.
E por que entregariam a mercadoria pra polícia?
Pra jogar fora um negócio de milhões de dólares?
Exato.
A informação não veio de fora, veio aqui da Itália.
Pai, quem mais sabia do contêiner?
Nem eu sabia.
Por segurança,
essa informação vai direto ao nosso “homem de confiança”.
Antonio. E onde ele está?
Esse é o problema.
Sumiu.
Não dá notícia há dois dias.
Pai, deixa comigo.
Se esse filho da puta estiver vivo,
eu mesmo vou arrancar o intestino dele pela boca.
Você não. Senta.
Quem vai cuidar disso é a Valentina.
Por quê?
Traição é coisa de homem, não de...
De mulher? Te incomoda?
Chega. Já decidi. Valentina cuida disso.
Está bem. Mas encontrá-lo não resolve o problema.
Nosso problema é mais grave.
Em uma semana, não vamos ter nada na praça.
Precisamos achar outro fornecedor rápido.
E quem vai vender para nós sabendo que quando a nossa acabar
é só vender direto aos nossos clientes?
Os Belfiore. Eles podem entregar já.
-Está louco? -Quieta!
Pai.
Os Belfiore têm mais do que conseguem vender.
E são pequenos, não podem fazer nada contra nós.
Esqueceu o que fizeram ao nosso pai?
O que fizeram à nossa família?
Por que abre a boca?
Foi o Dom Ângelo. Morreu. Está queimando no inferno.
O comando mudou. Quem manda agora é Dom Lorenzo.
Que é nojento como o pai!
Você não o conhece, eu é que estou na rua. Dom Lorenzo…
Chega!
Pai?
Salvatore.
Não quero mais ouvir o nome dessa família.
Fui claro?
Claro. Tudo bem.
Agora entendo por que ela é tua favorita.
Vocês são dois velhos.
Vamos.
Anda.
Salvatore não está pronto.
E não sei mais por quanto tempo vou conseguir tomar conta da família.
-Não fale assim, pai. -É verdade.
Você sabe.
Preciso da sua ajuda.
Sei que você não cuida disso,
mas é a única em quem eu confio.
Será feito, pai.
Será feito.
Vale?
É uma pena que você não tenha nascido homem.
Dom Caroglio, encontrei.
Achou? Sério?
Muito bem, Paolo.
-Foi difícil. -Foi difícil…
Te colocaram pra fazer caipirinhas?
Lembre-se de usar açúcar mascavo, monsier le chef.
Monsier le chef é a senhora sua mãe.
Voltou para o modo azedo?
Que foi? Dona Valentina já mandou você pastar?
Valentina é um mistério, Peppe.
Num dia está tudo ótimo, parece um vulcão. No outro dia, um iceberg.
E sempre a mesma desculpa: problemas de família.
Parece que só ela tem problemas de família.
Sabe o nome disso?
Não.
Mulher! Achei que você entendia do assunto.
Eu entendo. É meu sexto sentido.
Sempre compreendi qualquer mulher, mas essa é uma esfinge.
Vai ver você perdeu a magia.
A varinha mágica ainda está funcionando?
Giuseppe, mais respeito. Deve ser outra coisa.
Pode ser mesmo verdade, que ela tenha mesmo problemas de família.
Dizem por aí que está faltando droga na cidade.
Coisa séria, entende?
-Droga? -É, droga.
Lembra daquela apreensão no porto, semanas atrás?
Pelo jeito era tudo deles.
A polícia sequestra a droga e, de repente, falta cocaína.
E justo onde? Aqui, no território dos Galante.
Eu disse que não era minha culpa.
Tem razão.
Valentina deve estar com problemas na família.
Mas enquanto ela não resolver isso, você vai ficar aí sozinho.
Só na saudade.
Lembra do Roberto?
Vocês brincavam juntos quando eram crianças,
-no restaurante brasileiro. -Sim.
Olhando melhor agora, eu lembrei.
-Da dona Leonor. -Que fofo...
Trago uns salgadinhos?
Qual o motivo desta reunião? Rever os amigos?
Salvatore, amigos são importantes.
Roberto é filho do Luigi,
que cozinhava nas nossas reuniões de cúpula.
Você devia saber.
Roberto pediu que vocês viessem.
Tem uma proposta a fazer.
-Uma proposta? -Sim.
Quer dizer, não.
Na verdade, não é uma proposta. É uma ideia que pode ser interessante.
A beleza dela está na simplicidade.
Química elementar. Todo mundo estudou química na escola, não?
Tudo bem. É fácil de entender, mostro como se faz.
Primeiro vem a diluição.
-Nesta garrafa de cachaça... -Cachaço? O que é? Cachá?
Cachaça.
Ca-cha-ça.
É grappa brasileira, álcool.
Como eu dizia,
nessa garrafa, a gente mistura esse pó...
Que pó é esse? Onde você conseguiu?
É sal.
É só um exemplo, Dom Galante. Não encontrei o pó certo.
Parece que está em falta na cidade.
Que foi? Veio tirar uma com a nossa cara?
Salvatore!
Não invente moda.
Continua, rapaz.
Dom Galante, me perdoe.
Então, a gente mistura...
o pó na garrafa,
diluição do pó,
e, como podem ver, ele desaparece na cachaça.
Assim, podemos trazer essa garrafa do Brasil
sem ninguém notar que tem pó dentro.
Os restaurantes importam milhares de garrafas todos os anos.
Tá. E como faz pra tirar esse pó daí, hein, Houdini?
É fácil.
É só evaporar a cachaça lentamente
e o pó volta a ser exatamente como era antes de colocar na garrafa.
Interessante.
Realmente interessante.
Pai? Como interessante?
Como deixa um estranho vir na nossa casa com essa palhaçada de química?
Isso é uma ofensa, não uma proposta.
Mas que ofensa?
E que estranho? Eu disse que conheço ele desde criança.
E ele nos trouxe uma ideia, não?
Uma merda de ideia, pai. E não resolve o problema.
Temos que fazer as pazes com os Belfiore.
Chega!
Já disse que não quero ouvir...
Está indo aonde?
Volte aqui!
Pai?
-Fique calmo, pai. -Dom Galante,
eu não queria ofender ninguém.
Eu sei.
Perdão por ele.
É jovem, tem muito o que aprender.
Seu plano
é muito engenhoso.
-Mas falamos dele em outro momento. -Muito obrigado.
Obrigado mesmo.
-Dê lembranças à sua mãe. -Darei com certeza.
Vamos.
Dá um pouco d’água pra ele.
Ficou louco de vir aqui?
O que eu podia fazer? Você sumiu. Não responde minhas mensagens.
Você sabe o risco que correu?
Sei sim.
E veio assim mesmo?
Jante comigo hoje.
Quer levar mais um tapa?
Não me diga que fiz tudo isso por nada.
Você não faz ideia do risco que correu.
E ninguém pode ver a gente junto.
Essa noite o restaurante está fechado. Vamos ser só nós dois.
Está bom, chef.
Agora vai embora, vai.
Vai.
Dom Lorenzo, o que eu podia fazer? Meu pai não me escuta.
Prefere ouvir aquele cozinheiro com uma ideia absurda de misturar pó com álcool.
Manter sua palavra. Você podia ter feito isso.
Mas como eu podia imaginar que o cozinheiro...
E o que me importa esse cozinheiro?
Quantas desculpas mais tenho que ouvir?
O problema não é o cozinheiro.
O cozinheiro, vai...
O problema é você,
que não manda nada na tua família.
Você tem 48 horas pra resolver esse assunto comigo.
Senão fecho com os Caputo pra distribuir minha mercadoria no teu território
sem você levar nada.
Aí vai ser problema teu tirá-los de lá.
Vamos. Vamos, porra!
Que dia!
E que noite me espera!
Como o mundo gira...
Meu querido e saudoso Dom Caroglio tinha razão:
a cadeia alimentar tem muitos níveis.
E entre altos e baixos, aqui estou eu. Subindo!
Como dizem os brasileiros: "Comi o pão que o Diabo amassou."
Mas chegou a minha vez.
Depois dessa noite, nada vai ser como antes, tenho certeza.
Caraca... Não se pode dar uns passinhos pra cima,
que vem logo um desgraçado querendo nos jogar pra baixo.
A natureza não é pacífica.
É na luta que se decide quem vive e quem morre,
quem sobe e quem desce, quem serve e quem será servido.
Santa Rosália que me perdoe, mas não vim ao mundo pra ser devorado.
Eu não nasci pra ser Roberto.
Eu nasci pra ser Caroglio!
Motherfucker!
Vamos!
Motherfucker!
Estragou o meu almoço, esse merda.
E ainda queimei a mão.
O que deu em você, chef?
É uma longa história.
Que merda é essa?
Que merda é essa?
Esse filho da puta me atacou por trás e passou uma corda no meu pescoço.
Peguei um ouriço e enfiei no olho dele. Este ouriço salvou minha vida.
Você, quem diria...
Já o vi em algum lugar.
Na casa do meu pai.
É um dos homens do Salvatore.
Teu irmão?
-Ele mesmo. -Que família, hein?
E eu reclamando por passar uns meses com minha mãe.
Alô.
Estou ocupada.
Ele só quer ganhar tempo.
Ok.
Ok. Estou indo agora.
Espera.
Paulo.
Você precisa vir ao restaurante brasileiro buscar um pacote.
É, isso.
É, você entendeu, um pacote. Agora.
Estou indo.
Tchau.
Não vai ficar pra jantar?
Fiz “frango ao molho pardo”.
Antonio, quer falar comigo?
Eles não acreditam em mim, dona Valentina.
Eu não fiz nada, juro.
Então por que você fugiu?
Por que sumiu sem falar nada?
Por medo.
De que viessem atrás de mim, dona Valentina.
Que viessem atrás da minha família.
Nós somos a tua família. Nós.
Sabe o que isso significa?
Eu fui ao porto no dia certo, como sempre.
Mas tinha alguma coisa errada, uma movimentação estranha.
Claro.
Você já tinha informado a polícia.
Eu não delatei, juro.
Então quem foi?
Só você sabia qual era o contêiner.
Ou alguém mais sabia?
Conte e acabamos com isso de uma vez por todas.
Não. Por favor, não.
Por favor.
Antonio,
acha que gosto de fazer essas coisas?
Mas você não me ajuda,
não fala a verdade.
Quanto te pagaram?
Nada. Não me pagaram nada.
Eu nunca traí a família. Nunca.
Linda foto.
Tua filha?
Não, por favor. Não toquem minha filha.
Vou te dar uma última chance.
Pra quem você falou sobre o contêiner?
Só falei pra uma pessoa.
Mas não imaginava que ele fosse fazer uma coisa dessas.
Pra quem?
Salvatore.
O que devo fazer?
Se o que ele disse é verdade,
é melhor o Salvatore achar que pegamos o homem errado.
Acabe com isso.
Não, não, por favor. Por favor!
Dona Valentina.
Dom Salvatore pediu para avisar que a espera no escritório.
Em nome do seu pai.
Vou ver o que posso fazer, Dom Filippo.
Obrigado.
O senhor terá um futuro glorioso.
A senhorita Valentina.
Com sua licença.
Vá com Deus, Dom Filippo.
-Me chamou? -Não.
Não é assim que fala. O certo é: "Mandou me chamar, senhor chefe?"
Mandou me chamar, senhor...
Não, foi o fantasma do seu pai quem mandou.
Cadê seu amigo cozinheiro? Não vem prestar homenagens?
E como eu vou saber?
Eu sei que vocês estavam juntos quando tentaram me ferrar
com aquela porcaria de "cassáscia", "cacha", sei lá como chama.
Não sei do que você está falando.
-Dom Lorenzo Belfiore. -Ah! Dom Lorenzo?
Deixa entrar.
Por favor, Dom Lorenzo.
Não. Você fica.
-Bem-vindo à minha casa. -Dom Salvatore.
Fiz questão de vir pessoalmente
para mostrar que o que aconteceu no passado
ficou no passado.
Dom Galante tem todo o nosso respeito.
É uma perda inestimável, sinto muito.
Sentimos todos.
Mas a vida continua.
Negócios. E a mercadoria, quando chega?
Faltam só alguns detalhes.
Acredito que no máximo em 48 horas vai estar tudo entregue.
48 horas. É assim que eu gosto, resolver rápido.
É uma nova era, para os Belfiore e para os Galante.
A gente devia festejar.
Festejar?
É. Por quê?
Esqueceu que nosso pai está bem ali, num caixão?
O que quer que eu faça? Ele está morto. Quer que eu passe o resto da vida de luto?
Rei morto, rei posto!
Aliás, quanto mais te vejo assim, mais tenho vontade de festejar.
Devíamos fazer um banquete, uma festa.
Não agora, claro, ia parecer indelicado.
A gente espera uns três dias...
Com as duas famílias juntas.
Parece uma ótima ideia.
Podia ser naquele restaurante brasileiro de que tanto ouvi falar?
Boa ideia. Valentina pode dar uma mão pra organizar, certo?
-Precisa ver se está aberto. -Faça com que esteja.
Depois da merda que seu amigo fez,
ele vai precisar que funcione.
Só pra nós.
-Vou ver o que posso fazer. -Faça.
Valentina, outra coisa.
Garanta que ele esteja lá pessoalmente pra me servir.
Que tudo corra bem, porque eu não posso passar raiva.
Vai que a comida não está à altura, alguém se engasga,
você arca com as consequências.
Tá claro?
Ou quer que eu desenhe?
Está muito claro, Dom Salvatore.
Mulheres.
Dom Lorenzo,
no banquete, por favor, me faça uma cortesia,
uma coisa que não posso fazer.
Dê um tiro na cara do cozinheiro.
Casquinha de siri, entrada tipicamente brasileira.
Preparada com um ingrediente muito nobre:
siri-azul, uma delícia!
O crustáceo é jogado na água fervente ainda vivo.
Porra, já gostei.
Em seguida, a carne é colocada na casca do animal
e gratinada com farinha de mandioca.
É realmente uma delícia. Bom apetite, Dom Salvatore.
Vamos comer.
Coma.
Eu?
Não. A boa alma do seu pai.
Excelente.
É bom.
Deixa eu ver a feijoada.
Tem que misturar bem.
Um pouco mais de erva-doce.
Roberto. Tua mãe. Acabou de chegar.
Pessoal, peguem os pratos que vamos servir.
Mas quanta gente bonita!
O que é, um congresso? Quem é o chefe?
Mãe, mãe...
Cozinheiro!
Essa é a tua famosa mãe?
Sim, Dom Salvatore. É minha mãe.
Mas já está de saída. É dia de folga dela...
Mas é uma jovem, você é que parece ser o pai dela.
Que simpático...
Faço questão que almoce conosco. É minha convidada de honra.
Então, nesse caso, não posso recusar.
Não. É uma oferta que não pode recusar. Por favor.
Sai pra lá. Deixe ela sentar aqui.
Cozinheiro, o primeiro prato.
Certo, Dom Salvatore. Vamos, vamos.
Penne rigate com sardinha e castanha-do-Pará.
Sicília e Amazônia juntas, no mesmo prato.
A castanha-do-Pará tem a mesma textura do “pinoli”,
mas com muito mais sabor, muito mais presença.
Vai ver, Dom Salvatore.
Vamos comer.
Adoro castanha-do-Pará. Me lembra minha infância.
Sempre gostei de cozinhar.
Muito obrigado.
Nasci no Brasil,
conheço as especialidades gastronômicas do país inteiro.
Meu marido Luigi costumava dizer que provar comida de lugares diferentes
é como viajar para esses lugares...
Cozinheiro!
Sim?
Não posso dizer que não está bom.
Mas porra! Macarrão com sardinha?
Eu como isso desde os dez anos. O que tem de diferente nesse prato?
A castanha-do-Pará.
A castanha-do-Pará.
-Não é época de castanhas. -Desde quando agora é época disso?
-Então você trocou uma semente por outra. -Sim.
Você é um gênio.
Pra você, nós idiotas em volta dessa mesa somos o quê?
Passarinhos?
Claro que não, Dom Salvatore.
Então por que diabos você me deu
um prato de merda com comida de passarinho?
Dom Caroglio. Vem cá.
Acho que o problema é com a gente mesmo.
Merda!
Vamos, vamos.
Ei! Quem te chamou?
-Preciso limpar. -Não. Sai fora.
Vá!
Você limpa.
Você.
Não com isso…
Com a boca.
Como um passarinho.
De joelhos.
-Salvatore. -Calada.
De joelhos. Anda. Rápido.
Anda!
Isso, abaixado.
Mãos pra trás.
Abaixa.
Agora pia. Faça "piu-piu".
Não ouvi.
Mais alto!
Mais alto. Não ouvi.
Espera. Mexe as mãos assim.
Assim.
Mais alto!
Chega.
Chega.
Chega!
O que está fazendo?
Sua mãe está aqui. Levanta, vai.
Levanta.
Que foi? Está chorando?
Agora volta pra cozinha
e me traz um prato digno dessa mesa.
Entendeu?
Anda!
Porra.
Que silêncio é esse? Isso aqui é uma festa.
Aos pássaros!
O macarrão não estava ruim.
O que está fazendo?
Vai Alecrim. Depressa!
O próximo prato é um monumento da gastronomia mundial.
A famosa feijoada brasileira.
Feijoada.
O que tem aqui dentro?
É feijão preto.
Com carne de porco, lombinho, costelinha,
linguiça, orelha...
O quê?
Orelha.
Orelha?
Orelha de porco, Dom Salvatore.
Que porra...
Dom Salvatore, experimente.
É muito bom.
A senhora tem razão, Dom Salvatore. As aparências enganam.
Experimente.
Experimente.
É gostoso. Parece macarrão com feijão.
Vamos comer.
A orelha é você que vai comer.
Tá bom.
Dizem que a feijoada foi inventada pelos escravos.
Porque quando se matava um porco na fazenda,
as partes mais caras iam pros donos e o resto pra senzala.
Vocês sabem o que é senzala?
Senzala é onde os escravos moravam, amontoados uns sobre os outros,
depois de trabalhar na roça debaixo de um sol escaldante
que queimava até os miolos.
Mas o senhor não está prestando atenção.
Estou. Disse que a feijoada foi inventada pelos escravos.
Não. Isso é o que eles dizem. Mas eu não acredito.
Devagar, Dom Salvatore.
Está indo com muita sede ao pote.
-Aos potes! -Aos potes!
Porque naquela época, quando existiam escravos,
a carne era muito valiosa...
Quando você acha que está tudo bem,
é aí que você está queimando que nem picanha na grelha...
No final, valeu a pena esperar.
Seu amigo cozinheiro mandou bem, vai.
Mas com todo esse feijão, parece que vou explodir.
Amigos, eu queria dizer algumas coisas.
Eu também quero falar uma coisa.
Depois, senhora.
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer ao nosso amigo, Dom Lorenzo,
por nos honrar com sua presença...
Também gostaria de agradecer por escolherem meu restaurante,
-um lugar simples e modesto... -Certo, senhora.
E queria também contar como nasceu este lugar,
quando eu e meu marido Luigi chegamos aqui.
Que repouse em paz.
Só um minuto, rapazinho. Já vou terminar.
Eu estava dizendo que esse restaurante...
Senhora!
Você não calou a boca um segundo, sua galinha velha de merda.
Calada.
Limpe essa boca quando falar comigo, seu moleque.
Faz mais de 60 anos
que eu lido com gente igual a vocês aqui no meu restaurante!
Muito antes de você nascer,
seu pai e os amigos dele vinham aqui,
e eu nunca vi nenhum deles
tratar alguém do jeito que você tratou meu filho hoje.
Pelo contrário, eles tinham muito respeito por quem servia a comida deles.
Mas você?
Olhe pra você! Olhem pra vocês!
Vocês são um bando de porcos nojentos e selvagens!
Querem saber de uma coisa?
Chega! Pra mim já deu por hoje.
Quem ela pensa que é? Quem deu permissão pra falar assim?
Vá buscar aquele cozinheiro de merda!
Onde estão os garçons?
Valentina?
Valentina?
Valentina?
Valentina!
A cozinha está vazia.
Como vazia?
Santinho.
Santinho! Me dá aquilo que tiver.
Vamos!
Santo Amauri.
Nonato, bem-vindo!
Bem-vindo!
Meus cumprimentos! Meus cumprimentos!
Ah, os advogados!
De que serviriam as bombas sem os advogados?
Graças a minha querida Santa Rosália, bons advogados não faltam.
Caso contrário,
seria difícil fazer as autoridades entenderem que acidentes acontecem.
Basta um pequeno vazamento de gás e
bum!
Mais um restaurante voa pelos ares. Fazer o quê?
Senhor Roberto, por favor.
Coincidentemente, aquela explosão me lançou
no topo da cadeia alimentar.
Agora sou um "homem de honra"
e me ocupo de importação de cachaça.
Business.
Mesmo assim,
ainda tem promotores que duvidam da minha honestidade.
Não dá mesmo para agradar todo mundo.
Chegou a hora da despedida.
Que pena, chef.
O que me chateia é que agora que minha vida encontrou seu rumo,
tenho que ir embora.
Mas se você não fugir agora, amanhã estará preso, para sempre.
Eu sei.
E também vai ser melhor para a operação
se tiver alguém como eu por lá,
pra colocar ordem naqueles traficantes pés-de-chinelo.
Isso mesmo.
Mas fique esperto, pois o Ministério Público não vai dar trégua.
Relaxe. Não vão me encontrar naquela confusão.
Até porque quem procurar Roberto só vai encontrar Benedetto.
Eu sei. Mas tome cuidado do mesmo jeito.
Ah, mais uma coisa.
Não dá mesmo pra fazer uma punciuta? Furinho no dedo, queimamos um santinho.
Roberto, a punciuta já não se faz desde os anos 90.
O que eu posso fazer se sou um homem à moda antiga?
Eu sou assim.
Até logo, chef.
E pensar que o Ministério Público
está atrás de mim, não da Valentina,
porque disse que, para fazer um atentado como aquele,
seria preciso uma grande capacidade de planejamento
e muito sangue-frio,
coisas que uma mulher jamais teria.
Aquele promotor não entende nada de mulheres.
Seis meses atrás, eu estava todo cagado.
Sem emprego, sem dinheiro, sem mulher,
com 50 anos nas costas, voltando pra casa da minha mãe.
E agora... Olha como a vida muda.
Anda logo, Betinho.
O avião não vai esperar a tarde toda.
Não vejo a hora de botar meu biquíni e pegar uma praia.
Vamos logo.
Ah, sim, minha mãe.
A gente precisava de alguém pra distrair os convidados,
pra que Valentina saísse da mesa sem chamar atenção.
E não conheço ninguém melhor pra distrair um convidado do que minha mãe.
Vamos, Roberto. Vamos embora.
Mãe, quantas vezes eu tenho que dizer: eu agora sou Caroglio.
Dom Benedetto Caroglio.
Vamos.
Resync: ThiagoWdR
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