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Olá, amigo.
Vais voar comigo, companheiro?
Sim.
Neste momento estou a fazer este caminho
de aprender e desafiar-me cada vez mais nas artes de voo.
O wingsuit é basicamente um fato de esquilo voador.
Tem pequenas asas entre os braços e pernas que nos permitem planar.
A forma do fato altera a velocidade descendente para velocidade horizontal.
Assim, posso atravessar o ar a 160 km por hora.
É uma sensação incrível, simplesmente abrir as asas
e planar, livre das limitações da terra.
É a evolução do voo humano.
Não sei onde vai levar,
mas é para aí que me dirijo.
IV. TRANSCENDER OS LIMITES HUMANOS
Na China, o Dean tinha chegado ao limite.
Ele acabou. Está exausto.
AMIGO DE DEAN, FOTÓGRAFO
É verdade, eu estava fodido.
A forma como ele me tratou era mesmo inaceitável.
Logo após a caminhada, o Dean aproxima-se de mim, olha para mim e diz:
"Desculpa."
E eu disse: "Porquê?"
Consigo perceber que a sua raiva para comigo fosse a sua raiva para consigo.
Porque de algum modo sentiu que se tinha vendido.
Tinha andado a afastar todas as pessoas da sua vida.
Quando voltámos aos Estados Unidos,
estava mesmo vulnerável e muito calado,
não estava com ninguém.
[NOTA DE VOZ DE DEAN]
É tarde, são 22:16. Tenho uma boa lareira de madeira.
Não quero... Só quero escapar à sociedade.
Ir para a Terra do Nunca.
Estamos a ter umas tempestades de neve enormes aqui em Yosemite.
O vale está encerrado, a eletricidade cortada.
Parte de mim só quer ser um gajo simples que
simplesmente vive sozinho com uma namorada.
Talvez, de algum modo, me seja destinado ser o mestre espiritual.
Estou tão longe disso.
Sim. O café é uma droga incrível.
Sinto todo o tipo de energia. A pensar que vem aí uma grande mudança.
ESCREVER A TODOS COM QUEM TENHO CONFLITO E DESCULPAR-ME
Sinto culpa pela forma como tratei as pessoas.
EMAILS & CARTAS PARA CURAR NEGATIVIDADE
Coisas que já fiz.
Preciso de começar a fazer tudo o que sei que está correto.
Talvez isto seja o começo.
Em 2006, eu trabalhava na Patagonia e o Dean era um dos seus embaixadores.
EX-PUBLICISTA PATAGONIA
E foi despedido por escalar o Delicate Arch.
Depois do Dean deixar a Patagonia, não soube dele durante muito tempo.
Mas uns anos mais tarde...
BEM-VINDO FEIRA INVERNO OUTDOOR RETAILER
... encontrei o Dean no Outdoor Retailer Show.
Ele viu-me. Disse: "Olá! Como estás?"
Abraçámo-nos, pusemos a conversa em dia.
E ele disse que tinha passado as passas do Algarve.
Tinha perdido amigos.
Foi muito aberto em relação a tudo.
Foi mesmo bom voltar a ver o Dean.
Então ele diz: "Como vai o teu casamento?"
Eu disse: "Está ótimo. Está tudo ótimo. Tudo bem.
Que bom ver-te, Dean."
Mais tarde, nessa noite, fiquei chateada comigo mesma por não responder a verdade.
Na realidade, não era feliz no casamento.
Estávamos a ter dificuldades como casal, mas tínhamos filhos.
E pensei que nunca sairia dessa relação.
Depois daquele encontro, eu e o Dean encontrámo-nos por acaso umas vezes
e divertíamo-nos imenso.
Tínhamos um interesse comum por cabeças de setas.
Ele mandava-me uma foto quando encontrava uma em Yosemite.
Eu mandava-lhe pedaços que encontrava em Santa Barbara.
Durante um tempo, eu e o Dean fomos só amigos.
Mas quando percebi que tínhamos sentimentos um pelo outro,
pensei: "Pronto, é hora de terminar o meu casamento."
Mas todos os indícios indicavam que era má ideia.
Eu era porta-voz
e publicista da empresa que notoriamente despediu o Dean.
Os meus amigos, sobretudo da Patagonia, diziam: "Que raio estás a fazer?
Perdeste a cabeça e deixaste o teu marido pelo Dean Potter?
Estás a arruinar a tua família, estás a arruinar a tua carreira."
Apesar disso tudo,
quando eu estava com o Dean sentia-me bem comigo mesma.
Nunca me senti tão viva.
E assim num minuto sou mãe e trabalho em Santa Barbara.
No minuto seguinte, estou numa parede de rocha com o Dean a fazer segurança,
com medo de que eu fosse morrer.
Assim mesmo.
Sim, perfeito.
- A excitação e o risco. - Bom trabalho.
Apercebi-me de que precisava disso.
Caramba, Dean.
Amo-te, fofinha.
Estávamos genuinamente apaixonados.
Naquela altura da minha vida, ainda não tinha vivenciado nada assim.
Olá, amigo. Ainda bem que não sou ciumento.
Nos seus melhores momentos, o Dean é melhor que tudo.
Portanto de repente o Dean deu por si
numa relação com alguém que tinha filhos muito novos.
E surpreendeu-me completamente.
Ele dava imenso valor às crianças.
Mostrem-me como saltar. Todos. Sim!
Pensava imenso sobre o seu papel nas vidas deles.
Boa, Roro, assim é que é!
E sobre o impacto neles.
Parabéns a você
Boa, sim.
Eu adorava trazer as crianças a Yosemite.
Leva isso na brincadeira e salta logo para cima.
Não te preocupes se caíres 20 ou 100 vezes.
Vês, este é o movimento.
Anda para trás se quiseres.
Os miúdos estavam fascinados pelo Dean.
Salta em cima.
Ele parecia-me um tipo fixe, sempre.
FILHO DE JEN
Ficávamos mesmo excitados quando vinha.
Muito bem! Boa!
Íamos fazer escalada de vez em quando.
Bom trabalho!
Íamos para lá
e ele estava sempre a tentar ensinar-nos a fazer coisas.
Até ao fim.
A forma única de amar do Dean.
Até ao próximo.
Olho para trás e lembro-me de ele dizer: "Rowan, sobe isto, sobe 7,50 metros."
"Se caíres partes as duas pernas, por isso...
por isso tem muito cuidado, mas faz."
Eu sentava-me lá em cima a chorar, mas agora em retrospetiva, acho que
o risco não tem mal nenhum. O risco é muito importante.
Não te vou tocar.
Para crescer e experimentar coisas novas.
- Sim! - Boa, Ro!
- Os miúdos adoravam-no. Era o Didi. - Temos saudades tuas.
Olá, Didi, amo-te tanto...
Acho que o meu irmão sempre desejou...
IRMÃ DE DEAN
... um lar calmo e afetuoso.
Nós não tivemos isso
por causa do divórcio dos meus pais e do stress no casamento deles.
Esse capacete é bem giro.
- O Dean sempre foi focado de um modo... - Boa, boa!
... que não deixava grande espaço para outras pessoas.
Ela vai dar-se bem na mesma.
E foi todo um processo para ele aprender a amar.
A Jen e os miúdos foram uma dádiva linda.
Mas, claro, o Dean ainda tinha as suas dificuldades.
Não era tudo sorrisos, isso é certo...
Toda a vida ele teve uma depressão gravíssima.
Não teve um percurso fácil.
Lembro-me que às vezes vinha cá e ficava desanimado.
Ficava mesmo em baixo, sim. Com uma manta por cima
e sentava-se lá por baixo o dia todo, durante dias, sentado no sofá.
Era uma pessoa diferente às vezes, disso não há dúvida.
Ele sabia que havia algo errado com o cérebro.
A MINHA ENERGIA ANDA EM BAIXO TEM SIDO ASSIM A VIDA TODA...
Havia algo quimicamente errado nele
que o fazia ter mais dificuldades do que a maioria.
E ele queria mesmo reparar isso.
Consultámos médicos ocidentais, orientais, naturopatas.
Fez uma porcaria de dieta de feijão-mungo.
O trigo dá-me gases enquanto ando.
Não queria tomar antidepressivos
porque não queria perder qualquer vantagem que a doença mental lhe dava.
Como a sua determinação, as suas ideias, as suas artes sombrias, como lhes chamava.
É que, sem a escuridão,
és só um mago assustador, não o mago negro.
Anda lá. Anda lá.
Mas nada o ajudava mais do que a Whisper.
Sim. Menina bonita.
Ela era a princesa dele.
WHISPER FAZ-ME MUITO MAIS FELIZ
Anda, Whisp.
O Dean tornou-se um verdadeiro mimoso com a Whisper.
Boa menina!
Adoramos a cadelita.
Certo, é todo teu, Whisper.
A Whisper era mesmo filha do seu pai.
Era uma idiota completa, 90% do tempo.
E a coisa mais doce, dez por cento.
A Whisper mordeu as crianças. A Whisper mordeu muitas pessoas.
Whisper. Não morde. Nada de morder.
Mas para o Dean, ela era a cadela mais leal do planeta.
E o Dean precisava de muita validação.
É uma menina bonita, bonita.
Basicamente não deixava ninguém aproximar-se do Dean.
- Era o animal de apoio emocional do Dean. - Não queremos bater.
Ele trazia o cão para todo o lado.
Anda, menina.
Bonita!
Tínhamos de escalar com a Whisper o tempo todo.
Ela foi connosco para a parede do El Cap.
Bonita!
Whisper, gostas?
A Whisper voou para a Suíça oito vezes.
Escalou o Jungfrau ligada a nós por corda. Passou por fendas no gelo.
Quando o Dean dizia: "Podemos cair numa fenda,"
ele não dizia: "É desta maneira que te salvas."
Era mais: "É assim que salvas a Whisper."
Na altura, o Dean estava superfocado no BASE jumping com wingsuit.
Isso foi radical!
Caminhávamos até um ponto de salto e, quando o Dean saltava,
a Whisper ladrava. Tentava correr atrás dele.
E ele pensava que isso era triste.
Então o Dean disse: "Se eu consigo escalar com ela,
talvez consiga fazer BASE jump com ela."
Ele dizia: "Porque não estou a saltar com a Whisper?"
E eu dizia: "Porque as pessoas não fazem isso."
Mas, pasme-se, algumas semanas depois,
demos por nós a trabalhar com um designer para criar o equipamento da Whisper.
Perfeito.
Muito bem, muito bem.
- Ela entrava, ficava bastante calma. - Gostas disso. Gostas?
Ela até adormecia.
O Dean pensava que era como um cão a meter a cabeça fora do carro numa estrada.
Eles protegem os teus olhos, não é?
És uma melhor amiguinha
muito boazinha, Whispie.
Estás pronta, doçura?
Três, dois, um. Até já.
Whisper!
Whispie!
- O vídeo tornou-se viral. - Primeiro cão a fazer BASE jumping.
A coisa toda dividiu logo opiniões.
Alguns acham incrível. Outros dizem que é cruel.
Um cão a fazer BASE-jumping tem uma grande lata? Sim, disse "pata."
Que parvalhão, este idiota do Dean Potter
a levar o cão a fazer BASE jumping.
É absolutamente horrível.
Alguém tomou essa decisão pelo cão.
Como é que ele sabe que o cão não detesta?
Mas o Dean pensava que era a melhor coisa de sempre.
Os cães, quer estejam sentados connosco no sofá,
ou a voar pelo ar a 160 km por hora,
sempre foram o melhor amigo do homem.
Ele olhava para toda a porcaria online e pensava:
"Aqui está onde podem colocar as vossas opiniões sobre mim e o meu cão."
A VOSSA OPINIÃO RETO FORMA CORRETA
Nessa altura, eu e o Dean já estávamos juntos há uns anos.
Comprámos um grande terreno em Yosemite West, no Parque Nacional.
Estávamos a limpar o terreno para construir lá a nossa primeira casa.
Nunca tinha visto o Dean tão feliz.
Havia algo que tinha mudado nele de forma fundamental.
Ele tem a Jen, os miúdos e a Whisper.
Portanto havia ali uma base.
Acho que isso foi o estabilizador de humor
de que sempre precisou de tantas formas.
Ele disse-me: "Sabes, estou a ficar mais velho.
E agora até sei umas coisas
que gostava de ter sabido lá atrás."
Anda, vem buscar.
Passei por uma vida inteira de emoções,
a pensar sobre a minha vida e sobre o que a vida realmente significa.
E certamente não é só escalar. É sentir-me feliz, ter amor.
- Olá, Dean! - Estar com a Jen e a Whisper.
- Estes são uma preciosidade. - Amigos e família.
Sim, isto é bom.
Essa é a questão, é tentar perceber como estar mais em alta.
Nem pensar!
Não todo atormentado ou deprimido.
Uau, eu tenho isso.
Tenho uma vida tão boa, é difícil entender como poderia estar em baixo.
A EXISTÊNCIA FELIZ E GRATIFICANTE DO DEAN
De certa forma, parecia que o dark wizard tinha encontrado a luz.
Sim. É lindo. Sim, pequena Whispie!
Quando conheci o Dean em 2014, para certos guardas-florestais era um diabo.
GUARDA DO PARQUE
Era um malandro.
- Mas eu também era escalador. - Tão bom.
E portanto passávamos tempo juntos a praticar bouldering.
Sim, companheiro.
O Dean e eu tornámo-nos amigos.
O Dean Potter literalmente a escalar com o chefe de pessoal em Yosemite,
a ajudá-lo a ser melhor escalador.
Isso mostra que as mentes das pessoas evoluem e amadurecem,
e a do Dean ia definitivamente nesse sentido.
Lembro-me de uma vez fazer uma jantarada em minha casa em Yosemite Valley.
O Dean veio à festa e estava lá o Alex Honnold.
Fui a um convívio de amigos e escaladores. Estavam lá o Dean e a Jen.
ESCALADOR FREE SOLO
Ela era muito mais adulta do que nós os dois
em termos de ser equilibrada e emocionalmente disponível
e assim um ser humano saudável.
Talvez ela estar lá com ele tenha despertado o melhor de nós os dois,
conseguindo simplesmente ser adultos normais e conversar.
Comemos, convivemos e foi tudo bastante simpático.
Não me senti abertamente competitivo de forma alguma.
Foi a primeira vez que me consegui ver
talvez a escalar com o Dean como parceiro.
"Vamos fazer algo juntos.
Seria divertido. Podíamos conviver e escalar."
O Dean fez uma publicação a prestar homenagem a quem o Alex era.
FINALMENTE A PASSAR ALGUM TEMPO
COM UMA INSPIRAÇÃO ETERNA DA ESCALADA @ALEXHONNOLD
Pela primeira vez, parecia que o Dean estaria pronto para passar o testemunho.
Senti que ele tinha voltado ao gosto pelas coisas.
Tinha voltado à razão por que originalmente começou tudo isto.
O Dean passava muito tempo pelas zonas remotas de Yosemite à noite,
a descer após uma escalada ou BASE jumps à tardinha.
A lua é linda, foda-se.
LUA CHEIA. NOVA LUA CHEIA. SINTO-ME UM POUCO LOUCO
Ele calculou o dia, a hora, o momento,
em que a lua ia passar por estas duas formações.
Parecia que o Dean se estava a afastar de:
"Eu vou ser o maior de sempre,
vencer os outros e realizar o próximo feito."
Agora era mais do estilo:
"Esta é simplesmente a minha autoexpressão criativa."
A forma dele de se aproximar da natureza e da sua visão inegavelmente bela.
Sempre quis voar com os corvos.
Os melhores voadores de wingsuit não passam de totós comparados com os corvos.
Bem lá no fundo, o Dean queria ser um pássaro.
E o Dean queria voar.
Está tudo diretamente relacionado com os sonhos que tinha em criança.
SONHO QUE PENAS ME BROTAM DOS BRAÇOS
No meu sonho, estou em queda livre e vêm umas criaturas ter comigo,
a gesticular para fazer como elas estão a fazer, que assim vou voar.
No voo de wingsuit, moldas o teu corpo como uma asa,
crias uma espécie de vácuo nas costas que te levanta.
Ele explorava novas possibilidades de poder voar mais longe.
Tudo se resumia essencialmente a minimizar a resistência de pressão.
O Dean contactou cientistas que estudavam o movimento das aves.
O equivalente do polegar,
que uma ave eleva para ajudar a controlar o fluxo local.
Ele olhava para as asas e para a estrutura.
... portanto utiliza o corpo para produzir alguma sustentação.
Ajudou-me a visualizar o que acontece quando estou a voar...
Asas fora do fluxo do ar.
... e o que é preciso acontecer com a evolução do wingsuit.
Boa, portanto agora o ar vai apenas fluir por ali,
sem bater em ângulos e abrandar-me.
Exatamente.
Preciso de perceber como mexer o meu corpo em sintonia com essa forma de asa.
Todas estas pequenas mudanças de ideias e de design
permitem-te levar os limites do voo humano mais longe.
Quando eu penso em como o voo de wingsuit é recente,
nestes próximos anos vai transformar-se.
Nem consigo imaginar onde irá chegar.
Ele foi para a Suíça e abriu o Heiger,
o ponto mais alto do Eiger.
Na altura era o maior salto do mundo. Quer dizer, o Dean...
BASE JUMPER
Ele é como uma criatura mitológica. O tipo tinha mesmo de voar.
Normalmente, um BASE jump demora segundos,
e agora estou quase a bater a marca de um voo de três minutos.
ABRAÇAR A INSANIDADE
Potter estabeleceu o recorde do voo mais longo em wingsuit por um ser humano.
ÍCARO O HOMEM QUE VOA
Toda a minha vida me rebelei contra o sonho,
mas comecei a perceber
que talvez não estivesse a sonhar sobre cair para a minha morte.
Talvez fosse sobre eu a voar.
Lá em Yosemite,
o Dean andava a ver todo o tipo de possibilidades para novos pontos de salto.
Este é um dos lugares
de onde quero voar há muito,
mas tenho de sair deste desfiladeiro aqui, em direção à zona arenosa de aterragem.
Em Yosemite, o Dean estava a voar
com um pequeno grupo de prestigiados wingsuit BASE jumpers.
Voo seguro, voo seguro.
Era como um momento mágico no tempo...
ESCALADOR WINGSUIT BASE JUMPER
... em que começávamos a perceber
todos os diferentes voos que podíamos fazer no vale.
Os novos wingsuits permitiam que as pessoas voassem mais perto do chão.
ESCALADOR, BASE JUMPER
Além disso, o wingsuit ajudava a não ser apanhado
porque podes aterrar muito mais longe,
os guardas podem não conseguir ver.
Parecia que quase podíamos fazer tudo o que quiséssemos.
Éramos como um monte de miúdos na loja de guloseimas.
- Havia um bom grupinho entre nós. - Estes gajos são radicais.
E foi então que o Dean conheceu o Graham.
Graham Hunt, um jovem escalador doce que apareceu no vale.
Chamo-me Graham Hunt.
ESCALADOR, WINGSUIT BASE JUMPER
Gosto de voar wingsuits, escalar rochas, fazer aventuras.
O Graham é um dos tipos mais porreiros de sempre. Ele era o mais novo na cena.
Demo-nos logo bem com o Graham.
Ele tinha um pequeno buldogue francês.
A Whisper e o seu Frenchie brincavam juntos.
A Whisper, que era completamente cética em relação a todos, adorava o Graham.
É muito difícil o Dean acolher alguém no seu círculo íntimo.
O Grambo teve entrada imediata.
O Dean respeitava o seu jeito sossegado.
O Graham ainda estava a tentar perceber a vida.
Tinha literalmente dez dólares no banco.
- O que é que fazes? - Neste momento, só trabalho braçal.
Ele trabalhava para nós no terreno.
Passava imenso tempo na nossa casa em Yosemite.
O Dean considerava-o um protegido seu.
Força, Graham. Força, força.
Incrível, Graham! É tão duro fazer isto.
Estás bem?
O Dean e o Graham começaram a fazer parceria em muitos saltos.
- Vamos a isso, mano. - A fazer todo o tipo de macacadas.
Como o primeiro voo de sempre a partir do Lost Arrow Spire.
Parecemos uns craques.
A voar sobre a cidade dos cromos, onde viviam todos os guardas.
Adoravam voar juntos. Tinham muita camaradagem.
A seguir-te.
Faziam umas viagens à Europa juntos...
- Obrigado, Graham. - De nada, meu irmão. Grande amor.
... em que saltavam de umas grandes saídas de montanha.
Eles estavam a alimentar-se da pica um do outro.
Sim, mano!
Isto é brutal, foda-se.
A dado ponto, o Graham começou a esticar a corda.
O Graham ficou muito confortável, mesmo bom, rapidamente.
Ele voava de forma decididamente agressiva.
Voo de proximidade.
No voo de proximidade, vais quase a roçar o terreno.
A voar tão perto quanto consigas por cima de rochas e entre as árvores.
Inicialmente, a maioria de nós achou: "Nunca vamos fazer voo de proximidade."
É demasiado louco.
Mas o Graham começou a ir ao extremo.
Quando voas perto de uma coisa, é como andar no carro.
As linhas amarelas junto a ti movem-se mesmo depressa.
Essa relatividade faz com que pareça, ainda mais, que estás mesmo a voar.
E agora isso tornou-se, de certa forma, na nova pica.
A seguir, olhamos para o wingsuit, o desporto mais mortal do mundo.
10 A 15 BASE JUMPERS MORTOS ANUALMENTE
Com o voo de proximidade, o número de mortos era simplesmente impressionante.
Um em cada 20 já morreram.
Espatifavam-se por todo o mundo.
ESCRITOR
E eram pessoas que o Dean conhecia.
Eu entrevistei o Dean para uma revista sobre o seu voo de wingsuit.
E ele disse-me que tinha regras que seguia e que o protegeriam.
O Dean era quem mais se opunha a qualquer tipo de voo de proximidade.
Parecia que o Dean continuava a ser muito conservador,
a voar longe da parede.
Não a voar junto ao terreno.
Voos longos que mitigassem os riscos.
Mas à medida que o Graham melhorava,
e era capaz de fazer voos cada vez mais técnicos,
e superava o Dean...
... esta mentoria pura que o Dean tinha com o Graham mudou.
Um bocado periclitante.
Acho que o Dean sentia que tinha de se manter a par do Graham.
Foi quando a natureza competitiva do Dean voltou a emergir.
Viste-me a passar por ti?
"Andas a fazer todas estas coisas brutais. Eu também consigo."
Na cabeça do Dean, a coisa começa a subir de tom.
E depois, a dado ponto, o Dean pisou o risco
e começou a praticar voo de proximidade,
chegando-se o mais perto que pudesse das coisas.
Sim, amigo. Boa.
Não sei. Há um momento nas carreiras das pessoas em que dizes:
"Ele conseguiu. Ele é bom."
Pensei que o Dean já tivesse ultrapassado isso tudo,
quando ainda são um perigo para si próprios.
Pensei: "Está protegido. Ele sabe-a toda.
Não vai ser daqueles que se espetam."
Mas no momento em que metes a competição ao barulho, passas a ser movido pelo ego.
Voas estas linhas e vais ficando cada vez mais baixo.
E pensas: "Meu Deus, mais é possível. Tudo é possível."
E é aí que te metes em sarilhos.
É um desporto tão estranho, tens de acreditar.
Tens de acreditar tanto em ti próprio.
Isto sim, é voo humano a sério, foda-se.
Mas o teu ego não é teu amigo, certo?
Intenso como a merda.
Acho que não me aproximaria muito. Sou um raio... ainda te arranco a cabeça.
Sou selvagem.
Tinha a porra das saliências mesmo em cima da cara.
Nessa primavera, o Graham fez uma viagem a Moab.
O Dean tinha-lhe falado sobre umas torres
e formações que nunca tinham sido saltadas com um wingsuit.
Mesmo no meio da linha do horizonte.
Os saltos em Moab são a partir de uma data de penhascos mais pequenos.
Portanto, tens de começar a voar para a frente depressa.
Tens de saltar dali, começar
e planar o suficiente para passar as irregularidades do terreno lá em baixo.
Certo, vamos a isto.
Força.
Força.
Porra, assim.
Se acertares no começo, consegues um voo de proximidade insano
a roçar umas enormes encostas de seixos.
- Caraças! - Meu Deus!
O Graham não sabia disto na altura,
mas o Dean queria mesmo ser o primeiro wingsuiter a abrir estes pontos de salto.
A abrir novos pontos de salto. Primeiros saltos.
Quem é que vai poder reivindicar
estes momentos e experiências pioneiras?
Meu Deus, isso é brutal.
Uma após outra, o Graham saltou de cada torre.
Fogo!
O Grambo, o matador solo e silencioso.
Missão cumprida.
Há coisas piores do que andar pelo deserto.
É melhor que um pontapé nas bolas.
O Graham voltou a Yosemite cheio de pica.
Estava tão orgulhoso, tão ansioso por partilhar isto com o seu mentor.
Mas o Dean não viu as coisas dessa forma.
O Dean disse que estava chateado por o Graham ter feito estas saídas das torres
que o Dean pensava vir a abrir primeiro.
Nunca deu a entender ao Graham
que talvez estivesse a sentir inveja ou a ser competitivo com ele.
Ele estava zangado consigo próprio por se sentir dessa forma.
Estou a ter problemas com o meu ego.
Ainda tenho muita competição dentro de mim, infelizmente.
Sinto ciúmes ou inveja,
quero ser o melhor e destacar-me sozinho,
mas isso é difícil para mim e faz com que queira dar o tudo por tudo.
A parte irónica de tudo isto é que está aqui um gajo
que por dentro viveu na escuridão durante tanto, tanto tempo.
Até cedeu a essa escuridão.
E depois consegue libertar-se, luta, esgravata, escala.
Chega finalmente a um lugar onde vai ter a paz de que precisa.
Pensas que os demónios se foram, mas estão apenas à espera.
E ele volta a ser sugado lá para dentro.
Taft Point é um miradouro majestoso.
O Graham e o Dean iam lá imenso, fazer BASE jumps de tardinha.
Há duas formas possíveis de saltar.
Se fores para a esquerda, é a rota segura.
Tens um belo voo longo até ao vale.
Mas para a direita está o Notch.
O NOTCH
O Notch é uma formação óbvia onde a aresta da crista desce.
Durante anos, a malta dizia, a gozar:
"Saberemos quando os fatos estão a ficar mesmo bons
quando conseguirmos voar através do Notch."
Vamos a isto.
Mas as competências e a tecnologia avançaram e começaram a tentar fazê-lo.
É um voo de proximidade perigoso.
O Notch era a linha mais lixada de sempre.
ESCALADOR PRO
Era perfeito ou morrias.
Se conseguisses passar por um triz,
ias a roçar por entre as rochas, com ramos de árvores a passar por ti.
Era um dos voos mais arriscados que se faziam nessa altura.
Até já.
Tens de pôr o fato a voar o mais depressa possível
e decidir se estás alto o suficiente para conseguir passar.
Se estiveres demasiado baixo,
tens de fazer uma manobra de viragem para sair dali.
Senão, vais espatifar-te.
A maioria dos voadores de wingsuit mesmo experientes
simplesmente decidiu que não valia a pena, que a margem de erro é mínima.
Uma das primeiras pessoas a voar através do Notch foi o Graham.
E esse tornou-se o próximo grande objetivo do Dean.
Acho que a mentalidade dele era tipo:
"Vou só mostrar-te que consigo voar a mesma linha que tu."
O Dean saltava sempre primeiro.
E o Graham filmava o Dean.
Vais tentar a tua sorte?
Sim, se estiver bom.
Parece mesmo bom.
Calmo e tranquilo.
Diverte-te, meu irmão.
- Pronto? - Sim.
Quando o Dean salta, ele é um tipo grande. Durante algum tempo ele afunda.
Demora uns segundos até começar a voar.
Portanto, ficava demasiado baixo para o Notch e tinha de desistir.
Mas o Graham conseguia passar por ali mesmo a raspar.
E depois até fazia um segundo notch.
O Graham tinha o talento.
Tinha a competência técnica que o Dean não tinha.
O Dean simplesmente não conseguia acompanhar.
E, em última análise, acho que aquele lado competitivo
que ele tentou controlar durante tantos anos acabou por levar a melhor.
14 DE MAIO 2015
Estava um belo dia de primavera.
O Graham apareceu para trabalhar connosco no terreno
e os rapazes decidiram que queriam fazer um BASE jump de tardinha.
Então fomos de carro até Taft.
O ambiente parecia supertranquilo
Ambos diziam:
"Está uma noite tão bonita, nem sequer nos importamos se saltamos ou não."
Não estavam fixados em passar pelo Notch a todo o custo.
Era mais: "Vamos só ver o que acontece."
O Dean e o Graham estão a preparar-se. Estão a vestir os fatos.
E nem sequer levaram uma câmara.
O Dean levava apenas o iPhone virado para trás
para filmar o Graham que seguia atrás dele.
Eu, sendo a fotógrafa, estou a tentar calcular o enquadramento.
Eles estão no ponto de saída e, sem qualquer cerimónia, saltam.
E eu percebi, "Vão tentar o Notch."
O Graham teve um começo mais rápido, sobe acima do Dean imediatamente.
O Dean não parecia estar suficientemente alto.
Ele tinha uns segundos para decidir, "Tenho a altitude necessária?
Sinto-me bem acerca disto?"
Entretanto, o Graham está na trajetória. Mas talvez veja que Dean está muito baixo,
e de repente, o Graham faz uma viragem agressiva para a esquerda.
Talvez vá à volta do Notch.
Talvez ache que não conseguem passar.
Mas o Dean continua a ir, porra.
Mesmo antes do Notch, o Graham guina de volta para a direita.
E perdi o rasto ao Graham.
Mas vi o Dean a passar pelo Notch nas minhas fotos,
era quem eu estava a seguir. "Foda-se, conseguiram."
Depois ouvi uma espécie de estoiro,
e pensei: "Merda, alguém abriu em pânico."
Abrir em pânico é quando:
"Algo correu mal, preciso de abrir o paraquedas."
E eu estou ali na bordinha
à procura de um paraquedas, e não vejo nada.
Não havia paraquedas. Pensei: "Foda-se, o que é que eu faço?"
Virei-me e comecei a correr em direção ao carro outra vez.
Estou a mandar SMS ao Dean, a telefonar-lhe,
achando que alguma coisa está mesmo errada, "Onde se meteram, porra?"
E desço até ao fundo do vale, para o nosso ponto de encontro.
Nenhum deles estava lá.
E pensei: "Foda-se, aconteceu qualquer coisa."
E comecei a correr. Corri até à base.
A subida, e pensava: "Vou encontrá-lo."
E só me lembro de gritar por ele
e pensar que provavelmente ele conseguia ouvir-me,
é tão ridículo. Claro que não podia.
E...
Ainda não... Eu sabia que algo estava muito errado,
mas nunca pensei que ele estivesse morto.
Nessa noite, pelas 22:30, ouvi alguém bater à porta. Parecia urgente.
Abri a porta e vi a Jen.
E vi logo o terror no rosto dela.
Eu sabia o que tinha acontecido, ou senti o que provavelmente tinha acontecido.
Por isso, demos o alerta do desaparecimento do Dean e do Graham.
Foi uma noite mesmo longa.
Tiveram de trazer um helicóptero.
Ainda hoje não gosto do som de um helicóptero.
A equipa de busca e salvamento avistou dois corpos com o equipamento de wingsuit.
E puderam confirmar as vítimas mortais.
Não me lembro quem me contou que...
Só me lembro de me dizerem que ambos estavam no Notch.
E estão os dois mortos.
Lembro-me de querer muito ver o Dean a vir para baixo.
E quando estava cá em baixo, queria ir vê-lo. Queria estar com ele.
E eles disseram: "Não, não está bom, Jen."
Sofreu o impacto com a cabeça.
E eu disse: "Não quero saber dessa merda. Quero ir ver o Dean."
Entro na sala e estão os dois nuns sacos pretos de nylon.
Tirei-lhe logo as merdas todas que lhe tinham posto em cima.
O corpo dele estava perfeito.
A cabeça tinha sofrido um impacto, mas não havia escoriações.
Não há a porra de nenhuns membros espetados para fora.
Quando alguém morre, a única coisa que tens é a pessoa, o corpo dela.
Por estranho que pareça, eu não queria largar o corpo dele.
Senti-me mesmo muito protetora em relação a ele.
Não queria deixá-lo ir.
Eu ia a conduzir para o Grand Canyon.
Um amigo telefonou e disse: "Já soubeste que o Dean morreu?"
Eu fiquei tipo...
Respirei fundo uma data de vezes,
mudei de direção e fui de carro para Yosemite.
Havia muitas perguntas sobre o que tinha acontecido.
Eu e um amigo descemos lá do topo para dentro do Notch.
Tive muito medo de ir lá abaixo
e de não conseguir lidar com tudo emocionalmente.
O topo de uma árvore caído logo ali.
Topo de árvore a faltar.
Havia uma única árvore de pé
que o Graham provavelmente não teria conseguido ver
devido à forma como estava posicionado.
Ele tinha feito uma grande viragem de volta por cima da posição do Dean.
E foi quando tocou na árvore e depois bateu na parede.
E descemos até mais abaixo
e vimos pequenas peças de tecido.
E depois encontrámos o sítio
onde o Dean embateu de cabeça contra a rocha.
Ele conseguiu passar através do Notch,
mas no outro lado do Notch, o terreno é muito pouco inclinado.
Estava a perder altitude tão depressa que chocou contra a placa.
Senti uma presença ali. Foi mesmo esquisito.
Nunca tinha sentido nada assim.
O Dean estava ali, a falar comigo.
E a primeira coisa que passou foi:
"Fiz merda da grossa. Diz à Jen que lamento muito."
Tipo... E foi...
... uma coisa superpresente. A voz dele clara como o dia a falar comigo.
Eu estava em Santa Cruz.
E recebi a porra daquele telefonema.
Não sabia o que fazer, então simplesmente vesti-me,
entrei no carro e dirigi-me a Yosemite.
E só chorava.
Cheguei ao vale e logo que entrei no vale,
logo que cheguei lá, começou a chover.
Começou a chover a potes e aquilo fazia sentido.
Fui até ao café. Queria ver o Dean.
E ele não estava lá.
Eu amava-o de verdade.
Alguém me enviou um SMS. "Já sabes?"
É tipo uma forma de dizer que alguém morreu.
E eu respondi: "Não, quem foi?"
E era o Dean, e lembro-me
de falar com o Jim e dizer: "Esta dói mesmo."
Esta dói de uma maneira fora do normal, porque em todas as outras mortes,
a pessoa morria resolvida, ou morria como tua amiga.
- Aqui está. - Sabes o que quero?
- Uma caixa enorme de Cheez-Its. - Cinco palitos de carne. Muito saudável.
Com o Dean, sinto-me tão desiludido por não termos conseguido fazer as pazes.
A morte dele tornou definitivo
que não haveria uma reconciliação.
- Brad, engole, meu. - Quando ele morreu...
Vou meter isso no filme.
... não falávamos há anos.
As pessoas fazem coisas na vida...
... que nem sempre são corretas. E às vezes estragamos relações.
Às vezes não fazemos a escolha certa, mas quando ficamos mais velhos...
... é a altura de fazermos as pazes.
E pensei mesmo, por muito que soubesse que ele podia morrer...
Tinha mesmo esperança que ele chegasse a esse ponto e que resolvesse as coisas.
Tudo o que teria de dizer era: "Eu perdoo-te. Tu consegues perdoar-me?"
Qualquer coisa assim.
Mas eu tenho tantas, tantas...
... tantas saudades dele.
Jim, deixa-me ouvir a tua voz. Diz qualquer coisa.
Deixa de ser coninhas.
Essa é boa.
Qual é aquele momento de que andas à procura?
Como vais saber que tens o que é preciso? Como vais saber que o tens?
Transcender os limites humanos
é aquilo que me deixa obcecado na vida.
E estou obcecado de algum modo por esta forma vistosa, em que voo.
Mas...
Vejo que se conseguisse pegar nisso e transcender, o que realmente...
O que importa mesmo...
... ódio, inveja, inseguranças,
todas as coisas negativas que te puxam para baixo na vida.
Se calhar agora mesmo estou a pensar em voar,
mas é só uma metáfora para me levar a outra coisa.
Com o poder da alma Tudo é possível
Os corpos de dois BASE jumpers foram encontrados no Parque Nacional de Yosemite
depois de um salto ilegal que correu terrivelmente mal.
O escalador mundialmente conhecido Dean Potter
e o seu amigo Graham Hunt morreram durante um voo de wingsuit em Yosemite.
IRMÃO PERDIDO EM YOSEMITE
É uma perda enorme no mundo dos desportos radicais.
ÚLTIMO VOO DOS CORVOS
Ele vivia a vida no limite, ultrapassando os limites da experiência humana.
AS MUITAS VIDAS DE POTTER
Sabes quando ele acabava o grande projeto,
subia lá para cima e simplesmente fazia aquele... rugido?
À contagem de três. Um, dois, três.
CONTINUA A VOAR DEAN
EM MEMÓRIA DE DEAN POTTER
Acho que o Dean nunca percebeu o quanto as pessoas o admiravam.
EM MEMÓRIA DE DEAN POTTER VOA LIVRE
O quanto as pessoas o amavam.
Essa manifestação de amor por parte da comunidade,
gostava que ele tivesse visto isso.
O Dean era um dançarino no limite entre a vida e a morte.
Dizem que a mortalidade é aquilo que dá à vida a sua linha mais sublime.
O Dean levou as coisas aí.
A morte de Dean é o fim de uma era.
Quem vai ser a mente criativa artística que nos vai dar a próxima loucura?
As ideias dele eram tão extremas, é como um nascer do sol.
Ilumina-te o caminho em frente.
Havia qualquer coisa de cósmico no Dean.
Ele era um génio imperfeito do caraças.
É assim que quero que as pessoas se lembrem dele.
Como alguém que deu tudo o que tinha à sua arte.
Ele pintava uma coisa deslumbrante no raio do céu.
Ele não teria querido simplesmente desaparecer, pois não?
Foi até bastante adequado que ele tivesse partido numa chama de glória.
O meu irmão dizia que a chave da felicidade está em seguir a beleza
e não o impulso de ser o melhor.
Será que ele foi sempre capaz disso?
Não.
Até ao fim, foi uma coisa com que realmente lutou.
Mas nos seus momentos mais focados,
ele sabia que era tudo sobre ouvir o nosso coração e segui-lo.
Todos nós recebemos a nossa própria mão de cartas estranha.
Mas, apesar de todas as suas lutas,
o Dean fez uma jornada magnífica e bela.
A pensar em histórias que tenho que podiam pôr as pessoas a rir, chorar,
outras a não se sentirem tão estranhas,
sabendo que um maluco como eu anda por aí a dar-lhe,
a lutar com as emoções o tempo todo, mas simplesmente a ser eu próprio.
Quando finalmente fiz free solo no El Cap,
foi quase exatamente dois anos depois de o Dean ter morrido.
Acho que teria sido espantoso falar com o Dean sobre o free solo no El Cap.
Mais que qualquer outra pessoa na Terra, ele pode apreciar o que aquilo implicou.
O Dean foi a primeira pessoa a pensar naquilo com seriedade,
e mostrou a todos nós o que é possível.
O mundo de escalada simplesmente não é o mesmo sem o Dark Wizard.
Mas de cada vez que vejo um corvo a voar, penso no Dean.
Queres sair, Whisper? Anda. Whisper, anda.
Anda, Whisper.
Depois da morte do Dean,
eu fiz muita terapia,
terapia para o trauma, e acho que me ajudou mesmo.
Uns meses depois do acidente,
lembro-me que o investigador do parque me telefonou e disse: "Certo,
temos as filmagens de volta, Jen."
Eu vou ao escritório dele e vamos ver as filmagens do telemóvel do Dean.
Obviamente, isto vai ser muito difícil.
Pronto?
Vêm-se a saltar.
O Graham voa para fora do enquadramento.
O Dean mantém a trajetória.
À medida que ele entra no Notch...
... as paredes de ambos os lados aparecem.
Um corvo aparece atrás dele mesmo antes de ele embater.
Como não podia deixar de ser, um corvo seguiu-o até à morte.
Olá.
Anda, amor.
Eu sabia que vinhas.
Toda a gente sente a tua falta.
Legendas: Sofia Coelho
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