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Zulu
Na noite de 29 de dezembro,
fui para a cama. Estava a chorar e disse ao Steve…
Nunca o esquecerei. Ao lado da cama, disse: "Não sei quanto mais aguento.
Não sei quanto mais…
Não sei quanto mais tempo aguento sem saber quem fez isto."
E depois, nessa noite, recebi um telefonema.
"Kristi, prenderam uma pessoa."
E eu disse: "O quê?"
Notícias de última hora sobre a investigação
ao homicídio de quatro estudantes.
Bryan Christopher Kohberger, na casa dos 20,
está preso enquanto aguarda a extradição para o Idaho.
O Sr. Kohberger foi detido sem incidentes.
O local foi entregue ao FBI para análise.
Perguntei três vezes aos detetives se era a pessoa certa
e eles responderam sempre: "Sem dúvida."
Não parávamos de pensar: "Quem é ele?"
Agora, tínhamos um nome e sabíamos como ele era.
Foi um dia muito emotivo.
Senti um grande alívio com a prisão.
Havia a sensação de que a Kaylee, a Maddie, a Xana e o Ethan
se tinham juntado para fazer algo acontecer.
Havia a sensação de que algo sobrenatural tinha tido influência.
Segundo o advogado de defesa da audiência de extradição,
Bryan Kohberger ficou chocado com a detenção
e diz que está ansioso por ser ilibado.
Não sei descrever o que senti.
Não tinha acabado. Era o que vinha a seguir.
PESADELO UNIVERSITÁRIO: OS ASSASSINATOS DE IDAHO
Depois da detenção,
demos uma conferência de imprensa.
30 DE DEZEMBRO DE 2022
Poder dizer a toda a gente…
CHEFE DA POLÍCIA DE MOSCOW
… "temos um suspeito preso",
foi um alívio. Na conferência de imprensa, o procurador Bill Thompson disse:
"A investigação não acaba com uma prisão."
Na verdade, é um novo começo.
PROCURADOR DO CONDADO DE LATAH
Todos sabem o nome da pessoa que foi acusada destes crimes.
Divulguem essa informação.
Peçam ao público, a quem conhecer este indivíduo, que se apresente.
28 ANOS
No que tocava à polícia,
o nosso trabalho era construir um caso sólido que acabasse numa condenação.
Devíamos isso às vítimas e às suas famílias.
É para isso que cá estamos.
Começámos a investigar minuciosamente quem ele era e o seu passado.
Ao fazer isso, descobrimos que era doutorando
e professor assistente na WSU.
Quando soube que ele era da Universidade Estadual de Washington,
foi uma sensação desconfortável saber…
IRMÃ DE XANA
… que eu vivia mais perto dele do que a minha irmã
e que andávamos na mesma universidade.
É um pormenor difícil de saber.
Quando soube que ele vivia perto da Jazzmin, no campus da WSU,
passei-me e…
PAI DE XANA
… desejei que ela já tivesse saído daquela universidade,
mas, ao menos, tinham-no apanhado.
Fiquei feliz por isso. Só por isso.
Quando a polícia e o FBI prenderam o Kohberger na casa dos pais,
também apreenderam o Elantra.
O Elantra foi encontrado na garagem da casa,
foi retirado do local
e entregue ao FBI na Pensilvânia,
para ser analisado.
O FBI fez uma análise completa ao carro.
Desmontaram-no, praticamente,
e procuraram qualquer tipo de prova que pudessem encontrar,
como vestígios de sangue, outro ADN,
qualquer coisa que pudesse ter vindo da cena do crime.
Mas o veículo estava limpíssimo. Não havia nada.
Mas, ao mesmo tempo, alguém saber que está a cometer um crime horrível
e depois tomar medidas para encobrir qualquer tipo de prova, diz muito.
VARANDA
Tínhamos a prova circunstancial de um Elantra branco naquela zona,
e o telemóvel mostrava que ele lá tinha ido várias vezes.
Mas nunca encontrámos outro ADN na casa relacionado com ele, além da bainha.
Descobrimos que o Kohberger tinha uma conta na Amazon
e que, em março, tinha comprado uma faca KA-BAR e uma bainha,
mas nunca recuperámos a arma do crime.
Pensámos que as pegadas na neve pudessem ser uma prova,
mas descobrimos que não faziam parte do crime.
O álibi do Sr. Kohberger era que não estava na cena do crime,
mas a ver as estrelas.
Mas disse que estava sozinho, ninguém o podia corroborar.
Os julgamentos não estão no papo. Para a pena de morte,
o júri tem de ser unânime para se obter uma condenação,
por isso, não só tem de ser para além de qualquer dúvida razoável,
como tem de ser uma decisão unânime, o que é algo bastante sério.
Num caso como este, tudo importa.
EX-AGENTE ESPECIAL DO FBI
O ADN numa bainha de faca na cena do crime
não é suficiente para uma condenação.
Um júri quer aquilo a que chamamos "motivo".
Por que razão alguém faria algo.
Queríamos saber o que levou a este incidente.
Qual era a história por trás deste homem?
Como tínhamos chegado aqui?
Sabíamos o nome. Procurei-o.
IRMÃ DE KAYLEE
Não tinha uma grande presença online.
Não encontrei muito em termos de Facebook nem de TikTok.
FINALMENTE ACEITEI A MINHA NEVE VISUAL.
Mas encontrei um perfil dele num fórum antigo,
onde falava de uma doença chamada "neve visual".
Descobri que a neve visual é uma doença neurológica.
A visão é ofuscada por neve brilhante a piscar.
ESTOU PRESO NESTE VAZIO
Queixava-se de não ver bem as pessoas,
de não saber como era estar no mundo real.
LUTO CONTRA OS MEUS DEMÓNIOS,
NÃO TENHO EMOÇÕES,
Estava desligado da sociedade.
NÃO TENHO NADA.
Ao investigar o caso,
descobri que ele vinha de uma família normal da classe trabalhadora.
Soubemos muito cedo que ele tinha tido excesso de peso.
Ficou obcecado com isso.
Ficou obcecado com o que comia.
Tornou-se vegano, obcecado em não comer carne,
obcecado com a limpeza.
A limpar tudo constantemente.
Tinha tendências obsessivo-compulsivas.
Conseguimos contactar alguns amigos,
mas ninguém era íntimo dele.
Nunca encontrámos um melhor amigo.
Todos começavam por dizer:
"Não o conhecia assim tão bem."
VICIOU-SE PORQUE QUERIA 'APROVAÇÃO'
Mas alguns amigos falaram sobre o vício de heroína dele.
Analisámos toda a informação disponível sobre o passado do Bryan.
Para o FBI, isso faz parte de uma investigação padrão.
Sabíamos que tinha cadastro.
O pai denunciou-o por roubar o telemóvel da irmã
para o vender e comprar droga.
Em 2013 e 2014, o Bryan esteve em desintoxicação.
Depois de se ter desintoxicado,
interessou-se pela Criminologia.
Entrou na Universidade DeSales, na Pensilvânia,
onde tirou o mestrado em Criminologia.
Vi o Bryan pela primeira vez na cadeira de Mentes de um Assassino em Série.
COLEGA
Sentei-me ao lado dele. Sorri e disse bom dia.
Lembro-me de ele, no primeiro dia de aulas,
fazer uma pergunta sobre todos os temas daquela cadeira.
Todos reviravam os olhos e pensavam: "Está a fazer outra pergunta…"
DRA. KATHERINE RAMSLAND
A professora de Psicologia Forense na DeSales era a professora Ramsland.
Era muito conhecida no mundo da Psicologia Forense.
Escreveu um livro com o assassino BTK.
Na cadeira da Dra. Ramsland, estudámos todos os grandes assassinos,
os pequenos assassinos, assassinos desconhecidos.
Tínhamos trabalhos de grupo com simulações de cenas de crimes
para perceber como ocorrera o crime
e que tipo de assassino faria aquilo.
O Bryan adorava a prof.ª Ramsland.
Ele mudava, naquelas aulas.
Era uma pessoa diferente de quando o víamos sozinho,
sem falar com ninguém. Quando começava a aula,
ele tomava ativamente notas de tudo,
olhava ativamente para ela.
Via-se que estava a pensar em tudo o que ela dizia.
Lembro-me de estarmos juntos num trabalho de grupo
e parecia que tinha um manual com as suas ideias e pensamentos,
e era isso que ele seguia.
Era à maneira dele ou nada feito.
Nunca o vi socializar.
Nunca o vi em nenhuma festa, nenhum evento desportivo, nenhum baile.
Vivia no seu próprio mundo.
Eu andava à procura do que quer que fosse na Internet.
Encontrei um questionário que ele pôs no Reddit.
Pedia a quem tivesse estado preso, ou estivesse preso,
para clicar na hiperligação e ir ao questionário dele.
E, curiosamente,
muitas das perguntas pareciam centrar-se
no processo psicológico da sensação de cometer um crime.
Algumas das perguntas eram:
"Porque escolheu aquela vítima?
Como abordou a vítima? E como saiu do local?"
O inquérito foi publicado várias vezes, em vários locais diferentes.
Olhando para as perguntas agora,
parecia quase uma preparação para o crime perfeito.
Acho que a questão seria:
"Queres fazê-lo e sentir isso por ti próprio?
Continuas a tua investigação
porque és fascinado por estes crimes e tens vontade de os cometer?"
Mas isso é só uma teoria.
Tem de ser: "O que posso provar em tribunal?"
Bryan Kohberger.
Depois da Universidade DeSales,
o Bryan candidatou-se ao doutoramento em Justiça Criminal na WSU,
onde era professor assistente na altura dos homicídios de Moscow.
Falámos com muitos funcionários, alunos e professores da WSU,
e soubemos que ele não era muito estimado
pelas professoras e pelas alunas.
Houve incidentes com o Bryan e as professoras.
Houve incidentes com o Bryan e as alunas.
"IDIOTA"
Comportamento muito humilhante, mansplaining.
"ASSUSTADOR"
Tinha feito muitas delas sentirem-se desconfortáveis.
"FÊ-LA CHORAR"
Falava de forma condescendente com as mulheres,
era brusco e conflituoso.
"AGRESSIVO"
Havia exemplos estranhos e comportamentos estranhos.
Houve uma situação em que o Bryan Kohberger
foi até ao carro com uma aluna.
EX-CHEFE DA POLÍCIA DA WSU
E a aluna sentiu-se presa
e achou que ele foi agressivo.
Convidou-a para sair. Um comportamento impróprio para a posição dele.
Descobrimos que, após os homicídios,
ele continuou a ir à faculdade até 19 de dezembro,
quando foi demitido do cargo de professor assistente na WSU.
Na altura, nada foi comunicado à polícia,
porque nada do que aconteceu foi considerado um crime.
Tendo em conta o que aprendi nas nossas aulas de Psicologia Forense,
acho que o Bryan Kohberger tem algo contra mulheres,
com base na descrição do que fez àquelas pobres raparigas.
Quem agride mulheres daquela forma…
NÃO SAÍA COM "PROBLEMÁTICAS"
… não gosta delas, acha-as ameaçadoras,
e descarrega essa raiva nelas.
Os atos violentos contra as mulheres
têm sido associados a pessoas com valores do movimento incel.
O grupo incel, que significa "celibatário involuntário",
é um grupo de homens, geralmente jovens,
que acredita que há uma conspiração mundial
na qual as mulheres só fazem sexo com uma minoria de homens,
e que eles não pertencem a esse grupo.
Acham que as mulheres são a causa de todo o seu sofrimento, de toda a sua dor.
ODEIO MULHERES
Então, revoltam-se e tornam-se violentos.
QUE SE FODAM TODAS
Mas quanto a usar isso em tribunal,
nunca vimos provas que mostrassem
que o Kohberger era do movimento incel,
que andava em fóruns ou no que quer que fosse.
Mas o Bryan Kohberger era muito bom a esconder a sua atividade online.
Parte do que conseguimos apreender na casa dos pais, na Pensilvânia,
e no apartamento dele, em Pullman,
foram alguns computadores e telemóveis que ele usava.
Essas provas foram analisadas e processadas
para tentar encontrar ligações entre o Bryan e o crime.
Descobrimos que ele era muito cauteloso.
Apagava a memória do telemóvel e eliminava permanentemente os dados.
Havia muito pouca informação nos seus dispositivos digitais.
Então, a Cellebrite foi chamada…
ESPECIALISTAS EM CIÊNCIA FORENSE DIGITAL
… para uma análise profunda ao telemóvel, para lá de uma extração normal.
No mundo de hoje, todos os casos têm potencial para ter provas digitais.
Vítimas, testemunhas, suspeitos,
toda a gente tem um telemóvel.
E o dia todo, todos os dias,
o nosso telemóvel regista o que fazemos,
com quem falamos, como nos comportamos.
Quem somos, no fundo.
Em março de 2023, recebi uma chamada do FBI a dizer:
"Temos esta investigação.
Podem ajudar-nos a preparar o caso para o julgamento?"
Foi quando me ofereci, e ao Jared, para ajudarmos o FBI.
O FBI deu-nos cópias forenses do telemóvel e do portátil do Bryan.
Esperavam que conseguíssemos encontrar uma ligação às vítimas,
um motivo, e preencher as lacunas do dia 13 de novembro.
Vimos todas as coisas básicas.
O calendário, as mensagens, as chamadas,
as pesquisas na Internet, essas coisas.
Mas o telemóvel dele era menos ativo do que o normal.
Não tinha aplicações. Não trocava muitas mensagens.
O telemóvel do Bryan só tinha 18 contactos guardados.
É tão estranho haver alguém
que comunica com tão poucas pessoas.
O Bryan usava o modo de navegação anónima,
que nos torna anónimos. O objetivo é a privacidade.
Desaparece quando fechamos o browser.
Mas ficam vestígios, e isso ajudou-nos a longo prazo.
Nos dias que antecederam a sua detenção,
ele não apagou o histórico do browser,
por isso, conseguimos vê-lo.
As pesquisas dele mostram o seu estado de espírito.
Pesquisou "assassinos em série",
"escutas federais", "paranoia psicopata".
Foram essas as palavras-chave que encontrámos.
A falta de dados no dispositivo ajudou-nos a provar a intenção.
Ele queria minimizar a pegada digital.
Não queria ser detetado.
Queria permanecer anónimo.
O Bryan estava a estudar Criminologia,
por isso, estudava assassinos em série.
Isso podia explicar por que razão achava que tinha o crime perfeito.
Com base nas informações recolhidas,
tínhamos finalmente uma boa teoria sobre a progressão do crime.
Não era apenas violência aleatória.
Era planeada, premeditada. Era o que as provas mostravam.
13 DE NOVEMBRO DE 2022
Na noite dos homicídios,
o telemóvel do Kohberger estava ligado. Quando saiu do apartamento…
… foi desligado.
Extraíram-se dados do telemóvel.
Sabemos que o desligou quando tinha a bateria cheia.
Estava totalmente carregado e tinha rede.
Ele carregou fisicamente no botão para o desligar,
para não registar nada naquele período.
Esta prova digital significava que ele tinha premeditado,
que decidira desligar o telemóvel naquele momento,
porque ia matar pessoas.
BEM-VINDO A MOSCOW
3H30
Depois, o Bryan chegou à zona da King Road por volta das 3h30.
O Bryan chegou à casa.
Subiu as escadas
até ao quarto onde a Kaylee e a Maddie estavam a dormir.
A Maddie, que estava mais próxima, foi esfaqueada primeiro.
Parece que a Kaylee pode ter acordado
enquanto a Maddie estava a ser esfaqueada,
e depois ela própria foi esfaqueada várias vezes.
Cremos que, depois, ele as cobriu com o edredão.
Entretanto, a Xana ouviu algo a acontecer.
Não sabemos se ela subiu até ao último andar
ou se se cruzou com o Bryan nas escadas,
mas sabemos que ele a perseguiu até ao quarto dela.
O Ethan estava deitado na cama.
O Bryan esfaqueou-o…
… e depois lutou com a Xana.
Ela tinha feridas defensivas por todo o lado. Tinha mais de 50 facadas.
Ela deu luta.
4H48
Por volta das 4h48, o telemóvel do Kohberger foi ligado
e conectou-se a uma torre de telemóvel.
10H31
Às 10h31,
o Bryan Kohberger estava na casa de banho do seu apartamento
e tirou uma selfie com um "fixe",
a seguir orgulhosamente com a sua vida.
Acho que ele achava que se safaria destes homicídios.
Há mais de um ano que Ethan Chapin…
28 DE DEZEMBRO DE 2023
… Xana Kernodle, Madison Mogen e Kaylee Goncalves foram mortos aqui.
Tanto a acusação como a defesa dizem que têm os detalhes da cena do crime
de que precisam para os seus argumentos.
Um porta-voz da universidade disse que muitos alunos queriam a casa demolida.
08/06/2001 A 13/11/2022
Eu vivia a uns dez metros da porta delas.
AMIGO DE ETHAN
Estava mesmo ali.
Isso era difícil e doloroso.
Sempre imaginei a King Street como um dos lugares mais seguros do campus…
AMIGA DE XANA
… mas isto mudou completamente a minha perspetiva.
A casa toda era uma prova.
Quanto a mim, ainda havia manchas e coisas na casa
que deviam ter ficado lá até ao fim do julgamento,
mas demoliram-na na mesma.
As pessoas não percebem.
"Porque não querias que a casa fosse demolida?"
E é assim…
MÃE DE KAYLEE
Não é que não a quisesse demolida. Ninguém poderia voltar a viver lá,
mas a minha filha não morreu simplesmente ali.
Ela viveu ali, foi onde deu o último suspiro.
E a Maddie, e todos aqueles quatro jovens.
- Tinha de ser logo? - Claro que não.
Porque não deixá-la até o julgamento acabar?
12 DE SETEMBRO DE 2024 UM ANO E DEZ MESES APÓS OS HOMICÍDIOS
Fui a todas as audiências. Estávamos a preparar-nos para um julgamento,
mas as coisas avançavam tão devagar.
A defesa alegava que não conseguia um júri imparcial em Moscow,
que muita gente sabia dos crimes, que os jurados seriam tendenciosos.
Então, mudaram o caso de Moscow para Boise.
É esgotante para uma família não saber o que aconteceu.
TIA DE KAYLEE
Achamos que vamos ter respostas, mas depois há atrasos.
E já se passaram dois anos e meio.
JUNHO DE 2025
Ele tem de ser responsabilizado com todo o rigor da lei.
PAI DE KAYLEE
É muito simples.
Como se sentirá se não for a julgamento?
Furioso.
Mas depois, finalmente, marcaram a data.
O julgamento deverá começar com as alegações iniciais a 18 de agosto.
O Estado do Idaho quer a pena de morte para Bryan Kohberger.
Não ir ao julgamento estava fora de questão.
Tinha de ir pela minha irmã Kristi e pelo Steve.
Tinha de ir por mim.
Planeava despedir-me
e mudar-me para Boise.
Queria que ele prestasse contas publicamente.
Como seria ter justiça?
Para mim, seria retirá-lo desta Terra.
AVÓ DE KAYLEE
Fico tão zangada ao pensar
que ele acorda todas as manhãs e respira.
E que as nossas bebés já cá não estão e não podem fazer isso, por causa dele.
A pena de morte é um fator porque fizeste o papel de Deus naquela noite.
Decidiste quando alguém iria morrer.
E se te armas em Deus, vamos responsabilizar-te.
Gritamos: "Queremos justiça."
O que eu quero é que ele morra.
E não vou pronunciar o nome dele, nunca.
Não, nem pensar.
Só haveria justiça se elas voltassem,
mas não funciona assim. Morreram.
Nunca voltarão.
Mas quero que ele morra.
Estávamos a ter a reunião semanal sobre o caso, na polícia.
Faltavam semanas para o julgamento.
Tínhamos arranjado uma casa arrendada em Boise,
porque ia ser um julgamento demorado. Estávamos prontos.
Mas o Dr. Thompson informou-nos
de que tinha recebido uma chamada da defesa
a pedir-lhe que considerasse um acordo.
Quando ele disse isso, ficámos todos: "O quê?"
Notícias de última hora do Idaho.
O acusado, Bryan Kohberger, aceitou declarar-se culpado
de todas as acusações relacionadas com o homicídio destes quatro estudantes.
Assim, abdica do direito a um julgamento
e aceita as consequências determinadas pelo tribunal:
quatro penas de prisão perpétua e dez anos por assalto.
Significa que evita a pena de morte
e que talvez nunca saibamos a razão por trás disto.
A defesa pediu para excluir todas as provas que tínhamos obtido.
ACORDO DE ÚLTIMA HORA ABALA JULGAMENTO
Mas quando o juiz decidiu que nada seria excluído,
foi quando quiseram negociar um acordo.
ESTADO CONTRA KOHBERGER FILA ÚNICA
2 DE JULHO DE 2025 DIA DA AUDIÊNCIA DE ACUSAÇÃO
Não quero ser bombardeada ali.
MÃE DE KAYLEE
Quando as famílias souberam que não ia haver um julgamento
e que o Bryan Kohberger não ia ter a pena de morte,
algumas ficaram muito chateadas.
E se me deixarem ir primeiro e eu digo-lhes?
Deixa estar. O teu pai?
PAI DE KAYLEE
Não fizemos este acordo.
Não acha que quatro prisões perpétuas são justiça?
Não, claro que não. A prisão é um infantário!
Isto é justiça?
- Não. - Não, não é.
- Não. - Vamos.
- Vão estar na sala de audiências? - Andem.
Tento obter justiça para a Kaylee e a Maddie há quase três anos,
e o acordo foi algo que me magoou muito.
Todo este processo não foi correto.
A Kaylee pagou o preço, a Maddie pagou o preço,
a Xana pagou o preço, o Ethan pagou o preço,
e os amigos e as famílias deles pagaram o preço.
Os procuradores deram-lhe poder,
deram-lhe controlo.
KOHBERGER ACEITA ACORDO
Foi ele quem decidiu aceitar o acordo.
Na minha opinião,
monstros como ele nunca deviam ter opções, nunca mais.
Acho que todas as famílias tiveram opiniões diferentes sobre isso.
Acho que o acordo nos poupou
ao trauma emocional que teríamos de enfrentar num julgamento.
E poderia ter durado anos, quem sabe?
Estou grata por ter acabado e por, lentamente, começar a superá-lo.
Surpreendeu-me que lhe dessem um acordo.
Não devia ter tido um.
Devia ter de lhes dizer por que razão o fez.
Dizer a todos os pais por que o fez, se ia ter um acordo.
Para nós, com o acordo, ele safou-se bem.
Só teve de se sentar ali e o juiz perguntou-lhe…
No dia 13 de novembro de 2022,
assassinou Madison Mogen,
Kaylee Goncalves, Xana Kernodle
e Ethan Chapin?
Sim.
Só teve de dizer: "Sim." Nem teve de dizer os nomes deles. Isso não chega.
O mais importante é saber: "Porquê?
Porque escolheste aqueles miúdos naquela casa?"
Temos de saber.
Este caso abalou a nossa sensação de segurança.
Não queremos pensar que algo assim pode acontecer
aos nossos filhos que vão para a faculdade e não haver uma razão.
Queremos respostas como: alguém fez isto por dinheiro,
alguém fez isto por amor, alguém fez isto por ódio.
Mas a verdade é que, em muitos destes casos, nunca saberemos a razão.
No fim de contas, nunca conseguimos responder à pergunta
que todos querem ver respondida: "Porquê?"
Não sabemos porquê. Não sabemos porquê estes quatro.
Não sabemos porquê esta casa. Acho que nunca saberemos.
Mas eu acredito que ele acabou por receber a pena de morte.
Foi condenado a morrer na prisão.
E é isso que importa.
23 DE JULHO DE 2025 DIA DA PRONÚNCIA DA SENTENÇA
Hoje, os familiares das vítimas têm a palavra,
tendo a oportunidade de confrontar o homem que lhes negou uma vida de memórias.
Como te sentes, querida?
Um pouco nervosa?
Um pouco nervosa, sim.
Só quero chegar lá e falar.
Não sei quantas famílias vão falar.
Só quero que este dia acabe.
Dois anos e meio,
e vai tudo culminar nas próximas 24 horas.
A audiência foi tão emotiva.
Foi uma sensação estranha de que era mesmo o fim.
As famílias uniram-se naquele momento…
MÃE DE MADDIE
… e sentia-se que se apoiavam mutuamente.
Isso foi bonito.
FAMÍLIA DE ETHAN
Os Chapin decidiram não ir à leitura da sentença.
Foram para o lago, recordar o Ethan à sua maneira.
Vamos à pronúncia da sentença deste caso.
Vamos começar com as declarações das vítimas.
Uma das duas colegas de casa que sobreviveram, a Dylan Mortensen,
falou e foi muito emotivo.
Demore o tempo que quiser, sim?
- A força que foi necessária… - Desculpem.
… para estar ali, a poucos metros do Bryan Kohberger,
a pessoa que matou as suas melhores amigas e que lhe tentou estragar a vida…
Vi-a a tremer.
Não sei como foi possível ter a força para fazer aquilo.
O que aconteceu naquela noite mudou tudo.
Ele pode ter destruído partes de mim, mas ainda estou a recompor-me.
Aos poucos, estou a aprender a viver nesta nova versão da vida.
Ele nunca apagará o amor que partilhámos,
as gargalhadas que demos, a forma como me faziam sentir apreciada.
Essas coisas são minhas. São sagradas e ele nunca lhes tocará.
Dylan, muito obrigado pela sua coragem. Agradeço-lhe.
A Karen e eu somos pessoas normais…
PADRASTO
… mas tivemos vidas extraordinárias, porque tivemos a Maddie.
Por ela, não deixaremos que o luto tome conta de nós.
Já chega de sermos vítimas.
Vamos dedicar o nosso tempo, capacidades e atenção
à esperança, à recuperação, a ajudar os outros e ao futuro.
Subir àquele pódio foi muito assustador,
mas, no final, estou orgulhosa por ter feito isso.
Foi…
Não sei, foi uma última coisa que tínhamos de fazer
para esquecermos aquela pessoa.
A Xana merecia mais. Todos mereciam.
Mas venho aqui dizer isto.
Sou forte. Sou corajosa.
Sou uma lutadora, tal como a Xana.
Não controlas como sigo em frente nem no que acredito.
Caminho com o conforto de saber que voltarei a ver a minha irmã.
PAI DE KAYLEE
Quando o Steve se levantou e se virou de frente para o Bryan Kohberger…
Não se pode fazer isso. Quando o vi, pensei: "Meu Deus!"
Hoje, estamos aqui para acabar o que começaste.
Estamos aqui para provar ao mundo que escolheste as famílias erradas,
o estado errado, os polícias errados,
a comunidade errada.
Hoje, não tens um nome.
O mundo está a ver por causa dos miúdos, não por ti.
Acho que o Steve deu o mote
e depois a Alivea arrasou-o, basicamente.
Endireita-te quando falo contigo.
IRMÃ DE KAYLEE
Não te vou dar o que queres.
Não te vou dar lágrimas. Não vou tremer.
Deceções como tu gostam da dor,
do medo e da ilusão de poder,
e eu não te darei isso.
Não ganhaste, só mostraste quão cobarde és.
És um falhado patético e delirante
que pensou que era muito mais esperto do que os outros.
Esconderes-te nas sombras fez-te sentir poderoso,
porque nunca ninguém te deu atenção à luz do dia.
Se não as tivesses atacado enquanto dormiam,
a meio da noite, como um pedófilo,
a Kaylee tinha-te dado uma coça.
Estou orgulhosa do que fiz.
Gostava de ter feito mais, mas…
Estou orgulhosa das decisões que tomei,
de não mostrar vulnerabilidade no sentido tradicional,
porque, para mim, era uma questão de recuperar o poder e o controlo.
É importante para mim…
"Diminuí-lo", digamos.
Desmascarar e expor quem ele realmente é.
Na verdade, é só um cobarde.
Por isso, poder…
Mesmo que só um pouco, poder pô-lo no seu lugar
foi uma sensação incrível.
Este caso fez parte da minha vida diária
nos últimos três anos, praticamente.
Afetou-me…
… bastante, ao nível pessoal e emocional.
Traumatizou-me muito,
e não percebi quão mau era.
A ponto de ter de pedir ajuda e falar com um profissional,
o que é muito difícil de fazer para os agentes da autoridade.
Isto não é uma cicatriz em Moscow. É…
Uma ferida, certamente, e não creio que vá sarar completamente,
mas vai ser uma parte da nossa história
que não esqueceremos.
Sei que a Xana gostaria que eu seguisse em frente e aproveitasse a vida.
Se vissem a Xana na formatura do secundário:
"As vidas que vou mudar."
Eu só olho para aquilo.
Ela fez a diferença.
A Xana ficaria chateada se visse isto.
AMIGA DE XANA
Se nos visse a chorar e tristes.
Ela ia odiar isso.
Quando pensamos nela, pensamos na vida. No amor pela vida.
Por isso, tínhamos de festejar. Por ela. E fizemo-lo.
Acho que o Ethan se riria de muito disto. Diria: "Porque me dão tanta atenção?"
Acho que ele gostaria de ser lembrado como alguém brincalhão, engraçado
e que fazia sorrir toda a gente.
Há momentos em que sentimos uma onda de tristeza.
AMIGO DE ETHAN
Ou ouvimos uma música… Como "Fall in Love", do Bailey Zimmerman.
Era a nossa música, que cantávamos histericamente.
Gritávamos quando começava a tocar.
O amor é um anel de fumo À volta do teu dedo
Agora, é uma bênção Logo a seguir, já se foi
Quando a ouço na rádio, penso:
"Acho que é o Ethan."
Traz um pouco da tristeza de volta,
mas também felicidade, porque há memórias tão boas
associadas àquela música, por isso…
AMIGA DE KAYLEE
É importante fazer coisas felizes ao celebrar as nossas amigas,
divertirmo-nos em nome delas, falar e partilhar memórias,
juntarmo-nos e estar próximos de quem elas eram próximas.
Sempre nos considerámos irmãs umas das outras.
Pouco depois de tudo, mandei uma mensagem à Jazzmin.
Quando nos encontrámos,
recordámos algumas memórias, falámos, chorámos.
Foi bom podermos falar. Tudo o que eu pudesse fazer para a ajudar
e para lhe mostrar que tem quem a apoie.
Uma das coisas que mais quero fazer
é manter a Xana viva na minha vida.
Falo sempre dela.
Saio com amigos e algo me faz lembrar dela.
Recordo algo e penso: "Meu Deus!
Uma vez, a Xana fez isto e teve tanta piada."
A família e os amigos são tudo o que temos nesta vida.
São eles que nos ajudam a superar tudo.
Um, dois, três!
No final,
todos estes jovens tinham pessoas que adoravam e de quem gostavam,
e que se lembram deles pelo que devem ser lembrados.
Sabem… Isto é para sempre.
Legendas: Teresa Silva
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