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Original subtitles

ESQUECER É UM ATO INVOLUNTÁRIO.

QUANTO MAIS QUERES DEIXAR ALGO PARA TRÁS, MAIS ISSO TE PERSEGUE.

DIA 1

CAPITÃO

Capitão. A que horas? Estou a caminho.

O que se passa?

Encontraram uma rapariga estrangulada. Tenho de ir.

Sim. Tem cuidado.

Deixem-nos passar.

Às 23 horas, os pais dela reportaram que ela não tinha voltado.

Isso é um pouco cedo para reportar um desaparecimento.

Às 20 horas mandou mensagem ao irmão a dizer que tinha perdido o autocarro.

Ele não disse nada até às 23 horas e, a essa hora, a mãe estava histérica.

Onde está o corpo?

Ao pé do rio, mas, primeiro, vê.

Deixem a ambulância passar. Muito bem.

Ninguém lhe tocou.

Tira fotografias.

Já mandei fazer isso.

Bom dia, Fermín.

Bom dia, inspetora Salazar. Por aqui.

Venha comigo.

Olá.

A corda nem tem nó, ele só a apertou até ela deixar de respirar.

É sempre bom vê-la, inspetora Salazar, mesmo nesta circunstâncias.

Igualmente, Dr. San Martín.

A posição das mãos não é natural, foram posicionadas assim propositadamente.

Há incrustações na corda, isola-as e analisa-as.

Teremos de aguardar até à autópsia, mas colocaria asfixia como causa de morte.

E, dadas as profundas marcas da corda na carne, diria que foi bastante rápida.

O que é que ela tem na púbis?

Parece um bolo.

É um txantxigorri, um bolo típico desta área.

Analisa-o.

Não quero que se saiba disto, é informação reservada.

Ela foi violada, doutor?

Aparentemente não, embora o cenário tenha uma óbvia componente sexual

e, se não me engano, o atacante rapou a púbis dela, como parte do ritual.

- E fê-lo aqui. - Merda.

Esses cabelos são dela?

Não todos. Há alguns que parecem muito diferentes misturados com os da rapariga.

Temos de falar com os amigos dela.

Descobre onde estão, com quem estavam e quando a viram pela última vez.

- Está bem. - Cheira-me a cigarros.

Ela tinha uma mala?

Sim, tinha uma mala. Encontraram-na uns metros acima.

Ainhoa Elizasu. Treze anos. É de Elizondo.

Encontraram as roupas dela?

Nem sinal delas.

Os amigos da rapariga têm 13 anos, Salazar.

Não temos de acordá-los e preocupá-los mais. Podemos fazê-lo daqui a umas horas.

Daqui a meia hora.

Senhor, bom dia. Como está?

Bom dia.

Ela gostava de sexo à bruta: arranhões, dentadas, bofetadas.

Não era mesmo bater, era só foder, mas à bruta.

Porque é que a deixou sair do carro, se sabia que ela estaria sozinha na montanha?

Ela saiu. Estava sempre a pedir para que voltasse, mas ela não voltava.

Talvez estivesse chateado porque ela ficou tão pudica na passagem de ano.

Nem pensar.

Quando ela batia, ficava louca.

Primeiro, estava toda excitada e queria uma ménage à trois

e, depois, ficava toda paranoica e continuava sozinha.

Vocês alguma vez fizeram um ménage à trois com um estranho?

Nunca. Ela pediu-me umas vezes, mas era só conversa.

Não a matei, juro. A Carla era mesmo espetacular.

Porque a mataria? Merda! Isto é de loucos!

Acredito que não matou a Carla.

Porquê agora? Estou aqui há um mês e nunca ninguém acreditou em mim.

Vai ter notícias em breve.

É uma corda de embalagens comum, vendida em qualquer loja de ferragens,

mas o que é certo é que ambas as peças vêm do mesmo rolo.

O homem que matou Carla Huarte há seis semanas

é o mesmo que matou Ainhoa Elizasu.

Acho que é um caso de um assassino em série.

- É de Elizondo, certo, Salazar? - Sim.

Amaia, preciso que vá lá e lidere a investigação.

A sua experiência com o FBI será uma grande ajuda.

E o que é que, permita-me perguntar, o FBI tem a ver com uma cidade em Baztán?

Os inspetores Iriarte e Zabalza resolveram o caso da Carla Huarte.

Vão-lhe dar toda a ajuda que precisar.

Muito bem, capitão.

Todos nós teremos de chamá-la "chefe"?

Por favor, Montes.

CORPO DE JOVEM SEM VIDA ENCONTRADO NA FLORESTA EM ELIZONDO

James. Voltei.

Desce.

- Olá. - Olá.

Como estás?

- Bem e tu? - Estou bem.

Eles mudaram a nossa data na clínica para a próxima sexta-feira.

Droga. É quase sexta-feira. Não sei quanto tempo vou estar a investigar as raparigas.

Raparigas? Há mais do que uma?

Duas. De Elizondo.

Tens de voltar para a cidade?

Sim, vou sair agora.

James.

Tenho de esquecer o tratamento, pelo menos até a investigação terminar.

Podemos falar sobre isto daqui a umas semanas?

Claro.

Vou liderar o caso.

A sério? Parabéns. É porque o teu chefe sabe o que faz.

Obrigada.

Então, suponho que nos veremos em breve.

Boa tarde, sou a inspetora Salazar, do Departamento Regional de Homicídios.

Subinspetor Zabalza. Às suas ordens, inspetora.

Inspetor Iriarte, é um prazer.

Igualmente. Entramos?

Sim, por aqui. Entrem.

Amanhã temos de filmar todos no enterro

e compará-los com as pessoas do funeral da primeira vítima.

Esse foi filmado?

Não, pensávamos que tinha sido um incidente isolado.

Não se preocupe, isso é normal com a primeira vítima.

Tentem arranjar todas as filmagens e fotografias do primeiro funeral:

câmaras de segurança, telemóveis, tudo. - Farei isso, inspetora.

Há algo que nos chamou a atenção no novo corpo.

Se os cabelos coincidem com os encontrados na Carla Huarte,

são cabelos de veado, cabra, cão, javali, touro, raposa, ovelha e mesmo urso.

Não é normal esses animais estarem ali ao mesmo tempo sem alterar o corpo.

Achamos que o assassino pode trabalhar num ambiente rural.

Florestal, de caça, pecuário, e que os cabelos estavam nele.

Obrigada, teremos isso em conta. Boa noite.

Boa noite.

- Olá. Como estás? - Como vai isso?

- Como estás? - Bem. O que estás aqui a fazer?

A abraçar-te. Como estava a estrada?

Bem. Como estás?

Bem.

E o Freddy?

Em casa.

Entra.

Tia. Tia!

Até que enfim. Bem-vinda a casa, querida. Como estás?

Bem. Estou bem como podes ver.

E como está o James?

- Muito ocupado a preparar uma exposição. - Que pena.

Disseram que o assassino podia ser o rapaz que matou a namorada na passagem de ano.

É verdade?

Não, ele é inocente. Além disso, sabes que não podemos falar com a imprensa.

Querida, vou fazer a tua cama com os lençóis de flanela, está bem?

Obrigada, tia. Eu ajudo-a.

- Não, descansa. Ela ajuda. - Está bem.

- Até já. - Obrigada, tia.

Chega, já é tarde.

Todos para a cama, vamos lá.

DIA 2

Onde está o Montes?

Não o vi a manhã toda. Não achou que ele cheirava a álcool ontem?

Atrás de nós, corre! Capuz preto.

- Freddy! Merda! - Estás bem?

Sim. Este é o Freddy, o meu cunhado. O marido da minha irmã Ros.

Subinspetor Etxaide.

- É um prazer. - Para onde ias a correr?

Fiquei nervoso quando te vi.

A mim? Porquê?

Suponho que a Rosaura te tenha dito.

Não, o que se passa?

No outro dia, tivemos uma briga. Ela já não vem a casa há uns dias.

Estás bem?

- Bem... Ando a pensar bastante. - Amaia.

Víctor.

Vou-me embora.

Cuida-te.

A Flora vinha, mas disse que estava demasiado ocupada para deixar a padaria.

Vocês falam, outra vez?

Sim. De certo modo. Tomamos um copo, de vez em quando, aos poucos.

Como está o James?

- Ele está bem. Ocupado com a exposição. - Manda-lhe cumprimentos.

- Claro. - Bem, vou deixar-te à vontade.

Agora conheces os meus cunhados.

São um pouco diferentes.

Há quanto tempo.

Como estás, Flora?

Ocupada. Queres café?

Sim. Obrigada.

Não dizias que querias ser mãe?

Estou aqui como polícia, Flora.

Tu? Se és o melhor que eles nos podiam enviar, estamos com problemas.

Estou aqui para te ver como perita, não como irmã,

por isso, o que vais ver é secreto e não podes contar a ninguém.

Nem mesmo à família. É evidência policial.

Um txantxigorri? Isto estava na cena do crime?

Como sabes?

De onde mais vêm as evidências policiais, inspetora?

Deixa-me ver.

Alguma hipótese de estar envenenado?

Analisaram-no e está limpo.

Ingredientes de alta qualidade.

Frescos e misturados nas proporções certas.

Cozido esta semana. Duvido que tenha mais de quatro dias.

Pela cor e porosidade, diria que foi cozido num forno de lenha convencional.

Como podes saber tudo isso?

Porque sei como fazer o meu trabalho, inspetora.

- Para além de ti, quem mais faz estes? - Todos têm a receita. Não é secreta.

Mas todos o fazem de forma particular.

- Este diz-te alguma coisa? - Sim.

Quem quer o tenha feito, sabe o que estava a fazer.

O balanço nas proporções é admirável.

Preciso de uma lista de todas as lojas, padarias e pastelarias que os fazem.

Os únicos que o fazem com esta qualidade

somos nós, o Salinas na Tudela, o Santa Marta na Vera e uma padaria em Logroño.

Dá-me a lista mais completa que conseguires, por favor. É importante.

O mais cedo que ta consigo arranjar é amanhã.

Imaginas o trabalho todo que tenho, desde que a nossa irmã sofredora está de baixa.

Amanhã está bom.

És a filha da Rosario?

Não és a filha da Rosario?

A que se mudou para a América, porque não gostava da padaria?

Sim, sou a Amaia.

- Lamento imenso em relação à sua mãe. - Obrigada.

Quero que te lembres de uma coisa.

Quando encontrares quem quer que esteja a matar as raparigas, sabes...

Anne!

Anne! Viram a Anne, a minha filha? Anne! Não a vejo.

Sou polícia, acalme-se. Pare. O que aconteceu?

- Anne! - O que aconteceu? Acalme-se.

- A minha filha. - Sim.

Fui buscá-la à escola e ela não estava lá.

As amigas dela disseram-me que não tinha ido à aula, esta manhã.

- Acalme-se, vamos ajudá-la. - Anne!

Anne!

Jonan, desapareceu outra rapariga.

- Anne! - Anne!

Alguma novidade, inspetora?

Estejam atentos a alguma anomalia que encontrem e digam-nos imediatamente.

Terão uma ideia melhor se ele conhecer a área, ou o modo como opera.

- Pode contar connosco, inspetora. - Anne!

Anne!

Quanto àqueles cabelos que estavam nos corpos,

se são mesmo de um urso, de certeza que chegaram aqui de outra maneira qualquer.

Há restos que mostram a presença de animais de grande porte na área,

mas não há relatos de ursos aqui desde 1700.

Podem ter sido transportados em roupas de caçador,

ou por outro animal, mas não há dúvida de que não foi um urso.

Ou por um Basajaun, Alberto?

Não gozes comigo, Gorria.

Há uns anos, ele disse-me que viu um Basajaun na floresta.

Agora tem vergonha de falar sobre isso.

Aqui!

O que se passa?

Aqui!

Aqui!

O que se passa?

Há algo aqui!

Aqui!

Obrigado.

Merda! Falso alarme!

Não, vamos concentrar os nossos esforços no rio Bidasoa,

mas quero que os patrulhas procurem um par de sapatos na berma da estrada. Percebido?

Não, Zabalza. Não é a primeira coisa que vão fazer amanhã. Imediatamente.

Estou disponível 24 horas.

- Inspetora Salazar. - Como está?

Estou bem, mas um pouco surpreendido, para ser sincero.

Li o que me enviou sobre o caso

e fiquei surpreendido por ver que só está a usar o seu cérebro.

Não posso... Não consigo ouvi-la, só um segundo.

É a melhor detetive que já conheci, Amaia.

Tem disciplina, conhecimento, mas, acima de tudo, tem instinto.

É este lugar.

Não, mas tem de se elevar acima das circunstâncias, Amaia.

O que pressente em relação ao assassino? O que lhe dizem as suas entranhas?

Se ele está perto, longe, saudável, doente?

Se age sozinho? Está assustado? Acredita em Deus?

Precisa do seu cérebro, mas também precisa da sua intuição.

Tem de compreender como tudo começou

e, para isso, tem de desligar o barulho interior e deixar o instinto funcionar.

Obrigada, amigo.

Obrigado, inspetora.

- A procura no vale... - Rosaura, não ponhas tanto fiambre ali.

- E tu? Gostaste? - Sim, muito. Muito obrigada.

Tenho que chegue para um mês.

- A rapariga pode ser outra vítima. - Senhor, isso é terrível!

A rapariga ainda não foi encontrada, depois de ter dito aos pais, ontem...

- O que estás aqui a fazer? - Tu sabes.

Mas... O que é isto? Estão malucos, ou quê?

Ela apareceu?

Amaia, de quem foi a ideia de chamar "Basajaun" àquele assassino?

Da imprensa, creio.

Basajaun significa "senhor da floresta" em basco.

Uma criatura protetora que se assegura que o balanço da floresta se mantém intacto.

É harmonia e colaboração.

Dar o nome dele a um assassino vai contra a natureza.

A que é um Basajaun, exatamente?

Digo-te agora.

Uma criatura gigante coberta de pelos.

Um ser mitológico que protege as florestas.

Como o Pé-grande?

- Do mesmo estilo. - Mas mais velho.

Cuida bem dele, é uma primeira edição.

Claro.

DICIONÁRIO ILUSTRADO DA MITOLOGIA BASCA

Vais-me dizer porque viveste com a tua tia, em vez de viver com a tua família?

Qual é o problema? Não gostas do meu quarto?

Mãe!

Não sejas tão tonta. Vais estar muito mais fresca no verão.

Mas, mãe...

Fecha os olhos e para de barafustar.

Cala-te! Não me ponhas nervosa.

Anne...

Anne!

Anne!

É impossível!

Merda! Amaia!

Rosaura, o que estás aqui a fazer?

Os teus gritos acordaram-me. O que aconteceu?

- Viste uma rapariga de capuz? - Não.

O que foi?

Jonan, a Anne estava na parte de fora da minha casa.

Manda as patrulhas procurarem-na e diz aos pais dela.

DIA 3

Sim, Zabalza.

Não faz sentido que ela esteja na cidade e não vá para casa.

É verdade. Está bem.

Passámos a cidade a pente fino e ninguém viu nada.

Ela estava fora da minha casa, não pode ter desaparecido. Alguém a deve ter visto.

Não sei o que dizer, chefe.

Diz que eles vão continuar à procura, até a encontrarem.

Claro. As patrulhas estão ativas desde as cinco da manhã, mas até agora...

E quanto aos vídeos do funeral?

O Iriarte e o Zabalza puseram homens a analisá-los.

E o Montes?

Foi para a estação, enquanto estávamos no cemitério.

Ele disse olá aos oficiais, foi-se embora e ninguém o viu o resto do dia.

Merda, era bom saber se podemos contar com ele.

Se ele tem problemas pessoais, devia assumi-los e voltar para Pamplona.

Concordo.

Temos de rever todos os casos

de homens com registo de exibicionismo, perseguição e errância.

Homens que perderam as famílias de forma violenta, órfãos, estranhos, solitários.

Temos de construir uma base de dados que inclua todos os abusadores de Baztán.

Está bem, chefe.

Precisamos de ter todos os casos dos últimos 20 anos, em Baztán,

com nem que seja apenas um elemento do modus operandi deste tipo.

Sim. Quando alguém tem um ritual tão preciso como este,

é muito provável que o tenha ensaiado antes. Muito bem.

- A conta vai para o teu quarto? - Sim.

Então, vamos. Vou dar-te uma lista de padarias.

Arranja uma amostra da farinha de cada uma.

Analisa-as e compara-as com a farinha do txantxigorri.

Assim, saberemos onde foi feito.

O que se passa?

Vamos.

Está a caminho.

Vamos, cavalheiros.

Vá lá! Vamos!

- Inspetora Salazar. - Dr. San Martín.

É como ver as outras raparigas.

Há quanto tempo acha que ela está morta?

Não posso dizer ao certo, mas há mais ou menos 24 horas,

Montes!

- Olá. - Como estás?

Ela tem duas unhas partidas.

Ela deu luta.

Com um pouco de sorte, encontramos a pele do atacante debaixo das suas unhas.

Alto! Quem está aí?

O que foi, Montes?

Está ali alguém!

Cuidado!

Polícia! Mãos ao alto, ou eu disparo!

Pelo amor de Deus, Fermín! Que raio é isto?

É uma nútria, uma espécie de lontra norte-americana.

Há uns anos, algumas escaparam de uma quinta em França

e adaptaram-se perfeitamente a esta área.

Pensava que tinha visto alguém. Um tipo alto a olhar para mim da floresta.

Pelo menos hoje estavas aqui para vê-lo.

Ela estava grávida, os disparos mataram as crias.

Ela agiu de forma estranha, fora do comum, nos dias anteriores ao desaparecimento?

A minha filha estava normal.

Ela conheceu alguém recentemente?

Um rapaz, ou uma nova amiga, talvez alguém mais velho que ela?

Não. Estava sempre com os mesmos amigos, as raparigas da escolas e os primos.

Os amigos gostavam mesmo dela.

Vinham aqui muitas vezes para fazer os trabalhos de casa

e a Anne explicava-lhes coisas que eles não tinham percebido.

Daí não ficarmos surpreendidos por ter ido para casa da amiga estudar para os exames.

Sabia se a Anne usava algum tipo de droga?

Não usava drogas, nem álcool, nada.

Sei que é difícil, mas, a sério, se tentar,

consegue lembrar-se se havia alguém novo na vida dela,

nas redes sociais, na aula, ou alguém na cidade?

Já lhe disse que não, ninguém.

Tinha uma vida completamente normal.

Ela estava a namorar com alguém, ou havia um ex-namorado?

Ela era muito nova. As amigas já tinham beijado rapazes, mas...

ela disse-nos que não tinha. Ela até ficou nervosa ao falar disso.

FICHEIRO SEM NOME

Precisa de alguma coisa, inspetora?

Vamos ter de levar o computador dela.

Está bem.

Ele remove a maquilhagem delas, como parte do ritual.

Por isso é que nenhuma delas tinhas restos de maquilhagem.

Nem mesmo a Carla Huarte, que foi morta na passagem de ano.

Porque é que ele faz isso?

Está a purificá-las.

Olha para esta imagem da conceção imaculada de Maria.

As mãos delas estão perto do corpo,

numa atitude de rendição, palmas para cima, como as raparigas perto do rio.

Ele não gosta que elas cresçam, que se tornem corruptas e sujas.

- Por isso é que as lava no rio. - O tipo é completamente doido.

Por isso, trá-las para casa, mata-as

e, depois, leva-as para o rio, onde as despe, remove a maquilhagem,

deita, rapa a púbis e coloca o bolinho.

Ele deve ser forte para conseguir carregar um corpo até ao rio.

Deve carregá-las, porque elas não têm nenhumas marcas, nem arranhões,

e nenhuma rapariga iria até ao rio à noite.

A rejeição da juventude não encaixa com um jovem.

Bem pensado, Jonan.

Mas não acho que ele as mate em casa.

Duvido que as raparigas fossem para a casa de um estranho.

Ou ele as persegue e ataca, o que não parece ser o caso,

ou leva-as num veículo largo, uma carrinha

que usa depois para transportar o corpo.

Numa cidade, todos se conhecem e confiam uns nos outros.

Entrar no carro de um vizinho não é assim tão descabido.

É verdade. Um homem entre os 30 e os 45, com uma educação rigorosa.

Talvez ainda viva com os pais, ou talvez tenha sido uma criança feroz

e criado o seu próprio código moral, que agora aplica ao mundo.

Se estivermos certos e é isso que o atormenta,

ele não vai parar até o apanharmos.

Só sabíamos que ela gostava de um rapaz.

Gostava de um rapaz? Nunca vos disse o nome dele?

Não, nunca disse nada.

Era uma puta.

Ela enganava todos com aquela imagem de virgem inocente.

Mas andava com um homem casado há um ano.

Ela dizia que ia para casa de uma amiga estudar

e saía com ele.

Ela contou-te isso?

Sim, ela disse que ele lhe dava presentes,

que a fodia em todo o lado e que tinham planos para o futuro.

Sabes quem ele é?

Não faço ideia.

Ela disse-me que era algo entre eles e que tinha decidido não contar a ninguém.

Tia...

Olá. Olá, querida.

Como estás?

Bem. E como estás tu?

Cansada.

- Muito bem. - Tia.

O que se passa?

Ontem à noite, achei que vi a rapariga desaparecida quando ela já estava morta.

Ela disse alguma coisa?

Não. Olhou para mim

e, quando fui ter com ela, foi-se embora. - Muito bem.

Quem te deu essa noz?

Estava no casaco da rapariga. Os seus bolsos estavam cheios delas.

Está bem. Sabes que as nozes simbolizam o poder das bruxas, Amaia.

Por dentro do seu cérebro pequeno, a bruxa acolhe o ser desejo diabólico

e, quando ela a dá a alguém para comer, consegue possuir essa pessoa,

pô-la doente, apagar a sua força de vontade, ou amaldiçoá-la.

Sabes que não acredito nessas coisas.

Muitos de nós não acreditam até verem. Eu também era assim,

até que um dia tive a sorte de ver.

O que viste?

Quando tinha 16 anos, ia à floresta todos os dias buscar lenha até ficar escuro.

Um noite, a caminho de casa, ouvi um apito.

Olhei para cima e pensava que tinha visto um homem muito alto,

de tronco nu e de cabelo grisalho comprido.

Mas quando os meus olhos se habituaram à luz,

pude ver que não era um homem, era uma criatura mágica.

Um visão extraordinária à minha frente, que parecia querer avisar-me de algo.

Aproximei-me dele e os nossos olhares cruzaram-se

durante o instante mais intenso e relaxante que já vivi.

Depois, ele virou-se e desapareceu por entre as árvores.

No dia seguinte, voltei lá e, se o apito dele não me tivesse parado,

eu teria caído numa gruta, da qual nunca teria conseguido sair.

Compreendes?

Compreendes, Amaia?

O Basajaun avisou-me.

Preferiu revelar-se a deixar-me cair na gruta.

Ajudou-me.

Está bem. Sei o que está a passar por essa tua cabecinha.

A resposta é sim, Amaia.

Estou tão certa do que vi nessa altura, como estou de te estar a ver agora.

Já alguma vez te desiludi?

Nunca.

E não vou fazê-lo agora.

Corta.

Não, tia. Outro dia. Prometo.

Está bem. Muito bem.

- Aqui, querida. - Obrigada.

PREOCUPAÇÃO AUMENTA EM ELIZONDO DEVIDO À JOVEM DESAPARECIDA

Calma. Está tudo bem.

Ela disse-me para vesti-la. E os sapatos.

Sabes que mais?

Vou falar com a tia Engrasi e ela passa a escolher as tuas roupas.

Queres?

Aqui. Isto é para ti, para comprares o que quiseres.

A mãe vai pegar nele e repreender-te.

Não se ela não o encontrar, amor.

Por isso é que tens a chave da padaria agora. A tua chave.

Guarda o teu dinheiro aqui e podes vir buscá-lo quando a mãe estiver em casa.

Se fechares sempre a porta e não o gastares todo de uma vez,

a tua mãe nunca vai perceber. - Obrigada, pai. Está bem.

Não tenhas medo da mãe, putinha. Não te vou comer hoje.

De que se lembra exatamente?

DIA 4

Sei que encontraram uma estrangeira morta com rebuçados espalhados por cima.

E parece que me lembro que ela tinha sido violada.

Parece que se lembra?

Deve estar aqui.

O nosso perfil não inclui violação ou assédio sexual.

Não preste muita atenção ao relatórios desses tempos.

Nessa altura, os detetives tinham uma formação muito básica

e não havia os avanços científicos.

O que quer dizer?

Se o sémen era visível, havia sémen.

Se não era visível, não havia.

Se as cuecas tivessem sido puxadas para baixo, significava violência sexual.

Era tudo muito rudimentar. Siga-me.

Quando foi que aconteceu o caso da rapariga e os rebuçados?

- Lembra-se de mais alguma coisa? - Foi há 14 anos.

Nessa altura, eu era o responsável da Polícia Nacional

e a investigação aconteceu na minha esquadra.

O nome da rapariga era Teresa Klas.

A autópsia dizia que ela tinha sido abusada,

mas como eu disse, os relatórios desses tempos eram muito relativos.

Porque se lembra tão bem?

Usei parte desse caso para o Invasores do Esgoto.

- O quê? - O meu primeiro romance.

O primeiro que escrevi com o Jaime Cajigas como protagonista.

A editora Destino Editions publicou a saga completa.

É um dos pouco romances que escrevi que acaba bem.

As pessoas adoram quando as coisas acabam bem, mas isso nem sempre acontece.

Não. Fique com eles.

Lembra-se onde ela tinha os rebuçados?

Não... Sim. Nas pernas.

Presumimos que tinham caído da sua mala quando foi estrangulada.

- Foi estrangulada? - Sim.

As suas mãos estavam posicionadas de alguma forma em especial?

Não.

Mas lembro-me que ficámos surpreendidos por ela ter duas tranças muito direitas.

O corpo tinha sido arrastado pela floresta e estava num estado terrível,

mas o seu cabelo estava impecável, como se as tranças tivessem sido feitas lá.

Encontrámos outra rapariga bem penteada, uns meses mais tarde.

Outra rapariga bem penteada, dois meses depois,

deixada ao pé do rio num parque de campismo perto de Vera de Bidasoa.

Apareceram mais raparigas penteadas?

Estou a dizer-lhe... A sério, tenho tudo aqui.

Pode parecer um pouco desorganizado,

mas tenho um mapa exato aqui de tudo e de onde é.

Alguém foi preso, ou houve algum suspeito?

Nunca. Não houve pistas, nem suspeitos.

Interrogámos todos. As amigas das raparigas, os ex-namorados,

famílias, professores, vizinhos, mas nunca encontrámos ninguém.

Na verdade, nem conseguimos provar que as mortes estavam relacionadas.

Havia padrões óbvios, mas estavam distribuídas por toda a província,

o que tornava tudo muito difícil.

Assegurem-se de que o leem.

Que se passa?

O Víctor.

Parece achar que devíamos celebrar o nosso aniversário,

mesmo estando separados.

Ontem esperei por ti até tarde.

Sabes que foi encontrada outra rapariga.

É emocionante que vás ao funeral dessas raparigas, mas não visites a mãe.

Para quê?

Para nada, agora.

A Mantecadas Salazar não está aqui. É só rotina policial.

De que precisas?

De uma amostra da farinha da padaria.

Vais tê-la daqui a uma hora. Podes mandar o teu escudeiro vir buscá-la.

Ter a chave não significa que podes entrar aqui sempre que te apetece.

Ela não está a ter um bom dia.

Acabei de terminar o restauro desta maravilha.

Sugeri que a levássemos a dar um passeio quando a chuva parasse

e ela disse-me que não tem tempo para desperdiçar.

Lamento.

Com licença.

Sim, Jonan.

O quê?

Freddy, é a Amaia.

Meu Deus, Freddy!

Freddy!

Aguenta-te!

Aguenta, Freddy! Aguenta!

- Amaia! - Jonan, aqui! Anda! Despacha-te!

Corta! Despacha-te!

Seguraste-o?

Está vivo! Chama uma ambulância!

Fala o subinspetor Etxaide.

Preciso de uma ambulância para o décimo sétimo da Nacional 2540.

Sim, 2540, quilómetro 15 400. É uma emergência!

Amo-te, Anne. Vou-te amar para sempre.

Não tem abrasões por ter sido arrastado, ferimentos de defesa, nem hematomas.

Parece claro que o Sr. Belarrain tentou tirar a própria vida.

E o corte na sua mão?

É muito recente, mas de certeza que não parece uma ferida por defesa.

Obrigada.

Sabias que ele estava a ter um caso com a Anne Arbizu?

Sabia que tinha um caso com alguém, mas não sabia quem.

O Freddy é preguiçoso e inútil, mas não é um assassino, Amaia.

Eu sei, mas preciso de factos que o provem e ele não consegue fazer uma declaração.

Olá, Ángel. Preciso de falar contigo um minuto.

Estou aqui por causa do Freddy. Ele está com problemas.

Preciso que me digas se estiveram juntos ontem à noite.

Descobrimos que ele tinha um caso com a Anne Arbizu,

a última rapariga a ser encontrada morta.

Assim que se souber da notícia, ele vai ser acusado.

A tua ajuda é essencial para o álibi dele,

quer para ontem à noite, quer para os dias em que as outras raparigas desapareceram.

O Freddy nunca magoaria ninguém. Tu conhece-lo.

Eu sei.

E ele não é esperto o suficiente para fazer tudo aquilo sozinho.

Preciso de prová-lo com factos.

Preciso de saber onde estiveram ontem à noite e se alguém vos viu.

Estivemos no Rosso. E no hospital.

No hospital?

Fui vê-lo e ele estava um pouco estranho.

Levei-o ao Rosso para tomarmos um copo.

Estava muito zangado, desligou o telefone a uma rapariga e ligou-lhe umas cem vezes.

Não sei quem era.

Depois, ele foi à casa-de-banho, deu socos no espelho e cortou a mão.

Por isso, levei-o para o hospital.

Estava a sangrar imenso e eu estava assustado.

Obrigada, Ángel.

Então, o Freddy foi preso?

Está nos cuidados intensivos. Tentou matar-se.

E só me dizes agora?

Não sei o que é melhor,

que tenhas ido embora sem dizer uma palavra, ou ver no que te tornaste.

Preciso que vás à casa do Freddy e da Ros pessoalmente,

pegues numa amostra da farinha e a analises com as restantes.

E manda alguém tratar da declaração do Ángel Ostolaza.

Jonan... Muito obrigada.

Amaia!

Desculpa. Peço imensas desculpas.

Estás bem?

Desculpa.

Por favor, nunca te vás embora.

Para onde é que eu vou, exatamente?

Não sei.

DIA 5

Ele é um dos miúdos que a encontrou.

Ele contou ao pai e o homem veio verificar.

Há quanto tempo trazes flores?

- Há uma semana. - Por aqui.

Inspetora Salazar.

Doutor San Martín.

Johana Márquez, 15 anos. Nascida em Santo Domingo.

Veio para Espanha com quatro anos

e para Lekaroz aos oito, quando a mãe voltou a casar com outro dominicano.

Ela tinha problemas com eles e fugiu umas quantas vezes,

por isso parece mais do mesmo.

A mãe dela reportou o desaparecimento dela há vários dias.

Porque não sabíamos?

Ela reportou-o ao guarda civil em Lekaroz e tu sabes como isso funciona.

Então, podemos nunca saber quando coisas são reportadas à Guarda Civil?

Que tipo de colaboração é essa?

- Vou garantir que não volta a acontecer. - Gostaria de saber disso, Iriarte.

Ela entrou no estado enfisematoso há uns dias.

Vou confirmá-lo na autópsia, mas diria que está morta há uma semana.

Algumas destas flores estão frescas, mas muitas são velhas.

O miúdo confessou que a encontraram há vários dias

e continuaram a vir para tomar conta dela e trazer-lhe flores.

O braço foi amputado com um objeto muito afiado,

ela tem golpes na cara, arranhões, socos

e, olha, estes hematomas no pescoço foram feitos por dois polegares.

Ele estrangulou-a com as próprias mãos.

A corda é diferente da das outras raparigas.

E além disso foi violada.

E não há bolo no seu púbis.

Este assassino não é aquele que estamos à procura.

Ele leu acerca das outras mortes e está a tentar disfarçar o seu crime.

A autópsia vai confirmá-lo.

O juiz deve chegar em breve.

Você é a senhora que está a investigar os crimes do Basajaun?

Sim, sou.

O meu nome é Inés Lorenzo. Sou a mãe da Johana.

Sinto muito pelo que aconteceu à sua filha.

Sabe que o Basajaun não matou a minha menina, não sabe?

E que ela já está morta há uma semana. Eu sei quem a matou.

O seu nome é Jason Medina.

Na verdade, sempre soube, mas não queria acreditar.

Ele contou-lhe?

Ele estava obcecado com ela.

Pôs um rastreador no seu telefone, mas diz que o removeu no dia que ela desapareceu.

É mentira. Ele matou-a.

Quem é o Jason Medina, Inés? Como é que ele conhece a sua filha?

O Jason é o meu marido.

Localizem imediatamente o Jason Medina.

- Têm de o encontrar. - Assim faremos.

Têm de se despachar. Esta manhã, ele foi para as montanhas.

Ele conhece o vale inteiro, trabalhou lá como pastor.

É assim que ele conhece a barraca na floresta.

Se ele conhece o vale, pode atravessá-lo sem ser visto

e chegar a França atravessando a Muga e os Pirenéus.

Inés, sabe quem empregou o seu marido como pastor?

Foi o Sr. Paco, aqui está o número dele.

Obrigado.

Inés, é uma mulher muito corajosa.

Corajosa, mas sem a minha filha, senhora.

O Jason não era o pai biológico dela.

Primeiro, ele amava-a, mas quando a minha menina começou a crescer,

ele começou a olhar para ela de forma diferente.

E parou de chamá-la "a nossa filha", começou a dizer "tua filha".

Lamento imenso.

Eu tenho-os.

Os agentes que viram os filmes dos funerais não encontraram suspeitos.

As amostras de farinha de todas as padarias estão no laboratório.

Vamos ter os resultados em 48 horas. Incluindo os da farinha das suas irmãs.

Estás bem?

Sim.

Lembra-se das incrustações na corda usada na Ainhoa Elizasu?

Afinal isso era pele de cabra.

Pele de cabra?

E isso não é o mais importante. Acabei de fazer café.

Há sete casos com características similares às dos crimes atuais.

Nenhum deles foi resolvido e nenhum atacante foi encontrado,

mas com todas as diferenças, podiam ter sido efetuados por pessoas diferentes.

Ou por alguém que agiu de forma diferente em cada ocasião.

Alguém que, agora, quer reclamar o que tinha praticado.

É alguém que está a repetir o seu ritual até ao último pormenor.

O caso que o Alfonso mencionou foi o primeiro, há 14 anos. Teresa Klas.

A rapariga com rebuçados espalhados entre as pernas e o cabelo bem penteado.

Ele começou há 14 anos, movido pela raiva,

a protestar contra a perversão das raparigas do vale.

MAIO

Por isso é que as primeiras mortes são as mais violentas.

Ele achava que estava a fazer o bem, mas deve-se ter sentido culpado.

Passado algum tempo, não lhe pareceu tão mau,

refletiu, tornou a fazê-lo e gostou. Estava a fazer um bem social.

BEGONA IMAZ ENCONTRADA MORTA Setembro 2000

Mas anos depois, ficou bloqueado.

Estava a fazer algo que o satisfazia, ou que acalmava a sua raiva interior.

Porque dizes isso?

Durante sete anos, não houve vítimas.

Talvez tenha estado na prisão por uma ofensa menor.

Talvez se tenha viciado em drogas ou álcool.

O facto é que parou e não voltou a matar até há um ano.

Um ano?

Lembra-se da rapariga que caiu do precipício, a caminhar em Peñas de Aya?

Sim. Como é que está relacionado?

Quando a encontraram, o cabelo estava penteado e olhe para a posição das mãos.

Não é coincidência que ela tenha ficado esmagada nas rochas,

mas o cabelo estivesse penteado e as mãos viradas para cima?

Sete anos depois, ele sente novamente o impulso.

Algo solta a sua raiva e ele tem uma missão, outra vez.

Talvez não o tivesse planeado antes, mas gostava do que estava a sentir.

Ele pensa, aperfeiçoa o seu ritual,

mata outra vez e, agora, quer que as pessoas saibam que o está a fazer.

E isso explica a encenação elaborada.

Agora, o seu trabalho tem um sentido, mas ele tem de enviar uma mensagem.

Agora, é um aviso.

Não, não é um aviso. É uma ameaça.

Arranja os jornais dos dias desses assassinatos

e dos três dias antes e depois. Precisamos da informação de cada cidade.

Mercados, feiras, leilões, circos, peças, exposições...

O que quer que estivesse a acontecer nessas cidades e arredores.

É para já.

Se cada rapariga foi morta numa cidade diferente

e o assassino estava a passar,

talvez ele não tenha escolhido os locais ao acaso,

talvez haja algo que liga todos esses locais

e isso pode dar-nos uma pista.

É óbvio que esta pessoa é esperta,

mas talvez, há uns anos, não fosse tanto e é por aí que o podemos apanhar.

Bom trabalho, Jonan.

Olá. Fala a Aloisius Dupree. Por favor, deixe a sua mensagem depois do sinal.

Olá. É a Amaia.

Descobrimos que o assassino esteve ativo há uns anos.

Estou a tentar apurar o meu instinto tanto quanto posso, mas

estar na cidade está a torná-lo muito difícil.

Não sei.

Por favor, ligue-me se tiver um minuto.

Amaia, sou eu.

Tia.

Sabes o que vais perguntar?

O que sabes que vai ser revelado

e o que quer que se mantenha no escuro, pertence à escuridão.

Muito bem.

Corta com a mão esquerda.

Dá-me três.

O que queres perguntar?

De que é que ele está à procura?

Quem está à procura? Por favor, coloca a questão corretamente.

Desculpa. O assassino das raparigas. De que está à procura quando mata?

Está numa missão.

Tem um trabalho para fazer e está comprometido a fazê-lo,

porque dá sentido à sua vida e extingue a sua fúria.

Dá-me três.

Fala-me do passado dele.

Ele foi oprimido, escravizado, mas agora é livre.

Ele acha que está a administrar justiça.

Quando mata, é o guardião da pureza.

Dá-me três.

Onde é que ele está?

Muito perto.

Há mais alguma coisa que deva saber sobre ele?

Há outro elemento no jogo que é infinitamente mais perigoso.

Esse elemento é teu inimigo e está a vir atrás de ti e da tua família.

Atrás de mim? O que quer de mim?

Quer os teus ossos, Amaia.

Quem é?

Tia, quem é?

Tia!

Espera!

Olá.

Está bem.

Olá.

Bom dia.

DIA 6

Um guarda encontrou-o esta manhã inconsciente num trilho florestal.

Tentei beijá-la no carro, mas ela não me deixou.

Depois, bati nela e ela desmaiou.

Comecei a abusar dela, mas ela acordou e bateu-me.

Depois, bati nela. E ela bateu em mim.

E quanto mais lhe batia, mais excitado ficava.

Depois, comecei a apertar-lhe a garganta até ela parar de se mexer.

Matou-a, Jason.

O que fez a seguir?

Levei o corpo dela para a barraca.

Pu-la lá como li no jornal que o Basajaun faz.

Abusou do corpo?

Não queria.

Mas tinha de despi-la e fiquei muito excitado.

Sabia que não era correto, mas não consegui evitá-lo.

Porta-te bem, pelo amor de Deus.

Onde arranjou a corda?

Tinha-a no carro, para quando estendo a roupa em casa.

Porque lhe cortou o braço, com quê e onde está?

O quê?

Porque cortou o braço da Johana e o que usou para o fazer?

Porque é que cortaria o braço dela?

Sr. Medina, porque é que um pai abusaria da sua filha?

Só peço a Deus que me perdoe e tenha misericórdia da minha alma.

Para Deus, o conceito de tempo não existe

e, enquanto pede misericórdia, ele está a vê-lo a violar a sua filha. Vamos.

Só mais uma coisa, inspetora.

Quem me levou para o trilho, onde me encontraram esta manhã?

Ontem à noite, adormeci na floresta.

Lembro-me de alguém a carregar-me nos braços. A transportar-me.

Sr. Flores.

Desculpe. A senhora queria saber se vimos algo de estranho no vale.

Sim. Aconteceu alguma coisa?

Ontem estávamos na floresta e ouvimos um apito estranho.

Seguimo-lo até ao penhasco e, quando chegámos ao topo, parou.

Olhámos à volta e vimos a figura de um homem, à distância,

a descer para umas grutas, com um saco às costas.

Descemos para falar com ele, mas quando chegámos lá abaixo, tinha desaparecido.

Não ouvimos ninguém a sair, nem houve barulho de um carro, ou mota, nada.

Ele, simplesmente, desapareceu.

Obrigada.

Tenha um bom sábado.

Você também.

Estás a dizer que a culpa é delas?

Isto não acontece a raparigas certinhas, que estão em casa às dez da noite.

Estás a ouvir o que dizes, Flora?

Não te faças de surpreendida agora. Logo tu.

- Eu? - Sim, tu.

- Já falámos disto umas mil vezes. - Por favor!

Estou farta de ver como se vestem, a aparência delas,

como se comportam, como se movem. Parecem putas.

Flora, por favor!

Tia, até já as viu na praça.

O dia inteiro a atirarem-se aos rapazes, a sentarem-se com as pernas abertas.

É como se estivessem a pedi-las. Não me surpreende que acabem assim.

Estás a justificar que alguém mate aquelas raparigas?

Não. Só estou a dizer que a morte não torna uma puta numa santa.

É isso que estou a dizer.

Flora, a Johana foi violada e morta pelo pai. O próprio pai.

Era uma rapariga certinha, que estava em casa às dez da noite.

Foi morta por uma pessoa que a devia proteger.

Aquele homem é um filho da puta e nada justifica o que ele fez.

Ele confessou?

Ouçam. O que se está a passar no vale não pode ser justificado de forma nenhuma.

E ponto final. Acabaram-se as discussões.

- Está bem, tia. - Obrigada.

Há salada e borrego na cozinha. O que queres?

Obrigada, mas não tenho fome.

Muito bem, está na hora da sobremesa, então.

Não devia dizer isto, mas estes são mesmo esquisitos.

Txantxigorris, adoro!

Cheiram maravilhosamente.

Vais provar um, Amaia? Fi-los a pensar em ti.

Sabes que não gosto de doces.

Talvez estejas grávida.

Não sejas tão insensível.

A Amaia tem estado a lidar com coisas bastante desagradáveis estes dias.

A Amaia veio aqui para nos proteger a todos.

- A Amaia a proteger-nos? - Sim, a proteger-nos.

Devia era ter protegido a mãe, quando ela ficou doente,

mas fugiu à procura de uma nova vida.

E como poderia ela fazer isso?

Porque eu e a Ros ficámos aqui a cuidar do negócio da família.

De nada, Amaia.

Por isso, não me digam que ela é a salvadora, que veio para nos proteger.

Ofereci-me para mandar dinheiro para a clínica.

- Dinheiro. - Sim, dinheiro.

Fui eu que lhe dei a comida na boca.

Que lhe dei banho, a pus a dormir.

Mudei-lhe as fraldas todas as noites, como se fosse a...

a criança que nunca tive.

Entretanto, Amaia, estavas num lugar qualquer a viver a tua vida

e a Ros passeava com ela no parque por uma hora e sentia que tinha o dever cumprido.

Não é a altura certa para ter esta conversa.

Não é, mana? Também estás de licença médica para falar?

Flora! Chega.

Nunca te devia ter deixado pores a mãe na clínica.

Se eu tivesse tratado da sua pneumonia em casa, isto não teria acontecido,

mas ninguém me ouviu e acabou tudo mal.

Ninguém te pediu para seres a heroína mártir da família.

Tu é que decidiste sê-lo,

para poderes ter um arsenal de repreensões para nos atirar à cara.

Flora, o que aconteceu à tua mãe foi triste,

mas não podes culpar a Amaia por ela ter morrido numa clínica.

É isso que dizes que aconteceu à mãe?

Atreves-te a dizer que a nossa mãe está morta?

Para mim, está.

És diabólica. És uma bruxa diabólica e manipuladora.

Sinto muito.

O que aconteceu à vossa mãe?

CLÍNICA DE FERTILIDADE

Sim, Jonan. Está bem, estou a caminho.

Nenhuma das amostras de farinha analisadas combina com a do txantxigorris.

Tens 100 por cento de certeza?

Cem por cento.

Foram feitas análises com duas amostras de cada fornada, para ser preciso.

Só temos de enviar os resultados da última amostra,

a que recebemos mais tarde.

- Quando achas que os vais ter? - Dentro de uma hora.

Não queria esperar antes de te dar os resultados das outras padarias.

Obrigada.

Montes.

Num sábado?

O que está a fazer, Flora?

Apropriação de evidência relativa a uma investigação é crime.

De que raio estás a falar, Salazar?

Da análise que acabaste de passar ao gerente

de uma das padarias que estão a ser investigadas.

Tens muito para explicar. Tens de vir connosco para a esquadra.

Se me queres interrogar, vais ter de me prender.

Estás a lixar tudo, Amaia. Estás a cometer um erro.

Flora Salazar, está presa por apropriação de provas

relativas a uma investigação.

Tem o direito de se manter em silêncio.

Tem direito a ter um advogado.

E tem o direito de fazer uma chamada. Por favor, acompanhe-me até ao carro.

Porque não nos deste a farinha que usas na padaria, Flora?

Não sei de que estás a falar.

A amostra que nos deste não é da que usas na padaria.

Devo ter cometido um erro, Amaia. Mudamos a nossa farinha constantemente.

E de fornecedor também?

De que me estás a acusar? De te ter dado uma farinha mais recente?

É crime?

Porque não trazes o meu gerente aqui também? Foi ele que a colheu.

Falámos com ele. Disse que você lhe deu a amostra.

Esses são os resultados da farinha que a Rosaura tinha em casa.

Ambos sabemos que a Rosaura usa farinha da padaria,

por isso, esses são os resultados que terias tido

se nos tivesses dado a amostra correta.

A farinha da casa da Rosaura

é a mesma que foi usada nos txantxigorris no corpo da rapariga, Flora.

Foram feitos com farinha da Mantecadas Salazar.

Lembra-te que colaborei com a Polícia.

Analisei o txantxigorri que me trouxeste

e fiz uma lista das padarias que o podiam ter feito, tal como pediste.

Por isso, pergunto-te mais uma vez. De que me estás acusar?

O que estás a tentar esconder, ao dar-nos uma farinha diferente?

Talvez, subconscientemente, quisesse proteger o negócio da minha família

e a publicação do meu próximo livro. Não sei.

Muitos trabalhadores levam farinha da padaria.

Talvez não quisesse ser implicada se, por algum motivo,

essa farinha tivesse acabado nesses txantxigorris.

É assim tão grave? Diz-me!

Foi um erro de negócio subconsciente.

- É obstrução à justiça. - Involuntária!

Usaste o Montes para conseguir informação sobre o caso!

Antes de me encontrar com ele, já me tinhas envolvido.

Além disso, querida irmã, o que faço na minha vida pessoal não te diz respeito.

Inspetora Salazar, preciso de falar consigo.

- Com certeza, capitão. - Agora.

Sente-se, inspetora.

- Uma rapariga desapareceu em Berroeta. - De que estamos à espera? Vamos!

Sente-se, Salazar, por favor. Já estamos a tratar disso.

Soube que escondeu o facto de que o seu cunhado, Alfredo Belarrain,

estava a ter um caso com a Anne Arbizu, até ter conseguido desculpá-lo.

A sua irmã Flora tentou enganar-nos,

ao providenciar uma amostra de farinha diferente da usada na padaria.

Como se isso não fosse suficiente, as análises mostraram

que a farinha da casa da sua irmã Rosaura

é a mesma usada nos bolos encontrados nas vítimas.

Não acha que, com a implicação direta da sua família,

a prova nunca seria válida num tribunal?

Sim, sei disso, capitão.

Então, de que está à espera?

A única opção que temos para que a evidência seja aceite como válida

é que se remova voluntariamente do caso.

Capitão, ouça...

Esta conversa terminou, Salazar. Os factos falam por si.

O inspetor Montes vai ficar a cargo da investigação.

O inspetor Montes tem estado a tirar informação relativa à investigação

e a passá-la à Flora, com quem também mantém uma relação pessoal.

Pelo que ele acabou de declarar, estava a investigar um suspeito.

Mandou chamar-me, senhor?

Sim, entre, Montes. Entre.

A inspetora Salazar decidiu remover-se voluntariamente do caso.

Por isso, você irá liderar a investigação.

Montes, peça ao Sr. Flores a localização das grutas onde ele viu alguém suspeito.

Pode ser uma pista útil.

Pare de me dizer como fazer o meu trabalho, Salazar.

Organiza as buscas pela floresta.

E procura quintas ou casas abandonadas, perto da montanha.

Sim, todas. Temos de encontrar aquela rapariga agora!

Um segundo.

Não vamos perder tempo! Vamos lá, todos fora daqui!

Aloisius.

Acabei de ouvir a sua mensagem. Desculpe não ter ligado mais cedo.

Tudo bem.

Parabéns pelo progresso que fez.

- Amaia... - Obrigada.

Em relação ao bloqueio que está a obstruir os seus instintos, ver claramente,

não acha que devia fazer o mesmo aqui?

O que quer dizer?

Se voltar às motivações do assassino e as suas origens o aproximarem dele,

porque não faz o mesmo com o que a está a bloquear?

Volte ao início. Compreenda-o.

Distancie-se.

Volte ao começo, Amaia.

Limpe esse nevoeiro.

Depois, verá as coisas como são.

Amaia Salazar.

O que estás aí a fazer?

Só vim procurar uma coisa.

Não há nada teu aí.

Sim.

Estás a roubar da tua própria família?

É meu, eu poupei-o.

Isto é demasiado dinheiro para ti.

De qualquer maneira, se é teu, porque não o guardas em casa?

- E porque tens a chave da padaria? - O pai deu-a.

O teu pai está sempre a mimar-te e a deixar-te fazer tudo o que queres.

Vai-te arruinar.

Aposto que te deu o dinheiro para poderes comprar este lixo!

Não comeces a chorar como uma parva.

Estou a fazer isto tudo pelo teu bem, porque te amo.

- Não me amas. - O que disseste?

Não me amas.

Não amo?

Não, não amas. Odeias-me.

Não te amo? Sua putinha!

Não amas! Nunca me amaste!

O que aconteceu? Rosario?

Estás bem? Rosario!

E a Amaia?

Onde está a Amaia? Onde é que ela está?

Amaia!

Amaia!

Amaia!

Onde estás?

Amaia!

Não!

Não!

Não, não, não!

Ela teve muita sorte.

A farinha formou uma crosta que cobriu as feridas

e impediu-a de sangrar até à morte. - Ela vai ficar bem?

Como médico, reportaria o que aconteceu esta noite,

mas sei do impacto que teria na vossa família.

Contudo, como amigo,

tenho de pedir que a tires de casa e a leves para longe da tua mulher.

Se a criança continuar a viver perto dela, a sua vida corre um sério perigo.

Há alguma possibilidade de ter sido um acidente? A Rosario veio...

Ela foi buscar-te para que fosses seu cúmplice,

porque sabia que ias acreditar nela.

Foi buscar-te, porque pensava que a criança já estava morta.

Juan, a tua mulher precisa, urgentemente, de tratamento,

e a primeira parte desse tratamento é levar a Amaia para longe dela, esta noite.

A criança tem dois dedos faturados pelo que foi, claramente, uma ferida de defesa

ao tentar impedir o primeiro golpe com a sua mão.

Mas o golpe mais preocupante é o segundo.

A tua mulher bateu nela quando ela já estava inconsciente.

Bateu nela para se certificar que estava morta.

Bem-vinda a casa, querida.

Estamos quase lá. É ao pé do pavilhão.

É a filha que mora longe daqui?

Sim.

Tenha cuidado quando a acordar, se estiver a dormir. Pode assustar-se.

Entre.

Mãe.

Mãe.

Tu tens alguma coisa que ver com o que está a acontecer àquelas raparigas?

Puta.

Puta!

- Amaia Salazar? - Sim.

Sou o Dr. Basterra.

Lamento que, na sua primeira visita, tenha visto a sua mãe neste estado.

Tivemos de recorrer às correntes depois do ataque.

Que ataque?

Pensava que sabia.

A sua mãe atacou uma enfermeira no outro dia.

O quê?

Sim, enquanto a rapariga estava a mudar-lhe a roupa.

Ela enfiou os dedos nos olhos dela, mordeu-lhe a cara

e arrancou vários pedaços de carne, que, depois, engoliu.

Informei a sua irmã Flora

e ela autorizou a sedação e as correntes.

Ela disse que lhe contaria e daria todos os pormenores.

Que pormenores?

Enquanto ela atacava a rapariga, repetia o seu nome.

Disse-o várias vezes: "Amaia, Amaia, Amaia."

Graças a Deus, o seu cunhado chegou cedo nesse dia.

Ele sabe sempre como acalmá-la.

O meu cunhado?

Sim, ele visita-a todas as semanas.

Traz-lhe sempre flores.

Meu Deus!

CORPO DE TURISTA ALEMÃ DESAPARECIDA ENCONTRADO NO VALE BAZTÁN

A RAPARIGA, TERESA KLAS, FOI ENCONTRADA NA FLORESTA, MOSTRANDO SINAIS DE VIOLÊNCIA

O CASAL NÃO CONSEGUE LUTAR CONTRA O TRIO NO EUSKAL-JAI

Flora.

Víctor.

Falta muito?

Estamos quase lá. Não muito.

É aqui!

Vou a casa dele. A última a subir pela Bertiz Erreka.

Estou a sair agora. Espera por mim.

Liga ao Montes e diz-lhe.

Está bem. Mas não vá sozinha, por favor.

Eu devia ligar ao Iriarte e ao Zabalza.

Não há rede nesta área, inspetor.

Se quer falar com eles, temos de voltar.

Chegou à caixa de correio de Fermín Montes, da Polícia de Navarra.

Não estou disponível de momento.

Amaia!

Por aqui.

Amaia!

Estou na casa do Victor, chefe, mas ele não está aqui.

Não sei onde ir. Ligue-me, por favor.

Merda!

Cuidado.

Que raio é isto?

Há mais ali.

Meu Deus!

Porque tens de interferir sempre, Amaia?

Onde está ela, Víctor?

Lá em cima, à minha espera.

Aquela entrou na minha carrinha sem sequer hesitar.

Mesmo mal me conhecendo e com tudo o que se está a passar.

Ofereci-lhe boleia e entrou, tal como qualquer puta.

Parei a carrinha acima do rio, mas havia demasiado movimento.

Até a floresta parecia ter olhos.

Por isso, decidi vir para casa e, hoje, tinha de cozer outra vez.

Foste à cozinha? Cheiraste-os?

Sim, cheirei.

Estão a pedi-las, Amaia.

Sempre a provocar os homens.

A destruir o vale com as suas drogas, música e sexo.

Alguém tem de lhes ensinar sobre tradição, pureza e respeito pelas nossas raízes.

O que a Flora sempre defendeu e o que a tua mãe sempre fez.

São apenas crianças, Víctor.

- Tu achas que são crianças. - São crianças.

Aquela Anne era a pior de todas.

Ofereceu-se a mim como uma puta.

E quando eu estava a acabar com ela,

olhou-me nos olhos e amaldiçoou-me, como uma puta.

A rir. Mesmo quando estava morta, não consegui tirar-lhe o sorriso da cara.

Ela assusta-te.

É por isso que ela não está com as outras raparigas?

Porque te assusta.

Nenhuma delas me assusta.

Estou com a Polícia e estou aqui para te ajudar.

Se continuamos à espera que o apanhes,

o vale vai ficar coberto de raparigas mortas.

Estás bem?

Há 14 anos, ele matou a sua primeira vítima: Teresa Klas.

Achava que os seus valores eram uma ameaça para a estabilidade do vale.

A sua culpa levou-o a beber, para tentar controlar os seus impulsos.

Mas acabou por se render a eles, convencendo-se que estava a fazer o bem.

Um bem que se tornaria a sua missão.

SEMANAS MAIS TARDE

Nos seis anos seguintes, matou oito raparigas, sem seguir padrões,

para que nunca se pensasse que era o mesmo assassino.

Contudo, havia certos elementos que, mais tarde, formaram o seu modus operandi.

Vejo-te em casa, está bem?

De certeza?

Vejo-te daqui a pouco.

Está bem.

Há oito anos, ele conheceu a mulher que se tornaria sua esposa:

Flora Salazar.

A relação acalmou a sua raiva e, durante sete anos, não matou ninguém.

Mas o casamento falhou e a sua raiva regressou.

Depois, matou Sonia Edroso quase como impulso,

mas não conseguiu resistir a realizar parte do seu ritual,

reprimido durante tanto tempo.

Desta vez, a culpa teve o efeito oposto e ele teve de reafirmar a sua missão:

devolver a pureza ao vale.

Ao contrário dos anos anteriores, agora queria tornar a sua mensagem conhecida,

pelo que aperfeiçoou a encenação do crime e soube-lhe bem.

Pensou que, dessa maneira, recuperaria o perdão e respeito da esposa.

A Carla Huarte, a Ainhoa Elizasu e a Anne Arbizu

foram as suas últimas vítimas aqui em Elizondo.

A sua irmã Flora está disponível? Vamos precisar do depoimento dela.

Vinte e quatro horas por dia, senhor.

O inspetor Montes encontrou uma cova que parece estar relacionada com o caso.

Mas é um mistério em que ainda estamos a trabalhar.

Inspetor?

Sim, correto.

Encontrámos os ossos de várias vítimas que ainda não foram identificadas.

São anteriores aos crimes do Víctor,

mas, entre eles, encontrámos ossos das vítimas dele,

bem como o braço da Johana Márquez,

que, claramente, não foi amputado por ele, nem pelo padrasto da rapariga.

Vamos demorar a determinar a origem desses ossos, mas,

em relação ao Víctor, este caso está encerrado.

Excelente trabalho, inspetora.

Obrigada, capitão.

Vai odiar que tenhamos celebrado a sua publicação sem ela.

PARA A MINHA MÃE ROSARIO, A GUARDIÃ DA PUREZA DO VALE BAZTÁN.

Sim.

Creio que a Amaia não nos juntou aqui para isso.

Então, para quê?

- Bem me parecia. - O que se passa?

- Queres contar-lhes? - Devias fazê-lo.

Bem... Dentro de alguns meses, haverá um novo membro na família.

Tens a certeza?

Já alguma vez te menti?

Nunca.

Querida!

Parabéns, James!

Obrigado.

- Pareces tão feliz! - Não parece?

Legendas: Ana Paula Lopes

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