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INGLATERRA 1194
Estão prestes a assistir a uma história de corajosos cavaleiros e lindas donzelas.
Uma história de amor, ódio e preconceito.
Embora a nossa história seja antiga,
o amor, o ódio e o preconceito são sempre actuais.
- Santo Deus de Abraão, poupai-me. - Silêncio se dais valor à vossa vida.
- Padre, imploro-vos. - Silêncio.
Segui-me.
Por aqui.
Vedes? Têm estado escondidos à vossa espera.
Onde está ele? Onde está o judeu?
- Então? - Foi-se, senhor.
- Foi-se? - Desapareceu.
Imbecil. Deixaste-o escapar.
São normandos.
Saxões ou normandos, o que é que eu tenho a ver com isso?
Alegro-me por os bravos normandos terem atravessado o Canal
e terem derrotado os bravos saxões? Qual é a diferença?
Ambos nos tratam como cães. Chamais-lhes corajosos cavaleiros?
- Eu chamo-lhes ladrões. - Um mercador rico também o é.
Não importa. Salvastes-me a vida e estarei sempre em dívida convosco.
Se continuardes mais tempo nesta estrada, ninguém vos poderá ajudar.
Se não for por aqui, perco-me.
Eu conheço estas terras. Para onde ides?
- Para Ashby. O grande torneio. - Nesse caso, podíamos ir juntos.
Posso perguntar quem sois vós, a quem devo o meu salvamento?
Apenas um simples peregrino que regressa da Terra Santa.
Vinde, perder mais tempo aqui seria perigoso.
Além. Lá está Ashby.
Que Jacob vos abençoe, peregrino. Como poderei recompensar-vos?
- Não quero nada. - Terás um cavalo
e uma armadura para o torneio.
- Mas como sabia que eu... - Percebi logo.
Por baixo do vosso manto, a malha de ferro e as esporas douradas.
Tereis tudo o que precisardes.
Devo avisá-lo que o cavalo e a armadura poderão perder-se no torneio.
Isso é impossível.
A vossa lança, bom jovem, será poderosa como o cajado de Moisés.
Meu estimado corcel.
- Cães normandos. - Cuidado, amo.
Dizem que o Príncipe João tem dez mil ouvidos.
Nesse caso, que me ouça. Digo-lho na cara.
Quem é?
Chama-se Cedric de Rotherwood, um fidalgo saxão.
- Referia-me à donzela. - É a sua protegida, Lady Rowena,
da linha real de Alfredo o Grande.
- Ela é linda. - Se é que se pode chamar lindo a um saxão.
Os desafiantes, Reginaldo Cabeça-de-Boi!
Maurice de Bracy!
Brian Guilbert!
Ouvi a multidão. O Príncipe João está a ser bem aceite.
Mais valia ele assumir já o trono,
antes que o Rei Ricardo regresse da Terra Santa.
Ricardo morrerá assim que regressar.
- Fitzurse. - Sim, Vossa Graça?
Estamos prontos para começar?
Ainda falta a escolha de uma rainha para o torneio, senhor.
Se Vossa Alteza concordar, talvez a minha filha?
Não, poderia parecer impróprio anunciar a vossa filha
antes mesmo do início do torneio.
Deixai o corajoso cavaleiro que vencer hoje o torneio escolher.
Estes três nobres desafiantes irão combater com todos os participantes.
Cada desafiante poderá ser escolhido, batendo com uma lança no seu escudo.
Se o escudo for atingido com a parte de trás da lança,
não serão usadas pontas afiadas.
Mas, se for a ponta afiada da lança a tocar no escudo,
então, o combate será travado com armas afiadas.
Se algum cavaleiro quebrar a lança de todos os três desafiantes diante de mim,
o Príncipe João irá declarar esse cavaleiro como grande vencedor do combate de hoje.
O Príncipe pretende que o vencedor escolha a rainha.
O Príncipe João anunciou
que o vencedor terá a honra de escolher a nossa Rainha de Amor e Beleza.
Normandos. São os três normandos.
Haverá algum saxão que os desafie?
Amanhã. Eu luto amanhã.
Procurais alguém?
Alteza, não serão usadas pontas afiadas.
Que decepção.
Colocai.
Não haverá aqui ninguém? Ninguém que os detenha?
Amanhã.
- Quem é ele? - Olhe melhor, meu amo.
- Talvez deva perguntar, quem foi ele? - Um saxão?
- Sem dúvida. - Não temos melhor do que isto?
Temos, senhor. O seu nome é Ivanhoe.
- O vosso filho, meu amo. - Não tenho nenhum filho.
Podeis tê-lo renegado, mas continua a ter o vosso sangue
e é digno do seu nome saxão.
É digno de desprezo e nada mais do que isso.
Ó desgraça. Ó piedade. O meu filho fugiu e deixou a cidade.
Próximo! Quem é o próximo?
Vossa Graça, não há mais ninguém para enfrentar os desafiadores.
Será possível? Vão deixar que estes invasores normandos vençam?
A honra de Inglaterra está em risco. Certamente que vós...
Que chatice termos de terminar tão cedo. Tão rapidamente. Ainda assim...
Ainda assim, como é reconfortante saber que os três cavaleiros mais fortes
são leais apenas a vós, Majestade.
É ele. É ele. O peregrino.
Desdichado. O Cavaleiro Deserdado. Bem-vindo.
Tendes hipótese de escolher. No entanto, o resultado será o mesmo.
Que decepção. Queres trocar comigo, Cabeça?
Jamais. Este é meu.
Saxão. Aposto que é saxão.
Posso esperar que me deis agora a oportunidade?
Que pena, Brian. Agora já não vais ter a tua oportunidade.
Quem é ele? Descobri quem ele é.
Confessastes-vos esta manhã para colocardes assim a vida em risco?
A ponta afiada. Vão usar as pontas.
Então, preparai-vos. Contemplai o sol pela derradeira vez.
Parem! Só podem usar a lança. Não podem usar a espada.
Vós, Cavaleiro Deserdado.
Proclamamo-vos campeão do torneio de hoje.
Encontrar-nos-emos novamente amanhã quando não houver quem nos separe.
Bravo cavaleiro, louvamos o vosso valor.
E premiamo-vos com este bravo corcel para corresponder à vossa coragem.
Intitulais-vos O Deserdado?
Por que outro nome havemos de vos tratar?
Como forasteiro, podeis pedir auxílio na escolha de uma rainha.
Deixai que vos informemos que a bela Alicia é tida como a melhor em beleza e estatuto.
Quereis apresentar a vossa lança?
Agora, podeis indicar a vossa escolha.
Magnificente.
Magnificente seja o audaz cavaleiro.
Longa vida à Rainha do Amor e da Beleza.
Longa vida à Rainha do Amor e da Beleza.
Longa vida à Rainha do Amor e da Beleza.
Não podeis desperdiçar toda a vossa vida com rancor, pai.
Rancor? Falais de rancor? O que quereis que sinta?
O nosso senhor e amo, o Príncipe João,
exige o dobro da contribuição que lhe dei o mês passado.
Contribuição. É um resgate.
Mas certamente que o Rei Ricardo voltará para Inglaterra e reassumirá o trono.
Que diferença faz para nós, Ricardo ou João?
Neste país perverso seremos sempre perseguidos.
Não. Os cristãos não são todos iguais.
Pensai no cavaleiro corajoso que lutou hoje.
Esse era um jovem corajoso e nobre.
Aposto que aquele peregrino era judeu.
Sim, Beaslin?
Está um estranho à porta, senhor. Deseja falar-vos.
Parece-vos perigoso?
Não creio. Usa as vestes de um peregrino.
Colocai o véu.
Meu amigo.
Senhor, perdoai a intrusão. Vim pagar-vos a minha dívida.
Dívida? Qual dívida? Devo-vos a minha vida.
Nem pensar.
A minha filha, Rebecca.
É uma honra.
Não me deveis nada. Pagastes-me totalmente no torneio.
Posso oferecer-vos uma taça de vinho?
Ainda assim, trouxe o vosso cavalo e tenho aqui o preço da armadura.
Ficai com eles. São vossos.
Sinto que, no mínimo, devo pagar-vos algo...
O meu pai deve-vos uma bondade maior do que quaisquer corcéis ou armaduras.
Por favor, deixai-nos considerar que é a nossa dívida pela vida dele.
Se é esse o vosso desejo.
O vinho?
Perdoai-me, por favor. Devo preparar-me para o duelo de amanhã.
Senhor, foi muitíssimo generoso.
Foi uma honra conhecer-vos.
Obrigado. Desejo-vos boas noites.
Assustaste-me.
Esperai, vou sair e entrar de novo.
Pronto. Ainda estais com medo?
Diz-me. Diz-me já. Quem era o misterioso cavaleiro?
- Quem era ele? - Quem?
Wamba, por favor, não brinques comigo.
O que disse ele?
A sua voz não pôde ser ouvida.
A sua cara, os olhos, o nariz, a boca, não puderam ser vistos.
- Porquê? - Ele não estava lá.
- Wamba. - Desapareceu. Na noite.
O bom cavaleiro desapareceu na boa noite.
Acho que foi melhor assim.
Melhor?
Será que o Ivanhoe, se estivesse aqui,
não ficaria com ciúmes de um novo e corajoso cavaleiro?
Não teria razões para tal. Sou fiel ao Ivanhoe.
E se o Cedric vos casar com o nobre suíno, Athelstane?
- Nunca. - Ele irá insistir.
E eu irei recusar.
Quieto!
Wamba!
E então?
O que foi que ela disse?
Falaste com ela?
Ela não me esqueceu? Diz-me que ela não me esqueceu.
A senhora é leal. Faria uma oração.
- Por mim? - Pelo corajoso cavaleiro que venceu hoje.
São a mesma pessoa? Como vos chamais?
Vai-te, velhaco. Sai daqui.
A Rainha do Amor e da Beleza será conduzida ao seu trono
pelo nosso suserano, Príncipe João.
- Onde está o Athelstane? - Amo, essa é uma boa pergunta.
- Está a preparar-se para o combate? - Ele é convidado no nobre Lorde Gurtog.
Da última vez que os vi, estavam a comer um veado, um animal gigantesco.
Que fique claro que é proibido trespassar com a espada.
Apenas podem bater.
A maça ou o machado de guerra podem ser usados sem limitações,
mas a adaga é proibida.
Qualquer cavaleiro que caia do cavalo pode retomar o combate a pé.
Qualquer cavaleiro que quebre as regras deste torneio
será alvo de ridicularização pública e despojado das suas armas!
Glória aos valentes!
Muito bem. Eles que comecem.
Cuidado!
Podeis parar o combate a qualquer momento.
Pará-lo? Por Deus, não o farei.
Ele ganhou o prémio ontem. Dai agora a vez a outros.
Rendei-vos.
Esperai. Parai o duelo.
Honra ao valente!
Glória ao valente!
Honra ao valente!
Glória ao valente!
Honra ao valente!
Glória ao valente!
Honra ao valente!
A sua cabeça deve estar destapada para aceitar a coroa.
Ivanhoe!
A coroa, senhora.
Concedo-vos, honroso cavaleiro,
esta coroa como prémio pela vitória de hoje.
E sobre estas feridas temerosas, não há outra prova maior de valentia.
Ivanhoe!
Ajudai-o.
Ajudai-o.
O vosso próprio filho. Não ides fazer nada?
O meu filho abandonou a minha casa. Abandonou o meu país.
Renunciou à causa saxónica. Ele não é meu filho.
Temos de o ajudar rapidamente, pai.
- Como? - Levai-o para nossa casa.
Mas ele é cristão. Segundo as leis, só podemos ter relações comerciais.
Ele está gravemente ferido e não podemos recusar ajudá-lo.
Pensai. Se morrer ao nosso cuidado...
Ele não morrerá a menos que o abandonemos.
E se assim for, temos de responder perante Deus pelo seu sangue.
Depressa. Os inimigos dele estão a chegar.
Wilfred de Ivanhoe. Isto não será apenas uma batalha de um dia.
Se o Ivanhoe regressou da Terra Santa, poderá o Rei Ricardo estar muito para trás?
Ele que venha. Vamos coroar o irmão antes que ele consiga reunir as suas tropas.
O diabo dará as boas-vindas a Ricardo.
Eu, Brian Guilbert, faço-te esta promessa.
Encontrar-me-ei com Wilfred de Ivanhoe num combate mortal
e enviá-lo-ei para a eternidade.
Voltem lá para trás. Afastem-se. Afastem-se.
- Quem é? Quem é aquele que o leva? - Alguém mais bondoso do que nós.
Em frente.
Minha senhora.
Vós.
O meu pai e eu,
trouxemo-vos aqui para tratar as vossas feridas.
Temos ervas especiais, formas de curar as feridas, embora nunca a inflijamos.
Ervas?
Preparados secretos passados para nós desde os dias de Salomão.
Devereis poder voltar a usar a armadura daqui a oito dias.
Podeis repousar na nossa casa em York até recuperardes as vossas forças.
Partiremos de manhã.
Não há mais ninguém aqui em Ashby
- que pudesse cuidar de mim até eu... - Hoje ninguém foi em vosso auxílio.
Minha cara, nobre donzela, eu...
Não. Eu não sou nobre.
Não passo de uma pobre judia.
É por causa da nossa raça?
É por isso que não pretendeis viajar connosco?
Não desejo incomodar-vos.
Aceito a vossa ajuda com gratidão.
Agora, descansai. Vou deixar-vos.
- Vossa Majestade. - Erguei-vos.
- Havei-lo encontrado? - Na casa de Isaac, o judeu de York.
Estão a planear levá-lo para York de manhã cedo.
Foi um golpe de sorte.
Irei encontrar-me com o Wilby, o Forbes e o Witherstone em York esta semana.
Reunirei lá todas as minhas tropas para enfrentar o meu irmão.
- Ides viajar sozinho? - Por agora, tem de ser assim.
Podeis retirar-vos. E, Phillippe...
- Majestade? - Bom trabalho.
Obrigado, Majestade.
Muito bem. Onde está ela? Onde está a rainha do torneio?
- Ela... - Sim? Ela é a vossa protegida, não é?
Onde está a Lady Rowena?
Ela está esgotada com os acontecimentos de hoje.
Pede permissão para recusar o vosso amável convite.
Não estamos habituados a tal rejeição por parte das rainhas eleitas.
É da tradição que elas estejam presentes.
Os vossos costumes não são os nossos costumes.
Bem. Talvez não se oponha a que bebamos uma taça
em honra do campeão deste duelo.
Ao vosso filho, Wilfred de Ivanhoe.
Não posso beber.
- Em honra do vosso próprio filho? - Ele abandonou-nos.
Deixou a sua casa, o seu país, para combater em terras distantes
com o vosso irmão, o Rei Ricardo.
Nesse caso, esperemos que o meu irmão o tenha em maior estima do que vós.
Não posso perdoá-lo. Não irei perdoá-lo.
Um jovem obstinado que recusa as ordens e costumes dos antepassados.
Eu encho a minha taça em honra do próprio Cedric.
Esta vossa protegida, Lady Rowena.
Sim.
Uma rosa de graciosidade.
E, creio, uma jóia de riqueza?
Uma saxã de posses avultadas.
É minha intenção que despose este valente e nobre cavaleiro, Athelstane,
o último da linha real de saxões.
Mas ela é menor, não é?
E, como tal, está à nossa disposição para casar.
Efectivamente.
O que vos parece, De Bracy? Soube que gostáveis da donzela?
Gostaríeis de a tomar como vossa esposa?
Se as terras dela me agradarem.
Cumprirei os desejos de Vossa Alteza.
O dia em que a minha protegida desposar um normando, ele não viverá outro dia.
Esperai. Sentai-vos. Os dois.
Trouxemos estes distintos convidados aqui esta noite
e continuarão a ser distintos convidados.
Oferecemos um brinde em honra de Cedric de Rotherwood
e agora, por favor, nomeai um normando.
É uma tarefa árdua, para o conquistado, entoar louvores ao conquistador.
Mas nomearei um normando, pese embora ele tenha desencaminhado o meu filho.
Continua a ser o melhor da vossa raça infeliz.
Bebo esta taça à saúde de Rei Ricardo, o Coração de Leão.
Longa vida ao Rei Ricardo.
E agora peço que nos deis licença. Permanecemos aqui tempo suficiente.
Erguei-vos, nobre Athelstane.
Desejamo-vos uma boa noite.
Receio, Majestade, que os cães saxões tenham saído triunfantes.
Não é possível, pois não?
Poderá Ricardo estar de novo em Inglaterra?
De que importa isso?
Tendes aqui os serviços de Maurice de Bracy, Cabeça-de-Boi
e a minha humilde espada.
É o suficiente para derrotar um exército.
Aqui vai o meu brinde e promessa solene.
Ao Príncipe João, o nosso próximo Rei de Inglaterra.
Príncipe João!
Príncipe João! Príncipe João! Príncipe João! Príncipe João!
Onde está ela? Onde está a Lady Rowena?
- A chorar. - A chorar?
- Vinde. Temos de partir imediatamente. - Iríeis sem o vosso filho?
Ivanhoe quis seguir o seu caminho.
- Assim seja. - Ele escolheu...
Ele está mais disposto a fazer os truques dos normandos
do que a defender a honra da sua linhagem inglesa.
Quem foi que derrotou os normandos no torneio?
Silêncio. Nem mais uma palavra. Partimos imediatamente.
- Vossa Alteza. - Sim.
Isto chegou esta manhã de França.
- Não! - O que se passa?
- "O diabo anda à solta. Tende cuidado. " - Ricardo.
Ele escapou de França. Voltou para Inglaterra.
Não há um instante a perder, Vossa Alteza.
Reuni as vossas tropas em York
e enfrentai olhos nos olhos quaisquer tropas que ele tenha.
Vossa Alteza.
Imediatamente.
Meus amigos.
- Meus amigos, partimos para York. - York?
- Vamos juntar-nos ao Príncipe João. - Com que propósito?
Com o propósito de enfrentar o Rei Ricardo.
Finalmente.
York fica apenas a três dias de viagem. Temos muito tempo.
É claro.
Pelo caminho, serão meus convidados em Torquilstone.
Cerveja e veado que chegue para encher até essas vossas barrigas.
O que dizem?
O que estais a fazer? Porque parastes?
Bandidos.
Bandidos? Não há bandidos.
Sim, talvez haja na floresta. Vamos embora.
Não podem fazer isso. Não podem deixar-nos aqui.
Não? Já estamos a ir.
Parem. Não podem levar esses cavalos. São propriedade minha. Ladrões!
Ladrões!
Tomai. Bebei isto.
Pronto. Agora, descansai. Descansai.
Eles foram contratados para nos levar até York.
Têm o meu dinheiro. Para que se hão-de importar?
Fomos abandonados. Deus de Abraão, o que fiz eu?
- Porque nos fazem tanto mal? - Pai, olhai.
Que Deus faça com que sejam misericordiosos.
Alto.
Fervorosas saudações, senhor. Espero que estejais de boa saúde.
Quem sois vós? Falai a verdade, infiel.
Chamo-me Isaac de York.
Contratei uma escolta para nos levar a York, mas abandonaram-nos, como podeis ver.
Porquê?
Dizem que há bandidos na floresta. Mas não passam de boatos.
Imploro-vos que nos deixeis viajar sob a vossa protecção.
Cães infiéis. Saiam da frente.
Senhor, permitis que fale, por favor?
Temos alguém connosco, uma idosa gravemente doente.
Imploro-vos que permitis que esta doente seja transportada
sob a vossa protecção.
Não nos diz respeito.
Esperai.
Se essa infeliz corre realmente perigo de vida,
e se estas duas pessoas bondosas e sérias não podem defender-se,
temos de lhes prestar ajuda por caridade.
Assim seja. Podem viajar na retaguarda.
O que se passa? Qual é o alarme?
Não há qualquer alarme. Está tudo pronto para si no castelo.
Só queremos informá-lo que há um grupo de saxões na floresta.
Sabeis quem eles são?
Cedric de Rotherwood, Lady Rowena e o nobre cavaleiro, Athelstane.
Qual é o tamanho desse grupo?
Dez ou onze. Os criados não estão armados.
Meu bom amigo, De Bracy. Aposto que chegou a hora.
- O quê? - É hora de te entregarmos a tua esposa.
A tua esposa, De Bracy, espera-te.
- O que foi aquilo? - O quê? Não ouço nada.
Perdoai a intrusão, minha senhora, tenho o prazer de anunciar
que agora é convidada do meu bom amigo, Cabeça-de-Boi.
Preferia ir com bandidos. Mas, de facto, é isso que sois.
De Bracy? Tens a certeza que queres casar com esta língua afiada?
Ora, o que temos aqui?
Acho que podemos ter capturado mais do que um pássaro desta vez.
Uma infiel.
E incrivelmente bela.
Não podemos fazer-vos mal, senhor.
Temos aqui uma velha mulher que precisa dos nossos cuidados.
Ela tê-los-á, prometo-vos.
CASTELO DE CABEÇA-DE-BOl EM TORQUILSTONE
Cães. Cães normandos.
Bárbaros. Mas irão certamente dar-nos comida.
Parai.
O que é? Qual é a doença dessa bruxa velha?
Não vou chegar perto para descobrir.
Ponde-a no chão. Por favor, ponde-a no chão.
Então? Podeis sair.
Pronto. Está tudo bem.
Calma. Descansai tranquilo, Ivanhoe.
Não vos assusteis. Não griteis, imploro-vos.
Estamos... Estamos em York?
Somos prisioneiros.
Tirai as mãos de cima de mim. Largai-me.
Novamente perdido. Novamente perdido. O que hei-de fazer?
Levaram o meu amo, deixaram o louco.
- Bandido ou patife? - Nenhum dos dois, senhor.
O que sois, então?
Sou um louco. Wamba, o bobo do meu amo, Cedric de Rotherwood.
Um saxão?
- Um nobre saxão. E prisioneiro. - Prisioneiro? Onde?
No castelo de Cabeça-de-Boi. Com Lady Rowena e o nobre Athelstane.
E também... Importais-vos, senhor?
Obrigado.
E também Isaac, o judeu de York, e a sua filha, Rebecca.
Foram raptados?
Efectivamente, senhor. Sem dúvida.
Tão seguramente quanto vós e eu.
Vós? Eu? De que falais?
Olhai em volta, senhor. Os arbustos estão a mover-se.
Bem-vindos, cavalheiros. O que quereis? Um louco ou um cavaleiro?
Soltai-o.
O Cavaleiro Negro.
O torneio em Ashby. Salvou o jovem Ivanhoe.
- Tendes isso contra mim? - Contra vós?
Não há nada que mais aprecie do que a vida de um cidadão inglês.
Se fordes tão bom inglês como sois enquanto cavaleiro,
então tenho-vos em grande estima. O que vos traz pelo nosso caminho?
A distância mais curta para York.
Então tendes de ficar um pouco. Experimentar a nossa hospitalidade.
Por favor. Suplico-vos.
Se gosta realmente de ingleses, ajude a salvar o meu amo.
Ele fala de Cedric de Rotherwood.
Lady Rowena. O nobre Athelstane.
Prisioneiros, todos eles. Prisioneiros no castelo de Cabeça-de-Boi.
Quanto a mim, unir-me-ia a qualquer tentativa para os salvar.
- Onde está o João Pequeno? - Vem a caminho de Totherdam.
- E o Will Scarlet? - Acabou de chegar.
E onde está o Frei Tuck?
- Chamou, meu amo? - Onde tendes andado?
Nas vésperas a dizer orações por todos os bons ingleses.
Parece que estivestes a beber mais do que o habitual.
Talvez um trago ou dois do nosso vinho sagrado.
Credes que estais em condições de nos prestar serviço em combate?
Tenho uma sibilação aqui e uma fraqueza aqui.
Não sei.
Sim. Já passaram as duas. Estou pronto.
Então, vinde, padre demoníaco.
Vamos embora, Cavaleiro Negro.
O bobo irá conduzir-nos ao seu amo.
Quereis a minha vida? Quereis a minha fortuna?
É demais para vós, normandos,
o facto de nós, saxões, ainda termos terras no nosso próprio país?
Muito bem, matai-nos.
Só vos peço que liberteis a Lady Rowena em honra e segurança.
Porco normando!
Meu Deus, quem imaginaria que vós, o descendente de reis saxões,
seria prisioneiro de um vil normando
na casa onde os nossos antepassados convocavam cortes.
Talvez estejam a pedir um resgate moderado.
Cães.
A minha língua cola-se ao céu da boca. Ter-se-ão esquecido de nos mandar vinho?
Porque não se senta, senhora?
Se estiver na presença do meu carcereiro, prefiro ficar de pé.
Caríssima senhora, estais na presença do vosso prisioneiro, não do carcereiro.
Não vos conheço, senhor.
E nenhum homem com esporas e cota de malha
deve importunar uma donzela desprotegida.
É uma desventura que não me conheça.
Espero que o nome De Bracy seja conhecido de todos por actos de cavalheirismo.
De Bracy? Hoje não vejo qualquer acto de cavalheirismo.
Sois injusta, Lady Rowena.
Não permitis, sequer, a paixão de um homem assolado pela vossa beleza?
Senhor, falais a linguagem comum de um menestrel.
Talvez a linguagem severa fundamente melhor uma atitude severa.
Uma coisa vos digo,
não saireis daqui a menos que seja como esposa de Maurice de Bracy.
Vossa esposa?
Bem sei. Tendes um grande orgulho. Admiro isso.
Torna-vos ainda mais apropriada para ocupar o lugar ao meu lado.
Quando eu casar, senhor, não será com alguém que despreza
a forma como fui criada.
Talvez sonhe que o Rei Ricardo reassuma o trono.
É um sonho vazio. Posso garantir-vos isso.
O seu destino será tão inútil quanto o do Ivanhoe.
O quê? O Ivanhoe?
Finalmente noto um acesso de afecto?
Onde está ele? Sabeis onde ele está?
- Sei. - Imploro-vos que me digais.
Está gravemente ferido num quarto de torreão lá em cima.
Não acredito em vós.
Não vos incomodastes em olhar.
Ele viajava na liteira com Isaac, o judeu de York.
Quando informar o nosso anfitrião desse facto,
Ivanhoe deixará de respirar.
Sorri, estimada donzela.
Sorri simplesmente à minha proposta e ele não terá nada a temer.
Não posso crer que o vosso propósito seja tão cruel e o vosso poder tão forte.
Há outros. Cedric, o vosso guardião.
O destino de todos depende da vossa decisão.
Lady Rowena, preferia que mantivésseis a vossa raiva inicial do que isto.
Estai certa, por favor, não tendes ainda razões para chorar.
Agora irei deixar-vos
para que penseis na vossa decisão.
Quatro torres.
Apenas 12 sentinelas.
Isso é o que vemos, mas o Cabeça-de-Boi tem uma guarnição poderosa.
A uma nobre vitória.
Foi isto que viestes buscar.
As esmeraldas são lindas e os diamantes, que brilho.
Mas nem um momento se comparam ao brilho dos vossos olhos.
Podem comprar-vos prazer.
Não. Por vós exijo um resgate de amor.
Não aceitarei outra moeda.
Não temos nada em comum entre nós.
A nossa união seria contrária às leis da igreja e da sinagoga.
A nossa união? Achais que desposaria uma judia?
Nem que fosse a Rainha de Sheba.
Além disso, é contra o meu juramento de Cavaleiro Templário
casar seja com que mulher for.
A vossa ordem permite a luxúria carnal e a devassidão?
Fui brando nas palavras até agora,
mas agora a minha linguagem será a de um conquistador.
Pelas leis de todas as nações, estais sujeita à minha vontade
e não abdicarei em nada desse direito.
Nem porei de parte a violência se recusardes escutar as minhas ordens.
Se quiserdes, usai-me, Cavaleiro Templário,
e proclamá-lo-ei de uma ponta à outra da Europa.
Para que todos saibam que haveis pecado com uma judia.
E sereis maldito por terdes desonrado a cruz que usais.
Sois astuciosa.
Mas a vossa voz teria de ser forte
para ser ouvida para lá das paredes deste castelo.
Ainda assim, podeis ser salva.
Entregai-vos a mim de livre vontade
e sereis anunciada de tal forma que qualquer mulher normanda vos invejará.
Entregar-me a vós? Tenho asco de vós. Tenho repulsa.
Mais depressa me entregarei ao Deus de Abraão.
Quedai-vos. Um passo em frente e eu salto.
Juro pela terra e pelo céu que não quero fazer-vos mal.
Haveis-me ensinado a não confiar em vós.
Juro por esta cruz e pela espada ao meu lado que não vos farei mal.
Se não por vós, então pelo vosso pai, descei.
Já quebrei muitas leis e muitas ordens, mas nunca quebrei a minha palavra.
Muito bem. Que haja paz entre nós.
Eu... Eu nem sempre sou aquilo que vistes aqui.
- Egoísta e sem piedade. - Eu voltarei.
- E espero encontrar-vos mais receptiva. - Ireis esperar em vão.
Agora. Cão maldito de uma raça maldita. Vedes estes pratos de balança?
Nestes pratos, ireis colocar mil libras de prata.
- Prata? - Sou uma pessoa razoável.
Se a prata for insuficiente para vós, eu não recusarei ouro.
Imploro-vos, senhor, é demasiado.
Olhai em vosso redor, infiel.
Prisioneiros mil vezes mais eminentes
do que vós pereceram nestas paredes.
Mas para vós, reservámos uma morte longa e lancinante.
Aqui está! Ireis deitar-vos neste divã quentinho,
despido das vossas vestes.
O fogo será ateado debaixo de vós e untaremos os vossos membros com óleo
para que não queimem demasiado depressa.
Como pode o Deus da natureza fazer alguém capaz de tamanha crueldade?
Basta que pagueis o resgate.
Tenho de pedir ajuda de outros. Dizei-me, quando e onde tem de ser pago?
Aqui.
Aqui, para ser contado perante os meus olhos.
A minha filha. Tem de permitir que a minha filha vá a York,
e depois, com o vosso salvo conduto e tão rapidamente quanto for possível,
o tesouro poderá ser pesado nas vossas balanças.
A vossa filha? Não, isso é impossível. É demasiado tarde.
- Demasiado tarde? - Sim. Julguei que fosse vossa concubina.
- Já a ofereci a Brian Guilbert. - Vós.
Tomai. Ficai com o que quiserdes. Tomai dez vezes mais.
Fazei de mim um pedinte na rua. Aqui.
Trespassai-me com a vossa espada. Colocai-me no fogo.
Mas, em nome de Deus, imploro-vos que poupeis a Rebecca.
Já dei a minha palavra ao Brian Guilbert.
Não a quebraria por vós ou mais dez judeus.
- Tendes de o fazer? - Tenho? Cão judeu.
- Tendes de pagar o meu resgate. - Ladrão.
Canalha. Não pagarei nada. Nem um centavo vos darei
a menos que a minha filha seja entregue com segurança e honra.
Haveis perdido o juízo, velho?
Julgais por acaso que a vossa carne tem alguma hipótese
contra metal escaldante e óleo a ferver?
Fazei o que quiserdes. A minha filha é a minha carne e o meu sangue.
Ela é-me dez vezes mais querida do que estes membros que ameaçais.
Muito bem, tirai a minha vida
e dizei ao mundo que o judeu soube como desiludir o cristão.
Despi-o! Acorrentai-o às grades!
Canalhas! Tirai as mãos imundas de cima de mim!
Largai-o.
Eu regressarei.
- O que aconteceu? - Nada.
Nada, Ivanhoe. Ainda somos prisioneiros.
- Já falastes com eles? - Não.
Julguei... Julguei ter ouvido alguém aqui.
- Bebei isto. - Não, não.
- Sinto-me tão tonto. - É apenas água. Àgua fresca.
Pronto.
- Eu vi-vos. - O quê?
À luz. Por aquela abertura.
À luz, como um anjo.
Santo Deus, se pelo menos conseguisse recuperar as minhas forças.
Ireis conseguir. Ireis conseguir.
Chegou uma mensagem em saxão. Alguém sabe lê-la?
Dai-ma. Onde a conseguistes?
Foi entregue no portão.
Então?
- É uma carta de desafio. - Desafio?
"Eu, Wamba, filho de Witless, bobo da corte de Cedric de Rotherwood,
"acuso-vos de capturar indevidamente a pessoa do referido Cedric,
"Lady Rowena, Athelstane e seus servos e escravos. "
Isto é alguma piada?
"Também haveis capturado indevidamente Isaac de York,
"a sua filha Rebecca e a pessoa doente que trazem consigo. "
Que insolência.
"Ireis entregar-nos no prazo de uma hora
"todos aqueles que referi. Se não o fizerdes sereis destruído. "
Nota-se bem que é louco.
"Tenho o apoio de muitos aliados, incluindo o nobre Cavaleiro Negro. "
- Cavaleiro Negro. - Recordais-vos? No torneio.
"E o valente alabardeiro, Robert Locksley. "
- Locksley? - O diabo em pessoa.
Conheço o nome. Conheço o homem.
Aqui na floresta chamam-lhe Robin dos Bosques.
Garanto-vos que não ousaria tamanha insolência
se não tivesse o apoio de muitas mãos poderosas.
Vede o que fizestes. Disponibilizo-vos o meu castelo e vós trazeis
- este ninho de vespas para cima de mim. - Vespas, não.
Diria mais, zângãos sem ferrão.
Um cavaleiro é suficiente para vinte destes campónios.
Estes alabardeiros sabem o que fazem.
E os meus melhores homens estão em York com as nossas tropas, De Bracy.
- Ousariam atacar o castelo? - Claro que sim. Temos de ganhar tempo.
Esta mensagem será endereçada ao bobo.
"Não aceitamos desafios de escravos e proscritos.
"Se a pessoa que se intitula Cavaleiro Negro tem alguma nobreza,
"deverá saber que a presente companhia o avilta. "
Bem dito, Guilbert.
Mas qual é o objectivo dessa mensagem?
"Pedimo-vos, com cavalheirismo cristão,
"que envieis um homem de Deus ouvir as últimas confissões dos prisioneiros
"antes da sua execução ao despontar da próxima alvorada. "
Planeiam executar os prisioneiros.
Deveis estar equivocado.
Não. Li-vos as palavras tal como estão escritas.
Nesse caso, temos de atacar o castelo.
Acho que é um esquema para ganhar tempo. Não ousariam prosseguir com a ameaça.
Então, devemos ignorar.
Não. É melhor sabermos o que se passa lá dentro.
Pediram um homem de Deus para ouvir confissões.
- Vamos enviar-lhes um. - Eu?
Preferia matar dez inimigos a confessar um cristão.
Pus de lado o hábito de frade.
Agora estou vestido para combate e apenas para combate.
- Proponho que ataquemos o castelo. - Ainda não.
Há mais alguém que aceite o papel de padre confessor?
O louco.
Quem além de um louco colocaria a cabeça onde o homem sensato recusa?
O que direi a estes normandos?
Isso bastará. Será suficiente. Percebeste?
Quantos soldados guardam o castelo?
Não os contei. Mas fomos capturados por uma dúzia, pelo menos.
Não posso ficar aqui parado. Tenho de fazer alguma coisa.
A porta está trancada pelo lado de fora.
Mesmo que tivesses a vossa força, não há nada que possais fazer.
Se conseguisse descobrir. Se soubesse que ela estava bem.
Lady Rowena. Se pudesse ter a certeza de que não lhe tocaram.
Amai-la assim tanto?
Ela é a minha vida. Eu sou dela. Sempre foi assim.
Sabeis o que é gostar assim tanto de uma pessoa?
Eu... Não.
O quê?
Eu disse que não.
Nunca senti isso.
Não vos preocupeis. Estou certa de que ela está bem.
E acho que está ainda mais preocupada convosco.
Sois muito gentil.
Tendes sido muito generosa e gentil.
É difícil compreender porque não surgiu alguém para vós.
O que quereis? O quê?
Um pobre frade que veio ouvir as confissões dos prisioneiros.
Segui-me.
Mandaram-nos um frade, senhor.
Vinde aqui.
Dizei-me primeiro. Qual é o número desses bandidos?
O seu número, senhor, é legião.
Qual é o número?
Assim por alto, 500.
Agora. Mesmo agora continuais a pensar no estômago.
Ficarei ao vosso lado através de todos os perigos mortais.
Quem é este?
Que as bênçãos de todos os santos estejam convosco.
- O que quereis daqui, frade? - Preparar-vos para a morte.
- O quê? - A vossa execução.
Impossível. Não se atreveriam a assassinar-nos.
Nobre Cedric, sereis chamado a responder perante o mais supremo dos tribunais.
Primeiro lutarei pela minha vida. Lutarei até à morte.
- Prefiro morrer homem do que escravo. - Esperai.
Esperai, não salteis para a escuridão, meu bom tio.
Por Deus, eu conheço essa voz.
A voz de um tolo. E se não quereis confessar-vos,
- então estou aqui para vos libertar. - Wamba.
Tomai as minhas vestes de frade. Saí silenciosamente do castelo.
Eu irei usar o vosso manto e aceitarei a morte no vosso lugar.
Eles irão enforcar-te.
Até mesmo um louco pode ser enforcado majestosamente.
Wamba, assentirei ao teu pedido,
mas quero que troques de roupa
com o Athelstane ao invés de mim.
O filho de Witless a morrer para salvar o Athelstane?
Os pais de Athelstane foram monarcas de Inglaterra.
O meu pescoço é direito demais para ser torcido por eles.
É nosso dever salvá-lo.
É o dever de qualquer homem com sangue saxão nas veias.
- Morrerei por vós ou por mais ninguém. - O louco tem razão.
Não o privaria da gentileza para com o seu amo.
E a vossa fuga pode trazer aliados em nosso socorro.
Há alguma esperança de socorro lá fora?
Os alabardeiros estão preparados para atacar o castelo. Esperam notícias.
Wamba, a tua memória será mantida enquanto houver honra nesta terra.
Mas espero encontrar forma de te salvar.
E o que direi se me fizerem perguntas?
Não sei falar como um frade.
Só isso?
- É mais útil do que um cabo de vassoura. - Muito bem.
Athelstane, adeus.
Se não vos puder salvar. Voltarei para morrer convosco.
Adeus.
Adeus, tio.
Terminou, Reverendo Padre?
Frade!
- O que disseram os prisioneiros? - Seja cumprida a vontade de Deus.
O vosso discurso, padre, faz lembrar o sotaque saxão.
- Não. - Segui-me.
Temos de manter estes porcos à distância durante pelo menos 24 horas.
Tomai. Entregai isto a Philip de Malvodin. Ele enviará os seus homens.
Se conseguirmos manter estes bandidos onde estão,
em breve teremos lanças suficientes para os combater.
Tomai, isto é para vós.
Mas esfolar-vos-ei se não fizerdes o que vos ordeno.
Cão normando!
Raios e coriscos. O que temos nós aqui?
- Canalha. - Lisonjeais-me, senhor.
Não passo de um louco.
Demónio infernal. Dar-vos-ei ordens sacras.
Irei arrancar-vos o escalpe e atirar-vos das muralhas.
Tarde demais. Estão a aproximar-se enquanto falamos.
Vós. Valorais a vossa liberdade?
- Então livrai-nos da escória que nos rodeia. - Como?
A tua liberdade pela retirada deles.
A minha liberdade e a do louco.
E a do louco.
Mas não fales do infiel. Eles permanecem aqui.
É claro. Iria sacrificar-me por um descrente?
- Ide. - E a Lady Rowena?
A donzela fica aqui.
Antes ser destroçado por cavalos selvagens a sair daqui sem ela.
- Providencio isso com todo o prazer. - A donzela fica.
Então, eu também fico.
E se fordes corajoso para trepar às ameias,
é melhor que o façais agora.
Para as muralhas. Para as ameias.
Ingleses. Está na hora de mostrarmos do que somos feitos.
- Eu nome de São Cristóvão! - Para as ameias.
- Eles vêm aí. - Sob que bandeira?
Conseguis identificá-los?
Não vejo bandeiras. Usam o verde de ladrões da floresta.
Olhai ali adiante. Três patifes conduzidos pelo Cavaleiro Negro.
Ainda estamos a tempo de entregar os prisioneiros.
O quê? Permitir que esta gentalha nos tome por covardes para nossa vergonha?
Jamais.
Há um cavaleiro entre eles com uma armadura negra.
O Cavaleiro Negro.
São Jorge pela Inglaterra.
Disparem, seus porcos!
Voltem para o portão. O portão!
- Vamos precisar de um aríete. - Tereis um.
Continuai a lançar setas enquanto atacamos. Vamos.
Coração de Leão.
Santo Deus. Se ao menos pudesse estar ao seu lado.
- Porquê? - Porquê?
- Porque têm tanta ânsia de lutar? - Porque...
Uma espada na mão para derramar o sangue de alguém, é isso que quereis?
Tirar a força dos braços de alguém e a luz dos seus olhos?
Glória, gentil donzela. Glória.
Será glória passar uma vida tão miseravelmente?
Pela minha alma, falais de coisas que desconheceis.
Abdicaríeis do cavalheirismo?
Tudo o que separa um nobre de um selvagem?
Não compreendeis que sem glória não existe...
Não importa.
Não importa. Não sois cristã, Rebecca.
Desconheceis estes sentimentos.
É verdade. Descendo de uma raça que já não ouve o som das trombetas.
Mas prometo-vos,
atrever-me-ia a morrer tão audazmente quanto o mais valente cavaleiro
se achasse que poderia trazer de volta a terra que foi tirada ao meu povo.
Doce e gentil donzela,
se eu pertencesse à vossa raça,
ficaria convosco e amar-vos-ia
até ao fim da minha vida.
Uma vida. É só isso que Deus nos dará.
E não estamos predestinados a partilhá-la.
Jamais vos esquecerei, Rebecca.
Nunca.
Ele respira?
Mal se ouve.
Mais um elemento bem-vindo ao reino de Satanás.
Ele não tinha fé, é verdade,
mas a menos que queiramos ir ter com ele, é melhor irmos para as ameias.
Vivendo ou morrendo, combatemos como cavalheiros.
- Ficai cá fora. - O quê?
Ficai cá fora. Não tendes armadura para este combate.
Os meus ossos podem ser velhos, mas amaldiçoado seja se não for convosco.
Estão quase a atravessar o portão.
Covardes! Voltem aqui!
Rendei-vos!
Rendei-vos!
Não me renderei perante um desconhecido.
Dizei-me o vosso nome.
Meu senhor.
Rendo-me.
Onde posso encontrar o Ivanhoe?
Ivanhoe.
Depressa. Depressa. Encontrai a Rowena.
Salvem-se. Sigam-me.
- De Bracy, depressa, monta. - Não.
Rendi-me. Entreguei a minha espada.
Eu consigo andar, senhor. Eu consigo andar.
Ivanhoe!
Meu adorado.
Sim, de facto. Acho que o valente cavaleiro irá certamente viver mais algum tempo.
Mas não nos vossos braços, doce donzela. Não.
Ele deve ser tratado na paz e sossego do meu acampamento.
Ajudai-o.
Vinde, Ivanhoe. Voltareis a vê-la. Ide-vos embora.
- Não saireis daqui? - Não sem vós, meu amado.
Athelstane!
Athelstane!
Onde está ele? Havei-lo visto?
- Onde se meteu o Athelstane? - Receio, senhor, que esteja morto.
- Morto? - Bem, ele não foi encontrado.
Há tantos corpos despedaçados pelas espadas que é impossível dizer
que homem é quem, mas deve estar aqui algures.
Santo Deus.
Todas as minhas esperanças. Todo o futuro dos saxões morre com o Athelstane.
Juntos poderiam ter sido uma força contra os normandos.
Jamais.
O meu coração foi sempre do Ivanhoe e vós sabeis disso. O vosso filho...
Não tive nenhum filho. Ele abandonou-me. Ele abandonou o seu sangue saxão.
Não terás nada com ele, estais a ouvir?
Se tentardes voltar a vê-lo, mandarei prender-vos as mãos e os pés.
- Imploro-vos. Eu amo-o... - Basta.
Partimos para Rotherwood assim que a escolta esteja reunida.
Desejais alguma coisa?
Só tenho um favor a pedir-vos, se me concederdes a honra.
Dizei.
Peço permissão para dispor daquele cavaleiro conforme me aprouver.
Ele é vosso.
Deixai-nos.
Sois livre para partir,
com a condição de que deixeis Inglaterra imediatamente.
Se ainda fordes encontrado em solo inglês no domingo de manhã,
enforcar-vos-ei para servirdes de refeição aos corvos no vosso próprio castelo.
Ide.
O Cedric ficará desiludido.
Gostaria de se ter livrado pessoalmente desse prisioneiro.
Bons alabardeiros. Corajoso cavaleiro.
Quero que todos saibam
que se algum de vós tiver fome, dar-vos-ei comida.
Se os normandos vos expulsarem destes bosques,
tenho florestas onde ninguém perguntará de quem era a seta que matou o veado.
Agradecemo-vos, Lorde Cedric.
Dirigi-vos a nós, não como convidado, mas como um irmão.
Pedi qualquer favor e ser-vos-á concedido. Seja o que for.
Seria uma honra ter-vos connosco
para a cerimónia fúnebre do valoroso e defunto Athelstane.
A honra seria minha.
Haveis-me ensinado o valor dos saxões e não o esquecerei.
- Adeus. - Adeus.
Abri caminho. Abri caminho para este padre devoto e o seu prisioneiro.
Sou como uma águia com a presa nas garras.
Uma vítima da minha espada.
Pelo amor de Deus, alguém me livra deste louco?
Onde o encontrastes?
Estava à procura de um trago de nobre vinho normando
quando encontrei este infiel na adega.
La dar-lhe um enxerto de pancada, mas tive pena da sua cabeleira grisalha
e converti-o naquele preciso momento.
Isso é mentira. Não me converti. Ele mente.
Chamais-me mentiroso, tenho de vos ensinar bons modos.
Parai! Batei-me frade, se vos atreverdes.
Eu aguento o vosso golpe se aguentardes o meu.
Claro. Então ides directo para o chão.
Agora, é a minha vez.
Acho que me haveis partido o queixo.
Não creio. Ainda conseguis falar. Vinde, vamos pôr termo a este disparate.
Chamo-me Isaac de York.
Alguém aqui viu a minha filha Rebecca?
Nós vimo-la.
A ser levada por Brian Guilbert quando o castelo foi tomado.
Ele fez isso? Para onde a levaram?
Arriscando um palpite, diria para Norte, para Templestone,
onde os Cavaleiros do Templo se reúnem.
Tenho de partir imediatamente. Tenho de pagar o resgate.
Por favor, quem me pode guiar? Eu pago a quem me servir de guia.
Meu caro, doce e gentil judeu. Desculpai-me pelas palavras cruéis.
É um prazer guiá-lo até Templestone por uma pequena taxa. Duzentas moedas.
- Duzentas moedas. - Podemos partir de manhã.
- Partimos imediatamente. - Partimos imediatamente.
O rei está a chegar.
Vossa Majestade.
- Tendes tudo o que precisais? - Os vossos homens serviram-me bem.
Óptimo. Sentai-vos, por favor.
Quais são as novidades?
Deixai sarar essas feridas. Posso precisar muito de vós mais tarde.
Estou quase sarado, graças aos cuidados de uma extraordinária donzela.
- Eu conheço-a? - Ela não é da nossa raça.
Se fosse, não a teria perdido de vista.
De facto. Nunca tinha visto uma recuperação tão notável.
Descansai hoje. Amanhã partiremos para a cerimónia fúnebre em Rotherwood.
Há tempo? E as vossas tropas a reunir em York?
Há tempo suficiente. Estou determinado e reconciliar-vos com o vosso pai.
- Achais que é possível? - Exigirei isso.
E quanto a Lady Rowena?
Bem, pensei deixar isso ao vosso cuidado.
PRECEPTORIA EM TEMPLESTONE
- Como se chama a rapariga? - Rebecca. Filha de Isaac.
- Uma infiel? - Sim.
E ousou trazê-la aqui?
Ele não tentou escondê-la.
Como é que um cavaleiro tão nobre como Brian Guilbert se foi apaixonar?
- É obviamente uma feiticeira. - É claro.
Que o Senhor nos proteja.
Falai. Qual é a vossa mensagem?
Um homem de grande riqueza está aqui para vos falar, Grão-Mestre.
- Ele não tem nome? - O seu nome é Isaac de York.
Levai-o à sala de reuniões.
Que assunto o traz aqui?
Vim para pagar pela libertação da minha filha.
Ela é aqui prisioneira de Brian Guilbert.
Queremos que nos digais uma coisa acerca da vossa filha.
Ela pratica a arte de curar?
Sim, Reverendo Mestre.
A arte ensinada por aquela matrona da vossa tribo chamada Miriam?
Sim, Reverendo Mestre.
Queimámos o corpo dela na estaca. Agora temos a discípula.
- Reverendo Mestre, eu... - Silêncio, cão.
Essa vossa bruxa Iançou um feitiço sobre um dos cavaleiros do nosso Templo.
A nossa lei cristã irá agora tratar dela.
Imploro-vos que digais o valor do resgate. Pago-vos o que quiserdes...
Fora, falso judeu,
ou preferis enfrentar vós o fogo?
Perdoai-me, nobre reverendo,
mas podemos queimar esta bruxa sem... As leis de Inglaterra...
Permitem-nos fazer justiça na nossa própria jurisdição.
Nós julgamos. Nós condenamos.
Sir Brian. Posso dar-vos uma palavra?
Não estou com disposição para falar.
Receio que tenhamos de o fazer. Tem a ver com uma tal Rebecca.
Salvei a vida dela. O meu escudo serviu-lhe de protecção.
E agora ela diz-me que a devia ter deixado arder.
Nem o mais pequeno sinal de gratidão.
- Ela Iançou-vos um feitiço. - Isso é ridículo.
Sir Brian,
o Grão-Mestre decidiu que ela tem de ser punida.
O que dissestes?
Ele está determinado a levá-la a julgamento.
Apenas a morte da judia poderá expiar
a indulgência amorosa de um Cavaleiro Templário.
Estais a falar a sério?
Ela tem de morrer.
- Por que motivo? - Já vos disse.
Por ser judia? Isso faz dela uma bruxa?
Ou queimamo-la por ser bruxa ou judia?
Isso tem alguma importância?
Pense bem, Sir Brian.
A sua categoria militar, as suas honras, todas dependem do seu lugar na Ordem.
Abdicaria de tudo isso por causa desta paixão?
No futuro, poderá mesmo chegar a Grão-Mestre.
E nessa altura poderá acariciar ou queimar
estas filhas de Judá conforme vos aprouver.
- O que pretendeis de mim? - Confessai.
Ide ter com o Grão-Mestre e dizei-lhe que apesar de amar
esta prisioneira Rebecca loucamente, ama os Cavaleiros do Templo ainda mais.
Concordai com o julgamento.
Ela não me deu nada.
Nada por que trocasse qualquer posto ou honra.
Irei livrar-me dela. Fá-lo-ei.
Vós. Filha de uma raça maldita. Segui-me.
Onde?
Sereis levada perante o Grão-Mestre para responder pelo vosso crime.
Qual crime? Fui trazida para cá contra a minha vontade.
O crime de bruxaria, entre outros.
Bruxaria? Acusais-me de bruxaria?
Então seguir-vos-ei de boa vontade, pois estou inocente de tal acusação
e olharei o vosso juiz como meu protector.
Está na hora, bons alabardeiros. Temos de nos despedir de vós.
Também está na hora de revelar o nome que escondi de vós.
Chamo-me Robert de Locksley. Sou conhecido por Robin dos Bosques.
Ficaríeis melindrado se vos revelasse que sempre soube?
Nesse caso, talvez queirais partilhar o segredo da vossa identidade?
Sabereis muito em breve. Prometo-vos. Adeus.
Adeus.
Adeus e obrigado.
Deus vos acompanhe.
Ansiava dizer-lhes, senhor, que haviam lutado com o Rei Ricardo.
Terão esse orgulho quando nós voltarmos a governar com justiça.
Tendes a minha espada contra o Príncipe João quando quiserdes.
É possível que não precise da vossa espada, o que é bom.
Não vos vejo preparado para um duelo antes de um mês.
Encontraria a força de cem demónios para servir o meu rei.
Mas por agora, Ivanhoe, cavalguemos em paz.
Homens respeitáveis e valentes.
Irmãos cristãos de todos os graus.
Lamento informar-vos que o terrível lobo invadiu este rebanho
e está a tentar levar um dos nossos membros.
Por isso, mandámos chamar diante de nós esta mulher,
que dá pelo nome de Rebecca, uma mulher infame pelas suas bruxarias.
Ela enlouqueceu o sangue e perturbou o cérebro de um cavaleiro
dedicado ao serviço do Templo Sagrado,
o verdadeiro mentor da nossa ordem, Brian Guilbert.
Sim, é verdade.
Que esse homem rejeite o interesse pela sua reputação,
pelos seus votos perante a nossa ordem, por causa de uma infiel.
O que mais podemos presumir para além de estar possuído
por um demónio maléfico ou espírito malévolo.
Brian de Bois Guilbert? O que dizeis destas acusações?
Não falarei de tão graves acusações.
Se a minha honra for posta em causa, defendê-la-ei com a minha espada,
que muitas vezes lutou pela Cristandade.
De facto. Nós perdoamo-vos, irmão Guilbert.
Levantai o véu.
Não é nosso costume destapar a cara perante um grupo de estranhos.
Rebecca de York, e ireis responder-me fielmente,
alguma vez usastes curas secretas e remédios antigos em homens feridos?
Sim.
Se isso é um crime, onde está a lei para me acusar?
Aliviar os doentes, ajudar os feridos de qualquer religião
não afronta o vosso Deus ou o meu.
Não faz de mim uma bruxa. Não faz de mim uma feiticeira.
Suplico a Brian Guilbert que diga
se estas acusações são ou não falsas.
Se sois homem, se sois cristão, falai.
Estas coisas são verdade?
Se ainda tendes força para responder a este demónio, meu irmão, fazei-o agora.
Receio que o poder de Satanás seja demasiado poderoso para o irmão Guilbert.
- Por isso, eu... - Esperai.
Segundo as regras da ordem,
a prisioneira tem o direito de exigir um cavaleiro para a defender
em julgamento através de um combate.
- Desejais nomear um defensor? - Sim.
Quem será o defensor de uma feiticeira?
Deus dar-me-á um.
Muito bem.
Ireis pousar a vossa luva para ver qual de nós enfrentará o vosso defensor.
Recebemos a luva deste demónio
e quem a vai apanhar como sinal de que enfrentaremos o defensor em duelo?
Falai.
Quem defenderá a nossa nobre ordem contra o defensor de um demónio?
Eu aceito a luva
em nome de Brian Guilbert,
a quem diz principalmente respeito.
Brian Guilbert, ficais encarregue disso.
Ireis enfrentar o campeão dela para o julgamento de Deus,
nunca duvidando que a nossa causa justa triunfará.
Grão-Mestre,
se esta mulher se arrepender,
ainda há tempo.
Se ela aceitar o nosso emblema sagrado e renunciar o seu.
Renunciar aos meus pais? Estais louco?
Cuidado com a língua, infiel.
Se não posso falar pela minha religião, estou preparada para morrer por ela.
Exijo o direito a um defensor.
Tendes até ao terceiro dia a contar de hoje para encontrar um.
Dais-me muito pouco tempo para encontrar um estranho de outro credo
que combata em minha defesa.
Três dias.
Será cumprida a vontade de Deus.
Se não conseguirdes, ardereis na fogueira como uma feiticeira.
Se escolherdes um defensor e ele perder a batalha,
arderás na fogueira como uma feiticeira.
Que Deus apoie a decisão mais justa.
Quem vos deu esta mensagem?
Um mentor dos templários que a recebeu da vossa filha, senhor...
Tem uma resposta?
Sim.
Informai o mentor que encontraremos um defensor dentro do prazo limite.
Desejais comunicar o seu nome?
Não. Mais tarde.
Estou aqui para dar condolências pelo seu parente defunto.
Tendes a minha gratidão, nobre cavaleiro.
Assegurarei que estas tristes paredes vos dêem a hospitalidade que mereceis.
A vós e ao vosso criado.
O momento pode parecer pouco oportuno,
mas recordo-o, Cedric,
que a última vez que nos vimos, ofereceu-se para me conceder
um favor pelo serviço que lhe prestei.
Haveis realmente escolhido um momento triste.
Já combatemos juntos,
mas sempre me haveis conhecido como o Cavaleiro Negro.
Sim?
Conhecei-me agora como Ricardo Plantageneta.
Troçais de mim?
Rei Ricardo?
O próprio.
Então? Ides ficar aí parado?
Não vos ajoelhais perante o vosso rei?
Vou confessar-vos, senhor, que nunca me ajoelhei perante normandos.
Não. Talvez o faças
quando vos garantir igual protecção a todos os saxões e normandos.
Se é mesmo esse o vosso desígnio,
então mereceis manter o trono contra a vilania do vosso irmão João.
Nada mais posso dar-vos por agora.
Excepto o favor.
Exijo-lhe, como homem de palavra que é,
que perdoe e receba no seu coração o seu nobre filho, Wilfred de Ivanhoe.
Pai.
Tu.
Imploro-vos que me perdoeis.
Sempre fui um homem de palavra.
Mesmo quando dada a um normando.
Por isso, tens o meu perdão.
Obrigado, pai. Posso ver a Lady Rowena?
O quê? O que disseste?
Tenciono oferecer a minha mão em casamento à Lady Rowena.
Não até ela ter completado pelo menos dois anos de luto
- pelo corajoso Athelstane. - Dois anos?
Nem tu nem o próprio Rei Ricardo me farão mudar de ideias. Dois anos.
O que aconteceu? O que aconteceu?
Em nome de Deus, se sois mortal, falai.
Dai-me tempo para recuperar o fôlego.
Vivo.
Tão vivo quanto é possível após três dias a pão e água.
Disseram-nos que sofrestes um golpe mortal e que fostes retalhado.
Acho que o golpe não foi assim tão mortal. Atordoado, sim. É claro.
Mas vagueei até cair no meio da floresta.
Um pastor amável cuidou de mim até estar em condições de viajar.
Pão de cevada e água. Ele não tinha mais nada.
Não quero parecer ingrato, mas foi uma tortura terrível.
Respirai fundo. Descansai um pouco.
Preferia um pedaço de presunto e uma taça de vinho, se não vos importais.
Graças a Deus que voltastes. Pronto a retomar o projecto de libertação.
Não me falais em libertar ninguém. Já é bom eu estar livre.
Cuidado com o que dizeis.
Estais diante do Rei Ricardo.
Ele?
Foi convidado para assistir ao vosso funeral.
Pela minha fé, sinto-me honrado.
Ofereço-vos o meu coração e a minha mão.
Athelstane, ajoelhais-vos perante um normando?
Venho do meu túmulo mais sensato do que quando lá entrei.
E a Lady Rowena?
Iríeis abandoná-la, tal como abandonastes a vossa causa saxónica?
Vamos falar com sinceridade
e rapidamente, antes que morra de fome.
A Lady Rowena nunca gostou de mim.
Ela ama mais o dedo mindinho
da mão do Ivanhoe do que toda a minha pessoa.
Dai-me a vossa mão e a vossa.
Renuncio a todos os direitos herdados sobre a Lady Rowena
em favor do meu primo, Wilfred de Ivanhoe.
Já está. Agora imploro-lhe, já podemos comer?
Meu bom amigo.
Tenho de partir imediatamente para Templestone.
O que se passa?
Uma questão de honra.
Mas acabastes... Estais em condições?
Não tenho escolha.
Se vos perdesse agora, seria mais do que conseguiria suportar.
Não me perdereis.
Parai.
O que pretendeis?
Por favor, não tendes razões para ter medo de mim.
Agora tendes guardas para vos proteger.
Guardas? Falais dos escolhidos para me escoltarem até à minha morte?
Rebecca, por favor.
Se não tendes nada mais a fazer senão ver a infelicidade que causastes,
então dizei-me e deixai-me em paz.
Confesso que não previ o que iria acontecer aqui.
Mas imploro-vos, ouvi-me.
A minha intenção era ser o vosso defensor.
Vós?
Continuo a querer proteger-vos.
Como?
Se não me apresentar perante o vosso defensor,
perderei o meu estatuto e a minha honra.
Perderei aquilo que representa para mim o verdadeiro sopro de vida.
É esse o meu destino se não comparecer.
Mas irá comparecer.
Por que vos incomodais? A vossa escolha está feita.
Não.
Estou disposto a renunciar a toda a fama, ao respeito dos meus concidadãos,
se aceitardes o meu amor por vós.
O vosso amor ou as vossas paixões vis?
Podíamos partir imediatamente. O mundo não é apenas a Inglaterra.
Poderíamos partir para Espanha, para a Palestina.
Criarei uma nova ordem.
Farei de vós uma rainha, Rebecca.
Vamos fugir.
Não passa de um sonho.
Uma visão vazia da noite.
Como podeis rejeitar todos os vínculos da vossa ordem,
apenas para satisfazer esta paixão pela filha de outro povo?
Estou mesmo sob um encantamento.
Por que choro por vós? Desejosa por morrer em tortura e agonia.
Porque me importo?
Agora, nada poderá salvar-vos.
Assim seja.
Vou deixar-vos para sempre.
Mas...
Peço-vos que me perdoais e que nos separemos como amigos.
Eu perdoo-vos.
Embora saiba que a vossa espada se agitará fortemente contra mim.
Perdoo-vos de livre vontade, como uma vítima perdoa o seu carrasco.
Adeus.
Onde haveis estado?
No castelo de Cabeça-de-Boi.
Precisarei das vossas tropas imediatamente. O Rei Ricardo está novamente em Inglaterra.
Bem sei. Falei com ele.
- Falastes com ele? - Está a reunir um grande batalhão em York.
Iremos ao seu encontro lá.
Mandei avisar o Brian Guilbert e o Cabeça-de-Boi.
O Cabeça-de-Boi está morto e os seus homens foram dizimados.
Brian Guilbert regressou a Templestone e não podeis contar com ele.
Contais apenas com as vossas tropas.
E as vossas?
O Rei Ricardo enfrentou-me no campo de batalha
e fui forçado a render-me e a jurar por minha honra que deixaria Inglaterra.
Por vossa honra? Por vossa honra?
Estou a falar do futuro trono de Inglaterra.
A menos que quereis enfrentar o Rei Ricardo com os guardas do palácio,
o que eu não aconselharia,
apressar-me-ia a fazer as pazes com ele o mais depressa possível.
Lorde Fitzurse.
Vossa Graça, eu sou um homem prático.
Enfrentar Ricardo sem as tropas destes três leais cavaleiros
seria, de facto, corajoso e arrojado, mas infrutífero.
Canalhas.
De facto, lamento dizer que estou demasiado velho para combater.
Tenho de resignar aos meus deveres e procurar refúgio na igreja de São Pedro.
Meu Deus.
O vosso Deus, Príncipe João, não vos verá a assumir o trono de Inglaterra.
Bom dia.
Anda.
Chamo o defensor.
Que avance o defensor.
Reverendo, não há defensor para a judia.
Aguardai uma hora e se não houver defensor,
a bruxa irá preparar-se para a sua morte.
Rebecca. Escutai.
Ainda podemos fugir. Tenho um cavalo forte à espera no extremo do campo.
Não.
Em nome de Deus, imploro-vos, renunciai à vossa fé e admiti a vossa culpa.
Está na hora, Reverendo Padre.
Continuai.
Que pena.
Morrer sem um golpe sequer dado em sua defesa.
Se fosse minimamente cristã, talvez até eu a defendesse.
Continuai.
Um defensor! Um defensor!
Um defensor! Um defensor!
O vosso nome. O vosso posto. O vosso objectivo.
Sou Wilfred de Ivanhoe, um cavaleiro com provas dadas em batalha.
Estou aqui para defender com lança e espada
os direitos legítimos da donzela, Rebecca.
E para desafiar Sir Brian Guilbert como mentiroso, traidor e assassino.
Ainda não estais recuperado das vossas feridas para lutar.
Curai-as primeiro
ou não valerá a pena pôr freio a tal fanfarronice pueril.
Haveis tombado duas vezes perante a minha lança.
Recuperai a vossa honra, senhor.
Combatei sem mais delongas.
Preparai-vos para morrer.
Esperai. Ainda não. A prisioneira tem de aceitá-lo como seu defensor.
Aceitais-me como vosso defensor?
Sim.
Que ninguém interfira com este campo de batalha, sob pena de morte.
Porquê?
Haveis cumprido legitimamente o vosso dever em combate.
Pelas leis da nossa ordem,
declaro a donzela, Rebecca, livre a inocente.
Salve, Rei Ricardo! Longa vida ao rei!
Ele?
Deus nos livre. E pensar que o ataquei.
Rebecca.
Se olhardes para as torres da preceptoria,
ireis ver a bandeira real de Inglaterra no lugar da bandeira do vosso templo.
Foi lá colocada pelo vosso rei, Ricardo Plantageneta.
Não estás a fazer conta com o vosso irmão, o Príncipe João.
O meu irmão obedece agora ao seu rei.
E quanto a vós, Reverendo Padre, estais banido deste país.
Dissolvei a vossa ordem e parti de imediato com os vossos seguidores.
Mas, senhor...
Ou preferis experimentar a estaca e o fogo?
De hoje em diante, o vosso rei deseja a proximidade entre saxões e normandos.
O que significa isto, senhora? Porque vos ajoelhais perante mim?
Pago-vos a minha dívida de gratidão que devo a Wilfred de Ivanhoe.
Perdoai o meu arrojo.
Imploro-vos que vos ergueis.
A vossa bondade e caridade para com o meu esposo compensou-nos largamente.
Podereis transmitir ao vosso esposo o meu adeus agradecido?
Estais de saída de York?
O meu pai e eu vamos deixar Inglaterra.
Vamos partir para Espanha na esperança de obter alguma protecção lá.
Mas o Ivanhoe tem a protecção do Rei Ricardo.
E, apesar de ser normando, ele é justo e generoso.
Talvez.
Mas o povo de Inglaterra é uma raça cruel,
e não é um abrigo seguro para as crianças do meu povo.
Mas certamente que vós não tendes nada a recear?
Há um fosso entre nós, senhora.
Os nossos credos proíbem-nos de atravessar esse fosso.
Mas devo dizer-vos
que a vossa cara mostra uma gentileza e bondade que irei sempre estimar.
Dou graças a Deus por deixar o Ivanhoe com alguém de tamanha bondade. Eu...
Adeus.
Que o Deus que nos fez a ambas vos abençoe.
Rebecca?
Rebecca.
Foi dito por todos que Ivanhoe e a bela Rowena
viveram felizes para sempre.
Mas é impossível não ter curiosidade
se as memórias amorosas de Rebecca
não voltaram a assolar a mente de Ivanhoe
até ao fim dos seus dias.
Tradução: Hernâni Azenha
:: Ressincronização ferneiva ::
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